Mas que seja infinito enquanto dure
Vinicius de Moraes, ao terminar o “Soneto de fidelidade”, diz: “eu possa dizer do amor (que tive): que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure” (1964). Só que nem sempre é tão romântico ocupar-se, em uma análise, da finitude da vida.
É preciso recorrer aos poetas, aos escritores e aos músicos. Em uma análise “de fim da vida”, tangenciar o tópico da morte não está no roteiro, ao mesmo tempo em que é nuclear e conduz todas as sessões. No entanto, a morte muitas vezes sufoca, silencia e rompe com a criatividade necessária a uma análise.
Herrmann (2002) assinalou que, durante o processo de análise, para dar conta das pressões psíquicas e da força da aliança com o(a) analista, muitas vezes se faz necessário transitar pela literatura de ficção para conseguir comunicar-se melhor e devolver a esperança.
De acordo com minha experiência, quando o analista escreve sobre sua clínica, também lança mão do recurso de transformar a realidade de uma análise e com base nela, de alguma forma, criar uma narrativa. Assim como a criança transforma sua realidade ao brincar e o poeta transforma suas experiências em lirismo, como apontou Freud (1908/2015).
O psicanalista é também um ficcionista porque ele, de alguma maneira, ao escrever sobre sua clínica, como ressaltou Scappaticci (2023), já transformou o momento da experiência real da relação com seu paciente segundo a sua própria elaboração psíquica. Ou, como afirma Fabio Herrmann:
A ficção, ao contrário, permite capturar o instante em que a emoção viva mostra sua lógica rigorosa, em que a história se transforma em transferência, em que as duplicações sub-reptícias do sujeito se cristalizam em palavras concentradíssimas de sentidos em vórtice …. Sendo ficção, do autor (o paciente) se desdobra um narrador, e dele, as personagens. Mas tratando-se de ficções freudianas - vale dizer, de interpretações psicanalíticas - esses eus que se desdobram por duplicação sub-reptícia não passam de indecisas personagens que se tentam disfarçar de autor, de narrador e de sujeito da própria história, assim como fazem todos os homens. (Herrmann, 2002, pp. 7-8)
Cabe retomar a abordagem freudiana sobre a morte, rememorando uma passagem do texto “Considerações atuais sobre a guerra e a morte”: “Recordemo-nos do velho ditado: Si vis pacem, para bellum. Se queres conservar a paz, prepara-te para a guerra. No momento atual caberia mudá-lo: Si vis vitam, para mortem. Se queres aguentar a vida, prepara-te para a morte” (Freud, 1915/2010a, p. 246).
Talvez caiba até uma inversão: se queres aguentar a morte, prepara-te para a vida. E viver nem sempre é fácil. Envelhecer, muito menos. É tarefa a que nem todos os seres humanos estão aptos. É apropriar-se do tempo, da sua própria narrativa. É pertencer a si mesmo, antes do último ato.
Viver é, entre tantas coisas, resguardar e manter a esperança.
Esperança que um dia pousou na casa da Clarice Lispector e logo foi detectada pelo seu filho, acima da cadeira de sua mãe. Logo ali, tão à mostra. Esperança costuma ser secreta, e pousa em silêncio em cada um de nós. Clarice, então, compartilha dessa experiência conosco em seu livro de contos Felicidade clandestina, de 1969. A esperança da Clarice não é aquela “clássica, que tantas vezes verifica-se ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre, mas a esperança concreta, verde. Um inseto” (Lispector, 1969).
Em fevereiro de 2023, pousou outra esperança, dessa vez no meu consultório, e não estou falando da esperança concreta, mas daquela outra, que nos sustenta sempre, parecida com a descrição do inseto de Clarice: magra, quase sem corpo, só com alma. Mas a esperança que pousara no meu consultório não era verde, e tinha nome: Ida. E tinha idade também, 90 anos.
Ida também era magra, também era feita só de alma. Ombros curvados, a cabeça que parecia despencar do pescoço, formando uma curvatura em seu dorso, que parecia de alguém que carregara, por anos, o mundo nas costas.
No fim do nosso primeiro encontro, despediu-se de mim, com uma frase inesquecível: “até que a morte nos separe”. Começamos, assim, pelo final decretado. Era a morte o início e o fio condutor das nossas sessões, uma companhia silenciosa e sempre presente. A morte como começo, meio e fim. Mas havia esperança.
Porém, às vezes, até para a esperança o caminho é cheio de armadilhas e a morte à espreita, como uma caçadora cruel e impiedosa, como a aranha, que tentou comer a esperança da Clarice. Para Ida, a caçadora à espreita era o tempo.
Ainda assim acredito ser possível reunir-nos
É inevitável, como disse Freud (1915/2010a), que busquemos no mundo da ficção, na literatura e no teatro substitutos para as perdas da vida. Quem perde alguém enterra todas as esperanças, ambições, alegrias. Fica inconsolável. Imagina perder a si próprio.
Ida recusava-se a manter a sua esperança. Não buscava mais nenhum “substituto”. Recusava qualquer distração. Não lia mais, não via mais televisão, não ia mais ao teatro, nem queria mais ouvir música. Tudo era reduzido ao nada: “não faço nada”, “não leio nada”, “não vejo mais nada na televisão” e “não ouço mais nada de música”.
Mas o tempo é um senhor tão bonito, como a cara do filho do Caetano Veloso, compositor de destino, de todos os ritmos. E o tempo ouviu nossos pedidos, ouviu nossos elogios. E pudemos nos reunir num outro nível de vínculo (Veloso, 1986).
Inicialmente, experimentávamos o medo do tempo acabar. De cada sessão ser a última. Toda vez que Ida saía, temia que não voltaria. Eu era tomada por uma sensação de estar desperdiçando o tempo que tínhamos. E Ida, de que nada daquilo adiantaria.
Era sufocada pelo medo paralisante de que aquela sessão seria a nossa última. E o que foi feito com aquele tempo? Ida insistia com o nada. Reduzia todo o potencial criativo do início de uma sessão ao nada. Eu sobrevivia na fé.
Mas a esperança é a única coisa que restou na caixa de Pandora, assim, nós humanos podemos sempre contar com ela para sobreviver em dias de caos na terra. Dizem que a esperança é a última que morre. E o tempo, foi generoso conosco.
Com o transcorrer do trabalho, fomos substituindo o medo pela confiança no vínculo e no trabalho.
Inicialmente, Ida me ligava todas as noites - e me disse em uma das ocasiões: “você sabe que eu te telefono, como um bebê que chora antes de dormir, para que sua mãe entre no quarto e ele tenha a certeza de que ela está viva e irá retornar no dia seguinte”. Depois, foi ficando mais confiante em si e na capacidade de nos mantermos vivas, até a sessão seguinte.
Fui substituindo o medo paralisante da última sessão pela criatividade e beleza do percurso. A arte, inicialmente pela música, foi paulatinamente fazendo parte das sessões: “transcorrendo, transformando. Tempo e espaço, navegando todos os sentidos … Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei”. (Gil, 1987).
E foi pela música, que as sessões ganharam novo ritmo, de compreensão e escuta. Ida acrescentou ao repertório notas sobre o fim, e num belo arranjo, repassamos 90 anos de músicas autorais.
Em um dos nossos diálogos, disse que estava esperando. Esperando a morte. Que não valia viver, enquanto se espera pelo fim da vida: “não se sabe quando ela vai chegar, pode ser que seja breve, então, para que começar um livro novo, se não vai nunca chegar até o final”.
Cantarolei despretensiosamente, em Mi menor, o trem que já vem, que já vem…
Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas pra que sonhar se dá
O desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem …
(Buarque, 1970)
Ida reconheceu as frases e o tom, e disse: “adoro Chico Buarque”. Passamos a ouvir música durante as nossas sessões. Com base na construção de grandes artistas, fomos aproximando e embarcando nesse tal trem que já vem.
Enfim, conseguimos posicionar a morte “no seu devido lugar”. E pegamos o trem do percurso, que era fértil e repleto de belezas da vida. O trem que voltava para o Norte.
O norte analítico, em que a vida vivida guarda belezas e feiuras dignas de ser apreciadas, mesmo que elas fossem desaparecer em breve. No mundo da ficção, ou da música, encontramos uma pluralidade de vidas, de que temos necessidade (Freud, 1915/2010a).
O curioso é que a morte não era excluída das conversas, muito pelo contrário, demos-lhe o lugar que lhe cabia, na realidade e nos pensamentos. Nós a pusemos à mostra, em destaque, em vez de minunciosamente reprimi-la (Freud, 1915/2010a).
O valor da transitoriedade, em vez de nos roubar a beleza, deu à vida uma autorização à sensibilidade, transformando tudo o que se viveu e tudo o que ainda seria vivido em uma travessia mais intensa.
Nossa relação tornava-se cada vez mais íntima, próxima e visceral. A fragilidade imposta por inúmeras internações que foram atravessando nosso percurso de análise - e inúmeras idas minhas até o hospital - transformou nosso vínculo.
Ida era uma pessoa que costumava “afastar os outros de si”. Mas permitiu minha aproximação. E ao tentar afastar-se de mim, cantamos:
Mães zelosas, pais corujas
Vejam como as águas de repente, ficam sujas
Não se iludam, não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei.
Ida estava se dando uma nova chance de aproximar-se, o suficiente. Em um de nossos encontros hospitalares, Ida, já bem debilitada, confidenciou-me que temia pelo tempo que havia desperdiçado, pelos homens que havia afugentado na vida e por não ter tido filhos. Agora, não tinha continuidade. Não tinha para quem deixar um belo relógio. Não iria deixar marcas.
Respondi a ela que deixamos marcas nas pessoas ao nosso redor, e que ela havia deixado marcas profundas que ecoavam em mim. Ela se manteria viva, mesmo depois da morte, nas pessoas em quem ela deixou marcas. Ida sorriu e me disse que eu falava como a analista dela, de forma tão doce, sobre a vida e, principalmente, sobre a morte. Por trás da máscara, eu também sorria.
Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco
Ida, assim como todos nós, ao envelhecer, colecionava saudades. Ao aceitar a tarefa hercúlea de envelhecer e se apropriar do tempo vivido, deparou-se também com as suas perdas. E essas perdas eram para ela tudo o que tinha e o que restava da vida que viveu. Lembrou-me do início do livro da Rosa Montero (2019) que li para ela:
Como não tive filhos, a coisa mais importante que me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isso me refiro à morte dos meus entes queridos. Talvez você ache isso lúgubre, mórbido. Eu não vejo assim. Muito pelo contrário: para mim é uma coisa tão lógica, tão natural, tão certa. Apenas em nascimentos e mortes é que saímos do tempo. A Terra detém sua rotação e as trivialidades com que desperdiçamos as horas caem no chão feito purpurina. Quando uma criança nasce ou uma pessoa morre, o presente se parte ao meio e nos permite espiar durante um instante pela fresta da verdade - monumental, ardente e impassível. Nunca nos sentimos tão autênticos quanto ao beirarmos essas fronteiras biológicas: temos a clara consciência de viver algo grandioso. (Montero, 2019, p. 9)
Além de enlutar-se pela sua vida que chegava, inevitavelmente, ao fim. Enlutou-se também por seus familiares que não existiam mais, mas habitavam, sem se dar conta, dentro dela.
O exame da realidade mostrava o tempo todo, que os seus familiares queridos, não estavam mais presentes, porém, em vez de retirar a libido dessas conexões, opunha-se. Era capaz de causar um afastamento da realidade, porém não grande o suficiente para ser uma psicose de desejo alucinatória (Freud, 1917[1915]/2010b).
Ida resignada, enfrentava a realidade. Brincava. Transformava-a.
Arrumava-se toda tarde, sentava-se no seu canto do sofá, olhava para a porta e esperava. Um a um, aguardava seus familiares voltarem de um dia corrido de afazeres vivos. Ninguém voltava, ela sabia, tinha consciência. Mas devaneava, brincava com a realidade e, assim, conseguia matar um pouco as saudades. Mantinha-se esperançosa.
Do adulto, espera-se um abandono do ato de brincar, muitos envergonham-se, ocultam em seu íntimo seus devaneios, outros transformam em obras literárias (Freud, 1908/2015). Li para Ida, o seguinte poema, de José Luís Peixoto (2012), do livro A criança em ruínas:
Na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. Depois, a minha irmã mais velha casou-se. Depois, a minha irmã mais nova casou-se. Depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está na casa dela, menos a minha irmã mais nova que está na casa dela, menos o meu pai, menos a minha mãe viúva.
Cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde como sozinho, mas irão estar sempre aqui. Na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco. (Peixoto, 2012, p. 15)
A partir da compreensão de que, mesmo depois que não existimos mais, continuamos vivos, presentes naqueles que tocamos e em quem deixamos marcas ao longo de nossa vida, Ida aproximou-se da sua própria partida e das marcas que deixou ao longo da vida, em seus familiares e amigos.
Apoderou-se da compreensão de que, mesmo que uma flor floresça apenas uma noite, ela não perderá sua formosura pela breve vida. Ao contrário, sua beleza torna-se ainda mais encantadora. O valor da transitoriedade é o valor da raridade do tempo (Freud, 1916/2010c).
Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá
Talvez a psicanálise tenha demorado um pouco para olhar que uma análise é possível, mesmo com uma memória falha, mesmo com uma “certa idade”. Porque, apesar dos anos que passaram, há sempre o tempo que não passa dentro de nós e desse tempo a psicanálise se ocupa. Há sempre velhos afetos empoeirados esperando seus destinos. Há sempre uma dupla a ser formada, independentemente da idade. Ida esparramou-se em meu consultório, confiou em nossa relação.
Mesmo com todas as canções, com todos os poetas e autores evocados, nada se aproxima da experiência emocional de deparar-se com a morte, de que tanto falamos.
Naquela noite, Ida encontrava-se calma, sedada, em intubação orotraqueal, batalhando contra uma sepse de foco pulmonar. Eu me aproximei, serenamente, segurei a sua mão e estive onde muitas vezes ela me pediu para estar, ao seu lado, até o fim.
As marcas de Ida me acompanharão para sempre, não só nos atendimentos que se sucederão, mas na pessoa analista que vou me tornando. Pouco importa o tempo de trabalho que tivemos juntas ou quantas sessões fazíamos por semana. Compartilhamos a experiência do que é mais visceral do ser humano: fragilidade, finitude, dependência, vínculo amoroso e beleza de que é estar vivo.
Em uma frase atribuída a Jung, entretanto de autoria indeterminada, é apresentada a ideia de que não basta dominar todas as técnicas, teorias e conceitos; ao tocar uma alma humana, devemos ser apenas outra alma humana.
Ida usufruiu deste trabalho, reconstruiu sua história a partir de si, como personagem principal, e se apropriou, a cada sessão, da sua subjetividade. Aos poucos voltou-se para si, em vez do cuidado com o outro.
Frente à morte que se apresentava tão real, foi a beleza do percurso transcorrido que deu sentido à experiência. Assim como Gil (1977), eu também ando com fé, que a fé não costuma faiar.
A fé tá na manhã.
A fé tá no anoitecer.
Oh, no calor do verão.
A fé tá viva e sã.
A fé também tá pra morrer.
Oh, triste na solidão.
Ida, esperançosamente, recuperou-se. Nosso último encontro foi na semi-intensiva, um pouco antes do Natal de 2023.
Enquanto segurava a minha mão, pediu-me para nunca esquecer dela. Respondi que ela também era capaz de deixar marcas nas pessoas ao seu redor, assim como o havia feito em mim. São essas marcas que tornam as pessoas inesquecíveis. Elas as mantêm vivas, dentro de nós, pessoas que já não existem mais. São elas que exprimem a beleza da vida, a graciosidade do encontro e a peculiaridade da transitoriedade. São as experiências vividas que configuram ao tempo seu caráter precioso.













