INTRODUÇÃO
Trabalhar temáticas sobre fragilidades humanas na escola é uma demanda identificada pela equipe pedagógica, que percebe seus impactos no rendimento escolar e nas relações interpessoais. A escola, com sua diversidade de alunos, torna-se um cenário onde emergem múltiplas demandas (Silva & Ferreira, 2014).
O trabalho com adolescentes destaca que eles vivenciam emoções intensas e conflitos que fazem parte de seu desenvolvimento e oferece oportunidades de superação, ressaltando a importância de cuidar da saúde estudantil (Campos, 2012).
Assim, o objetivo geral deste trabalho foi fomentar um ambiente de prevenção e promoção da saúde mental por meio do sociodrama. Foram promovidos grupos para discussão e atividades sobre temas como ansiedade, abuso sexual e rede de apoio. A intervenção utilizou recursos estéticos para facilitar os encontros, promover vivências e reforçar conceitos de enfrentamento. Selecionados por dificuldades de interação ou demonstração de interesse, os alunos participaram de ações que contribuíram para a formação ético-política, engajamento social e identificação de condições que facilitam a aprendizagem.
REFERENCIAL TEÓRICO
Entre as demandas identificadas na escola, destacam-se temáticas como ansiedade, abuso sexual e proteção ao suicídio, questões que impactam diretamente os adolescentes. Segundo Teles (2018, p. 15), no contexto da ansiedade, “o transtorno ocorre quando o sistema desregula, gerando respostas físicas e emocionais desproporcionais em relação ao risco”. O abuso sexual refere-se a atitudes que envolvem ou não o contato físico, como a manipulação de genitais e o exibicionismo, em que as vítimas são seduzidas a ações que parecem agradáveis, mas que se caracterizam como violência sexual contra a criança ou o adolescente (Marra, 2016). No Brasil, o suicídio é a principal causa de morte entre meninas e a terceira entre meninos de 15 a 19 anos, exigindo atenção redobrada (Aragão & Mascarenhas, 2022).
As intervenções seguiram a teoria socionômica de Moreno, que considera o ser humano como essencialmente social. socionomia estuda as leis que regem o comportamento social e grupal, valorizando a inter-relação como eixo fundamental (Gonçalves et al., 1988). Segundo Mühlenberg (1999, p. 100), o psicodrama é “um instrumento de ação e um método educacional que enfatiza o trabalho em grupo através da ação”.
O sociodrama, ao abordar temas por meio da ação, promove reflexões e diálogos transformadores, evidenciando o grupo como protagonista das intervenções (Nery et al., 2006). Este trabalho avaliou a aplicação desses elementos e a importância da interação verbal na teoria da ação de Moreno.
METODOLOGIA
Este estudo consiste em uma pesquisa qualitativa, por tratar do sujeito e das relações deste com o meio. Teve como método o relato de experiência. Foram observados os aspectos éticos para garantir a confiabilidade, e, conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, foi feito e assinado um termo de consentimento livre e esclarecido autorizando a utilização do processo para fins científicos e assegurando o sigilo.
A escola em que ocorreu a experiência era uma escola pública de ensino médio em tempo integral situada na periferia de Fortaleza (CE), em território de alta vulnerabilidade social, que atende a mais de 900 estudantes nas modalidades diurna e noturna. O grupo do estudo, composto de 12 adolescentes (15 a 17 anos), a maioria do sexo masculino, participou de seis encontros semanais, com duração de três horas e meia cada um, na sala de vídeo da escola, com média de nove presentes por encontro. Cada encontro foi preparado previamente, incluindo a definição dos temas e dos papéis dos dois facilitadores da psicologia.
A socionomia (Gonçalves et al., 1988) orientou as funções do diretor, responsável por promover o aquecimento e estimular a criatividade do grupo, e do ego auxiliar, que oferecia suporte e apoio às atividades. Utilizaram-se recursos lúdicos e estéticos (músicas, desenhos, argila e vídeos) para envolver os participantes e abordar as temáticas de forma reflexiva e interativa.
ANÁLISE E INTERVENÇÕES
Após apresentar a proposta e visitar a escola, mapearam-se a realidade local, os contextos e as demandas observadas pela direção. Firmou-se um acordo para o funcionamento do grupo, com foco em discutir temas trazidos pelos participantes.
Foram desenvolvidas seis propostas ao longo de seis semanas:
Palco das sensações;
Conversa criativa sobre abuso sexual;
Rede de apoio em cena;
Exposição: o que mais importa?;
Criando com a ansiedade;
Teatro espontâneo (encerramento).
Cada encontro seguiu a estrutura do sociodrama, permitindo que os participantes vivenciassem de forma prática as temáticas por meio de recursos lúdicos e criativos.
Os elementos do método sociodramático incluem o diretor, que conduz o processo; o ego auxiliar, que oferece suporte ao grupo; o protagonista, que corporifica o tema central, aglutinando em si elementos do grupo; e a plateia, composta dos membros do grupo, que interagem com as vivências (Nery et al., 2006).
As fases do sociodrama incluem o aquecimento, a dramatização e o compartilhamento, proporcionando um ambiente seguro para expressão, reflexão e diálogo. A técnica do solilóquio foi fundamental para que os participantes externalizassem o que sentiam durante as vivências, promovendo maior engajamento e conexão com o grupo. Na técnica do solilóquio, a pessoa expressa em voz alta seus sentimentos e pensamentos (Monteiro, 1998).
Palco das sensações
É bastante conhecida a dinâmica em que cada participante caminha de olhos vendados, sendo guiado por outro. Acrescentou-se aqui que, ao terminar a trilha e sair da sala, o participante expressasse artisticamente (texto, desenho, poesia, letra de música etc.) como se sentira durante a trilha. Posteriormente, todos foram convidados a retornarem à sala para o compartilhamento da vivência. Eles foram apresentados a vários objetos, com a consigna de que deveriam escolher um que representasse sua sensação de terem finalizado a vivência.
Além da presença de elementos e recursos estéticos sensíveis, proporcionando a experiência subjetiva de contato consigo mesmo por meio dos sentidos, as novidades aqui foram a autoapresentação usando um objeto e o solilóquio dos participantes enquanto se expressavam. Assim, promoveram-se uma maior percepção de si e do outro, em uma dinâmica de autoconhecimento, e a ajuda a si e ao outro, maximizada pelo compartilhamento com elementos concretos. A combinação desses recursos permitiu estimular o grupo à ajuda recíproca, ao compartilhamento da experiência, evidenciando-se as diferenças individuais no modo de vivenciá-la e provendo maior complementaridade entre os participantes.
Conversa criativa sobre abuso sexual
Marra (2016) constata que o cenário do abuso sexual é bem amplo e devastador emocionalmente:
O abuso sexual abarca tanto o contato físico, como a manipulação de genitais e intercurso sexual, quanto situações de exibicionismo e voyeurismo, em que não há contato físico direto. [...] As vítimas são seduzidas e envolvidas em ações que lhes parecem agradáveis, aceitando o afeto recebido do agressor. [...] As atitudes variam de um simples carinho e estranhas expressões de afeto a exibição de filmes pornográficos e intercurso sexual completo, independentemente da idade da criança
A conversa sobre abuso sexual foi introduzida ao grupo por meio de uma dinâmica de narrativas. Os participantes receberam pedaços de papel contendo trechos de histórias de crianças/adolescentes que sofreram abuso sexual que precisavam ser reorganizados para ter sentido. Após a leitura, emoções e sentimentos foram nomeados, o que evidenciou diferentes reações e abriu espaço para uma conversa sobre o tema.
A dinâmica promoveu reflexão e diálogo, permitindo que os participantes utilizassem seus recursos internos, como destaca Marra (2016, p. 63):
As competências relacionais exercitadas em uma conversação permitem à pessoa utilizar seus recursos internos, isto é, sua capacidade de refletir sobre o vivido, no intento de dissolver os nós relacionais presentes na interação. Cria-se um contexto para o reconhecimento e a legitimação das experiências daqueles que vivem os problemas.
Em seguida, realizou-se uma oficina de criação de cordel. Os participantes elaboraram cartões expressando pensamentos em formato de cordel, desenhos, poesias ou frases. Após o compartilhamento das produções, conceitos sobre abuso sexual foram apresentados, e depois houve outro momento de troca sobre o vivenciado durante a atividade. O psicodrama destacou-se ao enfatizar uma narrativa como a história de um protagonista específico, permitindo aos participantes interagir com essa história e complementá-la. Técnicas como o solilóquio e a concretização, com a consigna “seja o seu cordel”, contribuíram para o engajamento e a reflexão.
Rede de apoio em cena
Na terceira atividade, os participantes foram orientados a se movimentar pela sala enquanto ouviam música. Em seguida, foram convidados a parar e permanecer estáticos, de costas para o grupo ou com os olhos fechados. Nesse momento, o diretor solicitou palavras que simbolizassem rede de apoio, as quais foram escritas pelo ego auxiliar na lousa.
Em seguida, os participantes retomaram o movimento. Ao parar novamente, foram organizados em círculo e incentivados a criar uma figura coletiva com o corpo, simbolizando as palavras escolhidas. Cada participante fez movimentos corporais que representavam a palavra escolhida, colaborando na formação da figura.
A atividade foi concluída com exercícios de relaxamento, como alongamentos e massagem recíproca, enfatizando o respeito ao tempo e ao espaço do outro. Ao final, os participantes compartilharam sentimentos relacionados ao toque, à ajuda e ao relaxamento.
Pinto (2020) e Ramos (2020) descrevem o contexto do psicodrama pedagógico como uma oportunidade de conhecer o que o grupo sabe sobre determinado assunto, utilizando um ambiente seguro para vivenciar a temática de forma lúdica. Saeki et al. (2002, p. 90) complementam:
O psicodrama pedagógico que envolve aprendizagem diferente da tradicional enfatiza o trabalho em grupo através da ação, resgata o sentido lúdico e pedagógico da comunicação, facilitando a expressão e o entendimento das ideias. Desse modo, propicia a exteriorização de problemas e dificuldades imaginadas, permitindo sua exploração e entendimento vivencial.
Exposição: o que mais importa?
A vivência iniciou-se com os participantes caminhando em uma sala aromatizada, com música de fundo e gravuras que representavam modos de viver ou lembranças agradáveis. Durante a atividade, eles liam a pergunta “O que pode ser feito em 40 segundos?”, inspirada pela pesquisa da Organização Mundial da Saúde que aponta que, a cada 40 segundos, alguém comete suicídio. O número de suicídios no mundo aumentou 60% nos últimos anos, com as tentativas sendo de quatro a 40 vezes mais numerosas (Marcolan, 2018).
Os participantes escreveram em post-its sugestões sobre o que poderia ser dito ou feito em 40 segundos para promover vida e colocaram esses post-its nas imagens. Posteriormente, foi exibido um vídeo com reflexões sobre ações de promoção da vida, seguido de um momento de compartilhamento.
Elementos como as imagens, luzes e cheiros funcionaram como aquecimento. Na colocação dos post-its, o solilóquio permitiu o reconhecimento Eu-Tu, levando os participantes a identificarem integrantes mais reservados em vivências anteriores, despertando narrativas espontâneas. O sentimento de pertencimento ao grupo foi intensificado, assim como a conexão afetiva, evidenciada pela inclusão espontânea nesse grupo do diretor e do ego auxiliar por parte dos estudantes.
Criando com a ansiedade
Segundo Teles (2018, p. 13), “quando falamos de ansiedade, estamos pensando em um conjunto de emoções e reações corporais que antecedem o novo, o desafio ou uma experiência de alguma forma arriscada ou estressante”. Dessa maneira, a argila foi pensada como recurso para trabalhar a temática da ansiedade, em três momentos.
No primeiro momento, os participantes produziram espontaneamente suas criações e apresentaram-nas ao grupo. Depois, criaram algo na argila que representasse a ansiedade, respondendo à consigna: “Se a ansiedade tivesse um formato, qual seria?”. Por fim, produziram algo de que gostavam, que os motivasse ou fizesse sentido como algo bom. Seguiu-se um compartilhamento sobre a experiência, respondendo à pergunta sobre como estavam depois de terem participado do grupo.
Percebeu-se o investimento na relação entre criador e criação quando se utilizaram o manuseio da argila, a criação concreta e a abertura, pelo solilóquio, de conteúdos psicodramáticos internos que, ao serem partilhados, promoveram um encontro solidário em relação às vivências narradas.
Teatro espontâneo e encerramento
Na última atividade, ao chegarem à sala, os participantes visualizaram várias roupas e uniformes dispostos como em um camarim de teatro. Eles foram convidados a observarem as peças e usá-las da forma como lhes fosse agradável. Conforme as vestimentas e as personagens caracterizadas, formaram grupos e, espontaneamente, representaram papéis, complementando uns aos outros, em um teatro espontâneo.
O teatro é uma modalidade que se aproxima do psicodrama, caracterizando-se por não ter roteiro prévio nem ensaio e por promover a participação ativa dos envolvidos na criação das cenas (Blanco et al., 2021). Os participantes compartilham emoções, histórias reais, fantasias e sonhos, que são representados de forma livre, em um ambiente que valoriza o respeito, a diversidade e a construção coletiva. Segundo Blanco et al. (2021), o teatro espontâneo incorpora elementos de educação popular e tem sido utilizado como instrumento para fortalecer vínculos intergeracionais e sociais, atuando em contextos com potencial para transformações sociais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em cada encontro, foi proporcionada aos facilitadores (diretor e ego auxiliar) uma melhor compreensão da proposta grupal de Moreno, fosse pela importância da espontaneidade e da criatividade, fosse pela complementaridade de papéis, o que se evidenciou constantemente nas relações em jogo.
A cada semana em que era trabalhada uma temática por meio do sociodrama, foi possível observar a forma como os adolescentes se expressavam ao abordar as temáticas, além da construção dos vínculos estabelecidos. Os efeitos da experiência foram percebidos por diferentes segmentos da comunidade escolar: professores, coordenação e alunos. Os próprios alunos relataram mudanças significativas nas relações interpessoais e no clima institucional. Esse retorno foi compartilhado de maneira espontânea, ressaltando a importância do sociodrama como facilitador da fala sobre temáticas sensíveis e da construção de relações de apoio mútuo.
Após a última atividade, o grupo avaliou o trabalho grupal realizado, identificando como todos se sentiam ao final do processo. Afirmaram que o grupo tinha servido para a aproximação das relações entre eles mesmos, gerando maior segurança para falar e se expressar, e maior senso de aceitação, reconhecendo os laços construídos como uma rede de apoio nítida.
O método (sociodrama) proposto por Moreno imprimiu à experiência de condução de grupo na escola um caráter de clareza, objetividade e profundidade, permitindo um diálogo contínuo sobre o contexto escolar e questões referentes às fragilidades humanas. Isso proporcionou o desenvolvimento inter-relacional do grupo, ressaltando, de forma lúdica e criativa, elementos subjetivos em um contexto intersubjetivo. A teoria e a prática da socionomia se tornaram evidentes na promoção da saúde e na construção de um ambiente seguro de diálogo, com destaque ao respeito mútuo e à possibilidade de falar sobre temáticas que ainda são consideradas tabus.














