Inspirada nos parangolés de Hélio Oiticica e na vivência com meus analisandos, pensei em escrever um texto reunindo algumas ideias sobre a psicanálise contemporânea, que se expande em direção a experiências de ser, para além da experiência de conhecer, movimento que se fundamenta especialmente na teoria de Bion (1965/2004) do estar-uno-a ou tornar-se realidade.
Ogden denominou esse movimento de psicanálise ontológica, que ressalta as experiências do ser e tornar-se, em acréscimo à psicanálise epistemológica, que privilegia as experiências do conhecer:
Esta é a marca do pensamento ontológico bioniano: ser e estar suplantaram a compreensão - o analista não chega a conhecer, entender, compreender ou apreender a realidade do que está acontecendo numa sessão; pelo contrário, ele “intui” a realidade e torna-se “um” com ela: está totalmente presente ao vivenciar o momento presente. (2020, p. 31)
Entre nós, João Carlos Braga produziu vários textos em que aborda com maestria o tema das dimensões do ser e do conhecer:
Tenho pensado na relação entre pensar e ser, como apresentando um hiato similar ao que encontramos entre os processos fisiológicos da percepção sensorial e sua representação na mente. As condições próprias ao pensamento intuitivo, ao sem memória e sem desejo, à atenção flutuante, criam condições para um salto de qualidade entre ambas as dimensões, em ambos os sentidos. É um momento mágico vivê-lo e uma impossibilidade pensá-lo logicamente. É uma daquelas situações em que nos damos conta das limitações de pôr em palavras uma experiência emocional intensa, como a tentativa de descrever um sonho ou uma música. (2011, pp. 54-55)
Começando pelos parangolés
Os parangolés, criados por Hélio Oiticica, são vestimentas. Não são uma obra para ser vista, apreciada, contemplada, mas uma obra que assim se torna ao ser vestida. Nos parangolés, a “penetração” se radicaliza: o espectador veste a capa e se torna artista, rodopiando e dançando com a vestimenta. É no ato de vestir, de se in-vestir, que obra-artista-espectador se tornam um só. Os parangolés rompem fronteiras entre o artista e o espectador. Mais do que isso: no gesto de vestir, o espectador torna-se participante, coprodutor da obra de arte.
O parangolé, por ser vestimenta, aproxima-se mais de uma alegoria carnavalesca, em que aquele que a veste se torna a vestimenta que carrega. Assim, a pessoa pode tornar-se homem, mulher, animal, fada, bruxa, deus, diabo, árvore, água, fogo, menino, velho… Além disso, a cada nova pessoa que veste o parangolé, uma nova obra se cria. E ainda, se a mesma pessoa vestir em tempos diferentes o mesmo parangolé, a obra será sempre nova, os movimentos serão inéditos.
Em tais características da obra, vê-se a semelhança com a psicanálise contemporânea: um campo emocional coproduzido por analista e analisando, onde ambos são participantes ativos, a contemplação dá lugar à imersão, o conhecer o outro dá lugar ao estar-uno ao outro (at-one-ment). Estar-uno-a precede o conhecer sobre. Como diz Braga, “inverte-se a máxima de Descartes: Existo, logo penso” (2011, p. 50).
Lendo sobre os parangolés, aprendi que esse termo era originalmente uma gíria do morro no Rio de Janeiro, o que agrega ainda mais significado ao termo. A palavra não nasce na academia, na teoria ou na galeria: ela é concebida no frescor das relações interpessoais genuínas.
“Qual é o parangolé?” era uma expressão muito usada quando cheguei da Bahia para viver no Rio de Janeiro, e significava, entre outros sentidos mais secretos: “O que há?”, “O que está rolando?”, “Qual é a parada?” ou “Como vão as coisas?”. … Não sendo de início senão um ser linguístico, hoje em dia o nome parangolé sumiu da gíria do morro e fixou residência nesses objetos anti-stabiles. Mas algo misterioso de sua vida anterior volátil - um avião, Ícaro, ou um óvni qualquer - um feitiço fugaz, uma firula, uma propensão gingada para dribles e embaixadas, aparece, agita e serve como acionador de seus giros. Descoagulação e fluidez de sentido. O brutalista parangolé de ho nasce da constatação da contingência, nada tem de decorativo ou polido. Surge de uma vontade de apreender o sentido bruto do mundo em seu nascedouro. (Salomão, 2015, p. 30)
Desse modo, a “descoagulação e fluidez de sentido”, o desvelamento da “potencialidade viva de uma cultura subterrânea”, a “constatação da contingência”, tudo isso me fez pensar na potencialidade da psicanálise contemporânea de se alçar ao subterrâneo, fazendo fluir o sentido. “Alçar ao subterrâneo” aqui não tem o sentido de alcançar o inconsciente reprimido, mas de transpor as barreiras da terra batida - área da intelectualização - e ir em direção ao sub-terrâneo da fluidez do ser, campo de O. Trata-se de estar disponível para reencontrar os “gestos submersos prévios à cobertura semântica” (p. 21), aqueles que se encontram na nascente e, assim, promovem nascimentos continuamente. Waly Salomão diz que a obra de Oiticica “não cabe mais nos limites do quadro, moldura, parede ou base” (p. 57). Parafraseando, pode-se dizer que a psicanálise não cabe mais nos limites da moldura, parede ou base do conhecer; ela alça voo em direção ao campo do ser, do mistério, do incognoscível.
Na psicanálise contemporânea, o analista torna-se-um com o analisando (at-one-ment), em movimento de imersão no campo emocional produzido pelo encontro das duas mentes. Dito de outro modo, o analista se dispõe a uma imersão no que se passa no campo analítico, não primeiramente para compreendê-lo ou interpretá-lo, mas para vivê-lo em consonância com o analisando. Esse campo tem potencial poderosíssimo para fazer emergir imagens, palavras e contos, que vão dar con-figuração para a experiência vivida.
Pode ser útil, para a exposição das ideias que apresento aqui, pensar a experiência de imersão como prévia à experiência de emersão e possibilidade de representação. A experiência de imersão (vestir o parangolé) requer uma atitude de entrega, que se caracteriza por estar disponível para ser habitado pela emoção que se esparrama na relação com o outro. Será esse o isso no eu?
Evocando deuses do Olimpo
Parangolés, rodopios, imersões, emoções, danças e cantos: estamos em território dionisíaco. Imagens, palavras e contos: adentramos o terreno apolíneo. Lembro-me aqui de Nietzsche em O nascimento da tragédia (1872/2020). Nessa obra, Nietzsche propõe que na tragédia há uma espécie de fraternidade entre o dionisíaco e o apolíneo. Dionísio tem a têmpera da desmedida: rompe barreiras internas, transborda os limites entre homens e animais, transpõe as fronteiras sociais entre os homens, promovendo o contato com o Um primordial.
Falando do dionisíaco, Nietzsche escreve:
Agora o escravo é um homem livre, agora se quebram as rígidas, frias barreiras que a necessidade, o capricho ou a “impudente convenção” estabeleceu entre os homens. Agora, com o evangelho da harmonia universal, cada um se sente não apenas unido, reconciliado, fundido com seu próximo, mas um com ele, como se o véu de maya estivesse rasgado e apenas seus farrapos tremulassem ante o Um primordial. (p. 25)
Apolo, em sua têmpera de organização, restaura fronteiras, gerando imagens, personagens e narrativas que se configuram nas belas tragédias que nos foram legadas pelos gregos e que, ao longo de séculos, colaboraram para nossa compreensão da constituição do humano, com sua polifonia de vozes e multiplicidade de dimensões.
Apolo e Dionísio comparecem à tragédia grega, segundo Nietzsche, não em sua clássica dissonância, mas em “fraterna aliança”:
Mas desse fundamento de toda existência, do substrato dionisíaco do mundo, só é dado chegar à consciência do indivíduo humano aquele tanto que pode ser dominado pela força transfiguradora apolínea, de modo que esses dois impulsos artísticos são obrigados a usar suas forças em rigorosa proporção mútua, segundo a lei da justiça eterna. (p. 131)
Assim, Nietzsche ressalta a aliança entre Apolo e Dionísio como necessária para a produção da trama trágica. Na evolução de seu pensamento durante a obra, vê-se que o que ele coloca em oposição não são Apolo e Dionísio; o que ele destaca é a oposição entre o homem teórico e o homem trágico.
O homem teórico é o que louva a lógica, a racionalidade, os conceitos, as conclusões e os juízos, na ilusão de alcançar a inteligibilidade das coisas. Nietzsche atribui a Sócrates “a inabalável crença de que o pensamento, seguindo o fio da causalidade, atinge os mais fundos abismos do ser, e de que é capaz não apenas de conhecer, mas de corrigir o ser” (p. 84). Ora, essa afirmação me lembra os descaminhos da psicopatologia, que por vezes se arroga a capacidade de conhecer o ser e de se empenhar em corrigi-lo.
O homem trágico é o que “sofre” a vida, em suas dimensões de prazer e dor, que se entrega aos mistérios, à ininteligibilidade de si e do outro, e transforma esse viver intenso, dionisíaco, em representações apolíneas, as quais lhe conferem configurações em forma de sonhos e mitos. O homem trágico é o que experimenta a vida em sua dimensão trágica, inusitada, misteriosa e incomensurável, guardando distância da ilusão de serenidade prometida pelo homem teórico.
Aproximações entre parangolés, o homem trágico e a psicanálise contemporânea
Ora, em Nietzsche encontro as ideias, expressas em palavras, que colaboram para que eu pense a psicanálise contemporânea em seu movimento, descrito por Bion (1965/2004), de estar-uno a O, o Um primordial existente antes da individuação e que, a meu ver, traduz a essência do humano, que está “encarnada” naquela pessoa em particular com quem me encontro na sala de análise. Eis aí o homem trágico (analista e analisando), que “sofre” a vida em suas dimensões de prazer e dor, buscando as formas apolíneas de figuração e alegoria.
Em Oiticica, encontro o modelo do parangolé, que, por um lado, remete ao dionisíaco e, por outro, é a própria arte me oferecendo figuração para falar da imersão no sofrimento e no prazer vividos no campo analítico. Eu me visto do que está no campo, e rodopio, sentindo o movimento, em atitude de imersão, momento em que analista e analisando se tornam um - momento dionisíaco -, necessário para eu receber em mim sonhos e mitos - momento apolíneo -, que ofereçam configuração ao que está sendo vivido. No movimento seguinte, eu ou o paciente, ou ambos, relatamos a tragédia, a comédia, o drama, que criará um novo movimento de emoção, um incessante fluxo dos fenômenos, que impele à existência. E, como analista, acrescento: que impele também à experiência de inexistência ou de resistência ao existir.
A clínica
Falando em rodopios dionisíacos e repousos apolíneos, sinto vontade de apresentar um relato clínico.
Antes de entrar na sala de análise, Diana3 passa por um quadro que tenho no hall de entrada e o toca com as mãos,4 num gesto de interesse, para “ver” melhor.
“Queria ver se é alto-relevo”, diz ela. “De longe parece que é uma pintura.”
Eu acompanho o gesto dela com palavras também ditas em tom de interesse: “Você viu? São cubos mesmo; não é pintura”.
Diana entra na sala e senta-se na poltrona. (Ela às vezes se senta, às vezes se deita no divã, e às vezes faz os dois movimentos durante a sessão.)
Refere-se a uma viagem que fez no fim de semana. Foi com umas amigas a uma cidade de praia. Fala com entusiasmo da beleza e do luxo da casa em que se hospedaram, das comidas, das bebidas… Enquanto ela conta seu conto, vou entrando naquele universo para o qual sou convidada. Vou hospedando as imagens que surgem em minha mente. Embora Diana esteja falando de momentos aprazíveis, eu não me sinto em consonância com uma experiência emocional prazerosa. Noto em mim algum incômodo, que não se expressa em palavras nem em imagens, apenas na sensação de não “combinar” o que estava sendo contado com suas palavras de entusiasmo.
De repente, uma imagem se impõe a mim: Diana aparece na minha mente, sozinha, isolada das amigas que se divertiam. Eu a “vejo” sentada, com um copo de bebida na mão, com um olhar “perdido”, distante emocionalmente da cena que me contava. Eu aguardo algum desdobramento dentro de mim e penso em anunciar a ela a imagem que tive. Antes que eu diga qualquer coisa, ela passa a falar em tom mais baixo, seu olhar se inclina e sua expressão de entusiasmo dá lugar a uma expressão de tristeza. Eu pergunto: “O que foi, Diana?”. Ela me olha profundamente e diz: “Sabe, Maria, às vezes eu estava lá no meio de todo mundo e pensava: o que estou fazendo aqui?”.
Sinto nesse momento uma emoção muito forte. Sinto que estamos juntas, compartilhando uma experiência importante. O que esteve segundos antes na minha mente foi anunciado por ela em palavras.
Eu repito a ela sua própria pergunta, em slow motion, como se grifasse cada palavra: “O que estou fazendo aqui?”. E acrescento: “O que estamos fazendo aqui?”. Meu tom é de grande interesse pela questão que surgiu nela e que deu sentido à imagem que apareceu na minha mente. Em meio a tantas cenas glamourosas que ela relatava, entramos em consonância com um momento de solidão, de indagação, de aproximação dela consigo mesma. Uma espécie de questão sobre o sentido da vida, o sentido dos seus atos e das suas escolhas. Uma atitude inédita numa pessoa que costuma arrolar fatos durante a sessão sem colocar-se neles. Diana, tal como a princesa de Gales, vive em meio à fartura material e à escassez de si mesma, sem sentir sua própria existência.
Ela me olha com olhos arregalados, expressando certa surpresa pelo impacto que a pergunta dela provocou em mim. Há um silêncio, como um tempo necessário para elaborar o impacto daquele encontro. Durante o silêncio, eu me lembro da chegada dela e da atitude em relação ao quadro.
ANALISTA: Diana, penso que você quer se aproximar de si mesma, ver melhor o que se passa no seu coração. Lembrei que, quando você chegou, tocou no quadro que tem lá fora: um movimento de aproximação, para “ver” mais de perto. É assim que vejo você agora, chegando mais perto…
PACIENTE: Você falou do meu coração, e eu me lembrei de uma conversa que tive com minha filha.
Ela diz então que fazia tempo que não conversava com a filha de assuntos mais íntimos. As conversas com a filha costumam ser sobre acontecimentos do cotidiano, uma espécie de relatório do que aconteceu com ela, com as crianças (netos da minha paciente), sem um olhar direcionado aos sentimentos, ou ao “de dentro”. Dessa vez foi diferente. Conta que teve a oportunidade de ficar sozinha com a filha e se encorajou para uma conversa mais íntima. A filha começou a chorar e disse que vem enfrentando problemas no casamento, o que Diana não sabia. Seu tom se torna tenso, e ela fala de seu medo de que a filha se separe do marido. “Está tudo arrumado: ela, meu genro, o trabalho na empresa, os filhos… Se ela se separar, vai desarrumar tudo”.
Observo nessa fala dela o movimento de se aproximar do coração da filha, assim como faz em relação ao próprio coração ali comigo, e ao mesmo tempo um medo imenso de que essa aproximação provoque “des-arrumações” no que está estabelecido.
A sessão prossegue em movimentos de aproximação, medo e afastamento. Vamos juntas, nesse incessante fluxo de fenômenos.
Reflexões sobre a experiência clínica
O que me interessa destacar nesse fragmento de sessão não é a dinâmica da analisanda, mas a potência do que acontece no encontro analítico. Refiro- -me ao instante em que eu e ela entramos em consonância: a imagem que surge em minha mente corresponde a uma experiência que ela tivera na festa e que não estava explícita nas palavras. Note-se que não há nesse momento da sessão uma busca por saber o significado do que a paciente relata; há uma disponibilidade para o contato com a realidade da analisanda, ou do que se passa no campo analítico. Assim, a opacidade do conhecer possibilita o afloramento do ser, ou seja, a experiência de “ser vivido” por algo inusitado.
Não é o conhecimento da realidade que está em jogo, nem mesmo o equipamento humano para conhecer. A crença de que a realidade é algo que é conhecido, ou poderia ser conhecido, é equivocada, porque realidade não é algo que se presta, por si, a ser conhecido. É impossível conhecer realidade pela mesma razão que é impossível cantar batatas: pode-se plantá-las, colhê-las, ingeri-las, mas não cantá-las. Realidade tem que ser “sendo”: precisaria existir um verbo transitivo “ser”, para ser usado expressamente com o termo “realidade”. (Bion, 1965/2004, p. 162)
Essa condição humana de tornar-se realidade está muito aquém das funções egoicas descritas por Freud. Aproxima-se mais da condição ancestral do humano de estar-uno a outro humano, algo como o “eu-tu” descrito por Buber (1923/2001). Não é algo que se constitui ao longo do desenvolvimento, mas algo presente na nascente do humano e de cada ser humano. A relação está inscrita no humano e é “buscada” por cada novo humano que vem ao mundo. O estar em consonância ou uno a outro é ancestral, primordial, inscrito em nossos genes, e nos constitui como humanos. Assim, na sala de análise, enquanto analistas, re-vivemos nossa ancestralidade de estar-uno a quem está conosco e “convidá-lo” a estar-uno a nós e, por intermédio disso, estar-uno a si mesmo.
A originalidade da aspiração de relação já aparece claramente desde o estado mais precoce e obscuro. Antes de poder perceber alguma coisa isolada, os tímidos olhares procuram no espaço obscuro algo de indefinido; e em momentos em que, aparentemente, não há necessidade de alimento, é sem finalidade, ao que parece, que as suaves e pequeninas mãos gesticulam, procuram algo indefinido no vazio. (Buber, 1923/2001, p. 67)
O tornar-se realidade aproxima-se também de Dionísio, tal como visto por Nietzsche, como o deus que restaura a unicidade. Falando do coro na tragédia grega, Nietzsche escreve:
Nessa posição absolutamente servil perante o deus ele [o coro] é, contudo, a mais alta, isto é, dionisíaca expressão da natureza, e, por isso, em seu entusiasmo profere, como esta, oráculos e palavras de sabedoria; como aquele que sofre juntamente, ele é ao mesmo tempo o sábio, o que anuncia a verdade desde o coração do mundo. (1872/2020, p. 53)
Indago uma vez mais: é esse o isso? O isso no eu? O isso que se apresenta sem ser “buscado”, mas irrompe quando a mente está disponível para ser por ele habitada? O isso que é preexistente à nossa existência individual, encarnada, e sendo patrimônio da nossa humanidade, se apresenta em nós e se torna instrumento potente na sala de análise, para estarmos com nossos analisandos, os “outros”, com quem temos uma condição ancestral de contato e de unicidade?
Não equaciono aqui o isso com o id freudiano, embora esteja no id freudiano a ideia de infinito, de ancestralidade (Freud, 1923/1976). O isso na psicanálise contemporânea expandiu-se para além do inconsciente e do id, como concebidos por Freud; foi em direção ao infinito, ao não nascido, ao não representado, ao inusitado. A ideia de Bion (1965/2004) é que a disciplina psicanalítica requer do analista um estado de mente que se encontre receptivo a ser “encarnado” por O. Esse estado de mente é composto por opacidade de memória, desejo e tentativa de compreensão; capacidade negativa; e suspensão de sensorialidade.
O psicanalista nesse estado de mente disponibiliza-se para O, para o contato íntimo com o analisando. O analista “veste o parangolé”, torna-se uno com o analisando, numa atitude ética de “ser-com o outro”, ser receptivo ao outro, habitado pelo outro. Posteriormente essa atitude ética pode evoluir para uma atitude estética, que é a nomeação, a figuração e a narração do que se passa na cena analítica.
Retomando a cena analítica relatada
Essa experiência de tornar-se realidade, estar-uno ao outro que está comigo na sala de análise, pode ser vista no momento em que se compõe em minha mente a cena de Diana solitária, em meio a uma festa tão glamourosa. Não sei exatamente o que se passa comigo, mas posso conjecturar que eu estava com minha mente disponível para receber (hospitalidade) o que estava sendo experimentado por Diana. Nesse estado, eu configuro uma imagem, da analisanda isolada da cena de glamour, vivendo uma experiência de estar consigo mesma, arrebatada pela pergunta existencial fundamental: “O que estou fazendo aqui?”. Conjecturo que, para aquém da narrativa da festa com as amigas, eu estava em consonância com algo que se apresentava para ela, que era desconhecido para nós duas, mas que estava presente. Podemos nomear isso de contato consigo mesma, um momento em que, para além do que está acontecendo fora de si, há um dentro de si que se faz presente e requer nomeação e contato. Como diz Braga (2023),
com a proposta de Bion em Transformações, surge a ênfase na escolha do analista de trabalhar a partir dos desenvolvimentos que evolvem das camadas indiferenciadas da mente, aquilo que naquele momento da sessão está buscando existir no contato analítico. … Neste sentido, psicanálise pode ser vista como um processo de passar a limpo, através da abordagem, na vida presente, dos dois rascunhos psíquicos preexistentes (memoriais do passado e do futuro). Nesta perspectiva, psicanálise surge como um recurso que busca oferecer às pessoas alguma ajuda para perceber que existem no tempo presente, embora com uma história pregressa e outra a acontecer; isto é, para ampliar a consciência de sua existência, da possibilidade de exercerem suas individualidades, de buscarem ser si mesmas, de encontrarem mais verdades em suas experiências de vida.
Quando Diana toca o quadro no hall de entrada, ela faz o gesto de aproximação ao tridimensional. A bidimensionalidade pode ser ilusória; há uma dimensão a mais, uma profundidade que requer um “chega mais” para ser experimentada. Ela vive comigo a oportunidade do “chega mais”, chegar mais perto para ver melhor, tocar na alma para vê-la mais claramente.
É muito interessante pensar que a imagem que aparece em minha mente é apresentada a nós duas na fala dela. Não sou eu que uso a imagem, é ela! Penso que isso precisa ser considerado dentro de nossa experiência analítica. Acredito que, quando a imagem aparece em minha mente, já há uma experiência de contato, que não é falada, mas é vivenciada. Ou seja, a experiência do questionamento solitário sobre o sentido do que estava vivenciando com as amigas, ou do sentido de estar ali comigo, ou do sentido de estar na vida, estava lá, disponível para nós duas. Penso que é o O compartilhado de que fala Bion (1965/2004). Está presente, previamente à experiência de ser representado (entrar no campo de K). Como nas experiências que temos com os bebês, em que não há palavras, mas há muita comunicação.
O compartilhamento de emoções contém uma potência que interfere na expansão das mentes envolvidas na experiência, ainda que não haja representação, ou ainda que a experiência compartilhada não adentre o campo de K. Em outras palavras, o universo do não representado é ativo em estabelecer conexões que não estão disponíveis para o discurso, mas que estão atuantes no psiquismo.
Posso imaginar que o que aconteceu entre mim e Diana, antes que eu pudesse configurar a imagem em minha mente e antes que ela pudesse compor a frase “O que estou fazendo aqui?”, é o que Waly Salomão denomina “gestos submersos prévios à cobertura semântica”. São conexões inacessíveis à representação (ao conhecimento), mas que estão em operação.
Enquanto Diana relatava as experiências da viagem, eu “sentia” um desconforto, como se algo ali não estivesse combinando. Penso que minha conexão com ela, no universo do não representado, criou um campo propício para surgirem imagens e palavras sobre o desconforto pela falta de sentido, em meio a tanta oferta no universo da materialidade. Sentir a falta em meio à abundância requer disponibilidade para o negativo. Por outro lado, sentir a falta precede pensar e falar sobre ela.
Penso que dispor-se ao outro é poderoso, e ainda que não se transforme em representações, age promovendo expansão do ser.
No livro O coração pensante (2021), Anne Alvarez fala de um paciente que desenhava sem significado, porque o coração não estava presente no desenhar. Pois bem, penso que alguns pacientes não põem o coração no conversar e, assim, o conversar fica sem significado. Quando, como analista, ponho meu coração na minha escuta (Assis, 2011), disponibilizando-o para sentir o que se apresentar, talvez isso colabore para que a analisanda escute o pulsar do próprio coração. Não se trata aqui de discurso; trata-se de postura de hospitalidade (Assis, 2010, 2020). Tomando mais uma vez o parangolé como modelo, posso dizer que visto o parangolé e, com esse gesto, convido a paciente a vesti-lo: “Vista, dance, rodopie e me conte o que emerge dessa experiência”.
Também em Alvarez encontro uma relevante discussão sobre a importância de o analisando “sentir-se agente”. Diz a autora que o paciente que se sente agente na mente do analista pode sentir-se vivo. Nesse contexto, ela cita Broucek, que fala do “prazer de ser a causa”, ou seja, da importância de o paciente perceber que provoca sentimentos e pensamentos no analista. Penso nisso como uma espécie de confirmação das ideias do eu-tu de Buber, citado antes. O ser humano tem potencialmente a busca pelo outro desde sua nascente.
Como corpos se buscam em uma relação sexual, pode-se pensar que as mentes se atraem e se conectam, formando embriões com potencial para evoluir até alcançarem o campo de K e poderem ser representados. Assim, quando o paciente encontra o outro que reage a ele, há um reconhecimento de ter a unidade restaurada (eu-tu). A cada encontro, renova-se a busca, que é então uma imanência, movimento presente no encontro com o outro. Se o outro reage, é sinal da presença do eu-tu (não somente do tu). Penso que a reação do outro frente ao eu e do eu frente ao outro é primariamente via coração (emoção), como experimentamos de modo mais claro a cada contato com bebês. E também como experimentamos a cada encontro de intimidade, com familiares, amigos e analisandos. A emoção é o in-vestimento primeiro.
Para finalizar, gostaria de lembrar que as ideias são provisórias e precárias, em especial quando se quer falar sobre a experiência do encontro humano, esse instante misterioso, transcendente a qualquer tentativa de compreensão.
Cito Didi-Huberman, que exprime com belas palavras o que tentei dizer:
Prefiro não ver completamente a borboleta, prefiro que ela continue viva: essa é a minha atitude quanto ao saber. Eu a vejo aparecer e tento pôr meu olhar em palavras, em frases. Mas esse é um olhar tão frágil e furtivo quanto as minhas frases; se elas forem impressas, elas durarão, para o bem ou para o mal. Seja como for, é inevitável que a borboleta desapareça, já que é livre para ir para onde quiser, e não precisa de mim para viver sua liberdade. Ao menos eu terei apanhado em pleno voo, sem guardar apenas para mim, um pouco de sua beleza. (2016, p. 62)