Estimulada pelo convite dos editores da rbp a escrever sobre a formação do analista, tema que me é muito caro, fui fisgada pela citação de Freud de 1923, em que ele se refere ao poder transferido ao analista como causa mesma do processo analítico, à qual corresponde uma exigência ética para o analista. Essa preciosidade, resgatada pelos editores, consta em uma nota de rodapé do texto O ego e o id. Reproduzo o trecho a seguir:
Talvez possa depender, também, se a personalidade do analista permite que o paciente o coloque no lugar do seu ego ideal, o que envolve a tentação para o analista de interpretar o papel de profeta, salvador ou redentor do paciente. (Freud, 1923/1976, p. 66, grifo nosso)
Ao longo da extensa obra freudiana são muitas as referências às questões da técnica psicanalítica, em que direta ou indiretamente o autor aborda as dificuldades na condução da análise, dizendo que o maior entrave está no manejo da transferência – transferência que é ao mesmo tempo motor e obstáculo, meio e finalidade de uma análise. Os chamados artigos técnicos têm a característica de serem abertos à individualidade do analista, de funcionarem mais como vetores da prática analítica, expressando princípios gerais dessa prática, do que como normas rígidas a serem seguidas. Não se deve esquecer que Freud reúne em apenas duas regras o exercício da psicanálise: a atenção flutuante, do lado do analista, e a associação livre, do lado do analisando – a primeira, como função a ser desenvolvida pelo analista; a segunda, como ponto de chegada, e não necessariamente de partida. Há ainda uma terceira regra, alvo de debate entre psicanalistas e incompreendida por muitos: a lei da abstinência. Cabe ao analista conduzir a análise, ou melhor, conduzir-se dentro do processo analítico, sob a égide da abstinência. A abstinência se relaciona com a função do analista, e sabemos da dificuldade que é sustentar uma posição de renúncia, não gozar do poder conferido pela transferência, não ser “tentado” por ela.
Freud não nega que a sugestão possa tomar carona na transferência, na medida em que considera a sala de análise um campo incestuoso, onde circulam afetos antigos, que se infiltram no presente do discurso e exigem do analista discernimento para saber que ele apenas se oferece como objeto da transferência, mas não é o objeto. Entendo, portanto, que a abstinência é, em última instância, sexual, no sentido freudiano do termo, e exige do analista o trabalho de regular suas próprias pulsões, que também circulam no campo da análise. Por isso se diz que a posição do analista é a de um anunciador de limites (Rocha, 2011). O enquadre, o tempo de sessão, a frequência, a regra fundamental indicam para o analisando que ele deve transferir toda a sua produção psíquica para a fala, mesmo sabendo que tropeçar na resistência é inevitável.
Exatamente por esse caráter flexível, aberto à singularidade do analista na condução do processo analítico, podemos observar que muitas das questões técnicas resultam, por vezes, em questões éticas, como está subentendido na citação do texto de 1923, o que nos leva inevitavelmente à formação do analista.
O longo caminho para a formação de um analista tem um ponto de intersecção com o livro Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, que funda a linhagem do Bildungsroman, o romance de formação. Na apresentação do livro, Marcus Vinicius Mazzari escreve:
Bildung (formação) tem uma longa história atrás de si, começando com a sua identificação com o sentido primeiro Bild (imagem, imago) e desdobrando-se na ideia de reprodução por semelhança, Nachbildung (imitatio): nessa acepção original, o arquétipo de Bild (imagem) e da forma verbal bilden (formar) estaria relacionado com o próprio Criador, que “formou o homem à sua imagem e semelhança”. (2006, p. 7)
Como integrar a pré-história do termo formação, relacionada à ideia de reprodução por semelhança, com um ideal de formação que respeite a individualidade e a singularidade na aparente uniformidade de uma formação dentro de um instituto de psicanálise?
Ainda com o livro em mente, vemos o próprio Goethe assinalar um caminho ao enfatizar na voz de Wilhelm o seu ideal de formação: “Formarme plenamente, tomando-me tal como existo” (1795-1796/2006, p. 284). Essa frase um tanto paradoxal aponta para tornar-se aquilo que se é, o que por si só já se afasta de um modelo de formação apoiado na ideia de formar alguém “à imagem e semelhança do criador”, o que dentro de um instituto de psicanálise é o mesmo que querer perpetuar uma linhagem analítica. Linhagem e filiação são dois conceitos distintos: o primeiro não tolera a diferença e a singularidade; o segundo reconhece a pertinência de uma ascendência. Diria que no desejo de linhagem estamos no campo do narcisismo, quiçá da perversão de uma função, expressa no desejo de formar alguém igual a mim, enquanto na filiação o campo é triangular, alguém pode ser melhor que eu e se tornou o analista que é.
Piera Aulagnier, ao discutir essa temática em um instigante artigo, aponta para o risco de a análise transformar-se no que ela chama de didática de apoio, que sustenta os dois participantes: “O candidato sustenta o alvo do poder do analista, o analista, o desejo que o candidato, de uma vez por todas, alienou em seu proveito” (1969/1990, p. 82). Sabemos que a parte inconsciente não analisada do analista desperta ao se encontrar com o analisando, o que exige daquele uma postura ética para evitar conluios inconscientes ou até conscientes. A esse respeito, encontramos no texto “Caminhos da terapia psicanalítica” uma passagem exemplar:
Recusamos enfaticamente transformar o paciente, que se entrega em nossas mãos buscando ajuda, em nossa propriedade, formar o seu destino para ele, impor-lhe os nossos ideais e, com a altivez do Criador, formá-lo à nossa semelhança, para a nossa satisfação. (Freud, 1919/2017a, p. 198)
A citação freudiana ecoa como um alerta ao analista que, no trabalho com a transferência, talvez se sinta “tentado” a funcionar como salvador, redentor, profeta ou modelo a ser seguido. Submeter o tratamento analítico aos ideais do analista ou de uma instituição “é apenas violência, mesmo que encoberta pelas mais nobres intenções” (Freud, 1919/2017a, p. 199).
Estamos adentrando o campo da análise do analista, um dos pilares fundamentais de uma formação analítica e também o ponto mais sensível, por incluir a figura do analista didata ou o analista com função didática e a instituição formadora. Historicamente a figura do analista didata nasce da exigência de que “todo aquele que quiser executar uma análise dos outros deverá primeiro submeter-se a uma análise junto a um especialista” (Freud, 1912/2017b, p. 100).
Com o surgimento dessa exigência ética indiscutível, também nasceram as instituições como “garantidoras” da psicanálise, como aponta criticamente Menezes:
A análise didática como prescrição por parte do grupo societário imbuído da função de garantir a psicanálise, função imaginariamente estabilizadora de uma identidade grupal, na verdade, fictícia e que vem se sobrepor e se impor à análise dos analistas que buscam formação junto à instituição. (2015, p. 39)
Menezes aponta para a institucionalização da análise ou para o risco disso, que pode se expressar no conflito: vou à análise para cumprir uma exigência institucional ou da experiência de análise brota o desejo de me tornar analista? Sabemos que essas são duas formas de chegar a uma formação analítica. No entanto, parto do pressuposto de que um analista em formação é alguém que necessita de análise por seus próprios complexos inconscientes que o fazem sofrer. A análise de um analista em formação é antes de tudo uma análise terapêutica. Independentemente da forma como alguém chegue à análise, ela precisa transformar-se em uma análise terapêutica, que permita ao sujeito, no decorrer do processo, descobrir ou confirmar seu desejo de ser analista.
Somos enfáticos ao indicar a análise para o recém-chegado, mas paradoxalmente não usamos a mesma ênfase para afirmar que todos os analistas precisam de (re)análise como parte do reconhecimento de que o tropeço é inevitável. Durante o trabalho analítico com nossos analisandos, podemos inadvertidamente despertar áreas recalcadas ou nunca acessadas de nossa vida psíquica. Um exemplo disso foi escutar um analista muito experiente revelar, enquanto eu ainda fazia meus seminários, que retornou ao divã após perceber que havia recebido três jovens mulheres para análise e nenhuma tinha ficado. Algo nele acendeu, pedindo escuta. Se isso faz parte da ética de cada analista, penso que também precisa ser veiculado dentro das instituições como prática recomendável, inserida na cultura institucional. Talvez uma das razões para a baixa adesão dos analistas às reanálises esteja associada à ideia de que ser analista é um “lugar a chegar” após o término das tantas etapas da formação, e não uma função que precisa ser preservada. Se assim fosse, a formação de um analista não seria diferente de uma carreira burocrática, em que depois de tantos anos, com tantas horas de análise e de supervisão e um número xis de seminários, o sujeito estaria apto a ser analista. Voltar ao divã pode representar um perigo a essa imagem assim construída e pôr em risco o ser do analista?
Tornar-se analista está intrinsecamente associado com a experiência de se analisar e com a convicção de ter sido beneficiado por ela. Penso que é essa experiência que se transmite em um divã, para qualquer um que chegue ao nosso consultório, e especialmente para aquele que deseja pôr alguém no seu divã. Com sábias palavras, Francischelli afirma: “Um psicanalista floresce aspirando pó de divã até estar apto a instalar outros nesse lugar” (2022, p. 21). “Aspirando pó de divã” indica tempo, o tempo necessário para saber de si, para vasculhar seu próprio inconsciente, para entrar no labirinto e sair dele, tantas vezes quantas forem necessárias. Se tem algo que é específico do nosso ofício, e não é comum a outras profissões, é ter que viver a experiência para capacitar-se a indicar a alguém. Por essa razão, a formação analítica não se relaciona exclusivamente com o ensino de psicanálise, com a quantidade de textos estudados ou com o conhecimento de um ou outro conceito, ainda que a instrumentalização teórico-técnica seja um dos pilares da formação analítica. O que torna alguém um analista é o que ele sabe fazer com o seu inconsciente ao escutar a história de sofrimento de outro, e isso nenhuma universidade ou curso oferece.
Tudo isso parece certo e está de acordo com a convicção de muitos. Passamos a ter que manejar outros problemas quando analistas e analisandos habitam o mesmo espaço, participam de decisões que afetam a vida institucional, ou ainda quando os laços sociais entre os membros invadem os divãs. E nem sempre os laços são os mais amistosos. Cecilia Rodrigues,2 em uma das mesas do Congresso Didático da Federação Psicanalítica da América Latina, em 2020, apontou para a tríade em torno da formação analítica: paixão, poder e política. A paixão está relacionada ao poder conferido ao analista pela transferência. Cabe ao analista não abusar desse poder, não exercer o poder sugestivo ou doutrinador favorecido pela regressão transferencial. A política é o terceiro elemento, gerador de uma tensão que se produz no espaço aberto entre a instituição e os divãs.
As instituições são por essência conservadoras, tal como as pulsões humanas, e tendem a resistir àquilo que possa abalar o que está instituído. Por isso, algumas mudanças não acontecem sem barulho. De um lado, na melhor das hipóteses, pretendem formar analistas autônomos; de outro, pela sua própria estrutura, tendem a aplacar e domesticar o que de mais genuíno aparece. Os institutos de psicanálise caminham nessa linha tênue. Uma das formas de observar essa constante tensão é a proposta de que o recém-chegado “esqueça quem era antes”. Antes do quê? Antes de ingressar no Instituto, pois sabemos que algumas instituições tendem a infantilizar os analistas em formação, a tratá-los como quem não sabe de si. Por outro lado, esquecer quem era antes também pode permitir ser tocado por algo novo, deixar algo novo brotar, sem ser colonizado por isso. Sustentar o diálogo geracional talvez reduza o risco, sempre presente, da colonização do pensamento dentro dos nossos Institutos e das análises didáticas, mantendo a fertilidade no encontro com a diferença. Os debates nos institutos de psicanálise precisam abarcar também as mudanças culturais. As discussões em torno das diferenças de gênero, da diversidade sexual, do feminismo, bem como do racismo estrutural, expresso no reconhecimento da quase inexistência de negros e negras em nossas formações, exigem envolvimento dos analistas e ações correspondentes. Ser um psicanalista hoje é acompanhar as mudanças, é estar inserido neste tempo sem estar colado a ele e sem perder de vista o mais fugidio dos objetos com o qual trabalhamos, o inconsciente.
Se essa posição de abertura é recomendável para os analistas em formação, também o é para as instituições. A tensão geracional produzida pelo ingresso de novos postulantes à formação analítica reflete o necessário trabalho das diferentes gerações para abrir-se àquele que chega e faz as perguntas difíceis. É algo similar ao fenômeno da pororoca, conhecido como o encontro das águas dos rios com as águas do mar. Embora esse encontro aconteça o tempo todo, há determinado período do ano em que ele ocorre em maior volume e intensidade, evidenciando que tal encontro não se dá sem alguma turbulência. O diálogo entre as gerações traz a promessa de futuro, de algo que pode ser novamente descoberto e mais uma vez reinventado.













