Espelho, espelho meu…
Vamos começar esta resenha pela curiosa história do nascimento deste livro. Vocês a encontrarão logo nas primeiras páginas de Vaidade: a sedução pelo desejo mimético.
O autor conta que, certa vez, um amigo, com manifesta generosidade, lhe emprestou um livro. Uma caminhada matinal, uma conversa para distrair do cansaço, e o desejo de uma nova leitura foi despertado.
Livro em mãos. Foi então que Junqueira, com prática em atenção flutuante, começou a passear pelas palavras, como que distraído, e algo lhe prendeu fortemente a atenção – algo que há anos o interessava e vinha ocupando com insistência seus pensamentos e estudos voltados à psicanálise: nada menos do que a misteriosa metapsicologia.
Logo saberemos que a índole metapsicológica2 do autor estudado – neste caso, alguém que nós, psicanalistas, pouco conhecemos, Matias Aires Ramos da Silva – será posta em evidência para satisfação e surpresa do leitor.
Quem é Matias Aires? Alguém ilustre, cujo nome está no mapa da cidade de São Paulo para identificar uma rua do bairro da Consolação. Era o que sabíamos. Um nome apenas. Mas logo descobrimos que esse quase desconhecido se antecipou a Freud em mais de um século para compreender melhor o sentimento de vaidade.
Vaidade: este estado de espírito que vários de nós conhecemos, desde há muito tempo, por meio de uma das fábulas dos irmãos Grimm, Schneewittchen – em português, Branca de Neve. Também a conhecemos, secretamente, dentro de nós mesmos.
O autor ressalta que seu livro nasceu de forma casual. Mas, como psicanalista que é, encontrou questões metapsicológicas na leitura do livro emprestado e reconheceu que nesse encontro fortuito havia um desejo de conhecimento despertado.
A obra resenhada trata da vaidade. Ao caminharmos em sua leitura, porém, notamos que não foi a vaidade – sentimento escrutinado de fio a pavio no decorrer do texto – que levou o autor à pena e à letra. Pelo contrário, outro estado emocional, a generosidade, foi o ponto de partida para que esse tema se abrisse no próprio autor e este o transformasse em texto para nós, leitores.
O texto foi construído sob a égide da generosidade, começando pela troca de ideias entre dois amigos, passando pelo empréstimo do livro que surgiu na conversa, e desembocando em uma leitura estimulante, quando Junqueira encontra metapsicologia nas entrelinhas das palavras lá impressas.
Sem vaidade, com generosidade, o autor sente a necessidade de compartilhar com colegas psicanalistas seu achado, agora repleto de considerações e esclarecimentos. Não custa lembrar que, embora saibamos de pronto o que significa vaidade, não encontramos com facilidade, em psicanálise, estudos tão potentes sobre o tema como o realizado pelo autor. Através de sua postura de leitor produtivo, Junqueira adota a função de transcriador na sua relação com a leitura.
A palavra transcriação – construída por uma mescla de outras duas, transcrição e criação, como propuseram Haroldo e Augusto de Campos – cabe como uma luva neste texto de tão poucas páginas e tão profunda elaboração.
Espero, caro leitor, que esta pequena resenha tenha sido capaz de despertar sua curiosidade sobre Vaidade: a sedução pelo desejo mimético. Um tema raro, que merece uma boa leitura.