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Revista Brasileira de Psicanálise

Print version ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál vol.45 no.3 São Paulo July/Sept. 2011

 

TRABALHOS PREMIADOS NO XXIII CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE

 

A "mágica" no setting1

 

"Magic" in the setting

 

La "magia" en el setting

 

 

Renata Martinelli Duarte

Membro provisório da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro SBPRJ

Correspondência

 

 


RESUMO

A autora relata uma experiência clínica inusitada em que a interpretação brota de um estado de devaneio e se questiona sobre a origem de tal interpretação. A partir do conceito de que o trabalho analítico ocorre quando a dupla analítica interage, criando em conjunto, para sustentar tal experiência recorre ao que Ogden denomina de terceiro analítico, resultado da interação intersubjetiva dos dois sujeitos da análise. O analista além de escutar a vivência do analisando, participa desta criação, inclusive com seu próprio devaneio. Assim como no jogo dos rabiscos de Winnicott, a construção acontece passo a passo, pela dupla analítica. O resultado dessa criação conjunta não tem como ser previsto e pode mesmo surpreender.

Palavras-chave: devaneio; intersubjetividade; terceiro analítico; jogo dos rabiscos; técnica.


ABSTRACT

The author reports an unusual clinical experience, in which interpretation stems from a state of reverie, and wonders about the origin of such an interpretation. Starting from the concept that analytic work occurs when the analytic pair interacts, creating together, she resorts to what Ogden calls the analytic third, the result of intersubjective interaction of the two subjects of the analysis, to sustain such an experience. The analyst, besides listening to the experience of the analysand, participates in this creation, with his own reverie. As with Winnicott's Squiggle game, construction takes place step by step by the analytic pair. The result of this joint creation cannot be predicted and may even be surprising.

Keywords: reverie; intersubjectivity; analytic third; squiggle game; technique.


RESUMEN

La autora relata una experiencia clínica inusitada en que la interpretación brota de un estado de devaneo y se cuestiona sobre el origen de tal interpretación. A partir del concepto de que el trabajo analítico ocurre cuando el par analítico interacciona, creando en conjunto, recurre a lo que Ogden denomina tercero analítico, resultado de la interacción intersubjetiva de los dos sujetos del análisis, para sustentar tal experiencia. El analista, además de escuchar la vivencia del analizado, participa de esta creación, inclusive con su propio devaneo. De la misma forma que en el juego de los garabatos de Winnicott, la construcción tiene lugar paso a paso. El resultado de esta creación conjunta no puede ser previsto y puede, inclusive, sorprender.

Palabras clave: devaneo; intersubjetividad; tercero analítico; juego de garabatos; técnica.


 

 

A expectativa

Quando eu tinha por volta de oito anos de idade, era comum entre as crianças conhecidas que festejássemos nossos aniversários em casa, com familiares e amigos. Havia sempre a preocupação de como entreter os convidados. Entre tantas opções como: teatro, fantoches, palhaços, gincanas, filmes... havia uma que fazia parte do sonho de qualquer aniversariante da época: o show de mágica.

Cada um de nós tinha a expectativa de ver toda a movimentação da chegada dos equipamentos à festa. Eram carregadas caixas e mais caixas e havia uma equipe, necessária para a montagem do cenário.

Crianças e adultos se acomodavam ansiosos para assistir ao show. A cortina era aberta entre aplausos, dando início ao espetáculo. Para a surpresa de muitos, quem se apresentava usando um terno brilhante e uma bela cartola era um dos homens que, anteriormente, estava ajudando na montagem de toda a parafernália do entretenimento. A partir daquele momento ele era a estrela principal. Todos os olhares se voltavam na sua direção. - "Senhoras e senhores. O mágico!"

Como aniversariante, o momento mais importante era ser convidada a participar dos truques. Eu não tinha a menor ideia do que fazer, onde ficar, de que forma pegar os objetos, mas o profissional ia me conduzindo, me guiando e de repente, quando eu dizia a palavra mágica, ele tirava um coelho da sua cartola! De onde veio o coelho? Onde ele estava escondido? Quem fez o truque? Foi o mágico quem pegou o coelho, mas fui eu quem disse a palavra certa. A minha palavra era a senha, a chave para o aparecimento do coelho. Ficávamos todos muito surpresos e mesmo que já tivéssemos assistido ao truque 500 vezes, aplaudíamos e não deixávamos de aproveitar a oportunidade para fazer carinho no bichinho, tocá-lo e verificar se ele era mesmo real.

Assim como o mágico, enquanto analista, tenho também o controle do "cenário", escolho se há divã ou sofá, por exemplo, o preço do show, o momento do início e do término do espetáculo. Sei ainda que as palavras (mágicas ou não) virão da boca do paciente e que todo o trabalho (de análise/ ou mágica) só acontecerá a partir dessas palavras. A diferença em relação ao mágico está no fato de que como analista, não sei quando "algo" vai aparecer ou "o que" vai aparecer. Assim sendo, me surpreendo junto com o paciente.

Há alguns anos, durante uma sessão com uma paciente adulta, aconteceu algo completamente novo para mim, enquanto profissional; e posso apostar que para a paciente também.

 

A Mágica

A paciente entrou sorridente como sempre, nos cumprimentamos, sentou-se e começou a falar. Quando percebi, estava fazendo um esforço enorme para escutar o que ela dizia. Tratava-se de uma senhora de pouco mais de 50 anos e que falava com muita desenvoltura. Normalmente tinha prazer em escutá-la, mas havia um discurso que teimava em se repetir: o trabalho, a casa, a empregada, o dia a dia... blá, blá, blá. Esse script não era novidade, eu já havia escutado muitas e muitas vezes. Nesse dia, ela falava sobre o desleixo consigo própria, o quanto colocava os outros em primeiro lugar e o quanto não estava se sentindo mulher. não era a primeira vez que esse assunto era abordado. Ao escutá-la mais uma vez, comecei a sentir sono e desânimo, porque tinha a sensação de que já sabia tudo o que estava sendo dito pela milésima vez. Sua voz foi ficando como um pano de fundo para meus pensamentos. Sem perceber fui me desligando do discurso da paciente. Pensei a que horas chegaria em casa e se teria trânsito... "O que mais tenho para fazer hoje? Será que daria tempo de passar no laboratório e pegar meu exame? Tenho também que buscar o resultado da mamografia..." e de repente:

- "Você está se cuidando? Sua mamografia está em dia?" Perguntei para a paciente.

- "O quê?" Ela perguntou assustada.

- "Você tem feito preventivo e mamografia?" Repeti.

Quando percebi o que havia perguntado, fiquei envergonhada. Não estava escutando o que a paciente dizia (será mesmo?) e ainda por cima a interrompi com uma pergunta sem sentido (será que é mesmo sem sentido?). Houve um silêncio tenso e ela pareceu muito constrangida. Para minha surpresa, ela abaixou o rosto e começou a chorar. Não entendi nada. Depois de alguns minutos ela disse que não estava acreditando que eu havia feito essa pergunta (mal sabia ela que eu mesma também não estava acreditando). Com o rosto molhado disse que sua mãe havia falecido em decorrência de câncer de mama e também uma tia materna. Suas duas irmãs sempre que fazem mamografia telefonam para contar o resultado satisfatório e saber de seus exames. Ela mente para ambas, dizendo que está com os exames em dia, mas na verdade há mais de seis anos não vai ao ginecologista e nem faz exame algum. Contou que nunca havia dito isso para ninguém, a não ser naquele momento, para mim. Talvez eu tenha ficado ainda mais surpresa do que a paciente. Ela deve ter pensado que eu, enquanto profissional, sabia o motivo de ter feito a pergunta, assim sendo, a mágica estaria sob meu controle. Ledo engano. Ela se surpreendeu com minha pergunta. Eu me surpreendi com sua resposta. Ambas não sabíamos, mas estava "lá", oculto, aguardando o momento de aparecer. Estava lá? Lá onde? Quem o fez aparecer?

Não posso partir do princípio de que o ponta-pé inicial desse processo foi meu. Tampouco posso afirmar que foi da paciente. Se não partiu de mim e nem dela, de onde veio? Tenho a nítida sensação de que toda a situação saiu da "cartola", igual a um mágico, quando faz aparecer objetos dos lugares mais inesperados.

O público do espetáculo de mágica desconhece a presença do objeto, até que apareça nas mãos habilidosas do profissional. Os espectadores, não sabem onde estava escondido o objeto e nem como apareceu. Assistem ao show se surpreendendo passivamente. Mas, para que tudo desse certo, alguém estaria agindo ativamente no palco. O mágico está no controle de cada movimento e sabe o que vai acontecer. Apesar das palavras mágicas serem ditas pelo "aniversariante", apenas o mágico sabe o momento exato de pedir que fossem ditas.

Voltando ao que aconteceu na sessão com minha paciente, o que há em comum com o show de mágica, é o fato de algo oculto aparecer, vir à tona. No entanto, fica uma questão: Quem tinha o controle desta situação?

Para mim, o que aconteceu durante o atendimento foi uma surpresa, assim como para a paciente. Algo inesperado surgiu. De onde veio? Como se tornou real? Enquanto analista não sabia que apareceria, e nem a paciente. Algo simplesmente se fez presente. A única certeza que tenho é a de que "palavras mágicas" foram ditas. não sei se por mim ou por ela... as palavras fizeram com que algo surgisse, algo que a surpreendeu, algo que me surpreendeu, algo inesperado, que fez muito sentido e pôde dar mais um rumo a essa análise.

 

Tentando desvendar a mágica

Nos primeiros momentos da cena de abertura de Hamlet, escuta-se um som vindo da escuridão fora dos muros do palácio. O guarda indaga, "Quem está aí?" Como um acorde dissonante inicial de uma obra musical, a pergunta, "Quem está aí?" reverbera sem resolução através de toda a obra. Poder-se-ia dizer que a mesma questão é o tema de abertura que continua sem resolução através da história da psicanálise. (Ogden, 1996, p. 11)

Fiquei agradavelmente surpresa em encontrar Ogden (1996) citando Hamlet: "Quem está aí?", e associando a psicanálise. Essa pergunta veio ao encontro de meus questionamentos anteriores: "De onde vem?", "Quem o fez aparecer?" e "Quando vai aparecer?" Recorro a esse autor em busca de respostas.

Ogden (1996) faz uma comparação da construção da dupla analítica (analisando e analista) com a relação entre o escritor e o leitor. Em ambos os casos o que acontece é uma construção conjunta. O escritor escreve o livro expondo suas ideias e o leitor lê o livro. De quem é o argumento então? É óbvio que no momento em que o livro é escrito, a ideia do texto parte do escritor, mas quando o livro for lido, o leitor passa a tomar posse da ideia exposta. Toma posse, pensa a respeito, discorda, transforma e acrescenta aos argumentos do autor, algumas conclusões e pontos de vista seus. De fato, a ideia inicial pertence ao escritor, mas quando o leitor agrega a ela as suas reflexões, a obra passa a ser uma construção conjunta, ou seja, uma interação do pensamento dos dois. O autor fica parcialmente "destruído", passará a existir na criação conjunta entre ele e o leitor. Cabe enfatizar que essa construção é única. Cada leitor absorverá o conteúdo lido de forma particular. Cada dupla fará uma construção particular, nova e singular.

A conjunção de minhas palavras e sua voz mental não representa uma forma de ventriloquia. Um evento humano muito mais complexo e interessante está em jogo. Um terceiro sujeito é criado na experiência de ler. Sujeito esse não redutível nem ao escritor nem ao leitor. A criação de um terceiro sujeito (que existe em tensão com o escritor e o leitor como sujeitos separados) é a essência da experiência de ler, e... também o núcleo da experiência psicanalítica. (Ogden, 1996, p. 1)

A exemplo do que se passa com o escritor e o leitor, a relação entre paciente e analista também acontece a partir da interação única dos dois. O trabalho analítico ocorre quando a dupla analítica interage, criando em conjunto. Lembro de Winnicott (1975) quando escreveu que a psicoterapia se realiza na sobreposição de duas áreas do brincar, a área do paciente e a área do terapeuta. Para ele, a psicoterapia acontece quando há duas pessoas "brincando juntas" e afirma que quando estiver atendendo um paciente que não é capaz de "brincar", cabe ao terapeuta trazê-lo para um estado em que seja capaz de fazê-lo.

Para Ogden (1996) o analista precisa estar sempre preparado para destruir e ser destruído pela alteridade da subjetividade do analisando. Da colisão dessas duas subjetividades, surgirá "um som", o ruído dessa destruição, e é ele que deverá ser escutado pelo analista. Analista e analisando se destroem mutuamente enquanto sujeitos separados, mas essa destruição; ou a colisão de suas subjetividades; não deve ser completa, pois "o par cairia no abismo da psicose ou do autismo" (Ogden, 1996, p. 3).

No processo da análise ao mesmo tempo em que analista e analisando destroem e são destruídos, criam e são criados mutuamente, cada um mantém seu lugar nesse trabalho.

O processo analítico que cria o analista e o analisando, é um processo no qual o analisando não é simplesmente o sujeito da investigação analítica; o analisando precisa ser ao mesmo tempo sujeito nesta investigação (ou seja, criar esta investigação), à medida que sua autoreflexão é fundamental para o trabalho da psicanálise. De modo similar, o analista não pode ser apenas o sujeito observador desse esforço, à medida que sua experiência subjetiva nesse esforço é o único caminho possível para adquirir conhecimento sobre a relação que ele está tentando entender." (Ogden, 1996, p. 3)

Uma vez definidos os lugares do analista e analisando como sujeitos, criados e criando, e sendo destruídos e destruindo, Ogden (1996) introduz um terceiro termo: um terceiro sujeito que denominou de "terceiro analítico". Ele é produzido no momento em que analista e analisando são criados. Sem o terceiro analítico, afirma não poder descrever de forma adequada o processo psicanalítico onde analista e analisando, como sujeitos da análise, criam-se mutuamente. "A natureza do terceiro termo é o que define a natureza da experiência psicanalítica e a diferencia de todos os outros acontecimentos intersubjetivos humanos" (Ogden, 1996, p. 4).

A partir do terceiro analítico, o analista participa da criação da experiência que é do passado vivo do analisando. Assim sendo, o analista não apenas escuta a experiência do analisando, mas participa da criação dela. No terceiro analítico o analista gera e vivencia a sua própria criação do passado no analisando.

Da mesma forma acontece com o analisando, que não vivencia de novo o seu passado, mas vivencia seu passado criado pela primeira vez, pelo terceiro analítico. Dessa forma, essa criação só poderia ser desta dupla, deste par analítico. É uma criação única, uma relação única, uma análise única.

O terceiro analítico sustenta e é sustentado pelo analisando e pelo analista como sujeitos separados, mas não é vivenciado pelos dois da mesma forma. Ou seja: a transferência e contratransferência refletem uma a outra, mas não são imagens especulares uma da outra.

Segundo Roudinesco e Plon (1998) o conceito de contratransferência é o conjunto de manifestações do inconsciente do analista, que estão relacionadas às transferências de cada um de seus pacientes. Acrescenta que o conceito de contratransferência, assim como sua utilização, sempre desencadeou muita polêmica dentre os psicanalistas. A partir destes conceitos a técnica do trabalho clínico passaria a incluir não só as ideias conscientes e inconscientes do paciente, mas também, as do analista.

Quando começa a fazer uso da palavra campo para se referir aos fenômenos transferenciais, Freud já tem pleno conhecimento de que o analista é parte integrante e indispensável àquela cena. Analisando e analista estão sujeitos à ação dos seus próprios inconscientes e sofrem influências mútuas, passando-se o processo analítico obrigatoriamente pela presença do outro; uma interação de duas subjetividades ocorre na cena transferencial. (Bittencourt, 1996, p. 19)

Bittencourt (1996), ao falar sobre transferência no campo, relembra Freud quando compara o "jogo de xadrez" à situação analítica. Para ela esta metáfora, segundo o modelo de campo, fica menos satisfatória já que neste jogo está definida uma finalidade, ou seja, uma intenção que não seria própria da relação transferencial. Sugere então que o "jogo dos rabiscos" de Winnicott se enquadraria melhor na ideia da transferência, uma vez que não se pode prever o resultado do jogo. Não se parte de uma estrutura pronta e tudo dependerá da participação da dupla. O jogo vai sendo construído pela dupla, e a dupla vai sendo também construída passo a passo. Ogden coloca que "o sujeito psicanalítico nunca simplesmente é; o sujeito está sempre se tornando por via de um processo de negação criativa de si mesmo" (Ogden, 1996, p. 55).

Segundo Laplanche e Pontalis (2001), após Freud, a contratransferência foi alvo de atenção crescente por parte dos psicanalistas. Isto se deve, principalmente, ao fato de que o tratamento psicanalítico era cada vez mais compreendido e descrito como uma "relação". Atualmente, há espaço para a psicanálise ser compreendida não apenas como uma "relação" entre dois sujeitos mas, como uma relação intersubjetiva entre dois sujeitos, analista e analisando, que criam e são criados reciprocamente pelo terceiro analítico.

Thomas Ogden (1996) acredita que o pensamento psicanalítico contemporâneo está chegando a um momento onde não se possa falar mais em analista e analisando como dois sujeitos separados, onde um toma o outro como objeto. Afirma também que a ideia do analista como "uma tela em branco", pronta para receber as projeções do paciente, está tendo cada vez menos espaço.

Cada vez que minha atenção consciente se deslocava, da experiência de meus próprios devaneios para o que o paciente estava dizendo... eu não estava retornando para o mesmo lugar que eu abandonara segundos ou minutos antes. Eu estava a cada instante sendo mudado pela experiência da rêverie, às vezes, de um modo quase imperceptível. (Ogden, 1996, p. 72)

Ogden (1996) usa o termo rêverie, de Bion, entendendo que não são reflexos de desatenção, absorção narcísica, conflitos emocionais mal resolvidos etc., por parte do analista, mas sim dos estados psicológicos que refletem a receptividade ativa do analista ao analisando.

 

A mágica é revelada

Em anos anteriores, eu deixaria de lado tais lapsos de atenção e me esforçava para me dedicar a dar sentido ao que o paciente estava me dizendo, já que ao voltar desses devaneios eu estou inevitavelmente um pouco atrasado em relação ao paciente. (Ogden, 1996, p. 62)

Ogden (1996) foi extremamente "acolhedor" comigo quando ao relatar uma vinheta clínica, mostrou que também teve "lapsos de atenção". Segundo suas próprias palavras, ao voltar do que chamou de "devaneio", se perguntou como seu conteúdo poderia estar relacionado ao que ocorria naquele momento entre ele e o paciente. Cabe ressaltar a sua afirmação de que teria deixado de lado esse "lapso de atenção" caso tivesse acontecido alguns anos antes; e com certeza aconteciam. Essa diferença mostra o quanto a técnica psi-canalítica vem se modificando ao longo da história. O que antes seria apenas um "lapso de atenção" ou "devaneio", atualmente além de não ser desconsiderado, é compreendido como um material que faz parte da análise. Algo "construído" pela dupla analítica, algo que diz respeito ao que está acontecendo naquele momento no campo.

Tentei descrever um pouco da maneira como minha experiência como analista (inclusive os funcionamentos subjacentes da minha mente, quase imperceptíveis e muitas vezes extremamente mundanos) é contextualizada pela experiência intersubjetiva criada pelo analista e pelo analisando. Nenhum pensamento, sentimento ou sensação pode ser considerado igual ao que era ou seria fora do contexto da intersubjetividade específica (e em contínua mudança) criada pelo analista e pelo analisando. (Ogden, 1996, p. 70)

Voltando ao fragmento da sessão clínica com minha paciente, posso agora afirmar que meu "devaneio" não aconteceu devido à minha falta de atenção ao que estava sendo dito no setting. Também não aconteceu por acaso. Os pensamentos sobre a hora em que chegaria em casa, se teria tempo de pegar o exame no laboratório e lembrar de pegar a mamografia, poderiam estar em minha mente durante o dia todo, mas não estavam. Eles só se tornaram presentes durante o atendimento dessa paciente. Entendo então que meu "devaneio" foi na verdade uma rêverie. Enquanto a paciente repetia mais uma vez sobre seu trabalho, casa, empregada e dia a dia, entremeava esse assunto falando sobre o desleixo consigo própria, como sempre colocava os outros em primeiro lugar e o quanto não estava se sentindo mulher. Enquanto ela falava, comecei a mergulhar no meu mundo interior, minha vida, os cuidados comigo, ser mulher... então me lembrei de um exame "muito feminino", a mamografia feita no dia anterior. Quando voltei desse "devaneio", trouxe como bagagem a pergunta sobre a mamografia da paciente. Naquele momento, a intersubjeti-vidade produzida entre mim e a analisanda no terceiro-analítico, teve como resultado a criação da mamografia como "objeto analítico", ou seja, algo que só tem sentido dentro do contexto da intersubjetividade deste par analítico.

O levantamento desse percurso teórico tem o objetivo de tentar "desvendar a mágica" ocorrida no setting, respondendo às perguntas: Quem fez a mágica? Quem tinha o controle da situação? De onde veio o coelho/mamografia? Como se tornou real?

Desvendei o truque! Compreendi que quem fez a mágica foi o terceiro analítico, mas não havia ninguém no controle de toda a situação. Ninguém sabia a priori o que iria acontecer, ao contrário do que ocorre com o mágico. Assim como no "jogo dos rabiscos" de Winnicott (1984), não há como prever o movimento do outro. O jogo estava sendo construído naquele momento por nós duas, no setting. O coelho/mamografia não veio de lugar nenhum, pelo simples fato de que ainda não existia como "objeto analítico". Foi criado pela intersubjetividade dos dois sujeitos da dupla analítica, no terceiro analítico e se tornou real quando a partir de minha rêverie, a paciente respondeu que não fazia exame há seis anos e que isso era um segredo.

Quando descrevi a preparação do show de mágica, incluí a chegada das muitas caixas de parafernálias necessárias para os truques. Após o cenário ficar pronto, entrava o mágico, e todos percebiam que ele também estava presente na montagem do show. O mágico estava participando ativamente de toda a preparação: carregando caixas, montando o cenário e organizando o palco. Ele não aparecia apenas no momento de fazer a mágica e tirar o coelho da cartola. Assim como atualmente, o analista participa ativamente do todo processo analítico. Ele não só escuta a experiência do analisando, mas a partir do terceiro analítico, vivencia e participa da sua própria criação do passado do analisando. A subjetividade, assim como a rêverie do analista, em vez de serem desvalorizadas (como ocorria antes), hoje são partes fundamentais no setting.

A mágica foi desvendada! Continuarei sem saber "o que" vai aparecer ou "quando" algo vai aparecer, mas já sei que não há nenhuma "cartola"! Quando algo novo surgir; uma rêverie, um objeto psicanalítico ou um evento psicanalítico, por exemplo; saberei que se trata do fruto da intersubjetividade deste par analítico, naquele exato momento, vivenciada pelo analista no terceiro analítico.

No próximo aniversário não quero mais o show de mágica. Vou me entreter durante a festa brincando com quem estiver lá e combinar a brincadeira na hora, com quem desejar brincar! Será que vai chover?

 

Referências

Bittencourt, A.M.L. (1996). O campo da transferência e da contratransferência na formação psicanalítica. SBPRJ. Boletim Científico, 12,15-27.         [ Links ]

Laplanche, J. & Pontalis, J.-B. (2001). Contratransferência. In J. Laplanche & L.-B. Pontalis, Vocabulário de psicanálise (pp. 146-147). São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

Ogden, T. (1996). Os sujeitos da psicanálise. Rio de Janeiro: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Roudinesco, E. & Plon, M. (1998). Contratransferência. In E. Roudinesco & M. Plon, Dicionário de psicanálise (pp. 133-135). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.         [ Links ]

Winnicott, W.D. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.         [ Links ]

Winnicott, W.D. (1984). Consultas terapêuticas em psiquiatria infantil. Rio de Janeiro: Imago.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Renata Martinelli Duarte
[Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro SBPRJ]
Av. das Américas, 2250, Sala 215 | Barra da Tijuca
22790-972 Rio de Janeiro, RJ
renata.martinelli.20@hotmail.com

Recebido em 3.9.2011
Aceito em 19.9.2011

 

 

1 Prêmio João Bosco Calábria.

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