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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál v.42 n.2 São Paulo jun. 2008

 

ARTIGOS

 

No resgate da alma

 

En el rescate del alma

 

On rescuing the soul

 

 

Inês Zulema Sucar*

Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Utilizar referências da antropologia, da arte, da literatura, acrescidas de breves menções da clínica de adultos, são artifícios de aproximação e distanciamento para observar situações de abusos sexuais vivenciados na infância e na adolescência em relações familiares. Conhecido desde Freud como “assassinato da alma”, o tema é abordado através de trabalhos clássicos e atuais da psicanálise. Diferentes abordagens teóricas auxiliam na compreensão da repercussão traumática na vida imaginativa e relacional na vida adulta do ser humano, quando há a ocorrência desse tipo de experiência.

Palavras-chave: Trauma; Abuso sexual; Ilusão/desilusão; Mãe suficientemente boa.


RESUMEN

El hecho de utilizar referencias de la antropología, del arte y de la literatura, a lo que se agregan breves menciones a la clínica de adultos, constituye un artificio de acercamiento y distanciamiento para poder observar las situaciones de abusos sexuales vividos en la infancia y en la adolescencia, dentro de las relaciones familiares. El tema, conocido desde Freud como el “asesinato del alma”, está abordado mediante los trabajos clásicos y los actuales del psicoanálisis. Los diferentes abordajes teóricos ayudan para comprender la repercusión traumática, en la vida imaginativa y relacional, en la vida adulta del ser humano, cuando ocurre este tipo de experiencia.

Palabras clave: Trauma; Abuso sexual; Ilusión/desilusión; Madre suficientemente buena.


ABSTRACT

Using references from anthropology, art, and literature, complemented by brief mentions on the clinical work with adults is a way to zoom in and out to observe sexual abuse situations experienced in childhood and adolescence within the family. Known since Freud’s time as “the murder of the soul”, the theme is discussed using classical and current works of psychoanalysis. Different theoretical approaches help to understand the traumatic repercussion that occurs in the imaginative life and in the relationships of adult lives in the presence of this kind of experience.

Keywords: Trauma; Sexual abuse; Illusion/disillusion; Good enough mother.


 

 

Daí esta incessante relacionação entre lugar e memória, passado e presente, tempo e alma. A alma que a forja do tempo moldou ou o tempo que a força da alma nos deu? Aí está um problema que surge à frente de todos e ao qual todos os demais se subordinam.

José Hermano de Saraiva, Itinerário português: O tempo e a alma

 

No final do século xix, o “mundo culto” foi surpreendido pela intensidade do conjunto pictórico apresentado por Paul Gauguin. Criado durante sua estada no Taiti e nas ilhas Marquesas, seus quadros enfocam principalmente os aspectos selvagens e paradisíacos do mundo primitivo dos Mares do Sul. Acompanhando as pinturas idílicas estão “o grotesco e o primitivo”, o cenário tropical e a nudez, e apresentam a expressão da livre sensualidade adolescente das vahines, as jovens retratadas nessa fantástica produção que ainda hoje nos intriga e extasia. Naquela ocasião, essa produção foi vista como a apresentação do temperamento erótico-macabro de um gênio da luxúria. De ondeviemos? Quem somos? Para onde vamos?, sãoas inquietantes indagações quePaul Gauguin incluiu e nos legou, na monumental tela de 1875 assim nomeada, que hoje se encontra no Museum of Fine Arts de Boston. Considerada como a principal obra de seus anos na Polinésia, é reconhecida como seu testamento artístico.

Porém recentes publicações de antropólogos contemporâneos trazem novos conhecimentos sobre essas questões. Sahlins (2006) aborda a Guerra da Polinésia, ocorrida nas ilhas Fiji em meados do século xix, salientando ter sido essa uma guerra fratricida e transgressora, já que as comunidades políticas fijianas eram interconectadas pela descendência de seus governantes. Retoma questões da organização desses povos, seus usos, inclusive os hábitos canibais e também os seus interditos. Ressalta que no item dos bens de troca e de tributos figuravam, além da moeda do país e de todos os produtos úteis da terra, meninas de dez a doze anos de idade, inseridas nas transações político-rituais dessas culturas. Para maior compreensão sobre o significado e a importância das meninas, Tcherkézoff (2004), antropólogo francês, reconhecido pesquisador e conhecedor da Oceania, retrocede até 1767-69, desfazendo alguns dos mitos literários e filosóficos de “liberdade sexual” criados na época da “descoberta” do Taiti pelos europeus. Embasado na releitura dos diários de bordo dos navegadores que mantiveram os primeiros contatos com essas populações, contesta a visão masculina sensacionalista e fantasiosa divulgada na Inglaterra e na França, de uma sociedade de jovens mulheres que via de regra praticavam “o amor livre” e o faziam em público, já que nessa ilha extraordinária a “única religião é o amor”. Segundo esses registros, as “mulheres” trazidas diante dos visitantes e oferecidas ao “rei”, como foi visto o comandante do poderoso navio europeu, eram três jovens meninas que, ao invés de sorrirem, tremiam de pavor, pois jogavam um papel imposto pelos adultos. O “amor” não fazia parte da cena, e as danças apresentadas não tinham nada de erótico. Segundo o autor, a visão e os relatos dos europeus não eram exagerados, mas sim deformados.

A idéia de buscar observar essa dolorosa questão num afastamento temporal, espacial e cultural é a de permitir suportar que assim também deformadas podem ser algumas das relações e situações com que nos deparamos na clínica.

Sabemos que no processo de desenvolvimento e durante toda a vida, o ser humano passa por múltiplas experiências. Esses importantes elementos: lugar, memória, passado, presente, tempo e alma, presentes na construção da subjetividade do ser humano e de suas capacidades pessoais, de modo geral são partilhados e favorecidos por sua convivência na vida familiar e, posteriormente, no meio social. Em decorrência disso, o indivíduo conserva com clareza a noção de si mesmo, a partir da sua interação com outros seres humanos, no tempo e espaço vivenciais, uma vez que a memória, muito mais que social, é, originalmente, individual e intransferível. É também inerente à natureza humana utilizar constantemente processos imaginativos, dos quais a ilusão é elemento fundamental desde o início da vida de relação, e cujos relatos se acentuam no período da adolescência, na passagem da vida infantil para a vida adulta.

Utilizando o mesmo período temporal, fins do século xix, em partes opostas do mundo, Minas Gerais no Brasil, e o Sudão na África, e tendo a adolescência como modelo, apresento a contraposição das vivências decorrentes de experiências infantis e adolescentes publicadas por duas jovens. Através de fragmentos narrativos que se transformaram em literatura, é possível ilustrar os distintos tipos de relações humanas que se estabelecem, e conjeturar sobre os diferentes estados emocionais que podem ocorrer entre os adultos e os jovens que estão a eles submetidos nesse momento da vida.

Devaneio de menina

Hoje fiz uma coisa tão malfeita! Mas não posso me arrepender, porque não fui culpada. Vovó ficou tão aflita, que achei que Dindinha e Iaiá tiveram razão de ficar com raiva de mim e me xingarem como me xingaram.

Tudo é só por mamãe estar fora. Eu e Luisinha estamos dormindo no chão, no quarto de vovó. A casa está cheia e não tenho um canto para estudar uma lição. Quando é de decorar, eu decoro mesmo andando de um lado para outro, em qualquer parte; mas para exercício de aritmética e de francês, se a gente não procurar um canto sossegado, não pode fazer nada. Então eu descobri uma coisa do outro mundo; foi até Deus que me ajudou. Fui apanhar amoras e fui subindo, subindo até os galhos lá do alto. Que descoberta! Lá em cima, avistando-se o céu, a amoreira estava tão trançada de erva-de-passarinho que parecia um colchão. Deitei-me em cima e ficou o mesmo que uma cama. Descobri levar os livros para lá e estudo e escrevo sem ser amolada toda a hora. Eu digo a vovó que vou estudar debaixo da amoreira e subo e fico lá em cima.

Hoje cheguei da Escola, passei a mão no lápis, nos livros e nos cadernos e fui para a horta. Trepei na amoreira e fiquei estudando e olhando a vista dali que é uma beleza! Arranjei de tal forma que fiz uma cama e uma mesa, onde posso estudar mesmo assentada. Não podia imaginar o que me aconteceu. Depois que estava com as lições e os exercícios prontos, se havia de descer e vir embora, me esqueci olhando as nuvens do céu e pensando, pensando, até dormir. Quando acordei já estava escuro. Desci correndo e vim para dentro. Quando entrei na sala e vi vovó com o rosário grande de contas pretas na mão, rezando, compreendi o que havia feito sem querer. Vovó só reza assim, fora da hora, em casos muito graves. Ela, coitada, que é a única que gosta de mim, quando me viu chegar ficou tão alegre que não disse nada; ficou só me mandando jantar. As tias é que dispararam numa ralhação que foi preciso vovó gritar com Iaiá:– Chega! Basta de tanto falar! Deixa a menina comer em paz! (Morley, 1942/1997, p. 62).

Esse devanear de menina, com a acentuada utilização da ilusão, é propiciador de estados imaginativos criativos. Quando auxiliado pelo escudo protetor do casal parental e ampliado pelo suporte afetivo de uma ideal família extensa, contribui para a elaboração dos sentimentos contraditórios que surgem na adolescência. Suaviza as turbulências naturais que o período da puberdade impõem ao ser humano nesse período da vida, e o auxilia no processo de suas transformações físicas e emocionais. As relações familiares benignas, que favorecem a necessidade do ser humano em nutrir seu mundo de fantasia, da ilusão, do iludere, isto é, do jogo imaginativo, permite ao indivíduo utilizar amplamente sua capacidade de aprendizado.

Muito diferente desta, podem ocorrer situações devastadoras, de abusos e maus-tratos que crianças e adolescentes sofrem dentro de grupos familiares e sociais. Essas experiências, ao invés de fornecerem condições para o desenvolvimento, tornam-se vivências perturbadoras e traumatizantes para os jovens, com profundas repercussões emocionais. As muito dolorosas podem ser vividas como assassinatos de partes do seu self.

Diz o poeta Mario Quintana:

Da vez primeira que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…

Pesadelo de menina

Mina tinha incrível popularidade entre as crianças, e eu não lhe queria arranjar problemas, logo ela que já havia tido tantos problemas quando era uma menina mais ou menos da minha idade. Porque, ainda garotinha, foi raptada um dia quando saiu para dar uma volta e se afastou da casa dos pais um pouco mais do que o habitual. Uma mão enorme agarrou-a e, quando deu por si, estava caminhando estrada afora junto com outras crianças e dois ferozes raptores armados com longos facões…

Mina lembrava, até com muita clareza, como tudo aconteceu– a maneira como os raptores as mantinham (ela e as outras crianças) escondidas durante o dia, e como as faziam caminhar ao escurecer, assim que o sol se punha…, e dizia: “O sofrimento de uma garotinha no meio daquilo tudo é coisa nenhuma. Mas foi ao atravessar a areia que descobri a existência de outra garotinha dentro de mim. Uma menina que era forte e queria sobreviver. Tornei-me então uma Mina diferente. Compreendi que o mundo inteiro estava predisposto contra mim e que, se havia algum bem com que eu pudesse contar, ele teria que vir de dentro de mim mesma.” […] De qualquer modo, não fazia diferença: naquela noite as duas meninas fugiram correndo, até serem recapturadas horas depois. “Na vida é preciso ter cuidado”, dizia Mina, “para não confundir desejos com realidade. Nós confundimos e pagamos por isso.” […] “Eles retiraram de sua corda o balde de apanhar água no poço”, contava ela, “e me disseram que, se eu quisesse continuar viva, teria que substituir o balde e baixar até o fundo agarrada à ponta da corda; enquanto eles me faziam descer na escuridão do poço, eu tinha que ficar muito concentrada, em silêncio, pois o mais horrível de tudo era que eu nem sequer podia me permitir tremer de medo, do contrário havia o risco de a corda escorregar-me entre os dedos. Seria o fim.” […]

E soluçava mansamente. “Estou chorando”, dizia, “porque ainda guardo muita raiva deles não terem dado nenhuma chance de sentir medo. Sabia que logo estaria atingindo a parte mais funda e mais escura do poço, onde ficava a água, mas tinha que reprimir o sentimento de pavor. Simplesmente não havia outro jeito! Do contrário, a mão não se firmaria, por isso eu me concentrava e o pensamento não se desviava um instante da corda e dos meus dedos que a agarravam. Havia outra garotinha do meu lado, outra Mina, que se desmanchava de medo quando seu corpo estava a um triz de tocar a água fria e escura, povoada de cobras e coisas escorregadias, mas eu precisava me dissociar dela para concentrar-me na corda. Quando me tiraram do poço, fiquei cega durante dias, não porque não fosse capaz de ver, mas porque já não estava interessada em olhar para o mundo” (Mernissi, 1996, p. 194-195).

Observamos que em certas situações, tal como ocorreu com Mina há tempos no distante Sudão, e ainda hoje, em diferentes partes do mundo, acontecem situações tantalizantes, tanto físicas como emocionais. Há relações familiares que podem impor muito sofrimento, pela natureza traumática dos vínculos precoces pais-crianças, rígidos e de caráter sádico, com graves alterações na interação, podendo gerar abusos e maus-tratos. Quando perpetuado, pode resultar em perda do cuidado transgeracional.

Com sua violação ao corpo e à psique infantil ou adolescente em desenvolvimento, a violência é também um ataque à possibilidade de transformar a própria violência infantil em vitalidade, podendo observar e agir adequadamente no mundo exterior. Havendo prejuízo na capacidade da observação do real em conjunto com o sonhar e devanear, ocorre a perda desse material nutridor, com o conseqüente empobrecimento da vida simbólica. Inseguro para distinguir o sonho da realidade, também o sono do jovem em desenvolvimento pode ficar impregnado de um estado de ansiedade causador de pesadelos, tendo como conseqüência uma quebra na possibilidade, enquanto ser humano, de manter a noção de sua continuidade de ser no tempo e espaço transformados.

Na clínica essas situações podem se apresentar e ser revividas de várias maneiras. Ao acompanhar duas jovens mulheres em análise, entrei em contato com experiências de abusos sofridos na infância e adolescência, e com as repercussões que estas acarretaram na construção da subjetividade e na vida relacional delas.

 

Mônica

A única filha de uma mãe solteira recordou que a avó e o tio maternos passaram a ajudar sua mãe a criá-la logo após seu nascimento. Ressentiu-se da falta do pai para protegê-la, quando o tio materno a estuprou aos 7 ou 8 anos, e manteve relações sexuais com ela através de ameaças e terror durante aproximadamente 10 anos. Falou sobre isso com muita raiva e horror, dizendo como teve a infância e a adolescência prejudicadas por essas violências. Além disso, era muito maltratada e controlada pelo tio, que a impedia de conviver com as crianças de sua idade.

Falava muito sobre os abusos sexuais do tio, homem adulto, que aconteciam sem que sua mãe tivesse conhecimento. A avó tampouco a defendeu. Ao contrário, sentia-se pressionada indiretamente por ela para que atendesse aos desejos de seu filho. Engravidou aos 13 anos, e o tio a levou para fazer um aborto.

Na adolescência engordou muito, e via-se deformada. Somente quando estava terminando o colegial conseguiu contar à mãe o que se passava. Recordou que fizera mais dois abortos durante o período da faculdade, conseqüência de relacionamentos onde não se sentia envolvida afetivamente.

 

Vera

Após trabalhar sua dor pela perda paterna na infância e pelas fragilidades maternas, que reiteradamente a alertava sobre perigos que poderiam acontecer além das relações familiares, começou a se referir mais diretamente sobre situações de abuso que viveu durante sua adolescência. Essas situações ocorreram com um adulto que convivia com sua família, investido de figura de autoridade paterna.

Expressava seus sentimentos de tristeza pela impossibilidade de contato prazeroso com o próprio corpo, vivenciado como um corpo estéril, submisso, vitimado, preso a uma condição insuportável de luto e de morte do próprio desejo. Em decorrência desse tormento paralisante, a aproximação de outro ser humano ficava impedida por ser assustadora. Ainda assim, via na análise uma possibilidade de retomar contato com aspectos transformadores dos próprios afetos e da própria mente.

De acordo com Alvarez (1994, p. 161), o processo de aprendizagem da aceitação da dor, da perda, do trauma ou do abuso é complexo, longo, nem sempre visível e com certeza não necessariamente verbalizado; e em situações assim, cujo trauma é mais severo e mais crônico, é necessário às vezes esquecer o trauma para poder ser capaz de lembrar. Na análise sempre há a tentativa do resgate da capacidade de sentir e poder pensar a dor, permitindo a aproximação através do uso da ilusão mitigando a violência, da sua utilização de modo transformador para que o processo de humanização possa ser retomado e ampliado. Quando no processo psicanalítico surgem situações de interações de abuso, é necessário manter o desejo de acompanhar esse percurso, ainda que, por suas contradições, o manejo deste seja fatigante, como bem disse Winnicott (1947/1978, p. 341). É necessário suportar o sofrimento para permitir o surgimento do material, a fim de que possamos discriminar fantasia e realidade, compreender os elementos concretos que trazem o sentido terrível da agressão, prova do crime cometido no corpo contra a alma. É vital oferecer a condição de aproximação cautelosa, para favorecer a possibilidade de contato e de reconhecimento com o “corpo roubado e da alma assassinada”.

Para Tesone (2005, p. 108-109), quando há um corpo roubado, o prejuízo se faz corpo… no corpo. Isso ocorre quando a repugnância, associada a uma “estranha excitação” acontece, fazendo com que o corpo que assim reage é ou foi usado para dar prazer ao outro, independente de sua vontade, e passa a ser odiado e merecedor de castigo. A excitação gerada no corpo da menina abusada pela efração da excitação provinda do exterior, sem consentimento nem desejo, produz um efeito traumático. Tal corpo, que responde de maneira incontrolada à excitação externa converte-se, ele mesmo, em um corpo externo, em um desdobramento do eu. Esse corpo, que a faz sentir coisas, é e não é o seu corpo. No entanto, a excitação produzida não a faz ser desejante, pois é uma sensação des-subjetivante. É um gozo associado à pulsão de morte, desligamento das pulsões que desestrutura e aniquila a capacidade desejante. Não intervém o desejo, é uma excitação roubada, é uma fraude, pois dispara a excitação pulsional sem o consentimento do sujeito.

Nas suas Notas sintéticas, Paul Gauguin (2003, p. 12) afirmou:

A pintura é a mais sublime de todas as artes; ela é o resultado de todas as nossas sensações, e, na contemplação, qualquer um de nós pode criar a história segundo sua imaginação; um simples copo de água é suficiente para submergir nossa alma de reflexões as mais profundas; sem esforço da memória, tudo é adicionado num só instante.

Se a pintura é o resultante das sensações, e na sua apreciação há pouca presença da memória, desde Freud e através de muitos outros autores, a psicanálise propõe nosso corpo como a tela em que são pintadas nossas primeiras sensações, onde fazemos nossos primeiros registros mnêmicos, a partir de nossas vivências corporais e relacionais. Essas vivências podem ser de desconforto pela fome, pelo frio, pelo desespero. Expressas pela descarga motora, na exasperação sob a pressão e a urgência da necessidade, podem ser transformadas em experiência de bem-estar e alívio quando houver uma ação específica e adequada pela atenção de quem propicia uma ajuda exterior, oferecendo a possibilidade para a compreensão mútua, para o entendimento com outrem, na subjetividade compartilhada da relação mãe-bebê. Para Winnicott (1956), isso se torna possível quando a mãe pode estar no estado de preocupação materna primária, e sendo sensível ao atuar como mãe suficientemente-boa, conseguir tolerar inicialmente a onipotência do bebê, de modo que a ilusão se torne possível desde o início da sua vida relacional. Para que essa interação ocorra de modo a favorecer a estruturação do psiquismo em formação, é necessário que isso ocorra através de uma experiência de brincadeira na relação mãe-bebê, já que 1971 Winnicott insiste que isso é universal, e próprio da saúde.

Ao formular sua teoria do pensamento, Bion (1962/1985) também realça a importância dessa relação inicial mãe-bebê, que pela capacidade materna e através da sua rêverie, isto é, de sonhar e pensar o desconforto do seu bebê, converte os dados sensoriais vivenciados pelo bebê em elementos alfa e proporciona à psique infantil o material necessário para os pensamentos dos sonhos, e portanto a capacidade de acordar ou dormir, de elementos de estar consciente ou inconsciente pelo psiquismo rudimentar, em formação. O autor alerta para o risco de fracasso se houver ruptura nesse interjogo na relação mãe-bebê, concordando com Winnicott (1947/1978), da importância e da necessidade de que o processo de desilusão, que se estabelece após o período da ilusão, seja gradual e não deve ser apressado, para que o bebê não sofra um trauma. Essa interação deve incluir todos os sentimentos que a mãe vivencia nessa relação.

Kauffmann (1997) detalhou esse sentimento, denominando-o de “natural ódio materno”. Embasando-se em Nakano (1994), introduz o conceito intersubjetivo de “teasing benigno”, uma representação plástica da coexistência de amor e ódio maternos, graças à aceitação inconsciente do ódio por parte da mãe. Abre-se aí a possibilidade de exercer a agressão através de um modelo de brincadeiras faz-de-conta-pois-é-só-de-brincadeira, que surge espontaneamente na interação mãe-bebê. A mãe posterga gentilmente a realização do desejo do bebê. Isso ocorre a partir do décimo primeiro mês de idade do bebê, quando o bebê já iniciou sua capacidade de responder às rápidas alterações entre dois tipos de metamensagens: uma que diz: “é só brincadeira” e outra, “é pra valer” e na qual os sentimentos hostis da mãe assumem um caráter benigno, bordejando, mas não ultrapassando, os limites de tolerância do bebê, que são diferentes em cada etapa de seu desenvolvimento emocional. Esse brincar dá início à possibilidade de percepção das fantasias e idéias do início da vida do bebê representadas na mente adulta, reintrojetando-as e utilizando-as como representações de seu próprio pensamento.

Citado por Kauffmann, Sperling (1953) nos diz:

O jogo do teasing promove o fortalecimento da sensibilidade emocional e inibe a expressão dos impulsos hostis sob a forma de agressão física. Sob a mútua compreensão do caráter de brincadeira da relação, que tem seus limites reconhecidos inconscientemente, tais condutas promovem empatia e compreensão.

Parece ser uma característica do modo de pensamento dessa idade, que não haja correspondência entre o mundo imaginário e a realidade externa. Não surpreende que a diferença entre os modos de pensamento “equivalente e faz de conta” tenha que ser bem definida, e que a lacuna com relação à realidade presente freqüentemente seja exagerada. Fonagy & Target (1996) alertam que, se isso não for garantido, fica imediatamente claro quão ameaçador parece, para a criança, o isomorfismo das realidades interna e externa, devido à sua compreensão limitada das implicações e dos perigos reais dos acontecimentos.

Durante a vida infantil, o jogo do faz de conta ocorre espontaneamente entre as crianças dos 4 a 6 anos de idade. Período de início da socialização mais ampla que insere a criança nos relacionamentos grupais. Inclui verbalizações com alterações temporais, enquanto as crianças estão criando a cena e o script do jogo. No desenrolar deste, a verbalização retorna ao tempo presente e é fundamental para a integração da realidade psíquica com sua experiência emocional através dos modos de “equivalência psíquica” e faz de conta. Fonagy & Target (1996) propõem que, para conseguir a integração dos dois modos de experiência criando uma realidade psíquica plenamente mentalizada, a criança precisa experimentar diversas vezes três aspectos: seus sentimentos e pensamentos atuais, a representação destes estados mentais na mente de seus objetos, e a estrutura fornecida pela perspectiva do adulto, normalmente orientada para a realidade. A estrutura fornecida pelos pais ou por outras crianças parece um aspecto fundamental desse modelo. A criança precisa que um adulto ou crianças mais velhas possam brincar com ela, de forma que ela perceba suas fantasias e idéias representadas na mente adulta, reintrojetando-as e utilizando-as como representações de seu próprio pensamento.

Essa necessidade se reapresenta intensamente na adolescência, quando há a busca da compreensão da transformação do corpo infantil no corpo adulto.

Aos desencontros que podem surgir nessas interações, Ferenczi (1933/s.d.) chamou de Confusão de línguas entre adultos e as crianças às repetiçõesquase alucinatórias de acontecimentos traumáticos ocorridos na infância e adolescência através de seduções incestuosas. De acordo com o autor, a criança e o adulto se amam, sendo que este está na função de cuidá-la. A criança pode buscar numa fantasia brincalhona de contato com o adulto, e esse jogo pode até tomar formas eróticas, mas permanece ao nível da ternura. O adulto com predisposição patológica confunde a brincadeira infantil com os desejos de uma pessoa sexualmente madura e, perdendo o controle sobre si mesmo, dá à criança uma resposta na linguagem da paixão. Ao concretizar o relacionamento sexual, violenta a criança que, por medo do adulto, rende-se à vontade do agressor, submetendo-se a ele, esquecendo-se totalmente de si mesma e identificando-se com o agressor. A brincadeira que até então era de pouca importância, passa a ser um ato a ser punido. O adulto, irritado e atormentado pelo remorso, carregado de ansiedade culposa, pode assumir que “Ora, é apenas uma criança, ainda não sabe nada, esquecerá tudo isso”. Porém, a transformação na vida emocional da criança com esse tipo de identificação acarreta nela a introjeção do sentimento de culpa do adulto, ficando confusa, dividida, inocente e culpada, e com sua confiança destruída no testemunho de seus próprios sentidos. Fica então impossibilitada de reconhecer e expressar claramente seus próprios sentimentos.

A criança ou o jovem, quando vítima de abuso incestuoso, também sofre o que Bollas (1992, p. 192) chamou de “des-estruturação” da função paterna. Excitada e invadida sexualmente, se vê projetada de volta para uma relação com a mãe, a mãe primitiva, de seus três primeiros anos de vida. Esse projetar é um trauma temporal, uma distorção do tempo, uma vez que a criança é transportada para uma vida passada, perdendo a possibilidade de manter o objeto intrapsíquico que facilitaria sua evolução para a independência. Em conseqüência disso, a criança permanece presa ao “mundo da mamãe”, fraco e desestruturado.

Utilizando o poder dos relacionamentos afetivos, adultos provocam abusos que foram reconhecidos por vários autores como o “assassinato da alma”. O termo surge nas Memórias de Schreber. Freud (1911/1996, p. 42-43) nos diz numa nota de rodapé que esse é um tema que ecoa excessivamente alto por todo o livro, mas se absteve de apresentá-las, por razões éticas. A partir do texto de Freud alguns autores pesquisaram, ampliando questões sobre o sadismo paterno e as relações familiares de Schreber, propondo a existência de segredos compartilhados pelo irmão com os membros femininos da família, ou seja, a mãe e uma ou mais das irmãs de Schreber, que acobertariam esses abusos para manter a “paz familiar” Niederland (1959/1972), Katan (1959/1972).

Shengold (1975, 1979) define o termo “assassinato da alma” como a designação dramática de certa categoria de experiências traumáticas. Seriam aquelas situações repetitivas e crônicas, superestimulações alternadas com privação emocional, e que são deliberadamente provocadas por outra pessoa. Ainda segundo esse autor, o termo foi introduzido por Strindberg em 1887 num artigo sobre Ibsen, que utilizou o tema repetidamente. Em 1886, Ibsen falava sobre um pecado “misterioso” mencionado na Bíblia, para o qual não há perdão e que envolveria o “matar o instinto para amar”. Tanto Ibsen quanto Strindberg escreveram principalmente sobre a destruição das almas dos adultos, apontando que a arena para tal destruição seria a família, ou seja, as relações de intimidade.

Podemos nos deparar com suas conseqüências na clínica.

Tanto para Mônica como para Vera, havia a dificuldade em conter certas manifestações de seus corpos, manifestações estas que, segundo elas, faziam com que se lembrassem que tinham corpo, motivo de seus desgostos. Surgiam ainda as questões relativas à alimentação desregrada e ao desequilíbrio de peso; vivências alteradas no espaço e no tempo, bem como a necessidade de que outras pessoas indicassem que isso ocorria, confirmando assim suas existências. A partir das situações incestuosas a que foram submetidas, para Vera havia a impossibilidade da aproximação com seu corpo erógeno, e para Mônica a utilização indiscriminada do mesmo que a fazia repetir o tema dos abortos realizados desde a adolescência. Vemos aí uma repetição sem elaboração do trauma vivenciado na adolescência. Ao prefaciar trabalho de Julio Aray, Garma (1970, p. 12:) aponta para as conseqüências emocionais da realização de abortos. Diz ele que a realização de abortos danifica as possibilidades sublimatórias do indivíduo. Ressalta ainda que se acentuam as defesas maníacas contra o luto pelo feto perdido, que vão acompanhadas pelo denegrimento do bom objeto externo e interno, o que piora a adaptação à realidade externa do indivíduo.

Também como repetição traumática, podemos pensar em possível falha de interação no jogo do “teasing benigno”, que pode haver ocorrido na metacomunicação dessas mulheres com suas mães no início da vida, impedindo essa interação de constituir-se numa experiência estruturante e prazerosa para ambas.

A presença do tema de possíveis abusos intrafamiliares, “o grotesco e o primitivo” que isso envolve, suas implicações na atual clínica de adultos estão referidas em diversos trabalhos produzidos recentemente na sbpsp. Vários deles fazem menção à disfunção familiar, com possíveis omissões ou frieza materna diante dessa situação. Os autores utilizaram diferentes embasamentos psicanalíticos para a compreensão e a condução de trabalhos dessa natureza. Canelas Neto (2007), Zonana (2007), Weiss (2007), Wehb (2007), Roncada (2007).

Os mitos, a literatura, o cinema e outras áreas de produção humana têm sido utilizados como suporte para nos aproximarmos dessa questão. A busca nos conduz aos Contos das Mil e Uma Noites, obra paradigmática sobre o tema da crueldade e das fantasias de morte relacionadas à sexualidade adolescente feminina. Na atual releitura dessa obra, Piñon (2004) utiliza o termo racontos para enfocar e mostrar prioritariamente a evolução da relação entre uma jovem e uma cruel figura de autoridade.

O processo psicanalítico, tal como ocorre nos racontos, configura-se como uma situação que pode se manter viva ou morrer. Para proteger o trabalho, o analista deve estar atento à sua contratransferência, para não se deixar capturar pelo teasing no seu sentido de “comportamento provocativo”, “implicante”, “importunante”, que esse tipo de interação muitas vezes faz vivenciar intensamente. No trabalho compartilhado, valeria tentar alcançar o “teasing benigno” não vivido, isto é, despertar o “espírito lúdico” e buscar detalhes no calabouço da memória para resgatar, através da utilização da ilusão, a “alma assassinada”, transformando-a em elemento norteador, capaz de auxiliar na adequada alfabetização dos sentimentos e no reconhecimento das qualidades que existem nos relacionamentos humanos– lealdade, astúcia, vaidades, mentiras, verdades.

Para a menina de Minas Gerais, ainda no século xix, resguardada pelo cuidado internalizado de uma amorosa família, utilizando sua função egóica adequadamente estruturada, apropriando-se de seu corpo e nomeando seu desejo, foi possível dizer a seu diário com mais segurança:

Não gosto de muito cuidado. Nossa família tem um homem que nem ao meu caderno eu conto quem é, que gosta de pôr a minha mão entre as dele e me agradar, para agradar vovó. Que horror eu tenho! Fico tão arrepiada que parece que minha mão está em cima da barriga de um calango. Graças a Deus ele já não está fazendo isto mais; parece que já viu que eu não gosto (Morley, 1942/1997, p. 65).

Assim, a capacidade que se inicia com os cuidados amorosos de uma devotada mãe comum, que cuida bem do corpo do seu bebê, torna o jovem capaz de manter o corpo bem cuidado e cuidar bem dos sentimentos relacionados a ele. Permite que a violência da transformação corporal que se sofre na adolescência transforme-se em vitalidade, geradora de prazer, voltada para a proteção e uso adequado do próprio corpo, de sua interação com ele, e das variadas relações afetivas que o ser humano estabelece durante as diferentes etapas de sua vida.

 

Referências

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Endereço para correspondência
Inês Zulema Sucar
Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo SBPSP
Av. Dr. Cardoso de Melo, 1450/203
04548-005– São Paulo SP – Brasil
Tel.: +55 11 3045-1105
E-mail: inesucar@uol.com.br

Recebido em 25.10.2008
Aceito em 10.3.2008

 

 

* Membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo SBPSP.