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Revista Brasileira de Psicodrama

versão impressa ISSN 0104-5393

Rev. bras. psicodrama vol.17 no.1 São Paulo  2009

 

NOTA BIO-BIBLIOGRÁFICA

 

 

Pierre Weil e o psicodrama no Brasil

 

Venina Metaxa Kladi*

UNICEUB-DF- Centro Universitário de Brasília

Endereço para correspondência

 

 

"É para nós também um prazer e um dever apoiar o movimento
psicodramatista lançado pelo professor Pierre Weil e seus colaboradores
nos meios universitários e educacionais de Belo Horizonte.
Se, como acabamos de o mostrar, o terreno psico-sociológico era
favorável, só uma formação científica como a de Pierre Weil poderia
assegurar o sucesso de tal empreendimento."
(J. L. Moreno no Prefácio do livro de Pierre Weil, Psicodrama, editado pelo CEPA em 1978)

 

É desafiador falar sobre a vida e obra de Pierre Weil em poucas linhas. Um ser humano que, aos dezessete anos, considerava ser sua pátria não somente a França, onde nasceu em 1924, mas a própria Terra. Filho de mãe alsaciana e católica que se converteu ao judaísmo para casar com o pai, que era judeu, conviveu com a diversidade dentro da própria família, aprendendo francês e hebraico e convivendo com a cultura judaica e cristã. Quando criança brincava de marionetes, criava e apresentava peças teatrais, o que considerou seu embrião do psicodrama. Quando foi escoteiro já utilizava jogos para desenvolver aptidões.

Vivenciou a invasão da França pelos alemães, e como chefe de escoteiro, auxiliou na fuga dos judeus.

Aprendeu teoria psicanalítica e a aplicar o teste de Binet Simon com uma aluna de Bleuler. Foi aluno de André Rey e Jean Piaget e lecionou Psicologia Educacional. Veio para o Brasil em 1948 a convite do seu professor Leon Walther, especialista em Psicologia Industrial. Veio para ficar três meses, no entanto aqui ficou até sua morte, em 10.10.2008. Adotou o Brasil como sua terra. Lecionou no curso de Formação de Orientadores Vocacionais do Senac no Rio de Janeiro e contribuiu para organização de serviços de orientação educacional em vários estados do Brasil. Criou instrumentos para medir a emotividade e pesquisar o potencial intelectual.

Foi o primeiro a difundir o psicodrama no Brasil, utilizando-o como método e referência teórica, abrindo as portas para que fosse conhecido e reconhecido além do universo clínico não só na teoria, mas também na prática do universo empresarial.

Em 1955 realizou suas primeiras experiências de psicodrama, aplicando- o no treinamento do Senac no Rio de Janeiro, no qual foi posterior mente Diretor da Divisão de Ensino. Lecionou Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Organizou o departamento de desenvolvimento de pessoas do Banco da Lavoura, hoje ABN AMro Bank onde, durante dez anos, organizou sistemas de recrutamento, seleção e treinamento de executivos e gerentes.

Organizou o consultório psicopedagógico do Instituto Pestalozzi no Rio de Janeiro, a convite da professora Helena Antipoff, onde foi o chefe consultor psicopedagógico de 1949 a 1958.

Colaborou como redator da lei que regulamentou o curso de Psicologia no Rio de Janeiro, quando deu sua contribuição para a criação da profissão de psicólogo.

Lecionou no primeiro curso de Psicologia na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais, onde foi registrada a 1ª. aula de psicodrama em universidades no país.

Foi responsável pela mudança do termo "psicotécnica" para "psicologia aplicada".

Participou de um psicodrama dirigido por Anne Ancelin Schutzenberger em Paris, por volta de 1960, quando vivenciou algo muito profundo que Anne chamou de encontro existencial. Pierre assim descobriu a dimensão transpessoal, que deu início a um novo caminho e à mudança progressiva de valores, gostos e comportamentos.

Criou, em 1966, um novo tipo de Psicodrama, o Psicodrama da Esfinge, que foi apresentado no Congresso de psicodrama de Barcelona no mesmo ano. Anne Ancelin, encantada com o método, aconselhou-o a apresentar o trabalho na Universidade de Paris, onde recebeu a menção honrosa no título de Doutor em Psicologia. No mesmo ano, com Anne Ancelin, realizou seminários de formação em psicodrama triádico na Fazenda do Rosário, em Belo Horizonte-MG.

Pierre, que já havia encontrado Moreno e Zerka num workshop em Milão, ao estar em Nova York, aproveitou para ir a Beacon participar de mais um workshop de psicodrama. Foi muito bem recebido por Zerka, e no encontro com Moreno, aproveitou para beber diretamente da fonte do pai do psicodrama.

Cabe a Pierre o mérito da publicação do primeiro livro de psicodrama no Brasil, Psicodrama, com um prefácio feito por Moreno em 1967. Divulgou assim a teoria moreniana em nosso país, o que possibilitou que estudantes e profissionais brasileiros pudessem ter uma referência bibliográfica em português. Ainda em 1967, publicou nos Arquivos Brasileiros de Psicotécnica, Vol. I, O profissiodrama ou psicodrama de antecipação em orientação vocacional, primeiro artigo sobre o assunto publicado no Brasil.

Fundou em 1970, com Anne Ancelin, em Belo Horizonte, a Sociedade Brasileira de Psicanálise-Sobrap, que foi a primeira entidade de psicodrama no Brasil. Em 1971 publicou o livro Relações humanas na família e no trabalho, considerado como um best-seller pela Editora Vozes.

Em 1973 foi publicado, pela Editora Vozes, o livro de Pierre, Esfinge: estrutura e mistério do homem.

Em 1974 Pierre fez a apresentação da tradução do livro de Moreno Psicoterapia de grupo e psicodrama.

O livro A Consciência Cósmica foi publicado pela Editora Vozes em 1976. Também em 1976 a Editora Interlivros publicou o livro Psicodrama Triádico, escrito em parceira com Anne Ancelin Schutzenberger.

No ano de 1979, nos arredores de Boston, Pierre ministrou um cosmodrama a convite de um grupo de psicólogos e fez a primeira demonstração de cosmodrama em Esalen, Califórnia, que, segundo ele, foi inspirado em Moreno.

Em 1986, a Editora Vozes publicou o livro escrito por Pierre e Roland Tompakow, O corpo fala.

Nessas breves linhas pretendi apresentar e demonstrar o justo reconhecimento da contribuição de Pierre Weil como primeiro pilar na construção e sustentação da história do psicodrama brasileiro. Essa história continua nas mãos dos psicodramatistas em busca de espontaneidade e criatividade, de respostas adequadas para situações antigas e novas, a fim de modificar as conservas e dar continuidade à busca de Moreno "a cura do universo através da cura do homem em suas relações".

Faço o meu agradecimento ao mestre Pierre Weil por oportunizar o meu contato com ele e com seu trabalho, contato esse que propiciou o despertar da minha jornada em busca da transformação.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MORENO, J.L. Psicoterapia de grupo e psicodrama. São Paulo: Mestre Jou, 1974.

SCHUTZENBERGER, A. A. e WEIL, P. Psicodrama triádico. Belo Horizonte: Interlivros, 1977.

_____________________________. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1975.

WEIL, P. Esfinge: estrutura e mistério do homem. Petrópolis: Vozes: 1973.

______. A consciência cósmica. Petrópolis: Vozes, 1978.

______. Psicodrama. Rio de Janeiro: Cepa, 1978.

______. A revolução silenciosa. São Paulo: Pensamento-Cultix, 1983.

______. Relações humanas na família e no trabalho. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.

WEIL, P. e TOMPAKOW R. O corpo fala. Petrópolis: Vozes, 1986.

 

OBRAS CONSULTADAS

WEIL, P. Lágrimas de compaixão. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2001.

______. A entrega. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2008.

www.pierreweil.pro.br

 

 

Endereço para correspondência
Condomínio Ville de Montagne Q. 32 Casa 52 Lago Sul
Brasília - DF
e-mail: veninakladi@gmail.com

 

 

 

1 Psicóloga (UNICEUB-DF) e psicodramatista (ABP-Associação Brasiliense de Psicodrama e Sociodrama)