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Reverso

versão impressa ISSN 0102-7395

Reverso vol.47 no.89 Belo Horizonte jan./jun. 2025  Epub 24-Out-2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v47n89.01 

Editorial

Editorial

Paulo Roberto Ceccarelli


As dinâmicas sociais e subjetivas da atualidade se influenciam e se transformam mutuamente, renovando as relações entre sujeito e cultura. O referencial psicanalítico nos oferece uma poderosa lente para aprofundamo-nos na complexidade da condição humana, e desvelarmos os mecanismos psíquicos que subjazem nossos desejos e dirigem nossas escolhas: “essa parte de mim, que eu desconheço, e que me guia” (F. Pessoa).

O número 89 da Reverso, revista editada pelo Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, nos presenteia com uma instigante e diversificada coletânea de textos que contribuem para expandir a compreensão do universo psicanalítico.

A Reverso nos convida a explorar as inúmeras versões da dinâmica pulsional que anima a singularidade de cada sujeito no seu processo de subjetivação. Os artigos que compõem a revista contribuirão, certamente, para nossa reflexão nas práticas clínico-teóricas da psicanálise.

Autor convidado

Hilda Fernadez-Alvarez, psicanalista lacaniana baseada em Vancouver, Canadá, nos prestigia com o texto O psicanalista sabe como não gozar - Técnica versus estilo no ato analítico, no qual discute, a partir da prática da psicanálise, o ato analítico, e se pergunta como o analista se posiciona diante do gozo e do não saber.

Conferencista

A conferência de Marco Antônio Coutinho Jorge, apresentada na XLII Jornada do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, “Ecos das pulsões”, em 28 de setembro de 2024, intitulada Lacan com Debord - A sociedade do imaginário, estabelece um diálogo entre a Sociedade do Espetáculo, expressão usada por Debord, e a noção de imaginário em Lacan, mostrando suas semelhanças e diferenças. Após um longo percurso entre as premissas dos dois autores, Marco Antônio demonstra que uma estratégia diante o real, no caso o real da morte, é o recurso ao imaginário.

Psicanálise e contemporaneidade

Alex Wagner Leal Magalhães nos traz uma instigante análise no texto intitulado Sobre a esquize entre o olho e o olhar em Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum, escritor amazonense, partindo da interlocução entre psicanálise e literatura. O Seminário do livro 11 de Lacan é utilizado para abordar questões clínicas centrais como o olhar, a angústia, objeto a, o que nos leva a refletir sobre como a percepção e a experiência visual são filtradas pela nossa estrutura psíquica.

Partindo dos traços deixados na ilha de Robson Crusoé, e utilizando-se da lógica matemática, Amanda Brasil de Araújo, Breno Ferreira Pena e Roseane Freitas Nicolau trabalham, em O traço para uma identificação, o conceito lacaniano de traço unário apresentado no Seminário Livro 9: A identificação. Propõem, sem seguida, novos sentidos para a constituição do traço unário, aumentando, assim, a extensão do debate.

A era digital trouxe novos desafios para a psicanálise, sobretudo, no que diz respeito à digitalização do trabalho e ao subsequente impacto na subjetividade. Em O sujeito algorítmico: Digitalização do Trabalho, gozo e (des-)subjetivação, Anderson de Souza Sant’Anna examina como o algorítmico da automação promove a (des-)subjetivação, o que leva ao questionamento sobre o significa ser sujeito na era digital.

A conquista do Zuider Zee e a insistência do gozo, de Cláudio Teles de Toledo Bernardes, trata da transição do pulsional para a criação cultural em relação ao objetivo de uma análise. O texto retoma a leitura de Lacan da máxima freudiana, Wo Es war, soll Ich werden, para mostrar como ela incide sobre dois momentos de seu ensino relativos ao trabalho analítico: a ética do desejo, no início dos anos 1960, e a formulação de uma clínica do gozo, no início dos anos 1970.

Clínica psicanalítica

Eduardo Henrique Ferreira Dias, no texto Adoecer no adolescer: um outro manejo transferencial, discorre sobre alguns aspectos centrais da adolescência, período crítico de formação do sujeito, revelando as complexidades do crescimento e as perturbações psíquicas que podem surgir nesta fase da vida.

Em Subversão do masoquismo feminino: a mascarada na escrita erótica contemporânea, Elizabeth Fátima Teodoro e Wilson Camilo Chaves discutem, a partir do Cinquenta Tons de Cinza e A Função do CEO, a escrita erótica contemporânea, nos oferecendo uma janela para a subversão do masoquismo feminino, além de mostrarem como a criatividade pode ser uma expressão de libertação.

No texto O que colher de um ato? O analista em seu ato, angústia imprevista do Real, Paulo Victor Madureira Nunes Costa nos fala da angústia que acompanha o analista, pois é só no a posteriori do ato que o analista poderá conjecturar sobre o que o fez agir. O texto tem por base a premissa de Lacan segundo a qual a práxis da psicanálise é uma experiência que toca e modifica o real; um tratamento do simbólico sobre o real.

Scheherazade Paes de Abreu e Gilson Iannini, em O tempo que não há: ensaio sobre o inconsciente atemporal, investigam o conceito freudiano de atemporalidade e suas implicações epistemológicas e clínicas. Partindo de textos fundamentais de Freud, os autores procuram esclarecer a atemporalidade do inconsciente, tendo como hipótese central a percepção de que a atemporalidade não exclui o tempo, mas manifesta-se justamente por meio dos pontos de fixação pulsional, exigindo constante releitura.

Racialização como efeito do colonialismo e constituição psíquica, de Carmen Regina Teixeira Gonçalves, discute a participação do colonialismo na constituição das subjetividades de pessoas negras. O trabalho é sustentado pelo conceito de raça, na construção da subjetividade negra de Frantz Fanon, e no Mal-estar na cultura, de Freud. O estádio do espelho é usado para questionar a construção de subjetividades baseadas no outro, o que, segundo a autora, esvazia os corpos e os desumaniza. Pergunta-se, enfim, como a clínica psicanalítica é capaz de realizar, ou não, tal escuta.

À Viviane Dias Loyola, agradecemos à primorosa revisão da revista. Nosso muito obrigado à Adriana Dias Bastos e Dayane Esmeralda Ribeiro pelo sempre eficaz trabalho de secretariado. À Marta Aparecida de Almeida e Almeida, nossa bibliotecária, atenta às solicitações dos sócios, ao nosso tradutor Bernardo Maranhão e ao diagramador Sérgio Luz, pela excelência do trabalho. A Diretoria do CPMG é igualmente merecedora de nosso reconhecimento pelo constante apoio e incentivo destinados à Reverso.

A todos esses colegas e colaboradores, nossos agradecimentos, na certeza de podermos contar com a valiosa e indispensável participação.

Nosso trabalho não seria possível sem os colegas que compõem nossa comissão de publicação: Ana Boczar, Eliana Rodrigues Pereira Mendes, Marília Brandão Lemos de Morais Kallas, Paulo Roberto Ceccarelli e Suzanne Beaudette Drummond, sob a primorosa e dedica coordenação de Maria Mazzarello Cotta Ribeiro.

Agradecemos, por fim, aos autores e às autoras que contribuíram para esta edição, cuja participação tornou possível a publicação deste número.

Paulo Roberto Ceccarelli

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