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Jornal de Psicanálise

versão impressa ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.57 no.106 São Paulo  2024  Epub 26-Ago-2024

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v57n106.10 

Artigo

Da espera às criações: Os derivados narrativos de Antonino Ferro

De la espera a las creaciones: los derivados narrativos de Antonino Ferro

From waiting to creating: Antonino Ferro’s narrative derivatives

De l’attente aux créations: les dérives narratifs d’Antonino Ferro

Ana Fátima Aguiar1 

Davi Berciano Flores2 

Marina Ferreira da Rosa Ribeiro3 

1Psicóloga e psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora-colaboradora do Lipsic (Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea). São Paulo

2Psicólogo e psicanalista, mestre e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisador-colaborador do Lipsic (Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea). São Paulo

3Psicanalista, profa. associada IP-USP, profa. e orientadora de mestrado e doutorado no Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica do IP-USP; coordenadora do Lipsic (Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea). Autora de vários livros e artigos publicados em revistas nacionais e internacionais. São Paulo


Resumo

Este artigo apresenta as ideias do psicanalista Antonino Ferro sobre o potencial transformador das narrativas na sessão de análise. O analista, a partir de uma espera favorecida por sua capacidade negativa, perpassa as turbulências do incognoscível, e assim, pacientemente, narrativas passam a ser cocriadas, via comunicação inconsciente intersubjetiva. Por meio da reverie, o analista é capaz de acessar elementos em estado bruto, pensamentos-palavra em busca de um narrador. Para Ferro, o analista precisa manter-se em uníssono, em um estado de mente receptivo, intuitivo e insaturado: o aqui e agora da sessão. Nessa perspectiva, compreendemos a existência de consonâncias e continuidades com as “Notas sobre memória e desejo”, de Bion, no sentido de que a opacidade de memória e desejo favorece que haja condições de a mente operar pela via intuitiva. Na continência do trabalho analítico, tais elementos podem ser transformados, e, pela via de pensamentos-palavra, estes podem ganhar (possíveis) novos significados.

Palavras-chave: Antonino Ferro; reverie; narrativas; capacidade negativa; esperança

Resumen:

Este artículo presenta las ideas del psicoanalista Antonino Ferro sobre el potencial transformador de las narrativas en la sesión de análisis. El analista, a través de una espera facilitada por su capacidad negativa, navega por las turbulencias de lo incognoscible. Así, pacientemente, las narrativas son co-creadas mediante la comunicación inconsciente intersubjetiva. A través de la “reverie”, el analista accede a elementos en estado bruto, pensamientospalabra en busca de un narrador. Para Ferro, el analista debe mantenerse en un unísono, en un estado de mente receptivo, intuitivo e insaturado: el aquíy-ahora de la sesión. Entendemos la existencia de consonancia y continuidad con las “Notas sobre memoria y deseo” de Bion, en el sentido de que la opacidad de la memoria y el deseo favorecen que haya condiciones para que la mente opere por la vía intuitiva. En la contención del trabajo analítico, tales elementos pueden transformarse y, a través de los pensamientos-palabra, pueden adquirir nuevos significados (posibles).

Palabras clave: Antonino Ferro; reverie; narrativas; capacidad negativa; esperanza

Abstract

This article presents psychoanalyst Antonino Ferro’s ideas on the transformative potential of narratives in the analytic session. The analyst, through a waiting period facilitated by their negative capability, navigates the turbulence of the unknowable. Thus, patiently, narratives are co-created via intersubjective unconscious communication. Through reverie, the analyst accesses raw elements, word-thoughts in search of a narrator. For Ferro, the analyst needs to maintain a unison, a receptive, intuitive, and unsaturated state of mind: the here-and-now of the session. We understand there is consonance and continuity with Bion’s “Notes on memory and desire”, in the sense that the opacity of memory and desire favors conditions for the mind to operate intuitively. In the containment of analytical work, these elements can be transformed, and through word-thoughts they can gain (possible) new meanings.

Keywords: Antonino Ferro; reverie; narratives; negative capability; hope

Résumé

Cet article présente les idées du psychanalyste Antonino Ferro sur le potentiel de transformation des récits dans la session d’analyse. L’analyste, à partir d’une attente favorisée par sa capacité négative, transverse les turbulences de l’inconnaissable et, patiemment, les récits sont co-crées, pour la communication inconsciente intersubjective. Grâce à la capacité de rêverie, l’analyste est capable d’accéder à des éléments à l’état brut, des pensées-mots à rechercher d’un narrateur. Selon Ferro, l’analyste doit se tenir à l’unisson, dans un état d’esprit réceptif, intuitif et insaturé: l’ici-et-maintenant de la session. Sous cette perspective nous comprenons l’existence d’une consonance et d’une continuité avec les “Notes sur la mémoire et le désir” de Bion, dans le sens où l’opacité de la mémoire et du désir favorise que les conditions de l’esprit fonctionnent de manière intuitive. Dans la continence du travail analytique, de tels éléments peuvent être transformés et, par les pensées-mots, ceux-ci peuvent gagner de (possible) nouvelles significations.

Mots-clés: Antonino Ferro; rêverie; récits; capacité; négative; espoir

Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora.

Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. … Não é um recado de ideias que te transmito e sim uma instintiva volúpia daquilo que está escondido na natureza e que adivinho. E esta é uma festa das palavras.

(Lispector, 2013)

Para que servem as palavras? Podemos, por um lado, usá-las para identificar, nomear, eleger um ponto de apreensão e dar-lhe forma: podem servir-nos como setas agudas com alvos. Elas traduzem experiências e encerram assuntos. Pontos finais. Há, de outra perspectiva, palavras que são redes, arrastam em seu som temporalidades, lugares, espaços, campos de experiência. Há palavras capazes de alcançar um espectro de acontecimentos: passado e futuro, eu e outro, dentro e fora.

Nós, psicanalistas, somos afeitos a todos os tipos de palavras, mas as abertas a um campo de associações nos interessam especialmente: ao serem pronunciadas, abrem a porta para múltiplas dimensões simultaneamente. Palavras abertas podem nos levar longe, expressar sentimentos, dar testemunho, voz. Mas e quando o que se deseja expressar ou testemunhar é da ordem do indizível, ou do que ainda não pôde ser pensado? E quando a fluência para palavras é atravessada por entrelinhas, hiatos, silêncios, engasgos, gagueira ou mudez psíquicas?

Bion (1962/2021) dá o nome de “hiato semântico” aos momentos em que a mesma palavra indica duas coisas diferentes, promovendo paradoxalmente um fenômeno de distanciamento e aproximação. Em sacrifício da mais absoluta singularidade semântica, entranhada na história de cada sujeito, o par analítico vale-se de uma palavra que representa sua experiência, a unidade do par.

Fato é que toda palavra contém, em si, por causa da semântica, dos significados afetivos, históricos e culturais que ganha ao longo do tempo, um potencial para a abertura de novos sentidos. Para além dos significados encontrados nos verbetes, as palavras são também atravessadas pelos sentidos que acontecem a meio caminho entre quem as emite e quem as escuta.

Reinauguradas por cada um que as pronuncia, as palavras precisam ser transmitidas entre corpos para ecoar e ganhar outros espaços, e, assim, surgirem outros e novos sentidos. É também o silêncio acoplado às palavras que vai tecendo um pensar. Não há necessariamente uma cisão, pode haver, sim, continuidades; há espaços e sons entremeados por silêncios e palavras, que, quando achegadas umas às outras, concebem ou iluminam abstrações, engendram devaneios, produzem novas imagens.

Para ampliarmos tais reflexões, este artigo apresenta as ideias do psicanalista italiano Antonino Ferro, que, consonante com as ideias propostas por Bion,4 introduz o conceito de derivado narrativo, partindo de um modelo no qual as narrativas seriam as composições geradas intersubjetivamente pelo par analítico, relacionadas à maneira com que analista e analisando constroem significados a partir da experiência vivida em análise, sem incisões interpretativas, que, por vezes, podem engessar e gerar fechamento, subordinando o pensamento a uma lógica pré-advinda da mente do analista, fixando-o a uma ideia de que, por meio de uma interpretação, um baú será aberto, e lá estará o tesouro escondido, perdido ou enterrado.

Considerando-se a complexidade da realidade psíquica, uma metodologia de investigação opõe-se à caça ao tesouro: quando encontramos o cerne da questão, com artigo definido, encobrimos inúmeras perguntas que não podem ser respondidas. “La réponse est le malheur de la question” (a resposta é a desgraça da pergunta), diz Maurice Blanchot (1969/2001), citado por Bion recorrentemente em sua obra. As melhores respostas estão em um estado expectante, na espera do sentido. Isso leva Bion, até mesmo, em um momento de sua obra (1970/2014a), a dizer que, quando chegamos a uma interpretação em nossas mentes, esta já não é mais tão importante, devemos buscar a próxima. Interessa-nos o porvir, o pensamento em movimento, as próximas indagações, o futuro do pensar, a próxima sessão, evitando o risco de mantermos as respostas do passado possessivamente.

O derivado narrativo expande o fluxo de pensamentos intersubjetivamente criados, transformando em palavras quaisquer elementos captados no aqui e agora da sessão. Nesse sentido, o essencial não é revelar, e sim construir um avultar contínuo de pensamentos ainda não pensados por meio da fluência de ideias presentes no campo. A narrativa pode, assim, ser vista como forma de criar uma composição, via palavras, a partir dos fotogramas5 dos elementos e sutilezas do campo.

Isso posto, não existe material captado na sala de análise que não seja relevante. Há uma infinidade de elementos ativos e presentes nas histórias ali expressas, pois o campo não é habitado apenas por analista e analisando, tampouco lidaremos somente com o mundo interno do analisando e com a relação estabelecida entre a dupla. Lidaremos, sim, com as histórias e personagens que habitam cada um dos integrantes do par, suas vicissitudes e sua transmissão.

Em “O universo do campo e seus habitantes”, Antonino Ferro e o psicanalista compatrício Roberto Basile dizem que, no universo do campo emocional, estamos “na presença de personagens tridimensionais que pertencem a diferentes temporalidades e que solicitam, ou necessitam, poder subir ao palco por si sós” (Ferro & Basile, 2013, p. 21). Os autores sugerem ainda que o “aqui e agora” da sessão tem um papel essencial e inclui uma complexa gama de eventos atravessada pelo aspecto multigeracional. Essa proposta dos autores está diretamente conectada com a proposição bioniana de evitar memória, desejo e compreensão prévia (Bion, 1967/2014d) em uma sessão de análise. Se levarmos a cabo essa proposta, evitamos o esforço de nos deslocar para fora do presente da sessão em busca de algum tipo de elemento sensorial ou elaboração intelectual que, equivocadamente, pensamos favorecer nosso trabalho.

A atitude mental proposta por Bion diz de um movimento oposto: esperar, no presente da sessão, que passado e futuro se presentifiquem, e que um sentido emerja da dupla analítica. Aqui, no lugar de um esforço de vasculhação, o analista aguarda a expressão, na experiência emocional da sessão, da pluralidade espaçotemporal da vida psíquica.

Portanto, é possível compreender, por essa perspectiva, que o “aqui e agora” da sessão, para Ferro e Basile (2013), não se baseia em interpretações imediatas sobre o que está se passando naquele momento da sessão. Está, sim, relacionado a uma visão de que tudo o que é trazido pelo paciente na sala de análise deve ser considerado fundamental e deverá encontrar um continente para que os derivados narrativos captados possam compor uma narrativa, construída conjuntamente pela dupla analítica.

Os autores também reiteram que o campo seria habitado por certos personagens principais, protagonistas, coadjuvantes e figurantes, os quais podem mudar constantemente de papel. Segundo Ferro e Basile, os personagens seriam como constelações visíveis em um céu estrelado, e o campo seria o universo, que abriga infinitos fenômenos, a maioria deles desconhecida. O aqui e agora, nas palavras de Figueiredo e Coelho Junior (2008), compreende um campo “multideterminado, em que se sobrepõem, se encavalam, se interpenetram, se confundem e se ocultam tempos, lugares e personagens variados” (p. 28).

Para Ferro (1999), os “personagens das narrativas não são criados aleatoriamente, mas são parte de um conjunto de elementos gerados em uma consonância, e nessa conarração analista e analisando dançam juntos no processo analítico” (p. 19). A criação dos personagens é, portanto, proveniente do funcionamento mental da dupla analítica, abarcando suas emoções e seus aspectos desconhecidos (suas protoemoções). Qualquer que seja o conteúdo que o analisando apresente na sessão, ele estará descrevendo uma forma de funcionamento não apenas da sua mente, mas sim do campo.

O campo torna-se, dessa maneira, a gleba na qual são lançados os elementos brutos, sensações e imagens, que buscam ser pensados e, assim, cria-se uma abertura para o novo. Esse processo de metabolização de um elemento beta e da transformação dele em elemento alfa é denominado “alfa-betização”. É por meio dos elementos alfa que a experiência emocional pode ser captada pelo analista como pictogramas6 emotivo-sensoriais.7

Para Ferro (2017, p. 86), os pictogramas constituem os “tijolinhos” que edificam a fazedura do pensar, do sentir e do sonhar.

O elemento α é a maneira através da qual é pictografada, em tempo real, toda experiência senso-êxtero-proprioceptiva. Cada pictograma emotivo-sensorial é então colocado em sequência com outros elementos α. A sequência dos elementos α é incognoscível, a não ser através do derivado narrativo. (Ferro, 1996, p. 15)

O analista tem aqui duas importantes e difíceis tarefas: deve primeiro estar aberto e receptivo a ponto de deixar-se capturar pelas forças emocionais do campo, e, ainda que seja parte dele, ter também a capacidade de distanciar-se, a fim de que, além de captá-lo, possa metabolizá-lo, propiciar uma organização da sequência dos pictogramas emotivo-sensoriais para, enfim, transformá-los em uma narrativa. Ambos, analista e analisando, poderiam, assim, transformar os elementos emocionais presentes e ativos naquele momento, dando-lhes novos sentidos.

Essa possibilidade de abertura e distanciamento, simultâneos, pode configurar-se no analista como uma experiência de tumulto mental. Tratase, por vezes, de um movimento feito em temporalidades distintas: a experiência em uníssono, que tende a ser dotada de alta intensidade emocional para o analista, seguida da possibilidade de narratividade sobre aquilo que foi vivido. Essa interpolação do analista, entre figura e fundo, consiste em uma das propostas de Bion, quando defende a noção de visão binocular, uma cooperação entre as funções mentais, tanto conscientes, quanto inconscientes. Segundo Bion (1974/2014b), “precisamos de um tipo de visão binocular mental - um olho cego [para o mundo sensorial], o outro olho com uma visão boa o suficiente” (p. 101) -, o que nos permite acessar os elementos da realidade psíquica com maior amplitude nas ressonâncias das experiências emocionais ali vividas.

Os derivados narrativos teriam, desse modo, caráter transformador. Ferro sustenta a ideia da narrativa como um importante elemento de uma cadeia de transformações em análise. O autor italiano, avençado à teoria bioniana, afirma que a narrativa atua, primeiramente, como uma forma continente dos elementos da mente do analisando; promove uma transformação dos elementos beta em elementos alfa; favorece a expansão da função alfa e, por meio das narrativas, contribui para o desenvolvimento e expansão da mente, essa que Bion chamou de “aparelho para pensar os pensamentos”, pensamentos oníricos não só do analisando, mas sim da dupla analítica.

O onírico teorizado por Ferro apoia-se nas formulações de Bion (1962/2021), que afirmava a existência de um pensamento onírico de vigília, e compreende-o como uma atividade que é concomitante ao sonho noturno; o sonhar é uma atividade diuturna da mente. Desse modo, o pensamento onírico estaria também presente na vigília, constituindo um relevante material para o trabalho psicanalítico.

O contato com o pensamento onírico de vigília é carregado de intensa “sensorialidade visual, olfativa ou auditiva, nas várias formas de criatividade” (Ferro, 1995, p. 106). O analista trabalha criativamente o material onírico do analisando e ajuda-o ao transformá-lo, via narrativas, em um pensamento que possa ser simbolizado. A vida onírica seria como um “teatro para a geração de significado” (Meltzer, 1982, citado em Ferro, 1995, p. 103), cujo enredo é construído numa articulação cocriadora de ambos. Segundo Ferro (1995), o analista não atua somente como um “montador de cenas” ou um mero narrador de uma história preexistente. Ele contribui para a composição de uma sequência de “cenas” (situações emocionais vividas na vigília) trazidas pelo analisando, porém, introduz imagens das reveries, geradas a partir de um estado de receptividade e ressonância, e que ativam, também no analista, fantasias, lembranças e imagens.

Assim, não há como considerar um sonho como fruto de uma só mente. Há de se ponderar sobre as identificações projetivas que o compõem, num campo emocional que, dessa forma, inclui as mentes de analista e analisando e, por consequência, diz respeito à vida mental de ambos. Sonhar o sonho do analisando abre alas para a pensabilidade do que antes não podia ser pensado. Há assim um trabalho que vai muito além de uma elaboração dos conteúdos psíquicos da mente, mas que diz sobre a ampliação da mente em si, criando-se um campo no qual a própria mente se transforma, considerando-se a capacidade de mobilidade, de criatividade e, por consequência, de expansão. Portanto, a transformabilidade torna-se possível quando há um grau elevado de fertilização no campo constituído pela dupla analítica.

O sonho e sua comunicação representam sempre um momento importante: é um convite a penetrar numa zona mais íntima da relação e poder explicitá-la, como olhar para dentro das gavetas, até das mais secretas. … Assim, devemos respeitar a intimidade e as defesas: o que se perde em termos de menor conhecimento comunicado e compartilhado “sobre” alguma coisa, é compensado em muito pelo que concerne ao “afeto” de sentir-se respeitado e não invadido, e a progressiva introjeção de uma modalidade não demolidora e intrusiva. (Ferro, 1995, p. 106)

Nesse sentido, é fundamental que o analista seja sensível e afetivo para adentrar áreas tão íntimas da mente do analisando. O papel do analista não é destruir defesas, vasculhar a memória e invadir a intimidade. Pelo contrário, o trabalho analítico consiste em esperar que as intimidades se construam e as defesas se desarmem. As ideias de Ferro nos convidam a pensar que, em análise, cocriar, sonhar junto, intersubjetivamente, significa habitar um espaço compartilhado, sem intrusões, sem a perspectiva de “tirar” algo de “algum” lugar. Essa pressuposição de espaços recorrentemente satura nossa capacidade de pensar livremente.

Ferro (2007) ressalta que o analista deve estar em uníssono com o analisando, e que seja para este um continente, mantendo-se em um estado de receptividade e de criatividade para tolerar o desconhecido, o obscuro da experiência. Tal ideia estabelece consonância e continuidade com as “Notas sobre memória e desejo” de Bion (1967/2014d), uma vez que a opacidade de memória e desejo favorece que haja condições de a mente operar pela via intuitiva. O ato de deter-se a registros sensoriais - sejam eles lembranças de outras sessões ou momentos da vida do analista; expectativas e anseios, ou ainda exercícios intelectuais de compreensão - pode resultar na obstrução da capacidade intuitiva e criar obstáculos para que o analista possa se pôr em uníssono com o analisando, o que acaba por afastá-lo da experiência emocional da sessão.

Citando Bion: “… estar cônscio do que acompanha sensorialmente a experiência emocional é um obstáculo para o analista intuir a realidade emocional com a qual ele deve estar de acordo” (1992/2000, p. 392). E continua: “O único ponto de importância, em qualquer sessão, é o desconhecido. O analista não deve permitir que nada o distraia de intuir o desconhecido” (p. 393).

Ou seja, o analista deve manter-se aberto ao incognoscível. Esse estado de mente receptivo, intuitivo e insaturado abre espaço para a observação do que está ocorrendo na sessão, como preconiza Ferro: o aqui e agora, um espaço-tempo composto por passado, presente e abertura para o futuro. Compreendemos aqui importantes interseções entre as narrativas de Antonino Ferro e as formulações bionianas sobre a reverie, a capacidade negativa e a fé científica.

Para Ferro (Ferro & Basile, 2013), a reverie do analista é um elemento central no campo e capaz de gerar transformações nele. Imagens, sensações, sentimentos e inquietações criados no encontro analítico precisam ser calmamente contemplados. Ou seja, é preciso ter paciência8 e disponibilidade emocional para estabelecer-se uma comunicação sensível e aberta, para que surjam e que possam ser delicadamente transformadas em palavras narradas.

Segundo o autor, a reverie acontece em um movimento criativo e fecundo que permite aberturas inéditas de sentido para a dupla. Um processo em contínua atividade, com o pano de fundo da sensorialidade visual ou auditiva, pintando imagens oníricas que escapam do recipiente mental (Ferro, 1995, p. 106).

A forma está a serviço da experiência emocional. Entre a evocação de imagens, palavras e narrativas, a mente se vale desses recursos estéticos para contar a experiência vivida em sessão. São recursos expressivos da função alfa, formas mais ou menos rudimentares de figurar e verbalizar o vivido. A arte se transforma em palavras, que se agregam e se organizam entre si, até que delas derive uma forma, uma estrutura na qual apresentam-se personagens, engendram-se contos, histórias, figurações, que se alternam em relação às emoções do par analítico. Dessa forma, as mentes de analista e analisando narram o que acontece entre elas (Ferro, 1995, p. 71).

Assim, o trabalho analítico exige de nós, analistas e analisandos, calma e paciência. Isso implica a esperança de alcançarmos o sofrimento, enxergarmos as defesas, mas contarmos com que os sonhos compartilhados as dissolvam, como quando vamos dormir aturdidos e despertamos regenerados, ou quando uma criança, depois de uma brincadeira, retorna apaziguada em sua dor. Dessa maneira, compreendemos que a esperança tem um lugar importante no trabalho analítico. Aqui conectamos a ideia de esperança com a “capacidade negativa” (Bion, 1977/2019) do analista de esperar, de conservar sua paciência em estados aturdidos de mente, em um ato de fé de que um sentido possa dali emergir. No pensamento de Bion (1970/2014a), estamos tratando da capacidade do analista de esperar que algo possa emergir e dar um sentido à experiência emocional. É um ato “científico” de tolerar o não saber no qual o analista abre mão de memória e desejo, e que tolere o incognoscível, até que os sentidos se mostrem.

Para Ferro (2017), o objetivo da análise é expandir a capacidade de sonhar/pensar aquilo que ainda não se tornou forma, a experiência em estado bruto, o elemento beta, a incógnita, e, narrando o que é vivido na sala de análise, transmite o sonhar ao analisando, abrindo caminhos para que possam sonhar mais.

Interessa-me substancialmente desenvolver no paciente e em mim a atitude onírica das nossas mentes: para tanto, opero com o desenvolvimento do continente (aqueles fios de emoção que existem entre mim e o paciente e que, se são tecidos e reforçados, permitem - como aos acrobatas no circo, que se sabem a salvo graças à rede de segurança - conteúdos cada vez mais intensos, permitem dançar entre um trapézio/mente e outro), com o desenvolvimento da função α, ou seja, aquele aparato capaz de transformar protossensorialidade, protoemoções em pictogramas, audiogramas, olfatogramas (elementos α). (Ferro, 2017, pp. 258-259)

O psicanalista italiano salienta que, ainda que tais elementos possuam potencial para a abertura de sentidos e de expansão da mente, eles são também responsáveis por causar desconforto e turbulências emocionais devido à complexidade do trabalho psíquico a ser realizado. Via capacidade negativa, espera-se que o analista possa tolerar a tormenta afetiva causada pela reverie, para que, por meio de sua função alfa, os conteúdos não simbolizados possam ser metabolizados.

O autor (Ferro, 2017) afirma que nem todas as imagens que surgem na sala de análise são reveries. Compara reverie e metáfora, explicando que, no caso da metáfora, o analista comunica algo conhecido, utilizando uma linguagem acessível e de clara compreensão. Já na reverie a imagem surge espontaneamente e de forma aleatória, como uma distração, um devaneio da mente do analista, e, ainda que este tente eliminar essa imagem, ela persiste. Nesse momento, segundo Ferro, o analista presume que tal pictograma tenta comunicar algo do que se passa no campo.

A reverie do analista, que frequentemente pode ser expressa sob forma de metáfora - mas não somente -, pode ser entendida como uma fonte de desenvolvimento da capacidade de transformar elementos beta, persecutórios, em pensamentos. Então a sessão acontece em nível de um recíproco onírico, seja quando o paciente “sonha” (se é capaz de fazê-lo) a intervenção do analista ou o seu estado de mente, seja quando o analista “sonha” a resposta a ser dada ao paciente. Quanto mais essa resposta for “sonhada”, tanto mais será fator de constituição, reparação da eventual falha da função alfa do paciente. (Ferro, 2017, p. 15)

Aqui não se considera a reverie como algo a ser decodificado e que nos leva a um ponto de chegada. Ao contrário, ela é pensada como um ponto de partida. Ferro (1995) diz que a partir dos pictogramas afetivo-sensoriais iniciamos todo um processo de simbolização que não estava posto, mas que nasce do encontro paciente-analista (p. 106), no qual se inaugura um percurso de criação de novos sentidos:

pensamentos que ativarão novos pensamentos no par, de modo a consentir a construção de uma história juntos, também uma história de recuperação de uma continência sem particulares necessidades explicativas. Não há uma verdade a descobrir sobre o paciente, mas uma verdade a construir sobre o funcionamento de duas mentes em sessão. (Ferro, 1995, p. 107)

Há, portanto, segundo Antonino Ferro, uma expansão da pensabilidade e da transformabilidade (1995, p. 105). Quando tomada desde esse vértice, a reverie apresenta-se enquanto um fenômeno mais entranhado à complexidade da experiência clínica. Quando Bion propõe um estado “sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia”, ele indica ser muito possível que o analista tenha a experiência do terror ao ficar em contato direto com a realidade psíquica e a experiência emocional da sessão. O exercício da pensabilidade, da “alfa-betização” do analista, é realizado com custos emocionais, uma vez que, até que a função alfa realize seu trabalho, os elementos beta geram no analista sensações de desintegração, incoerência e persecutoriedade (Bion, 1963/2014c, p. 38).

Ferro (1995) reitera que todo trabalho analítico baseia-se na capacidade de reverie do analista, pois é por meio dela que se dá a metabolização dos conteúdos não pensados, tornando-os passíveis de serem pensados. Isso se dá graças a um estado de abertura e receptividade da mente do analista, que deve ser também criativa e capaz de conter tais conteúdos protomentais, metabolizando-os e transformando-os (e, dessa forma, transmitindo-os) em narrativa. A partir das imagens captadas pelo estado sonhante da mente, as narrativas passam a ser cocriadas, via comunicação inconsciente intersubjetiva, capaz de captar os conteúdos do mundo interno, elementos em estado bruto, pensamentos-palavra em busca de um narrador, e estes podem ganhar novos (possíveis) significados na continência do trabalho analítico, e ambos, analista e analisando, saem dessa experiência transformados.

Das narrativas, uma fonte para o sonhar

Muitos foram os vícios que marcaram o percurso de Paulo.9 Marcas da sua história, peças do quebra-cabeça que o compunham e pareciam não se encaixar. Ele dizia se considerar uma incógnita. Compulsão alimentar, drogas, álcool, consumismo, jogos de azar… Uma busca voraz por algo que o confortasse, que apaziguasse o desconforto tão palpável e presente. Entendi que, para além de o “completar”, a procura incessante era por algo que desse contorno a um corpo-existência tão disforme, inane. Entrevi (com os olhos da mente) um corpo oco, dentro do qual pude enxergar um movimento manancial, num fluxo intenso, correnteza incessante e desordenada. Tento resgatar minha mente que aplainou por um instante e retornar para a sessão.

Paulo diz que para ele os desafios pareciam ter um objetivo: fazê-lo sentir-se melhor. Um “dependente potencial”, cunhava-se. Nesse momento, sou violentamente atravessada por um pensamento, mais do que isso, uma alucinação auditiva vívida, maciça. Era como se estivesse ouvindo uma voz, minha própria voz, dizendo nitidamente: “Sentir-se vivo!”

Passei então a construir uma narrativa que pudesse transmitir a Paulo as imagens e sensações auditivas que se formavam em minha mente desde quando a palavra “dependente potencial” surgiu na fala dele. Disse a Paulo que as palavras me pareciam irmãs, e estavam assim colocadas, lado a lado, ampliando minha percepção de familiaridade entre elas, e que, assim que foram pronunciadas, a palavra “potencial” me remeteu à ideia de uma centelha vital, algo que me parecera, a princípio, um impulso para a vida, uma saída saudável para um corpo e uma mente que sofriam.

Paulo, que estava sorrindo enquanto contava de sua facilidade em viciar-se, me olhou, e seu semblante se fechava. Sobrancelhas arqueadas numa configuração que se assemelhava a algo entre estranhamento, raiva ou reprovação, porém, o que eu vislumbrava era um sentimento de vazio, de solidão. Chegava, por vezes, a vê-lo menino. Uma dinâmica viva entre realidade psíquica e a multiplicidade de tempos na sessão. Passado atualizado, um menino que busca um sonho que não pôde ser sonhado.

Permaneceu alguns instantes em um silêncio profundo, que iniciara de uma forma densa e que, aos poucos, parecia dissipar-se. Virou-se para um quadro que ficava acima do divã, permaneceu olhando para ele num silêncio inquieto, como se tentasse encontrar alguma palavra que pudesse comunicar algo, o indizível. Como se, olhando para aquele quadro, buscasse encontrar seu poema. De repente: “Aquilo é uma fonte?” Respondo: “Olha só… agora que você disse, parece que vejo uma fonte também. Não via antes, agora vejo nitidamente”. Era incrível que Paulo tivesse usado justamente essa palavra: fonte. Lembrei-me da imagem do fluxo de águas intenso, vigoroso, dentro do corpo oco. E ele continua: “Sabe… tenho pensado em muitas coisas desde que começamos. Penso sobre como eu tenho vivido, sobre as coisas que eu sinto que me dão prazer, ou melhor, o prazer que eu realmente queria que me dessem, mas não funcionam verdadeiramente. Sempre achei que isso fosse ruim. Mas, quando você disse ‘centelha vital’, parecia que eu já conhecia essa expressão desde sempre, mas não. Estou certo de que hoje foi a primeira vez que a ouvi. Mas ela ecoou dentro de mim”.

Palavras que ecoavam dentro de Paulo e que também me habitavam. Uníssono. A confirmação de um encontro, algo que só pôde configurar-se graças à capacidade de esperar, de aguardar que Paulo oferecesse outra peça do quebra-cabeça que se aproximasse das minhas. Há entusiasmo no contato das mentes e ideias. O eco das profundezas mais íntimas e desconhecidas do psiquismo de Paulo estava ressoando externamente, transformando-se em palavras. Palavras vivas, carregadas de significados, não pré-concebidos, mas sim cocriados. Pensamentos-palavra do campo emocional. Uma centelha vital que percorria aquele campo era captada por nossas mentes.

E continua: “Estranho que, ao mesmo tempo que me parece uma ideia nova, é tão familiar. Lembro-me que, desde pequeno, eu tinha medo de poço, sabe, aqueles poços artesianos. Só que eu os chamava de fonte. Acho que as ideias se misturaram na minha cabeça quando eu ouvi ‘centelha vital’, enxerguei no quadro uma fonte. Acho que busquei enxergar, isso sim. Pensei comigo: será que sempre teve uma fonte de vida dentro de mim? Eu me chamava de ‘poço’ por causa da obesidade. E todos me corrigiam dizendo: É ‘rolha de poço’ que se diz!! Mas eu continuava dizendo ‘Eu sou esse poço’. Nossa, isso é tão curioso… Acho que, na verdade, eu me sentia vazio como um poço, mas eu sentia que havia dentro de mim uma inquietação, nunca uma ideia de que fosse uma potência de vida. Parece que os vícios eram, de fato, um caminho para a morte, mas a natureza da busca não. É essa busca que me faz, agora, pensar que sou, sim, um poço, pois ainda me sinto vazio. Mas também tem dentro de mim uma fonte de vida, sim. E eu quero viver. Sinto que ainda não me sinto vivo”. Paulo encerra a sessão com a frase: “Nossa, temos muito a pensar…”

“Temos” muito a pensar… Um pensar compartilhado, gerador de imagens, lembranças, representações iam sendo geradas no campo emocional criado por ambos. Paulo parece estar falando sobre o valor da função do pensar, em vez dos fatores pensados. A “natureza da busca” indica movimento, é trabalho do sonhar, enquanto os vícios operam como impeditivo desse trabalho, compulsões à repetição. Uma “fonte”, nascente de sonhos, da qual jorram pensamentos-palavra que coabitavam as mentes da analista e a de Paulo, sem que pudessem ser significados até que fossem narrados.

Tecida na sala de análise, a narrativa se constrói no entremeio da fluidez de pensamentos da dupla, na liberdade da imaginação alojada no campo. É como no trecho de um poema de Mia Couto no qual o autor diz: “A miçanga, todos a vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as miçangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo”.

As miçangas soltas, que pareciam nunca se juntar, ali eram contempladas e ganhavam novas imagens, novos sentidos. Peças do “quebra-cabeça” de Paulo, um grupo de fragmentos embaralhados que ora indicam a possibilidade de construção de uma imagem, ora nos enganam e aguardam uma nova organização. Passado e presente condensados no aqui e agora da sessão. O menino e o homem falam simultaneamente e, aos poucos, criam pontes para o futuro, criam novas conexões.

Um campo emocional a favorecer o “fio que, em colar vistoso, vai compondo as miçangas” e segue “costurando o tempo” necessário para que os pensamentos-palavra se tornem peças-chave para que Paulo possa apropriar-se da experiência emocional e ampliar seu conhecimento de si mesmo.

Fragmentos intersubjetivos (Ribeiro, Flores & Ramos, 2022) que vão se unindo e compondo um enredo, “um colar vistoso”, como poetizado por Mia Couto. Pérolas que vão se juntando através do fio delicadamente tecido pelo trabalho analítico, que inclui as elaborações de ambos os integrantes da dupla e de “todos” os habitantes que circundam a sala de análise. Pensamentospérola vão se avizinhando por intermédio das palavras advindas de um vasto conjunto semântico, que ampliam as conexões entre as mentes.

O pensamento onírico de vigília presente no campo evoca sentimentos e emoções que buscam articulações. Ribeiro (2017) salienta: “O ofício do analista, a partir de Bion, é comunicar e transformar as experiências emocionais. A imagística das interpretações narrativas facilita o acesso, ou melhor, é acesso privilegiado ao sonho, é manifestação onírica narrativa, poderíamos dizer” (p. 186).

Uma “ideia nova, mas tão familiar”, dizia Paulo diante das reflexões que se abriam a partir da experiência vivida e narrada naquela sessão. Lá estava um pensamento à procura de um pensador, sonhado a dois, agora podendo ser pensado por Paulo. Uma narrativa que alcançaria, despretensiosa, porém, tão cirurgicamente, um núcleo fundamental para que a análise se tornasse transformadora.

Paulo pôde criar. Criamos juntos. Elementos psíquicos brutos tornaram-se pérolas. Um trabalho que, via semântica, possibilitou narrar a experiência emocional. Sonhávamos juntos a sessão, criávamos novas histórias e nossas mentes se expandiam para sonhar mais.

O potencial transformador do campo está na riqueza das peças que vão sendo apresentadas, narrativas às quais o analista não deve apressar-se para dar um sentido, como se quisesse abrir o baú das revelações com a chave mágica da interpretação. As reveries do analista, como nos apresenta Ferro, têm, portanto, um papel central no campo, pois oferecem um rico material a ser artesanalmente preparado: conduzir pérolas soltas, juntá-las às do analisando, contê-las e organizá-las para que ganhem forma.

Como analistas, o trabalho de tecer o “fio de miçangas”, de juntar os pensamentos-pérola, ocorre quando nos permitimos embrenhar-nos pelos fragmentos afetivos, perpassando as turbulências do não saber, do incognoscível, e assim, lenta e sutilmente, ampliar a possibilidade de que as pérolas de ambos se avizinhem e ampliem a capacidade de sonhar, de gerar novos sentidos, expandindo a apreciação e a simbolização da experiência emocional.

4Bion, em seu livro Cogitações (1992/2000), apresenta a ideia de que os elementos alfa necessitam uma “qualidade narrativa” ou uma “forma narrativa” para que possam ser processados.

5A palavra “fotograma” está sendo utilizada para designar uma captação visual, uma imagem impressa, aqui, no caso, na tela mental do analista.

6A palavra “pictograma” poderia ser descrita como um desenho figurativo, estilizado, que funciona como um signo, não transcrevendo nem tendo representação explícita na língua oral.

7 Ferro (1996) utiliza o termo “pictogramas emotivo-sensoriais” para se referir à transformação dos elementos que são protosensoriais e protoemocionais em seu estado bruto (elementos beta). Tais elementos são captados pelo analista por meio da reverie e se transformam em pictogramas emotivo-sensoriais, ou seja, são transformados em elementos alfa por meio da função alfa do analista, a fim de que possam ser pensados.

8“Ser paciente”, para Bion, significa “suportar o ‘não saber’ e as ‘meias verdades’ e uma certa cisão relacionada à posição esquizoparanoide” (Chuster & Stürmer, 2019, p. 37). Nas palavras do próprio Bion: “eu gostaria de fazer um paralelo - mais por ter uma esperança, e não tanto convicção - do movimento entre a posição esquizoparanoide para a posição depressiva, usando termos como ‘paciente’ para a posição esquizoparanoide e ‘seguro’ para a posição depressiva” (Bion, 1977/2019). Aqui vemos uma conversa entre o paralelo que Bion apresenta e sua evocação ao pensamento de Melanie Klein: paciência e segurança, dois estados ideais pressupostos para o analista, atravessados pelos tumultos da posição esquizoparanoide, nas angústias de fragmentação e insaturações favoráveis ao trabalho analítico, que implica a permeabilidade, a plasticidade, mas também o inquietante e angustiante exercício clínico.

9O material clínico utilizado foi extraído da experiência clínica de uma das autoras. O nome do analisando, bem como outros fragmentos do caso serão descritos a partir de uma dimensão ficcional (Tanis, 2015).

Referências

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Recebido: 12 de Novembro de 2023; Aceito: 23 de Abril de 2024

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