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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437

Estud. psicanal.  n.30 Belo Horizonte ago. 2007

 

 

Fobia: cisão do eu e cegueira

 

Phobia: splitting of the ego and blindness

 

 

Maria Beatriz Jacques Ramos

Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este texto analisa um tema contemporâneo, a fobia. A fobia manifesta-se no medo, na inquietação diante de um perigo real, ou imaginário. Mostra uma dor que ameaça a desintegração do eu, que demonstra a falta de garantia, o vazio do simbólico. O medo faz parte da clínica atual, da psicopatologia cotidiana, da violência que sofremos, ou assistimos aterrorizados. O medo pode ser evitado, mas também pode ser procurado, transita entre a realidade e a fantasia. O medo, ou a fobia, nos remete a algo, a uma situação, a um objeto. A questão é como tratar a fobia a partir de um quadro clínico relacionado à neurose de angústia? Esse estudo retrata a encruzilhada do psicanalista diante das demandas atuais do mundo globalizado, multifacetado, que pode machucar e mutilar a alma humana.

Palavras-chave: Desamparo, Fobia, Medo.


ABSTRACT

This text discusses a contemporary matter: the phobia. The sole manifestation of phobia is fear, quietlessness in situations of real or imaginary danger. The phobia means the suffering that threatens the self in its defensive and symbolic aspects. The fear is present in our lives, either in the clinical practice or evoked from the urban violence that we watch or take part as victims. People can go through fear or seek for it on its transit in the line between reality and fantasy. The fear, or phobia, leads us to something, to a scenario, to an object. The question is: how to treat the phobia that arises from an anxiety neurosis? This article reports the crossed way of a shrink that faces the actual world demands; a globalized, multi-sided world that can hurt and tear the human soul apart.

Keywords: Abandonment, Phobia, Fear.


 

 

Uma breve introdução

Fobia, uma falsa conexão na qual o deslocamento desempenha a função de inibir, cercear, aprisionar o “eu”. Para Gurfinkel (2001), as fobias específicas provocam um afastamento dos estímulos e contextos provocadores de sofrimento. Lembra que a histeria pode modificar-se de acordo com o discurso social e cultural, apresentar novas modalidades através das identificações, que são o modo peculiar de comunicação desta estrutura.

Ao retomar os estudos de Freud (1926), percebe-se que na conferência Inibições, sintomas e ansiedade, ele fez uma nova reflexão sobre a angústia e passou a compreendê-la em relação às situações de perigo. As fobias corresponderiam aos sintomas de angústia inconscientemente recalcados, relacionadas às perdas, às insatisfações, ao desamparo. A angústia passa a ocupar outro lugar na teoria das neuroses.

Para Freud, nas manifestações de angústia, o sintoma mostra um processo patológico e a inibição, uma ligação com uma função que pode tornar-se um sintoma. A inibição representaria o abandono de uma função para evitar a ansiedade, de acordo com o conflito em jogo e a angústia mobilizada. A inibição restringiria alguma função do ego.

Sabe-se que a repressão se articula a partir do ego, numa recusa para associar uma pulsão provocada pelo “id”. O recalcado implica a exclusão de algo da consciência que fica sem resposta.

Em Laplanche (1998), toda angústia provém do “id” e se produz no ego. Um ego que fica dependente do ataque interno e externo. Nessa concepção, a angústia representaria um aspecto inconciliável do desejo. Angústia, do latim angor, significa aflição intensa, agonia, restrição de espaço e de tempo. Isso traduz os sintomas que emergem nos discursos dos pacientes quando se referem a opressão, ao estado crítico a que ficam submetidos nas diversas esferas de suas vidas.

Mas, o que pode originar o recalcado com tanta intensidade? Talvez, a força da pulsão agressiva dirigida ao “eu”. O espaço interno é ocupado pela identificação projetiva, inveja e voracidade. Movimentos esquizo-paranóides que levam à regressão, à dependência quase absoluta do sujeito ao sintoma, à procura do cuidado e da garantia do “outro”.

Jorge Mom (1962), autor kleiniano, abordou a fobia com base nos mecanismos de dissociação, pois essa cria e recria uma cisão do Eu, por meio da externalização dos objetos perseguidores das fantasias. Para este psicanalista, a fobia pode proteger o sujeito de situações catastróficas como defesa para evitar o fracasso da dissociação, assegurando-a e recriando-a. Os pacientes fóbicos demonstram uma impossibilidade de superar a posição depressiva pela força da posição esquizo-paranóide. Portanto, a fobia estaria construída sobre este pano de fundo.

Com esses pressupostos, pode-se pensar que a angústia vislumbrada na fobia, no medo, caracteriza os vínculos de apego e de separação do sujeito à medida que se mostra estável e persistente. Invade o simbólico e o real. Mostra a fragilidade do “eu”, do senso de si mesmo. Alude à angústia, acentua-se na evitação e no uso do outro para ancorar o vazio.

Vazio, desvitalização, sensação de estar no ar, incapacidade de enxergar, perceber o que está dentro e o que está fora. A credibilidade em si mesmo se esvai, a escassa sustentação interna tenta encontrar o que foi perdido ou o que deveria ser vivido, mas o vácuo não permite o enlace. Restam os fantasmas, a solidão, mesmo que na presença, pois a sensação é de morte. As emoções são saturadas pela catástrofe, violência, auto-flagelo.

Os estudos atuais mostram as manifestações da angústia fóbica nas dispnéias, palpitações, sudorese, tonturas, parestesias, temores difusos, insegurança entre outras tantas nuances e assombrações. A despersonalização ataca o “eu”, trava a consciência, parte o sujeito ao meio. Com Lacan, compreende-se a natureza fóbica nos conceitos de Édipo e de castração, de modo divergente dos apresentados por Freud. Segundo Gurfinkel:

Para Lacan, a fobia se instala na falta de um verdadeiro complexo de castração, e a castração não é temida, mas buscada, para que se cumpra seu papel estruturante do sujeito. A angústia, por seu lado, será por ele trabalhada enquanto a problemática do sujeito em relação à “falta”. Nesse sentido, as fobias são entendidas como uma possível solução imaginária diante da falta, e a função peculiar do objeto fobígeno é recobrir a falha da função paterna (GURFINKEL, 2001, p. 135).

Os quadros fóbicos podem variar em intensidade e qualidade, numa gama de possibilidades ora contornáveis, ora incapacitantes, na forma de inibição e necessidade contínua de asseguramento. A evitação passa a ser um modo de viver diante das situações aparentemente perigosas, cenários do deslocamento das pulsões e objetos internos representados como perigosos.

 

Algumas histórias: Calvino e Saramago

Ítalo Calvino (1996), conta uma história, uma metáfora, de um visconde que foi dividido ao meio na guerra contra os turcos ao ser alvo de um tiro de canhão. O visconde Medardo Terralba foi costurado, remendado, mas ficou pela metade. Com o passar do tempo, retornou para casa, deixando marcas por onde passava. Em todos os lugares que andava, as coisas ficavam pela metade: as aves, as frutas, as plantas, assim todos sabiam que passara por ali. Com o tempo, tornou-se um homem cruel, incendiava casas e celeiros dos pobres camponeses. Até que um dia apaixonou-se por uma jovem, Pâmela, mas esta conseguiu livrar-se de seu assédio, fugiu, escondeu-se na floresta com a ajuda do sobrinho de Medardo, pois a presença do visconde a atemorizava, não conseguia lhe dar o amor, a provisão que ele necessitava.

O surpreendente, nessa história, é a aparição da outra parte do visconde. Uma parte generosa, capaz de ajudar os doentes, livrar as crianças do perigo, alimentar os pobres. Os habitantes do vilarejo passaram a viver entre o terror e a caridade. Entre o visconde mau e o visconde bom. Até que um dia, trava-se uma luta pelo amor de Pâmela entre a parte má e a parte boa, pois ambas desejavam a mesma jovem. Dessa luta, surgiu a possibilidade de reconstruir o homem partido ao meio. Suas partes foram cuidadosamente costuradas por um médico, as vísceras, as artérias, tudo ficou combinado no corpo do pobre homem. Medardo voltou a ser inteiro, nem mau, nem bom, mas uma mistura de maldade e bondade. Conseguiu conquistar a mulher que amava e teve muitos filhos com ela, conseguiu fazer um bom governo, sem dar demais ou de menos ao povo que dele dependia.

A fobia parece denunciar esse paradoxo do “Visconde partido ao meio”. Mutila, separa, mostra o lado pior do humano e ataca, pois carrega o fardo da incompletude, da hostilidade voltada para o outro e, essencialmente, para si mesmo, bem como a procura do amor, do amparo.

A questão é como unir as partes, agregar o lado bom que parece ter-se perdido, com o lado escuro, negro, que força e maltrata o “eu”, como compreender e tratar essa dinâmica do psiquismo?

Parece que na fobia predomina o caos, a sensação de estar num beco sem saída, pois a energia despendida não leva à vida, à ligação, mas ao desligamento. Diante disso não é possível assumir responsabilidades, o outro deve servir de suporte e de sustentação ao Eu fragilizado e alienado, sem saber quem é, para onde deve ir, como encontrar uma saída? Que luta encenar, que inimigo combater, que amor resgatar?

Para Walter Trinca (2006), psicanalista que desenvolve estudos sobre a fobia e o pânico, esses quadros têm uma relação denominada, próprias da “personalidade fóbica”. São configurações dotadas de características específicas que dão origem ao medo e ao pânico. Em sua abordagem teórica salienta que:

Estabelece-se um círculo vicioso: quanto menor for o contato emocional, maior será o esvaziamento e quanto maior o esvaziamento, menor será o contato emocional. Para romper esse círculo, a pessoa terá que passar pela experiência de suportar sofrimentos, de sentir que é capaz para realizar transformações vitais e criativas. Para a personalidade fóbica, o outro exerce a função capital de funcionar por ela, substituindo-a em tudo quanto nela for mentalmente esvaziado e comprometido (TRINCA, 2006, p.62).

Mas, como realizar transformações, reconstruir os objetos internos, a própria existência diante da cegueira? A mesma cegueira dos personagens de José Saramago (1995), que vão perdendo a visão, que ficam excluídos da sociedade, pois à medida que não enxergam, perdem a liberdade, não decidem, não direcionam a própria existência, precisam ser conduzidos pelos outros, que os medicam e tratam como se tivessem uma doença contagiosa.

Esse autor conta uma história denominada “Ensaio sobre a cegueira”. Ele descreve o que acontece com um homem que, ao dirigir-se para casa, fica paralisado no trânsito, pois repentinamente nada vê. Seus olhos só percebem um clarão, uma nuvem que dissipa o “real”. Ele busca um médico para explicar o que lhe acontecia. Mas o próprio médico, depois de atendê-lo, fica cego e passa a ser cuidado pela esposa.

No transcorrer da história, um a um dos habitantes desse lugar fictício perde a visão. E os governantes determinam que sejam levados para um abrigo, pois como uma “epidemia” a cegueira espalhou-se na cidade. Com o passar dos meses, as pessoas perdem os parâmetros do tempo e do espaço, do possível e do impossível, da ordem e da desordem, tudo é desgraça. Todos os cegos movimentam-se pelo olhar da mulher, daquela que não perdeu a visão, que finge parecer-se com eles, para guiá-los. A mulher vive para abastecê-los, pois compreende que essa é a única maneira de protegê-los da escuridão, da cegueira. “O medo cega, disse uma rapariga de óculos escuros. São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos” (SARAMAGO, 1995, p. 131).

No final do livro, todos recuperam a visão. O médico tenta compreender o que aconteceu, o inexplicável e diz para sua esposa: “Queres que te diga o que penso, penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem” (SARAMAGO, 995, p. 310).

 

De volta à Psicanálise, a Cliníca Psicanalítica

A incapacidade de ver, de manter a posse de si mesmo e uma relação desprendida com o mundo exterior são os dramas que assolam a vida do fóbico, daquele que sente medo ou, pior ainda, medo da aproximação do que pode provocar medo. Perder a si mesmo, significa perder a própria imagem. Ficar apenas com as perguntas: Quem sou? Como sou? E não saber as respostas. Romper, cindir a representação e a emoção. Ausência, indiscriminação, desorganização interna, que sofrimento pode ser maior que esse?

É preciso recuperar a lucidez, resgatar os afetos, mas essas operações são difíceis, diante do que não tem nome, de um Eu que mostra a pressão do tempo, da angústia, uma angústia que retrata a história do desamparo, do pedido de apoio e amor. É a angústia de dissipação do “eu”, um “sem nome”, pois o que não pode ser pensado, não pode ser nomeado, simbolizado, transversalizado pela linguagem, pelo contato com a vida, com a palavra, com os outros. Trinca (2006) comenta:

Trata-se de uma angústia básica de inexistência, desintegração e morte; é terror em face da ameaça onipresente da morte, todavia, uma morte iminente que corresponde a rupturas com o ser e com a vida, os quais passariam ao vácuo da inexistência. A linguagem é insuficiente para descrever a emoção. O ser espalha-se, dispersa-se, dissolve-se e tende a desaparecer na inexistência (TRINCA, 2006, p. 81).

Desse modo, o fóbico fica a mercê do outro, não vive a própria vida, impossibilitado de pensar, é atacado pelo medo de desaparecer, sucumbir, ficar mergulhado no vazio das perdas. Perdas que não foram elaboradas, lutos que não foram metabolizados, mas que provocaram uma ruptura psíquica.

A incapacidade de transitar em diversos espaços mostra que as fronteiras foram perdidas. Os objetos, as ruas, os caminhos conduzem à paralisia, à desordem interna, à confusão entre o fora e o dentro. Às vezes, é possível ir, andar como um cego que acompanha e suga a visão do outro, ou andar balizado pelas referências aprendidas, caminhos repetidos, que não ameaçam a integridade do “eu” empobrecido e alienado, pois existem marcas que determinam o ponto de chegada, retratam o “eu sou”, o “quem sou”. Mas ir significa voltar. E como voltar?

O retorno pode representar um longo percurso interno, mais do que externo, nem sempre acessível, talvez quase impossível. Aí se instaura a incerteza, a vacuidade. Como seguir, sem saber voltar? Como buscar novas experiências, desafios, quando falta a confiança básica, a posse de si mesmo, a ausência de garantia? Falta o “outro” que pode resgatar a imagem, a nomeação, por que não a filiação?

São muitos os dilemas, as inquietações, os enfrentamentos. Assim como as faltas e falhas de sustentação emocional que remontam vivências infantis precárias, ou insuficientes para abastecer o reconhecimento e a representação pessoal.

Mãe e Pai, que lugares ocupam no pensamento e na emoção? Em que momento a representação da matriz parental, que ancora as demais representações, perdeu-se, ou provocou traumas, que não puderam ser reparados?

Em que momento, ou circunstância, a psicanálise contribui na compreensão e elaboração do passado? De um passado movediço, que não sustenta o presente e antecipa o futuro de retraimento e dor.

Aprender com o paciente a mitigar a fobia, compreender a angústia, perceber e associar as fontes que transbordam e trazem o medo. Talvez, isto represente o trabalho do psicanalista. A abordagem da técnica psicanalítica deve considerar os diferentes tipos de estruturas psíquicas e de comunicações do paciente de modo amplo e psicodinâmico.

A clínica traz histórias, faz refletir sobre nossas angústias e medos, como no caso Nádia. Esta paciente é casada, vive a meia idade de modo contraditório. Por vezes comporta-se como “vitoriana”, ou como uma adolescente. Procura uma paixão, um encontro com uma pessoa que nem sabe de sua existência. É uma mulher insatisfeita com a vida. Tem dois filhos adultos, um deles saiu de casa, o outro filho mora com eles (N. e o esposo) e depende da ajuda financeira dos pais.

Ela conta que teve muitas perdas, mortes de pessoas que foram significativas em sua vida. Acompanhou o sofrimento dessas pessoas, suas doenças, mal suporta suas ausências. Quase todas morreram por problemas cardíacos. Seu medo concentra-se nisso: morrer subitamente, com um enfarto, uma dor no peito da qual não se salvará. Tem medo de andar em lugares desconhecidos, sair das rotinas que estabeleceu ao longo do tempo. Não se sente feliz no casamento, mas não consegue separar-se de um relacionamento de quase 30 anos. Sonha com a liberdade, com viagens que poderia fazer, mas vive sob o imperativo dos compromissos estabelecidos em sua vida. Sente-se responsável por todos que lhe são próximos. Ajuda o esposo, os filhos, os parentes, quase todos que lhe solicitam apoio. Diz que está encurralada e usa uma expressão que aprendeu com a mãe “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Em várias sessões, utiliza ditos populares para ilustrar seus sentimentos. Não consegue separar-se dos fantasmas que foram se agregando em torno dela.

Quando precisa fazer algo, vacila, demora para decidir ou desiste, porque tem medo de andar só, ficar só. Diz que a sensação é de não poder controlar o corpo, o coração, a palpitação, a tontura, a sensação de desmaio. Os olhos parecem não enxergar o que está diante dela. Ficam turvados pelo medo. O corpo anda, mas ela não controla o mal estar que lhe invade. Usa remédios para a depressão e para o pânico. Carrega na bolsa a medicação, são como fetiches, funcionam para assegurar que vai suportar os caminhos que tem que percorrer. Sente-se prisioneira de um estado que não controla, de uma vida sem sentido, mas não vê alternativa. Tudo lhe parece difícil, impossível de realizar. Em muitos momentos, sua única segurança é estar dentro de casa. Quando acorda, agradece por ainda estar viva. Por que esta mulher impõe esse sofrimento a sua vida? Muitas vezes, penso nas razões que tem para sentir tanto medo.

Durante o tratamento, “esquece” de vir em alguma sessão, depois telefona e tenta remarcar outro horário. Ao mesmo tempo, quer uma aproximação, porém se afasta sempre que pode. Quer, mas não quer se tratar, preciso lembrá-la disto em alguns momentos.

Trinca (2006) comenta que o paciente fóbico mostra grande ambivalência, dificuldade para se comprometer com o tratamento e com as sessões. Assim como pensar sobre seus relacionamentos, suas modalidades de comunicação com aqueles que lhe cercam, pois os espaços interno e externo são ambíguos.

Falar sobre os outros e dos outros é o que Nádia faz durante a sessão. Procuro escutá-la, fazê-la pensar sobre o modo como atribui aos demais suas “mazelas”, pois na maior parte do tempo sua participação é ativa, provocadora dos acontecimentos que só lhe deixa mais infeliz, insatisfeita. Culpa o marido, a criação dos pais, a insegurança que experimentou na infância e na adolescência pela falta de referência materna e paterna, pois tinha que morar com os parentes; já que os pais não tinham condições financeiras para cuidar dela. Mas, ainda assim, aprendeu que mulher foi feita para cuidar da casa e dos filhos, fazer tudo antes do marido retornar do trabalho, para que esse a encontre pronta para serví-lo.

Penso o quanto é doloroso encarar a própria realidade psíquica, quando lembro de Nádia. Assumir, apreender, tolerar o intolerável, o que não é nominável, pois não foi experimentado. Algo ficou aberto, como um furo, uma falha que não pode ser tamponada.

Compreendo que aos poucos terei que ajudá-la a reconhecer as partes temidas em seu psiquismo. Mas, sei que é como andar num labirinto, com a sensação de que, a qualquer momento, poderá surgir um Minotauro. O labirinto parece seu cotidiano, um cotidiano de desafios, de desencontros, de caminhos que ficaram incompletos, perdidos.

O labirinto é um modo peculiar de enxergar a fobia, pois quase sempre temos, na relação com os outros, um Minotauro pela frente e um labirinto a enfrentar, mas, às vezes pode-se perder o fio do novelo, da história pessoal, o fio da vida.

Além das medicações, Nádia precisa contatar com o novelo, com a possibilidade de achar o fio da meada, a saída do labirinto. Fazer com que se aproprie de seus desejos, encare seus conflitos, fantasias, perdas. Para Trinca (2006), as defesas fóbicas são a execução da castração, são a condenação que se impõe para que o medo seja vencedor:

A angústia emerge a partir de um processo em que o paciente foi debilitando suas defesas, em função de ter aprendido paulatinamente algo fundamental: que suas defesas fóbicas estavam instaladas para defendê-lo de ameaças de castração, mas na prática e em todos os dias de sua vida eram a execução de suas verdadeiras castrações” (TRINCA, 2006, p. 30).

Seu funcionamento, baseado em tempos, distâncias, aproximações, reconhecimentos reforça o medo e a posição diante dos contextos afetivos. Saber quem é, onde está, que lugar ocupa em relação aos outros e a si mesma é fundamental.

Aprender a lidarem com os conflitos, com as regressões, paradas e progressões em relação ao que pode ou não pode fazer, não é uma tarefa fácil, pois é preciso considerar seu cotidiano, as pressões externas e expectativas que mantém e coloca em outras pessoas.

Esse é um trabalho no qual o analista está permanentemente implicado, pois lhe é delegada a função de pensar, interpretar, compreender. Mas isso tem que ser paulatinamente remetido à Nádia, para que encontre o modo de lidar com a ambivalência, com o que diz não saber. Nesse caso, é preciso conter a vontade de interpretar as dissociações, evitações e confusões que a penalizam. Do mesmo modo, é preciso tolerar sua angústia para que possa significá-la e enfrentar o que é temível em cada dia.

Aprender com o medo do outro para mensurar os parâmetros da técnica psicanalítica, aceitar e tolerar a adversidade, a fragilidade do material que é mostrado em cada encontro. Preservar a paciência de alguém que aprende, mas também mostra os meios de modelar e modular as experiências internas e externas, sustentando a identidade, suportando as contradições e conflitos, a força pulsional que tende a provocar a inércia, o desligamento, o ataque ao vínculo, a divisão do “eu”, a fragmentação da identidade pessoal.

 

Referências

CALVINO, Ítalo. O visconde partido ao meio. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade. Edição standard brasileira das obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1988, vol. 20.

GURFINKEL, Aline C. Fobia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

LAPLANCHE, Jean. A angústia (Problemáticas). São Paulo: Martins Fontes, 1998.

MOM, J. M. Consideraciones sobre el concepto de fobia em relación com algunos aspectos da la obra de Melanie Klein. Revista de Psicanálise, n° 19, 1962.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

TRINCA, Walter. A personalidade fóbica: uma aproximação psicanalítica. São Paulo: Vetor, 2006

 

 

Endereço para correspondência:
Av. Protásio Alves, 1981/309
90410-002 - Porto Alegre - RS
E-mail:mbjramos@terra.com.br

Recebido em 29/05/2007