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Revista Brasileira de Psicodrama

versão impressa ISSN 0104-5393versão On-line ISSN 2318-0498

Rev. Bras. Psicodrama vol.33  São Paulo  2025  Epub 14-Nov-2025

https://doi.org/10.1590/psicodrama.v33.753 

DOSSIÊ | PRÁTICAS ANTIRRACISTAS EM PROCESSOS GRUPAIS

Apresentação

Presentation

Presentación

Oriana Holsbach Hadler, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita, Aprovação final1  * 
http://orcid.org/0000-0001-9736-2224

Aline Pompeu Silveira, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita, Aprovação final2 
http://orcid.org/0000-0003-1892-6090

Daniel Russell Oliveira, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita, Aprovação final3  9 
http://orcid.org/0009-0006-6759-9646

Érico Douglas Vieira, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita, Aprovação final4 
http://orcid.org/0000-0002-9845-2245

Gabriela Pereira Vidal, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita, Aprovação final5  9 
http://orcid.org/0000-0003-4382-0845

Marília Meneghetti Bruhn, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita, Aprovação final6 
http://orcid.org/0000-0002-7078-1530

Melissa Oliver Vidal, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Aprovação final7 
http://orcid.org/0000-0002-1960-5478

David Ordaz Bulos, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Aprovação final8 
http://orcid.org/0009-0001-7046-0008

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Psicologia, Serviço Social, Saúde e Comunicação Humana – Departamento de Psicologia Social e Institucional – Porto Alegre (RS), Brasil.

2Profissionais Integrados Ltda – Aracaju (SE), Brasil.

3Escola Superior de Artes Célia Helena – Programa de Pós-Graduação Profissional em Artes da Cena – São Paulo (SP), Brasil.

4Universidade Federal de Jataí – Jataí (GO), Brasil.

5Universidade Federal de Santa Catarina – Programa de Pós-Graduação em Psicologia – Florianópolis (SC), Brasil.

6Universidade Tiradentes – Aracajú (SE), Brasil.

7Instituto Rio-Pretense de Psicodrama – Departamento de Ensino – São José do Rio Preto (SP), Brasil.

8Universidad de las Américas Puebla – San Andrés Cholula, Puebla, México.

9Viver Mais Psicologia – Tubarão (SC), Brasil.


Enquanto os leões não tiverem os seus próprios historiadores, a história da caçada glorificará sempre o caçador.

Chinua Achebe.

Esta série de publicações tem como objetivo explorar e disseminar experiências, abordagens singulares e reflexões sobre práticas antirracistas em intervenções grupais, destacando o potencial transformador do psicodrama e de metodologias afins na luta contra o racismo.

Tendo como inspiração o legado de Alberto Guerreiro Ramos, pioneiro do psicodrama no Brasil e na integração de questões sociais e raciais em processos grupais, este dossiê busca destacar como o psicodrama e as demais práticas grupais podem se tornar ferramentas transformadoras para a descolonização da produção de conhecimento sobre/para/com grupos e para o empoderamento de multiplicidades étnico-raciais.

O racismo, essa opressora e violenta ferida aberta na alma coletiva, exige que olhemos para além das estruturas visíveis, mergulhando nas profundezas das relações humanas, onde a ação grupal pode ser catalisadora de mudança. Alberto Guerreiro Ramos (1996), em sua obra A redução sociológica, afirmava que o racismo não deve ser tratado como um tema específico da sociedade, mas como o centro. Para ele, o racismo compõe a base formativa da estrutura social, moldando papéis, condutas e relações opressivas. Por ser uma opressão que sustenta o próprio alicerce do tecido social, torna-se uma experiência cotidiana para as pessoas negras, constantemente expostas a situações de discriminação racial.

Dessa forma, o racismo não deve ser compreendido como um simples tema, mas como uma estrutura que perpetua a aniquilação dos corpos negros e indígenas, seja de maneira real ou simbólica. Ele nos convida a pensar a partir de uma “consciência crítica” que questiona as normas dominantes e busca a emancipação de grupos violentados, ao entender que nossas práticas estão inscritas em processos valorativos e percepções de mundo que estabelecem intencionalidades sobre a produção de conhecimento (Filgueiras, 2012).

O psicodrama foi uma das bases do trabalho de Guerreiro Ramos. No entanto, ele afirmava que o psicodrama praticado nos Estados Unidos não poderia ser simplesmente reproduzido no Brasil sem antes passar por um processo de reformulação. Para o sociólogo, a ação dramática deveria contemplar as subjetividades, os contextos e os corpos brasileiros. A partir dessa inquietação, Guerreiro Ramos (2023) desenvolveu a técnica da grupoterapia, denominada por ele como a técnica social e terapêutica do Teatro Experimental do Negro (TEN). Com a parceria de Abdias do Nascimento (1978), denunciou a violência simbólica e física que assola as populações negras, propondo o teatro como espaço de resistência e afirmação identitária. Esses pensadores nos lembram que a luta antirracista não é apenas uma questão de justiça social, mas um imperativo ético e existencial.

Com a elaboração deste dossiê buscamos novos diálogos na teoria psicodramática e nas práticas grupais. É assim que os trabalhos e artigos apresentados aqui evidenciam o convite que Guerreiro Ramos lançou já na década de 1940, o qual nos convidou a pensar métodos, recursos e técnicas que sejam autônomos, livres da reprodução de conceitos e teorias eurocêntricas, incorporando como aspecto central as particularidades dos corpos e das vivências brasileiras. Dialogar para ir além de apenas apreciar e repetir, mas produzindo interrogações, novas possibilidades, a partir de uma postura crítica, ética e política. Considerando que a maioria dos artigos científicos publicados no Brasil são de autoria de pessoas brancas, principalmente de homens (Gaudêncio, 2025), ao apresentar um dossiê no qual pessoas negras são as principais autoras, apostamos que a representatividade na ciência tem caráter de trampolim: são produções que vão despertar outras, ideias que vão gerar novas e caminhos que abrem tantos outros. Assim, nos tornamos, com as autorias criadoras dos textos, cada vez mais responsáveis pelas criações teóricas e práticas do psicodrama e das demais abordagens de intervenções grupais de nossos tempos.

Outro ponto importante que Guerreiro Ramos (2023) destaca é a patologia social do branco brasileiro. Para ele, o problema não está no negro, mas no branco que não se integra, que não reconhece que seus privilégios não são “direitos”, mas sim o que sustenta e mantém a desigualdade racial. Portanto, o objetivo deste dossiê vai além de promover uma mera familiarização com o sofrimento das pessoas negras: busca impulsionar a reflexão sobre a importância de desconstruirmos o sistema de poder estabelecido pela branquitude, pois falar sobre racismo sem centralizar o pacto da branquitude não será efetivo.

Parte desse desafio de desconstrução de estruturas que contribuem para a manutenção do racismo se apresenta em diretrizes editoriais de indexadores. Essas normas editoriais demandam que a maioria das referências das nossas publicações sejam artigos científicos, sendo que grande parte das obras escritas por pessoas negras, como Guerreiros Ramos e Abdias Nascimento, foram publicadas apenas em livros, convocando-nos a escolhas éticas neste dossiê que tensionam regras hegemônicas de editoração para garantir a sustentabilidade da Revista Brasileira de Psicodrama (RBP) e a visibilidade dessas autorias.

Nesse sentido, reconhecemos com transparência e cuidado que a maioria das pessoas que atuaram como avaliadoras deste dossiê são brancas. Essa escolha foi intencional, na medida em que buscamos garantir que os autores e autoras negros pudessem ocupar o centro da produção publicada, sendo o coração pulsante deste trabalho. Ao mesmo tempo, não ignoramos que o olhar branco carrega limites, atravessado por privilégios e por uma posição histórica que não vivencia diretamente as marcas do racismo.

Assumimos, portanto, esse tensionamento como parte do processo, reafirmando que a escuta e o protagonismo negro foram priorizados, enquanto o coletivo de avaliadores segue convocado a um exercício permanente de responsabilidade, autocrítica e compromisso ético-político no enfrentamento ao racismo. Afinal, como convoca Lia Schucman (2022), não basta que as pessoas brancas adquiram consciência sobre o racismo; são necessárias também mudanças estruturais nos valores culturais da sociedade como um todo, significando que a branquitude precisa deixar de apoiar-se no racismo para manter sua posição ao mesmo tempo que haja o reconhecimento de cientistas negros e a valorização da diversidade dos saberes em uma ciência plural e inclusiva (Gaudêncio, 2025).

Portanto, este dossiê não se contenta em apenas discutir o racismo e os seus efeitos nos modos de habitar o mundo; ele propõe ações de vida como estratégias de enfrentamento e de ampliação de horizontes das lutas cotidianas contra essa violência. As autorias nos presenteiam com possibilidades outras diante de situações difíceis, que demonstram a potência dos grupos na criação de novos caminhos de luta, sobrevivência e resistência às opressões. Tais saberes construídos a muitas mãos neste dossiê destacam o comprometimento ético-político do movimento psicodramático com a desconstrução das relações de poder, buscando contribuir para a atualização do ensino em psicodrama e em processos grupais (Miranda & Cardoso, 2024).

Buscamos, como Kabengele Munanga (2022), que os escritos deste dossiê auxiliem na construção de uma sociedade que enfatiza a coexistência igualitária das diferenças e das identidades, para que possamos de fato transformar nossa relação com as questões raciais no tecido social brasileiro. É nessa perspectiva que o psicodrama e as práticas grupais se inserem como fortes contribuições, ao trabalhar a cena social de forma ampliada e buscar que os papéis sociais marcados pelo racismo sejam elaborados e ressignificados. Além disso, reconhecer as tensões, violências e os privilégios pode nos auxiliar na coconstrução de outras formas de convivência, pautadas na equidade e no respeito.

O nosso tempo histórico e a história do Brasil e da América Latina nos convocam a pensar em um psicodrama brasileiro e em práticas grupais localizadas e comprometidas socialmente. Pensar em práticas grupais que sejam populares, libertárias e políticas. É necessário nos envolvermos com as questões concretas do Brasil, com as reais necessidades do país e das populações latino-americanas, questionando o pensamento dominante de pacto antipopular no Brasil. Um convite ao movimento que Chinua Achebe (1994) nos apresenta ao tratar sobre a potência da narrativa ao contarmos histórias. Para este autor, contar uma história deve seguir a dança dos mascarados nos festivais Igbo.

As pessoas da etnia de Igbo, um dos povos étnicos do continente africano que tem sua maior concentração na Nigéria, dizem que para acompanhar e sentir profundamente um espetáculo de mascarada o espectador deve deslocar-se de um lugar passivo, não devendo ficar em um único lugar. Isso significa dizer que você deve se movimentar e sair de um lugar único, caso contrário perderá muito da performance. Então, você se movimenta, “e essa é a forma como as histórias do mundo deveriam ser contadas – a partir de diferentes perspectivas” (Achebe, 1994, n. p.).

Desse modo, importa sempre lembrarmos de fazer esse movimento para as práticas em processos grupais implicadas com um posicionamento antirracista e nos lançarmos para algumas perguntas: para quais grupos sociais estamos trabalhando? Quem está sendo beneficiado com nossas ações? Quais as mudanças históricas que estamos produzindo? O presente dossiê é uma tentativa de nos movimentarmos nessa luta.

AGRADECIMENTOS

Não se aplica.

FINANCIAMENTONão se aplica.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Todos os dados foram apresentados/discutidos no presente artigo.

REFERÊNCIAS

Achebe, C. (1994). The art of fiction (Interview by Jerome Brooks). The Paris Review 139, (133). http://www.theparisreview.org/interviews/1720/the-art-of-fiction-no-139-chinua-achebeLinks ]

Filgueiras, F. B. (2012). Guerreiro Ramos, a redução sociológica e o imaginário pós-colonial. Caderno CRH, 25(65), 347-363. https://doi.org/10.1590/S0103-49792012000200011 [ Links ]

Gaudêncio, J. da S. (2025). Mulheres negras na ciência: desafios, impactos e perspectivas interseccionais. Pontos de Interrogação – Revista de Crítica Cultural, 14(2), 87-109. https://doi.org/10.30620/pdi.v14n2.p87 [ Links ]

Miranda, Á. B., & Cardoso, L. F. V. (2024). Tornar-se uma psicodramatista negra: por uma formação e direção reflexiva, antirracista e corporificada. Conecte-Se! Revista Interdisciplinar De Extensão, 8(17), 257-265. https://doi.org/10.5752/P.2594-5467.2024v8n17p257-265 [ Links ]

Munanga, K. (2022). O mundo e a diversidade: questões em debate. Estudos Avançados, 36(105), 117-129. https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2022.36105.008 [ Links ]

Nascimento, A. (1978). O genocídio do negro brasileiro. Paz e Terra. [ Links ]

Ramos, A. G. (1996). A redução sociológica. UFRJ. [ Links ]

Ramos, A. G. (2023). Negro sou: a questão étnico-racial e o Brasil: ensaios, artigos e outros textos (1949-1973) (M.S. Barbosa, Org.). Zahar. [ Links ]

Schucman, L. V. (2022). O branco e a branquitude: letramento racial e formas de desconstrução do racismo. Portuguese Literary and Cultural Studies, 171-189. https://doi.org/10.62791/rrj3bv32 [ Links ]

Recebido: 05 de Outubro de 2025; Aceito: 06 de Outubro de 2025

* Autora correspondente: orianahadler@gmail.com

Editora de seção:

Heloisa Fleury

CONFLITO DE INTERESSE

Nada a declarar.

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