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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.58 Belo Horizonte jul./dez. 2022  Epub 14-Fev-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n58a06 

ARTIGOS

O vazio avassalador: a função desobjetalizante num quadro de melancolia

The overwhelming emptiness: the deobjedifying function in a melancholia setting

Márcia Alves da Rocha1 

1Bacharel em comunicação social. MBA pela Fundação Getúlio Vargas. Pós-graduada em gestão e recursos humanos pela PUC-RJ. Psicanalista e membro efetivo do Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro (CBP-RJ), filiado ao Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP) e à International Federation of Psychoanalytic Societies (IFPS). Professora do curso de formação psicanalítica do Centro de Estudos Antonio Franco Ribeiro da Silva do CBP-RJ. Supervisora clínica dos candidatos em formação no Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro (CBP-RJ). Integrante do Grupo de Trabalho sobre Neo e Transexualidades (GTNTrans) do CBP-RJ. Integrante do Núcleo de Estudos Psicanalíticos da Infância (NEPsI) do CBP-RJ. Coautora do livro Transexualidades: reflexões psicanalíticas sobre gênero e Édipo. Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF). E-mail: marcia_a_rocha@hotmail.com


Resumo

O artigo apresenta fragmentos clínicos do atendimento de uma paciente com marcados traços de melancolia, suas nuances de culpa inconsciente e suas impossibilidades de simbolização. Para refietir sobre o caso, o texto traz à tona as postulações de André Green acerca da função desobjetalizante e do narcisismo negativo. O objeto que não se deixa apagar ocupa o espaço psíquico que deveria ficar vazio para que o desejo e o ego do bebê possam se estruturar. Isto ocorre quando o trabalho do negativo fracassou em sua função de negativação do objeto primário. Considerando que o sujeito melancólico experimenta a perda do objeto como uma perda de si, refletimos também sobre a suportabilidade do estado de desamparo presente no masoquismo erógeno primário, o que nos leva às pontuações de Rosenberg acerca do masoquismo mortífero e do masoquismo guardião da vida.

Palavras-chave Função objetalizante/desobjetalizante; Masoquismo mortífero/guardião da vida; Melancolia; Narcisismo negativo; Trabalho do negativo

Abstract

The paper presents some clinical fragments of a patient with marked traces of melancholia, nuances of unconscious guilt and impossibilities of symbolization. We bring up André Green’s postulations about the deobjectifying function and negative narcissism. The object that cannot be erased occupies the psychic space that should be left empty so that the baby’s desire and ego can be structured. This occurs when the work of the negative has failed in its function of negating the primary object. Considering that the melancholic subject experiences the loss of the object as a loss of himself we will also think about the be arability of the state of helplessness present in primary erogenous masochism, which leads us to Rosenberg’s scores about deadly masochism and life-preserving masochism.

Keywords Objectifying/deobjectifying function; Deadly masochism/life-preserving masochism; Melancholia; Negative narcissism; Work of the negative

Introdução: Green e a função objetalizante/desobjetalizante

Desde o Projeto para uma psicologia científica,Freud ([1895] 1996) sempre concebeu a dor mental como desprazer, ancorando-a ao princípio de constância e a outros conceitos que reduziam a finalidade da vida mental à redução de tensões. Em seu primeiro modelo da psique humana, o grande princípio econômico era o princípio de prazer, que consistia na redução das tensões. Mas a observação clínica lhe mostrava cada vez mais que os fenômenos clínicos não se enquadravam na simples obtenção de prazer e evitação da dor, tampouco na satisfação de desejos. A partir de 1920, na virada da segunda tópica, Freud segue sua trilha de pensamentos numa direção que o leva a postular o conceito da pulsão de morte, propondo que existe um princípio econômico mais primitivo, um princípio que estaria “além” do princípio de prazer, regendo a compulsão à repetição.

Green (1988), por sua vez, vai propor que, embora consideremos as pulsões como entidades primeiras, precisamos admitir a importância do objeto como o revelador das pulsões. Para o autor, o objeto não cria as pulsões, mas é a condição para que elas existam. O bebê, em sua onipotência, alucina ter criado o objeto. Então, podemos pensar que em parte o objeto é criado pelas pulsões, mas, ao mesmo tempo, as pulsões precisam de um objeto que as revele. Com isso, Green propõe que a meta essencial das pulsões de vida é garantir uma função objetalizante. Isso não significa apenas dizer que o papel da pulsão de vida é criar uma relação com o objeto (seja interno, seja externo), mas que ela se revele capaz de transformar estruturas de objeto, mesmo quando o objeto não está mais em questão.

Criar estruturas de objeto significa ter um investimento significativo em tudo aquilo que tem - ou não - as propriedades e os atributos do objeto. O eu pode, portanto, ser o alvo de um desses investimentos significativos, sendo alçado à categoria de objeto do próprio sujeito. No limite, podemos pensar que o próprio investimento é objetalizado. Green nos diz que o mais importante nas teorias das relações objetais deve ser não o objeto por si só, mas sim a função objetalizante.

Se, por um lado, a meta da pulsão de vida é a função objetalizante, por outro lado, Green vai argumentar que a meta da pulsão de morte é realizar ao máximo uma função desobjetalizante. Na função desobjetalizante, não é somente o objeto que é atacado, mas também todos os seus substitutos, inclusive o eu (ou seja, o próprio investimento que recebeu o processo de objetalização). Para Green, portanto, a manifestação própria à destrutividade da pulsão de morte é o desinvestimento do objeto, que pode ser um objeto externo, um objeto interno, ou até mesmo o próprio eu do sujeito.

Tudo isso levou Green a defender a hipótese de um narcisismo negativo, um desinvestimento no eu, que tem como aspiração ao nível zero. A título de exemplo, Green aponta que a função desobjetalizante pode ser percebida como dominante nos quadros clínicos de melancolia, autismo, psicose crônica e em alguns quadros psicossomáticos.

Para Green (2008), 2010), o objeto precisa se deixar ser apagado pelo sujeito, a isso ele chamou de negatividade positiva. O objeto não pode ser presente demais, nem ausente demais; precisa ser suficientemente bom, falhar na medida certa, pois o objeto que não se deixa apagar (negativar) se transforma num objeto absolutamente necessário, num objeto absoluto. O objeto excessivamente presente não consegue ser introjetado como estrutura, ocupa permanentemente o espaço psíquico que deveria ficar vazio para que o desejo e o ego do bebê possam se estruturar. Assim, o objeto absoluto deixa de ser quem contém a pulsão e ao invés de torná-la tolerável, a torna inassimilável. Isso ocorre quando o trabalho do negativo fracassou em sua função de negativação do objeto primário. Nesses casos, o sujeito fica num looping de esforço contínuo de tentar se separar do objeto.

A partir dos referenciais teóricos listados acima, apresento a seguir fragmentos de uma análise em que as desintrincações pulsionais se mostram de forma bastante marcada. Refletiremos o caso tomando como ponto de partida as postulações de André Green acerca da importância do trabalho do negativo como uma tentativa legítima de existência psíquica. Ao refletir sobre o caráter desobjetalizante da pulsão de morte presente nos casos de melancolia, passaremos também pelas postulações de Benno Rosenberg acerca do masoquismo mortífero e do masoquismo guardião da vida.

Fragmento clínico: o vazio avassalador e uma devastadora culpa inconsciente

Em uma das passagens de O ego e o id,Freud ([1923)] 1996) pondera sobre um poderoso e inconsciente sentimento de culpa possível de ser detectado em alguns criminosos, antes mesmo que pratiquem seu primeiro crime. Freud nos diz que é como se fosse um alívio poder ligar esse sentimento inconsciente de culpa a algo real e imediato. A paciente que ilustra os fragmentos que apresento a seguir, me faz muito lembrar tal passagem freudiana.

Luciene, 30 anos, chega a meu consultório falando muito pouco. Permeando suas poucas palavras, muitas lágrimas e um vazio silenciosamente avassalador. Ao longo das sessões, em seus poucos relatos, fala de uma tristeza que acredita sentir desde criança, de episódios de traição do marido e em retornar a sua terra natal, para ficar ao lado de sua mãe - e deixar de ser tão triste. Contame também, com muita dificuldade em conectar-se aos seus sentimentos, que se sente “sem paciência” com o marido, com os afazeres domésticos, com seu trabalho, com a vida. Gostaria de sumir, desaparecer, morrer. Seu temor católico a Deus já a impedira de se atirar na frente de um carro por duas vezes, me diz ela.

Sinto em Luciene uma apatia paralisante. Uma impossibilidade de desejar. Nem mesmo quando fala sobre retornar à terra natal, não o menciona como um desejo que aspira realizar. Nossos encontros são acompanhados pelo vazio de seu olhar. Paradoxalmente, um vazio que me convoca de forma demandante, um clamor por uma existência, por uma constituição egoica, por pulsão de vida.

Com cem por cento de assiduidade nas sessões, Luciene raramente atrasava, mas nunca atrasos superiores a dois ou três minutos. Mas quando isso ocorria, chegava muito envergonhada, sentia-se muito culpada por estar “muito atrasada”. Certa vez, percebeu que a campainha do consultório não estava funcionando e não bateu à porta, não me ligou nem passou mensagem. Ficou parada em frente ao consultório, por 10 minutos, até ouvir meus passos no interior da sala, quando então se sentiu menos culpada em me passar uma mensagem falando que estava do outro lado da porta.

Embora não se dê conta, o sentimento de culpa inconsciente de Luciene é algo que permeia seus dias. Sessão após sessão, Luciene se queixa (ainda que com pouquíssimas palavras) das noites em que seu marido não retorna do trabalho para casa e do seu receio de novas traições. Sente-se culpada por ele tê-la traído. E ainda mais culpada por não conseguir perdoá-lo. Também sente culpa por estar longe da mãe. Apesar de morarem muito distante, e ela ficar anos seguidos sem visitar a família, diz que se um dia sua mãe morrer não sabe como conseguirá seguir a vida. Sente-se feia, magra demais e culpada por não conseguir se alimentar melhor. Come por obrigação, para não morrer.

O objeto que não se deixa apagar e o narcisismo negativo presente na melancolia

Karl Abraham - num ensaio escrito em 1911 e complementado em 1924 - faz uma analogia com a baixa autoestima e autorrecriminação de seus pacientes, associando tais sentimentos a uma negação da vida. Tal negação seria uma resposta aos conflitos ambivalentes em sua forma mais primitiva, ainda no estado fusionai com a mãe. Abraham classifica que, quando não há êxito na sublimação dos instintos hostis direcionados ao objeto, o sujeito desenvolve um estado de depressão melancólico como saída psíquica, para lidar com as tendências sádico anais que visam a destruir e expelir o objeto.

[...] a tendência em abandonar o objeto de amor tem sua origem na fixação da libido na fase anterior do nível sádico anal. Entretanto, se descobrirmos que o melancólico se inclina a abandonar essa posição em favor de uma ainda mais primitiva, ou seja, o nível oral, temos então de supor que existem certos pontos de fixação em seu desenvolvimento libidinal que datam da época em que sua vida instintiva se achava ainda centrada principalmente na zona oral (ABRAHAM, 1970 [1924], p. 108).

Vale destacar que Abraham fala do desligamento da libido do mundo externo não a partir da predominância das pulsões agressivas que acabam desembocando numa ambivalência insolúvel, e sim de um desapontamento sofrido por parte do objeto na fase oral pré-ambivalente. Daí viria uma severidade superegoica e uma culpa mordaz pela incapacidade de reintegrar o objeto. Ainda no ensaio de 1924, Abraham cita que uma grave lesão ao narcisismo infantil, produzida por sucessivos desapontamentos amorosos, antes mesmo de os desejos edipianos serem superados, o levaram a concluir que:

[...] a psicogênese da melancolia se acha estreitamente vinculada com os desapontamentos ocorridos no início da vida do paciente, [...] todos os seus desapontamentos subsequentes derivam sua importância do fato de serem repetições do original, toda a soma de sua ira encontra-se, em última análise, dirigida contra uma única pessoa (ABRAHAM, 1970 [1924], p. 108).

Abraham destaca que acredita não haver dúvidas de que a depressão melancólica é provocada por um desapontamento com o objeto. Cita, ainda, que um autoamor e um auto-ódio, assim como uma superestimação e uma subestimação do ego, seriam manifestações de um narcisismo positivo e um narcisismo negativo.

Green (2022), por sua vez, afirma que devemos a Abraham algumas das intuições mais importantes sobre a temática da melancolia, pontuando que:

As ocorrências da pulsão de morte se manifestam muito além do princípio de prazer, onde a morte, tanto a de outrem como a do próprio sujeito, é barrada apenas insuficientemente por um psiquismo “esburacado” (GREEN, 2022, p. 120).

Ao afirmar que não se deve defender a ideia de uma função autodestrutiva que se exprima de forma espontânea e automática, Green aprofunda-se em conceitos que o levam à compreensão do papel tanto da libidinização quanto da destrutividade, a partir das nuances existentes na relação entre pulsão e objeto. Green vai nos dizer que a função intrínseca do objeto é paradoxal: o objeto está lá para estimular, despertar a pulsão, mas ao mesmo tempo contê-la.

Quando o objeto não chega a se fazer esquecer, algo se desvia em sua função de objeto. Citando Winnicott, Green lembra o fundamental papel da mãe suficientemente boa, falível, na constituição da subjetividade. Quando a relação com o objeto é internalizada, o “sim” e o “não” são introjetados. Mas quando o objeto - absolutamente necessário à elaboração da estrutura psíquica - não se apaga, esse excesso da presença (ainda que excesso pela falta) do objeto não dá luz à representação. Em resumo, para poder dizer sim a si mesmo, é preciso poder dizer não ao objeto.

É essencial para a construção do Eu do bebê que lhe permita dizer sim a si mesmo, que a mãe aceite que ele possa lhe dizer não. Não somente sob a forma de ‘Você é má’, mas às vezes também, ‘Você não existe’ (GREEN, 2010 [1986], p. 292).

Para Green, mesmo que se apresentem as pulsões como entidades primeiras, é preciso admitir que o objeto é o revelador das pulsões, é condição para que elas existam. Ele sugere a hipótese de que o objetivo essencial da pulsão de vida é assegurar uma função objetalizante, enquanto a pulsão de morte tem como objetivo a função desobjetalizante, pelo desligamento. É a partir da negativação do excesso que Green trabalha as noções de presença excessiva do objeto e da ausência excessiva do objeto, impondo-se, a seu modo de ver, a negativação desses excessos em busca de um novo equilíbrio. Esse caminhar teórico o leva a aprofundar-se na hipótese de um narcisismo negativo.

O narcisismo é um investimento no eu como objeto, é o próprio investimento objetalizado. Para Green, quando o próprio eu não é mais objeto da libido, trata-se de um narcisismo negativo como aspiração ao nível zero, expressão de uma função desobjetalizante que não se contentaria em se referir aos objetos, mas ao próprio processo objetalizante. O narcisismo negativo seria, portanto, uma vitória da pulsão de morte, conferindo ao princípio de nirvana uma relativa proeminência ao princípio de prazer. Trata-se não só de abrir mão dos objetos, mas do próprio investir. Quando o objetivo está quase atingido, um sentimento de morte efetiva, um aquém da dor, atinge o próprio sentimento de existir que pode aparecer na melancolia.

Ao passo em que a pulsão de morte seria uma renúncia pulsional, a pulsão de vida objetalizante - teria como principal consequência a simbolização. Green vai nos falar ainda que do seu ponto de vista a compulsão à repetição também é encontrada em material que não é ação, numa paralisia da comunicação, por exemplo.

Voltando ao fragmento clínico que citei acima, este é um ponto importante no atendimento da minha paciente Luciene, que diz nada se lembrar de sua infância, sejam sentimentos, sejam sensações. Da mesma forma, não se recorda de haver relatos familiares de episódios de sua infância ou de suas irmãs. Em sua impossibilidade de fazer ligações, seu pensamento se esvai, como se não houvesse ligação entre representação coisa e representação palavra.

Se nada ocorre ao paciente, que pode apresentar uma mente vazia, isso se dá obviamente para impedir qualquer associação e, assim, evitar a possibilidade de atribuir um significado ao que ocorre na sessão. Essa não é apenas uma consequência da repressão; é também uma expressão mais radical, um efeito da negação (GREEN, 2007, p. 134).

Green (2007) ressalta, entretanto, que a ligação não se refere apenas à passagem do processo primário ao secundário. Para ele a ligação está relacionada a processos muito primevos, é uma forma de atividade primitiva intensificada pela organização pulsional. O desligamento, por sua vez, acontece sempre como uma forma de protesto contra a natureza insatisfatória do objeto. Mas o sentido geral não chega a ser revelado ao sujeito, para que se forme um grupo coerente de ideias. O desligamento torna desordenado qualquer grupo de ideias. E é o auge dessa falta de sentido que torna o paciente silencioso. Mesmo que lhe ocorra algo, ele não é capaz de expressar.

Masoquismo mortífero ou guardião da vida?

Antes de entrar no tema específico deste tópico, retorno momentaneamente a Freud. A dialética pulsional sempre foi afirmada em sua obra e é em seu texto Esboço de psicanálise ([1938] 1996) que a oposição e o objetivo das pulsões de vida e morte aparece de forma ainda mais nítida, quando afirma que o objetivo de Eros é estabelecer unidades cada vez maiores e assim uni-las e preservá-las.

Corroborando a corrente que enfatiza as relações de objeto na temática pulsional, Rosenberg (2003) destaca o caráter antagonista e heterogêneo das pulsões de morte e vida, afirmando que a intrincação/desintrincação pulsional só é possível por intermédio do objeto. O autor aponta que o antagonismo das pulsões só se torna conflito a partir de uma relação do eu com o objeto, e a relação amor-ódio é o melhor exemplo dessa relação pulsional.

Para a constituição da ‘unidade’ do objeto, para sua ligação-coerência interna, é preciso que a libido consiga constitui-lo e conservá-lo como é preciso que a pulsão de morte não consiga ‘despedaçar’, desagregar o objeto; mas é necessário que no interior do objeto mantido pela libido a pulsão de morte possa, como efeito de uma desintrincação bem moderada, não desagregar, mas estabelecer diferenciações internas que constituirão a riqueza do objeto. É a pulsão de morte, conjuntamente com a diferenciação interna que ela produz que dá a possibilidade de uma estruturação complexa do objeto, tornando assim possível da parte do eu, uma relação nuançada com o objeto (ROSENBERG, 2003, p. 162-163).

Considerar a relação dialética inerente ao princípio de prazer, nos remete às considerações freudianas quanto ao Problema econômico do masoquismo.Freud ([1924] 1996) conclui o texto afirmando que o masoquismo moral é uma prova clássica da fusão das pulsões de morte e vida. De acordo com Freud, no masoquismo moral é o próprio sofrimento que importa e o masoquista sempre oferece a outra face para receber um novo golpe.

Esse pressuposto me leva novamente à minha paciente Luciene, que oscila entre esperar que seu marido mude seu comportamento e relatos de sentir-se culpada pelas traições e ausências dele. Nas raras vezes em que tenta direcionar sua energia “para cuidar de si mesma” (reproduzindo suas palavras), Luciene fantasia que a solução para sua tristeza seria se reaproximar de um antigo exnamorado. Troca mensagens com ele, mas seu marido descobre (ou porque ela esquece o celular em cima da mesa e ele vê as mensagens, ou porque talvez ele a tenha visto agindo diferente, ou, quem sabe, ele possa ter clonado seu celular para saber se ela não o trairia, supõe ela). A culpa, portanto, volta a assolá-la, desta vez com uma força ainda mais avassaladora, afinal, ela merece ser traída por ter trocado mensagens com outro homem. Retomando Freud, lembro das postulações do mestre ao afirmar que o masoquismo cria uma tentação a efetuar ações “pecaminosas”, que devem ser censuradas pela consciência sádica.

Freud associa o masoquismo a um superego sádico, herdeiro do complexo de Édipo. Entretanto, como citado anteriormente, sinto que algo na constituição egoica de Luciene clama por socorro, por um pedido desesperado de integração, de, antes de mais nada, existir. Nas sessões de Luciene me deparo com seu profundo medo de desmoronamento e colapso (WINNICOTT, 1963). Talvez Luciene tenha encontrado em sua “tristeza”, a única saída para sua sobrevivência psíquica.

Rosenberg vai nos propor que o masoquismo erógeno primário é, acima de tudo, um masoquismo guardião da vida. Complementa seu pensamento propondo que o masoquismo mortífero é um masoquismo que deu certo demais, quando o sujeito investe de forma maciça toda a dor e desprazer. O masoquismo mortífero, que chama de verdadeiro masoquismo patológico, seria a busca do prazer da excitação em detrimento do prazer da descarga enquanto satisfação objetal.

Citando o texto freudiano Formulações sobre os dois princípios de funcionamento mental (1911), Rosenberg retoma a postulação de que a satisfação alucinatória do bebê não impede o desamparo, já que o bebê demonstra ao mesmo tempo seu desprazer. A satisfação alucinatória somente teria sentido em função do estado de desamparo, havendo uma concomitância entre ambos. Rosenberg destaca que isso evidencia a suportabilidade do estado de desamparo condicionada ao masoquismo primário erógeno, que vai permitir a satisfação alucinatória.

O masoquismo, ao assegurar a possibilidade de excitação, não é somente guardião da vida, mas é também o guardião da vida psíquica: a permanência do núcleo masoquista primário no eu garante a temporalidade-continuidade psíquica, assegurando a continuidade da excitação e impedindo assim, de um lado, a necessidade de descarga imediata e, por outro lado, pela presença de um mínimo de excitação conservada no próprio seio da descarga, evita que esta última seja (como a descarga imediata) um ponto de descontinuidade, uma ruptura na vida psíquica (ROSENBERG, 2003, p. 108).

Em sua analogia, Rosenberg afirma que o núcleo masoquista erógeno primário é responsável por assegurar a continuidade do eu neurótico, evitando a clivagem até mesmo em situações traumáticas. Na clínica, me deparo com o masoquismo erógeno secundário de Luciene, que, somando-se ao seu masoquismo primário, original, aponta para uma regressão a uma situação primária da mesma natureza. Penso em sua “tristeza” como uma possiblidade de continuidade, de existência. Entretanto, conforme afirmou Freud, onde há intrincação pulsional, a desintrincação não está longe. Na medida em que a desintrincação pulsional se realiza, o masoquismo se aproxima da pulsão de morte recebendo, assim, uma potencialidade mortífera. De acordo com Rosenberg, isso se encontra nas melancolias graves, em que a desintrincação enfraquece a organização masoquista do eu, aumentando assim o risco de suicídio.

Ao enfatizar que a dificuldade do melancólico em desapegar-se do objeto é oriunda do investimento narcisista de objeto, Rosenberg destaca que antes do desapego no trabalho da melancolia é preciso previamente assegurar uma destacabilidade do objeto, visto que as representações do sujeito estão coladas ao objeto. Investir narcisicamente num objeto é investir no eu por meio do objeto, no espelho do objeto. Portanto, desinvestir do objeto, aceitá-lo como perdido, significaria perder a si mesmo. Por isso, a melancolia experimenta a perda do objeto como uma perda de si. Voltando mais uma vez a Luciene, lembro-me da sensação de desinvestimento narcisista a que nossas sessões me remetem, a sua quase inexistência sem seu marido ou sua mãe por perto.

Considerações finais

Iniciei este trabalho com a citação de um denso poema de Chico Buarque de Holanda. De alguma forma, durante um dos meus encontros com Luciene, o trecho citado de Pedaço de mim me veio à mente, como se parte dela tivesse ficado com o objeto, impossibilitando-a de sentir-se integrada. Penso que essa impossibilidade de integração, a faz ter um profundo medo do colapso, denotando um impasse em adquirir referências internas próprias. Finalizando estas páginas, recorro novamente a Chico Buarque, retirando o seguinte trecho de Mulheres de Atenas: “Elas não têm gosto ou vontade, nem defeito, nem qualidade, têm medo apenas”. Assim percebo a chegada de Luciene na análise, sem gosto ou vontade, impossibilitada de desejar.

Seus marcados traços melancólicos, caminhando lado a lado com uma frágil constituição egoica me remeteram aos pensamentos de André Green sobre o objeto absolutamente necessário, tão excessivamente presente que não consegue ser introjetado como estrutura, não dando espaço para que o desejo e o ego do bebê possam se estruturar. Ao longo da reflexão para a elaboração deste trabalho, os seguintes pensamentos ecoam em mim de forma mais marcante: a importância do trabalho do negativo como uma tentativa de existência, assim como a saída masoquista pode se apresentar como o único guardião possível para a manutenção da existência psíquica.

O manejo nesses tipos de caso é delicado. O analista precisa suportar os silêncios do setting, mas ao mesmo tempo precisa perceber a demanda invocante presente no silêncio do paciente. Num looping de esforço contínuo em tentar se separar do objeto, Luciene clamava por uma constituição egoica que a permitisse se sentir viva sem o adesivamento com o outro.

Creio que vale lembrar Ferenczi, no texto A criança mal acolhida e sua pulsão de morte:

De acordo com minhas tentativas de elasticidade’ da técnica analítica... nesses casos de diminuição do prazer de viver, vi-me, pouco a pouco, na obrigação de reduzir cada vez mais as exigências quanto à capacidade de trabalho dos pacientes... deve-se deixar, durante algum tempo, o paciente agir como uma criança [...] Somente mais tarde é que se pode abordar, com prudência, as exigências de frustração (FERENCZI, 1929, p. 59).

Penso que o desamparo sentido por Luciene ocorre em relação a um outro corpo, o materno. Recordo-me de sua fala ao citar a falta que sente de dormir ao lado da mãe, “agarradinha com ela”. Em contrapartida, existir apenas a partir do objeto é algo que Luciene tenta elaborar de alguma forma, na sua compulsão à repetição. Muda de cidade, mas apesar de dizer que sente falta do colo da mãe, nunca retorna à terra natal. Num paradoxo complexo, pensa que somente será capaz de não ser triste se retornar ao colo materno. Da mesma forma, o repete em relação ao marido, manda-o para fora de casa, mas quando ele vai, sente-se desmoronando.

Através da análise, Luciene buscou um abrigo que lhe permitisse transformar sua “caverna em um verdadeiro lar” (DELOUYA, 2014). Luciene projetou suas pulsões de vida no processo de análise, em busca de um contorno que lhe faltava. Mas, assim como postulado por Ferenczi, recordo que em meu divã encontro uma criança em busca de constituição. E, assim como as crianças que tentam migrar do estado de dependência absoluta, para a dependência relativa, e um posterior rumo à independência, Luciene se apresentou inicialmente em meu consultório com pouca capacidade de simbolizar, de atingir uma representação palavra.

Penso caber aqui uma citação de André Martins que ilustra minhas reflexões:

Caberá ao analista - mediante uma postura que sobreviva às inseguranças do paciente, atualizadas transferencialmente, seja de forma atuada ou verbalizada - permitir que o paciente vivencie uma experiência de continuidade e confiança primeva... a fim de integrar não, ou não diretamente, a personalidade consciente ou egoica, mas o que estava dissociado em seus mecanismos psíquicos inconscientes (MARTINS, 2009, p. 353).

Ao iniciar a análise, todos os sentimentos, sensações e vivências de Luciene eram descritos de forma muito fragmentada, apenas pelo seguinte conjunto de palavras: “tristeza” e “falta de paciência”. Em dado momento da nossa caminhada, ela conseguiu espontaneamente usar a palavra “angústia” para se referir a algo que estava sentindo. Tal qual fazemos com uma criança quando amplia seu vocabulário, comemoro a entrada desta nova palavra em nossa dinâmica. Se apropriar da palavra “angústia” foi também a possibilidade de começar a acessar sentimentos e sensações até então não simbolizados, representados apenas pelo silêncio e vazio de seu olhar até então.

No início de nosso percurso, o auge da falta de sentido tornava Luciene silenciosa. Mesmo que algo lhe ocorresse, ela não era capaz de expressar. Se considerarmos a pulsão de morte como uma renúncia pulsional e a principal consequência da pulsão de vida como sendo a simbolização, talvez não seja otimista demais pensar que a entrada desta nova palavra na cadeia simbólica de Luciene tenha sido um novo começo para que ela começasse a dizer sim a si mesma. Na luta entre as pulsões de vida e de morte, a análise de Luciene nos mostra que a função objetalizante não cessa em procurar formas de ganhar a batalha.

Referencias

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Recebido: 10 de Agosto de 2022; Aceito: 28 de Outubro de 2022

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