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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641Xversão On-line ISSN 2175-3601

Rev. bras. psicanál vol.58 no.1 São Paulo  2024  Epub 29-Nov-2024

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v58n1.03 

Intercâmbio

A capacidade de estar só como prova de maturidade para o envelhecer

La capacidad para estar solo como prueba de madurez en el envejecimiento

The capacity to be alone as proof of maturity in aging

La capacité d’être seul comme preuve de maturité dans le vieillissement

Gabriele Junkers1 

Analista didata da Associação Psicanalítica Alemã (dpv). Organizadora dos livros The empty couch (2013) e Living and containing psychoanalysis in institution (2022), ambos pela editora Routledge. Fundadora do Fórum de Envelhecimento da Federação Psicanalítica Europeia (epf) e do Comitê de Envelhecimento de Pacientes e Analistas da Associação Psicanalítica Internacional (IPA).

1Associação Psicanalítica Internacional (IPA) Bremen, Alemanha


Resumo

Todas as pessoas conhecem o sentimento de solidão, descrito nas suas mais variadas formas por poetas e filósofos. A maneira de vivenciar a solidão, lidar com ela e processá-la é individual e difere totalmente de pessoa para pessoa. Envelhecer significa dominar inúmeras tarefas de desenvolvimento. Como é possível não responder às perdas iminentes e às despedidas da velhice com medidas defensivas patológicas, mas, ao contrário, viver o encerramento da vida profissional como uma nova fase de introversão, olhar retrospectivo e plenitude interior? A autora considera a capacidade de estar só um pré-requisito favorável para enfrentar com sucesso os desafios do envelhecimento e refere-se a autores psicanalíticos que se dedicaram ao tema da solidão, quando já estavam numa fase tardia da vida. Quanto mais consolidada for a capacidade de adaptação às diferentes realidades, sobretudo àquelas desagradáveis e desprazerosas, maior será a possibilidade de aceitar os próprios erros. Nesse caso, também poderia haver uma diminuição do ressentimento em relação àquelas realidades da vida que foram criadas pela própria pessoa no passado.

Palavras-chave envelhecimento; solidão; capacidade de estar só; envelhecimento do analista

Resumen

Todo el mundo conoce el sentimiento de soledad, descrito en sus más variadas formas por poetas y filósofos. La forma en que experimentamos la soledad, la enfrentamos y la procesamos es individual y difiere completamente de una persona a otra. Envejecer significa dominar innumerables tareas de desarrollo. ¿Cómo es posible no responder a las inminentes pérdidas y despedidas de la vejez con medidas defensivas patológicas, sino experimentar el final de la vida laboral como una nueva fase de introversión, mirada retrospectiva y realización interior? La autora considera que la capacidad para estar solo es un requisito previo favorable para enfrentar con éxito los retos del envejecimiento y se remite a autores psicoanalíticos que, al final de la vida, trataron el tema de la soledad. Cuanto más consolidada esté la capacidad de adaptarse a distintas realidades, sobre todo a las desagradables y molestas, mayor será la posibilidad de aceptar los propios errores. En este caso, también podría haber una disminución del resentimiento hacia aquellas realidades de la vida que fueron creadas por la propia persona en el pasado.

Palabras clave envejecimiento; soledad; capacidad para estar solo; envejecimiento del analista

Abstract

Everyone is familiar with the feeling of loneliness, described in its most varied forms by poets and philosophers. The way we experience loneliness, deal with it and process it is individual and differs completely from person to person. Growing old means mastering countless developmental tasks. How is it possible not to respond to the impending losses and goodbyes of old age with pathological defensive measures, but instead to experience the end of working life as a new phase of introversion, retrospective looking and inner plenitude? The author considers the capacity to be alone to be a favorable prerequisite for successfully facing the challenges of aging and refers to psychoanalytic authors who dedicated themselves to the theme of loneliness when they were already at a late stage in life. The more consolidated the ability to adapt to different realities, especially unpleasant ones, the greater the possibility of accepting one’s own mistakes. In this case, there could also be a decrease in resentment towards those realities of life that were created by the person themselves in the past.

Keywords aging; loneliness; capacity to be alone; aging of the analyst

Résumé

Tout le monde connaît le sentiment de solitude, décrit sous ses formes les plus diverses par les poètes et les philosophes. La façon dont nous vivons la solitude, la gérons et la traitons est individuelle et diffère complètement d’une personne à l’autre. Vieillir signifie maîtriser d’innombrables tâches de développement. Comment est-il possible de ne pas réagir aux pertes et aux adieux imminents de la vieillesse par des mesures défensives pathologiques, mais au contraire de vivre la fin de la vie professionnelle comme une nouvelle phase d’introversion, de regard rétrospectif et d’épanouissement intérieur ? L’autrice considère que la capacité d’être seul est une condition préalable favorable pour affronter avec succès les défis du vieillissement et se réfère à des auteurs psychanalytiques qui ont traité le sujet de la solitude à un âge avancé. Plus la capacité d’adaptation à des réalités différentes, surtout désagréables et déplaisantes, est consolidée, plus la possibilité d’accepter ses propres erreurs est grande. Dans ce cas, il pourrait également y avoir une diminution du ressentiment envers ces réalités de la vie qui ont été créées par la personne elle-même dans le passé.

Mots-clés vieillissement; solitude; capacité d’être seul; vieillissement de l’analyste

Introdução

Durante a pandemia do coronavírus o estar só adquiriu uma nova qualidade. A nossa capacidade de estar só foi severamente posta à prova durante o lockdown. Houve uma ruptura com a estabilidade já conhecida e com a habitual perspectiva de futuro, levando a um confronto com o incerto. Fomos todos jogados de volta a nós mesmos. Nesse sentido, a questão a respeito da capacidade de estar só adquiriu uma atualidade inesperada. Por outro lado, houve também algo inesperadamente unificador no fato de cada um de nós, e de fato o mundo inteiro, ter sido afetado pela mesma situação.

Nesse período, o estar só daqueles que estavam envelhecendo e das pessoas idosas foi mais destacado pela mídia do que o habitual: quão solitários e excluídos se sentiram os idosos, em especial aqueles em asilos, que na última fase da vida foram repentina e forçosamente separados dos familiares, sobretudo dos filhos e netos, e também não puderam mais vivenciar a proximidade costumeira (física, tátil) com seus cuidadores? Para eles, estar só se tornou uma questão existencial: muitos se perguntavam com medo se ainda haveria um último reencontro, olho no olho. O mesmo se dava com pessoas internadas com doenças graves ou terminais. Nesse momento, foi priorizada a manutenção da saúde somática em detrimento da importância do bem-estar mental, oferecido pela vivência de relacionamentos pessoais – em muitos casos nem mesmo dizer adeus ao doente terminal foi possível. Como acontece com frequência diante do surgimento de uma nova realidade, aquilo que a princípio seria algo familiar passa a ser subitamente visto e atualizado como se estivesse sob uma lupa.

A finitude do próprio ser é um fenômeno onipresente em tudo o que é vivo. Porém, em contraste com outros seres vivos, nós, humanos, temos a capacidade especial de pensar e refletir a nosso respeito como sujeitos. Essa capacidade de refletir ajuda-nos a aceitar o nosso ser-dessa-forma, bem como a aceitar certas realidades que, na minha opinião, o filósofo Ortega y Gasset descreve de maneira impressionante como um fato antropológico fundamental. Ele diz:

Cada um de nós tem a sua própria vida para viver, ninguém pode ser representado nos negócios da vida, … ninguém pode sentir ou querer no lugar do outro. … É impossível deixar outro ser humano pensar os pensamentos que cada um precisa pensar para se orientar no mundo, isto é, no mundo das coisas e no mundo das pessoas, e para encontrar a maneira adequada de se comportar. … Não há substituto para isso. … E, na medida em que isso se aplica a todas as minhas decisões, atos de vontade e sentimentos, não posso deixar de chegar à conclusão de que a vida humana, … precisamente em função dessa intransferibilidade, é essencialmente solidão, radicalmente solidão. (1957/1961, pp. 40-41)

Muitas pessoas temem ficar sós pelo fato de essa condição estar geralmente associada à separação, ao isolamento e à dor psicológica. As pessoas tornaram-se inventivas para escapar desses sentimentos desagradáveis. Dessa forma, muitas invenções técnicas, que determinam nossa vida atual, visam superar mais rapidamente a distância do objeto a fim de evitar a sensação de separação – por exemplo, o carro, o telefone, o celular, o WhatsApp e o vídeo. E é precisamente essa solidão radical descrita por Ortega y Gasset que também afeta o modo como envelhecemos e morremos: ninguém pode escapar a esse desenvolvimento, ninguém pode fazê-lo por nós, e ninguém pode resolvê-lo em nosso nome. Isherwood (1939/1998) diz que, se a velhice entrasse pela porta, todos nós sairíamos correndo. Trata-se então, conforme Goethe o expressou, de um negócio difícil, precisa-se de treino para aceitá-lo e poder conviver com ele. Acima de tudo, envelhecer significa o desafio de ser capaz de lidar com as perdas e suportá-las. Desde os nossos primeiros dias, muitas vezes através da dor emocional, tivemos que aprender a aceitar realidades desagradáveis, obtendo mais ou menos sucesso nessa tarefa. Destaquei o estar só como uma realidade de vida possível a fim de sublinhar que, quem tem capacidade para estar só, sente-se menos ameaçado pelas vicissitudes do envelhecimento e do ser idoso.

Um olhar sobre a literatura

Filósofos de diferentes épocas apontam para as duas faces do nosso tema: por um lado, somos seres sociais e só nos tornamos quem somos através do contato com os demais; por outro, a nossa natureza social está inserida numa “consciência individual” que só é acessível a nós próprios, segundo Montaigne. Já em 1580, esse autor recomendou criar e manter um espaço interno em nós mesmos, como um lugar de retiro, para sermos completamente livres. O isolamento (isolation), o abandono (loneliness) e a solidão (solitude) também estão no centro do pensamento de Hannah Arendt, que já havia atingido a meia-idade em 1951 e vivenciado muita solidão, exclusão e isolamento. Ela entende o isolamento, no sentido político, como uma espécie de paralisia para agir em conjunto com os outros, de acordo com um interesse unificador. Ela o diferencia do abandono (loneliness), que tem um sentido de desenraizamento: o indivíduo abandonado tem a sensação de “não ter lugar no mundo”, de modo que ele não tem ninguém, nem sequer ele mesmo, que reconheça e garanta sua identidade “inconfundível” ou ainda que possa avalizar suas experiências com o mundo. Nas condições descritas, o insuportável é a perda do próprio eu; na solidão (solitude), por outro lado, o eu pode se realizar. A solidão, segundo Arendt, é um estado em que é possível estar completamente consigo mesmo, como se fosse um “dois em um”, sendo possível então haver um diálogo interior consigo mesmo. Como alguns psicanalistas, ela também vê um espaço privado de reflexão como um pré-requisito para pensar. Em sua Philosophie der Einsamkeit [Filosofia da solidão] (2016), o filósofo Lars Svendsen descreve a nossa natureza social como inserida numa assim chamada consciência individual, acessível somente a nós mesmos.

Quinodoz (1996) questiona se há lugar para o sentimento de solidão como conceito psicanalítico teórico, técnico ou clínico. Segundo o autor, Freud não examinou explicitamente o sentimento de solidão, apenas sugeriu brevemente, em 1926, algo a seu respeito no contexto do medo relacionado a perigos inevitáveis, como na separação e na perda de objetos. Logo, não é de surpreender que sejam os psicanalistas próximos à teoria das relações objetais que se ocuparão com o estar só e o sentimento de solidão.

A obra mais famosa é “A capacidade de estar só” (1958/1965), de Winnicott. Ele entende o estar só não como algo momentâneo e estático. Ao contrário, considera a capacidade de lidar com a situação (concreta) do estar só – e com os sentimentos dela decorrentes, que emergem no interior de cada um – como uma conquista central do desenvolvimento psicológico infantil, ou seja, algo que precisa ser aprendido e que é, em certo sentido, uma tarefa do desenvolvimento psicológico na primeira infância. Em especial, ele destaca uma forma particular e até paradoxal de estar só: poder estar só na presença de outra pessoa. Winnicott entende essa capacidade de estar consigo mesma enquanto a mãe se encontra no mesmo ambiente como um dos pré-requisitos básicos para a criança conseguir lidar com separações no futuro. Pois somente a segurança da presença da pessoa de referência, sem que seja preciso se certificar constantemente de que ela está ali, permite a imersão da criança no brincar. Somente através disso é que um mundo psíquico interno próprio pode se desenvolver. A esse respeito, Winnicott entende a capacidade de estar só como um fenômeno humano altamente sofisticado, cuja origem ele remonta ao desenvolvimento da criança e à maturidade emocional que ela alcançou. De maneira paradoxal, o eu interior só é capaz de crescer autenticamente se lhe for permitido estar só. Qualquer ameaça a tal isolamento do verdadeiro eu nesse estágio inicial do desenvolvimento dá origem a grande ansiedade.

Em torno da mesma época, Melanie Klein (1963/2000b) também se ocupava com o sentimento de solidão. Nas suas reflexões sobre o tema da solidão, ela propõe como núcleo “um anseio onipresente por um estado interior de perfeição inatingível” (p. 475). Ela é da opinião de que um anseio profundo pelo relacionamento precoce com a mãe, por um abrangente sentido pré-verbal e verbal “de se sentir compreendido”, permanece por toda a vida. Esse anseio, que desempenha um papel importante no sentimento de solidão, está enraizado no sentimento depressivo de ter sofrido uma perda irreparável. Ela atribui a solidão à falta de confiança, a não poder contar suficientemente com objetos bons e integrados no seu interior. Essa falta abriga o perigo de que tendências destrutivas predominem. Devido a processos projetivos, a mãe pode ser percebida como perseguidora, e a relação com ela pode ser introjetada como ameaçadora. Na situação emocional paranoide assim estabelecida, e em geral associada a um sentimento de segurança mal compreendido, Klein localiza a raiz essencial de uma solidão interna. Por outro lado, se experiências objetais suficientemente boas tiverem sido internalizadas e servirem de base para a identificação com objetos bons, as possíveis tendências destrutivas serão enfraquecidas e a severidade do supereu será atenuada. A integração progressiva e a redução da onipotência favorecem uma maior adaptação à realidade e contribuem para o desenvolvimento de um eu forte. Nas suas palavras, esse eu, por ser menos suscetível à fragmentação, é capaz de encontrar novas fontes de alegria no mundo exterior.

Uma percepção realista de “eu posso” não precisa mais ser dominada por um onipotente “eu posso fazer tudo”. Então, o “eu posso” fortalece simultaneamente a experiência do “eu sou”. Não é difícil reconhecer que um sentido de identidade própria se torna assim disponível.

Klein e Winnicott concordam na ideia de que a capacidade de estar só e suportar um sentimento de solidão tenha sua origem no desenvolvimento infantil. O desenvolvimento de uma maturidade emocional no sentido da saúde mental, de um eu forte e de um sentimento de identidade e integração pode nos proteger de vivências excessivas e patológicas de solidão.

As mudanças são inevitáveis ao longo do desenvolvimento que se dá por toda uma vida. Para não estagnar, determinadas crenças antes consideradas confiáveis e certas necessitam ser revistas e abandonadas em favor de novas perspectivas adaptadas à realidade. Quanto menos força e senso de identidade o eu tiver sido capaz de formar e desenvolver, maior será o perigo de perder o equilíbrio mental. Se as idealizações persistirem em função da falta de integração, existe o risco de essas idealizações do objeto anteriormente idealizado se transformarem no seu oposto. Ele será então percebido como perseguidor, e o sentimento de solidão interior aumentará.

Na visão de Klein, é central a ideia de que a pessoa solitária se sente completamente abandonada com uma parte do seu eu, que é inconscientemente percebida como má e, portanto, condenada. Ao mesmo tempo, a possibilidade de restabelecer ligações para superar a ambivalência é, na sua opinião, uma habilidade importante, que pode fazer frente aos sentimentos de solidão. Esse ponto não foi desenvolvido na mesma medida por Winnicott em sua concepção.

De maneira concomitante a Klein e Winnicott, Frieda Fromm-Reichmann (1959) investigava um sentimento de solidão particularmente intenso, no qual só o agora tem importância e toda a experiência do tempo parece estar congelada. Todos os relacionamentos do passado parecem então ter sido esquecidos ou mesmo apagados, e não há mais espaço para ideias sobre possíveis relacionamentos futuros. Esse estado emocional de solidão não pode ser pranteado, nem compartilhado com empatia. Nas pessoas afetadas por ele, está associado a pânico, vazio e frio intenso. Fromm-Reichmann suspeita que o risco de sofrer mais tarde de solidão patológica se dá quando uma criança é afastada dos cuidados ternos da mãe cedo demais ou abruptamente, antes de ser capaz de encontrar por si própria substitutos satisfatórios para as suas novas necessidades. Por outro lado, se uma criança pequena for exclusivamente amada e admirada, ela não poderá aprender nada a respeito da verdadeira realidade do mundo externo. Segundo a autora, esse tipo de sentimento de solidão é acompanhado por um medo insuportável, que não pode ser comunicado, mas apenas encenado. Uma pessoa que sofre de tais sentimentos de solidão não o faz conscientemente, mas experimenta um sentimento de apagamento do eu devido à negação e à divisão.

Se os sentimentos de dependência e, portanto, os sentimentos de solidão forem negados de modo onipotente, Zilboorg (1938) teme que uma orientação narcísica possa se desenvolver mais tarde na vida.

A partir de uma perspectiva kleiniana, podemos resumir isso assim: dependendo da predominância de formações defensivas, seja da posição esquizoparanoide ou da posição depressiva, a vivência de solidão pode aproximar- se mais do polo esquizoide, conforme a descrição de Fromm-Reichmann, ou então do que Quinodoz (1996) entende ser uma forma mais branda de vivenciar a solidão, que na sua proposição deveria ser compreendida como “solidão normal”. De acordo com o autor, essa solidão “romântica ou nostálgica” é acompanhada por um medo tolerável e capaz de ser comunicado em palavras, que não penetra toda a estrutura psicológica.

A capacidade de estar só como processo de desenvolvimento psicológico

Todos os autores psicanalíticos citados entendem a capacidade de estar só como uma forma de desenvolvimento psíquico, isto é, um processo de maturação – um processo lento de desenvolvimento de um espaço interno capaz de oferecer proteção, propiciando um lugar de refúgio, bem como de reflexão e diálogo interior consigo mesmo e com os objetos internos. Enquanto analistas, sabemos que a capacidade de renunciar a algo ardentemente desejado é, num certo sentido, um pré-requisito para o desenvolvimento tanto da capacidade de pensar quanto da capacidade de estabelecer relações sociais satisfatórias. Os psicanalistas depositam em seus tratamentos analíticos a esperança de serem capazes de processar com sucesso o complexo de Édipo dos pacientes.

É um lugar de “solidão relaxada”, conforme Winnicott o denomina, que pode desenvolver-se quando uma criança é capaz de confiar na disponibilidade do seu objeto primário e estar só consigo mesma na presença de outra pessoa. Como descreve Montaigne (1580/2003), é um lugar que, sendo um espaço interno protetor, pode se tornar um espaço próprio de liberdade. Um lugar onde a criança mergulha no seu brincar, onde existe uma espécie de silêncio, uma falta de comunicação no âmago do indivíduo. Esse eu que “não se comunica e é incomunicável” precisa ser respeitado e preservado para que a formação de um sentimento de identidade possa crescer, segundo Winnicott (1963/2016, p. 90). Esse lugar interno descrito aqui é também um pré-requisito para o que se chama solitude em inglês e francês. Inclui a capacidade e a liberdade de procurar ativamente o estar só por vontade própria – por exemplo, para se ocupar criativamente. Pressupõe uma forma de estabilidade e segurança interior, para a qual Kennedy (2010, p. 1) encontrou a bela metáfora de “lar psíquico”, formado por uma estrutura mental interna disponível e organizadora, que se aproxima de um sentimento disponível de identidade pessoal. Ele considera um pré-requisito para isso a criação de um espaço simbólico interno que permita a identificação com os membros da família, bem como com o lar enquanto local para diversas atividades domésticas. O autor enfatiza com isso que não está preocupado com algo estático, mas com algo que requer planejamento, previsão e/ou ação. A seu ver, tudo isso constitui a matéria- -prima do nosso pensar e sonhar. Nesse aspecto, complementa o mundo dos objetos internos com um precipitado resultante do contato com os objetos inanimados e com o ambiente concreto. Talvez aqui ele implicitamente dê maior importância ao controle gerencial como um estágio de desenvolvimento.

Qualquer pessoa capaz de confiar nesse lar interior pode suportar e lidar com mudanças ou mesmo perdas e manter um sentimento da própria identidade, apesar da incerteza temporária que experimenta.

Por que associamos a solidão ao envelhecimento?

Olhando mais de perto, fica evidente que todos os psicanalistas tinham mais de 60 anos quando escreveram seus pensamentos sobre o tema da solidão e de estar só. Winnicott (1896-1971) tinha 62 anos quando escreveu “A capacidade de estar só” (1958/1965). O trabalho de Melanie Klein (1882-1960) “Sobre o sentimento de solidão” (1963/2000b) e o trabalho de Frieda Fromm-Reichmann (1889-1957) “Loneliness” (1959) foram publicados apenas postumamente – Klein morreu aos 78 anos, e Fromm-Reichmann, aos 67. Foram os últimos trabalhos escritos por ambas as analistas. Autores como Jean-Michel Quinodoz (1996) e Shmuel Erlich (2003) só abordaram esse tema a partir dos 60 anos. O que isso significa? Envelhecer leva inevitavelmente à solidão?

A partir da meia-idade a consciência do envelhecimento, da finitude e da transitoriedade se transforma em algo diferente do que foi na primeira metade da vida. Lentamente nos tornamos conscientes da verdade desagradável de que, se formos sensatos, não podemos nos colocar contra o tempo, nem tampouco correr atrás dele; menos ainda temos a opção de nos subtrair do processo de passagem do tempo, como diz Jean Améry (1977). É necessário um esforço mental cada vez maior para manter fora da nossa consciência a ideia de uma data-chave estabelecida para o fim da vida, para o morrer e a morte. Somos então confrontados com a incerteza por excelência. Não posso mais falar a respeito de idade, mas devo começar a falar sobre a minha idade ou sobre o meu envelhecimento. Silvia Bovenschen (2006) aponta para a conexão existente entre o abandono externo concreto por parte de familiares, amigos e conhecidos e o sentimento de estar cada vez mais só consigo mesmo e com as próprias memórias. Todos aqueles com quem existiam “encontros de lembranças” agora não se encontram mais concretamente, e estão disponíveis em nós somente como memórias. Quase nada do que agora é dito publicamente sobre os tempos passados é compatível com essa retrospecção pessoal e interior, que parece tão completamente diferente. Para os jovens de hoje, as memórias de juventude dos mais velhos soariam como uma história da Guerra dos Trinta Anos, diz a autora, enfatizando o distanciamento social cada vez maior sentido em relação à geração mais jovem, que já não parece compreender a linguagem dos mais velhos, e vice-versa.

Norman Cohen (1982) foi o primeiro a vincular o estudo psicanalítico dos sentimentos de solidão ao processo de envelhecimento. Tanto ele como Wolfgang Loch, que comentou sua palestra no Congresso Internacional de Psicanálise em Helsinque (1981), já se encontravam em idade avançada na época. Cohen é da opinião de que a conexão entre os temas velhice e solidão só se tornou possível a partir de uma modificação na psicologia do desenvolvimento (quando esta passou a se direcionar para todo o percurso da vida), bem como a partir de construções mais recentes na teoria e na técnica psicanalíticas. Na medida em que ele considera que pessoas com perturbações narcísicas, em particular, estão menos equipadas para suportar e lidar com a dor psíquica, supõe que esse grupo de pessoas terá maior dificuldade em se adaptar ao processo de envelhecimento, enfrentá-lo ou até aproveitá-lo de maneira construtiva e criativa. Pois é especialmente difícil para elas renunciar a sentimentos de onipotência e certezas, suportar a dependência, fazer lutos e, em última análise, reconhecer a inevitabilidade da própria morte. Em consonância com Melanie Klein, ele entende a solidão como a incapacidade de se comunicar com partes de si mesmo ou com seus objetos internos no seu próprio interior. Dessa forma, ele também teme que uma defesa narcísica aumente o sentimento de solidão e torne mais difícil o desenvolvimento de um sentimento de pertencimento.

Em outro trabalho (Junkers, 1995), propus compreender o eu como o local da mediação entre a realidade externa e a interna e, portanto, também como o local do envelhecimento. Dessa forma, aquele que é dotado de um eu forte parece estar mais bem equipado para enfrentar os desafios do envelhecimento. A pessoa capaz de dizer “eu posso” e “eu sou” está provida de uma proteção para que um “não posso mais” não leve a um “não sou mais” na velhice. Então, como funcionam esses desafios? Com o envelhecimento, aumenta a probabilidade de que o conhecido, familiar e confiável comece a sofrer alterações. Novas realidades se impõem a seguranças previamente existentes, que haviam se tornado certezas e que agora começam a ruir. De certa forma, as medidas conhecidas para lidar com essa situação, e que até então ajudaram a recuperar a segurança interior, já não estão mais disponíveis.

Pearl King (1980) nomeia cinco realidades difíceis e novas que podem ser fonte de ansiedade na segunda metade da vida, e até levar a um colapso neurótico. O medo:

  1. da perda da potência sexual;

  2. da perda de identidade através da perda de papéis profissionais;

  3. no casamento, da saída dos filhos de casa;

  4. do envelhecimento e das possíveis doenças e dependência de terceiros;

  5. da inevitabilidade da própria morte.

Um olhar mais detido mostra que todos os pontos tratam de experiências de perda, direta ou indiretamente ligadas à separação, à perda de objetos, e que por essa razão têm grande potencial para evocar a solidão.

Como resultado do encerramento da vida profissional, por exemplo, a estrutura estável e habitual do dia a dia e da vida se rompe, as relações sociais com colegas não se dão mais naturalmente, há falta das fontes de reconhecimento pelo trabalho realizado, as perdas financeiras precisam ser enfrentadas, e o convívio assíduo de duas pessoas na mesma casa também pode, eventualmente, levar a um novo tipo de solidão a dois. Todas essas mudanças precisam ser processadas. Caso isso não seja possível, a insegurança já existente em relação à autoimagem pode se aprofundar ainda mais.

Conforme envelhecemos, as mudanças no corpo e na sua funcionalidade tornam-se cada vez mais prováveis. Na medida em que o corpo também representa um “enquadramento” concreto para si mesmo, podem ocorrer doenças, limitações físicas ou sensações corporais anteriormente desconhecidas e, ao final, até mesmo imobilidade, fazendo com que o raio de ação se torne cada vez mais restrito, podendo perturbar significativamente o equilíbrio interior. Aqui se faz necessário um grande trabalho psíquico para lidar com todas as experiências de perda e para se adaptar às novas realidades (Junkers, 2019).

Hanna Segal (1958), que considero pioneira nessa área de compreensão psicanalítica do sofrimento psíquico na velhice, defende a tese de que o medo inconsciente da morte aumenta com a idade. Ela compreende esse medo crescente como fonte ou origem de muitos colapsos mentais na velhice. Quando li pela primeira vez seu texto “Medo da morte: notas a respeito da análise de um homem idoso”, tive vontade de protestar. Pois chamou minha atenção o fato de que meus pacientes geriátricos na clínica psiquiátrica nunca falavam do medo da morte, mas sim do medo da dor e do sofrimento, do desamparo e da desesperança, da solidão e do isolamento, da incapacidade física e mental, e da necessidade de se apoiar naqueles que podem abandoná-los. Pollock (1982) relata algo semelhante a respeito de seus pacientes. Quando, porém, consegui entender melhor que, segundo a visão de Klein, a morte da mãe externa significa simultaneamente a perda do objeto bom interno, e que isso aumenta o medo do bebê de sua própria morte, pude acompanhar melhor a tese de Segal. A perda da vida pela morte representa aqui o medo de ter perdido para sempre o objeto bom, o seio bom e nutritivo. O sentimento de solidão por excelência que surge dessa forma é percebido inconscientemente como aniquilação psíquica.

Na velhice, acumulações cumulativas como as experiências de perda antes descritas podem ser inconscientemente entendidas como ameaça ou como perda irrecuperável do objeto bom e, assim, correr o risco de desencadear vários movimentos defensivos.

Quando Freud diz: “Se você quiser suportar a vida, prepare-se para a morte” (Freud, 1915/1946, p. 355), ele recomenda figurativamente que nos acostumemos, de preferência cedo na vida, a acolher a compreensão das realidades da vida e também a finitude de todas as coisas vivas em nossas ideias internas, mantendo-a presente em nós para não sermos guiados por sentimentos infantis de onipotência.

Agora gostaria de ilustrar minhas reflexões com impressões obtidas numa entrevista inicial:

A sra. Mila, 63 anos, veio para uma primeira entrevista. Na sala de espera, encontro uma mulher muito esbelta, vestindo uma blusa em tons delicados que combinavam com o azul do seu jeans. Seu cabelo branco estava penteado num estilo afro arrumado e ralo. Seu andar me lembrava o de uma bailarina. Ao entrar na minha sala de atendimento, ela diz: “Como é lindo aqui, tão claro”. Senta-se e continua: “Sim, aqui estou agora!”. As contrações em torno de sua boca me fazem entender o quanto está tensa, tentando reprimir as lágrimas. Ela começa dizendo que na verdade sente ser duas pessoas, uma por fora e outra por dentro, que ninguém conhece. Agora mora sozinha com seus animais no campo. É atriz e dançarina. O seu segundo marido, 17 anos mais velho que ela, morreu há dois anos; há um ano, perdeu seu cavalo favorito. Divorciou-se do primeiro marido porque ele sempre mantinha casos com outras mulheres. Há algum tempo iniciou um relacionamento com um vizinho casado. Foi muito bom estar novamente nos braços de alguém. Mas descobriu, então, que ele também vinha flertando com outras mulheres. Ela simplesmente não conseguia lidar com essa rejeição, pois isso a levava ao seu trauma de separação anterior. Ela me conta que nasceu durante a guerra. Quando tinha 2 anos e meio, a mãe a colocou num orfanato. Quando voltou para casa, depois de várias semanas, um irmão, que mais tarde se tornou o favorito da mãe, havia nascido e seu lugar estava ocupado. Sua tia foi a única que a apoiou no seu desejo de atuar e dançar. Foi somente graças à sua ajuda que conseguiu seguir essa carreira que tanto significa para ela. Agora não sabe mais o que fazer: suas economias estão acabando e quase não consegue mais trabalho. Tudo o que lhe importa são seus animais: três cachorros, um cavalo e vários gatos. Havia feito tudo na vida por conta própria, e agora se via sentada na minha frente como uma pobre coitada. Quando lhe mostro a ligação entre a sua queixa atual e o sentimento de abandono que viveu quando era pequena, consegue chorar e sentir-se espontaneamente aliviada. Pela descrição que tinha ouvido até esse momento, fiz a imagem de uma mulher que vivia completamente sozinha e retraída. Só quando comento essa impressão é que se revela que ela tem uma filha do primeiro casamento, que mora a cerca de 20 quilômetros de distância, assim como uma mãe de 91 anos, que também mora na região. Falam-se por telefone diariamente, e visita-a uma vez por semana. O seu irmão também mora nas redondezas. Ele foi médico e aposentou-se precocemente no final dos seus 50 anos. Agora está divorciado. Ele é e sempre foi um autista.

Nessa entrevista, o que mais me impressionou emocionalmente foi que, na minha imaginação, a sra. Mila me pareceu uma mulher completamente solitária, que vivia num mundo sem pessoas, apenas rodeada por animais. Mostrou-me assim um sentimento básico de isolamento na vida, o qual tentou combater ao longo dos anos com atividades agora afetadas pela idade, que já não estão mais disponíveis. À medida que envelheceu, sentimentos de solidão parecem ter ganhado força, como aqueles do tempo em que era uma criança de 2 anos e meio, quando foi entregue pela mãe a um orfanato, a um mundo que vivenciou como hostil e que não conseguia compreender. Parecia que ela tinha vivido a vida em algum tipo de mundo de sonho de uma “princesa dançarina”. Ela também me deixou sentir um pouco de sua inveja, pois somente admiti minha própria inveja dessa mulher linda e fisicamente ágil depois da nossa conversa. Mas quando ela disse, ao entrar na minha sala de atendimento, “Como é lindamente claro aqui” – e eu acrescentei, nos meus pensamentos, “... em contraste com a escuridão aqui em mim” –, ela também indicou a sua defesa idealizadora e, portanto, a sua inveja.

Por fim, ela me apontou o quanto havia sido difícil, e ainda era, lidar com a situação edipiana: parecia-lhe insuportável sentir-se excluída do casal mãe-irmão, mais tarde do casal dos pais, e hoje do casal vizinho, ou seja, casais que representam todos aqueles outros casais que podem compartilhar criativamente algo entre si e dos quais se sente excluída.

A seguir, resumo o que pode ser concluído a partir de uma única entrevista inicial. Devido a uma separação precoce e vivida como traumática, ela foi incapaz de desistir da sua visão de mundo onipotente e da sua busca por perfeição. A relação idealizada com a mãe passou a ser uma relação persecutória, ou uma não relação, que também é transferida para a relação com a filha.

Gostaria de indicar um trabalho quase esquecido de Stauder (1955). Também escrito na década de 1950, utiliza o termo falência de aposentadoria, originalmente cunhado por J. H. Schultz. Trata-se de pessoas consideradas especialmente capazes e bem-sucedidas, mas que no fundo continuaram sendo pessoas pobres no contato. Elas foram incapazes de encontrar realização em relacionamentos reais e foram bem-sucedidas em se proteger de crises de desenvolvimento ao longo da vida, evitando a separação consciente nas fases da existência que vivenciaram. Dessa forma, há um risco de que acontecimentos que abalam a sua autoconfiança as confrontem com um sentimento de vazio interior, que se esconde por trás de uma fachada aparentemente brilhante. Stauder sugere usar aqui uma analogia metafórica com o direito penal sobre falências, que envolve acusações de má contabilidade, contabilidade fraudulenta e adiamento da abertura de falência através de práticas desleais.

Aos 68 anos, Romano Guardini (1953/2016) faz um alerta sobre a “eternidade má”, um “continue sempre assim” sem trégua. Querer continuar ativo significa evitar as tarefas do envelhecimento, da mesma forma que essas pessoas estavam acostumadas a evitar seus problemas. Diante da idade, trata- se mais de um encerramento pessoal, da introversão metafísica diante da morte. Isso seria o “formato da alma”, o sentimento de identidade, baseado em bons objetos que estão disponíveis no nosso interior, que nos permitem vivenciar a idade como uma experiência também de acréscimo.

Como acontece com a senhora idosa que gostaria de apresentar agora:

A sra. L perdeu o marido de 84 anos há 10 anos, quando ela tinha 70 anos. Hoje ela mora no campo, quase completamente cega, espacialmente isolada dos amigos e filhos. Ela mantém na memória a agenda da família e liga para amigos, parentes e, em especial, para os netos em horários predeterminados. Ela escuta rádio e audiolivros a partir de uma seleção feita previamente. Ela diz que está bastante satisfeita com a sua vida hoje, aos 80 anos, após ter superado os “problemas iniciais do envelhecimento”.

Por fim, gostaria de me voltar para o envelhecer e se tornar solitário do psicanalista. Não apenas exercemos uma profissão solitária, mas além disso trabalhamos num “clima de acentuado isolamento”, como descreve Cooper (1986, p. 592; Quinodoz, 1996). Escolhemos uma profissão na qual nos colocamos como pessoas. Pomos a nossa própria identidade e o nosso mundo emocional a serviço do outro, assumindo uma posição de espelho e oferecendo a nossa emotividade como tela interior para projeções. Estamos prontos para experimentar o que nosso analisando quer que experimentemos.

Uma atitude de abstinência, na qual devemos controlar continuamente a nossa contratransferência, parece estar necessária e inescapavelmente ligada a um sentimento de solidão do eu. Mas nem sempre é esse o caso. Pois, de maneira paradoxal, também trabalhamos em estreita proximidade com os nossos analisandos. Uma proximidade que o psicanalista pode às vezes vivenciar com grande intensidade e que pode ser difícil de suportar, sobretudo em momentos de muita tensão emocional ou mesmo de medo. Em momentos tão agudos, não nos é possível discutir de imediato com um colega um problema que surge. Podemos somente ter um diálogo com nós mesmos, confiar na nossa contratransferência e na nossa capacidade de reverie. Nesse sentido, é particularmente importante trabalhar na própria análise didática a mencionada capacidade de renúncia, a perda de objetos e os sentimentos de exclusão, a fim de ter um “lar interno” que nos forneça uma base segura em “momentos turbulentos” de trabalho.

Com frequência, os analistas ao envelhecerem têm uma visão retrospectiva de sua vida, na qual nem sempre foi fácil a separação entre a vida privada e a profissional. Pode ter havido um investimento de força, dinheiro e energia na vida profissional maior do que o habitual em outras profissões. Recentemente, em 2022, relatei algumas peculiaridades que me parecem caracterizar os analistas. Descrevi ali a minha impressão de que carregamos para a formação em psicanálise uma grande necessidade de proximidade e de convivência pessoal estreita, que vem da nossa história de vida. Em 2013, escrevi sobre a frequente dificuldade dos psicanalistas em encerrar sua atividade. Entre outras coisas, por temerem talvez a perda ou a renúncia de uma convivência com outra pessoa, justamente quando se veem diante de uma fase da vida voltada para o fim, o qual gostariam de evitar, por seu futuro incerto e por sua finitude. Será necessário reconhecer que temos dificuldade em estar sós e preferimos deixar (substitutivamente) o sentimento de solidão e de ser abandonado para a outra pessoa, para o paciente? Trata-se de uma incapacidade para o luto? Numerosos trabalhos de membros em formação que foram deixados pelos seus analistas didatas em função de morte, doença grave ou transtorno mental atestam a aparente incapacidade de estar plenamente alerta e enfrentar a possível solidão na “aposentadoria”.

Às vezes parece difícil demais conseguir romper a força desse tema e dos tabus que o rodeiam. Negamos com facilidade que um bom trabalho analítico só é possível por meio de um hardware somático relativamente saudável como base para as nossas ferramentas. Regulamentações institucionalmente vinculantes e apoio nessa fase potencialmente difícil da vida para os nossos colegas têm sido exigidos desde a década de 1950, mas não foram implementados de forma efetiva até hoje (Junkers, 2022). Cabe à próxima geração enfrentar essa difícil tarefa com coragem e desenvolver obrigações éticas profissionais vinculativas para lidar com o envelhecimento do analista. Ao mesmo tempo, isso significa ter a coragem de contradizer as pessoas mais velhas e, assim, possivelmente desestabilizar as suas defesas.

Conclusão

Como podemos ter um bom desempenho no teste de maturidade do envelhecimento? Como é possível não responder às perdas iminentes e às despedidas da velhice com medidas defensivas patológicas, mas, ao contrário, viver o encerramento da atividade profissional como uma fase de introversão, olhar retrospectivo e plenitude interior? Quanto mais consolidada for a capacidade de adaptação às diferentes realidades, sobretudo àquelas desagradáveis e desprazerosas, maior será a possibilidade de aceitar os próprios erros. Nesse caso, poderia haver também uma diminuição do ressentimento em relação àquelas realidades da vida que foram criadas pela própria pessoa no passado. Quanto maior a disposição de olhar atentamente para as tarefas do desenvolvimento que surgem ao longo da vida, quanto mais objetos bons internos, e experiências com eles, formos capazes de manter internamente disponíveis, maior será a probabilidade de conseguirmos superar com sucesso a imposição, a partir de diferentes realidades, do estar só, e das vivências de exclusão e separação na velhice. Aliás, não tenho experiência de trabalho de psicanálise ou psicoterapia com pessoas com mais de 60 anos que não se concentre quase que exclusivamente na questão da mãe. Encerro, então, com a seguinte citação de Klein:

Sou da opinião de que a felicidade vivida na primeira infância e o amor pelo objeto bom … continuam a exercer a sua influência também na velhice. Quando Goethe diz “A pessoa mais feliz é aquela capaz de conectar o fim da vida com o seu início” [Máximas e reflexões], eu compreenderia “o início” como uma relação precoce com a mãe (não necessariamente feliz, mas suficientemente boa), que atenua o ódio e o medo ao longo de toda a vida e ainda é capaz de proporcionar apoio e satisfação mesmo na velhice. … A pessoa invejosa sente que isso é algo que lhe é subtraído em todos os tempos. (1957/2000a, p. 322)

Tradução de Johann Christian Post Susemihl

Revisão técnica de Elsa Vera Kunze Post Susemihl

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Recebido: 11 de Março de 2024; Aceito: 25 de Março de 2024

Gabriele Junkers info@gjunkers.de

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