Introdução
Gostaria de compartilhar com vocês minhas reflexões sobre um fenômeno que tenho observado cada vez mais na atualidade social, assim como na prática clínica. Trata-se de uma segmentação da subjetividade que faz com que os sujeitos se organizem em grupos “unidos pelas identificações” chegando, às vezes, a negar qualquer possibilidade de alteridade. Esse aprisionamento identitário faz com que qualquer outra construção subjetiva, com suas particularidades identificatórias, seja motivo de exclusão e/ou segregação.
Começo com uma pequena digressão sobre um tópico que pesquiso há muitos anos e que é, por assim dizer, atemporal, por evocar diferenças, sobretudo narcísicas, que acompanham o ser humano desde sua origem: as dinâmicas identificatórias presentes nas identidades.
Identidade, mesmo não sendo um conceito psicanalítico, é frequentemente usado na clínica: fala-se de conflitos de identidade, sentimento de identidade, perda de identidade... Em psicanálise, o significante identidade só pode ser pensado de maneira dinâmica, por ser dependente dos processos identificatórios: por falta de identidade, somos condenados às identificações. Eis o nosso “destino pulsional” que marca, simultaneamente, nossa “liberdade” e nossos limites.
Uma expressão corriqueira como “carteira de identidade” recobre, ao mesmo tempo, o particular (aquilo que define o sujeito na sua diferença absoluta) e o geral (o que marca a assemelha a um outro, graças a certo número de traços em comum).
Ao se referir ao conjunto dos seres, a todos os “eus”, a identidade é uma repetição, pois designa a identidade dos termos; mas é também um significante quando se refere ao conjunto de traços que caracterizam um sujeito.
No que diz respeito à identidade sexual, uma construção atrelada aos movimentos identificatórios e ao lugar que a criança ocupa no desejo do Outro, só podemos falar de sentimento, e jamais de certeza (CECCARELLI, 2022).
Enfim, o significante “identidade” reagrupa diferentes ideias, às vezes paradoxais: a permanência, a imutabilidade, o sentimento de continuar o mesmo com o passar do tempo; a garantia de um estado separado, de uma unidade, de uma coesão que pode levar à distinção. Mas também uma relação que marca a semelhança entre dois elementos; semelhança tão grande que os faz idênticos (CECCARELLI, 2017).
Guerras étnicas ocorrem para preservar a identidade de um povo: aquilo que é próprio a uma nação e somente a ela; aquilo que faz sua particularidade, que constitui sua identidade. O insuportável da diferença pode ser tão ameaçador que o sujeito prefere morrer a perder sua identidade.
A “perda da identidade” pode ocorrer quando as identificações não mais sustentam as construções subjetivas. Esse tema foi trabalhado pelo psicanalista Caio Romano em seu livro Psicanálise, cinema e amor. Um dos contos do livro, baseado no filme Newness que o autor traduz por Sensação de novo, retrata o tédio nas relações amorosas, a partir dos personagens Gabi e Martin, que buscam incessantemente sensações novas para fugir desse tédio.
Para sustentar seus argumentos, Romano se baseia no conto de Machado de Assis, O espelho - esboço de uma nova teoria da alma humana. O texto apresenta a história de um rapaz que se torna alferes. Em certa altura do conto, o jovem é invadido por um profundo sentimento de angústia ao se deparar com a solidão a que o espelho o remete, quando a imagem que ele vê é “esfumada, sombra de sombra”. Para sair dessa abissal sensação de não ter lugar no Outro, de não se reconhecer na imagem refletiva, o jovem veste a farda de alferes e recupera a normalidade da imagem do espelho, passando a existir novamente. Ora, o que o protagonista do conto perde, são as referências identificatórias que a farda lhe propiciava, fazendo com que a identidade, esvaziada de seus significantes, revele sua verdadeira e mortífera face: “um vazio que implica em uma inexistência” (ROMANO, 2021, p. 76).
Raça e universalismo
Em 1952, a pedido da Unesco, Claude Lévi-Strauss redigiu um texto que marcou data: Raça e história. Nele, apresentou uma notável reflexão sobre a noção de raça. Não se tratava apenas de lutar contra o preconceito, mas, sobretudo, de denunciar as barbaridades perpetradas pelas nações europeias sobre o pretexto de uma desigualdade entre as raças. Lévi-Strauss denunciava, nos anos que seguiram a Segunda Guerra Mundial, não só o nazismo, mas igualmente o colonialismo, que sustentava a ideologia discursiva presente na ideia da inferioridade dos povos não ocidentais.
Para Lévi-Strauss, o que caracteriza as sociedades é a passagem da natureza à cultura: a proibição do incesto, a adoção de alimentos cozidos e as diferentes expressões religiosas e artísticas etc., atributos desconhecidos entre os animais e discutidos por Freud ([1913] 1974) em Totem e tabu.
As raças, segundo o autor, não existem e as diferenças são culturais e não “naturais”. Lévi-Strauss considera a chamada “inferioridade cultural” uma construção universal, presente em toda organização social: se, por um lado, os humanos tendem a formar grupos ou comunidades, por outro lado, rejeitam, ao mesmo tempo, a alteridade em nome de uma pretensa superioridade cultural.2
Nessa perspectiva, só o relativismo cultural (o respeito à diferença) pode exprimir o universalismo do gênero humano.
Se todo o mundo se parece, a humanidade dissolve-se no nada; se cada um deixa de respeitar a alteridade do outro afirmando sua diferença identitária, a humanidade mergulha no ódio perpétuo ao outro (ROUDINESCO, 2022, p. 69).
As sociedades devem, pois, estar atentas para não se dissolverem em um modelo único (a globalização), tampouco se fecharem em um nacionalismo narcísico que encerra em si uma intolerância ao diferente.
Seja como for, a pergunta é a de saber por que a alteridade é vivida como ameaça? A alteridade remete, invariavelmente, à diferença, à castração. Porém, não apenas à diferença sexual, tão difícil para a criança aceitar (FREUD, [1925] 2011), mas, sobretudo, à existência de um outro que indica à criança que a mãe, ou quem a acolhe no mundo dando-lhe aquilo que chamo de “berço psíquico”, tem outra mirada, além de sua progenitura (CECCARELLI, 2002).
Narcisismo x alteridade
Tanto a constatação da existência de um outro, quanto a percepção da diferença sexual, ou qualquer ameaça ao Eu, provoca um abalo psíquico, pois reconhecer a diferença é uma afronta direta ao narcisismo; e para reconhecê-la deve ocorrer uma mudança psíquica, pois “nunca há um acesso à alteridade que não passe por alterações no psiquismo” (REINO; ENDO, 2011, p. 18).
O conflito entre narcisismo e alteridade, entre manter a ilusão de uma união imperturbável, ou reconhecer e ser reconhecido pelo outro, é um tema inesgotável na psicanálise. Tais reflexões nos remetem à conhecida parábola de Schopenhauer sobre os porcos-espinhos, citada por Freud em Psicologia das massas e análise do Eu,Freud ([1921] 2016, p. 92). De forma resumida, a citamos: num gelado dia de inverno, os membros de uma sociedade de porcos-espinhos, para se abrigar do frio, devem manter uma distância ideal que lhes permita se aquecer sem, contudo, se espetar com os espinhos uns dos outros. Frio e espinho são inconciliáveis: o frio traduz a impossibilidade de se sobreviver sozinho, o que leva à aproximação uns dos outros para não se morrer de frio; o espinho indica a necessidade de separação para que os porcos-espinhos não se furem. Restam-lhes, pois, duas possibilidades de difícil conciliação: permanecer sozinhos, e com frio, o que levaria à norte; ou ficar com os outros e seus espinhos.
O ser humano ou permanece sozinho fechando-se em um narcisismo mortífero, ou mantém uma aproximação comedida, para que o convívio em sociedade seja possível, sem que ocorra uma ameaça narcísica significativa (o inferno é o outro). Devemos adotar uma solução instável e provisória, a “meio caminho”: nem muito perto, nem muito longe. Temos que viver juntos, mas... separados.3
Se, como indica Freud, o “caráter do Eu é um precipitado dos investimentos objetais abandonados que contém a história dessas escolhas de objeto” (FREUD, [1923] 2012, p. 26), cabe perguntarmos, porque, em alguns casos, as identificações excluem; porque, num primeiro momento, as identificações que constituem o Eu são “bem-vindas” e, mais tarde, elas se transformam em prisões identitárias, às vezes camufladas pela elegante expressão “politicamente correto”?
A noção do narcisismo das pequenas diferenças nos oferece recursos importantes para compreendermos essa configuração pulsional.
O narcisismo das pequenas diferenças aparece pela primeira vez no texto O tabu da virgindade (FREUD, [1918] 2018). O tema é retomado mais tarde em: Psicologia das massas e análise do Eu ([1921] 2011) e em O mal -estar na cultura ([1930] 2010).
Em 1918, Freud ([1918] 2018, p. 164) diz que o narcisismo das pequenas diferenças separa indivíduos que se assemelhem em outros aspectos. Ali devemos procurar “a hostilidade que em todos os vínculos humanos vemos batalhar com êxito contra os sentimentos solidários e degolar o mandamento de amar o próximo”. A partir do narcisismo das pequenas diferenças, compreendemos a constante hostilidade inerente às relações humanas, exceto na relação mãe-filho, a única isenta de aversão e hostilidade.
Contudo, nos fenômenos de massa, e eu acrescentaria nos grupos unidos pelas identificações, essa mútua aversão entre os homens, a hostilidade primária, é suspensa:
[...] toda essa intolerância desaparece, temporariamente ou de maneira duradoura, por meio da formação da massa e dentro da massa. Enquanto perdura a formação de massa, ou até onde se estende, os indivíduos se conduzem como se fossem homogêneos, suportam a especificidade do outro, igualam-se a ele e não sentem repulsa por ele (FREUD, [1921] 2011, p. 58).
Num primeiro momento, o narcisismo das pequenas diferenças mostrava-se hostil à formação de massa por restringir as ligações libidinais entre seus membros (FREUD, [1921] 2011). Contudo, em um segundo momento, ele fica suspenso no interior da massa (grupos, gangues, partidos políticos etc.). Seus membros são transformados em irmãos e a hostilidade, oriunda da constatação da alteridade, isso é, dos processos identitários, é projetada no exterior: o narcisismo, que garantia a unidade do Eu, passa a ser o guardião da coesão da massa, criando “uma heterogeneidade intergrupal e, ao mesmo tempo, uma homogeneidade intragrupal” (REINO; ENDO, 2011, p. 25).
Para além dos fenômenos de massa, o narcisismo das pequenas diferenças pode ser temporariamente suspenso quando a satisfação pulsional está em jogo:
Faça-se passar fome, por igual, a um grupo composto por indivíduos mais diversos entre si. À medida que cresce a imperiosa necessidade de alimentar-se, se apagarão todas as diferenças individuais e emergirá, em seu lugar, as uniformes exteriorizações dessa única e não saciada pulsão (FREUD, [1912] 2011, p. 181).
Em O mal-estar na cultura, ao falar do narcisismo das pequenas diferenças, Freud diz que é “sempre é possível ligar um grande número de pessoas pelo amor, desde que restem outras para que se exteriorize a agressividade” (FREUD, [1930] 2010, p. 366). Esse fato é facilmente observável, por exemplo, quando um grupo se forma para linchar alguém; para “fazer justiça” com as próprias mãos. Na Idade Média a agressividade era exteriorizada nas bruxas que, para o regozijo das multidões, eram queimadas em fogueiras nas praças públicas. Na atualidade, não faltam exemplos de pessoas, que ao sustentarem uma diferença que pode ser uma atitude, um comportamento particular, induzem a uma revolta generalizada, se transformando em alvo de uma agressividade coletiva. Contudo, passado o momento de júbilo que neutralizou do narcisismo das pequenas diferenças, a massa se desfaz.
A unidade só é possível quando há um outro para dirigirmos a destruição: “coesão e satisfação da destrutividade acabam por formar os dois polos dessa noção” (REINO; ENDO, 2011, p. 24). E quando as referências identificatórias de um grupo são vistas com ameaçadoras, como algo excêntrico por outros grupos, cria-se uma cegueira que tende a estereotipar a alteridade. Tais considerações sugerem que a pulsão de morte está implícita no narcisismo das pequenas diferenças.
A miséria psicológica do narcisismo das pequenas diferenças, pode traduzir-se por uma miséria perceptiva, como sustenta Calligaris(2011,p. 50):
Cada etnia costuma ser pouco sensível às diferenças de fisionomia das outras - tanto individuais quanto coletivas. Em São Paulo, onde vive uma grande comunidade de imigrantes japoneses, qualquer oriental, chinês ou coreano, é um “japa”. Em Nova York, quando um branco tenta descrever um rosto de um negro, em geral não consegue dizer nada além dos traços que valem para a imensa maioria dos negros (pele escura, nariz largo, lábios espessos). É como se, na outra etnia, não houvesse diferenças. Não sei se acontece a mesma coisa com os negros quando eles olham para os brancos, mas é provável que sim.
Aprisionamentos identitários
O que se depreende das posições citadas é que o insuportável da alteridade tem sua origem nas pequenas diferenças narcísicas entre os sujeitos que, sob outros aspectos, são idênticos (FREUD, [1923] 2011). Observamos regularmente no nosso cotidiano, a presença do narcisismo das pequenas diferenças. A “cultura do ódio”, que traduz um movimento identificatário de massa, desfaz o trabalho de cultura [Kulturarbeit] que sustenta nossa civilização (FREUD, [1908] 1976), aumentando exponencialmente a violência e, por extensão, a destrutividad,e e ativando, senão incentivando, aquilo que o ser humano tem de pior: o primitivo do homem (FREUD, [1915] 1996), isto é, “o homem é o lobo do homem” (FREUD, [1930] 2010). Observa-se isso na intolerância política e nos interesses econômicos mundiais que, muitas vezes, procuram globalizar os países substituindo a particularidade de cada em um padrão único no qual a alteridade do outro é caricaturada, e onde não existe espaço para as diferenças.
Na clínica, o narcisismo das pequenas diferenças se faz cada vez mais presente nas inúmeras versões do politicamente correto. Sustentados pela expressão coringa “lugar de fala”,4 assistimos cada vez mais a grupos que se organizam em “cernes identitários”, nos quais aqueles(as) que a eles não pertencem, não podem participar ou, pior ainda, não teriam nada a dizer, pois não fazem parte daquele núcleo unido pelas identificações: reuniões dos professores, pais e alunos que ocorrem divididos por etnias; psicanalistas que não podem atender negros, por não serem negros; mulheres que dizem que “só mulheres podem analisar mulheres”; só pessoas que sofreram assédio, em suas diferentes versões, podem entender, e atender, quem passou por situações semelhantes, e assim por diante. Nesses casos, os processos secundários ganham todo o psiquismo, anulando as particularidades e os modos de funcionamento do primário - a atemporalidade do inconsciente, a inexistência de negação, a diferença sexual e outros tantos outros. Em outras palavras, as fantasias passam a ter existência concreta, e as identificações se transformam em verdade, anulando o pulsional.
Podemos pensar também nos aprisionamentos identitários nos(as) excluídos(as) por racismo, orientação sexual, identidade de gênero, posição política, e outras tantas. Tais exclusões foram intensificadas com a pandemia: alguns por se sentirem sós, outros que se sentiram sem ter a quem recorrer, caso precisassem de alguma ajuda. Outros ainda se sentiram incapazes de lidar com as novas configurações do pathos, no sentido da psicopatologia fundamental, e intensificaram um sofrimento psíquico que estava em estado latente (BERLINCK, 1998).
Há igualmente os horrores de dupla exclusão, como vem acontecendo na atualidade, com crise dos refugiados na Europa e, mais recentemente, com o absurdo da guerra na Ucrânia. Em muitos casos, foge-se por não se sentir aceito; por se sentir rejeitado, excluído sendo, novamente, excluído nos locais de “acolhimento”.
O medo do contágio e do desconhecido decorrente da epidemia da covid-19 tomou, em alguns casos, proporções paranoicas. Algumas pessoas, e este foi um ponto que me chamou a atenção, temiam a “alteridade interna” que se traduzia por uma angústia, ou medo, por não estarem se reconhecendo nas situações vivenciadas e nas novas configurações da angústia, o que os impedia de aprender com o sofrimento, isto é, com as suas próprias configurações do pathos.
As consequências destrutivas e negacionistas do narcisismo das pequenas diferenças não passaram despercebidas a Freud. Em O mal-estar na cultura (FREUD, [1929/1930] 2010, quando faz observações sobre a revolução russa, ele escreve:
[...] a tentativa de estabelecer uma civilização nova e comunista na Rússia encontra o seu apoio psicológico na perseguição aos burgueses. Não se pode senão imaginar, com preocupação, sobre o que farão os soviéticos depois que tiverem eliminado seus burgueses.
Considerações finais
O narcisismo das pequenas diferenças, e seus desdobramentos, fazem parte da constituição do sujeito: exclui-se o diferente, o que não pensa igual; o que tem outra origem, enfim, aquele que expõe a fragilidade de nossa “verdade”, de nossa visão de mundo, mostrando que ela não é a única leitura do Real. Com isso, exclui-se igualmente aquilo que o outro encarna e que nos apavora sem trégua, pois, já o dissemos, o acesso à alteridade leva necessariamente a alterações psíquicas, o que é insuportável para alguns.
A dor dos excluídos envolve, além do medo angustiante de ser perseguidos no caso de imigração irregular, a perda do local de residência e, muitas vezes perda de vínculos familiares e afetivos. Juntam-se a isso as incertezas quanto ao novo lar, a aprendizagem de uma nova língua e novas referências simbólicas, e a tentativa de integrar-se em uma sociedade que não se escolheu, e que, não raro, exclui os excluídos.
Muitas vezes, aqueles e aquelas aprisionados nas identificações, se sentem excluídos pelas referências identificatórias que os constituíram, levando-os ao que poderíamos chamar de autoexclusão. Essa posição subjetiva pode ser observada, por exemplo, no racismo dentro dos movimentos negros; na homofobia presente em sujeitos LGBTQIAP+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer, intersexuais, assexuais, pansexuais e outros grupos e variações de sexualidade e gênero); na misoginia, nos movimentos feministas e assim por diante. O preconceito expressa uma moção pulsional que o outro desperta no sujeito que o sente, a qual deve, a todo custo, ser aniquilada. Ou ainda quando o referencial de valores do outro difere do sujeito que exclui, evocando moções recalcadas ligadas aos ideais sociais (CECCARELLI, 2000).
Embora o fantasma da exclusão nos assombre constantemente, corroboramos para que o “descarte” dos inaptos: aqueles(as) que não respondem às exigências da sociedade de consumo. Essa forma de exclusão é facilmente observável quando certas pessoas, julgadas incapazes de consumir, são impedidas de entrar nos grandes templos do consumo: os shopping centers. Com isso, a exclusão torna-se algo corriqueiro, aumentando drasticamente o medo de ser excluídos e, concomitantemente, aprimorando os mecanismos que nos protejam da exclusão para que nossa vez não chegue: uma expressão do narcisismo e da pulsão de morte. Muitas vezes, o fantasma de ser excluído origina, paradoxalmente, atitudes que excluem o sujeito.
Uma forma de exclusão cada vez mais presente na atualidade é a exclusão dos idosos, ou a dos “adultos maduros” na feliz expressão de Adriana Mendonça e Denise Souza (MENDONÇA; SOUZA, 2020). Em um texto vigoroso sobre a exclusão dos adultos maduros, Adriana Mendonça insiste que os psicanalistas não podem ficar alheios a essa faixa etária: “não podemos continuar com a visão desatualizada e preconceituosa de um falso empobrecimento psíquico dos adultos maduros” (MENDONÇA, 2022, p. 51). Os adultos maduros se sentem excluídos, pois, com o envelhecimento,
[...] enfrentam a perda social, econômica, afetiva e familiar, além de perdas físicas; os idosos, naquela experiência de privação, deixam seu ódio transparecer no meio ambiente e se mobilizam para destruí-lo magicamente [...] o velho como a criança quer se sentir amada, mas ambos são impotentes para alcançá-lo e devem obter apoio externo para serem dignos de amor (MENDONÇA, 2022, p. 53-54).
Ironicamente, por mais terrível que seja, a espécie humana continua excluindo, e até mesmo matando pessoas, seja por sua posição política, sua crença religiosa, cor da pele, orientação sexual, gênero, mitos fundadores, seja por outras tantas formas de “limpeza” etnográfica do “impuro”, ou do ameaçador, para que uma sociedade “normal”, sem ambivalências, seja estabelecida. Excluímos e segregamos não por sermos cruéis e insensíveis, embora haja aqueles(as) que o fazem por prazer. Excluímos, pois o narcisismo das pequenas diferenças está presente em todo ser humano.
Quando refletimos sobre as formas de exclusão, penso que deveria ser repensada a afirmação tão presente no nosso cotidiano segundo a qual o racismo e outras formas de exclusão seriam estruturais. Tenho por hipótese que toda forma de exclusão, o que inclui a alteridade interna, traduz, no fundo, uma grande dificuldade, senão impossibilidade, de aceitar que o outro teve um trajeto identificatório diferente do(a) que exclui. Acredito que o racismo seja identificatório e não estrutural. Insisto neste ponto, a partir das premissas da psicanálise. Podemos, claro, falar de racismo estrutural na sociologia, na antropologia e em tantas outras disciplinas. Mas a psicanálise trabalha com o conceito de identificação. E, dentro desse referencial teórico-clínico, a noção de estrutural não é aplicável.
Quando as identificações constitutivas do sujeito são tomadas como a única possibilidade de subjetividade, o sujeito, e o grupo ao qual ele se afilia, se veem aprisionados na identidade, produzindo um contínuo conflito com o diferente.