Introdução
Os sonhos sempre foram motivo de muito interesse para o ser humano. Da simples curiosidade às inúmeras especulações sobre seus significados, esses fenômenos começaram a ser questionados e, então, estudados.
Luciana Knijnik (2011), no texto Quando cai a noite, não apenas faz profundas reflexões sobre o entendimento de Freud sobre o sonho, mas também leva em conta aspectos muito interessantes relacionados à cultura. Embora tenhamos aqui um enfoque diferente da autora, precisamos destacar o quanto o contexto cultural afetou não só a produção de Freud, como também o quanto esta questão afeta diretamente a compreensão de mundo de cada sujeito e, consequentemente, sua percepção de aspectos singulares.
Em 1900, Freud publicou em A interpretação dos sonhos, uma teoria dos sonhos, que passou, então, a se concretizar. É possível afirmar que, embora já existissem estudos sobre os sonhos, essa obra demarca os aprofundamentos a respeito do tema e proporciona aos pesquisadores e interessados o marco teórico fundamental para suas indagações e investigações. Além disso, podemos reconhecer que, apesar da teoria desenvolvida por Freud, o “mundo dos sonhos” ainda permanece, de certa forma, um mistério para aqueles que o estudam.
A manifestação dos sonhos, muitas vezes, se apresenta de maneira confusa e incompreensível para o sonhador. Essa confusão e a dificuldade de compreender o próprio sonho consiste, de acordo com a teoria dos sonhos de Freud, num mecanismo de defesa ou censura que é realizada pela função egoica, que rebaixada durante o sono, se manifesta no momento em que o sujeito acorda, impedindo ou dificultando seu contato com o próprio sonho (ZIMERMAN, 1999).
O processo analítico auxilia o sonhador a se conhecer mais profundamente e, a partir disso, compreender melhor o funcionamento, as manifestações e os significados de seus próprios sonhos.
Sendo assim, o objetivo deste trabalho consiste em estudar e refletir sobre os principais aspectos da teoria dos sonhos e a relação que se trava entre tais fenômenos e a censura, e os mecanismos de defesa do ser humano.
Desvendando os principais aspectos dos sonhos
Os sonhos, ao longo dos anos, passaram a ser percebidos de diferentes formas pela sociedade e pelos estudiosos. Inicialmente eram ligados a crenças populares e misticismo, até chegarem ao ponto de serem estudados e vistos a partir de uma perspectiva cientifica (ZIMERMAN, 1999).
Roudinesco (1998, p. 722) define o sonho como:
Fenômeno psíquico que se produz durante o sono, o sonho é predominantemente constituído por imagens e representações cujo aparecimento e ordenação escapam ao controle consciente do sonhador.
Freud ([1900] 2013) se apropria do tema, estuda as manifestações desses fenômenos nos diferentes sujeitos, desenvolve sua teoria e publica A interpretação dos sonhos e outras revisões em suas obras. Zimerman (1999) esclarece que o estudo sobre os sonhos permitiu a Freud desenvolver uma série de outras teorias, além de ter sido um marco para a teoria psicanalítica e a primeira representação de uma autoanálise feita até então. Ao desenvolver sua teoria, Freud não se baseou apenas em relatos de pacientes, mas em reflexões e conclusões obtidas a respeito de seus próprios sonhos.
Brenner (1987, p. 162) completa essa reflexão trazendo a importância dessa manifestação não apenas pelo seu processo, mas também pelo material inconsciente que surge através dele. Para o autor, os sonhos revelam:
[...] os conteúdos mentais que foram reprimidos ou de qualquer forma excluídos da consciência e de sua descarga pelas atividades defensivas do ego.
O sonho surge a partir da necessidade biológica que o sujeito possui de dormir manifestando-se como um guardião do sono, pois, apesar do desligamento do mundo externo, o aparelho psíquico permanece em funcionamento, de modo que os sonhos, através de alguns estímulos, proporcionam que o sujeito possa repousar da melhor maneira possível (ZIMERMAN, 1999).
Freud ([1916-1917] 2014) explicita que os sonhos se caracterizam essencialmente por estímulos psíquicos que buscam a satisfação do sujeito de maneira alucinatória. Dessa forma, a finalidade dos sonhos seria aparentemente simples: realizar os desejos do sujeito, embora essa realização não implique necessariamente a obtenção de satisfação ou prazer. Apesar dessa simplicidade aparente, sabemos que esse desejo não é consciente e que, por isso, o sonhador terá dificuldade de lidar com seu sonho. Sendo assim, seu ego entra em ação com o objetivo de protegê-lo do desejo inconsciente, mascarando o sonho e dificultando sua compreensão, mantendo, assim, o sujeito distante de seus próprios desejos.
A partir do seu estudo sobre os sonhos, Freud desenvolveu uma série de outras teorias, a exemplo das estruturas psíquicas id e ego, sendo o superego uma estrutura auxiliar ou complementar ao ego. Nos sonhos, a estrutura que exerce função principal é o id, enquanto o superego está adormecido e o ego sob “rebaixamento”, ou seja, com suas defesas diminuídas permitindo que o inconsciente se manifeste através de imagens e representações e consentindo que os desejos do sujeito sejam, de alguma maneira, satisfeitos (ZIMERMAN, 1999).
Sobre a dinâmica que surge nos sonhos, Freud ([1916-1917] 2014) coloca quatro momentos principais que garantem a sua estrutura: (a) sonho latente, (b)sonho manifesto, (c) elementos deformados e (d) elementos pouco deformados. O sonho latente seria, em resumo, a forma completa do sonho. Nele, todos os conteúdos surgem e interagem. Porém, devido à censura e aos mecanismos de defesa, o sonho latente ou “umbigo do sonho” jamais é alcançado. O sonho manifesto seria aquele que é relatado pelo paciente e que, muitas vezes, não tem sentido para o sonhador. Os elementos deformados e pouco deformados são aqueles que surgem tanto para dar sentido ao sonho, quanto para confundir o sonhador, podendo ser elementos antigos, como memórias, ou resquícios diurnos de situações vividas atualmente pelo sujeito (FREUD, [1916-1917] 2014)
Com base nesses quatro momentos, podemos questionar os motivos pelos quais os sonhos são esquecidos e/ou se tornam muitas vezes confusos para o sonhador. Freud ([1916-1917] 2014) considera que isso ocorre devido à necessidade de proteção do sujeito, pois os desejos manifestados nos sonhos nem sempre são conscientes e concebíveis para quem sonha. Dessa forma, quando o ego não é responsável pela censura e pelo consequente esquecimento, o próprio sujeito, ao acordar, utiliza-se dos seus mecanismos de defesa, em especial da negação, para conseguir lidar com essa manifestação.
A censura é conceituada por Roudinesco (1998, p. 108) como a
[...] instância psíquica que proíbe que emerja na consciência um desejo de natureza inconsciente e o faz aparecer sob forma travestida.
Tendo isso em vista, entendemos que a censura segue conservando a deformação, e a associação livre é a maneira mais eficiente de buscar significados e, assim, chegar a um entendimento ou interpretação do sonho. Vale ressaltar que, por não querer ou por simplesmente não aceitar a própria interpretação, o sujeito muitas vezes nega os seus desejos, tanto para o analista, quanto para si mesmo.
Descobrimos que a deformação do sonho, que nos turva sua compreensão, é consequência de uma atividade censória dirigida contra os desejos inconscientes inadmissíveis (FREUD, [1916-1917] 2014, p. 200).
Zimerman (1999, p. 176) apresenta os fenômenos psíquicos que Freud descreve como decorrentes da formação do sonho. É interessante destacar três desses fenômenos para que possamos entender melhor a dinâmica e funcionamento dos sonhos.
Elaboração onírica secundária. Consiste numa atividade do ego, durante o sono, que se encarrega de disfarçar e dissimular aquilo que está reprimido no inconsciente e que está “proibido” de aparecer no inconsciente em estado “bruto”.
Conteúdo latente do sonho. Corresponde ao conjunto de - ocultos - desejos, pensamentos, sentimentos, representações, angústias que estão represados no inconsciente e que somente terão acesso ao pré-consciente e ao consciente após o disfarçamento realizado pela, acima aludida, elaboração secundária.
Mecanismos defensivos do ego. Condensação: (o trabalho do sonho tem sempre por finalidade formar uma imagem única que represente simultaneamente todos os componentes do conteúdo latente, o que pode ser feito por omissões, fusão, neologismos, etc.); deslocamento: (refere que há um deslocamento de significados ao longo de uma cadeia associativa, pelo “deslizamento” de um significante para outro, à maneira do que se passa em um jogo de bilhar) e simbolização. Neste último caso, durante muito tempo Freud acreditou que haveria uma linguagem simbólica universal, de tal sorte que um mesmo símbolo teria o mesmo significado para todos (por exemplo, o aparecimento de uma tal “serpente” em qualquer sonho seria sempre um símbolo fálico), porém aos poucos o simbolismo onírico corresponde aos significados específicos de cada indivíduo e, também, das suas respectivas repressões (assim, aquela hipotética “serpente” do sonho pode, para alguns, de fato, representar um pênis, enquanto para outros pode significar uma pessoa má, pérfida, traiçoeira, tal qual uma cobra venenosa, e assim por diante).
Compreendida a dinâmica e o funcionamento dos sonhos, outra questão surge relativamente à sua interpretação. Freud ([19161917] 2014, p. 229) propõe que, para a interpretação dos sonhos:
Basta que se valham das duas técnicas complementares, evocar no sonhador associações que os conduzam do conteúdo substituto ao verdadeiro e, a partir de seu próprio conhecimento, trocar os símbolos por seus significados.
A partir do momento em que é identificado cada um dos itens presentes nos sonhos, o sonhador pode atribuir aos símbolos os significados que lhe cabem e, com isso, tornarse consciente e responsável por seus próprios desejos. É importante acrescentar que não se trata de um trabalho simples e que e pelos mais variados motivos, pode desanimar o sonhador de buscar um aprofundamento dessas questões (FREUD, [1916-1917] 2014).
Vale mencionar que, depois que Freud desenvolveu a teoria dos sonhos, alguns autores deram continuidade a esse estudo, porém nem todos mantiveram a sua essência. Diferentemente do que Freud havia proposto, foram apresentadas algumas discordâncias sobre determinados aspectos da teoria, a exemplo do entendimento a respeito da origem do sonho, pois, embora Freud tivesse descrito o sonho como uma forma de satisfação alucinatória, acrescentaram-se outros fatores como responsáveis pela manifestação do sonho.
Além disso, a relação estabelecida entre os sonhos e a sexualidade, como vista por Freud, é questão que até hoje gera polêmica e promove uma série de discordâncias por parte de outros autores (ZIMERMAN, 1999).
Conclusão
Embora possamos pensar inicialmente que a teoria dos sonhos é simples, sua complexidade é patente. Estudar o tema abrange um aprofundamento da teoria freudiana e não apenas se reduz a identificar a origem, mas também a refietir a respeito de outras questões, como os diversos fenômenos que se dão ao longo dos sonhos, os mecanismos de defesa que são utilizados pelo ego para defender o sujeito de seus próprios desejos, além das interferências externas, a exemplo das dinâmicas culturais que podem interferir na censura.
Podemos destacar, através dos recortes teóricos trazidos, como é importante pensar sobre a teoria dos sonhos tendo em vista o seu surgimento antes mesmo de Freud, e sua manifestação clínica, além da presença da censura como presente no processo de análise.
Embora outros estudos e críticas à teoria freudiana dos sonhos tenham surgido através de outros autores, não nos propusemos a analisá-las neste artigo, já que entendemos que Freud é a principal referência sobre esta teoria e sobre como a teoria psicanalítica pensou e descreveu as questões relativas ao tema.