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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.58 Belo Horizonte jul./dez. 2022  Epub 14-Fev-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n58a01 

Editorial

Editorial

Juliana Marques Caldeira Borges1 

1Vice-presidente do CBP, Diretora de Comunicação e Divulgação do CPMG


Há exatos três anos o mundo iniciava um período jamais imaginado durante o qual, em grande parte de seu tempo, as cidades retiraram de seus espaços comuns a vida que se representava pelo ir e vir dos sujeitos em liberdade. Em 2020 as pessoas que circulavam pelas ruas do planeta Terra ou estavam em trabalhos essenciais, ou negavam o perigo iminente de contaminação e possível morte pelo Coronavirus, responsável por uma pandemia mundial. Ainda vivemos reflexos desse tempo e recebemos recomendações de cuidados frente às novas variantes que a todo o momento surgem e trazem sintomas. A ciência foi fundamental para que não perdêssemos mais vidas nesses três tristes anos. A vacina salvou vidas, segue salvando, ainda que muitos continuem negando sua importância.

Nós, analistas do Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP) e de suas filiadas, fizemos uma travessia desse tempo obscuro não sem temores, dúvidas e recolhimento, mas também com coragem, amor ao trabalho, respeito aos nossos analisandos e, fundamentalmente, com a escuta de nosso desejo de analista para criarmos dispositivos que nos possibilitassem o retorno ao trabalho. Poder contar com a interlocução entre os colegas foi essencial para o atravessamento de um real só contornável com as palavras que circularam em ondas, no espaço virtual que nos aproximou mais que nunca, em apresentações de seminários, trabalhos, jornadas e congresso nas filiadas que compõem o CBP. Foi também nesse espaço virtual que não cedemos de nossa posição de analistas frente aos analisandos adultos, adolescentes e mesmo crianças, que desejaram manter conosco o percurso analítico. Não fizemos isso de modo impensado, rápido ou para tamponar a falta do atendimento presencial. Para isso, foi preciso que nos debruçássemos sobre muitos escritos, discussões, propostas que contemplavam a possibilidade do atendimento virtual para que a angústia, o medo, o luto (que se tornou presente de modo impressionante frente a tantas perdas), pudessem ser acolhidos e devidamente trabalhados, sem que nossa clínica ficasse à deriva. A falta, esta foi reconhecida. Buscar o simbólico foi o destino certo que nos coube. A revista Estudos de Psicanálise traz em seus últimos números muitos dos trabalhos que surgiram desse tempo de elaboração.

Tivemos em 2021 nosso Congresso, também de modo virtual, organizado com excelência pela filiada do CBP-Rio de Janeiro. Em 2023 teremos o retorno das filiadas de modo presencial no XXV Congresso do CBP e XLI Jornada do CPMG, organizado pelo Círculo Psicanalítico de Minas Gerais (CPMG), que ocorrerá em Belo Horizonte, no mês de setembro. Será um reencontro emocionante. Poderemos, dentro de verdadeiros abraços, aplacar a saudade que se instalou entre nós no tempo de isolamento. Iremos também nos emocionar com a ausência de quem partiu e sempre participou ativamente de nossos encontros, destacando, entre outros colegas, Isabela Santoro, vítima da covid-19 em 2021. Nesse Congresso iremos trabalhar o tema “Clínica psicanalítica ... mais, ainda”, em alguns subtemas que contemplam desde a “experiência analítica em seus desafios e impasses” à “atualidade da metapsicologia freudiana na clínica contemporânea”. Será um excelente espaço para discutirmos a teoria e a prática analítica atuais.

Foram três longos anos, os últimos. Insuportáveis, em muitos momentos. Desafiadores, sempre. Mas nossa travessia se deu porque a Pulsão de Vida assim nos permitiu, aliada à sorte, no tempo inicial, e à Ciência, posteriormente.

Não tenho como terminar minhas palavras sem citar um trecho da canção Coisa acesa, de Fausto Nilo e Moraes Moreira. Estivemos no mesmo barco e contar com os colegas do CBP nesse mar revolto fez toda a diferença para que a luz não se apagasse em nós. Agora, talvez, já possamos sorrir.

Atravessei os sete mares

E por todos os lugares

Por onde andei você me dava a vida

Foi uma dádiva da natureza

Essa coisa acesa que hoje vejo em ti

Não acredito nem que o mundo chora

Foi bonito agora

Vi você sorrir

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