Pensar e intervir no ambiente escolar pela via psicanalítica: eis a proposta de Alexandre Patricio de Almeida no livro Intervenção psicanalítica na escola, de 2020, publicado pela editora Zagodoni.
Livro de leitura rápida, é atravessado pelo imperativo de transformação da prática educativa nas salas e corredores desse ambiente, tão prenhe de possibilidades e caminhos para todos aqueles que cruzam os seus portões.
Num tempo em que o debate público volta sua atenção para as questões relativas ao bullying e suas consequências na formação de crianças, adolescentes e jovens adultos, o autor toma a acertada decisão de cotejar os conhecimentos derivados das teorias de Freud e de seus herdeiros com a realidade escolar.
Historicamente, a condição de aluno é de uma considerável vulnerabilidade. Longe do ambiente familiar que nossos lares representam, e da companhia de pais, mães, irmãos e irmãs, somos entregues aos cuidados de profissionais que muitas vezes só contam com o hábito, a repetição e a empatia que cada qual desenvolveu em sua vida íntima.
O ambiente escolar, no entanto, é central na formação do indivíduo, e durante muitos anos permanece no horizonte formativo do cidadão. Essa forja de espíritos não é cuidada como poderia e deveria. É preciso perícia e acuidade nesse ato de martelar e resfriar consciências.
Se há algum princípio teleológico em nossa passagem por instituições escolares, este deveria ser o de preparar o cidadão para a vida. Não deveria ser o contrário disso. Mas frequentemente a experiência é de mortificação e míngua da inclinação do vir a ser.
Winnicott, em seus textos mais políticos e sociais, já apontava a importância de voltar nossa atenção para o detalhe, para os vínculos emocionais e afetivos dos cidadãos, de forma a buscar uma sociedade mais madura e justa. Ou seja, ademais do olhar super e infraestrutural, a construção de uma sociedade saudável merece um olhar afetivo-estrutural. Para além do seio familiar, o que nutre a alma e, por conseguinte, a nossa subjetividade senão a escola?
Alexandre une teoria e prática, e aplica conhecimentos psicanalíticos com a finalidade de ajudar alunos a amenizar marcas emocionais existentes ou evitar novas feridas, nesse momento tão delicado do nosso desgarre de mães e pais. E sua proposta intervém no elo mais imbuído de poder nessa cadeia: os professores.
Nesse ideal que é aproximar a pedagogia da psicanálise, os alunos-analisandos teriam seus conteúdos afetivos e dificuldades amparados por professores-analistas. É um ideal porque, apesar de ser um projeto necessário, esbarra em questões de acessibilidade a um corpo teórico e a uma formação cara, muito distantes dos meios de que dispõe a maior parte da classe de professores do nosso país.
Evidentemente, não é uma novidade aplicar diferentes “tecnologias” ao âmbito escolar e educacional. Sempre pensamos em maneiras de melhorar a realidade, e a escola já configura a plataforma de testes do que é enfrentar o “mundo dos adultos” – de Platão e sua Academia aos estudos vinculados à Igreja católica durante o Medievo; de Rousseau e seu Emílio a Paulo Freire; de uma educação elitista e para poucos em direção à coletividade; de uma base conteudista a uma que integre a totalidade da experiência.
Infelizmente, o caminho que temos pela frente carece de uma intervenção global e afirmativa. Parece contar apenas a iniciativa individual de alguns profissionais, empenhados em incorporar a ética psicanalítica onde sabem que há necessidade, um ambiente que requer uma intervenção da ordem do sensível. Um caminho que gerará frutos a alunos e, também, a professoras e professores cientes de que sua missão vai além da transmissão fria do conteúdo presente nos livros.
Como uma peça em cinco atos, Alexandre divide seu livro em cinco capítulos. Inicia por uma breve explanação de seus objetivos e aponta a forma adotada para relacionar dois campos aparentemente distintos.
Posteriormente nos deparamos com as contribuições freudianas para lançar luz ao caso de um garotinho muito apegado à mãe, bem como ao caso de uma mãe muito apegada ao filho. Nesse capítulo nos encontramos com as vicissitudes da sexualidade infantil, apontadas por Freud e ainda tão mal compreendidas em nossos dias. Além disso, Alexandre discute os emaranhados que costuram a trama edípica, apresentando-a de maneira didática para quem não é do nosso meio. Aliás, diga-se de passagem, esse estilo vivo e cristalino de escrita se faz presente ao longo de toda a obra.
O capítulo seguinte mostra um caso de inadequação de um aluno ao ambiente escolar. O “aluno-paciente” da vez é um garoto que precisa se integrar ao contexto escolar, mas para quem as portas parecem cruelmente fechadas. A pergunta que é evocada é se o garoto deve se adequar ao ambiente ou se o ambiente poderia se adequar às necessidades do garoto. Lançando mão do referencial teórico do reformador húngaro Sándor Ferenczi, Alexandre elabora uma transformação na escola em questão. É um caso que parece retirar o véu que separa o ostracismo imposto tacitamente da plena integração social de um jovem garoto. A elasticidade da técnica, como bem apresentou Ferenczi (1928/2011), não poderia também ser problematizada na dinâmica educacional?
O quarto capítulo propõe a análise de uma situação presente numa animação da Disney pelo viés do desenvolvimento maturacional elaborado por Winnicott. O filme em questão é Lilo & Stitch, de 2002, que apresenta uma família inusitada, composta por um alienígena e duas irmãs órfãs. Aqui, Alexandre trata da problemática da agressividade na sala de aula e dos possíveis meios de intervenção elaborados a partir da perspectiva winnicottiana – autor que não trabalhava com o instinto de morte.
O livro se encerra com um capítulo destinado a expandir o conceito de inveja, como proposto por Melanie Klein, por meio de três situações presenciadas pelo autor, envolvendo alunos, professores e pais. É um capítulo que mostra que as potencialidades psicanalíticas de compreensão das dinâmicas intersubjetivas são inúmeras e que a destrutividade invejosa pode ser um fator de grande risco aos laços sociais, essencialmente quando não trabalhada.
Entregar os filhos para desconhecidos e compartilhar, dessa forma, a difícil tarefa que é integrar uma criança a uma sociedade falha não é algo fácil de fazer. Certamente, esse é um período da vida de extrema vulnerabilidade para todos os envolvidos no processo. Alexandre, munido de sua sensibilidade e empatia, torna-se um exemplo de que há profissionais empenhados em amenizar as dores que acompanham essa passagem inerente à existência da maioria dos seres humanos, sem deixar de considerar os adultos implicados – pais e mestres – e seus próprios atravessamentos e devires.
Intervenção psicanalítica na escola é um livro que mostra que a nossa ciência está mais viva do que nunca, principalmente quando ousa atravessar os muros dos consultórios particulares e cruzar os terrenos ainda inóspitos ao nosso ser e fazer analítico, empreitada que se comunica com a poesia de Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas: “O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando” (1956/2001, p. 39). Expressão que se aplica, por sorte, ao nosso ofício!