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Ide

versão impressa ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) vol.35 no.54 São Paulo jul. 2012

 

EM PAUTA - CAOS

 

A ética, o caos e a felicidade

 

Ethics, chaos and happiness

 

 

Eugênio Benito Júnior*

Grupo de Estudos sobre Mitologia, Enologia e Gastronomia
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
Consultor internacional para negócios em telecomunicações

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O Caos se instala como personagem na cultura ocidental ao surgir como divindade primordial na mitologia grega. De sua infinita capacidade de criar o vazio sem fim, vão surgindo alguns de seus descendentes – a Noite e suas filhas Vingança, Sarcasmo e Morte. Para equilibrar o desenvolvimento caótico surge Eros e sua luta contra o Caos ajuda a criar o conceito de racionalidade. Gradativamente, em um ciclo eterno, a razão parece ir retornando ao caos e renascendo, como mostram as inúmeras crises do pensamento racional, desde a Grécia aristotélica até os tempos atuais em que a Física Quântica mostra o Universo como uma combinação de naturezas que convivem em um estado de superposição. Em meio a esse frenesi caótico de vida e de morte, em que lugar se encontra a felicidade?

Palavras-chave: Caos, Ética, Tecnologia, Felicidade.


ABSTRACT

As a primordial deity in Greek mythology, Chaos sets in as a character in Western culture. From his infinite ability to create endless emptiness, some of his descendants are coming from his daughter, the darkest Night, such as Revenge, Sarcasm and Death. To balance the chaotic environment, Eros jumps to the Gaia-stage and his struggle against Chaos helped to create the concept of rationality. Gradually, in an eternal cycle, the reason seems to go back to chaos and to rebirth, as shown by many crises of rational thought since Aristotelian Greece to contemporary times in which Quantum Physics shows the Universe as a combination of several Natures that coexist in a state overlap. Amid this chaotic frenzy of life and death in what place can happiness be found?

Keywords: Chaos, Ethics, Technology, Happiness.


 

 

Hesíodo, em sua Teogonia, conta que, das quatro divindades primordiais, primeiro nasceu o Caos, o espaço aberto, a pura extensão ilimitada, o abismo sem fundo. Depois, para organizar o nada e dar início à Criação, surge uma realidade sólida, a segunda divindade primordial: Gaia, a Terra. Limitando o Caos, Gaia deu-lhe um sentido. Instalou nele o chão, o palco da maravilha e da miséria da vida.

O Caos era o não-Ser, o lado sem luz. Tudo se cria a partir de si mesmo, sem a necessidade de interagir. Para que pudesse haver a interação, era necessário que existisse o paradigma erótico e, assim, em seguida, surgiu Eros, associado ao Ser, ao Existir, ao lado claro e brilhante da vida. A partir dessa terceira divindade primordial, tudo só poderia existir a partir da capacidade de união, fundada por Eros. A quarta divindade viria a ser o Tártaro, o lado nevoento e invisível da criação, que se localizava abaixo do palco da Mãe-Terra.

Acima do palco de Gaia, restava ainda um espaço vazio. Para preenchê-lo, Gaia criou um ser igual a si mesma, capaz de cobri-la inteira. Dessa interação, já dentro do paradigma fundado por Eros, nascem os Titãs e, dentre eles, o poderoso Cronos, tambor de todos os ritmos.

Antes da palavra escrita, na temporalmente longínqua península grega, existia essa crença nos poderosos Titãs, que reinavam sobre a face da Terra. Cronos, com a força do seu mito, impediu que sua memória fosse destruída por outras culturas, como a dos invasores aqueus, jônios e dóricos, que juntos formaram a comunidade helênica. As tribos que invadiram a península grega já traziam consigo uma mitologia, cada uma delas com um deus poderoso e guerreiro. Esses deuses todos, que representavam o mesmo papel no imaginário de cada tribo, foram fundidos e cristalizados na figura de uma única divindade, Zeus, que assume assim tantas formas e é pai de tantas crianças, acomodando assim a crença de todas as tribos.

Ao chegar à península helênica, porém, a crença local nos Titãs era tamanha que encantou até os invasores. Com sua capacidade de acomodação cultural, as tribos vencedoras, ao invés de destruir o mito dos Titãs, incluíram a história deles à história que traziam e pediram ao historiador Hesíodo que escrevesse uma Teogonia, ou crônica do nascimento dos deuses.

Um dos Titãs, Cronos, o tempo que flui, juntou-se à sua irmã Reia, a própria fertilidade, e deles dois nasceram os poderosos deuses do Olimpo: Zeus e seus irmãos Poseidon, deus dos mares, e Hades, senhor dos Infernos, e suas irmãs, Hera, protetora do amor conjugal, ciumenta e vingativa, Deméter, deusa das terras cultivadas, e Héstia, que cuidava das famílias. Para evitar que os filhos viessem a tomar seu lugar, Cronos devorava a todos assim que nasciam. A mãe, cansada dessa rotina sangrenta, ao nascer Zeus, entregou ao pai uma pedra no lugar do filho. Zeus assim sobreviveu, castrou o pai e o esperma liberado com o corte nos genitais caiu no mar, onde provocou uma espuma muito grande da qual nasceu a deusa Afrodite, cuja origem está na palavra grega espuma (αφρός – afrós).

Os invasores helênicos, incapazes de destruir Cronos, o Tempo, procuraram preservá-lo. Ele próprio, imaginando que poderia controlar o fluir do Tempo, impedindo que os filhos se desenvolvessem, é vencido por essa mesma razão. Desse conflito todo, a poesia mitológica nos traz a paixão, simbolizada por Afrodite.

A obra de Aristóteles vem cobrir a primeira grande crise do pensamento racional, abalando uma estável associação de deuses e sentimentos, transformando em caos a crença grega dos múltiplos deuses. É necessário instalar um novo palco e o pensamento muda do paradigma mitológico para o paradigma filosófico. O homem abandona a explicação sobrenatural patrocinada pela mitologia grega e busca uma explicação natural para o mundo que o rodeia e, em última instância, para si mesmo.

Aristóteles nasce logo após a morte de Sófocles, que escreveu uma importantíssima obra para o teatro, a tragédia Antígona, relatando a disputa entre os interesses privados e os interesses da pólis grega. Dos quatro filhos, frutos do incesto de Édipo e Jocasta, os dois homens, Polinice e Etéocles, brigam pelo trono de Tebas e acabam morrendo em combate. O mais próximo na sucessão é Creonte, irmão de Jocasta, que sobe ao trono e publica um édito dando sepultura honrosa a Etéocles e deixando Polinice exposto ao tempo e à fúria dos pássaros.

Ismênia: Que há, pois? Tu me pareces preocupada.
Antígona: Certamente! Pois não sabes que Creonte concedeu a um de nossos irmãos e negou ao outro, as honras da sepultura? Dizem que inumou a Etéocles, como era de justiça e de acordo com os ritos, assegurando-lhe um lugar condigno entre os mortos, ao passo que, quanto ao infeliz Polinice, ele proibiu aos cidadãos que encerrem o corpo num túmulo e sobre este derramem suas lágrimas. Quer que permaneça insepulto, sem homenagens fúnebres, e presa de aves carniceiras. (Sófocles, 2005, p. 6)

É nesse contexto que nasce o conceito aristotélico de ética e da busca da felicidade. Aristóteles propõe uma discussão entre o que é certo e o que não é, do ponto de vista da coletividade (πόλις – pólis) e dos direitos civis (πολιτικός – politikós) dos habitantes da pólis. Hoje, com uma década já avançada no século XXI, relacionar política e ética parece um absurdo, mas foi assim que ela nasceu.

A segunda grande crise do pensamento racional se dá no primeiro ano da era cristã. Roma conquista a Grécia e se torna centro do mundo ocidental. O cristianismo, crença de origem judaica, exercita sua estrutura em Roma e toda a herança da filosofia grega se acomoda no meio cristão. O homem, então, centro da discussão ética, é retirado desse posto e em seu lugar é colocada a doutrina cristã da alma eterna.

A doutrina cristã, todavia, sobrevive somente em pequenos e restritos círculos, uma vez que o poder político não é cristão. Em 306, porém, Constantino é proclamado augusto por suas tropas e assume o controle do Império Romano. Não institui formalmente a religião cristã como oficial do império, mas concede privilégios nunca dantes imaginados. Na véspera da batalha da Ponte Mílvia, sobre o rio Tibre, próxima a Roma, Constantino tem uma visão em que as duas primeiras letras, Chi (X) e Rô (P), da grafia grega de Cristo (Χριστός – Cristós), aparecem-lhe entrelaçadas juntamente com a inscrição em latim: In hoc signo vinces (sob este signo vencerás). Manda pintar às pressas o símbolo nos escudos de seus soldados e apesar de possuir menos soldados, acaba vencendo uma importante batalha. Constantino credita sua vitória ao Deus cristão. Os senadores, ainda pagãos, aprovam o texto abaixo, que está gravado na pedra até hoje no Arco de Constantino, construído no ano 315 da era cristã, próximo ao Coliseu, em Roma:

ERATORI CAESARI FLAVIO CONSTANTINO MAXIMO
PIO FELICI AVGVSTO SENATVS POPVLVSQVE ROMANVS
QVOD INSTINCTV DIVINITATIS MENTIS
MAGNITVDINE CVM EXERCITV SVO
TAM DE TYRANNO QVAM DE OMNI EIVS
FACTIONE VNO TEMPORE IVSTIS
REMPVBLICAM VLTVS EST ARMIS
ARCVM TRIVMPHIS INSIGNEM DICAVIT1

Ao Imperador Caesar Flávio Constantino, o Grande, pio e abençoado Augusto: inspirado pelo divino, na grandeza de sua mente, ele usou o seu exército para salvar o estado pela justa força das armas de um tirano e de seus seguidores ao mesmo tempo; assim, o Senado e o Povo de Roma dedicam este arco, decorado com triunfos2.

O termo instinctu divinitatis se refere à visão de Constantino, mas ainda não é relacionada diretamente com Deus. Pouco a pouco, e ainda no século IV, a fé cristã vai se tornar a religião oficial em Roma.

A estrutura social na Idade Média vai então se modificando e a relação de escravidão vai se transformando em uma relação de vassalos e senhores feudais distribuída numa miríade de feudos e é exatamente a religião que irá proporcionar a unidade numa sociedade tão fragmentada. Os imperativos supremos são os mandamentos de Deus, um ser onisciente, bom e todo poderoso, entendido como o bem mais alto na ética medieval. Agora a relação do homem não é mais com a pólis aristotélica, mas com Deus. A felicidade, que passa a ser chamada de beatitude, se traduz na contemplação divina.

O grande paradoxo da ética medieval é a possibilidade de viver uma vida justa e feliz num plano sobrenatural, introduzindo o conceito de igualdade entre os homens, justamente num momento social em que a desigualdade na Terra era absurdamente grande. Apesar dessa brutal diferença entre doutrina e realidade, o cristianismo dá ao homem a consciência de igualdade e o conceito de "um de nós" aparece. A Igreja vai ganhando força e domina a Europa, criando uma nova moral, intervindo no cenário político, coroando reis, organizando Cruzadas à Terra Santa e fundando as primeiras Universidades.

Durante o Renascimento, uma nova crise do pensamento racional é gestada e um novo e luminoso palco será instalado nos estertores da Idade Média. Os artistas do período começam a produzir obras usando abundantemente a perspectiva, o que demonstra que, se existe uma profundidade do quadro para "dentro", mostrando o imaginário em diversos planos, não há por que não imaginar que exista também uma profundidade do quadro para "fora", ou seja, o real é tal como sua representação pictórica, apresentando os devidos planos de atuação do artista, em primeiro lugar, e da sociedade, como um todo:

A denúncia do momento social vivido na Itália do século XV estava explicitada na preocupação dos artistas com a forma que, além de representar um fenômeno, era também, ela própria, um fenômeno. Uma sociedade que acredita no valor dos fenômenos e que se detém para propor uma técnica que os represente melhor, como a perspectiva, deve acreditar também na capacidade que as pessoas têm para produzir fatos e valores. As pessoas começam a valer pelo que conseguem produzir, pela contribuição que dão à sociedade em que vivem e não por imposição divina ou herança de poder. (Benito Jr., 2004, p. 29)

Nesse cenário, nasce Maquiavel, que entende o poder como algo fundado somente na força e somente pela força esse poder mudaria de mãos. Nada legitimava o soberano, nem tradição, nem religião, nem a vontade do povo. Para manter o trono, o Príncipe deveria ser sempre temido, ainda que não amado:

Os homens têm menos escrúpulo em ofender quem se faz amar do que quem se faz temer, pois o amor é mantido por vínculos de gratidão que se rompem quando deixam de ser necessários, já que os homens são egoístas; mas o temor é mantido pelo medo do castigo, que nunca falha. (Maquiavel, 2011, p. 103)

Eclode a terceira crise do pensamento racional, gestada no período renascentista, superando a racionalidade medieval, mergulhada num caos, após inúmeras contradições e conflitos sociopolíticos no final da Idade Média, final anunciado por mudanças em vários aspectos, como o econômico, uma vez que a produção agrícola começa a ficar insuficiente – os solos estavam desgastados enquanto a população continuava crescendo. A produção se baseia em aquisição de novas áreas de plantio e não na melhoria da técnica de cultivo. No ponto de vista social, os habitantes das vilas (ou burgos), que não têm títulos de nobreza, mas detêm o poder econômico, se estruturam como uma nova classe social – a burguesia e o caos começam a se apresentar para os senhores feudais. A estrutura feudal, composta de inúmeros e pequenos feudos, vai se consolidando como um estado único e centralizado, à exceção de movimentos como o da formação do Segundo Reich alemão e o Risorgimento italiano, que promovem a unificação de seus respectivos países somente no século XIX. Do ponto de vista espiritual, também se instala o caos no coração da Igreja Católica, que perde sua função de guia e as Reformas Religiosas se espalham pela Europa, destroçando a unidade medieval cristã.

O que a Idade Média tinha unido ia, pouco a pouco, sendo desatado: as ciências naturais iam se desvinculando dos pressupostos teológicos, o Estado se separava da Igreja e o Homem ia retomando o centro das considerações filosóficas, no lugar de Deus. Ora, esse deslocamento do Homem para o centro da política, das ciências e das artes também o fará ser um legislador da moral. Tudo contribui, portanto, para que nessa era moderna, a ética venha a ser antropocêntrica.

Nesse aspecto, um novo palco será montado por Kant, que identifica ainda o céu estrelado sobre si como algo que o enche de admiração, mas sublinha a importância da lei moral dentro do homem. Na tumba de Kant está a seguinte inscrição:

Duas coisas enchem o ânimo de crescente admiração e respeito, veneração sempre renovada quanto com mais frequência e aplicação delas se ocupa a reflexão: por sobre mim o céu estrelado; em mim a lei moral3.

Kant promoveu o que ele mesmo chamou de Revolução Copernicana na filosofia. Até então, a realidade exterior ocupava o centro e o sujeito do conhecimento (razão) gravitava em torno desse centro, ou seja, primeiro tentou-se dizer o que era a realidade para depois ela poder ser conhecida pelas ideias da razão. O modelo revolucionário de Kant inverteu a ordem das coisas, como Copérnico havia feito com o sistema planetário duzentos anos antes, e propôs que agora a realidade objetiva (objetos do conhecimento) gravitasse ao redor da razão. No prefácio à segunda edição da Crítica da Razão Pura, publicada em 1787, Kant explica esse raciocínio:

Até hoje admitia-se que o nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém, todas as tentativas para descobrir a priori, mediante conceitos, algo que ampliasse o nosso conhecimento, malogravam-se com este pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento, o que assim já concorda melhor com o que desejamos, a saber, a possibilidade de um conhecimento a priori desses objetos, que estabeleça algo sobre eles antes de nos serem dados. Trata-se aqui de uma semelhança com a primeira ideia de Copérnico; não podendo prosseguir na explicação dos movimentos celestes enquanto admitia que toda a multidão de estrelas se movia em torno do espectador, tentou se não daria melhor resultado fazer antes girar o espectador e deixar os astros imóveis. Ora, na metafísica, pode-se tentar o mesmo, no que diz respeito à intuição dos objetos. Se a intuição tivesse de se guiar pela natureza dos objetos, não vejo como deles se poderia conhecer algo a priori; se, pelo contrário, o objeto (enquanto objeto dos sentidos) se guiar pela natureza da nossa faculdade de intuição, posso perfeitamente representar essa possibilidade. (Kant, 2001, pp. 45-46)

Baseado nesse modelo, Kant desenha o Homem como uma combinação de um ser moral e um ser natural. A parte natural do Homem está sujeita ao modelo determinístico de causa e efeito da Natureza e sujeita aos impulsos, desejos e paixões.

A Natureza (ou ambiente extra-humano) é, pois, o reino da necessidade, onde coabitam todas as Ciências e a Tecnologia e onde suportamos os devastadores efeitos do Segundo Princípio da Termodinâmica. No ambiente complementar à Natureza, ou seja, o reino humano da práxis, não necessariamente são obedecidas as questões de causalidade e as ações são tomadas com alguma finalidade ou em função da liberdade do Homem. Dessa diferenciação nasce o que Kant vai chamar de razão teórica e razão prática. A razão teórica tem como objeto de investigação o ambiente extra-humano, aquele sistema causal já descrito acima. A razão prática, por outro lado, cria sua própria realidade e acaba por exercer nessa realidade sua atividade racional. Como dessa atividade racional faz parte a criação de normas, é aceitável que a razão prática crie normas inclusive para si mesma e é isso que Kant vai chamar de dever.

Este [o dever], portanto, longe de ser uma imposição externa feita à nossa vontade e à nossa consciência, é a expressão da lei moral em nós, manifestação mais alta da humanidade em nós. Obedecê-lo é obedecer a si mesmo. Por dever, damos a nós mesmos os valores, os fins e as leis de nossa ação moral e por isso somos autônomos. (Chaui, 1995, p. 345)

O Homem, se se deixar arrastar pela parte que busca incessantemente o prazer e a fuga da dor, não terá, portanto, autonomia ética. Para que isso aconteça, a razão prática precisa vencer a parte Natural para que consiga impor ao Homem seu ser moral. A educação ética para Kant, portanto, ao contrário de se constituir como uma violência contra a natureza passional do Homem, é que revela a verdadeira natureza do Homem, uma vez que entende o destino racional humano e não se ilude na confusão entre liberdade e satisfação de apetites.

Esse dever tem uma forma imperativa, sem concessões, sem hipóteses. Assim, o dever é entendido como um imperativo categórico: "Age de tal modo que a máxima de tua vontade possa valer-te sempre como princípio de uma legislação universal" (Kant, 2004).

A razão percorreu um longo caminho desde o pré-socrático Heráclito de Éfeso, com seu Fragmento 119: Éthos anthrópo dáimon (Heráclito, 1996, p. 100), até Nietzsche com sua famosa frase "Deus está morto" (Nietzsche, 2001, p. 148). A frase de Heráclito pode ser traduzida como "a morada humana (ou éthos) contém a divindade". A palavra ήθος (ethos), grafada com a vogal longa eta (ή) pode significar também "estada, lugar de morada" (Cabral, 2011). Habitando diuturnamente com a divindade é que o homem se realiza como tal. Não era o homem que criava a divindade, mas esta, como uma inspiração, é que o norteava.

Em Nietzsche, a ideia de que Deus está morto aparece no aforisma 125 de A gaia ciência (Nietzsche, 2001) e não se trata, evidentemente, de nenhum conceito ateísta procurando comprovar a morte de Deus, mas sim de mostrar onde foi parar a cultura ocidental, ou seja, como é que o dáimon de Heráclito morreu no coração do homem, que o substituiu pela lógica capitalista. Nesse movimento de ascensão da racionalidade é que irrompeu no Ocidente a chamada "morte de Deus". Essa morte fala do desaparecimento do horizonte organizador de toda a cultura ocidental, que vinha se mantendo, apesar dos repetidos e contornáveis mergulhos da racionalidade em um estado, a princípio, caótico. Até o surgimento da ciência moderna, esse horizonte vinha balizando a cultura no Ocidente.

Do ponto de vista das novas tecnologias do século XX, a razão sofre um considerável abalo com o modelo apresentado pela ciência moderna, mais especificamente a Física Quântica. Os princípios racionais que até então se imaginavam estar em concordância com a realidade foram subvertidos quando da proposição de novos modelos para compreender a estrutura microscópica da matéria. O grande abalo foi no Princípio do Terceiro Excluído, que exclui mutuamente o ser e o não-ser e não há uma terceira possibilidade.

Mesmo quando temos, por exemplo, um teste de múltipla escolha, escolhemos na verdade apenas entre duas opções – "ou está certo ou está errado" – e não há terceira possibilidade ou terceira alternativa, pois, entre várias escolhas possíveis, só há realmente duas, a certa ou a errada. (Chaui, 1995, p. 60)

Em 1905, o annus mirabilis de Albert Einstein, foi publicado um artigo seu com o nome de Um ponto de vista heurístico relacionado com a emissão e transformação da luz, que revolucionou as bases do conhecimento ao introduzir o conceito de pacotes (fóton) de luz e estabelecendo a famosa dualidade onda-partícula, questionando o Princípio do Terceiro Excluído, estabelecendo que a luz pode se propagar tanto como ondas contínuas quanto como partículas descontínuas.

Além desse Princípio do Terceiro Excluído, há ainda que se levar em conta que a razão, até o advento da Mecânica Quântica, operava com outros princípios como o da identidade e o da não contradição. O princípio da identidade é a condição para que as coisas possam ser definidas e depois possamos conhecê-las a partir dessas definições.

Por exemplo, depois que um matemático definir o triângulo como figura de três lados e de três ângulos, não só nenhuma outra figura que não tenha esse número de lados e de ângulos poderá ser chamada de triângulo como também todos os teoremas e problemas que o matemático demonstrar sobre o triângulo, só poderão ser demonstrados se, a cada vez que ele disser "triângulo", soubermos a qual ser ou a qual coisa ele está se referindo. (Chaui, 1995, p. 60)

O princípio da não-contradição estabelece que é impossível que o Luigi, meu cachorro, seja ao mesmo tempo marrom e não-marrom.

Sem o princípio da não-contradição, o princípio da identidade não poderia funcionar. O princípio da não-contradição afirma que uma coisa ou uma idéia que se negam a si mesmas se autodestroem, desaparecem, deixam de existir. Afirma, também, que as coisas e as idéias contraditórias são impensáveis e impossíveis. (Chaui, 1995, p. 60)

A Mecânica Quântica observa que o Universo é uma combinação de naturezas que convivem num estado de superposição. Cada uma dessas naturezas teria uma probabilidade de existir. Assim, a realidade é vista como sendo a soma de todas as naturezas possíveis, compreendendo ao mesmo tempo todos os estados possíveis e, por consequência, todos os estados antagônicos. Ora, definir um modelo como esse para a realidade é o mesmo que dizer que os princípios do terceiro excluído, da identidade e da não-contradição não se aplicam.

O conceito de superposição vem da equação do físico austríaco Erwin Schrödinger (1887 – 1961) para estabelecer o estado dos elétrons. De acordo com o modelo deste cientista, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1933, o estado de um elétron deve ter uma representação que leve em conta a soma de todos os estados possíveis, cada um deles com uma probabilidade diferente de realmente existir. Antes de ser observado, portanto, o elétron seria a soma superposta de todos os estados possíveis. Para avaliar o impacto de tal modelo no mundo macroscópico, Schrödinger criou mentalmente a experiência que colocava um gato dentro de uma caixa, junto com uma ampola que continha um veneno letal, e descreve uma situação em que o gato pode estar vivo e morto ao mesmo tempo. A webpage da Universidade Técnica de Hamburg-Harburg traz a descrição dessa experiência feita pelo próprio Schrödinger:

Pode-se mesmo montar casos bem ridículos. Um gato é trancado dentro de uma câmara de aço, juntamente com o dispositivo seguinte (que devemos preservar da interferência direta do gato): num contador Geiger há uma pequena porção de substância radioativa, tão pequena que talvez, no decurso de uma hora, um dos seus átomos decaia, mas também, com igual probabilidade, talvez nenhum decaia; se isso acontecer, o tubo contador liberta uma descarga e através de um relé solta um martelo que estilhaça um pequeno frasco com ácido cianídrico. Ao deixar todo este sistema isolado durante uma hora, então poderia ser dito que o gato ainda vive, se nesse meio tempo nenhum átomo decaiu. A função-psi4 do sistema como um todo iria expressar isto contendo em si mesma o gato vivo e o gato morto (desculpem-me a expressão) misturados ou dispostos em partes iguais5.

Todas essas constatações fizeram com que o físico alemão Werner Heisenberg postulasse o Princípio da Incerteza, no qual mostra ser impossível determinar ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma partícula, demolindo a crença newtoniana, que vigorava até então, de medir consistentemente a posição e o momento linear (por consequência, a velocidade) de uma partícula qualquer.

A contribuição de Heisenberg para o desenvolvimento da Física Quântica foi tão expressiva que deu a ele o Prêmio Nobel de Física em 1932. Com o passar do tempo e o advento da Segunda Grande Guerra, os americanos, em pleno desenvolvimento do Projeto Manhattan, que preparava uma bomba atômica para pôr fim ao conflito bélico, têm notícias de que esse físico alemão teria conhecimentos suficientes para criar para o Reich nazista uma arma atômica semelhante à que desenvolviam em Los Alamos, nos Estados Unidos. Conta o jornalista de divulgação científica, Michael White, que o serviço secreto americano, em dezembro de 1944, envia para Zurique um agente secreto com a missão de matar Heisenberg durante uma reunião na Universidade de Zurique, se fosse constatado por esse agente a capacidade de Heisenberg em fornecer dados relevantes para a construção dessa suposta bomba atômica nazista. A reunião na Universidade de Zurique era para uma seleta plateia, composta de vinte e poucas pessoas, entre físicos e engenheiros. O jornalista White descreve em seu livro Rivalidades produtivas:

O homem [agente secreto] é Morris Berg, um ex-campeão de beisebol, agora um agente secreto do Office of Strategic Services (OSS, uma agência americana de inteligência, precursora da CIA). Sua missão é determinar, com base na palestra de Heisenberg, se o cientista alemão conseguiu ou não desvendar o segredo da construção de uma arma atômica, e, caso acredite que os alemães estejam prestes a construir tal arma, ele, na frente dos cientistas ali reunidos, irá sacar sua pistola e atirar no meio dos olhos de Heisenberg. (White, 2003, p. 246)

Felizmente, o agente Berg não consegue entender nada do que Heisenberg dizia e poupa sua vida. É tamanho o frenesi da busca pela compreensão dos segredos do átomo e o consequente aumento de poder, que histórias como essa são cunhadas na construção de um universo científico que viria a abalar os pilares da ética no planeta. Mais do que isso, a Física Quântica abala a razão no século XX, desvendando a indeterminação da Natureza.

A esse abalo, devem-se adicionar dois outros momentos importantes, trazidos por Marx, com a noção de ideologia, e Freud, ao introduzir o conceito de inconsciente. Marx, voltando sua capacidade investigativa para a Política e a Economia, e Freud, se atendo às questões psíquicas, mostraram o novo paradigma no qual se inseria a razão:

Marx descobriu que temos a ilusão de estarmos pensando e agindo com nossa própria cabeça e por nossa própria vontade, racional e livremente, de acordo com nosso entendimento e nossa liberdade, porque desconhecemos um poder invisível que nos força a pensar como pensamos e agir como agimos. A esse poder – que é social – ele deu o nome de ideologia.

Freud, por sua vez, mostrou que os seres humanos têm a ilusão de que tudo quanto pensam, fazem, sentem e desejam, tudo quanto dizem ou calam estaria sob o controle de nossa consciência porque desconhecemos a existência de uma força invisível, de um poder – que é psíquico e social – que atua sobre nossa consciência sem que ela o saiba. A esse poder que domina e controla invisível e profundamente nossa vida consciente, ele deu o nome de inconsciente. (Chaui, 1995, p. 52)

Freud procurou identificar as três feridas narcísicas que afetaram e macularam a magnífica impressão que tínhamos de nós mesmos. Essas feridas foram infligidas à humanidade por Copérnico, Darwin e ele mesmo, Sigmund Freud:

A primeira foi a que nos infligiu Copérnico, ao provar que a Terra não estava no centro do Universo e que os homens não eram o centro do mundo. A segunda foi causada por Darwin, ao provar que os homens descendem de um primata, que são apenas um elo na evolução das espécies e não seres especiais, criados por Deus para dominar a Natureza. A terceira foi causada por Freud com a psicanálise, ao mostrar que a consciência é a menor parte e a mais fraca de nossa vida psíquica. (Chaui, 1995, p. 166)

Continuando sua trajetória, o homem promove o casamento da ciência com a burguesia, classe social em ascensão desde o fim da Idade Média, e passa a sustentar uma outra lógica na cultura ocidental – a lógica do lucro, da produção e da funcionalidade. O Outro então passa a ser uma peça, um meio, algo que pode ser descartado se não desempenhar convenientemente sua função. Nessa nova ordem, na qual se intensifica a "morte de Deus", fica difícil sustentar uma Ética que ainda mantenha uma estabilidade nas relações humanas ou entre o homem e a Natureza.

Numa sociedade capitalista, em que o homem vale não pelo que é, mas pelo que possui, a felicidade pode se configurar como sendo uma posse de bens materiais, conforme explica Sánchez Vázquez. O que deve ficar determinado neste modelo é a concretização do conteúdo da felicidade. Na sociedade escravista grega, o conteúdo dessa felicidade era a contemplação, na sociedade burguesa moderna, esse conteúdo é a posse de bens.

Numa sociedade na qual não vigore o princípio da prosperidade privada nem a onipotência do dinheiro, e na qual o destino pessoal não se possa conceber separado da comunidade, os homens terão de buscar outro tipo de felicidade. (Vázquez, 2011, p. 160)

Nesse espaço caótico das grandes metrópoles, vivendo ainda sob a pressão divina de Cronos, que continua devorando seus filhos, talvez uma volta aos mitológicos tempos dos deuses gregos nos ajude a organizar o Caos e estabelecer um contorno para a felicidade.

Outro significado do tempo quis, demasiadamente, assaltar os corações gregos e a força de Cronos não conseguiu controlar esse querer. Não se trata agora do tempo inexorável que nos devora a todos, mas sim da experiência temporal na qual percebemos o momento oportuno em relação a um determinado devir, um modo de fluir em "que o meu espírito ganhe um brilho definido / tempo tempo tempo / e eu espalhe benefícios"6.

Para esse tempo foi criado Kairós, uma divindade menor, filho de Zeus e da deusa da prosperidade Tykhé. Kairós era rápido, andava nu e tinha somente um cacho de cabelos na testa. Para agarrá-lo, somente segurando-o por esse topete. O encontro com ele só poderia ser feito cara a cara, como a sensação de dois amantes que se olham profundamente e têm a sensação de que o tempo parou. Se assim não for, Kairós some rapidamente e é impossível segui-lo ou trazê-lo de volta. Kairós era visto na inteligência de Atena, no amor de Eros e mesmo no vinho de Dionísio. Em nenhum momento Kairós refletiria o passado ou pressentiria o futuro – ele simboliza o melhor instante no presente: o instante em que a gente consegue afastar o caos e abraçar a felicidade.

 

Referências

Benito Jr., E. (2004). A oferta de Afrodite. Campinas: Komedi.

Cabral, A. M. (2011). Sobre a superação da crise da ética contemporânea. Disponível em: <www.achegas.net/numero/dezoito/a_cabral_18.htm>. Acesso em: 15 nov. 2011.

Chaui, M. (1995). Convite à filosofia (3a ed.). São Paulo: Ática.

Heráclito (1996). Os pré-socráticos: vida e obra: Heráclito de Éfeso (José Cavalcante de Souza, trad., Os Pensadores). São Paulo: Nova Cultural.

Kant, I. (2004). Crítica da Razão Prática (Afonso Bertagnoli, trad.). Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/razaopratica.html>. Acesso em: 17 out. 2011.

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Endereço para correspondência
Eugênio Benito Júnior
Rua Piolim, 490
13091-510 – Campinas – SP
tel.: 19 3307-5760
E-mail: eb.j@uol.com.br

Recebido: 16/04/2012
Aceito: 27/04/2012

 

 

* Criou e coordena o GEMEG (Grupo de Estudos sobre Mitologia, Enologia e Gastronomia). É engenheiro (Poli-USP), consultor internacional para negócios em Telecomunicações, mestre em Educação (UNISAL), professor universitário e escritor. Autor do romance A Oferta de Afrodite (2004), do conto No ônibus em Roma (2006) e do romance O criador de borboletas (2008). Nasceu em Pindorama (SP) em 1955.
1 A inscrição no Arco de Constantino foi fotografada e comentada por Bill Thayer, da Universidade de Chicago. Esses estudos estão disponíveis no website da universidade: http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Gazetteer/Places/Europe/Italy/Lazio/Roma/Rome/Arch_of_Constantine/inscriptions.html. Acesso em: 18 out. 2011.
2 Tradução livre do autor a partir da versão inglesa publicada no website da Universidade de Chicago, indicado na nota anterior.
3 No original: "Zwei Dinge erfüllen das Gemüt mit immer neuer und zunehmender Bewunderung und Ehrfurcht, je öfter und anhaltender sich das Nachdenken damit beschäftigt: der bestirnte Himmel über mir und das moralische Gesetz in mir". Tradução em Kant, 2004.
4 Função-psi é conhecida como função de onda, uma ferramenta matemática usada em Mecânica Quântica para descrever um sistema físico qualquer.
5 Tuhh [Universidade Técnica de Hamburg-Harburg]. Disponível em: <http://www.tu-harburg.de/rzt/rzt/it/QM/cat.html#sect5>. Acesso em: 27 nov. 2011.
6 Oração ao Tempo (Caetano Veloso).