A psicanálise não pode ser concebida como uma linha de montagem, assim como o ofício psicanalítico não é uma mercadoria valedoura. Cada psicanalista é único. Qualquer encontro psicanalítico é singular. Ademais, a psicanálise tem em seu cerne a criatividade, e não há uma acepção única sobre essa questão no campo psicanalítico.
Na perspectiva winnicottiana, o viver criativo se correlaciona primariamente à ilusão onipotente de criar o mundo, quando quem faz a maternagem dispõe a condição de proporcionar ao bebê o que necessita. Desse modo, o bebê pode sentir que ele é quem cria os objetos. Nessa abordagem, o ambiente facilitador ou suficientemente bom é ressaltado (ABRAM, 2000).
[...] Winnicott se refere ao fato de que, quando as falhas ambientais ameaçam a continuidade existencial da criança, esta se vê obrigada a deformar o seu verdadeiro self em prol de uma submissão às exigências ambientais [...] (ZIMERMAN, 1999, p. 58).
[...] o emprego que Winnicott faz do paradigma bebê-mãe suficientemente boa, apresentado como uma forma de compreender melhor aquilo que poderia ser provido pela relação analítica, torna-se a base da teoria do holding [...] (ABRAM, 2000, p. 136).
[...] podemos estabelecer que é o setting analítico que fornece o ambiente de holding necessário ao paciente (ABRAM, 2000, p. 138).
As concepções de verdadeiro e falso selves são centrais na abordagem winnicottiana, pois um e outro habitam um mesmo sujeito (ZIMERMAN, 2004).
Apenas o verdadeiro self pode ser criativo, e apenas ele pode sentir-se real. Considerandose que o verdadeiro self se sente real, a existência de um falso self resulta em um sentimento de irrealidade ou de inutilidade (WINNICOTT apudABRAM, 2000, p. 235).
Se o desenvolvimento do verdadeiro self é nuclear na abordagem winnicottiana, abarcando o analista e o analisando, indaga-se se os constructos sócio-históricos contemporâneos são favoráveis ou não ao setting psicanalítico. Não é incomum ouvir sobre a racionalização do trabalho e a desumanização em distintos âmbitos da sociedade, o que afeta, inclusive, o ofício psicanalítico.
Ritzer (1993) menciona que a mcdonaldização da sociedade afeta diferentes âmbitos. Os princípios dos fast-foods se espalham a esferas mais amplas da vida social por meio da busca de eficiência, cálculo, previsibilidade e controle (RITZER, 1993, THORPE et al., 2016).
Entretanto, a psicanálise não pode ser compreendida sem o desenvolvimento do psicanalista autêntico, autenticidade que se constrói no decorrer de sua história de vida e de seu vínculo com sua formação psicanalítica por meio do tripé das instituições psicanalíticas: análise pessoal-estudo da psicanálise-supervisão. O ofício psicanalítico, por conseguinte, não pode ser submetido à lógica contemporânea da produtividade, do controle e da previsibilidade, pois se constitui na e da singularidade.
Bryman (2007) refere-se à disneyzação da sociedade por intermédio da qual os princípios dos parques temáticos da Disney alcançam diferentes âmbitos da sociedade.
Bryman argumenta que a “disneyzação” está no âmago da sociedade de consumo contemporânea.
[...] pode transformar coisas do dia a dia, como fazer compras e comer, em eventos espetaculares e sensacionais. Ao mesmo tempo, no entanto, a tendência a reagrupar coisas num formato sanitário mina a autenticidade de outras experiências e lugares. [...] os princípios por trás da organização de tais parques dominam cada vez mais outras áreas [...] (THORPE et al., 2016, p. 126-127).
Como se pode pensar, o ofício psicanalítico é singular, promovendo experiências de autenticidade e encontros únicos. Lida com os sofrimentos, as dores, as perdas, os lutos, o nonsense e o inominável. Promove não o espetacular, o sensacional, mas o contato com os efeitos do inconsciente e o mal-estar do existir de forma ímpar.
Freud [(1930) 1996] elucida que há um mal-estar na cultura em função da renúncia da liberdade pulsional ou da satisfação dos impulsos em troca de segurança no mundo dito civilizado.
A partir dessa constatação, pode-se compreender que os laços civilizatórios levam ao sofrimento, e as experiências espetaculares não têm potência para o destituir a longo prazo. Além disso, algumas dessas experiências privariam a priori quem não tem privilégios na sociedade de consumo.
Diante do existir contemporâneo, seus sofrimentos e paradoxos, garantir o espaço para a singularidade do ofício psicanalítico, que não é colonizado pela mcdonaldização e pela disneyzação da sociedade, é uma dimensão que instiga e ecoa.
Há muito tenho visto o mundo contemporâneo como uma “pandemia” de coisas ou objetos, da qual a humanização é uma das perspectivas preciosas para o reencantamento do que tem sido coisificado ao longo dos tempos (BARRETO, 2021, p. 135).
Pensa-se, por conseguinte, que os psicanalistas - em seu ofício único - e as instituições psicanalíticas - em sua genealogia e sua diversidade - podem contribuir, e muito, nas intervisões de sua arte para a singularidade plural das subjetividades e das culturas no século XXI, XXII e adiante.