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Revista Psicopedagogia

versão impressa ISSN 0103-8486

Rev. psicopedag. vol.26 no.80 São Paulo  2009

 

RELATO DE EXPERIÊNCIA

 

Diagnóstico e intervenção psicopedagógica com aldultos: um estudo de caso

 

Diagnosis and psychopedagogical intervention in adults: a case study

 

 

Débora Silva de Castro Pereira

Pedagoga, Psicopedagoga, Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Autônoma de Barcelona - Barcelona, Professora titular da Universidade Católica do Salvador - UCSAL, Coordenadora do curso de Especialização em Psicopedagogia da Universidade Católica do Salvador - UCSAL, Diretora do CRIA-Centro Psicopedagógico, Vocacional e de Recursos Humanos, Presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia - seção Bahia

Correspondência

 

 


RESUMO

Refere-se este Estudo de Caso à psicopedagogia e sua relação com adultos. A atividade psicopedagógica, dinâmica em sua essência e vinculada à aprendizagem, diagnóstico e tratamento psicopedagógico, vem se apresentando de forma mais abrangente, com ações não somente direcionadas à criança e ao adolescente, mas também aos adultos. Nesse universo, relativamente novo, faz-se necessário levar em consideração toda a perspectiva histórica e a-histórica, numa visão sistêmica entre a observância da interferência da idade adulta em relação ao meio sociocultural, a inteligência e a afetividade, com vistas a um trabalho clínico psicopedagógico, de natureza preventiva e/ou remediativa.

Unitermos: Adulto. Transtornos de aprendizagem/ diagnóstico. Transtornos de aprendizagem / terapia.


SUMMARY

This case study refers to the Psychopedagogy and its relation to adults. The psychopedagogical activity, which is dynamic and by nature linked to learning, diagnosis and psychopedagogical treatment, has been presented in a broader way with actions not only directed to the child and the teenager, but also to the adults. In this relatively new universe, it is necessary to take any historical or non-historical perspective into consideration, in a systematic view between the observance of the adult age interference in relation to the social-cultural environment, the intelligence and the emotional, everything towards a clinical psychopedagogical work, naturally preventive and/or remedial.

Key words: Adult. Learning disorders / diagnosis. Learning disorders therapy.


 

 

INTRODUÇÃO

Sempre somos conduzidos e sempre estamos nos conduzindo a desafios. São eles que nos impulsionam a uma nova forma de entender o mundo, as coisas que estão à nossa volta, as pessoas, a nós mesmos, a aprendizagem. Trabalhar com a psicopedagogia é assim: sempre um desafio.

O trabalho psicopedagógico, mesmo tendo respaldo teórico, técnico e prático, constitui-se em um desafio constante, visto que é sempre um trabalho inusitado, diferenciado, uma incógnita, considerando que cada sujeito com quem trabalhamos é uma pessoa única, aprende do seu jeito, no seu próprio tempo, com o seu próprio ritmo. Considerando esses aspectos, a psicopedagogia busca entender o sujeito aprendente, o ser cognoscente, a sua relação com a aprendizagem por meio da investigação, da observação, da intervenção, da avaliação com vistas ao diagnóstico e, em consequência, ao tratamento.

A psicopedagogia, muitas vezes, é vista numa direção por meio da qual somente são contemplados crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizagem: ledo engano. Primeiro porque a psicopedagogia não está somente direcionada a crianças e adolescentes. Ela está direcionada também a adultos e estende sua ação tanto para a clínica como para a instituição, na busca do tratamento ou da prevenção das dificuldades de aprendizagem. Segundo porque ela não está somente dirigida a pessoas com dificuldades de aprendizagem, mas também ao processo de aprendizagem com todas as suas nuances, canalizando o seu fazer para o como se aprende, para o sujeito que aprende, para a aprendizagem.

A idéia de que a psicopedagogia só trabalha com crianças com dificuldades de aprendizagem é oriunda de um conceito implícito em muitos de nós, consequência da própria origem da psicopedagogia, a qual esteve sempre atrelada à criança e às suas dificuldades de aprendizagem. Posteriormente a ação psicopedagógica foi se incorporando ao atendimento a adolescentes e, enfim, ao adulto.

Quando a psicopedagogia destina-se ao adulto, observa-se com mais clareza que a aprendizagem não acontece somente nas escolas, quando se trabalham conteúdos, teorias, quando se tem um rendimento de aprendizagem a considerar, uma avaliação a fazer, um juízo de valor a elaborar. Em verdade, aprendemos sempre, a cada dia, a cada instante, a vida toda. Não existe lugar, tempo ou idade para se aprender. "Em todas as idades, em toda esfera social, nós aprendemos"1. Aprendemos desde que nascemos. Segundo Visca2; em seu esquema evolutivo da aprendizagem, esta começa a se manifestar desde as primeiras relações vinculares entre a mãe e a criança e vai se estendendo pela família, pela comunidade, pela escola até a vida adulta e continua existindo sempre.

Assim sendo, por considerarmos a aprendizagem como um constante "vir a ser", sabemos da importância e da necessidade de irmos em busca de respaldo teórico, prático nos meandros da psicopedagogia, para melhor compreendermos a complexidade que é o processo de aprendizagem.

Esse nível de complexidade que a aprendizagem traz consigo provoca em cada um de nós grandes desafios, seja numa ação direcionada à criança e ao adolescente ou numa ação direcionada ao adulto.

O estudo com adultos, que iremos apresentar, nos trouxe experiências muito ricas e singulares. Se pensamos que trabalhar com a criança e o adolescente em psicopedagogia é uma coisa singular pela própria natureza do trabalho e do sujeito que atendemos, imaginem trabalhar com o adulto. A nossa literatura nessa área ainda está em expansão e não é muito comum atender adultos com dificuldades de aprendizagem nos consultórios psicopedagógicos.

Pelo desejo de sempre desbravar o novo, o que está por vir, nos dedicamos ao estudo do adulto e a sua relação com a psicopedagogia ou ao estudo da psicopedagogia e a sua relação com o adulto. São diferentes situações em se considerando a posição ocupada, pelo enfoque, predominância, importância que se queira dar as duas conjuntamente, ou a cada uma delas. Contudo, não importa por onde começar. O que importa mesmo é o pesquisar, o debruçar-se sobre essa questão tão interessante, instigante e poder extrair dela novas fontes de conhecimento.

Da nossa experiência com adultos, pinçamos um dos casos, dentre os quais atendo no consultório de psicopedagogia, por considerá-lo bem interessante, especial e resolvi trazê-lo à tona para apresentar no VIII Congresso Brasileiro Psicopedagogia, em São Paulo, em julho de 2009. Essa apresentação, agora transformada em artigo, nos traz subsídios para que possamos mergulhar um pouco nesse caminho do adulto com a psicopedagogia e da psicopedagogia com o adulto.

 

O ADULTO, A APRENDIZAGEM E A PSICOPEDAGOGIA

A ativação dos esquemas cognitivos que o trabalho psicopedagógico estimula inclui tanto o conhecimento em sentido estrito, como valores, normas, atitudes, destrezas, como também a possibilidade de uma nova situação de aprendizagem. Nessa situação, o sujeito cognoscente constrói, provoca mudanças, enriquece e diversifica os seus esquemas. Assim sendo, para que tal aconteça faz-se necessário a existência de uma sólida base metodológica, uma prática e técnica oriundas de uma teoria que lhe dê sustentação.

A necessidade do saber teórico como sustentação numa ação psicopedagógica, seja ela desenvolvida por qualquer que seja a metodologia, deve se fazer presente para que possamos trazer fiabilidade e veracidade ao fazer psicopedagógico. Isto significa que o psicopedagogo precisa apropriar-se de um conhecimento específico para entender como acontece a aprendizagem, qual o papel que as estruturas cognitivas, sociais e afetivas desempenham para que este processo se concretize no sujeito de forma satisfatória.

A elucidação sobre essa forma de ação instituída em bases teóricas definidas faz com que o psicopedagogo busque melhores formas de ativar a aquisição de novas habilidades, a sedimentação de tantas outras na tentativa de estabelecer a integração do sujeito ao seu contexto, às várias nuances do processo de aprendizagem, do ato de aprender.

Assim sendo, o eixo teórico que nos deu sustentação para desenvolver o trabalho desenvolvido com S. foi a Epistemologia Convergente do Jorge Visca2. Isso não significa que outras teorias não tenham sido utilizadas, estudadas, que outras práticas não tenham servido de instrumento para novas intervenções psicopedagógicas. Dessa forma, vemos que o desenvolvimento de ações com base em outros parâmetros constitui-se de extrema importância para que possamos, frente a estes, desenvolver um ação que mais se adeque ao sujeito com quem estamos trabalhando, à proposta estabelecida pelo profissional psicopedagogo.

O caso de S., que ora apresentamos, nos conduz à reflexão sobre o ato de aprender, a relação do adulto com a aprendizagem e as suas dificuldades, com os seus avanços e recuos, com seus medos, acertos, com o reconhecimento das suas dificuldades e o aprender a conviver com elas, com o seu progresso quanto à aquisição de novas habilidades e sedimentação de tantas outras, enfim com a possibilidade de aprender, reaprender com mais fluidez e competência.

 

CARACTERÍSTICAS DA DEMANDA DO ADULTO

De um modo geral é o adulto quem procura a ajuda do psicopedagogo quando, por vezes, descobre sozinho, que tem alguma dificuldade para aprender. Essa descoberta surge normalmente, quando sente a dificuldade estampada na leitura ou na escrita.

É uma procura sempre indecisa, difícil. O adulto resiste em procurar um profissional de ajuda e principalmente o psicopedagogo, visto que não conhece o tipo de trabalho que esse profissional desenvolve, não sabe para onde está dirigida a ação psicopedagógica.

O adulto, quando detecta que tem uma dificuldade de aprendizagem, não acredita que essa dificuldade possa ser corrigida. Por sentir-se adulto, com certa idade, não ser mais criança, pensa que as suas dificuldades já estão tão sedimentadas que as coloca como se fossem de difícil mudança e correção.

A descoberta da necessidade de procurar um psico-pedagogo, às vezes, vem por meio da dificuldade que um dos seus filhos apresenta. Ao levar o filho a este profissional, ouvindo falar sobre as dificuldades apresentadas, ouvindo as explicações que o profissional dá a respeito do problema em análise, percebe que também é possuidor de problemas parecidos, os quais merecem uma atenção psicopedagógica.

Existem casos em que o adulto procura o psicopedagogo por indicação de amigos, os quais o alertaram sobre um possível problema de ordem psicopedagógica, "detectado" segundo as suas convivências com um dos filhos que apresentou dificuldades de aprendizagem.

Muito raramente o adulto é trazido por alguém. Mas, apesar de não ser comum essa prática, duas pessoas adultas vieram ao nosso consultório conduzidas, uma pela mãe e a outra pela madre superiora do convento do qual faziam parte. Foram casos especiais.

 

O QUE CONSIDERAR NO TRABALHO COM O ADULTO

Como em qualquer trabalho psicopedagógico, temos que levar em consideração uma série de fatores que possam nos conduzir a uma análise mais acurada, a uma avaliação, um diagnóstico e tratamento mais eficazes. Num trabalho com adultos isso não é diferente. Os cuidados serão os mesmos, porém essas considerações são muito específicas por tratar-se de pessoas que já têm uma consciência firmada sobre si mesmo, sobre o que busca, sobre o que quer, tem uma vida relativamente definida, tanto pessoal como profissional.

Dessa forma, temos que levar em consideração:

  • que o adulto tem consciência do que procura, do que quer, apesar de não ter clareza sobre o que tem;
  • quando o adulto busca esse tipo de ajuda, ele tem direcionado o desejo de descoberta e de cura;
  • que ele busca muitas explicações. É uma pessoa que está ávida por esclarecimentos e exige do psicopedagogo elucidações sobre o trabalho que está sendo desenvolvido. Sente a necessidade de entender o que profissional está fazendo, o que ele está fazendo e por quê;
  • os motivos que o estão levando à procura de um psicopedagogo, investigá-los para direcionar melhor a ação psicopedagógica;
  • o que ele espera desse trabalho psico-pedagógico, quais são os seus anseios com relação ao diagnóstico, ao tratamento.

Por outro lado, o psicopedagogo, ao considerar toda essas questões trazidas pelo adulto, subsídio para o levantamento de hipóteses e de canalização para um trabalho mais efetivo, deve também não perder de vista questões extremamente importantes, específicas da ação psicopedagógica, que deverão fazer parte inerente do diagnóstico e do tratamento, tais como:

  • os sintomas apresentados quanto às dificuldades de aprendizagem;
  • a idade do sujeito e canalizar todo o trabalho, a avaliação, o tratamento para uma ação psicopedagógica adequada a essa realidade;
  • a sua história e a-história, ou seja, a sua vida profissional, pessoal, os vínculos que estabeleceu ou estabelece com as pessoas com as quais convive, vínculos consigo mesmo, com a aprendizagem de modo geral;
  • "a análise de fatores passados e presentes que permitam estabelecer diferenças entre idade, saúde, inteligência, afetividade, etc."3;
  • a sua estrutura cognitiva para poder detectar sobre a forma como opera mentalmente, qual o seu modelo de aprendizagem e, em consequência, poder desenvolver um trabalho compatível com o detectado.

Como vemos, o trabalho psicopedagógico desenvolvido com adulto tem características muito próprias e complexas, pela sua própria natureza, visto que exige um olhar muito especial, muito próprio, por se tratar de pessoas com posições definidas (não importa que tipo de definição) sobre si mesmo, sobre a vida, sobre suas experiências de vida.

 

O ESTUDO DE CASO

Esse caso, apresentado no VIII Congresso de Psicopedagogia, em julho de 2009, em São Paulo, é de uma pessoa adulta com 35 anos, a qual chamaremos de S., trazida pela madre superiora do convento no qual era e continua sendo parte integrante. S. tem o ensino fundamental completo, faz terapia e um desejo enorme de vencer as suas dificuldades de aprendizagem.

O motivo que levou a superiora a trazer S. a um psicopedagogo foi por sentir a necessidade de descobrir a causa das dificuldades de aprendizagem por ela apresentadas e também por ser a comunidade na qual viviam a responsável pelas despesas oriundas do trabalho psicopedagógico.

 

A AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA

Todos os momentos existentes na avaliação diagnóstica, assim como os instrumentos utilizados, são de grande importância. São eles que nos darão condições de detectar as causas que estão provocando as dificuldades de aprendizagem apresentadas pelo sujeito. Contudo, em se tratando de avaliação de adultos, queremos, entre esses instrumentos, destacar a entrevista contratual e a anamnese por estas trazerem uma estrutura de funcionamento diferente da que nós, psicopedagogos, estamos acostumados a desenvolver quando avaliamos a criança ou o adolescente.

Na entrevista contratual com o adulto é ele quem responde por si mesmo (salvo em situações especiais), quem relata todas as questões que lhe afligem no que diz respeito às suas dificuldades de aprendizagem, ao motivo que o está levando a uma avaliação psicopedagógica e, é ele quem decide por fazer ou não a avaliação. Nesse momento explicamos todos os passos a serem seguidos durante a avaliação e damos orientação sobre como pode nos ajudar a fazer a anamnese, a qual virá no final da avaliação.

A anamnese desenvolvida com o adulto é feita diretamente com o mesmo (salvo em situações especiais). Ela é posicionada no final da avaliação para que o sujeito possa, durante o período em que está sendo avaliado, buscar informações sobre si mesmo, desde o pré-natal até a idade em que se encontra, procurando saber sobre a sua trajetória pela escola, pela aprendizagem como um todo. Sugerimos que essa busca seja feita com as pessoas mais próximas ao adulto, pessoas da família, sejam a mãe, o pai, parentes, amigos ou outras pessoas que possam ajudá-lo a reconstruir a sua caminhada. É uma procura difícil, mas muito reveladora, não só para o psicopedagogo como também para aquele que busca a sua história.

 

A AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA DESENVOLVIDA COM S.

O diagnóstico e o tratamento desenvolvidos com S. tiveram como eixo teórico a Epistemologia Convergente sem, contudo, desprezar técnicas e instrumentos advindos de outras linhas de pensamento, de outras linhas teóricas.

A avaliação diagnóstica foi composta pela Entrevista Contratual, a aplicação das Provas Piagetianas, das Provas Projetivas Psico-pedagógicas, de instrumentos variados, tais como jogos, atividades para verificar a capacidade leitora a escrita, a percepção viso-espacial e, por fim, a Anamnese e a devolutiva.

A entrevista contratual primeiramente aconteceu com a presença da Madre Superiora, a qual falou das suas preocupações quanto às dificuldades apresentadas por S., e combinamos um próximo encontro com ela e S. Esse encontro logo aconteceu e S. pode expor também, o seu desejo em fazer a avaliação para saber o porquê das suas dificuldades, mostrando-se desejosa por melhorar e aberta a mudanças.

Nessa entrevista contratual, pudemos tomar conhecimento dos sintomas que S. apresentava: dificuldades na leitura, na escrita e a presença da auto-estima rebaixada. Nesse momento, explicamos o trabalho a ser desenvolvido, estabelecemos um cronograma e marcamos a próxima sessão.

Durante e ao final da avaliação, pudemos detectar que S. estava sempre receptiva ao trabalho, observadora e atenta. Em alguns momentos apresentava falta de autonomia, medo ao erro, conduta evitativa com relação à aprendizagem, dificuldades de relacionamento interpessoal, distanciamento do grupo no qual convivia e forte inibição. Escrevia e lia sem pontuação. Durante a leitura omitia algumas sílabas, lia com lentidão, trocava algumas palavras quando lia. Apresentou dificuldades na ortografia. Possuía uma estrutura de frase muito simples. Tinha dificuldades em estabelecer a noção do todo e das partes, em estabelecer níveis de probabilidade, em classificar, em categorizar. S. estava em defasagem quanto ao seu estágio cognitivo, visto que ainda se encontrava no estágio operatório concreto, com níveis de argumentações por identidade.

Considerando todos esses dados levantados, indicamos para S. um tratamento psico-pedagógico, a continuação da terapia e um suporte pedagógico na área da Língua Portuguesa.

A devolutiva foi dada para S. individualmente e, posteriormente, para ela e a Superiora. Nesse momento decidiram por iniciar o tratamento. S. mostrou-se muito receptiva e pronta para começar.

 

O TRATAMENTO - O QUE FAZER

Traçamos um plano de trabalho no qual começaríamos com instrumentos que mexessem com a sua estrutura cognitiva, sua capacidade de tornar-se mais autônoma, com mais iniciativa, para depois de algum tempo, a depender da evolução observada, introduzir um trabalho voltado para a discriminação percepto-visual, a discriminação auditiva, a capacidade leitora.

Assim o fizemos. E para atender a esse plano utilizamos em nossas intervenções jogos que pudessem mexer com a sua estrutura cognitiva, elaboramos projetos que serviram como ponto de partida para desenvolver a sua autonomia, independência e um trabalho específico para ativar a sua percepção visual, auditiva, espacial com vistas a uma melhor aquisição da leitura.

 

OS INSTRUMENTOS UTILIZADOS

Nem todos os instrumentos utilizados estarão expostos nesse momento, visto que foram muitos no decorrer de quase três anos de tratamento. Citaremos alguns que consideramos como um divisor de águas nesse trabalho, aqueles que mais atingiram os objetivos propostos nesse tratamento: o quarto, o lig quatro, o Otelo, o GoBang, O Pingo no i, a Mancala, as Matrizes Lógicas e o livro UNI DUNI TRE, da Mabel Condemarin, para trabalharmos a discriminação de forma, a percepção visual, a discriminação auditiva com vistas a uma melhor aquisição da leitura, trabalhamos também com palavras cruzadas e com a elaboração de projetos. Estes instrumentos, necessariamente, não seguiram essa ordem na qual estão apresentados.

 

OS AVANÇOS DE S. - O DEPOIMENTO DA PSICOPEDAGOGA

No decorrer do tratamento os instrumentos citados acima, e tantos outros que se fizeram necessários aplicar, serviram para que S. pudesse avançar cada vez mais. Assim, ao longo do tratamento pudemos observar:

  • que S. começou a estabelecer níveis de argumentação mais compatíveis com a sua idade, começando uma ascensão para o estágio cognitivo Operatório Formal;
  • aprendeu a procurar alternativas para a solução de problemas, buscar outras formas de resolver as questões que surgiam;
  • começou a ficar mais autônoma, mais independente, tomando decisões, fazendo escolhas;
  • começou a acreditar em si mesma, em seu potencial, no que podia e sabia fazer, criando autoconfiança, aceitando as suas limitações e aprendendo a conviver com elas;
  • aprendeu a conviver com os seus erros, com a descoberta destes, a buscar formas de corrigí-los e seguir em frente;
  • sentindo-se mais segura, começou a escrever bilhetes no mural onde a comunidade se comunicava;
  • ao ser escalada para trabalhar na cozinha, ela tinha possibilidades de fazer a lista de compras e a responsabilidade de ir às compras;
  • quando foi atender na recepção já se sentia mais à vontade e ela mesma escrevia os recados deixados pelas pessoas;
  • percebemos um grande avanço quanto ao seu modelo de aprendizagem, além da aquisição de algumas habilidades, como organização de idéias, criatividade, fluidez de idéias e já começava a estabelecer analogias;
  • percebíamos que a sua auto-estima estava mais elevada e quanto tinha avançado.

 

OS AVANÇOS DE S. - O SEU DEPOIMENTO

Sempre, como faz parte da praxis psiocopedagógica, a avaliação é uma constante. Tanto por parte do psicopedagogo buscando um próprio feedback, descobrindo acertos e erros na tentativa de sempre fazer o melhor para mudar ou manter caminhos, alterar hipótese, confirmá-las, refutá-las na busca de novos instrumentos, como também faz parte do trabalho a avaliação do próprio sujeito que está sendo tratado, dando-lhe oportunidade de observar e analisar o seu desempenho, a sua participação, o seu crescimento pessoal, as alterações existentes ou não no seu modelo de aprendizagem, etc.

Então, nesse clima de análise e de observação, S. deu o seu depoimento dizendo que:

  • já se sentia mais integrada à sua comunidade. Antes se sentia um pouco excluída por não conseguir ler corretamente, por não participar ativamente dos momentos de discussão;
  • já estava pedindo para ler textos durante a missa e em outros momentos que se fizessem necessários;
  • se não concordava com algo, se sentia mais capaz para dar alguma opinião. Não ficava calada;
  • comentou que já estava se sentindo mais segura, mais independente;
  • via-se mais capacitada para estar com suas companheiras de comunidade;
  • relatou que a professora de Português, com a qual fazia reforço, disse que ela tinha melhorado na leitura e na escrita;
  • falou da sua participação em um Congresso, pertencente à ordem religiosa da qual fazia parte, com a presença de pessoas de todo o Brasil. Esse foi um momento de glória visto que esteve presente em todas as atividades individuais e de grupo, conheceu pessoas de outros estados e dizia do orgulho que sentiu de si mesma em se ver mais segura e feliz;
  • S. reconhecia que ainda escrevia com muitos erros e que sua leitura ainda não estava boa, "mas sei que estou bem melhor", dizia ela.
  • Falou que estava se sentindo mais solta nas reuniões da comunidade, que já se pronunciava sem a "suadeira" que lhe acometia quando ia dizer alguma coisa frente a alguém. Anteriormente achava que as pessoas da comunidade a olhavam, esperando os seus erros e quando se via assim, nessa situação, morria de medo. Mas, estava garantindo que isso já não acontecia mais. Sentia-se outra pessoa.

Como pudemos observar, o trabalho com S. foi muito proveitoso e durante todo o momento em que estivemos juntas pudemos constatar, por meio dela, do seu desempenho, o nível de atenção que o adulto dá ao trabalho psicopedagógico, a consciência do que está fazendo, o comprometimento consigo mesmo e como seu crescimento pessoal, com a possibilidade de mudar, melhorar o aprender a aprender.

S. não pôde mais continuar o tratamento. Surgiram questões de saúde, muitas idas ao médico, mais responsabilidades na comunidade em que vive e por isso teve que parar. Claro que foi uma pena não poder continuar, mas valeu a pena ver os seus avanços, as mudanças que trouxeram tantas novas perspectivas de ver o mundo, de se ver, de se integrar ao novo, a novas aprendizagens.

Verificou-se, ainda, que o trabalho psicopedagógico desenvolvido com S. foi de grande valia e lhe trouxe grandes avanços. É muito gratificante chegar a conclusões desse tipo. Isso vem reforçar a importância e a necessidade do trabalho psicopedagógico em face às várias dificuldades de aprendizagem que cada sujeito apresenta, não importa que idade tenha. Vem nos mostrar, mais uma vez, a beleza de acreditar no desenvolvimento do sujeito, de desenvolver ações para que isso aconteça, acreditar na possibilidade de se provocar mudanças, na força de uma intervenção psicopedagógica adequada que possa conduzir o sujeito a uma perspectiva de sempre estar melhorando, mudando, aprendendo.

Para encerrar este artigo, trago algumas considerações que fiz para sinalizar, evidenciar a caminhada do adulto nos caminhos da psicopedagogia e de si mesmo.

 

OS CAMINHOS QUE SE PERCORRE A CADA DIA TRAZEM CAMINHADASDIFERENTES

O adulto que apresenta dificuldades de aprendizagem, que busca a psicopedagogia, sabe reconhecer a importância da ajuda, sabe buscar um novo caminho.

Descobre que o novo se constrói e que a aprendizagem será sempre uma constante, mesmo que seja por estreitos caminhos.

Ele passa a ver que acertos e erros fazem parte do aprender e que eles podem trazer um colorido diferente à sua caminhada.

Passa a observar que a trilha, mesmo sendo estreita, pode ser prazerosa e bela, trazendo novas aprendizagens.

Encontra degraus que o fazem subir, descer, ir e vir, fazer e desfazer e, assim, aprender a aprender.

O adulto acha que a dificuldade de apren-dizagem o leva a lugar nenhum, contudo, depois entende que, ao descobrir a estrada, o presente é mais interessante, no momento, do que o ponto final.

Percebe que, não importa o caminho em que se encontre, o aprender será uma constante.

Percebe, também, que mesmo com o caminho nublado as perspectivas de aprendizagem são sempre inúmeras.

Descobre que pode existir sempre luz no seu caminhar através do seu ato de aprender.

E que, mesmo sem saber aonde chegar, a aprendizagem sempre se fará presente, abrindo novos caminhos para o desconhecido, para o novo.

Ser adulto não significa saber de tudo, sobre tudo. Ser adulto significa descobrir que muita coisa ainda está por vir e que, de verdade, muita coisa ainda há que se aprender.

 

REFERÊNCIAS

1. Fournier M. Comment savoir? Rev Sciences Humaines. 1999;98.

2. Visca J. Psicopedagogia: teoria, clínica investigación. Buenos Aires: AG Servicios Gráficos;1993.

3. Visca J. Clínica psicopedagógica: episte-mologia convergente. Buenos Aires: AG Servicios Gráficos;1994.

 

 

Correspondência:
Débora Silva de Castro Pereira
Rua do Ébano, 148/1202 - Caminho das Árvores- Salvador
CEP - 41820-370 - BA
E-mail: descp@uol.com.br

Artigo recebido: 28/7/2009
Aprovado: 25/8/2009

 

 

Trabalho realizado no CRIA - Centro Psicopedagógico Vocacional e de Recursos Humanos, Salvador, BA.