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versão impressa ISSN 0102-7395

Reverso vol.47 no.89 Belo Horizonte jan./jun. 2025  Epub 24-Out-2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v47n89.03 

CONFERENCISTA

Lacan com Debord - a sociedade do imaginário1

Lacan with Debord - the society of the imaginary

Marco Antonio Coutinho Jorge

Marco Antonio Coutinho Jorge

Psiquiatra. Psicanalista.

Professor titular do Instituto de psicologia da UERJ.

Diretor do Corpo Freudiano - seção Rio de Janeiro

E-mail:macjorge@macjorge.pro.br

1 
http://orcid.org/0000-0002-0710-7527

1Instituto de psicologia da UERJ


Resumo

O artigo estabelece um confronto entre as concepções introduzidas por Guy Debord sobre a Sociedade do Espetáculo nos anos 1960 e as últimas formulações de Jacques Lacan sobre o registro do imaginário. Enfatizando que tais concepções apresentam pontos de convergência e de divergência, o artigo pretende indicar na onipresença das redes sociais no mundo contemporâneo a busca de sentido que o imaginário produz para fazer face ao não-senso devastador do real que assola a vida cotidiana.

Palavras-chave: real; imaginário; psicanálise; Jacques Lacan; Guy Debord.

Abstract

The article establishes a confrontation between the conceptions introduced by Guy Debord about the Society of the Spectacle in the 1960s and the latest formulations of Jacques Lacan about the register of the imaginary. Emphasizing that such conceptions present points of convergence and divergence, the article intends to indicate in the omnipresence of social networks in the contemporary world the search for meaning that the imaginary produces to face the devastating non-sense of the real that plagues everyday life.

Keywords: real; imaginary; psychoanalysis; Jacques Lacan; Guy Debord.

Podemos estabelecer uma conversa entre aquilo que Guy Debord denominou1de Sociedade do Espetáculo, nos anos 19602, e a noção de imaginário, em Lacan. Esta conversa talvez ilumine um aspecto dominante da sociedade contemporânea: a maneira pela qual as pessoas investem sua libido e suas atividades psíquicas nas redes sociais, nas telas, em resumo, em imagens, e, essencialmente, na imagem do corpo.

À primeira vista, ambas as noções parecem se coadunar com perfeição. Contudo, um aprofundamento permite que se estabeleçam diferenças significativas entre elas. Nosso interesse principal é, após termos reconstruído a mudança da concepção de Lacan em relação ao lugar do imaginário na estrutura subjetiva, avaliar se podemos adotar a visão lacaniana final como modelo para se entender a função do imaginário na cultura contemporânea, trazendo à baila, em contraponto, as ricas contribuições de Debord.

Para Lacan o imaginário é a fonte de uma alienação fundadora do Eu, bem como, para Guy Debord, a imagem no espetáculo opera uma alienação das massas. Construída como uma enumeração pontuada de insights prodigiosos que constrói aos poucos uma razão geral, a tese central de Debord sobre o “sistema de dominação espetacular”3 é de que “a raiz do espetáculo está no terreno da economia que se tornou abundante” (tese 58).

É digno de nota que em sua argumentação, no seu cerne, defende a abolição das classes (tese 53). Debord se refere à psicanálise algumas vezes: seja falando do “inconsciente social” (tese 51), seja parafraseando a máxima ética freudiana ao afirmar que “No lugar em que havia o Isso econômico, deve haver o Eu” (tese 52). Fundamentalmente, ele considera que a Sociedade do Espetáculo esvazia o poder de decisão de cada um, anula os desejos autênticos e torna a vida das pessoas uma mera aparência voltada para a entronização crescente das vedetes do espetáculo e as “pseudonecessidades impostas pelo consumo moderno” (tese 68).

O acúmulo de mercadorias abundantes libera um “artificial ilimitado”, diante do qual “o desejo vivo fica desarmado” e o resultado final é a “falsificação da vida social” (tese 68). A primeira tese que abre seu livro poderia ter sido escrita hoje e ser considerada como definidora da realidade social do século XXI, monitorada continuamente pelas redes sociais: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. (Tese 1)

É impactante ver que a afirmação de Guy Debord de que a Sociedade do Espetáculo é a forma última assumida pela mercadoria no capitalismo avançado encontra hoje, muito mais do que na própria época em que foi concebida, uma evidência inegável. O mundo das redes sociais, através das quais a comunicação humana passou a se produzir é, no fundo, um produto refinado da Sociedade do Espetáculo: nele, temos as postagens seguidas de likes e comentários voltados inteiramente para o espetacular, em todas as formas que este pode assumir, desde as mais enaltecidas às mais aviltantes, brindando o imaginário com todo o poder de se manifestar pelo extremismo que ele pode conter, do amor ao ódio.

Hoje assistimos às guerras em tempo real: a violência, o massacre e a crueldade invadem nosso cotidiano, desde o momento em que acordamos pela manhã e nos conectamos com o mundo através das redes. Por outro lado, as produções mais impactantes da cultura, shows e exibições da alta tecnologia, como as recentes criações de imersão artística absoluta, se apresentam em nosso cotidiano continuamente. O que é digno de nota é que a ideia da imagem espetacular captura nosso olhar e orienta nosso interesse.

Não há como não ver no pensamento de Debord a incidência da guinada que a leitura lacaniana da obra de Freud produziu para os psicanalistas a partir dos anos 1950, ao introduzir as categorias do imaginário e do simbólico. Relendo a máxima freudiana Wo es war soll Ich werden, como uma ênfase no Isso e não no Eu, tal como fora lida pelos analistas norte-americanos que criaram a ego-psychology, Lacan enuncia a ética da psicanálise como centrada no desejo e não na resistência cuja sede é o Eu, agente do recalque e sede das alienações imaginárias.

Não há como não ver igualmente, nas teses lacanianas iniciais sobre a necessidade de dissolver ao máximo o imaginário, uma proximidade com a perspectiva da busca de uma vida para além da representação, brandida por Debord ao formular que “emancipar-se das bases materiais da verdade invertida, eis no que consiste a autoemancipação de nossa época”, visando realizar “essa missão histórica de instaurar a verdade no mundo” (tese final: 221).

Imaginário versus real

É preciso retomar a investigação dos papéis do imaginário e do narcisismo na clínica e, em especial, na sua extensão na cultura. Observamos em ambos uma dialética que se revela altamente instrutiva entre o imaginário e o real: trata-se da guerra entre o sentido uno do imaginário e o não senso absoluto do real. Tanto na clínica quanto na cultura, podemos detectar de modo inegável que, quando o real se apresenta em sua potência disruptiva, é ao imaginário que recorremos para solicitar auxílio. Num primeiro momento de disrupção e catástrofe do sentido, o simbólico não é o bem-vindo, mas o imaginário, ou, talvez, fosse melhor precisar, o simbólico “imaginarizado”. Como disse uma analisanda contando que fora a um enterro muito elegante e bem vestida: “Quanto mais desgraça e sofrimento, mais arrumada eu quero estar”.

Acreditamos que as elaborações introduzidas por Guy Debord com a noção de Sociedade do Espetáculo, ao final dos anos 1960, podem ser de grande utilidade, caso consideremos que o apontado ali por ele foi o prenúncio de uma verdadeira sociedade do imaginário. Mas nossa proposta não se restringe a apenas diagnosticar a existência desta sociedade no mundo contemporâneo, mas também , igualmente, tentar conceber a origem da situação atual como sendo o avassalamento do real sobre os indivíduos no mundo contemporâneo. Para isso, nos valemos da mesma dialética entre o real e o imaginário que consideramos uma matriz fecunda de compreensão de certos processos psíquicos de outro modo obscuros.

Partindo desta lógica que o ensino de Lacan autoriza, a proposta aqui é rever em diferentes áreas de nossa sociedade a mesma oposição entre real e imaginário, como modo de funcionamento que se estende a lugares e temporalidades diversas e, logo, corresponde a um processo psíquico espontâneo de “cura” - cura entendida aqui no sentido de apaziguamento do sofrimento psíquico que, no caso da invasão do real, pode com frequência se tornar insuportável.

Num artigo sobre a confrontação entre a teoria de Debord e a concepção lacaniana do imaginário4, Wu Guanjun oferece alguns pontos de apoio essenciais à nossa reflexão. Primeiro, devemos repertoriar com mais detalhes o modo pelo qual a teoria de Debord concebe a relação entre o imaginário e a sociedade do espetáculo. Uma afirmação que surge logo no início de A sociedade do espetáculo se impõe: “O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem” (tese 34). De fato, trata-se aqui da tese central de Debord: “O capitalismo na segunda metade do século 20 se desenvolveu para um novo estágio no qual a forma da mercadoria penetrou na comunicação de massa” (Guanjun, p.4) Esta orienta o consumo de um indivíduo privado de sua autonomia e reduzido à categoria de espectador. Guanjun sublinha que, para Debord, não basta afirmar que no capitalismo tardio as pessoas são governadas pela imagem, mas sim que elas são dominadas “pela exposição de mercadorias que são apresentadas pela estrutura sociopolítica de imagens espetaculares” (p.5).

Há uma confluência nítida nas concepções de Debord e de Lacan quanto a essa constatação do poder alienante da imagem. Algumas teses de Debord prefiguram com exatidão a impressão de inautenticidade que as pessoas apresentam hoje, com uma necessidade de documentar de forma espetacular o que viveram e o que viram, tornada maior do que o desejo de usufruir as sensações provocadas pela vivência. A vivência, enquanto tal, torna-se árida sem a sua elevação ao patamar de um espetáculo privado, que será compartilhado nas redes, de cujo roteiro cada um é o autor e o diretor. A imagem conta infinitamente mais do que a vivência: um guia de turismo que conduz os viajantes a breves viagens em seu veleiro comunicou, com espanto, que passa a viagem inteira tirando fotos dos turistas, que pouco se interessam em mergulhar no mar ou em explorar ludicamente as maravilhosas regiões do percurso realizado.

Se, em 1967, Debord observa que “o espectador não se sente em casa em lugar algum, pois o espetáculo está em toda parte” (tese 30), hoje seria preciso acrescentar que, com as condições proporcionadas pelas redes sociais, as pessoas encontraram uma saída para este mal-estar ao produzirem seu próprio espetáculo para seu público privado (seguidores) conquistado nas redes sociais. Assim, à maneira do bebezinho de 18 meses, observado por Freud, que se tornou sujeito ao impor ao objeto, que o escraviza ao lhe escapar, seu tênue domínio, o espectador do espetáculo tornou-se o realizador do espetáculo, passando da posição passiva em que era dominado pelo espetáculo da sociedade à posição ativa de criador desse próprio espetáculo.

Com as redes sociais do século 21, torna-se relevante a tese de Debord, segundo a qual o princípio do fetichismo da mercadoria revela que o “mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele e que, ao mesmo tempo, se fez reconhecer como o sensível por excelência” (tese 36).

A questão psicanalítica que se impõe nesse ponto diz respeito aos motivos inconscientes pelos quais a sociedade entronizou muito rapidamente o espetáculo como sua forma de existência mais desejada. Neste sentido, a psicanálise se separa de Debord que, embora diagnostique o problema com discernimento crítico, propõe como solução a “mudança do mundo”5, a destruição da sociedade do espetáculo. Tal posição política escamoteia a verdadeira questão sobre o porquê de a sociedade humana ter se organizado de tal modo.

Debord pensa historicamente que a imagem do objeto fetiche mercadológico é uma construção política a ser eliminada; já Lacan pensa psicanaliticamente que o poder da imagem faz parte da estrutura e, se ele se hipertrofia, há algum fator nas forças em jogo que o exigem. Minha hipótese é de que o imaginário se hipertrofia a cada vez que o real também se torna mais presente, evidenciando com mais intensidade o poder de sua efração. O espetacular é o que veicula com intensidade a força do especular em barrar o real da angústia e do despedaçamento corporal.

O investimento que se observa atualmente na imagem do corpo, desde as já clássicas cirurgias plásticas, até a expansão democrática da tatuagem, do piercing e da transição de gênero, estampa o violento apego das pessoas à imagem do corpo, como uma verdadeira fonte de estabilização da estrutura psíquica6. Quando alguém posta suas belas fotos, muitas vezes retocadas pelos aplicativos, e aguarda os likes e comentários dos espectadores deslumbrados com as imagens, estaria contrabalançando de modo decidido o horror que a vida diária impõe a todos nas grandes cidades, onde se caminha tropeçando sobre moradores de rua, mendigos e mulheres com crianças de colo? Estaria deslocando o olhar num processo de evitação do trauma real causado por tais vivências para tamponá-lo com imagens sedutoras escolhidas cuidadosamente para tal fim? Estaria brandindo o imaginário diante do real como força passível de neutralizá-lo?7

Podemos descrever essa dialética entre o imaginário e o real - entre sentido e não-sentido - anteriormente através de dois exemplos, um da clínica e outro da cultura, que ilustram com simplicidade esse movimento psíquico inconsciente universal.

Na clínica, observa-se que no trabalho de luto imposto pela perda de uma pessoa amada, o movimento mais espontâneo que o sujeito faz é o de culpabilizar - sejaautoculpa, seja culpabilizar o outro. Diante do não-senso do real da morte, sobrevindo necessariamente sob a forma de um trauma, o movimento psíquico de buscar apaziguamento pelo sentido que a culpa nutre é quase inevitável. Freud já observara, em Luto e melancolia, a presença quase universal da culpa no processo de luto.

A festa do Réveillon em nossa cultura mostra com limpidez que, diante do real incógnito e enigmático que o Ano Novo anuncia, a presença dos rituais religiosos à beira do mar (um dos nomes do real) de oferta de presentes às divindades é bastante representativa da necessidade de invocação da proteção imaginária em relação às possíveis invasões bárbaras do real insondável. O sentido religioso retira sua enorme potência do fato de que ele se apresenta como o grande escudo protetor em relação ao poder de efração do real, em especial da morte, outro nome do real.

Assim, acredito que a pletora de imagens em nossa cultura não deve ser entendida como uma manifestação da ênfase na alienação imaginária e, sim, como uma necessária dinâmica - o imaginário é da ordem do necessário, como o simbólico é contingencial e o real o impossível - de proteção em relação ao real avassalador do mundo contemporâneo. Os likes (gostar) são expressões eróticas e pulsionais de vida, os emojis são pulsionais - o símbolo de joia, o coraçãozinho, o coração batendo, o rostinho com estrelas nos olhos - todos são a imagem do deslumbramento narcísico consigo mesmo e com o outro; imagem narcísica que, por sinal, constitui o primeiríssimo anteparo que protege o sujeito da pulsão de morte.

É verdade que a pandemia do COVID-19, quando todos sofremos um violento ataque à nossa homeostase narcísica, nos empurrou a todos para o mundo virtual e especular com sua proliferação de imagens. Mas se essa necessidade persiste é porque passou-se a viver no âmbito do Outro espetacular, que produz efeitos de sujeito igualmente espetaculares. O espetáculo invadiu a vida cotidiana: assim como a pornografia é a expressão do sexo tornado espetáculo a ser desfrutado por todos, os sintomas passaram a se expressar também de modo espetacular na síndrome do pânico, nos cortes no corpo, nas manifestações espetaculares da confusão mental das loucuras histéricas8. O Outro espetacular chegou a produzir seus efeitos também nos analistas que se associaram aos especialistas de produção de conteúdo e correram para o brilho das redes sociais, ocupando o lugar de influenciadores que as descobertas da clínica psicanalítica contraindicam formalmente desde o nascimento da psicanálise.

Nesse mundo do “narcisismo de massas”, o espetáculo invade o corpo para acentuar sua potência cativante9 - belíssima expressão de Lacan para indicar a força da imagem do corpo - e se torna a forma expandida do narcisismo: onipresença da tatuagem, das argolas e dos piercings que parecem querer amortecer o real, reduzindo sua invasão do corpo a alguns locais privilegiados e escolhidos pelo sujeito, na afirmação de um domínio sobre o que pode perfurá-lo e onde deve fazê-lo. A expansão vertiginosa das pessoas trans parece manifestar igualmente uma profunda insatisfação com o poder assegurador inerente à imagem do corpo e almejar reconstruir o narcisismo a partir do zero, num autoempreendedorismo que, por si só, já é uma crítica à insuficiência do imaginário reinante para blindar o sujeito das invasões bárbaras do real.

Diferentes forças do Outro espetacular rivalizam pela conquista de nosso olhar perplexo diante das manifestações excessivas da morte, da beleza e da alegria: imagens do massacre dos judeus numa festa juvenil e das crianças mortas em creches em Gaza; shows feéricos do Rock in Rio durante duas semanas seguidas10. As irmãs Kardashian, ao se cobrirem de diamantes no casamento de indianos bilionários, representam magnificamente a falência da imagem do corpo, mesmo a das mais lindas mulheres, para proteger do real avassalador e seu recurso aos diamantes que, como se diz, são eternos. Se, como ensina Lacan, a beleza é o que funciona como um anteparo para a segunda morte, o excesso do brilho ofuscante dessas imagens, mais do que qualquer outra imagem do mundo contemporâneo, nos remete ao seu par antitético, aos abismos da violência, da pobreza e do caos nos quais estamos mergulhados.

Sabemos que a inflação do Eu fomenta a agressividade e, no limite, o ódio - R-I // S - onde a palavra falta e a exclusão do outro é a regra. O extremismo e a polarização que vivemos hoje é igualmente um efeito da oposição entre R e I, na qual o S não opera sua capacidade essencialmente dialética e é continuamente cooptado pelo campo do sentido.

Epílogo

A reconstituição dos eventos ocorridos no interior das Torres Gêmeas antes da queda revelou que foi ao imaginário que os ocupantes recorreram quando se deram conta de que iriam morrer: conscientes da morte iminente, enviaram mensagens de amor para seus entes queridos e diante do real da morte brandiram, como puderam, o amor11.

Na cultura contemporânea, pude mostrar12 a presença de discursos que se querem dominantes senão hegemônicos; em particular a religião, com sua ênfase no amor, retira seu poder do fato de que ela enfrenta: o real da morte com as promessas imaginárias da vida após a morte. Também o discurso capitalista, com sua fixação no polo do gozo da fantasia, despreza o sentido do amor e, em especial, do amor ao próximo que a sabedoria religiosa invoca. Quanto à psicanálise, seria possível conceber sua importância a partir do fato de que a clínica sob transferência, logo sob a égide do amor, é o viés possível - ou mesmo um creodo, um caminho obrigatório - para a travessia da fantasia e o encontro com o real da pulsão? É uma pergunta que se impõe caso queiramos dar relevo à crescente importância de se sustentar a presença da psicanálise no mundo contemporâneo.

Obrigado. φ

1Texto que retoma parte da conferência pronunciada no encerramento da XLII Jornada do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais sobre “Ecos das pulsões”, em 28 de setembro de 2024, no Centro de Convenções do Hospital Mater Dei, Belo Horizonte.

2Debord, Guy (1997). A sociedade do espetáculo. Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto.

3Expressão utilizada por Guy Debord na abertura de “Comentários sobre a sociedade do espetáculo”. Debord, Guy. A sociedade do espetáculo. Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Op.cit., p.167.

4Guanjun, Wu. (2022). Debord contra Lacan: Two critical theorizations of image in 20th-century french thought. In: Ruiquan Gao e Guanjun Wu (orgs). Studies on chinese modern history and politics. World Scientific Publishing Co. and East China Normal University Press.

5Debord, Guy. “Report on the Construction of Situations and on the Terms of Organization and Action of the International Situationist Society”, p.29;citado por Guanjun, op.cit., p.7.

6Estabilização no sentido borromeano.

7O mecanismo em jogo parece muito próximo da constituição do fetiche segundo Freud, quando o objeto estanca o olhar em determinado ponto que serve como evitação da falta já percebida pelo olhar.

8Que vimos proliferar em seguida ao 11 de setembro.

9Lacan, Jacques. (2007)., O seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar.

10Segundo depoimento revelador do próprio organizador do festival, as pessoas não vão mais ao Rock in Rio pela música, mas pelo evento.

11Em Lacan o axioma “Só o amor pode fazer o gozo condescender ao desejo” contempla esta lógica ao articular as três dimensões da sexualidade que podemos traduzir do seguinte modo: só o imaginário pode fazer o real condescender ao simbólico; ou ainda, só o sentido uno pode fazer o não-sentido condescender ao duplo sentido.

12Jorge, Marco Antonio Coutinho. (2010). Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan - v.2: a clínica da fantasia.

Referências

Debord, Guy. (1957). Report on the Construction of Situations and on the Terms of Organization and Action of the International Situationist Society citado por Guanjun, 2022, p.7. [ Links ]

Debord, Guy. (1997). A sociedade do espetáculo. Comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto. [ Links ]

Guanjun, Wu. (2022). Debord contra Lacan: Two critical theorizations of image in 20th-century french thought. In: Ruiquan, Gao; Guanjun, Wu (orgs). Studies on chinese modern history and politics. World Scientific Publishing Co. and East China Normal University Press. [ Links ]

Jorge, Marco Antonio Coutinho. (2010). Fundamentos da psicanálise de Freud àa Lacan - v.2: a clínica da fantasia. Rio de Janeiro: Zahar. [ Links ]

Lacan, Jacques. (2007). O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar. [ Links ]

Recebido: 11 de Outubro de 2024; Aceito: 22 de Abril de 2025

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