Nos versos de Carta ao Tom 74, Vinicius de Moraes (1977) canta a nostalgia de outra época, afirma que a tristeza era mais bela; em outra estrofe, fala de não mais olhar a beleza do Cristo Redentor, pois o que resta é uma janela quadrada. Partimos da analogia com a música para discutir o domínio dos diagnósticos de transtornos mentais na contemporaneidade, onde ficam a escuta e a singularidade quando o sujeito passa a ser um transtorno mental marcado por uma nomenclatura, sem a possibilidade de transformação tal qual uma janela quadrada por onde não consegue ver mais adiante. Como diz a bela canção, “é preciso inventar de novo o amor”.
Diga quem você é, me diga
É através da palavra que Freud descobre o caminho para compreender as regiões desconhecidas da mente humana, o que está guardado, recalcado, bem como a origem dos conflitos inconscientes. O destemido pai da psicanálise se vê como um aventureiro dotado de ousadia, tenacidade e de natureza indagadora. E afirma que sua criação irá “perturbar o sono da humanidade” (Gay, 2021, p. 21). Ao longo da sua história, Freud articulou a psicanálise nos princípios da prática clínica e da teoria, e o seu legado será eterno. No entanto, ele próprio suscita reflexões sobre os efeitos da cultura sobre o sujeito e seus desdobramentos.
A problematização de Freud percorre os dias atuais, quando os manuais psiquiátricos pautam o diagnóstico e a hegemonia do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) atrelado ao tratamento medicamentoso soterra a subjetividade e a forma singular em buscar se haver com o próprio sofrimento (Fernandes; Silva & Barros, 2022).
Na clínica médica, o diagnóstico é definido de forma imediata, objetiva e direta para chegar à conclusão da doença. Ou seja, em relação a um órgão que não está funcionando corretamente, quais funções estão comprometidas e quais são as causas dessa alteração? São esses os pontos a serem pensados com o propósito de chegar à resposta. Além disso, cabe realizar o diagnóstico médico através de um exame observável e direto, dentro de uma perspectiva biológica. E a singularidade do indivíduo fica em segundo plano (Finelli & Mendonça, 2015). Dessa forma, o diagnóstico médico é considerado um conjunto de sinais e sintomas que não dizem respeito exclusivamente aos transtornos mentais (Lopes, 2018).
Na clínica médica, a função diagnóstica parte da observação de sinais específicos e do estado patológico exposto no momento. A investigação ocorre através da anamnese, de um exame direto e das condições biológicas do paciente, para se chegar a uma hipótese sobre o que acomete o sujeito, especificando sua doença e informando a condução do tratamento (Dor, 1991).
Ao falar sobre diagnóstico psicopatológico, concluímos que é da ordem pluridimensional, em que várias dimensões do sujeito são analisadas até chegar a uma possibilidade diagnóstica. No momento da avaliação, são observados fatores, como no exame psíquico em que se verifica o estado mental e as alterações das funções de modo integral. Desse modo, inicialmente, são considerados alguns aspectos das funções psíquicas: consciência, memória, cooperação, higiene pessoal, orientação, atenção. Assim, é imprescindível observar esses fatores na condução de um diagnóstico (Lopes, 2018).
Se o objeto de estudo da psiquiatria é o fenômeno observável, a psicanálise direciona sua escuta para o detalhe, o singular, aquilo que está sendo dito, mas não escutado. Isso não quer dizer que a terapia psicanalítica nega a proposta médica; pelo contrário, reconhece enquanto campo de conhecimento teórico e parte da prática clínica, pois a junção da teoria à prática vai conduzir ao êxito no tratamento. Os manuais diagnósticos são relevantes para se verificar os fenômenos apresentados e a possibilidade de justificar uma sintomatologia que possa levar ao diagnóstico (Fernandes; Silva & Barros, 2022).
Na clínica psicanalítica, não há uma ideia montada de averiguação. O recurso do analista é a escuta do material verbal do paciente, e é através da fala que proporcionará ao analisando testemunhar a própria cegueira e a verdade do seu desejo. O diagnóstico se apoia na avaliação subjetiva atravessada pela fala do paciente e pela escuta do analista (Dor, 1991).
Quando tratamos em psicanálise, questionamos a finalidade dos manuais e a função de um diagnóstico. Lacan e seus interlocutores consideram que o diagnóstico em psicanálise é de ordem estrutural: a escuta do analista busca localizar a estrutura do sujeito. Para a psicanálise, é a partir da relação analítica que a estrutura psíquica é percebida. Na fala direcionada ao analista na relação transferencial, haverá a possibilidade de lidar com os conflitos inconscientes. Dessa forma, para a psicanálise, a função diagnóstica é conduzir e orientar o tratamento (Finelli & Mendonça, 2015).
Ao direcionar a discussão para uma perspectiva psicanalítica, devemos levar em consideração um dos maiores manuais de psicopatologia do Brasil, referência na formação de psicólogos e psiquiatras: Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais (Dalgalarrondo, 2008). Em seu livro, o autor propõe que não se deve reduzir o indivíduo por completo a conceitos psicopatológicos, pois nem todo rigor científico é capaz de conceitualizar todas as facetas do ser humano; em todo ser há algo oculto e a priori, sem explicações. Pensamos em Van Gogh e o repertório extenso de psicopatologias mencionadas a respeito dele. O senso comum o considera louco, e os estudiosos o colocam como esquizofrênico, maníaco-de-pressivo e tantos outros rótulos. Acontece que, ao olhar para a patologia, se esquece do sujeito. Afinal, um diagnóstico não explicará sua vida, sua biografia e sua obra.
Dessa forma, Ceccarelli (2010) alerta os profissionais da saúde e do psiquismo humano quanto às recorrentes atualizações do DSM e como, mesmo involuntariamente, estão sujeitos patologizar a normalidade. A psicanálise, enquanto dispositivo libertador, não deve entrar no jogo dos manuais, pois sua via é se colocar numa posição crítica perante isso.
É uma derrota para o sujeito não conseguir mais se firmar diante de seus desejos e de sua singularidade, quando é tratado imerso em uma massa e criado à margem de um clone, à base de receitas e da mesma dosagem de medicamento, independentemente do que sente. Percebemos, ao longo da história, os pontos importantes do tratamento farmacológico, modelo utilizado para substituir antigos tratamentos e atualmente de extrema importância quando se fala em saúde mental. No entanto, é ilusório acabar com o sofrimento psíquico por meio das pílulas e não considerar palavra e a escuta (Roudinesco, 2000).
O diagnóstico psiquiátrico está ligado ao uso de medicamentos, portanto atrelado a um processo ideológico e político com a finalidade de rotular comportamentos que se afastam da moralidade social, que não se adaptam ao “normal” e transgridem uma imposição de normalidade (Dalgalarrondo, 2008).
Quando as políticas de saúde são cada vez mais pautadas pelo DSM, uma ideologia normativa carregada de um saber científico transforma a singularidade em anomalias. E a espontaneidade em desvios, gestos habituais são tratados como patológicos. Os manuais são formas de controle e a existência humana é aniquilada diante do olhar patologizante (Ceccarelli, 2010).
Acerca dos diagnósticos psiquiátricos, sua relação com a farmacologia e a constituição subjetiva, Roudinesco (2000) diz: “Se o termo ‘sujeito’ tem algum sentido, a subjetividade não é mensurável nem quantificável: ela é a prova, ao mesmo tempo visível e invisível, consciente e inconsciente, pela qual se afirma a essência da experiência humana” (p. 18).
Dessa forma, atribuímos a importância dos manuais diagnósticos no tocante a discussões com outras áreas, e propomos diferenciar a ordem psíquica do que acomete o sujeito e quais procedimentos realizar em cada situação. Além disso, cabe destacar que não é um diagnóstico nem os medicamentos nem mesmo a psicanálise que vão curar o sujeito. Entretanto, quando necessário, esses acompanhamentos de forma conjunta tendem a levar ao bem-estar, “por isso, a cura não é outra coisa senão a transformação existencial do sujeito” (Roudinesco, 2000, p. 16).
Considerações finais
Este ensaio buscou discutir acerca dos manuais diagnósticos, o efeito do diagnóstico na subjetividade e o uso do medicamento como resposta para as questões psíquicas que necessitam do atravessamento pelo viés da palavra. Assim, o trabalho deve ser pautado para além de um diagnóstico, pois requer entender qual é sua função na clínica, se desvinculando do engessamento que o diagnóstico em transtorno mental carrega. Afinal de contas, o sujeito tem desejo.
Dessa maneira, o modelo psicopatológico difundido atualmente busca limitar o sujeito dentro de sua própria existência. A cada atualização do DSM, são incluídos novos transtornos mentais que rotulam e patologizam o sujeito, promovendo a perda do caráter subjetivo. Entre a tensão criadora e a investida em limitar o ser humano e sua individualidade, a proposta é se afastar dos manuais, suscitar reflexões sobre a prática profissional e acentuar a validade dos acompanhamentos e seus benefícios, destacando o caminho da palavra e da escuta.













