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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641X

Rev. bras. psicanál vol.56 no.1 São Paulo  2022  Epub 26-Ago-2024

https://doi.org/10.5935/0486-641x.v56n1.07 

Artigo

Psicanálise, crueldade e o coliseu das massas digitais

Psicoanálisis, crueldad y el coliseo de las masas digitales

Psychoanalysis, cruelty, and the coliseum of the digital masses

Psychanalyse, cruauté et le colisée de masses numériques

Vanuza Monteiro Campos Postigo1 

Doutora em teoria psicanalítica.Doutoranda do Instituto de Psicologia. Pesquisadora no Âncora. Coordenadora do Instituto de Capacitação e Aperfeiçoamento Profissional (Icap-rj)

1Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)


Resumo

Neste artigo, a autora explora como o novo território digital, que surge a partir do advento da rede mundial de computadores, se configura como um espaço onde o mal e a crueldade humana se expressam de maneira feroz, favorecidos pelas condições de anonimato e distância. As grupalidades e massas constituídas nas redes formam arenas de haters, compostas por massas de odiadores, usuários da web que se reúnem em um coliseu virtual no qual incitam o linchamento ou o cancelamento de pessoas e instituições. Esses sujeitos, em sua singularidade ou engajados nas massas virais que se configuram continuamente nas redes sociais digitais, são regidos por pulsões mortíferas que encontram lugar nessa nova arena virtual, cuja lógica de funcionamento contribui para que o mal prolifere.

Palavras-chave crueldade; psicanálise; massa digital

Resumen

En este ensayo exploraremos cómo el nuevo territorio digital que resulta del advenimiento de la www se configura como un nuevo espacio donde el mal y la crueldad humanas se expresan de una manera feroz, favorecidos por las condiciones de anonimato y por la distancia remota que les son intrínsecas. Las agrupaciones y masas que se forman en las redes forman arenas de “haters”, compuestas por masas de haters, internautas, que se reúnen en un coliseo virtual en el que incitan al linchamiento o cancelación de personas/instituciones. Estos sujetos, en sus singularidades o comprometidos en las masas virales que se configuran continuamente en las redes sociales digitales, se rigen por impulsos mortales que encuentran un lugar en la nueva arena virtual, favoreciendo la proliferación del mal por la lógica de funcionamiento de las redes sociales digitales: rápidas, virales, dinámicas y anónimas.

Palabras clave crueldad; psicoanálisis; masa digital

Abstract

In this essay, we will explore how the new digital territory that appeared since the advent of the www is configured as a new space, where human evil and cruelty are fiercely expressed, favored by the conditions of anonymity and the remote distance that are intrinsic to it. The groupings and masses that constitute themselves in the networks form arenas of haters, composed by masses of haters, web users who gather in a virtual coliseum in which they incite to lynch, or to cancel people/institutions. These individuals, in their singularities or engaged in the viral masses that are continuously configured in the digital social networks, are governed by deadly impulses that find a place in the new virtual arena, favoring the proliferation of evil by the functioning logic of digital social networks: fast, viral, dynamic, and anonymous.

Keywords cruelty; psychoanalysis; digital mass

Résumé

Dans cet essai, l’auteure explore comment le nouveau territoire numérique, qui émerge de l’avènement du réseau mondial d’ordinateurs, se configure comme un espace où le mal et la cruauté humaine s’expriment de manière féroce, favorisés par les conditions d’anonymat et d’éloignement. Les groupes et masses qui se constituent dans les réseaux forment des arènes de « haters », composées de masses de haineux, utilisateurs du « web », qui se rassemblent dans un colisée virtuel dans lequel ils incitent au lynchage ou à l’annulation de personnes et institutions. Ces sujets, individuellement ou engagés dans les masses virales qui se configurent continuellement dans les réseaux sociaux numériques, sont régis par des pulsions meurtrières qui trouvent de la place dans la nouvelle arène virtuelle, dont la logique de fonctionnement contribue à la prolifération du mal.

Mots-clés cruauté; psychanalyse; masse numérique

Considerações iniciais

Quais seriam as formas inéditas de crueldade que um psicanalista do ano 2000 deveria interpretar, com renovado frescor, fora e dentro da instituição?

JACQUES DERRIDA

Essa indagação de Jacques Derrida (2001), proferida nos Estados Gerais da Psicanálise, evento realizado no ano de 2000 na Sorbonne, não cessa de nos interrogar ainda em 2022. Vamos aqui seguir a provocação de Derrida e explorar como, duas décadas depois, a crueldade assume formas viralizadas e massificadas, com o advento da internet, as tecnologias da informação e comunicação (tics) e as redes sociais virtuais, que se expandem e se apresentam como mais um espaço no qual nos deparamos com um para além do mal-estar na civilização, com a crueldade humana.

Como vamos argumentar neste texto, encontramos nas redes sociais virtuais um novo coliseu, onde as massas digitais se reúnem para odiar e dar vazão à sua crueldade, ensejando novas expressões linguageiras, como linchamento virtual, cancelamento, haters e outras expressões forjadas nesse universo conectado, que funciona com a lógica e a dinâmica próprias à internet.

Na referida palestra proferida na Sorbonne, Derrida aponta para um silêncio que observava no discurso da psicanálise no que tange às questões da soberania e da crueldade. Sabemos que, embora não trabalhados diretamente, são temas presentes em diversos momentos da teorização de Freud, mas Derrida sustenta que, sobre esses temas, não apenas Freud, mas “a psicanálise como tal, em seus discursos estatutários e autorizados, mesmo na quase totalidade de suas produções, ainda pouco disse ou quase nada teve a dizer de original” (2001, p. 19).

Nessas décadas que sucedem à fala de Derrida, já se produziu original e consistente material sobre os temas da crueldade e da soberania, mas sem dúvida existe um vasto campo a ser explorado. São temáticas diretamente ligadas à constituição e ao funcionamento psíquico do sujeito e à sua inserção na cultura – conforme apontado pelo próprio Freud –, reconfiguradas na interação dele com a cultura e o tempo histórico a que pertence. Assim, a psicanálise deve estar à escuta, atenta ao contemporâneo e a como as manifestações da crueldade se apresentam no intra e no interpsíquico.

A questão do poder, da submissão, do domínio sempre esteve presente na teorização freudiana, ainda que nas entrelinhas, mais ou menos explicitada pelo autor. Podemos evocar, mesmo que de forma breve, alguns dos textos iniciais de Freud para ilustrar isso. Nas cartas a Wilhelm Fliess (Masson, 1986), apresenta o complexo de Édipo e o parricídio, cuja teorização traz em si a marca da violência, considerando que se trata de um mito referido a um assassinato e ao ódio. Segundo Rozitchner, seria “a partir daqui que aparece a primeira instauração da forma despótica para Freud. A qual significa que tudo o quanto pense terá que estar necessariamente regulado pela lei do Outro” (1989, p. 35).

Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905/1986g), Freud explora vários temas, mas destacamos em seus estudos o sadismo e o masoquismo infantis, questionando o caráter primário ou secundário da crueldade. Alguns anos depois, reencontramos o ódio e o assassinato em Totem e tabu (1913/1986f), com a abordagem freudiana da formação da sociedade, em cuja base estaria o mito do homicídio coletivo, a horda primitiva eliminando o pai despótico. Nesse texto, Freud busca o fundamento histórico do mito de Édipo, tentando demonstrar que a história individual de cada sujeito se entrecruza com a história da própria humanidade. Além disso, é nessa obra que se anuncia a renúncia ao pulsional agressivo como condição da sociabilidade civilizada, restringindo-se e inibindo-se os desejos pulsionais violentos, perspectiva que Freud explora em diversos textos ao longo de sua teorização.

A temática da violência e da crueldade aparece em vários momentos. Por exemplo, em Além do princípio do prazer (1920/1986a), Freud introduz o conceito de pulsão de morte; em Psicologia de grupo e a análise do ego (1921/1986e), explora o funcionamento do amor e do ódio nas grupalidades e trabalha o narcisismo das pequenas diferenças; em “O problema econômico do masoquismo” (1924/1986d), discute o caráter fusional e desfusional da pulsão de vida e da pulsão de morte; em O futuro de uma ilusão (1927/1986b), fala da exigência civilizatória de renúncia às pulsões; e em O mal-estar na civilização (1930/1986c), ratifica que a renúncia à satisfação pulsional mortífera é condição de pertencimento de um sujeito a uma cultura.

Em décadas de produção teórica, Freud foi revisando, expandindo e complexificando sua teoria, tematizando a violência intra e interpsíquica, o sadismo, o masoquismo, o ódio, a crueldade, a pulsão de morte, com noções e conceitos sendo apresentados desde suas cartas a Fliess até seus últimos textos. Vamos aqui seguir alguns apontamentos freudianos e de autores que desenvolvem suas leituras para avançar em nossa discussão sobre a crueldade.

Crueldade e psicanálise: algumas pontuações

O conceito de crueldade, conceito confuso e enigmático, viveiro de obscurantismo, na psicanálise e fora dela, pede análises indispensáveis para as quais deveríamos nos voltar.

JACQUES DERRIDA

O já citado filósofo Jacques Derrida é uma importante referência para os estudos psicanalíticos sobre a crueldade. Embora assinale a ascendência latina da palavra crueldade, isto é, “uma necessária história de sangue derramado (cruor, crudus, crudelitas), de crime de sangue, dos laços de sangue” (2001, p. 6), o autor destaca que Grausamkeit é a palavra empregada por Freud,

sem ligação com derramamento de sangue, no caso, para designar o desejo de fazer ou de se fazer sofrer por sofrer, mesmo de torturar ou matar, de se matar ou de se torturar por torturar ou por matar, para sentir um prazer psíquico no mal pelo mal, ou mesmo para gozar do mal radical, em todos esses casos a crueldade seria difícil de determinar ou delimitar. (p. 6)

Derrida segue explicando que “uma crueldade psíquica será, então, certamente, uma crueldade da psique, um estado da alma, portanto do ser vivente, mas uma crueldade não sanguinária” (p. 7). O autor encontrou na filosofia kantiana a questão do mal radical e a compreensão de que a crueldade seria o operador por excelência para a produção do mal (Birman, 2010), e explora essa vertente em interlocução com a psicanálise. Derrida distingue diferentes posições na crueldade, as quais descreve como crueldade por sofrer, por fazer sofrer, por fazer-se ou deixar-se sofrer, deixar sofrer pelo e crueldade pelo prazer no sofrimento (Torossian, 2019).

Podemos observar o vasto espectro desenhado por Jacques Derrida sobre a crueldade e como vai relacioná-la ao gozo e à pulsão de morte. Partindo do conceito psicanalítico de pulsão de morte (Todestrieb), o autor evoca a pulsão de poder ou de posse soberana (Bemächtigungstrieb), uma pulsão de ascendência ou de possessão. Essa pulsão de poder seria, pois, indissociável de Bewältigung – exercício do poder, da ascendência ou da possessão, movimento de apropriação etc. Pereira sugere que o termo Bemächtigungstrieb seria mais bem traduzido por “pulsão de apoderamento”, em que a forma verbal reflexiva promove uma ação de “apoderar-se de” (2007, p. 233).

Conforme explica Binkowski, “a crueldade é inerente à pulsão de poder, a qual, escreve Derrida, é um além de um para além do princípio do prazer, da pulsão de morte, da pulsão de poder soberano” (2018, p. 199). Em consonância com essa compreensão, Torossian (2019) afirma que Jacques Derrida retoma o termo crueldade apontando sua significação de história de sangue derramado e sua relação com o sentir prazer fazendo o mal, problematizando a dificuldade de delimitação da crueldade e sua remissão à pulsão de morte freudiana, trazendo para a discussão a questão de se, além da pulsão cruel de destruição ou de aniquilamento, haveria também uma pulsão de poder ou de posse.

Segundo afirma Mijolla-Mellor (2005), o sujeito que exerce essa crueldade se encontra ante o seu gozo sádico, qualquer que seja seu cuidado para recalcá-lo. Esse gozo sádico, essa crueldade, operadora do mal, que se apresenta como Bewältigung, exercício do poder, da ascendência ou da dominação, encontrou nas redes sociais digitais um novo território para se expressar.

O território digital: seguindo os rastros do novo “lugar do mal”

O mundo permanece no mesmo estado em que sempre esteve; existe sempre a mesma quantidade de bem, a mesma quantidade de mal; mas este mal e este bem percorrem os diversos lugares, as diversas regiões.

NICOLAU MAQUIAVEL

Conforme essa citação de Maquiavel (1532/2009), o mal sempre existiu. Vamos aqui percorrer os diversos lugares pelos quais ele circula, do lugar psíquico à convergência nas redes. É nas redes sociais digitais onde a crueldade tem se apresentado de forma crua e viral.

Mencionamos brevemente que Freud anunciou em seus últimos textos uma psicanálise que apresentou o sujeito da pulsão de morte, da agressividade, do irrepresentável, um sujeito atravessado pelo além do princípio do prazer. O sujeito e a cultura sobre os quais Freud se debruçou desde Totem e tabu até os derradeiros textos ditos culturais, como O mal-estar na civilização, exploraram a sua visão hobbesiana do homem como lobo do homem, homo homini lupus, assinalando que a cultura se funda sobre o assassinato primordial. Para Fuks e Jaques,

Freud transpõe para o papel, sob o título “Reflexões para os tempos de guerra e morte” (1915), suas primeiras elaborações sobre a violência e a categoria do mal na ordem dos fenômenos coletivos. Observa-se na leitura do texto que em nenhum momento Freud tenta explicar a guerra a partir da psicanálise, mas, ao revés, seu objetivo é tomar a violência e a crueldade como realidades do psiquismo, e disso retirar consequências teóricas. A fúria e a obstinação com que então se expressava o desejo de destruição do outro forneciam a medida de que a guerra, a crueldade, a desumanização dos laços sociais não são apenas momentos efêmeros, fadados à superação no futuro. Muito pelo contrário, são acontecimentos inexoráveis, que incorporam um elemento radicalmente social e histórico. Cético, Freud encaminha toda a discussão no sentido de demonstrar a impossibilidade de erradicar o mal, mesmo porque os impulsos considerados negativos são de natureza primitiva. (2019, p. 164)

Conforme afirma Paturet, “Nietzsche e depois Freud situam deliberadamente o mal no coração do homem. ... Freud, espantado com ‘a desilusão causada pela guerra’, escreverá que ‘nenhum progresso é possível na vida psíquica da humanidade’” (2012, p. 1). Vale aqui situar a alusão ao progresso, até então sustentado pela visão positivista de Freud, com base numa ciência e numa evolução que elevariam o sujeito humano do primitivismo totêmico e religioso a uma ascese científica, a qual projetaria o indivíduo a outra categoria, mais avançada e superior. Sabemos que é com a admissão do irrepresentável e com o rochedo da castração que Freud vai finalizar seus estudos, sustentando o mal-estar e a renúncia pulsional no cerne do sujeito e no funcionamento da cultura.

Vemos esse “lugar do mal” sendo evidenciado nas redes sociais e na internet, uma vez que a rede mundial de computadores construiu um novo espaço de sociabilidade. Vivemos tempos hiperconectados, digitalizados, e a relevância das interações nesse novo território virtual demanda que nos debrucemos sobre esse novo espaço e sobre essas interações.

Somos na atualidade os seres digitais da hiperconexão. A tic Domicílios 2020, pesquisa que estuda o uso de tics nos domicílios brasileiros, apontou que há cerca de 152 milhões de usuários de internet no Brasil, o que corresponde a 81% da população acima dos 10 anos de idade no país (Franzão, 2021). Podemos inferir que nos dois últimos anos esses números aumentaram, principalmente após uma pandemia mundial que exigiu o isolamento social e ensejou uma migração efetiva e maciça para uma vida digital e conectada, com uma crescente sociabilidade e interação em redes sociais digitais e o uso das mais diversas tecnologias e plataformas.

Se por um lado essa hiperconexão é possibilidade de trocas sociais construtivas e enriquecedoras para a cultura, por outro lado é potencial de expressão de crueldade, pois as redes sociais digitais, conforme Vasconcelos, permitiram a “visibilidade e a disseminação dos discursos embasados em ódio e preconceitos. A sensação de segurança e impunidade ofertada para os usuários da internet fez com que o ódio fosse identificado em forma de discurso” (2020, p. 116).

Rebs explica que na internet o impacto e a proporcionalidade das ações são imensamente maiores, visto que os participantes do processo são inúmeros, e lista as características determinantes na interação nas redes sociais digitais:

1) Replicabilidade: a informação é facilmente replicada, copiada e passada adiante. Logo, a capacidade de difusão de informação é enorme. 2) Persistência: a capacidade de permanência das informações publicadas nos srs (nos espaços públicos mediados), ou seja, possibilitar a sua perenidade na internet. 3) Buscabilidade: as pessoas e as informações são facilmente “acháveis”. 4) Audiências invisíveis: o público que acompanha a nossa vida virtual não é claro. Com isso, não sabemos exatamente quem está nos “seguindo”, nos “escutando”, prestando atenção no que escrevemos/falamos (como ocorre nos ambientes não mediados). Por isso, temos uma audiência invisível e que nem sempre faz parte do grupo de amigos (ainda mais com a opção de “marcar” amigos em postagens no Facebook, por exemplo). (2017, p. 2515)

A essas características se somam a viralização e o anonimato possíveis nas redes sociais digitais, espaço onde pulsões mortíferas não exigem renúncia, como acontece nos encontros presenciais, ainda que saibamos que a crueldade e o mal participem da vida presencial de forma insistente. Como afirma o filósofo Clément Rosset (1989), a realidade é de uma crueldade indigesta. Ao pensar essa realidade no cenário nacional, Barreira observa que o tema da crueldade na sociedade brasileira está associado ao que denomina violência difusa, “levando em conta sua amplitude e capacidade de irradiação por distintos espaços da vida social. Destaco a noção de o termo difuso permitir qualificar, fundamentalmente, o fenômeno da violência na contemporaneidade” (2015, p. 57).

A figura dos haters, ou odiadores, aparece e ganha relevo no cenário digital. São usuários da internet que publicam falas de ódio ou críticas nos sites de relacionamento social (srs). “Conhecidos como ‘odiadores’ ou ‘trolls’, os haters se caracterizam por serem sujeitos que buscam a violência sem justificativa clara frente à sociedade em suas interações online, ou seja, priorizam o conflito e a disseminação do ódio nos srs” (Rebs & Ernst, 2017, pp. 25-26).

Na superexposição das redes sociais de relacionamento, os haters podem mobilizar e provocar o assassinato virtual de uma pessoa ou instituição, o que é conhecido como cancelamento:

As fachadas são vigiadas full time e em larga escala. A qualquer detecção de erro, indivíduos unem-se para rechaçar a figura do errante, julgando-o culpado através de um código de justiça não institucional. Quanto mais famoso o errante, mais interessante para as mídias, que monetizam com a vida das celebridades, explorarem o caso. Nesse contexto, as práticas de linchamento virtual podem compor a prática de cancelar o outro. (Brasileiro & Azevedo, 2020, p. 82)

Podemos observar que as redes sociais virtuais são as novas arenas romanas, espaço de escoamento do ódio e da crueldade, atualizando o Coliseu romano. A escolha do público sobre quem sobreviveria ou morreria com a gestualização do polegar para cima ou para baixo – como os ícones de interação na internet – tem lugar agora no território virtual.

A nova arena do ódio: o coliseu das massas digitais

Enquanto relação com o objeto, o ódio é mais antigo que o amor, surge da primordial rejeição do mundo externo dispensador de estímulos, por parte do eu narcísico.

SIGMUND FREUD

O fenômeno de grupalidades e de massas vem sendo estudado há séculos, mas agora acompanhamos uma nova configuração, desde o advento da internet e a formação de grupos e massas digitais, que assumem novos contornos e especificidades. Em uma cultura cada vez mais conectada e digitalizada, esse território virtual vem se tornando a praça pública, onde se formam e interagem grupalidades e massas, uma nova arena em que as práticas de sociabilidade se descortinam de forma singular, no que vou chamar aqui de coliseu das massas digitais.

Cabe lembrar que o Coliseu de Roma, talvez o mais conhecido e emblemático símbolo do Império Romano, era um anfiteatro, com capacidade para até 80 mil espectadores, onde se desenrolavam espetáculos e lutas entre gladiadores, e entre eles e feras, até a morte. O espetáculo era orquestrado para e pelo imperador, que – junto com o clamor da massa – escolhia quem sobreviveria no cruel espetáculo das lutas. Vale reforçar que o polegar para cima ou para baixo é ícone das interações nas redes sociais digitais.

Nesse coliseu das massas digitais ressurgem os “espetáculos” de carnificina (agora virtuais), o clamor da massa e os polegares decisivos sobre a vida e a morte digital alheia. O amor, o ódio, a crueldade, a pulsão de morte ocupam uma nova e infinita arena. No coliseu das massas digitais, a crueldade assume potencial ubíquo e virtual, com o poder de contágio típico das massas, exacerbado pela lógica das redes sociais digitais.

A vida em rede ensejou a criação de uma massa com conformação diversa daquela trabalhada por Freud em momentos distintos de sua teorização e celebrada no texto definitivo Psicologia de grupo e a análise do ego, pois acompanhamos agora, conectados, a ascensão e a multiplicação da formação de massas virtuais na sociedade da informação e da comunicação. Embora possamos aplicar a leitura freudiana sobre os fenômenos de massa ao funcionamento desse coliseu, essa massa tem especificidades, como a viralização suscitada pela comunicação imediata e em massa e a velocidade das formações de grupo.

Como afirma Freud, a “massa é impulsiva, volúvel e excitável” (1921/1986e, p. 18). Mas destacamos que a massa virtual apresenta uma característica inédita: essa massa conectada – diversa daquela estudada e conhecida por Freud – prescinde de corporalidade ou de territorialidade, expandindo-se e disseminando-se em um espaço virtual sem fronteiras ou limites físicos, em uma forma de interação globalizada. É uma massa com tamanho poder de sugestão e contágio que viraliza no ambiente virtual, assumindo em sua associação com o ódio e a crueldade um potencial nefasto.

Nesse sentido, os ditos textos culturais de Freud nunca foram tão pertinentes e atuais como o texto das massas, que elucida os fenômenos de identificação, ascensão de lideranças, imitação, suspensão de recalques, amores, ódios etc., fenômenos esses que se repetem no funcionamento dos vários grupos virtuais formados nas redes sociais e que explicam a viralização do ódio e da crueldade virtuais contemporâneos e seu atravessamento pelos mecanismos da sugestão e do contágio.

Podemos agora acrescentar que o grupo virtual é mais um espaço de observação para a psicanálise, mais um espaço onde se desenrola a problemática do narcisismo das pequenas diferenças, bem como o fenômeno grupal de amor entre si e ódio ao outro. Sabemos, a partir do texto das massas, que a psicologia do grupo é a psicologia do eu, e que o modo de funcionamento do grupo é regido como uma espécie de unidade, na qual estaria em cena o modo de funcionamento individual de cada componente do grupo. Na massa, o indivíduo adquire um sentimento de pertencimento e poder invencível, e a uniformidade e o amálgama com o grupo permitem liberar sentimentos e desejos até então mantidos sob coerção.

Se – como na citação de Freud que abre esta seção – entendemos que o ódio é primordial, que é constitutivo do laço originário, temos uma pista para compreender a potência do ódio como laço social, primitivo e arcaico. O ódio faz laço com uma corda que, em vez do enlace, aprisiona, sufoca, enforca. Laço letal. Laço que parece ser favorecido por usuários das redes sociais, os haters, pelo seu caráter de ato e pelo potencial escoamento do pulsional mortífero, intrínseco ao sujeito, no território digital.

Considerações finais

Para Freud, a existência do mal no ser humano seria intrínseca, constitutiva de sua construção subjetiva, com lugar central no processo civilizatório pela exigência de renúncia à satisfação desse mal.

É com essa natureza intrínseca ao sujeito que vai sendo demolida a ilusão de uma erradicação do mal. Na compreensão freudiana, trata-se agora de o sujeito ser capaz de – a partir da renúncia pulsional, da não satisfação, da repressão e do recalcamento das pulsões – encaminhar essas pulsões destrutivas, o mal e a crueldade, para determinados objetos específicos e permitidos socialmente.

Esse direcionamento encontra escoamento no coliseu das massas digitais. O ódio é viral. Seu poder de contágio foi pontuado por Freud em seus estudos sobre as massas, sendo legitimado pelo narcisismo das pequenas diferenças. Nessa arena do território virtual é permitido que se goze da crueldade. O mal pode ser aí extravasado.

O exercício da pulsão de apoderamento, da pulsão agressiva, acontece nas redes sociais digitais através da violência dirigida aos mais diversos objetos que se tornam alvo de cancelamento ou linchamento virtual. O coliseu das massas digitais exibe o crudus, o sangue derramado, ainda que seja virtual.

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Recebido: 10 de Fevereiro de 2022; Aceito: 03 de Março de 2022

Vanuza Monteiro Campos Postigo vanuza.postigo@gmail.com

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.