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Analytica: Revista de Psicanálise

versão On-line ISSN 2316-5197

Analytica vol.9 no.16 São João del Rei jan./jun. 2020

 

RESENHAS

 

Uma trilha no jardim da metapsicologia

 

Magali Milene Silva*

Laço Analítico - Escola de Psicanálise - Brasil

 

Endereço para correspondência

 

Gomes, G. (2017). A metapsicologia de Freud (1a ed., 344 p.). São Paulo: Zagodoni.

 

O livro de Gomes, como o próprio autor o apresenta, é resultado de longo período de trabalho com os textos freudianos no delicado lugar de quem tem por proposta a transmissão. Assim, ao longo desse trabalho de fôlego, somos conduzidos cronologicamente pelos principais textos da elaboração teórica freudiana, desde suas construções primordiais sobre a histeria (1888), em que o criador da Psicanálise demarca sua posição em relação à leitura de sua época, até suas reflexões mais tardias sobre a Psicanálise, como Algumas lições elementares em Psicanálise (1938), em que reafirma veementemente a hipótese do inconsciente.

A obra de Freud traz uma constante afirmação de seu espaço epistemológico, levando-o a tomar como tema a defesa do inconsciente, em texto do final de sua vida, no qual visava a expor os fundamentos da Psicanálise. Freud já estava com a saúde muito debilitada quando se propôs a escrever um compêndio de exposição da Psicanálise. Pedro Heliodoro Tavares e Gilson Ianinni, no posfácio da tradução desse texto para a coleção das Obras Incompletas de Sigmund Freud, o intitulam de testamento inacabado. Não seria a rica e extensa obra de Freud, pela singularidade de seu campo, inerentemente inacabada? Que tipo de saber é esse que torna necessário ao seu criador, ao final de uma vida rica em trabalhos e em publicações, buscar ainda em seu último texto trabalhar as noções fundamentais? Qual a singularidade desse campo do saber em que os fundamentos precisam ser constantemente retomados, fazendo-se novos a cada retorno?

O texto do Compêndio de Psicanálise (Freud, 2014) traz um conjunto de anotações ainda esquemáticas do pai da Psicanálise, demandando um trabalho de composição para a publicação, mas mesmo assim preserva a vivacidade de sua escrita e a intensidade de sua dedicação para demarcar um solo para a Psicanálise. O último tópico escrito tem como título "O mundo interior" e, ao seu final, Freud traz uma citação de Goethe: "O que herdaste de teus ancestrais, conquista-o para fazê-lo teu" (Freud, 1938[2014], p. 177). Como não fazer dessa referência um convite aos psicanalistas?

O livro A metapsicologia de Freud encara essa proposta, buscando trazer chaves de leitura próprias para os principais textos da argumentação metapsicológica freudiana, procurando articular o texto específico com o momento da obra e com seu conjunto, e, ao mesmo tempo, respeitando a letra do autor. Então, é um livro para ser usado como apoio para uma aventura guiada pelo jardim da metapsicologia freudiana.

Ao longo de sua obra, o criador da Psicanálise parece ir compondo, por associação livre, um jardim exótico, semeando espécimes variados, que não deixam indicações das intenções do paisagista senão depois do trabalho de pesquisa, em que o admirador contribui com sua própria cota para a composição do cenário. Nesse jardim de espécies exuberantes, algumas parecem ter sido lançadas ao acaso; outras, mais parecem pragas surgidas por descuido, que insistem em interrogar a composição; estranhas. Entretanto, o cerne do jardim é exatamente seu caráter inacabado, brotos mal germinados, canteiros vazios, espaços não delimitados. Essa flora tão singular precisa ser conquistada e feita própria, restando sempre algo inédita. Não é essa a jardinagem que uma análise propõe com o inconsciente? Um retorno aos fundamentos da própria constituição, relendo-os de um modo inédito?

Assim, A metapsicologia de Freud é um livro que retoma os pilares da teoria psicanalítica, como Freud parecia considerar essencial, uma vez que faz isso em sua "despedida teórica". Como nos conta Gilberto Gomes, depois da última cirurgia a que foi submetido para combater o câncer, Freud (2014) não retoma mais a escrita do Compêndio, mas inicia um novo texto com a mesma visada, uma exposição basal da Psicanálise, intitulado Algumas lições elementares de Psicanálise, em que aparece a data de 20 de outubro de 1938. Nesse texto,

vemos o autor, ao final de sua vida e de sua obra, retomando mais uma vez essas questões fundamentais para uma ciência da vida anímica: a natureza do psíquico, as condições para o seu conhecimento científico, a insuficiência daquilo que é consciente para dar conta dos fenômenos psíquicos, a relação entre o psíquico e o orgânico e a centralidade do inconsciente na explicação do psíquico. (Gomes, 2017, p. 308)

No referido texto, Freud (2014, p. 210) propõe apresentar a Psicanálise tanto retomando os passos de sua construção quanto apresentando suas apostas dogmáticas, mas afirma:

A psicanálise tem poucas perspectivas de se tornar apreciada ou popular. Não apenas porque muitos de seus conteúdos ofendem os sentimentos de muitas pessoas; de um modo igualmente perturbador opera o fato de que nossa ciência encerra algumas suposições - não se sabe se as devemos atribuir aos pressupostos ou aos resultados de nosso trabalho - que parecem profundamente estranhas ao pensamento habitual e contradizem fundamentalmente o ponto de vista dominante.

Dessa forma, Freud é enfático ao afirmar a natureza inconsciente dos fenômenos psíquicos destacando a singularidade do modo como o pensamento inconsciente opera. O exemplo utilizado para abordar o inconsciente é o lapso, demonstrando que isso que tropeça, que equivoca, que incomoda, que estranha, traz rastros do inconsciente. Jacques Lacan (1964/1998), em seu seminário sobre os conceitos fundamentais da Psicanálise, ao tratar do inconsciente a partir da consideração da estrutura da linguagem, situa o inconsciente como o que claudica, o que rateia. Vemos, aqui, não apenas uma aproximação na defesa do inconsciente como um pensamento, mas um pensamento com uma característica muito singular de levar em seu cerne um resto inarticulável, real. Entretanto, gostaria de destacar outra semelhança, mais radical. O referido seminário marca um momento delicado no ensino de Lacan. Proibido pela International Psychoanalytical Association (IPA) de exercer funções didáticas, ele deixa o Hospital Sainte-Anne, onde por 10 anos havia ministrado seus seminários, e é acolhido, com a ajuda de Louis Althusser, na École Normale (Roudinesco, 1994). A partir desse seminário, sua obra será cada vez mais marcada por conceitos próprios. Os seminários seguintes, embora respeitem a radicalidade da aposta freudiana no inconsciente, trarão movimentos teóricos cada vez mais amplos (Fink, 1997). Os quatro conceitos fundamentais trazidos por Lacan, colhidos e trabalhados a partir do texto de Freud, prestam-lhe um tributo, embora, num movimento moebiano, tentem ir além desse. Lacan pretende-se rigoroso na definição do inconsciente, tanto que, conforme propõe Miller (1997), os quatro conceitos parecem, na verdade, quatro formas de considerar o inconsciente. Ele rompe com uma tradição de leitura de Freud, porém, nesse movimento em que inova, lança-se às bases do conceito de inconsciente, resgatando sua atualidade, retomando-o com as mais diversas ferramentas lógicas. No seminário 11, como Freud, num momento de balanço, de ruptura, que é também um momento de abertura a um novo começo, Lacan (1964/1998) escolhe retomar os fundamentos delimitando as raízes conceituais da Psicanálise. Parece bastante oportuno, portanto, retomar os fundamentos em nosso contexto cultural de valorização de discursos objetivantes, que rechaçam o sujeito do inconsciente, trazidos à luz por ditas ciências que anunciam o ideal de tudo controlar, em que a Psicanálise, como Freud previu, não é apreciada nem popular. Na contramão de atender à demanda contemporânea pelo novo e pela promessa de eliminação do mal-estar, retorno aos fundamentos implica resgatar a força subversiva da posição ética e do campo epistemológico que Freud fundou.

 

 

Referências

Fink, B. Prefácio. (1997). In R. Feldestein & B. Fink (Org.). Para ler o Seminário 11 (pp. 7-12). Rio de Janeiro: J. Zahar.         [ Links ]

Freud, S. (2014). Compêndio de Psicanálise e outros escritos inacabados (1a ed.). Belo Horizonte: Autêntica. (Obras incompletas de Sigmund Freud, 3).         [ Links ]

Lacan, J. (1964[1988]). O Seminário, livro 11. Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller (2a ed.). Rio de Janeiro: J. Zahar.         [ Links ]

Miller, J-A. (1997). Contexto e conceitos. In R. Feldestein & B. Fink (Org.). Para ler o Seminário 11 (pp. 15-28), Rio de Janeiro: J. Zahar.         [ Links ]

Roudinesco, E. (1994). Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. São Paulo: Companhia das Letras.         [ Links ]

 

Endereço para correspondência
Magali Milene Silva
E-mail: magalimilene@gmail.com

 

 

*Doutora em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Membro da Laço Analítico - Escola de Psicanálise.

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