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Ide

versão impressa ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) v.32 n.49 São Paulo dez. 2009

 

EM PAUTA - O SONHO E A PELE

 

O sonho e as vísceras

 

The dream and the guts

 

 

Luciana Saddi*

Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo
Revista da Folha &– Jornal Folha de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A coluna Fale com Ela da Revista da Folha &– Jornal Folha de São Paulo é colocada no divã. A autora aborda, brevemente, uma série de considerações históricas sobre as colunas femininas em Jornais e Revistas no país. Considera a citada coluna como um exercício de Clínica Extensa e de divulgação da Psicanálise ao conseguir um efeito interpretativo como acréscimo do método psicanalítico a esse tipo de material jornalístico. Depois, toma como caso clínico uma coluna, demonstrando o tipo de pensamento onírico e literário que envolve a construção de uma resposta à pergunta de um leitor, pensamento análogo ao da clínica psicanalítica.

Palavras-chave: Colunas femininas, Sonho, Literatura, Clínica extensa.


ABSTRACT

The column ‘Fale com Ela’ from the weekly magazine Revista da Folha, part of the newspaper Folha de São Paulo, is put on the couch. The author briefly approaches a series of historical considerations about the feminist columns in the country’s newspapers and magazines. She considers the cited column as an exercise of Extended Clinic, and of airing Psychoanalysis, managing to have an interpretative effect with the use of the psychoanalytic method in this type journalistic material. The author then takes a column as a clinical case, demonstrating the type of dream and literary thought that involves the construction of a response to a reader’s question, analogous to the thought used in clinical psychoanalytic work.

Keywords: Feminist columns, Dream, Literature, Extended clinic.


 

 

Introdução

Quando a editora da Revista da Folha me convidou para participar de um teste para responder perguntas de leitores na coluna Fale com Ela, fui tomada não apenas pela surpresa, mas por uma série de fragmentos de idéias e imagens, semelhantes ao que imaginamos que sejam os bastidores da produção do sonho.

Alguns desses fragmentos são como lembranças de minha curiosidade sobre o início da divulgação da Psicanálise em São Paulo, porque não tive como comprovar sua veracidade. Outros vieram do hábito de ler colunas desse tipo e de saber que alguns escritores da nossa literatura se envolveram com essa escrita em Revistas, Jornais e, mais recentemente, em blogs. Há também retalhos de memórias, traços de afetos e imagens sobrepostas de minhas experiências pessoais.

Logo abaixo esses fragmentos serão expostos da mesma forma como organizamos e comunicamos o relato dos sonhos, função da Rotina que, segundo Hermann (1980/1997), impõe ordem às vísceras do pensamento, de onde os sonhos provêem - passaporte para que vislumbremos o avesso da consciência.

• A história da relação entre a Psicanálise e São Paulo é permeada por sua presença no Jornal Folha da Manhã, do advogado e empresário Nabantino Ramos1. O Jornal oferecia, às vezes, espaço para que Durval Marcondes2 comentasse psicanaliticamente algum fato relevante ocorrido na cidade.

• A Folha da Manhã, por certo período, publicou uma coluna dedicada a responder problemas sentimentais de leitores, coluna pautada pela tônica de despertar o leitor para sua própria vida mental3. Segundo Yeda Ramos, a coluna se chamava João e Maria.

• As colunas das revistas femininas e as de suplementos femininos em Jornais dedicavam-se a aconselhar, julgar, indicar posturas, discutir novas idéias sobre a condição feminina ou até mesmo propagandear sua submissão aos homens. Foram importantes meios de transmissão de uma ideologia ou espaços privilegiados para a troca de informações sobre a mulher e seu novo papel social. Carmen da Silva (Buitoni, 2009), por exemplo, psicóloga e colunista da Revista Claudia, editora Abril, marcou época e muito contribuiu para o movimento feminista.

• Escritores do porte de Nelson Rodrigues (Myrna, 2002) e Clarice Lispector (2006, 2008) (assinando, sob pseudônimo, colunas que respondiam perguntas de supostas leitoras ou que tratavam do universo feminino (casa, beleza, cosméticos, etc.).

• Helio Pelegrino, Eduardo Mascarenhas, Gayarsa, Flavio Gikovate, Contardo Caligaris, Beth Milan e Anna Verônica Mautner. Colunistas de diversos jornais e revistas.

• Senti o peso de escrever sobre Psicanálise, representá- la diante de um público amplo e desconhecido.

• A divulgação da Psicanálise é uma das minhas questões viscerais. Quantas são as formas de Clínica Extensa4? Como contribuir para o desenvolvimento do nosso ofício preservando seu método?

• Traição: ruptura com a Clínica Padrão5. Desafio.

• Medo do julgamento dos colegas e dos leitores, caso passasse no teste.

• Linguagem...linguagem, linguagem.

• O filme de Almodóvar, “Fale com ela”. A personagem que representa “Ela” está em coma, e provoca uma comovente paixão, que a faz despertar.

• A psicanálise e a palavra escrita/falada como consolo e sabedoria.

Tomada por orgulho e alegria participei do teste, haveria melhor reconhecimento à dedicação que tenho aos meus ofícios de psicanalista e escritora? A editora me enviou algumas perguntas de leitor, as respondi. Após 30 ou 40 dias de expectativa e ansiedade, ela ligou: combinamos que eu faria a coluna por poucos meses, veríamos então os resultados.

Escrevo o Fale com Ela há mais de dois anos, o número de emails de leitores vem crescendo, procuro responder a todos na própria coluna, mas sempre tomo o cuidado de enviar aos leitores algumas idéias ou perguntas para garantir a eles que recebi com afeto suas questões. Sei que nessa função represento a mim, a meus colegas e a Psicanálise. Nem sempre temos a oportunidade de divulgá-la, portanto, é preciso cuidar da sorte. Considero genuíno qualquer meio de divulgação de nosso oficio desde que as características próprias do método analítico sejam respeitadas, assim como certas condições necessárias ao seu exercício.

A Folha nos dá um e-mail com senha particular, isso garante a privacidade do leitor e o sigilo profissional. Eles zelam por isso e pedem que eu altere a senha trimestralmente para evitar invasão. Quando há alguma mensagem com comentários sobre a coluna, envio ao editor. Recebo perguntas de toda ordem, curtas, poucas linhas; longas, páginas e páginas de email com leitores a contar suas vidas, casos amorosos, medos e frustrações. Alguns são bem jovens, outros nem tanto. Uns poucos brigaram comigo porque não os entendi ou se sentiram usados, não viram em mim uma vontade genuína de ajudá-los &– é que preciso matar dois coelhos de uma só vez e meu tempo é exíguo. Até o momento dois se revoltaram comigo de forma brutal, segundo o editor eram comentários que extrapolavam a coluna, por isso não foram publicados na sessão de cartas ao leitor.

Um menor número de leitores comenta as respostas, faz elogios ou tece comentários. Alguns reclamam de consultas que fizeram com analistas; outros, por meio da coluna, percebem que a psicanálise pode ser diferente da idéia que tinham. Poucos colegas comentam comigo esse trabalho, quando o fazem são bastante elogiosos.

 

O trabalho da consciência &– auto-análise

As colunas femininas atuais, tanto em Revistas como em Jornais, ampliaram seus temas, versam sobre saúde, psicologia, conselhos jurídicos, educacionais, sentimentais e sexuais. Aconselham, julgam e orientam, prestam serviços, divulgam informação científica, tratam da condição da mulher na sociedade contemporânea ou falam do universo feminino. Seguem diferentes linhas editorias e atendem a segmentos sociais ou temáticos específicos, mesmo assim, ainda apresentam a tônica (não o conteúdo) das primeiras colunas para mulheres, são suas herdeiras.

Não pretendo fazer uma retrospectiva histórica das colunas femininas em Jornais e Revistas no país, apenas falar de algumas semelhanças e diferenças com a coluna Fale com Ela. A coluna é escrita por uma mulher e podemos considerá-la herdeira da tradição de colunas femininas, que remonta aos anos 40/50 na história do nosso jornalismo. Colunas ideológicas que teciam considerações sobre o universo feminino, de aconselhamento ou que respondiam a problemas sentimentais.

A coluna em questão, mote desse artigo, difere das demais colunas femininas, não apenas porque boa parte dos leitores ou dos que se dirigem a ela é constituída por homens6, mas também porque espelha a inserção social da Psicanálise e os meios de sua divulgação7. Além disso, sua linguagem procura despertar o leitor para o mundo mental, fantasias e sentimentos; abstendose de aconselhar. E, certas respostas, alcançam algum efeito interpretativo. A coluna não propõe uma ruptura com a tradição, porém aposta num certo avanço conquistado pelo acréscimo do método da Psicanálise8 a esse diálogo com o leitor.

Então como escrever um texto, resposta a uma pergunta, para um público amplo e desconhecido, que se aproxime formalmente do método psicanalítico? Faço um parêntese agora, escrever sobre os conteúdos tratados pela psicanálise não requer grande habilidade e, provavelmente, produz um texto semelhante ao aconselhamento, julgamento ou orientação, textos que já freqüentam esse tipo de coluna. Um texto psicanalítico, mesmo que para público leigo, precisa guardar a forma da psicanálise: conversar sem dar resposta, fazer pensar sem ser alguma ideologia, fertilizar a terra devassada, legitimar sofrimentos, enfim, dedilhar a alma do leitor. O colunista como testemunha (Gagnebin, 2006) possibilita a narração do insuportável para quem escreve e para quem lê.

Nossa tônica é nos abstermos de nós, para deixar surgir o outro, para que sua existência se realize por meio de sua fala, corpo e sentimentos. Conselhos, nem pensar; seria interferir na mais sagrada de nossas crenças: sabemos pouco, não temos bola de cristal nem somos onipotentes. Então, como escrever numa coluna chamada Fale com Ela sem ferir a ética da Psicanálise? Como responder a perguntas de leitores sem trair o ofício?

Somos conhecidos por não responder diretamente a perguntas &– faz parte da técnica. Também não usamos diretamente nossas experiências de vida, não somos modelos nem mestres. Nossas vidas pessoais não são mais coroadas do que as dos outros, não somos melhores pais, mães, filhos, portanto, não somos exemplos a ser seguidos. Sequer nosso oficio faz muito sucesso, não rende uma soma invejável de dinheiro nem confere muito prestígio social, principalmente depois dos ataques vindos da Psiquiatria nos anos 80.

Nesse ponto há um encontro entre o escritor de ficção e o psicanalista; não digo o escritor consagrado, refiro-me à maioria dos que enfrentam o desafio de criar um texto ficcional. Há ainda muitos outros pontos de aproximação: a clínica psicanalítica e a criação ficcional transformam experiências pessoais em histórias, narrativas, personagens, revelam fatos e descrevem mundos; tudo isso criado pela força das palavras. Os textos nos tocam em lugares ainda sem nomes, despertam emoções, organizam experiências que estavam lá, mas que ainda não tinham sido descritas e provocam novos pensamentos assim como as analises que realizamos. Não é a toa que Herrmann9 propõe a literatura como o análogo da Psicanálise. Pois essa força para criar e descrever, produzida pela ficção, é testemunha da história e reveladora de sentido por meio de um jogo melindroso que envolve linguagem e narrativa. Não falamos de identidade entre ficção/literatura e psicanálise, afirmamos uma semelhança, pois respeitamos as diferenças nos procedimentos, técnicas e objetivos.

Então, para escrever a coluna procurei respeitar as condições de produção dos sonhos: associação livre de idéias e de imagens, retalhos de sentido, provavelmente o que Bion conceitua como elementos alfa10. Elaborados numa escrita entre a ficção e o ensaio, conforme a psicanálise que pratico e meus conhecimentos de escrita ficcional. Há transferência durante a leitura/ compreensão da pergunta, que gera um movimento semelhante ao início e a forma do presente texto: fragmentos, matéria do sonho. Depois, há um salto indescritível e singular no processo criativo, algo que não é possível distinguir, é o caminho entre os fragmentos de imagens e experiências até as primeiras frases de um texto. No trajeto há intuição e aposta, há um deixar-se que remete a associação livre de idéias, e, de repente, fisgamos algo, lata ou peixe, não importa, é preciso um começo, um fim, um naco de idéia ou palavra pra se agarrar. Depois é transpiração, conhecimento de psicanálise, exercício de linguagem e um bom desfecho. Processo análogo ao trajeto entre a reverie (Bion, 1962/1991a; 1965/1991b) do analista e sua fala. O sonho, a interpretação e o texto nascem das nossas vísceras.

 

O caso: e-mail para a coluna Fale com ela

A carta se refere à insuportável perda do marido, o grande amor de sua vida. A viúva descreve quão mal se sente a cada vez que dele esquece ou nas poucas vezes em que se diverte11. Procuro usar as palavras do leitor, mas edito a pergunta, pois o espaço é exíguo, busco apresentar com precisão o problema; é um bom treino para o escritor apurar a linguagem. Enquanto leio e reescrevo a pergunta sou tomada por uma série de impressões. A seguir apresento a pergunta por mim editada, minhas impressões em fragmentos, a resposta e o processo de sua elaboração

Pergunta:
Meu marido morreu há dois anos e continuo péssima, a vida perdeu o sentido. Queria morrer, mas não tenho coragem! Há momentos em que sinto uma angústia sufocante, uma dor tremenda e o pior é que, depois de ter um momento alegre, a dor é duplicada e perco as forças até pra trabalhar.

Impressões em fragmentos:
• A dama vestida de preto com a foice na mão, filme do Wood Allen.

• Uma historia que meu analista me contou de um adulto, filho, que se joga na cova do pai no momento do enterro.

• “éramos um...” Naco de um ensaio de Montaigne sobre a perda de seu melhor amigo.

• “Você era meu norte, meu sul, meu leste e meu oeste...apaguem as estrelas, empacotem a lua, esvaziem os oceanos e varram as florestas.” Versos/ lembranças de um poema12 de Auden.

• “Oh pedaço de mim, oh metade arrancada de mim.” Trecho mínimo de uma música de Chico Buarque.

• Luto e Melancolia, melancolia, melancolia, melancolia. Freud.

• Simbiose.

• A separação por morte de irmãs gêmeas. A sobrevivente perde seu mundo, sente-se morta, precisa ressignificar sua existência, descobrir quem ela é. Nascer.

• Lágrimas.

• Renascer só é possível para quem já morreu e nesta vida morremos algumas vezes.

• Viver para e pelo outro é um excelente arranjo, tira-se o peso de carregar os próprios desejos.

• Quando a perda é insuportável e a vida perde o sentido, em que se agarrar?

• Conheço a dor e a culpa de sobreviver e o medo de viver. Angústia, angústia e angústia.

• Ela tem todo o direito de se matar. É muito chato ouvir: com o tempo passa, deixa de loucura, a vida é uma dádiva &– é coisa de quem não sabe amar...Com o tempo piora. Cada um sabe o quanto suportar.

Resposta:
Seu marido não foi o único levado pela morte, a “dama branca” também a levou. Vocês eram um. Até o mundo se foi - este era feito de seu amado e mais ninguém. Por isso viver tornou-se um tormento e uma maldição. Claudicando, com a alma amputada, seguir para onde e com o quê? Nem a morte garante o reencontro almejado, apenas carrega o fim dessa dor.

Seria fácil dizer: renasça, reinvente-se, mas de onde tirar a matéria e a energia para esse empreendimento? Você sente culpa por sobreviver a ele e por se divertir quando, infelizmente, ele não está mais aqui para compartilhar os bons momentos.

A vida é uma dádiva; os instantes alegres, um milagre; aposto que ele gostaria muito de vê-la feliz - esse homem excluído da vida, só poderá viver por você. Faça das coisas mais triviais uma homenagem ao seu morto e siga, mesmo capengando, porque ele simplesmente não pôde continuar e você, de forma ininteligível, deve a ele aquilo que ainda pode usufruir &– ele merece o melhor de você, tanto faz se no amor ou na morte. Quem sabe, num futuro distante, descubra que com ele ou sem ele, era você, sempre você.

 

Resposta no divã - O processo de elaboração do texto

O tema morte costuma entrar pelo elevador de serviço em nossa cultura. Relegado, recebe pouco espaço e quase nenhum ouvido, embora, paradoxalmente, seja nossa única certeza. É desconfortável falar em morte, suicídio, dor e culpa. A pergunta propõe uma ruptura com a resistência cotidiana que temos com a finitude.

Da mesma forma que é impossível analisar sem conhecimento de algumas teorias analíticas, sem capacidade de relacioná-las, a escrita ficcional ou ensaística exige familiaridade com a produção literária.

Na elaboração da resposta vemos algumas transformações: a dama vestida de negro, imagem desgastada da morte é trocada pela “dama branca”13, referência vinda do poema de Manuel Bandeira, tanto o poeta, como a obra foram atormentados pela doença e morte. Logo em seguida encontramos uma frase que alude ao ensaio de Montaigne14 sobre a morte de seu melhor amigo. O mundo desfeito veio de Auden. Procuro imagens que falem da brutalidade de uma simbiose desfeita, do horror e solidão da perda de si mesmo na partida do outro, sem moralidade. Ao analista cabe certa dose de simbiose. Nosso poder heurístico, que integra cura e conhecimento, se realiza no movimento de perder-se no outro - somos seqüestrados pela transferência15, depois, pagamos o resgate em longa negociação.

Segundo a Teoria dos Campos essa é a função terapêutica da psicanálise, exibir e levar em consideração o emergente. Trata-se de penetrar e de identificar as entranhas das redes que suportam as representações de homem e mundo. Tomar o discurso do paciente/leitor por seu valor de ruptura de campo implica em exercício da função terapêutica, significa descoberta e quebra da rotina psíquica do sujeito humano. A função terapêutica revela diretamente uma verdade intrínseca e deixa ao encargo do paciente/leitor a elaboração desse momento de crise. Promove sentido e saber singulares. Daí deriva a opção por referências da literatura. A linguagem mais próxima da ficção é mais fiel no processo de revelar a comovente e absurda falta de saída da leitora que enviou a pergunta.

Em Luto e Melancolia (Freud, 1915/1980), Freud introduz a noção de trabalho de luto: descreve a necessidade que o aparelho psíquico tem de repetir impressões indigestas, insuportáveis ou sem sentido, fazer ligações, num brutal esforço em direção à superação do trauma. A perda do objeto pode retirar o interesse no mundo, o sujeito se concentra em sua própria dor, amplia o apego ao objeto perdido e enterra-se com o morto - melancolia. Ou, pode levar à elaboração do desapego, por meio do ódio ao objeto perdido ou por novas ligações, enterra-se o morto - luto. Esses dois movimentos oscilam, convivem lado a lado durante um longo período e também são entremeados por instantes maníacos (Klein, 1940/1996). A decisão final, se é que existe, depende, segundo Freud, do tipo de vínculo que se faz com o objeto: narcísico ou anaclítico.

Considerando o amor da leitora pelo marido - até onde pude sentir - optei por lhe aconselhar um caminho que respeitasse a ligação narcísica. Propus usufruir de alguma porcentagem de prazer livre da culpa e da angústia esmagadora; na esperança de que descobrisse que sempre viveu por conta própria, mesmo sem perceber.

Alguns dias depois da Revista publicar a resposta, recebi o seguinte e-mail de um leitor:

Leitor: nossa, que linda a sua última coluna na revista da folha.
Eu: Muito obrigada. Por curiosidade, o que te encantou nela?
Leitor: o final da coluna: ...no futuro distante, com ou sem o outro, é sempre a gente... e só a gente.

 

Referências

Bion, W.R. (1991a). Learning from experience. London, Karnac. (Trabalho original publicado em 1962)

Bion, W.R. (1991b). Transformacions. London, Karnac. (Trabalho original publicado em 1965) (Nota 17)

Buitoni, D. (2009). Mulher de papel: a representação da mulher pela imprensa feminina brasileira. São Paulo: Summus.

Herrmann, F. (2005) Clínica extensa. In Barone, L. M. C.. (Coord.), A psicanálise e a clínica extensa (pp. 17-31). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Freud, S. (1980). Luto e melancolia. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 14, pp. 275-291). Rio de Janeiro, Imago. (Trabalho original publicado em 1915).

Gagnebin, J. M. (2006). Memória, história, testemunho. In J. M. Gagnebin, Lembrar escrever esquecer (pp. 49-57). São Paulo: Ed. 34.

Herrmann, F. (1997). O momento da psicanálise. In. Herrmann, Psicanálise do quotidiano (pp. 11-26). Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalho original publicado em 1980)

Klein, M. (1996). O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In M. Klein, Amor, culpa e reparação e outros trabalhos: 1921-1945 (pp. 385-412). Rio de Janeiro, Imago. (Trabalho original publicado em 1940).

Lispector, C. (2006). Correio feminino (Aparecida M. Nunes, org.). Rio de Janeiro: Rocco.

Lispector, C. (2008). Só para mulheres (Aparecida M. Nunes, org.). Rio de Janeiro: Rocco.

Montaigne, M. de (2002). Da amizade. In M. de Montaigne, Os ensaios, livro I (pp. 273-291). São Paulo: Martins Fontes, São Paulo.

Myrna (Pseud.) (2002). Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo: o consultório sentimental de Nelson Rodrigues (Coleção das Obras de Nelson Rodrigues). São Paulo: Companhia das Letras.

 

 

Endereço para correspondência
Luciana Saddi
Praça Morungaba, 66
01450-090 São Paulo &– SP
tel: 11 99837195
E-mail: lusaddi@uol.com.br

Recebido: 20/09/2009
Aceito: 30/10/2009

 

 

* Psicanalista membro associado da SBPSP, mestre em psicologia clínica PUC-SP, colunista da Revista da Folha &– Jornal Folha de São Paulo, autora do livro, O amor leva a um liquidificador, Ed. Casa do Psicólogo.
1 Admirador da Psicanálise, amigo de Durval Marcondes e analisando desde a vinda da Dra. Koch, reconheceu os benefícios do tratamento, despendeu recursos para sua divulgação ao participar da fundação da Revista Brasileira e ao promover um programa de rádio realizado pela analista Virgínia Bicudo. Ao final de sua vida foi reconhecido como membro da SBPSP.
2 Psiquiatra e pioneiro da Psicanálise em São Paulo fundador da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e foi responsável pela vinda da primeira analista, no final dos anos 30, Adelaide Koch.
3 Informação obtida em entrevista realizada com D. Yeda Ramos, viúva de Nabatino, que disse ser ela quem respondia as perguntas e que se pautava na vida mental do leitor para elaborar as respostas.
4 Conceito que se refere ao método psicanalítico usado fora do consultório: análises da cultura, da literatura e dos mitos. Implica também em outras práticas clínicas: grupos, famílias, hospitais, escolas, consultas médicas, etc, pois distingue do setting usual técnicas: diversos caminhos para que o método ocorra. O que está em jogo é a função terapêutica que garante a coincidência entre conhecimento e cura. (Herrmann, 2005).
5 Clínica padrão é o nome com que a Teoria dos Campos convencionou chamar as análises de consultório que procuram seguir o modelo da análise didática. Em última instância, é a própria análise regulamentar em forma de lei e de manual do usuário. Por isso a insistência na operação essencial do método da psicanálise, a ruptura de campo. Para obtermos a liberdade de praticá-la do modo mais adequado e conveniente aos nossos propósitos em conformidade com a queixa e demanda do paciente e também com a escuta do analista. (Herrmann, 2005).
6 Reflexo das mudanças ocorridas na posição social dos homens e na relação homem/mulher. É interessante notar que para os homens, no campo do aconselhamento em Revistas masculinas, não havia uma conversa, até os anos 70/80 de homem para homem, sobre problemas sentimentais, criação de filhos, dificuldades no trabalho ou questões sobre a condição masculina. Os homens ganham espaço em periódicos exclusivamente masculinos e fazem perguntas sobre desempenho sexual por volta dos anos 80.
7 A divulgação da Psicanálise em São Paulo é fruto de sua inserção nas classes sociais privilegiadas e educadas. Os leitores de Jornais e Revistas fazem parte dessa elite. A inserção social da Psicanálise em outras camadas sociais dependeria de mudanças nos sistemas de saúde pública e na própria concepção atual do fazer psicanalítico.
8 O método psicanalítico, segundo a Teoria dos Campos, se dá por ruptura de campo, toda a relação comporta um campo - é uma ordem produtora de sentidos. Um campo rompe-se quando as regras que o determinam se tornam conhecidas. Quando uma nova representação surge cria-se um efeito de tontura e vertigem, pois a cada vez que um campo é rompido forma-se um tumulto no conjunto de representações estabelecidas anteriormente. Freud compara algumas das qualidades do método psicanalítico ao trabalho do escultor Michelangelo que dizia que a escultura estava na pedra e que, portanto, ele trabalhava por via de levare, libertando a forma.
9 Da clínica extensa à alta teoria, meditações clínicas. Segunda meditação: O análogo. A esta segunda meditação foram dedicadas as aulas do primeiro semestre de 2003 na pós-graduação PUC/SP.
10 Considerados aqui como material substrato do sonho e do pensamento, que é derivado e produzido pela ação da função alfa nos estímulos internos e externos. (Bion, 1962/1991a).
11 Por questão de sigilo não apresentarei a pergunta na íntegra.
12 FUNERAL BLUES | W. H. Auden
Pare os relógios, cale o telefone
Evite o latido do cão com um osso
Emudeça o piano e que o tambor surdo anuncie a vinda do caixão, seguido pelo cortejo.
Que os aviões voem em círculos, gemendo e que escrevam no céu o anúncio: ele morreu.
Ponham laços pretos nos pescoços brancos das pombas de rua e que guardas de trânsito usem finas luvas de breu.
Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste
Meus dias úteis, meus finais-desemana, meu meio-dia, meia-noite, minha fala e meu canto.
Eu pensava que o amor era eterno; estava errado
As estrelas não são mais necessárias; apague-as uma por uma
Guarde a lua, desmonte o sol
Despeje o mar e livre-se da floresta pois nada mais poderá ser bom como antes era.
13 A DAMA BRANCA | Manuel Bandeira
A Dama Branca que eu encontrei,
Faz tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me em todos os desenganos.
Era sorriso de compaixão?
Era sorriso de zombaria?
Não era mofa nem dó. Senão,
Só nas tristezas me sorriria.
E a Dama Branca sorriu também
A cada júbilo interior.
Sorria querendo bem.
E todavia não era amor.
Era desejo? - Credo! de tísicos?
Por história... quem sabe lá?...
A Dama tinha caprichos físicos:
Era uma estranha vulgívaga.
Ela era o gênio da corrupção.
Tábua de vícios adulterinos.
Tivera amantes: uma porção.
Até mulheres. Até meninos.
Ao pobre amante que lhe queria,
Se lhe furtava sarcástica.
Com uns perjura, com outros fria,
Com outros má,
- A Dama Branca que eu encontrei,
Há tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me todos os desenganos.
Essa constância de anos a fio,
Sutil, captara-me. E imaginai!
Por uma noite de muito frio
A Dama Branca levou meu pai.
14 Tinha certeza que a frase éramos um estava no belíssimo ensaio de Montaigne, que trata da amizade e morte de seu melhor amigo, La Boétie, porém, era minha. A seguir um dos trechos que provavelmente originou a frase “...Desde o dia em que o perdi, dia que nunca deixarei de ver como um dia cruel e nunca deixarei de honrar - essa foi vossa vontade, ó deuses! (Virgílio) não faço mais que me arrastar languescente; e os próprios prazeres que se me oferecem, em vez de consolar-me, redobram a tristeza de sua perda. Participávamos a meias de tudo; parece-me que estou roubando sua parte, E decidi que já não devia desfrutar prazer algum, já não tendo aquele que compartilhava minha vida. (Terêncio) Já estava tão afeito e habituado a ser um de dois em tudo que me parece não ser mais do que meio. Já que um golpe prematuro arrebatou-me aquela metade de minha alma, por que eu, a outra metade, continuo aqui, eu que estou desgostoso de mim mesmo e que não sobrevivo por inteiro? O mesmo dia perdeu-nos a ambos. (Horácio) Não há ação nem pensamento em que eu não sinta sua falta, assim como ele teria sentido a minha...” (Montaigne, 2002).
15 Também somos seqüestrados pelas transformações projetivas e pelas em alucinose.