O inconsciente, cada vez que retornamos a Freud, faz-nos confirmar a importância deste conceito para a psicanálise. Freud e Lacan fizeram um esforço constante na tentativa de alcançar o limite de sua elaboração. Aliás, os dois são os únicos a se dedicar, em suas obras, à elucidação do conceito.
Parto inicialmente da primeira expressão do título deste trabalho: o real do inconsciente. Retiro-o de Lacan em sua entrevista à France-Culture em 1974, mas busco em Freud o que pode nos esclarecer acerca dessa expressão. Freud inventou o inconsciente e Lacan diz ter inventado o real em reação ao inconsciente freudiano. Inconsciente e real não são idênticos nem excludentes. Como enodá-los?
Em 1974, época da entrevista, vinte anos havia se passado desde o início do ensino de Lacan. No entanto, ele retorna à fórmula chave do inconsciente estruturado como linguagem. Diz que Freud extraiu e fixou como pôde o termo inconsciente e que não podemos alcançá-lo de maneira alguma - o que ele mesmo destacou. Freud articula o sujeito com a linguagem e por esse caminho dirige sua interpretação e, nessa articulação, nessa tradução do material inconsciente, algo se perde. A perda que se obtém “é o real do inconsciente, o real mesmo a secas” (Lacan, 1974, p. 4), ou seja, o real em si mesmo, a coisa em si, o Das Ding freudiano inapreensível, que não depende de nada para que se apresente, apenas da insistência.
Na importante elaboração de Freud sobre o inconsciente, em seu texto de 1912, denominado Uma nota sobre o inconsciente na psicanálise, está clara a ideia de que um inconsciente descritivo é insuficiente para retratar as relações funcionais e dinâmicas que ocorrem na ação psíquica. Um único plano, o da consciência, não oferece a Freud os aportes necessários para a construção do conceito de inconsciente. Para apresentar a dinâmica da ação psíquica, ele precisa de, no mínimo, três planos: a consciência, o pré-consciente e o inconsciente. Ele conclui que alguma coisa no decorrer dessa ação psíquica faz um corte que desarticula o conjunto, desaloja a consciência e introduz uma atividade radicalmente oposta. Uma outra cena, outro processo, outro campo que se abre.
Freud (1912/1969, p. 332) trabalha a concepção de que “todo ato psíquico começa como um ato inconsciente e pode permanecer assim ou continuar a evoluir para a consciência, segundo encontra resistência ou não”. A dimensão do ato psíquico representa um corte que inaugura um antes e um depois, que separa campos inteiramente diferentes, que instaura a não-relação entre a consciência, o pré-consciente e o inconsciente. A distinção desses três campos vem da própria essência do ato psíquico inconsciente que começa, segundo Freud, de uma negatividade; há ao menos-um elemento do ato que não se inscreve no psiquismo. Todo ato psíquico começa, então, desde um real, ou seja, de uma impossibilidade de representação.
Isso é o que Freud, já em 1896, elabora em sua carta a Fliess (Carta 52). As inscrições, transcrições, traduções confirmam o ajustamento ou a distribuição das excitações em diferentes sistemas num processo de divisão psíquica. Se há uma inscrição, ela é não-toda traduzida. O que fica inscrito e segue sem transcrição, o que carece de representação, atesta a castração antecipada a todo ser falante. Nesta carta está colocado que o recalque, que ocorre entre os registros, não acontece pela intensidade do desprazer que é gerado no processo de tradução do material psíquico, pois o desprazer vai sendo inibido ao longo do trabalho de tradução. O recalque se dá ao que está ligado a acontecimentos sexuais, o pulsional, cujas excitações acossam o sujeito como uma compulsão; e isso tira o sono de todo neurótico.
Freud (1911/1969) constata em Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental que toda neurose tem como resultado expulsar o paciente da vida real e aliená-lo da realidade. Ele observa que há uma perda de la fontion du réel, e a consequência é o estranhamento do neurótico diante da realidade objetiva (Wirklichkeit - realidade), pois essa realidade se torna para ele insuportável. A função do real é de fazer uma demanda ao psiquismo, uma demanda de trabalho que tira o sujeito da inércia. Se o neurótico nega o real e se perde na fantasia, não se pode esperar o mesmo do analista. Este não pode recusar ou desmentir o real, pois corre o risco de dormir na condução de uma análise.
O inconsciente pressupõe em sua própria lógica simbólica a lei da articulação significante, implica as composições da metáfora e metonímia e o intercâmbio de lugar. Por outro lado, há do real no inconsciente, o real sem lei, sem ordem. No Seminário 23, Lacan (1975-1976/1998, p. 131) diz que “na medida em que o inconsciente não deixa de se referir ao corpo, penso que a ‘função do real’ pode ser distinguida dele”. O real é distinto do inconsciente, está fora da cadeia simbólica e vem para exorcizar o imaginário do corpo, a inibição e o sentido. Ele é o “mistério do corpo falante, é o mistério do inconsciente” (Lacan, 1972-1973/1985, p. 178). Impõe-se como resposta distinta do simbólico e do imaginário, pois esses registros compõem a capacidade de abstração imaginativa, compõem o que Lacan se refere à cadeia significante, que busca firmeza e coerência de ideias.
Recupero agora o Das Ding freudiano, na linha do que Freud (1895/1977) organiza no Projeto para uma psicologia científica acerca da ausência de inscrição na experiência de satisfação e estados de desejo. Nada mais impossível a alcançar do que a medida ou a representação do desejo. Freud está na pesquisa de “como” a cognição ou o pensamento acontece em função das experiências com o objeto de satisfação. Dentro das várias funções do psiquismo, o juízo é fundamental no reconhecimento desse objeto e na distinção entre a alucinação e a experiência real. Há sempre uma Versagen nessa procura, traduzida por fracasso ou frustração, mas que na verdade podemos falar em impedimento e impossibilidade. Temos sempre o engano do encontro com o objeto. O juízo busca a identidade entre uma lembrança do objeto de desejo (a imagem na memória) e a percepção real desse objeto na realidade. É um processo que dá trabalho, um tatear permanente, uma prova retificativa, pois a correspondência é sempre falha: imagem e percepção não coincidem e, na diferença, reside o interesse a movimentar a máquina pensante. Vários caminhos são percorridos nas inscrições, até que alguma possibilidade de representação aconteça. Por outro lado, a parte que não oferece a diferença, isto é, a parte constante do complexo do objeto no processo de comparação de identidade, não dá oportunidade ou possibilidade de representação, ficando, então, incompreendida na memória, algo de inassimilável que Freud (1895/1977) denomina A Coisa, Das Ding (p. 438).
Das Ding é elemento entranho, alheio, isolado pelo sujeito em sua experiência com o seu próximo, seu semelhante, o Nebenmensch, e será a referência para o mundo dos objetos a orientar o destino do sujeito. Na A Coisa freudiana, Lacan vai colocar a letra “a”, que virá a ser o objeto a. Ele recupera esse conceito e o coloca como “o Outro absoluto do sujeito” (Lacan, 1959-1960, p. 69). Está fora-do-significado, portanto, é aquilo que o sujeito conserva a uma certa distância, da ordem de um “afeto primário anterior a todo recalque” (Lacan, 1959-1960, p. 71). A distância que se conserva é uma distância íntima, ou seja, uma proximidade com o que é externo dentro do próprio sujeito que não lhe permite ser idêntico a ele mesmo. Nesse sentido, o real de Das Ding não é exterior ao inconsciente e, se o inconsciente está nas palavras, é por elas que se pode ter acesso a esse impossível.
A descoberta freudiana do inconsciente desarticulou o discurso universal e a resposta de Lacan a essa descoberta, como ele mesmo diz, é o real. Ele escreve no Seminário 23: “Digamos que é na medida em que Freud articulou o inconsciente que eu reajo a isso (...) O real é minha resposta sintomática” (Lacan, 1975-1976/1998, p. 128). Tal como Kant, despertado de seu sonho dogmático por David Hume, escreve como resposta sintomática a Crítica da Razão Pura; Lacan, despertado por Freud da entropia do pensamento analítico pós-freudiano, inventa o real. Sua resposta, reduzida na forma de uma questão, não oferece uma orientação, mas, sim, uma crítica assídua aos desvios e às concessões que amorteciam o progresso da psicanálise. Lacan queria despertar o mundo com a razão analítica.
A eficiência do inconsciente não se detém no despertar, o inconsciente não deixa fora de seu campo nenhuma de nossas ações. Tomado pelo traumatismo da razão freudiana, Lacan (1957) retoma a lâmina cortante do criador da psicanálise. Recupera a instância da letra no inconsciente e argumenta que “é toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente” (Lacan, 1957/1998, p. 498), sendo a letra o “suporte material que o discurso concreto toma emprestado da linguagem” (Lacan, 1957/1998, p. 498).
Com todas as letras, Lacan vê, nos textos freudianos, as leis da superestrutura que Saussure difundiu pelo mundo. Vê na interpretação dos sonhos as formas verbais se recortando em metáforas e metonímias, vê ainda, na palavra, o cruzamento das ideias que portam o desejo inconsciente. Mas vê, ao mesmo tempo, que há do real no inconsciente, que há do real no sintoma, há do real no sexo. O inconsciente que faz o neurótico trabalhar como escravo para produzir sintomas, caminha no passo de todo mundo pela via de uma verdade ficcional, própria de uma imbecilidade subjetiva. O real, por outro lado, dirá Lacan (1974, p. 5), é outra coisa, pois o real “é o que não caminha, é o que atravessa o caminho da carruagem, bem mais do que isso, o que não cessa de se repetir para entravar essa marcha”. Lacan o inscreveu como experiência. É uma experiência porque não se chega até lá. Do real só temos pedaços, ele não está em lugar algum, ou seja, não há nenhuma ordem de existência para o real. Há do real no inconsciente, o que nos acena para a sua realidade, essa em que figura a não-relação e a inexistência de representação. Para sair da imbecilidade subjetiva, Lacan quer fazer uma escrita do real e a faz pelo nó borromeano. O real ex-existe ao simbólico e ao imaginário, mas essa “ex-sistência” é “esse fora que não é um não-dentro” (Lacan, 1974-1975, p. 19).
Caminhando para a segunda parte do título, no destino está na letra, recorro a alguns apontamentos do Seminário sobre a carta roubada, de Lacan (1975a). Nele encontramos a marca do significante como letra a causar efeitos a quem a detém, e isso é do simbólico, isso é o inconsciente, dirá Lacan. O que a carta carrega a faz sempre chegar a seu destino: um sujeito sob efeito da letra. A insistência da cadeia significante - autômaton - porta a tiquê - incidência do real como encontro faltoso. Lacan (1975/1998, p. 28) nos diz nesse texto sobre o real: “não importa que perturbação se possa introduzir nele, ele está sempre e de qualquer modo em seu lugar, o real o leva colado na sola, sem possibilidade de exilá-lo disso”. A carta/letra em transferência está e não está em um lugar, encontra-se à espera de algo indeterminado, de negócio inconcluso, de mercadoria não retirada, está en souffrance (em suspenso) a determinar o sujeito em seu ato, seu destino. O real na forma do que há nele de inassimilável já se encontra em espera no autômaton, no pouco que aí se revela.
Algo entre um significante e outro se interrompe e não chega, ou melhor, chega como puro afeto no corpo, pura materialidade sonora ou modulação de voz e nisso está o efeito de feminização da carta roubada, efeito distinto “do próprio significante que ela carrega” (Lacan, 1971/2009, p. 107). É preciso tempo e espera para que o significante Um, não qualquer, seja extraído de alíngua e não da linguagem, para tirar o sujeito da errância e invocar o gozo separado da fala, que conversa sozinho, como um ruído no qual se pode tudo ouvir e escrever, mas que, sobretudo, não quer comunicar. O significante é fálico, lalangue é feminino. O modo como alíngua foi falada, sua lalação como gozo do som e não do sentido aparecerá em todo tipo de formas de dizer (Lacan, 1975b/1998).
Então, o que resta do significante quando ele já não se presta a provocar efeitos de significação no sujeito? Sem a mensagem, a carta faz peripécias. Em Lição sobre Lituraterra, Lacan (1971/2009) retorna à carta roubada e propõe a letra como litoral. Ao pé da letra seria o caso de dizer que ela separa domínios diferentes, ou seja, entre o gozo do significante e o saber sem sujeito, a letra constitui o litoral. O inconsciente continua para Lacan (1971/2009, p. 110) a ter precedência, contudo, resta saber como o inconsciente comanda essa função da letra e “nada permite confundir, como se tem feito, a letra com o significante”. A letra faz sombra, apaga o traço unário, faz rasura e reduz a determinação significante. A presença da letra como litoral está “entre centro e ausência” (Lacan, 1971/2009, p. 113). Como centro, a letra está no inconsciente e participa dos destinos do significante, como ausência ela não está aí, faz rasura.
No Seminário 18, De um discurso que não fosse semblante, Lacan (1971/2009) retoma a carta/letra num sentido diferente do que desenvolveu na A instância da letra no inconsciente (1957/1998). Toma nesse momento a letra para dizer que ela tem como destino o sujeito, que mesmo não podendo compreendê-la, faz escritura, faz literatura, lituraterra. Há uns que fazem pouco caso da letra, mas o melhor que se pode esperar da psicanálise em seu término é deslizar de a letter, da carta, para a litter, o lixo (Lacan, 1971-1972/2009, p. 106). A letra é dejeto, e a cultura é o esgoto onde se joga tudo que possa capturar o objeto do desejo. Lacan, advindo da letra e na dependência de seu ato, faz de seus restos Escritos na forma de cartas abertas, determinado e causado a transmitir o real de sua experiência como analista.ϕ














