Era uma vez uma psicanalista que, quis o destino, teve o privilégio de trabalhar com artistas, cientistas e outras pessoas criativas. Nesta população especial encontrou “histórias e estilos de vida” que repetiam certos padrões, que a intrigaram. Muitas das pessoas que a procuravam tinham ligação às artes.
Essa experiência acumulada fê-la encontrar, ao longo do tempo, sete padrões, que teimavam em evidenciar-se nas histórias e estilos de vida:
Muito frequentemente, aquelas pessoas não reconheciam os seus pais como modelos de autoridade ético/moral credíveis;
Este padrão relacional começava, em geral, tão precocemente quanto se lembravam;
Em geral, não recorriam ao mecanismo de defesa recalcamento;
Tendiam a ser centrados em si próprios e a estabelecer relacionamentos afectivos superficiais e flutuantes, excepto para muito raros objectos de investimento;
Esses investimentos eram geralmente objectos a que se ligavam massiva e permanentemente, por exemplo, um grande club de football ou uma banda musical;
Quase todos apresentavam perturbações explícitas no nível do funcionamento sexual;
Quase todos relatavam experiências traumáticas na sua infância.
Um dia, enquanto se interrogava sobre o significado dos escritos que um dos seus pacientes mais antigos e de difícil acesso trazia para as sessões, sentiu-se girar sobre si própria como um pião. Quando deixou de girar, estava frente a uma poltrona com um homem de barbas e cabelos grisalhos, entre um divã e uma lareira, a fumar charuto. Pareceu-lhe vagamente familiar, mas, confusa, não o reconheceu.
- Vem à procura de compreender a relação entre certos padrões comuns aos artistas e a sua ligação ao desenvolvimento psicológico, ao narcisismo e ao fenómeno traumático?
- Uhm, bem, sim, mais ou menos!
Inacreditável! Estava perante o mestre Freud e só balbuciava!
Ele continuou:
- Bem, como sabe, eu considero que que o desenvolvimento se dá através de etapas psicossexuais (FREUD, [1905] 1960). Acontecimentos disruptivos ao longo do desenvolvimento podem determinar a fixação da libido numa dessas fases (FREUD, [1923] 1960). Nas pessoas criativas que não respeitam nenhum dos pais como modelo de autoridade ética, teria sido hipotecada a resolução da triangulação edipiana, vendo-se a criança obrigada a criar sozinha o ideal do eu. Isso explicaria as características narcísicas e as dificuldades relacionais da sua amostra, bem como os sobreinvestimentos substitutivos, não lhe parece?
- Sim, sim, faz todo o sentido. Mas como relaciona tudo isso com o fenómeno traumático e tentativas de escapar aos seus efeitos nocivos?
- A propósito do fenómeno traumático penso que, quando a excitação é excessiva, pode levar a uma espécie de desligamento preventivo. Este corte da cadeia associativa impede a representação accionando medidas defensivas para religar o sistema.
- É como quando dispara o quadro eléctrico, por haver uma sobrecarga que ameaça o normal funcionamento, e, ao religar, não se ligasse o fusível associado ao perigo, e se voltasse a iluminar e abordar o fenómeno no modo de desenvolvimento anterior?
- Boa imagem! Sim, é isso. Os efeitos dessa regressão impediriam a consolidação desse último movimento associativo de crescimento, retomando o funcionamento e o recurso dos mecanismos defensivos próprios da fase anterior.
- Faz sentido; no entanto o artista funcionaria com uma maior plasticidade que lhe permitiria ligar porções do seu mundo interno através de processos vinculativos animados por Eros!
- Um! Um! Penso que os efeitos do fenómeno traumático, poderão determinar opções defensivas mais ou menos maduras. A forma mais elevada de operar esse religamento ou satisfação sexual substitutiva é a sublimação. Desde 1913 em Totem e tabu (FREUD, [1913] 1996) que considero que a sublimação não obriga mais ao recalcamento, mas considero-a antes directamente ligada à pulsão e ao self idealizado através do ideal do eu (FREUD, [1914] 1996), não implicando já a dessexualização da pulsão, mas antes a criação de um novo objecto de investimento dessexualizado (FREUD, [1915] 1996). Bom, agora, vai-me desculpar, mas tenho de regressar ao trabalho. Volte sempre que queira!
- Oh, muito obrigada. Foi muito útil.
Depois de se despedir, atónita, a psicanalista seguiu, devagar, o único caminho possível, ao longo de um corredor. Enquanto se dirigia para a saída do edifício, sem saber como, deu consigo a pensar no conceito de optimal frustration de Kohut, como fronteira associada ao trauma.
Nem de propósito, a entrar no edifício, vinha Heinz Kohut, que sorrindo diz:
- Posso dar-lhe umas dicas sobre o assunto.
- Óptimo. Agradeço sinceramente.
- Esse conceito refere-se às falhas ocasionais dos pais nas funções empáticas de amar e admirar. São decepções ou frustrações toleráveis que permitirão desenvolver estruturas internas facilitadoras de transição progressiva do sentimento do self grandioso para o de auto-estima e confiança (KOHUT, 1984).
Considero que desde o princípio de vida os seres humanos precisam de afecto, empatia e comunicação. Se ambos os progenitores falham nessas funções reguladoras, provocando disrupções acima do nível de tolerância da optimal frustration, comparáveis ao conceito freudiano de trauma, a criança será obrigada a recorrer a estruturas defensivas compensatórias inadaptadas (KOHUT, 1977).
- Essa parte interessa-me, pois relacionase com a questão do não reconhecimento dos progenitores como figuras de autoridade ética/moral e o fraco investimento afectivo. Podemos considerar que a função dos self objects primários falhou, obrigando o sujeito a criar por si só objectos substitutivos, provavelmente intoxicados por um self grandioso arcaico?
- Exacto. Quando o incidente disruptivo se dá num período pré-edipiano inicial, haverá uma disrupção severa na capacidade da mente se expandir e restaurar o narcisismo; se for no período pré-edipiano tardio haverá uma tendência sexualizante que surgirá como mecanismo de compensação para as necessidades narcísicas insatisfeitas, e se ocorrer no período edipiano haverá lugar a estratégias de procura constante de aprovação e admiração dos outros, assim como de objectos a idealizar (KOHUT, 1985). Mas agora, desculpe, mas vou ter de me ausentar. Estarei por aqui quando me quiser encontrar.
- Até breve, então.
Saiu do edifício para uma grande praça iluminada por um sol radiante que a cegou momentaneamente. De tal modo que, quando se dirigia para uma sombra a fim de decidir o caminho a tomar, tropeçou em alguém, desequilibrando-se e quase caindo. O desconhecido amparou-a e comentou:
- Este sol cega-nos completamente. Sidney Blatt. Muito prazer. Tenho-a visto a investigar a relação entre certos padrões que encontrou nos seus artistas e a sua ligação ao desenvolvimento psicológico, ao narcisismo e ao fenómeno traumático. Se tiver uns minutos...
- Peço desculpa, mas não via mesmo nada à frente. Muito prazer! E então, o que me diz?
- Na minha perspectiva o desenvolvimento da personalidade implica uma interacção entre dois eixos ou processos fundamentais, ou entre as tarefas que delimitam essas linhas: o estabelecimento de relações interpessoais cada vez mais maduras, estáveis e duradouras (eixo do relacionamento ou anaclítico) e o estabelecimento de uma identidade ou de um sentido do self como consolidado, diferenciado e integrado (eixo de auto-definição ou introjectivo), que, no final do desenvolvimento, se integram num sentido de self na relação (BLATT; SHICHMAN, 1983; BLATT, 1990).
A configuração anaclítica é sobretudo orientada para o objecto, focando-se preferencialmente em afectos, procurando confiança e bem-estar nas relações, recorrendo sobretudo a mecanismos defensivos de tipo evitante (recalcamento e negação).
Ao contrário, a configuração introjectiva enfatiza a análise, valorizando a lógica, a assertividade e o prestígio, pelo desejo básico de ser reconhecido e admirado, usando preferencialmente mecanismos de defesa de tipo neutralizante (projecção, intelectualiza-ção, formação reactiva, sobrevalorização ou isolamento do afecto) (BLATT; SHICHMAN, 1983; BLATT, 1990, 1995).
Experiências traumáticas acumuladas, como perturbações das relações da criança com as figuras significativas, em associação com predisposições biológicas, poderão levar o individuo a desenvolver sintomas psicopatológicos, que considero manobras ou tentativas compensatórias e distorções do desenvolvimento normal. Essas formas psicopatológicas podem representar um recurso excessivo às tarefas de uma linha e o evitamento defensivo das tarefas da outra, de acordo com o tipo de experiência disruptiva, e podem ocorrer em vários níveis de desenvolvimento (BLATT; SHICHMAN, 1983; BLATT, 1990, 1991, 1995).
A minha experiência diz-me que, embora se encontrem com frequência pacientes com características em ambas as configurações, os quadros psicopatológicos organizam-se sobretudo à volta de uma dessas duas configurações, ao longo do espectro continuo que vai da saúde à psicopatologia, sendo possível o sujeito fazer uma síntese integrativa de mecanismos defensivos mais ou menos evoluídos das duas configurações. Nesse sentido, a sublimação, como exemplo da integração dos dois eixos, pode ser considerada como produzindo uma resposta socialmente ajustada (dimensão anaclítica) e satisfatória para o próprio (dimensão introjectiva) (BLATT, 2008).
As últimas palavras já mal as ouvira, como se se distanciasse, sugada por um qualquer buraco negro do espaço. Anoitecera repentinamente cobrindo-lhe a visão para dentro e para fora de si.
Sentiu-se num gigante tubo de aspirador até ser despejada entre as estrelas. Leve e sem tónus, como o gigante balão de Alice que vira recentemente na feira. Estava no espaço celestial. Assim o confirmavam os planetas à volta do rei Sol, entre os quais a Terra.
Girando à volta do Sol e à volta de si própria, transformando-se lenta e harmoniosamente através dos seus movimentos complementares, a Terra desvelou-lhe uma parte do que procurava imaginar.
No movimento de rotação, linha da autodefinição ou da separação, o sujeito gira à volta de si próprio, constituindo o lugar onde olha para dentro de si (dimensão introjectiva da personalidade) e onde se desenvolve ou adoece o seu narcisismo, consoante a experiência relacional da translacção.
No movimento de translacção, linha do relacionamento ou da vinculação, o eixo é desenvolvido à volta do Sol, matriz relacional, intensidade do afecto, através de um objecto único (Sol) numa fase inicial de desenvolvimento, que progressivamente dará lugar a uma cada vez mais complexa multiplicidade de relações.
A nossa amiga Curiosa, entusiasmada com a feliz visão espacial, não parava de conjecturar. O fenómeno traumático também se podia olhar do espaço.
Os fenómenos traumáticos, tais como as perturbações disruptivas das relações da criança com as figuras significativas, teriam um impacto semelhante ao de um meteoro contra a crosta.
Como o fenómeno traumático não pode ser mentalmente representado, as áreas abrangidas teriam de permanecer soterradas no inconsciente, como rochas coesas, que assim se manteriam até que pudessem ser progressivamente transformadas pela influência de Eros, recorrendo preferencialmente a mecanismos defensivos desconectados da representação do fenómeno.
A este propósito, recordou alguns estudos que tentaram relacionar estilos de defesa e criatividade. Pareceu-lhe relevante a confirmação de que os mais criativos não recorriam ao recalcamento mas complementarmente, a uma ampla gama de outros mecanismos de todos os níveis de funcionamento, desde os mais primitivos aos mais maduros, principalmente a sublimação (CRAMER, 1987, CULBERTSON, 1995, DOMINO; AL, 2002, ELA; SLADE, 2005, GOERTZEL; GOERTZEL,1962, MIOTTO, 2005, OGAWA; AL, 1997, VAILLANT, 1971; 1986; 1993, WALLER; AL, 1996, WEINE, 1996, THOMSON; AL 2009).
Articulando a diversidade das defesas, frequentemente usadas, com excepção do recalcamento, com a falência parental que obriga à criação do seu próprio ideal do eu, hipotecando a interiorização da interdição, Curiosa considera que poderão resultar dificuldades de regulação da libido, que poderiam justificar as queixas de ordem sexual dos seus “artistas”. Não deixou de o relacionar com o nível de funcionamento borderline, associado ao período pré-edipiano tardio e à tendência sexualizante, a que KOHUT se referiria.
Por outro lado, a ideia de Blatt (2008) de que o recurso ao mecanismo de defesa sublimação poderia resultar numa resposta mais ou menos integrada de autossatisfação (dimensão introjetiva) e aceitação social (dimensão anaclítico), fê-la pensar que quando o acto criativo tendesse mais para o polo introjectivo, seria um movimento de satisfação da pulsão deslocada (não dessexualizado) ao serviço do ideal do eu, e, quando tendesse para o polo anaclítico, corresponderia a uma manobra de sedução para conquistar a aprovação social (com dessexualização da pulsão, segundo pensava).
Por esse motivo, a psicanalista Curiosa concluía que provavelmente não se poderia falar de um só tipo de sublimação, mas de três, a sublimação de tipo introjectivo, a de tipo anaclítico e a de tipo misto, consoante a predominância da linha de autodefinição, da de relacionamento ou da mistura das duas linhas de desenvolvimento.
Curiosa acreditava que as pessoas criativas possuíam, originalmente, uma necessidade primária de se expressarem, mais associada à sublimação introjectiva.
Continua pensando que a expressão artística poderia ser uma espécie de ligação criativa, não associada ainda ao pensamento reflexivo.
Teria lugar no nível imediatamente inferior ao pensamento reflexivo, sendo um tipo de vínculo que ligaria diferentes materiais inconscientes num produto artístico final, sem se transformar num pensamento. Este processo associativo da cadeia simbólica seria mais consciente do que um sonho, mas ainda não pensável.
Na sua opinião, parecia haver uma predisposição criativa inata. Dependendo do código genético, estaria mais presente numas pessoas do que noutras, associada a maior dinâmica da expressão de Eros, podendo ser mais ou menos desenvolvida consoante as oportunidades oferecidas pela vida.
Imagina que, quando o corpo e/ou a mente são expostos a condições desfavoráveis, esta predisposição seria hiperestimulada e desenvolver-se-ia em compensação ao fenómeno traumático. Desta forma, poder-se-ia ver o evento traumático como um dos fenómenos que poderiam intensificar a predisposição artística inicial do sujeito.
Curiosa estava mesmo contente com estes pensamentos. Percebia assim que os caminhos com origem no fenómeno traumático podiam ter vários destinos, alcançados por meios e acessos muito díspares. O destino patológico, marcado por tentativas de restaurar o equilíbrio e a ordem interna impedindo a livre expressão de desejos perigosos, por caminhos conhecidos e seguros, ou os destinos criativos, marcados pela liberdade de escolha, do percurso a fazer, ao acaso, por trilhos, desvios e escapatórias de emergência, sempre em transformação. Imaginava que esta perspectiva podia enriquecer amplamente as abordagens psicoterapêuticas e a sua eficácia. Esta caminhada tinha-lhe mostrado ainda que, como há muito intuía, existe complementaridade entre a perspectiva pulsional e a perspectiva objectai acrescentando sentido à rede sempre em expansão do pensamento psicanalítico.
Enquanto pensava tudo isto, sentiu descair pesadamente a sua mão direita, donde saltou um papel, mal dobrado, que caiu ao chão. Reconheceu-o quando o apanhou e desdobrou; era um daqueles escritos, que o seu paciente, de longa data, lhe começara a trazer, há algum tempo, para lhe falar do afecto que não conseguia verbalizar. Não resistiu a lê-lo, mais uma vez.
Quanto tempo consegues aguentar uma mentira
Sem deixar que ela te fira
Quanto tempo consegues ficar aprisionado pelo medo
Sem seres apontado a dedo
Quanto tempo consegues ficar em silêncio
Sem te sentires sufocado
E pareceres mal educado
Quanto tempo consegues ficar sozinho
Sem te sentires pequenino
Quanto tempo consegues viver sem amor
Sem sentir a grande dor
Quanto tempo consegues olhar para ti
Sem ver o que vai por dentro
Mesmo que isso pertença a outro tempo
Quanto tempo consegues enganar a alma
E trair o coração
Que conheces como a palma da mão
Sê livre e verdadeiro
É a única maneira de seres inteiro!