Haviam se passado sete dias da chegada do bebê quando um torcicolo acometeu a recém-mãe. Seu pescoço, travado, indicava uma nova posição em sua vida, em que seu olhar estava fixado sempre numa mesma direção. Sabia que parte da nutrição vinda da amamentação incluía a troca de olhares. O bebê, com sua parte animal e faminta, recém-chegado ao mundo, pouco conseguia participar dessa interação. Ele tinha fome. E a recém-mãe, com sua parte também animal, mas estava fixada nos conhecimentos em relação à posição e a pega correta. Ela tinha a coreografia. Seria esse um sinal da preocupação materna primária (Winnicott, 1956/2000)? Essa mãe estava devotada, contornada pela experiência de mergulho e olhar para uma única direção? Ou havia algo de rígido, temeroso e profundamente inseguro?
Já com uma semana de torcicolo, configurada uma dor presente, pensava que talvez esse fosse seu novo corpo de mãe. Era início da madrugada, e, ainda sem lugar, mãe e bebê passavam as horas da noite escura na sala. Quem diria que a elaboração viria do prédio que é o responsável por tampar o sol durante a tarde? O bebê adormeceu no colo, e a mãe se permitiu expandir e olhar para fora. Como numa cena de filme, um ângulo perfeito, na pequena sacada do prédio da frente, a recém-mãe viu um casal tentando dançar. Ele ensinava a ela alguns passos, algumas tentativas, parecia ser um bolero, dois pra lá, dois pra cá, encontro, desencontro, erro, acerto. Aquela dupla ainda não sabia, mas tinha potencial. A recém-mãe, então, se deu conta de que ela e seu bebê também estavam aprendendo a dançar. E, para toda dança, são necessários ritmo e entrega. E a recém-mãe compreendeu que nunca foi boa dançarina, pois tinha justamente que ceder o controle. A mãe sorriu ao pensar que, quando se tem a função psicanalítica da personalidade introjetada, uma cena na madrugada pode tornar-se uma interpretação, uma poesia ou um vaga-lume que ilumina. Não era necessário segurar ou olhar com fixação, e sim com movimento. Era preciso dar ritmo à experiência. Quando uma dor é nomeada, ganha figurabilidade e simbolização, há alívio. Até a dor de um torcicolo. Olhar da mamãe e do bebê, corpo da mãe e do bebê precisam aprender a se encontrar, sem coreografias prontas ou refinadas, sem teorias e saberes, mas aos poucos, no simples, apenas um pra lá, dois pra cá.
Os primeiros dias de um bebê e sua mãe são intensos, talvez cruéis. Uma odisseia, em que os dias, ou melhor, as noites são longas e imprevisíveis, com tantas aventuras difíceis de serem vividas. Mas depois que passa, no raiar do dia, vêm a sensação de sobrevivência e a intensa intimidade criada na travessia. A jornada do herói, sendo este às vezes o pequeno bebê, outras vezes a também pequena mãe. Ambos mergulhados no desamparo profundo que nos caracteriza como humanos. Um dia após o outro.
Disseram para a recém-mãe que, para cuidar de um bebê, era preciso uma aldeia. Essa recém-mãe sorriu, concordou, mas pensou na necessidade de uma aldeia interna, repleta do entusiasmo dos pequeninos, da onipotência dos adolescentes, da sabedoria das anciãs, da braveza das guerreiras. Partes diversas para sustentar a nova função. A casa da recém-mãe estava quase sempre cheia, e ainda bem, de pessoas muito queridas e atenciosas, mas tamanha presença era vontade de preencher tamanha falta. Ser uma recém-mãe sem ter mais a mãe tornava essa odisseia um pouco mais sofrida, por um lado, e, por outro, uma jornada para um reencontro tão vivo. A maternidade - para essa mãe - foi uma elaboração e um retorno, ocupando agora um novo lugar nessa díade. Trazendo a sensação de não estar só.
O destino final de uma travessia de quase 17 anos, tal qual a jornada de Ulisses, foi encontrado numa tarde em que a mãe limpava sua caixa de e-mails e notou uma mensagem de conteúdo publicitário que dizia saber que o Dia das Mães podia ser uma data delicada para algumas pessoas e, caso quisesse, era só clicar para não receber o conteúdo de homenagem. A mãe clicou e imediatamente sentiu um arrepio tão forte no corpo e na alma e se deu conta de que agora o Dia das Mães tinha se transformado. Ali viveu o que talvez seja uma mudança catastrófica (Bion, 1966). A mãe percebeu que vivia uma espécie de “torcicolo interno”, e agora era preciso e possível incluir expansões no olhar e no sentir. A mãe podia voltar a sentir uma imensa felicidade, não mais clandestina.
Olhar para a maternidade exige uma série de cuidados, pois nela estão tantas formas, cenários, vivências externas e subjetivas, recortes de classe, sociais, privilégios, enfim, um terreno complexo. Mas numa conversa entre puérperas surgiu um lugar-comum: a vontade, por vezes escondida, por vezes declarada, de voltar, que fosse por um dia ou por uma noite, a ser quem se era antes da chegada do bebê. A recém-mãe sorriu ao lembrar-se da espera de Penélope e da esperança de que, ainda que demore, essa parte sobreviva e retorne. Sorriu ainda mais ao pensar que, quando essa hora chegar, será o início de uma outra jornada. Juntar e ser par é uma odisseia, mas separar-se, ver esse que se torna outro trilhar caminho próprio e partir para suas próprias aventuras também é.
Meses após aquela noite do bolero e com muitas outras noites em claro, novas dores no corpo, mas com inúmeros sorrisos, gargalhadas, balbucios, bebê entregando o pezinho para ser devorado em amor, uma dança ampliada com ensaios de triangulações, lugares pertencidos, a já não mais recém-mãe sorriu ao escutar
começaria tudo outra vez se preciso fosse, meu amor … e então eu cantaria a noite inteira como já cantei e cantarei … A fé no que virá e a alegria de poder olhar para trás e ver que voltaria com você de novo, viver nesse imenso salão ao som desse bolero, vida, vamos nós e não estamos sós, veja, meu bem, a orquestra nos espera … mais uma vez, recomeçar. (Gonzaguinha, 1976; destaque da autora)
Os primeiros dias de uma mãe com seu bebê são como uma neblina. Difícil de atravessar. Equívocos, excessos e tropeços devem ser uma constante no devir da maternidade, mas a orquestra nos espera recomeçar. E começar tudo outra vez. Viva a vida.
A cada dia estamos dançando melhor.2













