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Psicologia Clínica

versão impressa ISSN 0103-5665versão On-line ISSN 1980-5438

Psicol. clin. vol.27 no.2 Rio de Janeiro  2015

 

SEÇÃO LIVRE

 

Anorexia e pulsão: enlaces e desenlaces entre o sujeito e o Outro

 

Anorexia and drive: links and unlinks between the subject and the Other

 

Anorexia y pulsión: enlaces y desenlaza entre el sujeto y el Outro

 

 

Dayane Costa de Souza PenaI; Roberto CalazansII

IUFSJ, São João del-Rei, MG, Brasil
IIUFSJ, São João del-Rei, MG, Brasil

 

 


RESUMO

A anorexia é um sintoma que coloca em cena as particularidades do sujeito em relação à alimentação, corroborando que esta não se reduz a um ato de ingerir nutrientes para satisfazer uma necessidade biológica e garantir a sobrevivência do organismo, mas que tem uma função erótica para o sujeito por implicar um direcionamento ao Outro. O sujeito lida não com uma satisfação instintual, ligada às necessidades, e sim com uma exigência de satisfação que é pulsional. A constituição de um corpo pulsional somente é possível pela via do Outro e envolve não apenas a maneira como este último investe libidinalmente no corpo da criança, mas como o sujeito em questão se posiciona diante desse investimento. A anoréxica, através da relação peculiar que tem com o alimento, pela recusa do mesmo, demonstra que há um forte enlace com o Outro, pois seu desejo está inexoravelmente ligado a ele e ao objeto que ele pode oferecer, conquanto a anoréxica demonstre também um movimento em direção a um rompimento de laços com o Outro que tem como consequência última a morte. Neste artigo, propomo-nos articular os modos como o sujeito na anorexia histérica posiciona-se frente ao Outro a partir do funcionamento pulsional.

Palavras-chave: anorexia; pulsão; Outro; vida; morte.


ABSTRACT

Anorexia is a symptom that puts into play the particularities of the subject in relation to alimentation, confirming that this is not simply an act of ingesting nutrients to satisfy a biological need and ensure the survival of the organism, but which has an erotic function for subject by implying a direction to the Other. The subject deals not with an instinctual satisfaction, linked to the needs, but with a requirement that is a drive satisfaction. The establishment of a drive body is only possible via the Other and involves not only the way the latter invests libidinally the child’s body, but as the subject in question stands before this investment. The anorexic, through the special relationship it has with the food, the refusal of it, shows that there is a strong link with the Other, because their desire is inexorably connected to him and the object that it can offer, while the anorexic also demonstrates a movement toward a breaking of ties with the Other, whose recent death consequences. In this article, we propose to articulate the ways in which the subject in hysterical anorexia is positioned towards the Other from the drive functioning.

Keywords: anorexia; drive; Other; life; death.


RESUMEN

La anorexia es un síntoma que pone en juego las particularidades del sujeto en relación con la alimentación, lo que confirma que esto no es simplemente un acto de ingerir nutrientes para satisfacer una necesidad biológica y asegurar la supervivencia del organismo, pero que tiene una función erótica del sujeto al implicar una dirección a Otro. El sujeto acuerda no con una satisfacción instintiva, ligada a las necesidades, pero con un requisito de la satisfacción que es pulsional. El establecimiento de un órgano pulsional sólo es posible a través del Otro e implica no sólo la forma como éste invierte libidinalmente el cuerpo del niño, pero como el sujeto en cuestión está frente a esta inversión. La anoréxica, a través de la relación especial que tiene con los alimentos, la negativa del mismo, muestra que existe un fuerte enlace con el Otro, porque su deseo está conectado inexorablemente a él y el objeto que puede ofrecer, aunque la anoréxica también demuestre un movimiento hacia una ruptura de relaciones con el Otro, cuya muerte reciente consecuencias. En este artículo, proponemos articular la forma que el sujeto en la anorexia histérica se coloca hacia el Otro desde el funcionamiento pulsional.

Palabras clave: anorexia; pulsión; Otro; vida; muerte.


 

 

A anorexia é um sintoma que coloca em cena as particularidades do sujeito em relação à alimentação, corroborando que esta não se reduz a um ato de ingerir nutrientes para satisfazer uma necessidade biológica e garantir a sobrevivência do organismo, mas que, antes de tudo, tem uma função erótica para o sujeito por implicar um direcionamento ao Outro. O sujeito lida, portanto, não com uma satisfação instintual, ligada às necessidades, e sim com uma exigência de satisfação que é pulsional. Essa disparidade entre instinto e pulsão é evidenciada pela anorexia no momento em que o sujeito recusa o alimento para comer nada (Lacan, 1956-1957/1995, p. 188, grifo do autor).

A constituição de um corpo pulsional somente é possível pela via do Outro e envolve não apenas a maneira como este último investe libidinalmente no corpo da criança, mas como o sujeito em questão se posiciona diante desse investimento. A anoréxica, através da relação peculiar que tem com o alimento, pela recusa do mesmo, demonstra que há um forte enlace com o Outro, pois seu desejo está inexoravelmente ligado a ele e ao objeto que ele pode oferecer, conquanto a anoréxica demonstre também um movimento em direção a um rompimento de laços com o Outro que tem como consequência última a morte.

Neste artigo, propomo-nos articular os modos como o sujeito na anorexia histérica posiciona-se frente ao Outro a partir do funcionamento pulsional.

 

Pulsão, oralidade e anorexia

Freud, em seu texto "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" (1905/2006a), ressalta que uma das primeiras manifestações da sexualidade está relacionada à oralidade. Nesse texto, o autor parte da premissa de que a sexualidade humana não coincide com o instinto sexual presente nos animais, visto que ela vai muito além da união de dois órgãos genitais com o fim único da reprodução. A sexualidade está presente desde a infância, portanto não apenas na idade adulta, o que rompe com a ideia de uma sexualidade dependente de uma maturação biológica.

Para então demonstrar a presença de uma sexualidade infantil, Freud (1905/2006a) toma como protótipo o chuchar ou sugar com deleite, que consiste em um movimento de sucção repetitivo e rítmico que a criança faz com a boca - lábios -, no qual está excluído qualquer propósito de nutrição. No chuchar, a criança busca renovar um prazer por ela antes vivenciado e agora relembrado. E não é difícil identificar que essa experiência original de satisfação da criança tenha se dado justamente no ato de mamar no seio materno (ou em seus substitutos), posto que é um contato, um laço com o outro estabelecido desde muito cedo. Segundo Freud, já de início "os lábios da criança comportam-se como uma zona erógena, e a estimulação do fluxo cálido de leite foi sem dúvida a origem da sensação prazerosa" (Freud, 1905/2006a, p. 171). Sendo assim, é possível dizer que, em um primeiro momento, a atividade sexual apoia-se numa das funções que servem à preservação da vida - a necessidade de alimento -, tornando-se, porém, independente dela.

A despeito de declarar um apoio da atividade sexual nas necessidades, Freud (1905/2006a) não tenta igualar, nem mesmo em suas origens, uma a outra. Pelo contrário, a noção de apoio vem marcar, antes de tudo, a diferença entre pulsão sexual e instinto. É o próprio caso do chuchar, em que a criança chupa os lábios, os dedos, ou qualquer outra porção de pele do próprio corpo, caracterizando, desse modo, o autoerotismo e demonstrando que para além da motivação da preservação da vida há a existência de outra força que persiste no sujeito (Fernandes, 2000). Aqui, há a busca de uma satisfação que nada tem a ver com o matar a fome - embora experimentada em um primeiro momento atrelada a esta - e que se articula, conforme veremos, ao modo como o bebê é tomado e investido pelo outro.

Se a criança recebe o leite enquanto alimento para saciar a fome e garantir a sua sobrevivência, ela também experimenta sensações outras. Tais sensações estão ligadas à estimulação dos lábios pelo contato com o seio, ao calor que provém do corpo da mãe, ao ouvir a voz materna e ao ver a sua expressão facial. Ligam-se, ainda, a qualquer outra coisa que se destaque como fonte de satisfação para a criança na relação que ali se estabelece: "de toda forma, e qualquer que seja a sensação, é de um a-mais de prazer acrescido à satisfação da necessidade biológica, mas vivido originalmente em conexão com ela, que constitui a origem da pulsão sexual" (Fernandes, 2000, p. 70). Também vemos se evidenciar a ação dos cuidados maternos como erotizantes do corpo da criança. Em Freud (1905/2006a, p. 210-211), uma passagem demonstra claramente como isso é possível:

O trato da criança com a pessoa que a assiste é, para ela, uma fonte incessante de excitação e satisfação sexuais vindas das zonas erógenas, ainda mais que essa pessoa - usualmente, a mãe - contempla a criança com os sentimentos derivados de sua própria vida sexual: ela a acaricia, beija e embala, e é perfeitamente claro que a trata como o substituto de um objeto sexual plenamente legítimo. A mãe provavelmente se horrorizaria se lhe fosse esclarecido que, com todas as expressões de ternura, ela está despertando a pulsão sexual do filho e preparando para a intensidade posterior desta.

Freud (1950 [1895]/2006h] ressalta a importância de num primeiro momento o bebê em seu estado inicial de desamparo e de prematuridade motora e simbólica ser tomado por um outro que se ocupa dos primeiros cuidados corporais e o introduz no campo da linguagem. Essa primeira experiência de satisfação somente acontece porque a mãe fornece uma interpretação, um sentido ao grito do bebê e, na medida em que o faz, ela imprime ali algo do seu desejo. Logo, não se trata puramente de cuidados corporais. Não basta que a mãe simplesmente alimente e limpe a criança, pois a esses cuidados precisa ser agregada uma parcela de investimento libidinal de desejo do Outro. Só dessa maneira podemos pensar no processo de erotização de um corpo que se constitui.

É tão somente pelo investimento libidinal do Outro que a criança pode ascender do autoerotismo (em que ainda não concebe o seu corpo enquanto uma totalidade, mas como fragmentado, despedaçado, em função da ação anárquica das pulsões parciais) ao narcisismo, momento de identificação com a imagem de um corpo unificado, e concomitante formação do eu.

Segundo Freud, em "Sobre o narcisismo: uma introdução" (1914/2006c), diante do nascimento de um filho, os pais, ou aqueles que ocupam esse lugar, recordam e revivem o seu próprio narcisismo. Desse modo, projetam sobre a criança um ideal - o eu ideal -, do qual eles mesmos (os pais) há muito tiveram que abdicar em função das exigências da vida. Essa imagem idealizada construída e investida na criança pelos pais é da ordem de uma suposição de perfeição e valor e vem antecipar as aquisições da criança, sobrepondo-se ao seu corpo desmembrado e desarticulado. Tal imagem é, portanto, constitutiva, pois possibilita vislumbrar o corpo como uma unidade que passa então a ser objeto de investimento da libido sob o respaldo do narcisismo primário.

Reforçamos aqui que a noção de sexualidade para a psicanálise não se resume a uma maturação dos órgãos genitais ou à produção de sensações de prazer neles. Não obstante, implica em qualquer possibilidade de se fazer laço com o Outro. Podemos afirmar, dessa maneira, que tudo que se refere às operações de linguagem como o falar, o representar, bem como todo possível investimento do sujeito em um semelhante, em um ideal, ou em qualquer objeto da cultura, tem caráter sexual.

Uma vez mais, atentamos para o fato de que a concepção psicanalítica da sexualidade humana não é compatível com um instinto biológico. Incompatibilidade esta que impeliu Freud a inaugurar no artigo "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" (1905/2006a) a pulsão, um conceito radicalmente novo, sem o qual essa sexualidade "restaria inteiramente enigmática" (Jorge, 2008, p. 20).

Freud dedica, em 1915, um artigo, "As pulsões e suas vicissitudes", ao conceito que ele próprio afirmou como sendo fundamental na teoria psicanalítica, chegando mesmo a identificá-lo como "nossa mitologia" (1933 [1932]/2006g, p. 119) - a saber, a pulsão. Já nas primeiras páginas, Freud (1915/2006d, p. 127) define a pulsão como um

conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida de exigência feita à mente no sentido de trabalhar em consequência de sua ligação com o corpo.

A pulsão enquanto um conceito limítrofe não é nem psíquica, nem somática, pois a pulsão nunca se apresenta por si mesma, nem no nível consciente, nem no nível inconsciente. Somente chegamos a ter algum conhecimento dela por meio de seus representantes psíquicos: a ideia e o afeto (Freud, 1915/2006d). Com isso, a pulsão apenas pode ser concebida em um corpo constituído e habitado por um psiquismo, isto é, um corpo irredutível ao organismo.

Ao distinguir a pulsão de um estímulo, Freud (1915/2006d) diz que este último sempre provém do meio externo, além de ser passível de fuga por meio de uma ação específica. O mesmo não ocorre com a pulsão, posto que ela é uma força constante que causa pressão, ou seja, ela é a medida de exigência de trabalho feita ao psiquismo para alcançar a satisfação. A fonte da pulsão é o corpo; logo, não há como escapar. Ao que depreendemos que o sujeito sempre terá que tomar alguma posição diante dessa exigência constante de satisfação.

A satisfação, conforme Freud (1915/2006d), é sempre o alvo da pulsão, mas o que parece ser simples não o é tanto assim. A pulsão não é como a fera que sai da toca para caçar e que, quando encontra o que ela tem para morder, está satisfeita (Lacan, 1964/2008b). Freud (1915/2006d) revela que a pulsão, muitas vezes, não obtém satisfação de uma maneira direta, para isso ela precisa se valer de numerosos alvos intermediários. E é dessa forma que em cada sujeito a pulsão constrói os seus diversos arranjos e atinge seu próprio tipo de satisfação. Contudo, nem sempre tais arranjos são fontes de prazer para o sujeito, conforme podemos observar num sintoma como a anorexia, com suas constantes dores de cabeça e de estômago, estados de inanição, ressecamento da pele, entre outros mal-estares.

Se por um lado é inegável que a pulsão, por meio de seus arranjos, atinge o seu alvo quanto à satisfação, por outro lado devemos saber que a satisfação pulsional também comporta algo de impossível na sua relação com o objeto. Freud (1915/2006d) coloca que o objeto é o instrumento pelo qual a pulsão obtém satisfação. No entanto, ele não deixa de enfatizar que não há para a pulsão um objeto específico que garanta sua plena satisfação, pois o objeto "é o que há de mais variável numa pulsão e, originalmente, não está ligado a ela" (Freud, 1915/2006d, p. 128). Então, aquilo a que comumente se atribui o status de objeto da pulsão de fato é apenas a presença de um cavo, um vazio ocupável por qualquer objeto desde que investido por um sujeito (Lacan, 1964/2008a). Isso implica que o objeto eleito para a satisfação pulsional somente é dado pela submissão da pulsão à articulação significante, sendo ele, desse modo, suscetível aos efeitos dessa articulação como o deslocamento e a condensação.

De acordo com Lacan, em O seminário: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/2008b), somente é possível à pulsão obter satisfação contornando o objeto a - representante daquele eternamente faltante - e isso faz com que seu alvo seja sempre o retorno ao circuito. Lacan, assim, ratifica que, em se tratando de pulsão, sempre haverá um resto a satisfazer, daí ela ser uma força constante, implacável.

Pensamos que um sintoma tal como a anorexia vem nos dizer precisamente da radicalidade dessa falta de um objeto específico e natural para o sujeito. A anoréxica demonstra, através de seu comer nada, sob a forma da recusa, que não é pelo alimento que a pulsão oral se satisfaz, mas antes por fazer esse contorno ao vazio do objeto perdido desde sempre, no retorno ao circuito - "o que vai à boca retorna à boca, e se esgota nesse prazer que venho chamar, para me referir a termos em uso, prazer da boca" (Lacan, 1964/2008b, p. 165). O que nos possibilita depreender que o comer nada na anorexia apenas se dá a partir de uma boca que se fecha, literalmente, sobre sua satisfação, e que assim faz sobressair a falta, irredutível a qualquer objeto.

É a ausência de um objeto específico e natural que entrelaça pulsão e desejo. É o que aponta que a pulsão oral, em último termo, "não faz outra coisa senão encomendar o menu" (Lacan, 1964/2008b, p. 165). "Encomendar o menu", podemos inferir, é uma maneira de o sujeito tentar localizar o objeto a partir do significante e, com isso, realizar o circuito pulsional, fazendo contorno ao vazio do objeto. Ferrari (2004) descreve o caso de uma jovem anoréxica que desenvolveu um gosto muito peculiar em ir sempre ao supermercado com a mãe e lá comprar tudo que dizia gostar de comer. Todavia, ao chegar à sua casa, não comia nenhum dos alimentos escolhidos. A ela bastava sentar-se à mesa posta e observar os outros comerem aqueles alimentos enquanto ela comia nada. Ao que nos parece, esse sujeito valoriza a condição de desejar os seus alimentos favoritos, tanto que não pode comê-los e incorrer no risco de se satisfazer, ele quer manter a falta e faz questão de que o Outro saiba disso. Verificamos, assim, que na recusa à satisfação de um desejo certamente está presente uma satisfação pulsional.

Como mencionamos anteriormente, a fonte da pulsão é o corpo, e esse corpo não se limita ao organismo. O corpo, como é concebido pela psicanálise, é relativo a uma dimensão de intensidades, enquanto mapeado e cartografado pelo desejo do Outro, ganhando representação no sistema psíquico (Maurano, 2010). Todo o corpo do sujeito é erotizado - que o digam as histéricas com suas contraturas, paralisias, enxaquecas, anorexias, cegueiras, entre outras manifestações corporais. Porém existem certas zonas erógenas que parecem ser privilegiadas na relação com o Outro. São elas: a boca, o ânus e os genitais, conforme Freud (1905/2006a). Lacan, em O seminário: a angústia (1962-1963/2005), acrescenta a essa lista os olhos e os ouvidos e afirma que o que essas zonas têm em comum é a estrutura de borda, que se abre e/ou se fecha diante da demanda do Outro.

De acordo com Lacan (1962-1963/2005), a borda constitui-se por um corte o qual encontra suporte na anatomia do organismo no momento em que o sujeito cede ao Outro parte de si. No caso da boca, os lábios somente funcionam como borda a partir da perda de um objeto, o seio. E para que compreendamos isso bem, é importante saber que o seio, enquanto objeto primário, não pertence à mãe, uma vez que a criança durante a amamentação o tem como parte dela mesma. Portanto, não é verdade que a criança seja desmamada. Ela se desmama, se desliga do seio, vivenciando os primeiros sinais da surpresa diante da possibilidade de brincar de se soltar do seio e de tornar pegá-lo. Dessa forma, perguntamos juntamente a Lacan:

Se não houvesse algo tão ativo que podemos enunciá-lo no sentido de um desmame, como poderíamos conceber os fatos sumamente primitivos, sumamente primordiais em seu aparecimento, da recusa do seio, as formas primordiais de anorexia, cujas correlações no nível do grande Outro na experiência nos ensina imediatamente a procurar? (Lacan, 1962-1963/2005, p. 356).

É sob a condição da perda de uma parte de si, de uma libra de carne, que o sujeito pode se representar e se posicionar perante o Outro não simplesmente como assujeitado, mas como alguém que tem algo a dar, que opta por ceder ou não essa parte (Sirelli, 2010). Logo, ele é alguém que pode barganhar com a demanda do Outro. Nesse nível, as zonas erógenas se instituem para o sujeito como lugares primordiais de troca com o Outro.

Por assim conceber as zonas erógenas - como lugares de investimento do Outro e de posicionamento do sujeito frente a esse investimento -, podemos apreender com mais precisão aquilo que Freud (1905/2006a) estabelece como as fases da organização da libido. Tais fases caracterizam o momento de primazia de uma determinada zona erógena e do objeto a ela relacionado.

No primeiro momento da organização da libido, temos o primado da zona oral e do seio enquanto objeto, ou seja, o lugar de privilegiado investimento erótico do Outro. De acordo com Freud (1905/2006a), essa fase consiste na incorporação do objeto e tem importante papel psíquico na medida em que funcionará como protótipo para as identificações posteriores da criança, como podemos perceber no par devorar/ser devorado, que caracteriza a relação com a mãe (Garcia-Roza, 2009).

Lacan (1964/2008b, p. 191, grifo do autor) afirma que na pulsão oral lidamos com as fantasias de devoração, é o "se fazer papar" pelo Outro. A criança, como sabemos, tem o seio como parte dela própria, no entanto este não deixa de estar "chapado" (Lacan, 1964/2008b, p. 191) no corpo da mãe. Destarte, na amamentação, a criança suga o organismo da mãe sob a forma do leite. Esta última, por sua vez, detém o seio, uma libra de carne cedida pela criança. Logo, se trata aqui de um canibalismo fusional, ao mesmo tempo ativo e passivo (Lacan, 1938/1984).

Remetemos ainda tais fantasias de devoração ao primeiro tempo lógico do Édipo, em que a criança se depara com uma mãe onipotente, devoradora e insaciável, figurada por Lacan, em O seminário: a relação de objeto (1956-1957/1995), como a bocarra de um crocodilo prestes a se fechar sobre a criança - "aí está o grande perigo que nos é revelado por suas fantasias, ser devorado" (Lacan, 1956-1957/1995, p. 199, grifo do autor). Todavia, esse não é um posicionamento subjetivo próprio apenas dos anos iniciais, ele pode se atualizar em qualquer momento da vida. E é dessa maneira que se torna possível compreender os casos de anorexia em quaisquer idades em que há um assujeitamento radical ao Outro materno coexistente a uma também radical manobra de separação.

Se pela recusa à demanda do Outro a anoréxica exibe a sua manobra de separação, num processo de subjetivação, é também através dessa recusa renitente que ela evidencia a sua submissão ao Outro. Na anorexia, é como se o sujeito precisasse reafirmar, constantemente, a altos custos - dores, inanição, amenorreia e algumas vezes morte -, a sua separação e a sua posição de desejante para o Outro. Outro que, por sua vez, é situado sempre no lugar de avassalador, conferido da máxima potência, sendo aquele capaz de devorar, de consumir o sujeito, tal como o deus Cronos1devorava os seus filhos. O Outro, nesse lugar, é também quem porta o objeto que supostamente aplacaria o desejo, o alimento.

Vale lembrar que o Outro, como lugar dos significantes, que num primeiro momento é encarnado por uma pessoa, usualmente a mãe, configura-se para o sujeito como tudo aquilo que se articula na dimensão da linguagem, como é o caso da cultura e seus ideais. Dessa maneira, se há um discurso social que decreta um ideal de beleza magra, o sujeito anoréxico se submete a ele, acolhendo esse ideal em seu próprio corpo. Entretanto, na medida em que toma como verdade o ideal do Outro, assumindo-o radicalmente, esse sujeito também demonstra, através de um corpo esquálido, adoecido, o quanto esse ideal é inconsistente, furado. Um "corpo que, com sua pouca carne, pouca forma, pouca curva e muito osso, mais parece se rebelar e debochar de tal ideal de beleza" (Ferrari, 2004, p. 104).

Diante de um Outro tido tão poderoso, o sujeito lança mão do nada como estratégia de separação. O sujeito anoréxico come o nada, e mais, ele encarna o nada, conforme o seu corpo se consome, se mortifica, para abrir uma falta no Outro. Notamos que o corpo esquelético na anorexia, apesar de, aparentemente, se figurar como descarnado, cada vez mais frágil, é um corpo que traz a marca fálica, isto é, tem um valor na relação de troca com o Outro (Silva & Bastos, 2006).

É desse modo que na anorexia a relação de troca que se estabelece entre o sujeito e o Outro por uma borda - a boca - se destaca e um objeto emerge como moeda nessa troca, o alimento. Pela boca, o sujeito se posiciona para o Outro com toda a atividade que isso envolve na medida em que é ele quem opta por atender ou não a demanda do Outro para se alimentar. E podemos dizer ainda que é ele quem se dispõe a jogar com essa demanda. É como vemos no caso apresentado por Ferrari (2004), comentado acima, em que a jovem anoréxica cria a expectativa na mãe de que ela vá comer aqueles alimentos escolhidos a cada ida ao supermercado para depois frustrá-la, mantendo a mãe à sua mercê.

O ato da alimentação, portanto, emerge para a anoréxica como um posicionamento tanto de uma sujeição ao Outro materno (na forma das fantasias de devoração e do alimento que esse Outro lhe empurra goela abaixo, sufocando-a), quanto de uma separação, na medida em que ela, anoréxica, come nada e rejeita o alimento sufocante, numa tentativa obstinada de imputar uma falta na sua relação com o Outro. Dessa forma, ela acredita inverter a sua posição frente à mãe, para que esta, antes tida como onipotente, passe a depender dela (Lacan, 1956-1957/1995).

Conforme indicamos anteriormente, a posição anoréxica não é sem custo para o sujeito. Trata-se de uma posição tanto para a vida, quanto para a morte. Pela anorexia, o sujeito se posiciona e fica evidente que há um direcionamento ao Outro. Contudo, esse posicionamento também implica um rompimento de um laço com esse Outro, como veremos.

Ao tomarmos a manifestação do sintoma anoréxico na maneira como ela se apresenta aos olhos, na forma de um corpo cada vez mais magro, esquelético, de pele pálida e ressecada, logo associamos a algo que está morrendo ou que já está morto. Isso nos remete à fantasia de desaparecimento, de morte, referida por Lacan (1964/2008a, p. 210) - "pode ele [Outro] me perder?" - em que o sujeito se coloca como objeto para o desejo e o amor do Outro. É como se esse sujeito presentificasse a sua própria morte para o Outro com o intuito de cavar neste uma falta num movimento próprio à histeria. E ao se atribuir essa posição de fazer faltar ao Outro, deixando-o a sua mercê, o sujeito se vê às voltas com a sua própria onipotência - "a partir daí, é ela [a anoréxica] quem depende por seu desejo, é ela quem está à sua mercê, à mercê das manifestações de seu capricho, à mercê da onipotência de si mesma" (Lacan, 1956-1957/1995, p. 190). Nesses termos, cabe somente ao sujeito se fazer viver ou não.

Por se tratar de uma posição onipotente e caprichosa do sujeito, alguns autores, como Jacques-Alain Miller em "A teoria do parceiro" (2000) e Recalcati em "Las dos ‘nada’ de la anorexia" (2002), reconhecem na anorexia uma tentativa de romper com o Outro. Nas palavras de Miller (2000, p. 177), na anorexia "a rejeição da mãe nutridora e, mais amplamente, a rejeição do Outro é o que nela está em primeiro plano". Já Recalcati (2002, p. 23) atesta, por sua vez, que "na anorexia, de fato, a separação do Outro se configura como um modo para negar a dependência estrutural (simbólica) do sujeito ao Outro". Posto isso, observamos que uma das formas desse rompimento com o Outro se revelar é pelo isolamento social frequentemente relatado nos casos de anorexia. É interessante mencionar ainda que Charcot, em 1885, havia proposto o método de isolamento terapêutico em que afastava a anoréxica do contato social, inclusive do ambiente familiar, sendo esse considerado o único tratamento eficaz para a anorexia na época (Bidaud, 1998).

Dessa maneira, reparamos na diferença entre capricho e desejo, salientada por Silva e Bastos (2006). A diferença expressa entre o "não!" como possibilidade de um posicionamento subjetivo frente ao Outro, que aponta para a defasagem estrutural entre as dimensões da demanda e do desejo - movimento típico à estrutura histérica -, e o "nada" que na radicalidade de uma recusa generalizada visa romper os laços com o Outro e, ao mesmo tempo, requer a presença deste como refém do sujeito. Cabe destacar que tais posicionamentos do sujeito não são excludentes, eles coexistem paradoxalmente na anorexia. Além do mais, eles são próprios ao funcionamento pulsional, principalmente se tomarmos a articulação do segundo dualismo proposto por Freud (1920/2006e) entre pulsão de vida e pulsão de morte, conforme veremos na próxima sessão.

 

A anorexia: entre a vida e a morte

Em "Além do princípio do prazer" (1920/2006e), Freud estabelece o segundo dualismo pulsional em detrimento de um primeiro dualismo que se sustentava na oposição entre pulsões sexuais e pulsões do eu ou de autoconservação. Estas visariam à sobrevivência do indivíduo ao se apoiar na satisfação de uma necessidade e, por isso, eram consideradas dessexualizadas, enquanto aquelas teriam por fim a preservação da espécie por meio da reprodução. O primeiro dualismo fracassa a partir do advento do conceito de narcisismo na medida em que o eu é reconhecido como objeto de investimento libidinal e o sexual passa então a abranger todo o registro pulsional. Para recobrar a sua perspectiva dualista e paradoxal, Freud reúne as pulsões sexuais e as pulsões do eu ou de conservação sob a égide das pulsões de vida e introduz um elemento totalmente novo: a pulsão de morte.

A inauguração do conceito de pulsão de morte, conforme fica indicado no título do próprio artigo em que se dá, está estritamente associada à descoberta freudiana de um além do princípio de prazer. Freud (1920/2006e), em suas experiências clínicas, observara uma tendência à repetição entre seus pacientes, principalmente, no que concernia aos sonhos das neuroses traumáticas e às brincadeiras infantis - Fort-Da2. Tais atividades seriam fontes de intenso desprazer para esses sujeitos, porém em seus rostos o que se expressava era uma espécie de júbilo mórbido. A constatação de uma satisfação no desprazer surge como uma indagação acerca do funcionamento do aparelho psíquico, que até então, para Freud, era regido soberanamente pelo princípio de prazer.

As primeiras indicações de um princípio de prazer estão presentes no texto "Projeto para uma psicologia científica" (1950 [1895]/2006h), no qual Freud diz sobre o prazer e o desprazer enquanto as únicas qualidades psíquicas presentes desde o início da vida. O princípio de prazer deve ser aqui entendido como uma tendência do aparelho psíquico para buscar o prazer e evitar o desprazer. Prazer que é alcançado pela redução dos níveis de excitação psíquica em oposição a um acúmulo de excitação que, por conseguinte, provoca o desprazer.

Destarte, Freud (1950 [1895]/2006h) vincula o princípio de prazer aos processos psíquicos primários, os quais dizem de um modo de funcionamento do aparelho psíquico em que a energia psíquica escoa livremente para a descarga da maneira mais direta e rápida possível. Entretanto, o aparelho psíquico vê-se diante de certas condições do mundo externo e da fragilidade de um corpo vulnerável à dor e à morte, o que muitas vezes não viabiliza a descarga imediata, sendo esta impedida ou retardada por motivos de manutenção da vida. Esse outro modo de funcionamento do aparelho psíquico diz respeito aos processos secundários em que a energia psíquica não é livre, pois ela precisa se ligar para construir novos arranjos rumo à satisfação. Freud (1911/2006b), em "Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental", relaciona os processos secundários ao princípio da realidade. E este, ainda que se caracterize, nesse momento, como um desvio do princípio de prazer, em última instância está a serviço dele.

É interessante notar que o enunciado do princípio de realidade já aponta para uma dissociação entre os processos psíquicos primários e o princípio de prazer, ao afirmar que nem sempre a descarga imediata de energia é fonte de prazer. Tal dissociação será corroborada pela descoberta de um além do princípio de prazer por Freud (1920/2006e).

As pulsões, conforme Freud (1920/2006e, p. 45, grifos do autor), "não pertencem ao tipo dos processos nervosos vinculados, mas sim ao de processos livremente móveis, que pressionam no sentido da descarga". Ou seja, as pulsões agem conforme o funcionamento dos processos psíquicos primários. Elas estão sempre em busca de satisfação e, caso as condições econômicas favoreçam, atingirão essa satisfação do jeito mais rápido e direto possível, irrompendo em sua face mais crua sem se ater aos prazeres e às dores de um corpo (Rudge, 1999). Portanto, não há nada próprio nas pulsões que assegure o princípio de prazer.

Até a instituição do princípio de prazer e do seu par princípio de realidade, o que temos são prazeres e dores desligados, não organizados, que não consideram conflitos e contradições. Dessa forma, são compatíveis à caracterização das pulsões parciais (Rudge, 1999). A incidência da linguagem no corpo faz com que as pulsões se organizem no eu e funcionem em prol da manutenção deste. Contudo, a linguagem não pode dar conta da ligação de todo o campo pulsional, mesmo porque as pulsões não integram o registro simbólico e, evidentemente, não operam segundo o mesmo. À vista disso, as pulsões podem sempre cindir-se de uma organização.

Freud (1923 [1922]/2006i, p. 274), em "Dois verbetes de enciclopédia", infere "a existência de duas classes de pulsões, correspondentes aos processos contrários de construção e dissolução no organismo", a saber, respectivamente, pulsão de vida e pulsão de morte. Embora Freud, no mesmo texto, admita um embasamento da sua teoria das pulsões na biologia, temos outros trechos em sua obra, como em "O mal-estar na civilização" (1930 [1929]/2006g), que nos permitem atestar que a construção enquanto atividade pulsional deve ser concebida a partir da linguagem. Isso porque "é um processo a serviço de Eros" (Freud, 1930 [1929]/2006g), p. 125), que visa à combinação de homens, famílias, povos em uma unidade. A atividade pulsional está, por isso, diretamente relacionada aos laços sociais e à cultura. Quanto à dissolução, devemos apreendê-la "como o fracasso das integrações ancoradas na linguagem a partir da atividade pulsional" (Rudge, 1999, p. 32), cujo efeito é a ruptura dos laços sociais. Logo, não é em vão que Freud associa a pulsão de morte à vontade de destruição, à agressividade e à dominação.

A implicação de um rompimento com os laços sociais e a cultura com o Outro é, em suma, a morte para o sujeito. Desde os primeiros momentos de uma criança, vemos que a vida sobrevém pela instituição de um laço com o Outro. Um bebê em estado de desamparo radical somente consegue sobreviver se alguém, no lugar de Outro, vier em seu auxílio oferecer um sentido para seu grito e através dos cuidados que presta investir libidinalmente em seu corpo. Ao aceitar essa oferta de sentido e investimento, a criança ratifica seu enlace com o Outro, tornando-se membro efetivo de um mundo simbólico. Contudo, ela também está no lugar de quem pode "recusar os significantes, o sentido do Outro, posição que levaria, em última instância, à morte, ou à impossibilidade de vida simbólica" (Silva & Bastos, 2006, p. 102).

Freud (1920/2006e) então determina que a pulsão de vida é aquela que atua em prol da manutenção do eu, à medida que a pulsão de morte se caracteriza por uma pressão desorganizadora do eu e da dimensão das representações. Apesar de à primeira vista pulsão de vida e pulsão de morte se figurarem numa oposição como forças contraditórias, em nenhum momento são colocadas por Freud como forças que se anulam num tudo ou nada. Freud afirma que pulsões de vida e de morte surgem sempre amalgamadas, isto é, não há no sujeito aquilo que poderíamos afirmar ser uma manifestação puramente da pulsão de vida ou puramente da pulsão de morte. O que se verifica é a existência de uma tensão entre elas que resulta num empuxo maior numa direção ou noutra, da vida ou da morte, variando de acordo com as diversas circunstâncias da vida do sujeito (Jorge, 2010).

Ainda a partir de suas observações clínicas, Freud (1920/2006e) confere à pulsão de morte uma tendência conservadora que objetiva o retorno a um estado primeiro. De acordo com ele, "se tomarmos como verdade que não conhece exceção o fato que tudo o que vive morre por razões internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então compelidos a dizer que o objetivo de toda vida é a morte" (Freud, 1920/2006e, p. 49, grifos do autor). E por essa via Freud (1920/2006e) também nos fala do princípio de nirvana - expressão cunhada por Barbara Low, de quem ele toma de empréstimo - como sendo uma tendência da vida mental, regente da pulsão de morte, na direção do retorno a um estado de repouso absoluto ao tentar reduzir a zero os níveis de excitação psíquica.

Conforme Rudge (1999), a metáfora biológica freudiana de um retorno ao inorgânico sugere uma atividade constante que aspira à dissolução do eu com o intuito de recobrar os processos primários como o modo de funcionamento psíquico absoluto. E essa atividade, ao se sustentar no princípio de nirvana, pretende a satisfação total situada no além do princípio do prazer através da completa eliminação das excitações psíquicas, demonstrando ser, assim, incompatível com a própria vida.

Em O seminário: a ética da psicanálise (1959-1960/2008, p. 254), Lacan nos fala que, embora a pulsão de morte compreenda a tendência de um retorno ao estado de repouso absoluto, não podemos pensar que essa tendência resuma toda a sua essência. "A pulsão, como tal, e uma vez que é pulsão de destruição, deve estar para além da tendência ao retorno ao inanimado". Desse modo, Lacan desvela na pulsão de morte a dimensão da criação, afirmando que ela, pulsão de morte, é igualmente uma "vontade de destruição. Vontade de recomeçar com novos custos. Vontade de Outra-coisa, na medida em que tudo pode ser colocado em causa a partir da função significante" (Lacan, 1959-1960/2008, p. 254). Em vista disso, depreendemos que o caráter destrutivo da pulsão de morte visa, em última instância, atingir o ponto de nada - ex-nihilo (Lacan, 1959-1960/2008, p. 148, grifo do autor) - pelo qual toda criação é possível.

Dizíamos antes que os processos de construção e dissolução descritos por Freud (1923 [1922]/2006i), enquanto atividades pulsionais relativas à pulsão de vida e à pulsão de morte, respectivamente, devem ser apreendidos no âmbito da linguagem. Isso indica que a pulsão de alguma maneira articula-se na cadeia significante para alcançar satisfação - que no sujeito somente é possível por essa via do significante. Ademais, a pulsão de morte não é exceção a essa articulação, como ensina Lacan (1959-1960/2008, p. 253): "a pulsão de morte deve ser situada no âmbito histórico, uma vez que ela só é definível em função da cadeia significante". A pulsão de morte está precisamente ligada ao núcleo estrutural da cadeia significante que, entretanto, é situado para além da própria cadeia significante, na medida em que se configura como um ponto de vazio - relativo à Coisa (das Ding) - e que no campo das representações "apresenta-se, efetivamente, como um nihil, um nada" (Lacan, 1959-1960/2008, p. 148, grifo do autor), sobre o qual toda a cadeia está fundada e articulada.

É, portanto, a partir do movimento que põe em causa tudo o que existe no plano significante com o intuito de um retorno ao ponto de origem da cadeia significante, ou seja, um retorno ao ponto de nada, para um suposto reencontro com a Coisa, que Lacan (1959-1960/2008) associa pulsão de morte e criação. Mas, como "nada é feito a partir de nada" (Lacan, 1959-1960/2008, p. 148), ao mesmo tempo que tudo pode ser posto em causa, há de se recorrer à materialidade do significante para construir os novos suportes de uma criação própria do sujeito. Com isso, percebemos que a criação subjetiva não é obra apenas da pulsão de morte, pois ela se dá na amálgama entre a pulsão de morte e a pulsão de vida.

Em relação à anorexia, Lacan (1938/1984), em Os complexos familiares na formação do indivíduo, destaca o seu caráter mortífero, situando-a dentre os tipos de suicídios não-violentos. Na anorexia, o sujeito se abandona à própria morte para um suposto reencontro com a imago materna e, assim, atingir um suposto estado anterior de plena satisfação. A anorexia, de acordo com Lacan, está ligada ao "desejo de larva" (Lacan, 1938/1984, p. 26), que se caracteriza pela presença de um desejo paradoxal no sujeito que quer a aniquilação do próprio desejo. Para Recalcati (2007), Lacan, nesse momento, como Freud em "Rascunho G" (1895/2006), nos fala de uma vertente melancólica da anorexia, marcada por um impulso regressivo direcionado à Coisa.

Encontramos, em Fuks e Pollo (2010), a descrição do caso de um jovem rapaz neurótico que aos vinte e dois anos apresentou um quadro de anorexia, na mesma época em que também iniciou os seus trabalhos na profissão elegida por seu pai. Segundo as autoras, esse jovem anoréxico recorrentemente dizia durante as sessões de análise: "Optei pela anorexia porque se trata de uma morte lenta, indolor, até mesmo agradável" (Fuks & Pollo, 2010, p. 416). Num determinado período do tratamento, entretanto, o rapaz fora impelido por terceiros a interromper a análise e a prosseguir somente com o acompanhamento psiquiátrico e a terapia cognitivo-comportamental. Nesse tempo, retornaram de modo severo os sintomas restritivos e ele fora acometido por uma internação, havendo, consequentemente, um aumento da vigilância alimentar sobre ele. Numa manhã em que ainda estava internado e aparentava melhoras, o jovem conseguiu driblar a equipe de profissionais que o acompanhava e cometeu uma séria tentativa de suicídio. Após o episódio, o jovem procurou novamente a análise e na primeira entrevista disse à analista sobre sua tentativa de suicídio: "Não tive opção depois que me forçaram a voltar ao trabalho que eu odiava e à situação de ser cuidado por enfermeiros que passaram a impedir minha morte lenta" (Fuks & Pollo, 2010, p. 416).

O caso supracitado, apresentado por Fuks e Pollo (2010), evidencia o posicionamento específico de um sujeito frente à dimensão destrutiva da pulsão de morte que constatamos ser um empuxo à própria morte. É explícito, na fala do jovem anoréxico, que a anorexia é tomada por ele como um suicídio não-violento, em conformidade com o que Lacan (1938/1984) nos ensina, "uma morte lenta, indolor, até mesmo agradável" (Fuks & Pollo, 2010, p. 416). Entendemos que a morte por meio da anorexia implica para esse sujeito em uma satisfação mórbida marcada por um além do princípio do prazer que se dá em assistir-se e sentir-se morrer pelo definhamento lento de seu corpo. E mais, em mostrar-se morrer ao Outro, causando neste último o horror perante seu corpo mortificado, situando-o no lugar de impotência, daquele que nada pode fazer para impedi-lo. Essa satisfação mórbida é percebida ainda em outro trecho do caso em que Fuks e Pollo (2010) relatam que após cada jejum e/ou corrida desgastante o rapaz exalta de forma vitoriosa a destruição de seu corpo, entrando num estado de êxtase. Outro ponto de destaque do caso é o de que uma vez mais nos deparamos com um assujeitamento do anoréxico perante um Outro avassalador, figurado pelo pai, com a anorexia emergindo como uma tentativa de separação tão radical que pretende romper completamente com o Outro, o que é atingível apenas pela via da morte.

Por um lado vemos a pulsão de morte se apresentar na anorexia em seu caráter mais destrutivo sob a forma de um rompimento dos laços com o Outro, vislumbrada no isolamento social e na "mudez" do sujeito - aspectos comumente observados em casos de anorexia. Por outro lado, vemos, igualmente, a vertente criadora da pulsão de morte expressar-se na tentativa de separação do Outro, pondo em causa tudo o que existe e almejando criar, a partir do nada, algo novo e diferente, próprio do sujeito, condizente com o desejo. Percebemos, nas falas dos sujeitos anoréxicos, em que o nada se faz presente via significante - "Quero nada!", "Tenho vontade de nada!", "Nada me agrada!" -, uma articulação compatível com uma criação do sujeito que busca nomear seu desejo e dizer sobre ele.

 

Considerações finais

Neste artigo, pudemos extrair que a anorexia histérica evidencia duas posições paradoxais do sujeito: o assujeitamento radical ao Outro e a separação radical do Outro. Posições estas que dizem tanto de um direcionamento ao Outro quanto de um rompimento de laços com o Outro, ou seja, dizem tanto de uma posição de vida quanto de uma posição de morte.

O desejo está no cerne da questão anoréxica na histeria. É precisamente para afirmar-se desejante que a anoréxica come nada e recusa o alimento ofertado pelo Outro, almejando imputar a este último uma falta. E essa tentativa de separação assume o caráter radical da onipotência, na medida em que o sujeito tenta romper definitivamente com o Outro, negando-o. A morte seria tomada pela anoréxica como expressão máxima da negação do Outro, como o último recurso para seu desassujeitamento do Outro. Contudo, por outro lado, ao fazer-se e mostrar-se morrer pelo Outro e para o Outro ela também demonstra que há um direcionamento seu ao Outro através do corpo, num modo de estabelecer laços com ele, ratificando assim o seu assujeitamento radical.

Considerando as especificidades do posicionamento paradoxal do sujeito anoréxico e a articulação igualmente paradoxal entre pulsões de vida e de morte, destruição e criação, apontamos para a possibilidade de o sujeito construir novos arranjos para a satisfação pulsional, assim como para a possibilidade de reconhecer e responsabilizar-se por seu enlaçamento com o Outro. Pois, ainda que coloque em causa tudo que existe no nível do Outro, no nível do significante, ao sujeito é preciso recorrer à materialidade do significante para que a ele seja possível criar algo inédito, algo de propriamente seu como desejante.

 

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Notas

1 De acordo com a mitologia grega, Cronos faz parte da segunda geração de divindades supremas. Filho de Urano e Gaia, se torna rei dos céus após castrar o pai. Cronos se casa com Reia, sua irmã, e com ela tem seis filhos. Com medo de ser destronado pelos filhos, como Urano o foi, Cronos os devora logo ao nascer, com exceção de Zeus, o filho mais novo, que escapara com a ajuda de sua mãe. Zeus, ao atingir a idade adulta, por meio de uma poção mágica faz com que Cronos vomite os filhos que engoliu e o bane para o mundo subterrâneo, tornando-se o novo rei (Oliveira, 2008-2009).
2 O Fort-Da se refere a uma brincadeira observada por Freud (1920/2006e) em que seu neto joga repetidamente um carretel para fora de seu berço, de maneira que esse objeto desapareça do seu campo visual, e em seguida emite o som "o-o-o-ó". Segundo o autor, esse som representa a palavra alemã fort, cujo significado em português é "ir embora". No segundo momento da brincadeira, o garotinho puxa o carretel de volta, que reaparece, e assim saúda-o com um alegre da, palavra que em português significa "ali". Freud compreende essa brincadeira da criança como sendo representativa das idas e vindas da mãe.

 

 

Recebido em 07 de junho de 2014
Aceito para publicação em 14 de julho de 2015

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