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Revista Psicopedagogia

versão impressa ISSN 0103-8486

Rev. psicopedag. vol.27 no.83 São Paulo  2010

 

ESTUDO DE CASO

 

Problemas emocionais em um adulto com dislexia: um estudo de caso

 

Emotional problems in an adult with dyslexia: a case study

 

 

Flávia Vianna BoniniI; Raquel Regina MariII; Sandra Aparecida dos AnjosII; Viviane JovelianoII; Sueli Cristina de Pauli TeixeiraIII

IFonoaudióloga e Psicopedagoga formada pelo Centro Universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto, SP
IIPedagoga e Psicopedagoga formada pelo Centro Universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto, SP
IIIPsicóloga, Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto, Professora e coordenadora do curso de pós-graduação em Psicopedagogia do Centro Universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto-SP. Profª Substituta da UFSCar, proferindo aulas de Psicologia do Desenvolvimento e Psicologia da Educação aos cursos de licenciatura do campus

Correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho visa abordar os diversos tipos de sentimentos causados pela dislexia, baseando-se em um relato real, obtido por meio de uma entrevista em que o sujeito relatou suas experiências e frustrações do início da sua vida escolar até a fase adulta. Com isto focou-se na análise do discurso do sujeito, selecionando os recortes mais significativos e interpretados à luz da literatura. Desse modo, procurou-se salientar os prejuízos emocionais causados pela baixa-estima, agressividade, ansiedade, depressão, ou pelo medo de errar ou de ser descoberto, entre outros sentimentos apontados nesta pesquisa e comumente encontrados em indivíduos com dislexia que podem se estender, afetando tanto o plano social quanto o profissional. Porém esses sentimentos podem ser superados por meio de um diagnóstico correto, possibilitando assim um tratamento eficaz, mas a principal causa de superação pode estar ligada à habilidade desenvolvida em superar, estrategicamente, as dificuldades.

Palavras-chave: Dislexia. Transtornos de aprendizagem. Adulto. Instituições acadêmicas. Emoções.


ABSTRACT

This study aims to address the various types of feelings caused by dyslexia based on a real life situation, obtained through an interview where the subject reported their experiences and frustrations from the start of their school life to adulthood; with a focus on the analysis of the discourse of the subject, selecting the most significant pieces from the discourse which were interpreted using current literature. The emphasis of emotional damage caused by low self-esteem, aggression, anxiety, depression, the fear of making mistakes or being discovered to be dyslexic, among other feelings mentioned in this study and commonly found in individuals with dyslexia, may be extended, affecting both the social and professional aspects of life. But these issues can be overcome by correct diagnosis allowing for effective treatment, but the most important point in overcoming the problems can be linked to a strategically developed ability to overcome the difficulties.

Keywords: Dyslexia. Learning disorders. Adult. Schools. Emotions.


 

 

INTRODUÇÃO

A dislexia é definida, segundo a Associação Brasileira de Dislexia1 (ABD), como um distúrbio ou transtorno do aprendizado da linguagem. É uma alteração, transitória ou permanente, da compreensão da leitura, soletração, escrita, comunicação expressiva e receptiva, em crianças com adequada acuidade auditiva e visual, interessada na sua aquisição. Ainda, segundo a ABD, a dificuldade no aprendizado da leitura, em diferentes graus, é característica evidenciada em cerca de 80% dos disléxicos.

Nas últimas décadas, a dislexia tem despertado maior interesse de investigação e discussão, principalmente porque afeta a capacidade de leitura e este é um instrumento cultural que dá acesso a outros conhecimentos e desenvolvimento de outras capacidades e o não domínio da leitura pode causar danos evidentes, tanto no plano afetivo quanto social.

A Orton Dyslexia Society of USA (Orton Sociedade Americana de Dislexia, hoje denominada International Dyslexia Association - Associação Internacional de Dislexia) define a dislexia como uma das diversas incapacidades distintas na aprendizagem, a qual se manifesta por uma dificuldade variável em diferentes formas de linguagem, apresentando não só problemas na leitura, mas também um problema eminente com relação à aquisição de proficiência na escrita e no soletrar. Sendo este um distúrbio específico baseado na linguagem, de origem constitucional, caracterizado por dificuldades na decodificação de palavras isoladas, que geralmente refletem habilidades insuficientes de processamento fonológico. Estes episódios são inesperados em relação à idade ou a outras capacidades cognitivas, pois não se trata de uma incapacidade de desenvolvimento ou de um comportamento sensorial2.

Ao contrário do que muitos pensam, a dislexia não é resultado de má alfabetização, desatenção, desmotivação, condição socioeconômica ou baixa inteligência. Ela é uma condição hereditária, com alterações genéticas, apresentando ainda alterações no padrão neurológico. Scapinelli et al.3 afirmam que a história familiar é um dos fatores de risco mais importantes, pois 23 a 65% das crianças com pais disléxicos apresentam o distúrbio.

Para Ferreira4; os aspectos neurológicos, como sensibilidade, movimento, coordenação, concentração, interesse e inteligência, costumam estar normais. Em decorrência deste fato, a dislexia só é descoberta quando a criança encontra-se no período de alfabetização. Antes disso, os pais, familiares e professores não conseguem identificar a dislexia; quando muito, podem notar pequenos desvios no desenvolvimento neuropsicomotor. Para este mesmo autor, é nítido o predomínio da dislexia em meninos, baseando-se numa proporção de quatro para uma menina (4:1). Scapinelli et al.3 afirmam, ainda, que se acreditava na predominância em meninos, porém apontam que estudos recentes revelam que as taxas de acometimento são semelhantes entre meninos e meninas.

Snowling e Stackhouse5; quanto à hereditariedade da dislexia, apontam que os geneticistas do comportamento têm demonstrado que a probabilidade de um menino se tornar disléxico é de 50%, se o pai for disléxico, e cerca de 40%, se a mãe for afetada, e que esta probabilidade é um pouco menor se a criança for do sexo feminino.

Sabe-se que as tentativas de definir e explicar a dislexia foram inúmeras nas últimas décadas. De acordo com a World Federation of Neurology, para entender porque a criança não aprende, é necessário ter conhecimento de que a dislexia compreende a dificuldade de aprendizagem de leitura, independente de instrução convencional e outros fatores, mas depende de dificuldades cognitivas, que são de origem constitucional e funcional. A dislexia seria uma diminuição na sequência normal de aquisição dos diferentes processos de identificação da palavra (Frith apud Ciasca et al.6).

Ainda para as mesmas autoras, baseadas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM IV), os testes padronizados, administrados individualmente, de correção ou compreensão da leitura, apresenta-se abaixo do nível esperado, considerando a idade cronológica, a inteligência medida e a escolaridade apropriada à idade do indivíduo. A alteração nesse critério interfere nitidamente no rendimento escolar ou atividades da vida diária que exigem habilidades de leitura, levando em conta que a criança também deve estar livre de distúrbios sensoriais ou neurológicos6.

No entanto, para a confirmação deste distúrbio de aprendizagem (dislexia), conforme cita a ABD1; o indivíduo deve ser submetido à avaliação realizada por uma equipe multidisciplinar, formada por psicóloga, fonoaudióloga e psicopedagoga clínica. Deve-se iniciar minuciosa investigação. Essa equipe deve garantir maior abrangência do processo de avaliação, verificando a necessidade do parecer de outros profissionais, como neurologista, oftalmologista e outros, conforme o caso. Os autores Valle e Valle7 também concordam com estes procedimentos e acrescentam, ainda, que o diagnóstico eficaz da dislexia permite uma correta intervenção nas dificuldades apresentadas, além de descartar a possibilidade de outros distúrbios correlacionados.

Além dessas preocupações, a equipe de profissionais deve verificar todas as possibilidades diagnósticas antes de confirmar ou descartar um quadro de dislexia. Este processo é chamado de Avaliação Multidisciplinar e de Exclusão. Contudo, é importante levar em conta o parecer da escola, dos pais e levantar o histórico familiar e de evolução do paciente.

O processo da leitura é individual, variável, dependendo da idade, maturação, de experiências culturais, de motivação e integridade do Sistema Nervoso Central (SNC) e do Sistema Nervoso Periférico (SNP), e de todo o desenvolvimento global8.

Levando-se em conta os aspectos aqui citados, nota-se a importância de um diagnóstico claro e preciso sobre a dislexia, pois, com estas informações, pode-se iniciar um acompanhamento adequado enquanto o indivíduo ainda for criança. Caso contrário, os sintomas persistirão e irão permear a fase adulta, acrescentando, assim, possíveis prejuízos emocionais e, consequentemente, sociais e profissionais. Quando não há um acompanhamento adequado na fase escolar, estes aspectos afetivos emocionais tornam-se prejudicados e poderão se manifestar em forma de depressão, ansiedade, baixa auto-estima e, em alguns casos, o ingresso nas drogas e no álcool.

A dislexia é causa ainda ignorada de evasão escolar em nosso país, e uma das causas do chamado 'analfabetismo funcional', que, por permanecer envolta no desconhecimento ou na informação imprecisa, não é considerada como desencadeante de insucessos no aprendizado.

De acordo com diversos pesquisadores, como Minervino9; podem estar incluídas no grupo de risco para a dislexia as crianças que apresentam sinais indicando dificuldades para entender instruções; pouco vocabulário para a produção de frases; dificuldades em lembrar sentenças ou estórias, levando sempre em consideração as condições pedagógicas a que essas crianças são submetidas. Sugere ainda que, problemas relacionados à linguagem em crianças com seis anos são fortes preditores de dificuldades na leitura.

Em relação à linguagem, Minervino9 destaca que aspectos relacionados à memória estão subentendidos e acredita que crianças com dificuldades de aprendizagem acusam frequentemente problemas de memorização, conservação, consolidação, retenção, rememorização, e retomada da informação anteriormente recebida, pois a memória e a aprendizagem são indissociáveis, considerando que a aprendizagem da leitura requer a integridade mínima de processos psiconeurológicos e psicomotores.

Segundo Frank10; o sentimento de frustração e fracasso que o indivíduo vivencia, enquanto negocia sua vida com a dislexia, pode aparecer de várias formas, sentimentos comuns que vão reaflorar de tempos em tempos, seja ao abordar seus trabalhos escolares ou ao se interagir com colegas e familiares.

Um dos aspectos emocionais que podem ser desenvolvidos com a ajuda dos pais é a auto-estima. Segundo Selikowitz11; as crianças com dislexia percebem que enfrentam obstáculos que outras crianças não enfrentam. Muitas criam mecanismos bem-sucedidos para manter sua auto-estima, apesar das dificuldades; mas algumas desenvolvem mecanismos inadequados para enfrentar o problema.

Neste estudo, pretende-se descrever, analisar e discutir as questões referentes exclusivamente aos aspectos emocionais presentes em um indivíduo adulto com diagnóstico de dislexia. Trata-se de um tema de grande relevância, visto que existem pouquíssimas publicações que abordam a dislexia na vida adulta.

E, de acordo com os dados levantados, pretende-se com esta pesquisa esclarecer e ajudar não só as pessoas com dislexia, mas também profissionais e pais que convivem diariamente com todas as implicações emocionais que atrapalham o desenvolvimento pessoal e intelectual desse indivíduo, e também por meio deste assunto, enfatizar que a dislexia necessita de um tratamento apropriado, pois não se trata de um problema que é superado com o tempo; a dislexia não pode passar despercebida. Pais e professores devem se esforçar para identificar a possibilidade de seus filhos ou alunos sofrerem de dislexia.

Contudo, a finalidade desta pesquisa é abordar especificamente os problemas emocionais que ocorrem no disléxico e suas implicações no processo de aprendizagem, destacar as características, causas e processos envolvidos na dislexia.

A preocupação em desenvolver este estudo foi a de ter uma melhor compreensão dos sentimentos que ocorrem em um indivíduo com dislexia; confirmar, por meio de um relato real, os 'danos' que uma dificuldade de leitura e escrita causa em um ser quando em processo de aprendizagem, além de mostrar as estratégias que o sujeito pode desenvolver na tentativa de mascarar o problema.

Não se pretende fazer generalizações, embora seja importante destacar que este estudo permite tirar conclusões que possam vir a ser úteis para nortear outros estudos semelhantes, já que um estudo de caso permite o conhecimento mais amplo e profundo da realidade que enfoca.

 

O DISLÉXICO: VIDA EMOCIONAL

Segundo Frank10; os lados emocional e cognitivo da dislexia estão sempre entrelaçados, por isso que para o disléxico é importante o apoio, a compreensão, a paciência e a dedicação daqueles que o cercam, pois o fato da criança se sentir diferente dos demais já é um grande desafio, uma vez que este indivíduo terá de vivenciar os efeitos da dislexia, que é uma questão para a vida toda.

Educar a criança segundo a natureza do seu distúrbio, valorizando suas qualidades e ressaltando seu bom desempenho em diferentes áreas, é um meio sábio de torná-la ativa, interessada e responsável em melhorar o seu desempenho.

Alvarez et al.12 citam autores que trabalharam com comunidades que sofreram de privação cultural; tais comunidades representavam o espelho da população. Perceberam cada um no seu caminho de pesquisa que, em alguns anos, essa população poderia assumir a posição de culturalmente atuante. Portanto, devem-se ressaltar as habilidades e não as limitações do indivíduo, propondo, assim, uma educação apropriada, pensada, planejada e elaborada, levando-se em conta as necessidades do indivíduo e da sociedade na qual está inserido.

A auto-estima é fundamental para crianças com dificuldades específicas de aprendizagem, porque ela as habilita a entrar no ciclo do êxito. Se elas acreditarem na sua capacidade, reagirão mais intensamente e passaram a se autovalorizar. Em contraste, a baixa auto-estima pode causar um ciclo vicioso de fracasso. A criança tenta fugir do fracasso, evitando os desafios.

Para o autor Selikowitz11; o desenvolvimento da auto-estima tem importantes implicações no futuro da criança. Se uma criança não tiver adquirido boa auto-estima até a idade adulta, o resultado será o pouco proveito de suas habilidades acadêmicas. Se tiver boa auto-estima, ela provavelmente enfrentará bem a vida, mesmo que suas habilidades acadêmicas sejam limitadas.

Por isso, os pais devem aceitar a insegurança de seu filho, seus sentimentos, sem crítica, procurando enfatizar as suas qualidades positivas e mostrar o quanto é valorizado não pelos acertos (resultados) obtidos por ele, mas pelo esforço em tentar superar as suas dificuldades.

De acordo com Frank10; especialista na área de Psicologia Educacional, a dislexia é muito mais que um problema de leitura, pois esta dificuldade se estende na escrita, nas relações espaciais, nas direções, na administração do tempo, na lembrança de palavras e na memória. É a incapacidade de lembrar, por um instante, o sobrenome do seu melhor amigo; é o pânico de saber que a qualquer momento, a confusão mental pode aparecer e esta carga emocional que se origina da perda da memória, em especial, pode ser enorme.

E para salientar há evidências de que as crianças disléxicas possuem problemas com a aprendizagem verbal de longo prazo, como, por exemplo, a memorização dos meses do ano ou as tabelas de multiplicação. Também apresentam dificuldades para encontrar palavras (nomear), pois esta tarefa exige a recuperação de informações fonológicas da memória de curto prazo. Fato comprovado em estudos experimentais que usam tarefas de nomeação rápida, os quais relatam deficiências nos disléxicos5.

Outra característica muito frequente da dislexia é a dificuldade com a memória, tanto a curto como a longo prazo. Segundo Frank10; este é um dos aspectos, emocionalmente, mais doloroso, pois, às vezes, é impossível lembrar-se de certas experiências do passado. Este fato pode levar os indivíduos disléxicos a se esquivar e se isolar para não serem descobertos ou por não saber lidar com essa dificuldade, sentindo vergonha e medo de ser diferente dos demais.

Frank10 ressalta que, se para uma criança disléxica o tempo levado para lembrar uma simples palavra pode ser extremamente frustrante, e quando fica mais velha, sua incapacidade de evocar palavras (a chamada disnomia) pode causar embaraço ou sentimento de inadequação, aumentando o sentimento de frustração e de inferioridade dos disléxicos. O fato de tanta pressão emocional em dar o melhor de si, pode torná-los agressivos.

Com base nos pontos abordados nesta pesquisa, é importante salientar que a dislexia é um problema neurológico e não pode ser ignorado, pois nenhum disléxico deixará de ser disléxico, mas com o consistente apoio e encorajamento por parte de familiares e compreensão dos amigos vão ajudar este indivíduo a se conhecer melhor e aprender a viver com seu transtorno e ser bem-sucedido.

 

SUJEITO EM ESTUDO E O PERCURSO METODOLÓGICO

O sujeito em foco é do sexo masculino, que atualmente tem 42 anos de idade. Casado há 21 anos e pai de uma filha, hoje com 11 anos, também com o diagnóstico de dislexia. É de uma família classe média e sempre estudou em escola pública. Atualmente, é dono de uma empresa de caminhões guincho e presta serviços para várias empresas de sua cidade e região.

O indivíduo em estudo sempre lidou com o fracasso escolar. Fez três vezes a primeira série, duas vezes a segunda e três vezes a terceira (atualmente denominada como segundo, terceiro e quarto ano). Parou de estudar no meio da quarta série (quinto ano), aos 15 anos de idade.

Começou a trabalhar aos 12 anos, horário alternado ao da escola. Aos 15 anos, optou por só trabalhar. Aos 20 anos, se casou e permanece com esta pessoa até hoje.

Voltou a estudar aos 18 anos para tirar Carteira Nacional de Habilitação. E, durante este período, frequentou por dois meses aulas de supletivo em um espaço cedido pela Prefeitura Municipal na cidade onde mora, e mais tarde tentou realizar trabalhos (aulas ministradas) com professora particular, mas sem sucesso.

Em 2005, sua filha teve diagnóstico de dislexia. No final de 2006, ele submeteu-se a exames e avaliações para confirmar o seu próprio diagnóstico. Em 2007, iniciou tratamento fonoaudiológico, interrompido em agosto de 2008.

O material empírico deste estudo, base para o estudo de caso, é o conteúdo do depoimento pessoal de um sujeito que conta a sua história de vida referente à sua aprendizagem. O discurso coletado via entrevista, realizado em 2007, acompanhado de um roteiro que foi previamente elaborado para a realização da mesma, o qual não foi rigidamente utilizado, já que algumas perguntas feitas pela entrevistadora ocorreram em função do que o sujeito relatava.

Este processo foi realizado em dois dias, com duração de 50 minutos cada, com a permissão do sujeito, que assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, executada por uma das pesquisadoras que atendeu o sujeito por aproximadamente 1 ano e 2 meses, a fim de realizar um trabalho fonoaudiológico. A entrevista foi transcrita na íntegra e foi base para a análise, uma vez que a linguagem reflete o mundo interno do sujeito.

O presente estudo de caso partiu de um relato em que o sujeito discorreu sobre sua história de vida, desde o início da vida acadêmica, seus fracassos enquanto aprendiz; suas vitórias enquanto profissional; a descoberta da dislexia; seus sentimentos; os caminhos em busca da melhor leitura.

A análise dos dados foi realizada a partir do levantamento dos significados atribuídos pelo sujeito a sua história escolar, sua trajetória, seus medos, sentimentos. Foram selecionados os recortes mais significativos de seu discurso e estes foram interpretados à luz dos aspectos teóricos apontados pelos estudiosos da dislexia.

 

ANÁLISE DA ENTREVISTA DO SUJEITO: RESULTADOS E DISCUSSÃO

De acordo com o discurso do sujeito, foram encontrados alguns aspectos específicos com relação ao seu comportamento, ou seja, alguns pontos emocionais característicos de pessoas que são disléxicas.

Durante a entrevista, observou-se a baixa-estima, uma das características mais frequentes e comuns, causadas pela frustração em tentar vencer as inúmeras dificuldades apresentadas por este distúrbio.

O sentimento de baixa-estima merece uma atenção cuidadosa, pois quando o disléxico consegue acreditar no seu potencial, mesmo diante das dificuldades, ele pode, de forma positiva, superar e desenvolver habilidades que podem livrá-lo do fracasso.

O sujeito em estudo relatou que em vários momentos de sua vida se deparou com o sentimento de fracasso e, consequentemente, baixa-estima, e isto é o que mostra o recorte abaixo:

[...] eu mesmo me condenando pela preguiça, pela safadeza, né. Esse ato meu de se esconder e não ir na escola.

Segundo Frank10; é viável estar a par dos efeitos emocionais da dislexia e procurar desenvolver maneiras de diminuir esses efeitos negativos, favorecendo a confiança e o sucesso, desse modo é possível tranquilizar o disléxico quando se esclarece que todas as pessoas podem ser boas em algumas coisas, mas apresentar dificuldades em outras, a fim de que ele saiba que pontos fortes e fracos fazem parte da vida de todas as pessoas. Este aspecto, apesar de ter acontecido depois de um período significativo de fracasso escolar, também foi observado quando o sujeito disse estar entusiasmado e orgulhoso:

[...] a profissão de mecânico que era mais fácil é uma profissão que eu gostava demais, [...] eu procurei me aperfeiçoar [...] que não tem muita leitura... é mais prática .

Estes pontos, abordados por Frank10; podem diminuir o sentimento de inferioridade dos disléxicos, mas para a ABD1 é preciso que pais e professores compreendam, exatamente, quais são as dificuldades que uma criança com dislexia apresenta, o importante é que o obstáculo apresentado pela dislexia seja reconhecido, pois estas pessoas (pais e professores) podem ser úteis, não apenas no sentido de mostrar simpatia e encorajamento, mas principalmente na busca de uma didática mais adequada e eficaz.

Pois, segundo Franchi13; o professor alfabetizador é quem enfrenta os maiores problemas linguísticos, e todos de uma vez, por isso deve aliar o seu trabalho a uma tendência de pesquisador da linguagem, a fim de tomar conhecimento do assunto, tendo este, além de outros profissionais, papel importante no desenvolvimento de habilidades de leitura e escrita do disléxico. Por isso, o professor não deve deixar de recorrer às fontes de que disponha para compreender os fenômenos de linguagem que ocorrem diante dele e as propriedades linguísticas envolvidas.

Segundo Ianhez e Nico14; o fenômeno da linguagem escrita é uma transição da linguagem oral, ou seja, há modificações na passagem de uma para outra. E este processo de aquisição da escrita se dá por conta de aspectos semânticos e sintáticos, ou melhor, os códigos e as regras da língua escrita e a própria codificação e decodificação, isto é, os sons, seus símbolos e seus significantes e significados, que requerem síntese e análise auditiva e visual, assim como discriminação temporoespacial. Estes aspectos linguísticos não são características dominantes nos disléxicos e, consequentemente, a aquisição da escrita (para os disléxicos) não poderá ser adquirida da forma convencional, como é feito na escola, pois deste modo o disléxico pode não responder às expectativas esperadas, o que lhe acarretará frustrações. Fato evidente no relato do sujeito:

"...eu vou aprender ler, mas assim,... eu ali sozinho ou, então com uma pessoa,... se eu lê para mais pessoas eu já não vou... eu vou ter dificuldade... não tenho confiança..."

O medo que descubram o seu problema, de acordo com Frank10; é, talvez, o elemento mais significativo da vida secreta do disléxico, pois, geralmente, vai tentar manter seu transtorno em segredo, inclusive atos que envolvam ler, escrever, soletrar, falar em voz alta ou lembrar, mas isto é algo quase impossível na nossa sociedade, porém, há alguns disléxicos que conseguem ser bem criativos para escapar dessas tarefas.

A falta dessas habilidades e as inúmeras dificuldades apresentadas pela dislexia também podem levar o indivíduo ao desânimo, perda de interesse e a falta de prazer de ir à escola, e desse modo aumentando o sentimento de frustração e de inferioridade do disléxico. Sentimentos estes também presentes no sujeito quando diz:

"[...] nunca... tinha aquele prazer para ir na escola, né... a realidade seria essa, né [...] tinha que ir, mais a dificuldade era maior [...] A situação era difícil, né..."

Para Scapinelli et al.3; pessoas com história de dislexia na infância podem apresentar melhora no conhecimento fonológico, mas continuam com deficiências na leitura, quando são comparadas a pessoas que não tiveram história de dislexia na infância, pois se observa permanência da falta de automatismo (velocidade) da leitura.

De acordo com Zorzi8; a leitura corresponde a um ato de compreensão, da relação entre símbolos/letras (significantes) e aquilo que eles simbolizam (significado), assim, pode-se concluir que uma criança que seja capaz apenas de decodificar, ou seja, capaz somente de pronunciar as palavras sem conseguir obter o entendimento das ideias nelas contidas, não pode ser considerada como alguém que realmente lê.

O disléxico diante dessa inabilidade de leitura pode desenvolver um sentimento de fobia, aspecto relacionado ao fato de sair de casa do que ansiedade relacionada à escola, o que ocasionalmente provocará rejeição pela escola. Segundo Selikowitz11; esta rejeição à escola é decorrente da pressão causada por dificuldades acadêmicas ou sociais enfrentadas pelo disléxico. Ele pode ficar com medo de errar, ou de ser importunado e rejeitado pelos que estão a sua volta.

Estes aspectos também foram encontrados no relato do sujeito, quando ele fala da insegurança apavorante e do medo que parecia dominá-lo diante da dificuldade não só da leitura, mas da escrita também. É o que mostra o recorte a seguir:

"[...] Eu com a minha dificuldade [...] Era uma tensão muito forte... era feio você levar um nome para a pessoa assinar e escrito tudo errado".

Muitas vezes, é constrangedor para o disléxico admitir que sente medo e, consequentemente, este sentimento pode aflorar na forma de baixa-estima, estimulando o indivíduo a desistir de ser perseverante, e este ato de desistência pode ser também uma forma de enfrentar ou de se entregar diante das dificuldades apresentadas pela dislexia.

Pode-se observar este fato quando o sujeito viu-se sem alternativa e desistiu de ir à escola, convencido de que esta tentativa era perca de tempo.

"[...] na escola não teve mesmo jeito de ir mesmo... eu tava perdendo tempo."

Outro aspecto encontrado, de acordo com a literatura, é a agressividade reprimida que os disléxicos podem apresentar, pois segundo Frank10 este fato pode ser decorrente da pressão emocional vivida pelo indivíduo e isto pode ser constatado quando o sujeito afirma que, apesar de brincalhão, era também nervoso.

"[...] Ah, eu era brincalhão e ao mesmo tempo era, como diria... nervoso..."

Contudo, alguns disléxicos podem ser sagazes com relação à estratégia para escapar de alguma situação indesejável, como, por exemplo, na escola podem tentar arrumar alguma confusão só para fugir da dificuldade de leitura ou de algum exercício não compreendido. Assim, é o que mostra o recorte a seguir:

[...] já arrumava uma "encrenquinha" com o vizinho de carteira, [...], ela punha para fora da sala de aula, aí ficava no corredor... Ficava desfilando até acabar o exercício."

De maneira precisa, Selikowitz11 afirma que o comportamento agressivo é normalmente uma "capa" para a baixa auto-estima, pois ao sentir que falhou, o disléxico pode descarregar sua raiva nos outros, pois exercer poder sobre as pessoas, como impor sua força física, fazer comentários críticos sobre os outros, pode lhes trazer satisfação.

Para esse mesmo autor, é importante identificar o que provoca tal comportamento para ajudá-lo diante desta situação. Pois, esses excessos costumam ocorrer nas horas em que o disléxico se sente falho ou sob ameaça de falha. Quando estas situações são identificadas com antecedência, é possível evitar ou modificar as coisas para que ele não se sinta inapto. Ensinar certas estratégias ao disléxico, como pular de um trampolim ou ouvir música, são tarefas prazerosas onde ele poderá descarregar toda a sua raiva.

Mas, se apesar de todas estas medidas, os excessos agressivos permanecerem, é aconselhável procurar ajuda médica ou psicológica, pois se este hábito se tornar crônico, pode ser difícil erradicá-lo mais tarde e com possibilidade de agravar-se na fase adulta. Outro aspecto importante, segundo Selikowitz11; é a depressão que pode se manifestar por meio de outros sintomas como dor de cabeça, distúrbio de alimentação, comportamento agressivo e revoltado, regressão no desempenho escolar e abuso de droga ou álcool.

Os sintomas acima citados são difíceis de serem identificados como depressão, pois, segundo o autor, os sintomas mais comuns da depressão são sentimento de tristeza, solidão e isolamento, declarações autodepreciativas, distúrbio do sono e reclamações de aborrecimento. Estes sintomas podem ocorrer transitoriamente no disléxico que não esteja sofrendo de depressão, pois estes sinais de depressão podem surgir devido às dificuldades enfrentadas pelo disléxico.

Todos esses fatores podem se agravar se não forem diagnosticados adequadamente ou descobertos a tempo, pois podem tornar a vida do disléxico mais complexa, contudo é preciso não apresentar um diagnóstico precipitado e superficial de uma criança quando esta se encontra no início de seu aprendizado, por isso o diagnóstico deve ser realizado apor meio de uma avaliação profunda e específica.

Segundo Ianhez e Nico14; apoiados na opinião da ABD1; definir a causa das dificuldades do disléxico provoca mais sensação de alívio do que sentimento de angústia, pois este indivíduo não ficará mais exposto ao rótulo de preguiçoso, desatento, bagunceiro. Ambos, pais e crianças, serão liberados da suspeita de deficiência intelectual.

O sujeito em estudo sofreu com estes preconceitos inculcados por parte de profissionais e familiares, pois a avaliação superficial e precipitada impediu que o levasse a encaminhamentos adequados e específicos para o seu caso. Observe o relato do sujeito quando diz:

"[...] a psicóloga olhou tudo e falou... ó isso aqui é mais malandragem do que problema

[...] pro pessoal, pra professora, pra minha mãe, né... "pros outros" ao redor da gente tava como eu... preguiçoso; não era esforçado na escola, né."

O sujeito descobriu que era disléxico aos 40 anos de idade, pois a falta de uma visão mais sensível, por parte dos profissionais, impediu o seu tratamento quando ainda era criança. Durante o relato, o próprio sujeito disse, ou seja, mostrou que é preciso se ter conhecimento do que é a dislexia para depois procurar enfrentar e entender as dificuldades por ela apresentadas. Observe o recorte a seguir:

"[...] com 40 anos que eu descobri a dislexia que para mim ela não afetou nada, eu acho que [...] tem que procurar [...] se informar mais, não ter vergonha de... falar, de comentar com as pessoas, ... que tem a dislexia, que tem uma dificuldade de ler.

Neste relato, o sujeito afirma que a dislexia não o afetou em nada, isto porque adultos disléxicos, segundo Ianhez e Nico14; podem parecer ótimos memorizadores, mas paradoxalmente são capazes de desenvolver essa habilidade porque sua memória é pobre. Isto acontece devido aos problemas de memória imediata que é prejudicada para as tarefas diárias, e por conta deste fato, alguns adultos procuram caminhos efetivos para desenvolvê-la. É o que aponta o relato do sujeito a seguir:

"[...] Eu tinha sonhos, sabe? Sempre sonho e sempre procurando novidade..."

Para os autores citados acima, o diagnóstico para um adulto pode ser uma experiência privilegiada, pois ele ficará aliviado porque seu problema de há longo tempo será "nomeado", e consequentemente, indicará o caminho a percorrer, proporcionando-lhe confiança e entendimento do seu problema, pois é o que demonstra o sujeito em estudo quando diz:

"[...] Sempre fui alegre e hoje to melhor ainda porque já descobri, né o que era o problema; tô bem já, lendo bem, se entendeu? [...] não pode deixar se levar pela dislexia..."

Com a descoberta e o tratamento (fez acompanhamento fonoaudiológico por algum tempo), o sujeito passou a ter uma vida menos dolorosa, livre de preconceitos (rótulo) e imposições, pois agora ele sabe como lidar com as dificuldades apresentadas pela dislexia e todo sofrimento enfrentado por ele foi identificado e nomeado 'dislexia'. Isto ocasionou uma sensação de alívio e liberdade, é o que demonstra quando diz:

"[...] Para mim foi uma vitória porque era uma coisa que eu procurava assim... desde moço, né, desde a escola. Por que os meus amigos tudo é... pega um papel e lê, [...] e eu não consigo ler?"

O próprio sujeito confirmou que o tratamento surtiu resultado e que hoje consegue ler e escrever, se for o caso, embora ele esteja ciente de que não vai ficar 100% curado, mas se sente feliz e realizado diante do problema. Demonstrando isto em seu relato a seguir:

"[...] Hoje até se precisa até escrevo. Hoje, tô bem melhor mesmo; tô bem contente..."

Por isso que, para Zorzi8; a dislexia tem sido vista como uma deficiência de caráter linguístico e deve ser abordada terapeuticamente com a finalidade de desenvolver habilidades de linguagem, principalmente aquelas ligadas ao processamento fonológico.

Capovilla e Capovilla15 citam a importância do processamento fonológico para a aquisição de leitura e escrita. E, de acordo com estes autores, as melhores medidas para se adquirir consciência fonológica são as tarefas que requerem a manipulação de segmentos no nível fonêmico. Tais tarefas incluem habilidades de identificar, isolar, contar, adicionar, subtrair e combinar fonemas. Além dessas habilidades fonológicas, há também outras variáveis que são igualmente importantes para tal aquisição, como o nível socioeconômico, a escolaridade dos pais e o tipo de escola que o indivíduo está sendo submetido.

Com base em tudo que foi abordado neste trabalho e de acordo com as inúmeras dificuldades enfrentadas, o sujeito demonstrou que tinha potencial como qualquer outra pessoa, pois mesmo não tendo habilidade com a leitura e escrita não se mostrou indiferente a essas dificuldades e aos aspectos emocionais aqui levantados e observados durante o seu relato. O sujeito não permitiu que a dislexia o abatesse e partiu para a conquista dos seus sonhos, mas sem se descuidar do tratamento, o que colaborou para o entendimento do seu problema, proporcionando meios para vencer os obstáculos, quanto para que alcançasse sucesso profissional.

Isto ficou evidente quando ele, satisfeito, disse:

"[...] minha empresa... [...] eu comecei do nada... [...] Isso foi uma grande vitória, foi uma grande batalha de suor mesmo, meu pai não deixou herança..."

Para finalizar, fica claro que o diagnóstico e o tratamento adequado, profissionais qualificados, o apoio, a dedicação dos familiares e a colaboração dos que estão a sua volta, pode fazer com que o disléxico supere suas dificuldades.

Deste modo, elevando a sua auto-estima e confiança a ponto de sentir prazer em lutar pelos seus objetivos e atingi-los, assim como mostra a grande satisfação do sujeito quando relata que é um vitorioso e que uma pessoa disléxica pode, apesar das dificuldades, ter o devido reconhecimento e ser visto com respeito e admiração.

 

O DISLÉXICO NO PROCESSO DE INCLUSÃO

Baseando-se no que foi exposto e observado neste trabalho é importante levantar alguns aspectos sobre os direitos das pessoas com deficiência, uma vez que a dislexia, dentro dos inúmeros obstáculos apresentados por ela, também pode ser considerada um caso de inclusão, isto é, considerando que este indivíduo não se desenvolverá intelectualmente da forma convencional, ou seja, da maneira como é aplicada na escola.

Portanto de acordo com o Decreto Federal nº 3298, publicado em 20 de dezembro de 1999, que regulamenta a Lei nº 7853, de 24 de outubro de 1989, dispõe sobre a Política Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência e consolida as normas de proteção.

De acordo com Oliveira16; é importante citar as definições do que é deficiência, a qual é classificada como: "toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gera incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano", também há a deficiência permanente que é "aquela que ocorreu ou se estabilizou durante o período de tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que se altere, apesar de novos tratamentos". Estas definições foram estabelecidas pelo Decreto nº 3298/99, em seu art. 3º.

Considerando o fato de que a dislexia afeta a capacidade de leitura, uma vez que este é um instrumento cultural que dá acesso a outros conhecimentos e desenvolvimento de outras capacidades, na maioria dos casos, pode causar prejuízos, não só no plano afetivo, mas, consequentemente, ocasionando exclusão social.

Neste sentido, fica evidente considerar a dislexia como um caso de inclusão, pois este é um distúrbio persistente, o qual deve ser tratado cuidadosamente e, consequentemente, compreendido e aceito pela sociedade.

Masini17; quanto ao processo de integração, relata no artigo 2º, que "a educação é direito de todos..." e, no artigo 88, que "a educação de excepcionais deve, no que for possível, enquadrar-se no sistema geral de educação, a fim de integrá-los na comunidade". Fato estabelecido de acordo com a Lei Federal 4.024/61, que firmou as bases da Educação Nacional.

Com base neste pressuposto, os disléxicos também devem ter o direito assegurado de serem recebidos por profissionais capacitados da escola ou por especialistas de outras áreas, uma vez que a dislexia deve ser acompanhada ou descoberta por uma equipe multidisciplinar, que os acolham com objetivo de propiciarem sua integração social.

Masini17 relata que grande parte dos problemas de deficiência encontrados na escolarização formal não se dá somente nas capacidades linguísticas e psíquicas gerais do aluno, mas se somam a um ato mecânico e simplificador da linguagem.

Sendo assim, segundo Oliveira16; a inclusão social significa permitir que as pessoas com qualquer deficiência se tornem participantes da vida social, econômica e política, e desse modo assegurar o respeito aos direitos no âmbito da Sociedade e pelo Estado, pelo poder público.

 

CONCLUSÃO

Com base no assunto e pesquisa abordados neste trabalho, a dislexia afeta a capacidade de leitura. Uma vez que este é um instrumento cultural de extrema importância social, pois dá acesso a outros conhecimentos historicamente construídos e ao desenvolvimento de outras capacidades, tais dificuldades podem causar nítidos problemas, tanto no plano afetivo quanto social.

No decorrer do trabalho e também de acordo com a literatura, observou-se claramente a importância do diagnóstico preciso e eficaz da dislexia para se obter uma intervenção e acompanhamento ajustado a cada caso e para se prevenir que se instalem dificuldades de ordem emocional no sujeito disléxico.

Outro aspecto importante é o indivíduo ter conhecimento a respeito do que está acontecendo consigo, pois quando se tem conhecimento da dislexia pode-se iniciar um acompanhamento adequado, principalmente, quando se é criança. Pode-se dizer, também, que quando este processo não é realizado, os prejuízos emocionais, sociais e profissionais podem se tornar cada vez mais graves, levando-os à depressão, ansiedade, baixa auto-estima, ou até mesmo, às drogas e ao álcool.

Estes sentimentos precisam ser encarados pelos disléxicos e pelos que estão a sua volta, pois sentimentos de frustração e fracasso surgem como desafios diários na vida destes indivíduos, sejam eles sociais ou acadêmicos.

Porém, como mostra o sujeito em estudo, muitos disléxicos podem desenvolver mecanismos bem-sucedidos para manter a auto-estima, e isto pode ocorrer mesmo estando diante da insistência das dificuldades. No caso do sujeito estudado, o fato de ele ter enveredado por uma escolha profissional que não dependia expressamente das habilidades de escrita e leitura, parece ter feito toda a diferença.

Daí a importância de pais e professores estarem atentos para o reconhecimento ou identificação da dislexia, pois conforme diz Frank10; citado nesta pesquisa, os lados emocional e cognitivo da dislexia estão sempre entrelaçados e, nem sempre, é possível fazer uma escolha profissional tão feliz, como a do sujeito deste estudo.

Baseando-se nos pressupostos levantados nesta pesquisa, também fica evidente a importância do apoio, da compreensão, da paciência e da dedicação das pessoas que o cercam, pois o disléxico pode se sentir incompetente ou menos inteligente que os demais. Superar esse sentimento parece ser um desafio para a vida toda.

A auto-estima é parte fundamental para tornar o disléxico confiante, pois quando ele acredita na sua capacidade, a chance de alcançar o êxito diante das dificuldades é maior. Isto pode ser observado no relato do sujeito em estudo, o qual, apesar de todas as dificuldades, mesmo apresentando limitações acadêmicas, conseguiu se sobressair e alcançar o sucesso desejado, não só na profissão, mas também na vida pessoal e relação social.

Contudo, os disléxicos podem apresentar comportamento agressivo, o qual nada mais é que um mecanismo de defesa contra a percepção de suas dificuldades. A dislexia os 'torna' agressivos devido à pressão emocional por eles vivenciada, mas quando as qualidades positivas são colocadas em evidência, pode livrá-los de confusão ou de algum constrangimento indesejado.

Sendo assim, de acordo com todos os aspectos levantados neste trabalho, é preciso deixar que outros potenciais do disléxico tornem-se evidentes para ele e para os que o cercam. E neste processo a informação é essencial. Quando se sabe a respeito da dislexia e se realiza o acompanhamento adequado com especialistas, dando respaldo à família e à escola, pode-se alcançar os resultados desejados. Cientes do problema, além do esclarecimento de muitas dúvidas e perturbações, pode-se prepará-los para direcionar seus esforços e levando-os assim ao fortalecimento e à compensação das deficiências da pessoa disléxica.

Em suma, pode-se concluir que os disléxicos, apesar de suas dificuldades de leitura/escrita, são pessoas que, como muitas outras com necessidades educacionais especiais, possuem criatividade, alegria e espontaneidade, sem contar que eles podem ser ótimos estrategistas em determinadas situações, como mostra o sujeito em estudo aqui, que, hoje, consegue lidar com diversas situações apresentadas pela dislexia, e com isto conquistou o lugar desejado e esperado por ele, tornando-se, portanto, um vitorioso diante da dislexia.

 

REFERÊNCIAS

1. ABD - Associação Brasileira de Dislexia. Disponível em http//www.dislexia.org.br. Acesso em novembro de 2007.

2. Snowling MJ. Dislexia. São Paulo: Santos; 2004.

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4. Ferreira VJA. O que todo professor precisa saber sobre neurologia. São José dos Campos:Pulso Editorial;2005.

5. Snowling MJ, Stackhouse J. Dislexia, fala e linguagem: um manual do profissional. São Paulo:Artmed;2004.

6. Ciasca SM, Capellini SA, Tonelotto JMF. Distúrbios específicos de aprendizagem. In: Ciasca SM, org. Distúrbios de aprendizagem: proposta de avaliação interdisciplinar. São Paulo:Casa do Psicólogo;2004.

7. Valle ELR, Valle, MR. Dislexia: compreensão do distúrbio de leitura e escrita. In: Valle ELR, Ed. Neuropsicologia & aprendizagem, para viver melhor. SBNp Sociedade Brasileira de Neuropsicologia. Ribeirão Preto:Tecmedd; 2005.

8. Zorzi JL. Dislexia: distúrbios da leitura-escrita. In: Markesan et al., orgs. Tópicos em fonoaudiologia. São Paulo:Lovise;1996. p.181-94.

9. Minervino CAM. Identificação de sinais disléxicos em pré-escolares: percepção do professor. Temas sobre Desenvolvimento. 2002;11(62):33-42.

10. Frank R. A vida secreta da criança com dislexia. São Paulo: M. Books do Brasil;2003.

11. Selikowitz M. Dislexia e outras dificuldades de aprendizagem. Rio de Janeiro: Revinter;2001.

12. Alvarez AMMA, Caetano AL, Roman R. Diagnóstico e reabilitação da dislexia: uma visão neuropsicológica. Revista CEFAC. 1999;1(2):96-106.

13. Franchi EP. Pedagogia da alfabetização: da oralidade à escrita. São Paulo: Cortez;1999.

14. Ianhez ME, Nico MA. Nem sempre é o que parece: como enfrentar a dislexia e os fracassos escolares. São Paulo: Alegro;2002.

15. Capovilla AGS, Capovilla FC. Problemas de leitura e escrita: como identificar, prevenir e remediar numa abordagem fônica. São Paulo: Mennon;2004.

16. Oliveira CAS. Os direitos das pessoas portadoras de deficiência. In: Cidadania & Inclusão. Brasília: Ministério da Justiça;2001. 47p.

17. Masini EFS. Quais as expectativas com relação à inclusão escolar do ponto de vista do educador? Temas sobre Desenvolvimento. 1999;7(42):52-4.

 

 

Correspondência:
Sueli Cristina de Pauli Teixeira
Rua 1, casa 15, Condomínio Bosque das Colinas - Royal Park
Bonfim Paulista, SP - CEP 14110-000
E-mail: scpauli@ig.com.br

Artigo recebido: 3/2/2010
Aprovado: 15/5/2010

 

 

Trabalho realizado no Centro Universitário Barão de Mauá, Pós-Graduação (Lato Sensu) em Psicopedagogia Clínica e Institucional, Mauá, RJ.