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Revista Brasileira de Psicodrama

versão impressa ISSN 0104-5393versão On-line ISSN 2318-0498

Rev. Bras. Psicodrama vol.33  São Paulo  2025  Epub 14-Nov-2025

https://doi.org/10.1590/psicodrama.v33.739 

DOSSIÊ | PRÁTICAS ANTIRRACISTAS EM PROCESSOS GRUPAIS

Que palhaçada é essa? Psicodrama e palhaçaria como dispositivos de denúncia ao preconceito

What nonsense is this? Psychodrama and Clowning as devices to report prejudice

¿Qué tontería es ésta? Psicodrama y Clown como dispositivos para denunciar prejuicio

Kim Ouakil Boscolo, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita, Aprovação final1  * 
http://orcid.org/0000-0003-4177-2093

Daniel Russell Oliveira, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita2  1 
http://orcid.org/0009-0006-6759-9646

1Viver Mais Psicologia – Tubarão (SC), Brasil.

2Escola Superior de Artes Célia Helena – Programa de Pós-Graduação Profissional em Artes da Cena – São Paulo (SP), Brasil | Viver Mais Psicologia – Tubarão (SC), Brasil


RESUMO

Este artigo traz uma vivência presencial realizada no XIV Congresso Iberoamericano de Psicodrama, ocorrido em Florianópolis, em 2023, que teve como proposta sensibilizar o grupo sobre preconceitos, compreendidos como sintomas sociais construídos historicamente. Na união de sociodrama com palhaçaria, coconstruímos um espaço coletivo descontraído, porém profundo, que favorecesse a construção de vínculos para promover reflexões coletivas e reparação simbólica. O objetivo final foi transpor as reflexões do contexto grupal para o social, semeando possibilidades de transformação social. Foram realizados jogos, leitura de manchetes e encenações para engajar os participantes, enquanto novas perspectivas sobre preconceitos expostos e velados surgiram a partir do processo de reflexão e dramatização, abrangendo temáticas como racismo, machismo, homofobia, transfobia e intolerância religiosa. Quais preconceitos habitam em nós? E onde, afinal, colocamos o nosso nariz para promover mudanças efetivas, internas e externas?

PALAVRAS-CHAVE Preconceito; Sociodrama; Palhaçaria; Racismo

ABSTRACT

This article presents an in-person experience carried out at the XIV Ibero-American Congress of Psychodrama (Florianópolis/2023), which aimed to raise awareness among the group about prejudices, understood as a historically constructed social symptom. By combining sociodrama with clowning, we co-constructed a relaxed yet profound collective space that would foster the building of bonds to promote collective reflections and symbolic reparation. The final goal was to transpose reflections from the group context to the social one, sowing possibilities for social transformation. Games, headline readings, and role-plays were held to engage participants, while new perspectives on exposed and hidden prejudices emerged from the process of reflection and dramatization, covering themes such as racism, sexism, homophobia, transphobia, and religious intolerance. What prejudices dwell within us? And where, after all, do we place our noses to promote effective changes,both internal and external?

KEYWORDS Prejudice; Sociodrama; Clown; Racism

RESUMEN

Este artículo presenta una experiencia presencial realizada en el XIV Congreso Iberoamericano de Psicodrama (Florianópolis/2023), que tuvo como objectivo sensibilizar al grupo sobre los prejuicios, entendidos como un síntoma social históricamente construido. Mezclandose el sociodrama con el clown, co-construimos un espacio colectivo relajado pero profundo que permitira fomentar la construcción de vínculos para promover reflexiones colectivas y reparación simbólica. El objetivo final fue trasladar reflexiones del contexto grupal al social, sembrando posibilidades de transformación social a través de nuevas perspectivas sobre prejuicios expuestos y ocultos. Se realizaron juegos, lecturas de titulares y juegos de rol para involucrar a los participantes, mientras que del proceso de reflexión y dramatización surgieron nuevas perspectivas sobre prejuicios expuestos y ocultos, abarcando temas como el racismo, el sexismo, la homofobia, la transfobia y la intolerancia religiosa. ¿Qué prejuicios albergamos? Y, después de todo, ¿dónde ponemos nuestra atención para promover un cambio efectivo, tanto interno como externo?

PALABRAS CLAVE Prejuicio; Sociodrama; Clown; Racismo

CONCEITOS E PRECONCEITOS

O preconceito faz parte de uma estrutura opressiva que acontece de forma multifacetada na sociedade, manifestando-se explícita e implicitamente. Para Mezan (1998), o prejulgamento é um agrupamento de crenças, ideias, pensamentos e comportamentos negativos que são reproduzidos de um grupo para o outro, de uma pessoa para a outra. Isso significa que o preconceito pode ser apresentado nas expressões que são repetidas sem um pensamento crítico, nas piadas que não são questionadas, nas ideias que são interpretadas como naturais – e que demonstram exclusões e violências.

Um exemplo dessa naturalização é trazido por Oliveira e Fontoura (2023) ao analisarem a canção de ninar “Boi, boi, boi, boi da cara preta. Pega essa menina que tem medo de careta”. Cantada por gerações, a música atribui à figura do “boi da cara preta” um caráter intimidador, associando a cor preta a algo ameaçador, que desperta a necessidade de proteção. Essa construção representa aspectos de um imaginário coletivo de matriz colonial (Vomero, 2022), que se perpetua por meio de estigmas e estereótipos direcionados à população negra. Assim, longe de ser um simples canto infantil, essa tradição cultural mantém e reforça afetos negativos, contribuindo para a marginalização histórica das pessoas negras.

De acordo com Ramos (2020), o comportamento que o sujeito reproduz é um conjunto de aspectos que são transmitidos culturalmente. Ou seja, as ideias, os pensamentos, as condutas e os comportamentos preconceituosos e discriminatórios repetidos pelos sujeitos são características que foram herdadas e aprendidas socialmente – e, por estarem enraizadas, acabam sendo vistas, muitas vezes, como algo “normal”. O apagamento de autores negros na própria história do psicodrama também revela como a sociedade racista se regula (Ramos, 2020). A respeito disso, um destes autores diz que:

Cada ser humano socialmente ajustado, por mais perfeita que seja a sociedade em que se encontre, é vítima de um déficit de espontaneidade. Na verdade, o homem é um consumidor de “conservas culturais”. Quase todo seu comportamento é uma reprodução de moldes ou respostas conservadas, moldes ou respostas que ele não elaborou livremente, que lhe foram legados pelos mortos

(Ramos, 2020, p. 47).

Sabemos que “as constantes mudanças na sociedade e na cultura geraram padrões de avaliação dos indivíduos no mundo, criando a falsa ideia de ordem e de liberdade, nas conservas culturais” (Vidal & Dias, 2023, p. 3). As conservas culturais são formadas por costumes, ações e normas que são passadas socialmente e que moldam as identidades e os comportamentos. Elas podem ter impactos benéficos, ao estreitar laços ou estimular a aprendizagem, ou prejudiciais, ao restringir a espontaneidade e perpetuar preconceitos. Da mesma forma, as conservas coloniais referem-se a práticas oriundas do período colonial, caracterizadas por desigualdades e hierarquias, que sustentam discriminações e preconceitos (Vomero, 2022).

Algumas conservas culturais podem trazer benefícios, como a identitária – uma música com a qual você se conecta, ou quando você passa a assumir uma postura diferente em um dado papel após um aprendizado (Vidal & Ferracini, 2024) – e a protetiva – como quando é ativado o medo de uma mulher em um dado ambiente e que “perpassa todo um contexto sócio-histórico da mulher no lugar de vulnerável em comparação ao homem” (Vidal & Dias, 2023, p. 5).

Porém, há aquelas que estagnam e impedem a espontaneidade de dialogar, abrindo a possibilidade de gerar preconceitos. E é “através da arte, da filosofia e do Psicodrama, [que] pode-se encontrar brechas entre as conservas culturais, permitindo-se vivenciar encontros e conexões infinitas e profundas” (Vidal & Amaral, 2025, p. 10). A necessidade de combater os preconceitos é urgente, e se mostra ainda mais complexa quando falamos de preconceitos velados – aqueles dissimulados, disfarçados, que muitas vezes nem nos damos conta que temos –, que prejudicam social e psicologicamente, entre diversas outras maneiras, esses grupos que a sofrem. Vomero e Nery (2024, p. 7) buscam explicar esse fenômeno por meio do poder, e como combatê-lo:

Há vias de passagens inconscientes entre diferentes formas de racismo, LGBTfobia e segregação [que] exercem influência sobre nossa compreensão consciente do mundo social (...) já que essas formações de poder implícitas também ocupam os campos políticos e sociais. O poder é uma força sutil que opera de maneira capilar por meio de uma teia que permeia toda a sociedade, as instituições e as relações, o que torna a conserva colonial ainda mais forte e difícil de ser combatida – embora não impossível. Os métodos de ação têm a função de desvelar essas tramas coinconscientes e de cocriar respostas espontâneas e criativas em relação às respostas adoecedoras, violentas e excludentes.

O psicodrama se mostra como proposta de mudança de uma realidade de preconceitos, sendo assim uma metodologia ativa de aprendizagem, ou seja, “um processo – mais do que fim – via problematização, inserida em uma proposta de construção conjunta [...] em que todos podem colaborar com seu conhecimento” (Bruhn et al., 2019, p. 69). Como psicodramatistas diretores, temos que buscar informação e discernimento, principalmente quando tratamos de grupos minorizados, a fim de não reproduzir os preconceitos enraizados, nem estimular tal ato. Nos construímos em relação, e é no olhar para o outro que o identificamos como sujeito de direitos (C. B. França, 2015).

ESCOLHAS METODOLÓGICAS E CONDUTAS

Este artigo apresenta uma vivência realizada no XIV Congresso Iberoamericano de Psicodrama, ocorrido em Florianópolis no ano de 2023, que reuniu cerca de 12 pessoas com a finalidade de despertar a consciência sobre os preconceitos, sobretudo os velados, sutis e invisíveis, que permeiam nossa cultura e nossos comportamentos. Nesse contexto, o encontro buscou, por meio do psicodrama e da palhaçaria, criar um espaço acolhedor e seguro para promover reflexões críticas, possibilitando a expressão autêntica e a construção de ações coletivas contra a opressão.

A proposta partiu do pressuposto de que o psicodrama oferece ferramentas para acessar a espontaneidade e a criatividade, enquanto a palhaçaria, com seu humor crítico e corpo expressivo, facilita o contato com as emoções e o reconhecimento dos próprios limites. No decorrer da experiência, utilizamos esses recursos de modo a promover a reflexão sem gerar desconforto, assegurando que todas as pessoas envolvidas pudessem se manifestar de maneira segura e consciente. Essa combinação permitiu explorar os preconceitos como sintomas sociais, revelando caminhos para o enfrentamento individual e coletivo.

No texto, primeiro apresentamos os conceitos que fundamentam a abordagem sobre preconceito e suas manifestações. Em seguida, detalhamos a metodologia e os cuidados éticos que orientaram a prática. Descrevemos as etapas da vivência, os jogos e as dramatizações realizados, para, finalmente, refletir sobre os resultados alcançados e o potencial transformador dessa experiência no contexto social.

O método socionômico escolhido para esta vivência foi o sociodrama. Levando em conta as ideias morenianas de cocriação e corresponsabilidade (Vidal & Amaral, 2025), e seu extenso trabalho com grupos minorizados para incentivar sua potência e seu protagonismo, trazemos a profundidade do “sociodrama como meio de promover inclusão ao facilitar a expressão da espontaneidade-criatividade e da autenticidade no processo de autopercepção, além de abrir novas perspectivas para a inserção dos protagonistas no cenário real social” (Silva & Vomero, 2025, p. 2). Há diversos estudos que abordam a socionomia, e em especial o sociodrama e técnicas psicodramáticas, para suscitar e compreender fenômenos preconceituosos como a transfobia (Silva & Vomero, 2025), o racismo (Ramos, 2020), a homofobia (M. R. C. França, 2009), o preconceito contra portadores de Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) (Silva, 2011) e o machismo (Vidal & Dias, 2023). Estes últimos ainda afirmam que “o espaço do palco psicodramático permite elucidar as tensões e os sofrimentos trazidos por grupos minoritários1 acerca do controle político-social sobre os corpos” (Vidal & Dias, 2023, p. 5). Já na década de 1940, Alberto Guerreiro Ramos destacava o potencial do método sociodramático como ferramenta de descolonização e enfrentamento ao preconceito, afirmando que:

O sociodrama é precisamente um método de eliminação de preconceitos ou de estereotipias que objetiva libertar a consciência do indivíduo da pressão social. Por exemplo, adestra uma pessoa para ver um funcionário, um negro ou um judeu, não à luz dos estereótipos, o funcionário, o negro ou judeu, mas como personalidades singulares, únicas, inconfundíveis

(Ramos, 2020, p. 53).

Aqui, destacamos a palhaçaria, que caminha no mesmo sentido como a arte do encontro humorado construída no presente momento. E o que é mais econômico do que pensar numa construção identitária coletiva? E não apenas identitária, mas também de sentido, “do riso com o outro, em vez do riso do outro” (Bruhn et al., 2019, p. 69). O “exagero e a extrapolação de sentimentos e características do eu é um dos recursos do papel de palhaço ou palhaça. Esses jogos facilitaram o contato com o eu, aumentando a espontaneidade e colaborando com o processo criativo do Psicodrama” (Bruhn et al., 2019, p. 72) no “aqui e agora”, que a socionomia tem por diretiva na Teoria do Momento (Moreno, 2006).

Quando pensamos no palhaço como exagero de si mesmo, entramos em contato com nossas camadas mais profundas, mas tão enraizadas que pode ser um árduo processo nos identificarmos com aquelas características que, obviamente e (in)felizmente, fazem parte de nós. A palhaçaria foi empregada para introduzir um tom de leveza e profundidade na percepção dos preconceitos ocultos, estimulando uma reflexão mais profunda e assegurando atenção a cada pessoa envolvida. Assim, olhar para os próprios preconceitos velados não teria tanto sentido se a palhaçaria não estivesse presente, trazendo profundidade e leveza para essa caminhada. Citando uma participante do diário coletivo estudado em Bruhn (2021, p. 210): “Psicodrama significa investigação da alma humana através da ação. A alegria da Palhaçaria é a busca pelas ações que façam aumentar nossa potência de agir. Ambos buscam o movimento, a ação”. E é aí que a palhaçaria também se mostra como metodologia ativa de aprendizagem, fomentando a coconstrução e as relações Eu-Tu (Bruhn et al., 2019).

Nosso objetivo principal com esta vivência foi construir um espaço psicodramático com palhaçaria onde os preconceitos velados individuais viessem à tona e, também, coconstruir a possibilidade de transpor sua luta (pessoal e coletiva) contra preconceitos diversos no contexto social. As opções metodológicas foram frequentemente analisadas para assegurar que as ações incentivavam a aprendizagem em grupo, a reflexão sobre as limitações pessoais e a responsabilidade ética, abordando as questões levantadas durante a experiência. Focamos em uma vivência em que a pessoa participante se sentisse tocada para além das quatro paredes onde seria realizada, dos objetivos particulares de cada uma das pessoas, e dos objetivos específicos da própria unidade funcional.

Ainda, a presente reflexão foi baseada nas resoluções n.º 466/2012 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS, 2012, 2016), que guiam a pesquisa vivencial a uma narrativa científica.

Por meio do humor e da profundidade, psicodrama e palhaçaria se uniram para alcançar nossas sombras e conseguirmos lidar com elas de maneira saudável e respeitosa. Assim, para a construção e prática da vivência, foram levados em conta alguns cuidados éticos, pensados criativamente pela unidade funcional:

  • O limite para a troca de papéis entre a pessoa que oprime e a pessoa que é oprimida foi estabelecido previamente e acompanhado ao longo da experiência, assegurando segurança e aprendizado.

  • As matérias de jornal foram selecionadas em grupo, com discussões anteriores sobre seus possíveis impactos, evitando a reprodução de preconceitos de maneira desrespeitosa.

  • O humor e a palhaçaria foram utilizados para destacar a vulnerabilidade, a disposição para o outro e a corporeidade, sem tratar os temas de maneira superficial.

  • O aquecimento em grupo tinha o objetivo de envolver todas as pessoas participantes de forma inclusiva, sem expor questões pessoais de forma inadequada.

  • Métodos e ferramentas da socionomia foram escolhidos para facilitar a abordagem dos preconceitos ocultos, evitando atividades que pudessem desviar a atenção ou comprometer os objetivos.

  • Comunicação e artigos também foram pesquisados em espanhol para garantir a participação de todos no aquecimento, na dramatização, no compartilhamento e nas reflexões.

TRAMAS E DRAMAS

O processo de construção desta vivência ocorreu por meio de muitas reuniões e trocas entre a unidade funcional. Pesquisamos diversas notícias que pudessem ser úteis para refletir sobre preconceitos. A partir das manchetes e histórias originais, construímos novas manchetes (“trama”) para enfatizar os preconceitos em questão (“preconceito exposto”), deixando os “possíveis preconceitos velados” para serem descobertos por cada um após a leitura da reportagem original, numa fase posterior da vivência.

Agora, gostaríamos de uma palavrinha com quem está lendo este artigo. Maria Regina Castanho França (2020), ao se aprofundar em seu artigo sobre a homossexualidade e a homofobia, propôs, a quem lê um psicodrama interno, um convite a um olhar mais empático sobre o assunto. Aqui, sugerimos a quem nos lê também fazer um pequeno experimento: leia abaixo a “trama” e o “preconceito exposto” de cada reportagem; imagine uma cena que ilustre o fato apontado em cada uma e anote-a com o maior número de detalhes possível; depois, siga a leitura e retorne para ler o restante de cada uma na nota ao final do artigo2, quando retomadas as tramas:

  • Trama 1: Responsável por criança autista vai à escola após filho ser vítima de violência. Preconceito exposto: Preconceito com autistas; capacitismo.

  • Trama 2: Escritora tem suas obras menosprezadas por ser mulher. Preconceito exposto: Machismo.

  • Trama 3: Famílias estão em perigo de perder seus lares. Preconceito exposto: Preconceito social.

  • Trama 4: Gestante denuncia atendimento médico. Preconceito exposto: Machismo.

  • Trama 5: Empresária não aprova título de “musa” dada à famosa. Preconceito exposto: Machismo.

  • Trama 6: Atleta é confundido como pegador de bolinhas de tênis por jornalista. Preconceito exposto: Racismo.

  • Trama 7: Diminuição de registros de casos de intolerância religiosa em delegacias é investigado por promotor. Preconceito exposto: Intolerância religiosa.

Os preconceitos do dia

No dia da vivência, a unidade funcional se reuniu na sala e no horário combinados e esperou os participantes – por volta de 12. Conforme foram chegando, pedimos para que prestassem atenção na letra das músicas que estavam tocando. Para montar essa lista de reprodução musical buscamos incluir diversos ritmos já conhecidos por grande parte do público (inclusive hispano-falantes) que contivessem preconceitos. Foi também pedido para que anotassem em um papel palavras que sugerissem preconceitos. Fizemos uma breve apresentação da unidade e do tema e, então, seguimos as etapas de um sociodrama clássico.

Para o aquecimento inespecífico, primeiro realizamos um relaxamento com músicas tranquilas. Depois, reproduzimos novamente a lista de músicas contendo preconceito, entre outras, e pedimos para caminharem e dançarem ao ritmo delas, primeiro individualmente, depois em duplas e então em grupo. Propusemos depois um “jogo de mímica” com as palavras anotadas na entrada dos participantes. Por fim, foi proposto o jogo “telefone sem fio”, em que a unidade funcional iniciava dizendo frases que contivessem temáticas de senso comum e, possivelmente, preconceitos.

A intenção dessas músicas e desses jogos foi de um contato maior com a infância, tanto para buscar sua criança interna e tudo o que possa vir com ela (memórias, primeiros contatos com preconceitos, ingenuidade, abertura/disponibilidade e construção de confiança no coletivo) quanto para colocar os participantes em contato com o senso comum criticamente.

Os jogos propostos tiveram um toque de palhaçaria para trazer mais corporeidade e exagero para o palco, promovendo desde o início aos participantes um maior contato com suas vulnerabilidades e características profundas de forma bem-humorada. O olhar para a aceitação de si e do próprio erro foi encorajado em todos os momentos, a fim de colaborar com a formação de um grupo com confiança e possibilidade de trazer por completo o seu “eu” na presença de todos.

Para o aquecimento específico, momento em que se inicia um maior contato com a temática proposta, foi pedido aos participantes que escutassem os preceitos de um palhaço e que pudessem se experimentar com tais características, como se fossem peças de roupa sendo colocadas. Eis os principais preceitos citados: crianças e curiosidade; exagero/tudo é “muito”; simples/ingênuo; genuíno; escuta/relação/presença; respeito ao outro/político; resolve um problema criando outro, sem querer; erra. Foi também pedido que buscassem uma característica própria para balizar suas relações e ações a partir daquele momento, mas também que não fosse a única e ainda houvesse espontaneidade e fluidez de ações. Foi proposto que andassem e interagissem de forma espontânea, e então seguimos para a próxima parte do aquecimento específico.

As manchetes previamente elegidas e reconstruídas por nós (“Trama”) foram disponibilizadas impressas em uma mesa, e cada um elegeu a que mais lhe chamou a atenção. Após a escolha, foi pedido para que se reunissem em grupos pelas escolhas em comum. Foi dado um tempo para trocas, discussão e elaboração de uma cena contando a reportagem, lembrando o Jornal vivo, que consiste em dramatizar histórias reais encontradas em uma reportagem. O Jornal vivo, seja como aquecimento (para um sociodrama) ou como metodologia (teatro espontâneo), promove um encontro aprofundado, “trazendo à tona percepções antes negligenciadas e proporcionando o espaço de reflexão tão desejado” (C. B. França, 2015, p. 80).

Luz, câmera, reflex-ação!

As dramatizações foram feitas e tiveram bastante humor, tensão (relacionada principalmente aos preconceitos expostos) e finais com tentativas de reparação ou “virada de história” – em que o oprimido cresce sobre o opressor. Todos se mostraram sensibilizados pelas temáticas e situações de preconceitos expostos abordados.

Após, foi entregue a cada grupo uma folha contendo as manchetes originais e trechos ou as reportagens reais na íntegra. Foi pedido para que fizessem a leitura e então refletissem sobre suas presunções ao ler as manchetes antes das dramatizações, e como elas tocavam de fato o relatado pela reportagem: “Houve divergências? Em sua leitura da primeira manchete e escolhas para a dramatização, você consegue identificar os preconceitos?”.

Agora convidamos você, que topou o desafio proposto anteriormente: releia suas anotações das cenas pensadas e então volte ao catálogo de tramas e leia as manchetes originais e reportagens em questão na nota após as considerações finais do artigo. Busque responder às questões do parágrafo anterior e depois compare-as com os “possíveis preconceitos velados”. Houve divergências? Conseguiu identificar preconceitos velados de sua parte?

A leitura da “manchete original” e da reportagem (ou trechos) foi utilizada aqui como uma maneira de interferir na conserva cultural que gera o (ou é o próprio) preconceito, ou seja, de dar-se conta dos próprios preconceitos. Enquanto o “preconceito exposto” seria aquele que a própria reportagem estivesse cometendo ou denunciando, o “possível preconceito velado” seria uma realidade que o participante da vivência não levou em conta.

Seguem as possibilidades pensadas pela unidade funcional antes da vivência:

  • Na trama 1, a cena esperada é de uma mãe lutando por direitos iguais por seu filho com o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA); o preconceito velado é a possibilidade de não se ter pensado em um pai percorrendo esse caminho.

  • Na trama 2, a cena esperada é a escritora sofrendo machismo; o preconceito velado é a possibilidade de não se ter pensado em uma escritora transsexual.

  • Na trama 3, a cena provável é de pessoas em situação de vulnerabilidade social de um bairro simples de uma cidade; o preconceito velado seria de não pensar que essas pessoas são indígenas que estão por perder suas terras.

  • Já na trama 4, é esperado o machismo ao abordar o atendimento da gestante; o preconceito velado estaria em não se ter pensado que o médico é homossexual e foi denunciado injustamente por conta de sua orientação sexual.

  • Na trama 5, o tema de intriga entre mulheres é esperado; o preconceito velado poderia ser a cor de sua pele, ou seu fenótipo não ser levado em conta.

  • Na trama 6, o visível ato de racismo do apresentador chamaria atenção como preconceito exposto, enquanto o racismo estrutural estaria como preconceito velado por não se tratar de um caso isolado.

  • Por fim, na trama 7 a intolerância religiosa se mostrou abertamente, podendo ser desprezada a invisibilização institucional na elaboração da dramatização.

Esse foi um momento de contato com os preconceitos velados de cada um e, portanto, com muitas emoções envolvidas. Essa parte da proposta causou um espanto, pois deparar-se com os próprios preconceitos surpreendeu a todos, que pensavam que a atividade sobre preconceitos se acabaria na primeira dramatização. Após alguns momentos para cada grupo elaborar as emoções e se acolher, foi proposta uma segunda dramatização, em que fossem compartilhadas essas elaborações – com seus palhaços, em silêncio, trazendo em um formato artístico, refazendo sua cena de outra maneira ou elaborando outra –, porém sem soluções mágicas como havia ocorrido na primeira. Essa variedade de ferramentas foi apresentada para facilitar a expressão e a densidade dos sentimentos dos grupos, garantindo a continuidade do aquecimento adequado e da espontaneidade ao se confrontarem com os próprios preconceitos dentro de sua proposta da primeira cena montada.

As cenas elaboradas expressaram frustrações pessoais com as divergências irrompidas, mas também reelaborações do grupo e acolhimento, bem como tentativas de reparação e de expansão para além daquela cena.

No momento do compartilhamento salientamos a importância de falar de si mesmo (e dos outros) sem julgamentos após este presente que o grupo todo tinha trazido em forma de reflexões, disponibilidade e emoções. Todos compartilharam com muita emoção, trazendo suas dificuldades, mas também necessidade e alívio, de se deparar com e elaborar os próprios preconceitos e transpor a experiência para além daquela sala.

No processamento, por sua vez, contamos brevemente o processo de elaboração desta vivência, assim como as etapas seguidas e a importância da socionomia para entrar em contato com os próprios preconceitos através da corporeidade, do encontro e da espontaneidade.

Onde eu coloco meu nariz?

Pode-se dizer que pudemos promover mudanças efetivas internas e externas da elaboração à prática de uma vivência ao coconstruirmos com empatia, escuta e humanidade, enfrentando (com firmeza) os próprios preconceitos e possibilitando aos outros o fazerem também. A palhaçaria colaborou com a estrutura da vivência mediante sua filosofia relacional e promotora de autonomia que corrobora com o psicodrama.

Os aquecimentos e direcionamentos da unidade funcional colaboraram para a construção de um ambiente formador de vínculos, essencial para criar um ambiente de confiança para dar-se conta dos próprios preconceitos. “Todo ser humano tem uma necessidade básica de ter uma rede social formada por pessoas semelhantes, com quem compartilha afeto, aceitação, intimidade, apoio, lazer, calor emocional e um sentido de pertencimento” (M. R. C. França, 2009, p. 27).

Quando notamos um elemento interno que já não faz mais sentido para nós, ocorre uma alteração. Como resultado, outras camadas também passarão por modificações. Dessa maneira, o impacto (micro) nas relações se expande para um efeito social (macro) e estrutural (Ramos, 2020). Esse processo está diretamente ligado ao que Vidal e Amaral (2025) sugerem como um “novo olhar” sobre nós mesmos e sobre os demais, possibilitando a percepção de oportunidades de transformação tanto no aspecto pessoal quanto social.

Comprovamos também que “Psicodrama e Palhaçaria se complementam, pois enxergam um ao outro de maneira sensível, cuidadosa, singular, ao mesmo tempo em que as metodologias ativas propõem uma aprendizagem construída em conjunto, a partir de relações eu-tu” (Bruhn et al., 2019, p. 73). Ambos se revelaram parceiros como dispositivos de denúncia aos diversos preconceitos, além de mobilizarem para ações práticas e sociais.

A necessidade de transpor este dar-se conta para além das paredes daquela sala foi uma preocupação desde o primeiro momento para a unidade funcional. Quando percebemos algo interno que não nos faz mais sentido ter, um papel muda. Como consequência, outros contrapapéis também sofrerão mudanças. E, assim, o efeito (micro) na relação se desdobra em um efeito social (macro) e estrutural (Ramos, 2020).

O fato de existirem preconceitos velados não significa que não há nada o que possa ser feito; pelo contrário, é necessário agir diante do revelado a si mesmo e comprometer-se a diluí-los cada vez mais.

No contexto do preconceito racial, por exemplo, admitir a existência do privilégio branco é um passo fundamental nesse processo, pois é preciso reconhecer que ter a liberdade de ir e vir sem ser vigiado, revistado ou temido é um direito de todos, porém garantido apenas a alguns. Isso evidencia a desigualdade racial que está profundamente enraizada em nossa sociedade. Por essa razão, desnaturalizar esses privilégios e se engajar na transformação social faz parte da reprodução de atitudes antirracistas. Assim, compreende-se que a luta contra a opressão racial não deve ser responsabilidade apenas das pessoas negras; ela também pertence às pessoas brancas que escolhem se posicionar diante das injustiças e entendem que ser antirracista começa, antes de tudo, com a própria transformação.

Ainda, vale dizer que a visão de que os preconceitos são sintomas sociais não exime em nenhum aspecto a responsabilidade individual de dar-se conta. Pelo contrário, admitir que os preconceitos são formados por meio de processos históricos e sociais exige uma vigilância pessoal ainda mais intensa. Cada pessoa, ao se dar conta das influências que a moldam, é chamada a repensar suas ações, reavaliar seus comportamentos e se envolver ativamente na desconstrução dessas conservas culturais opressoras. Dessa forma, a transformação social começa quando o sujeito abandona o lugar de espectador e, para além da conscientização, assume a responsabilidade ativa como um aspecto mobilizador de ações mais éticas e inclusivas.

Ora, assim,

O encontro seria uma espécie de dança de atração e repulsão com olhares do outro e de si. Olhares que treinam a mente humana a ver para dentro e para fora além de como cada indivíduo é visto no dia a dia, e, consequentemente, aprender a ver e ser vistos despidos do verniz limitante das conservas – com as infinitas possibilidades que esse novo olhar oferece

(Vidal & Amaral, 2025, p. 4).

A partir de agora, ao nos perguntarmos “Que palhaçada é essa?” diante de um preconceito, que essas ideias ocupem nossas mentes e nos levem a questionar e agir sobre o que estamos aceitando e o que precisamos fazer para realmente transformar uma realidade.

AGRADECIMENTOS

Não se aplica.

FINANCIAMENTONão se aplica.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Não se aplica.

REFERÊNCIAS

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NOTAS

1Muitas vezes, os chamados “grupos minoritários” são numerosos em termos populacionais, mas ocupam menos espaços de poder, representação e acesso a direitos. Por isso, alguns estudiosos e militantes preferem o termo “grupos minorizados”, que evidencia que essa condição não é natural, mas sim fruto de processos históricos e sociais de exclusão, tratando-se de uma minoria de direitos, e não de uma minoria absoluta (Ferreira, 2005).

2Manchete original 1: “Mion chora com caso de agressão a autista e teme segurança do filho” (TV Foco, 2022); possível preconceito velado: machismo. Manchete original 2: “Primeira ‘transexual’ da Academia de Letras relata preconceito” (Peres, 2013); possível preconceito velado: transfobia. Manchete original 3: “A vitória Xokleng contra o Marco Temporal: ‘Quando eu morrer, vou com o dever cumprido’” (Anjos, 2023); possível preconceito velado: xenofobia. Manchete original 4: “Paciente que disse não gostar de ser atendida por gay em hospital: entenda o caso envolvendo médico da Bahia” (G1 Bahia; TV Subaé, 2023); possível preconceito velado: homofobia. Manchete original 5: “Val Marchiori diz que não considera Jojo Todynho uma musa” (UOL, 2018); possível preconceito velado: racismo e gordofobia. Manchete original 6: “Apresentador pergunta se atleta negro é ‘pegador de bolinhas’” (Stabile, 2020); possível preconceito velado: racismo estrutural. Manchete original 7: “Intolerância religiosa: MP diz que polícia de Campinas deixa de registrar 65% dos casos e faz alerta a delegados” (Ramos, 2023); possível preconceito velado: invisibilização institucional.

Recebido: 26 de Julho de 2025; Aceito: 22 de Agosto de 2025

*Autora correspondente: kim.oboscolo@gmail.com

Editora de seção:

Oriana Hadler https://orcid.org/0000-0001-9736-2224

CONFLITO DE INTERESSE

Não se aplica.

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