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Estudos de Psicanálise

versão impressa ISSN 0100-3437versão On-line ISSN 2175-3482

Estud. psicanal.  no.58 Belo Horizonte jul./dez. 2022  Epub 14-Fev-2025

https://doi.org/10.5935/2175-3482.n58a12 

ARTIGOS

A singularidade do ofício psicanalítico em um mundo “mcdonaldizado” e “disneyzado”

The singularity of the psychoanalytic craft in a “Mcdonaldized” and “Disneyized” World

Ricardo Azevedo Barreto1 

1Psicólogo graduado pela Universidade de São Paulo (USP). Tem mestrado e doutorado em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela USP. Tem especialização em psicologia hospitalar pelo CEPSIC da Divisão de Psicologia do Instituto Central do Hospital das Clínicas da FMUSP. Teve experiência de treinamento no Butler Hospital (RI-USA). Psicanalista do Círculo Psicanalítico de Sergipe (CPS), filiado ao Círculo Brasileiro de Psicanálise (CBP) e à International Federation of Psychoanalytic Societies (IFPS). Tem experiência de ensino na área da psicanálise. Foi presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise (2014-2017). Foi coordenador do programa de humanização, assim como membro do conselho administrativo do hospital São Lucas em Aracaju-Sergipe por muitos anos. Foi professor titular da Universidade Tiradentes (UNIT) por muitos anos, ensinando nos cursos de psicologia e medicina. Professor de psicologia em cursos de especialização na área da odontologia. É um dos editores da revista Estudos de Psicanálise do Círculo Brasileiro de Psicanálise. É um dos editores regionais para a América do Sul da revista International Forum of Psychoanalysis. Escritor e poeta. Tem experiência de desenvolvimento de trabalhos na área da humanização, articulando psicanálise, psicologia, artes e humanização. E-mail: riazebarreto@gmail.com


Resumo

Este artigo enfatiza a singularidade do ofício psicanalítico. Refere-se a um mundo ‘mcdonaldizado’ e ‘disneyzado’ em que a humanização é uma das perspectivas inestimáveis para o reencantamento do que vem sendo coisificado ao longo dos tempos. Desse modo, busca colaborar para a arte psicanalítica continuar a contribuir para as subjetividades e as culturas.

Palavras-chave Psicanálise; McDonaldização; Disneyzação; Humanização; Singularidade

Abstract

This paper emphasizes the singularity of the psychoanalytic craft. It refers to a ‘McDonaldized’ and ‘Disneyized’ World in which the humanization is one of the invaluable perspectives to the reenchantment of what has been objectified over time. In this way it seeks to collaborate for the psychoanalytic art continuing to contribute for the subjectivities and cultures.

Keywords Psychoanalysis; Mcdonaldization; Disneyization; Humanization; Singularity

A psicanálise não pode ser concebida como uma linha de montagem, assim como o ofício psicanalítico não é uma mercadoria valedoura. Cada psicanalista é único. Qualquer encontro psicanalítico é singular. Ademais, a psicanálise tem em seu cerne a criatividade, e não há uma acepção única sobre essa questão no campo psicanalítico.

Na perspectiva winnicottiana, o viver criativo se correlaciona primariamente à ilusão onipotente de criar o mundo, quando quem faz a maternagem dispõe a condição de proporcionar ao bebê o que necessita. Desse modo, o bebê pode sentir que ele é quem cria os objetos. Nessa abordagem, o ambiente facilitador ou suficientemente bom é ressaltado (ABRAM, 2000).

[...] Winnicott se refere ao fato de que, quando as falhas ambientais ameaçam a continuidade existencial da criança, esta se vê obrigada a deformar o seu verdadeiro self em prol de uma submissão às exigências ambientais [...] (ZIMERMAN, 1999, p. 58).

[...] o emprego que Winnicott faz do paradigma bebê-mãe suficientemente boa, apresentado como uma forma de compreender melhor aquilo que poderia ser provido pela relação analítica, torna-se a base da teoria do holding [...] (ABRAM, 2000, p. 136).

[...] podemos estabelecer que é o setting analítico que fornece o ambiente de holding necessário ao paciente (ABRAM, 2000, p. 138).

As concepções de verdadeiro e falso selves são centrais na abordagem winnicottiana, pois um e outro habitam um mesmo sujeito (ZIMERMAN, 2004).

Apenas o verdadeiro self pode ser criativo, e apenas ele pode sentir-se real. Considerandose que o verdadeiro self se sente real, a existência de um falso self resulta em um sentimento de irrealidade ou de inutilidade (WINNICOTT apudABRAM, 2000, p. 235).

Se o desenvolvimento do verdadeiro self é nuclear na abordagem winnicottiana, abarcando o analista e o analisando, indaga-se se os constructos sócio-históricos contemporâneos são favoráveis ou não ao setting psicanalítico. Não é incomum ouvir sobre a racionalização do trabalho e a desumanização em distintos âmbitos da sociedade, o que afeta, inclusive, o ofício psicanalítico.

Ritzer (1993) menciona que a mcdonaldização da sociedade afeta diferentes âmbitos. Os princípios dos fast-foods se espalham a esferas mais amplas da vida social por meio da busca de eficiência, cálculo, previsibilidade e controle (RITZER, 1993, THORPE et al., 2016).

Entretanto, a psicanálise não pode ser compreendida sem o desenvolvimento do psicanalista autêntico, autenticidade que se constrói no decorrer de sua história de vida e de seu vínculo com sua formação psicanalítica por meio do tripé das instituições psicanalíticas: análise pessoal-estudo da psicanálise-supervisão. O ofício psicanalítico, por conseguinte, não pode ser submetido à lógica contemporânea da produtividade, do controle e da previsibilidade, pois se constitui na e da singularidade.

Bryman (2007) refere-se à disneyzação da sociedade por intermédio da qual os princípios dos parques temáticos da Disney alcançam diferentes âmbitos da sociedade.

Bryman argumenta que a “disneyzação” está no âmago da sociedade de consumo contemporânea.

[...] pode transformar coisas do dia a dia, como fazer compras e comer, em eventos espetaculares e sensacionais. Ao mesmo tempo, no entanto, a tendência a reagrupar coisas num formato sanitário mina a autenticidade de outras experiências e lugares. [...] os princípios por trás da organização de tais parques dominam cada vez mais outras áreas [...] (THORPE et al., 2016, p. 126-127).

Como se pode pensar, o ofício psicanalítico é singular, promovendo experiências de autenticidade e encontros únicos. Lida com os sofrimentos, as dores, as perdas, os lutos, o nonsense e o inominável. Promove não o espetacular, o sensacional, mas o contato com os efeitos do inconsciente e o mal-estar do existir de forma ímpar.

Freud [(1930) 1996] elucida que há um mal-estar na cultura em função da renúncia da liberdade pulsional ou da satisfação dos impulsos em troca de segurança no mundo dito civilizado.

A partir dessa constatação, pode-se compreender que os laços civilizatórios levam ao sofrimento, e as experiências espetaculares não têm potência para o destituir a longo prazo. Além disso, algumas dessas experiências privariam a priori quem não tem privilégios na sociedade de consumo.

Diante do existir contemporâneo, seus sofrimentos e paradoxos, garantir o espaço para a singularidade do ofício psicanalítico, que não é colonizado pela mcdonaldização e pela disneyzação da sociedade, é uma dimensão que instiga e ecoa.

Há muito tenho visto o mundo contemporâneo como uma “pandemia” de coisas ou objetos, da qual a humanização é uma das perspectivas preciosas para o reencantamento do que tem sido coisificado ao longo dos tempos (BARRETO, 2021, p. 135).

Pensa-se, por conseguinte, que os psicanalistas - em seu ofício único - e as instituições psicanalíticas - em sua genealogia e sua diversidade - podem contribuir, e muito, nas intervisões de sua arte para a singularidade plural das subjetividades e das culturas no século XXI, XXII e adiante.

Referências

ABRAM, J. A linguagem de Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter, 2000. [ Links ]

BARRETO, R. A. O cuidado poético-analítico em um mundo pandêmico coisificado. Estudos de Psicanálise, Rio de Janeiro, n. 55, p. 135-146, jul. 2021. Publicação semestral do Círculo Brasileiro de Psicanálise. [ Links ]

BRYMAN, A. The disneyization of society. London: Sage, 2004. [ Links ]

FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). In: _____. O futuro de uma ilusão, o mal-estar na civilização e outros trabalhos (1927-1931). Direção da tradução: Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 73-148. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 21). [ Links ]

RITZER, G. The mcdonaldization of society. Thousand Oaks: Pine Forge, 1993. [ Links ]

THORPE, C. et al. O livro da sociologia. São Paulo: Globo, 2016. [ Links ]

ZIMERMAN, D. E. Manual de técnica psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2004. [ Links ]

ZIMERMAN, D.E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica. Porto Alegre: Artmed, 1999. [ Links ]

Recebido: 10 de Agosto de 2022; Aceito: 28 de Outubro de 2022

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