Não somos simples testemunhas do que está acontecendo. Somos os corpos através do quais a mutação se instala. A questão não é mais quem somos, mas o que estamos nos tornando.
PAUL B. PRECIADO
O tema deste número da rbp, Inquietante mundo novo, foi inspirador para eu reunir em um artigo algumas ideias inquietantes que vêm se configurando para mim a respeito das ameaças no mundo contemporâneo à função do sonhar na mente humana.
O que penso estar sob risco é a capacidade de processamento das experiências diante de uma avalanche de estímulos. No cenário atual de hiperestimulação do sensório, engendram-se mentes sobrecarregadas de conteúdos não processados, que terão um destino nefasto, tornando-se descargas de ações impulsivas e improdutivas. A mente perde a possibilidade de continência e passa a ser evacuativa; a dimensão do sonhar definha.
Uma fonte de inspiração para este artigo foi também uma instalação que tive a oportunidade de ver na Bienal de Veneza de 2024.3 O título da instalação é Inflammation, uma obra dos artistas lituanos Pakui Hardware (dupla formada por Neringa Černiauskaité e Ugnius Gelguda) e Marija Teresė Rožanskaitė. Dentro de uma pequena igreja estavam expostas obras em que havia elementos que lembravam órgãos humanos sendo atravessados por elementos inorgânicos, metálicos ou plásticos. Senti primeiramente um impacto, porque vi uma igreja – um lugar sagrado para mim – sendo invadida por objetos estranhos. As imagens dos santos que ali estavam pareciam ameaçadas de perder a sacralidade. Após o primeiro impacto, o sonhar se apresentou: pensei que, assim como a igreja, o corpo pode ser considerado um lugar sagrado e tem sido invadido por elementos inorgânicos, estranhos a ele. Estamos sendo radicalmente híbridos, concretamente? In-corporando máquinas e próteses em nosso organismo? São tão bem-vindas tais novidades tecnológicas que podemos não nos aperceber no homem cibernético que estamos nos tornando.
Se levamos essa reflexão a respeito do corpo para o universo mental, podemos nos indagar sobre as implicações de estarmos atribuindo às máquinas funções essenciais para o nascimento e o desenvolvimento da mente. As mentes sem exercício de suas funções estarão correndo risco de definhamento? E mais: se considerarmos que as próteses e aparelhos médicos nos “salvam” de doenças ou de limitações físicas, elas agregam valor ao humano; por outro lado, não se agrega valor ao humano quando a máquina substitui funções mentais – ao contrário, apresenta-se o risco de atrofia de funções que nos caracterizam como humanos. Considere-se, por exemplo, a escrita. Para escrever um texto, muitas funções são ativadas e exercitadas: busca no acervo onírico de experiências emocionais vividas; memórias de conceitos teóricos lidos e apreendidos, de ideias produzidas em grupos; conjugação de sonhos e raciocínios, de poesia e gramática, de razão e emoção... Inclua-se aí o mistério constituinte dos processos de criação que vinculam todas essas funções. Pois bem, atribuir à máquina a escrita de um texto é rápido, prático e eficiente, mas com o efeito colateral danoso de que funções não ativadas possam estar sendo ameaçadas de definhamento. Vale então a indagação presente na epígrafe: o que estamos nos tornando?
A pergunta reverbera em diferentes contextos, sinalizando incômodos diversos e, por vezes, perplexidades.
Recentemente, fui procurada pela coordenadora pedagógica de uma universidade, que me propôs conversar com os professores acerca de suas preocupações diante do que nomearam de “passividade” dos alunos. Essa coordenadora me disse que o encontro não precisaria ter a conotação de palestra, mas sim “ser uma conversa com um grupo de professores sobre o que anda acontecendo com a vida emocional dos jovens”. Resolvi iniciar o diálogo com eles recortando, em forma de perguntas, a frase escrita pela coordenadora, procurando me aproximar de suas inquietações:
O que está acontecendo com a vida emocional dos jovens?
O que está acontecendo com a vida emocional?
O que está acontecendo com a vida?
O que está acontecendo?
O sismógrafo
Encontro em Didi-Huberman,4 no livro A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg(2002/2013), o título muito inspirador de um capítulo: “Sismografia dos tempos moventes”.
Dois termos precisos e poéticos, que expressam bem o que temos sentido neste inquietante mundo novo: “sismografia” e “tempos moventes”.
O primeiro – sismografia – fala da sofisticada arte de detectar movimentos invisíveis, que podem resultar em grandes catástrofes. Arte necessária para estarmos em contato com o que nos acontece e podermos sonhar/pensar/narrar a experiência. Nas palavras do autor: “Em primeiro lugar, o sismógrafo é um aparelho capaz de registrar movimentos subterrâneos – invisíveis ou até imperceptíveis – cuja evolução intrínseca pode dar lugar a essas catástrofes devastadoras que são os terremotos” (p. 108).
O segundo – tempos moventes – é poético e traduz sentimentos contemporâneos. Sabemos que os tempos são sempre moventes, em qualquer época, mas a cada nova onda, novos sustos se apresentam, especialmente quando sentimos que a turbulência pode exceder nossa condição de navegação.
Mais adiante, no mesmo capítulo, o autor escreve:
O historiador-sismógrafo não é o simples descritor de movimentos visíveis que ocorrem aqui e ali; é, principalmente, aquele que inscreve e transmite os movimentos invisíveis que sobrevivem, que são urdidos sob o nosso solo, que se aprofundam, que aguardam o momento – inesperado – de se manifestar subitamente. (p. 112)
Inspiro-me nessas palavras para falar sobre a necessidade de desenvolver um sismógrafo que detecte movimentos invisíveis que podem estar evoluindo, gestando a possibilidade de um colapso da condição sonhante.
A questão interessa a nós, psicanalistas, que temos por ofício o cuidado com o desenvolvimento da condição de estarmos acordados para as experiências que a vida nos apresenta e da condição de sonhar essas experiências, tecendo assim a rede mental que nos sustenta. A esse respeito, Ogden observa:
A situação analítica, embora em muitos aspectos desestruturada, também tem uma qualidade de direcionalidade que é oriunda do fato de que a psicanálise é antes de mais nada um empreendimento terapêutico com o objetivo de aumentar a capacidade do paciente de estar vivo para vivenciar ao máximo a plenitude da experiência humana. Voltar à vida emocionalmente é, a meu ver, sinônimo de tornar-se cada vez mais capaz de sonhar a própria experiência, que é sonhar-se existindo. (2005/2010, p. 24).
O sonhar e suas vicissitudes
A função do sonhar que nomeio aqui refere-se ao sentido dado por Bion (1963/2022) a esse termo, qual seja, a capacidade humana de processar (por meio da função α) impressões sensoriais e emoções e transformá-las em elementos α, apropriados à constituição da dimensão simbólica da mente. A capacidade de sonhar está presente tanto no sono quanto na vigília, constituindo-se em um processo intrínseco à formação da mente consciente e inconsciente. O sujeito capaz de sonhar é aquele cuja função α está ativa, em processo contínuo de transformar elementos do universo sensório em elementos do universo mental. Assim, o sujeito produz os elementos α que formam o tecido mental em sua dimensão simbólica, o que constitui a condição para o surgimento de imagens, palavras, música, poesia, narrações, sonhos, conhecimentos, gestos..., ou seja, a condição de sonhar.
Não distingo aqui o sonhar do pensar: por um lado, porque ambos os processos fazem parte da mesma função mental a que me refiro; por outro, porque o sonhar é um termo mais associado à poiesis, à intimidade com mistérios e obscuridades, e é justamente essa condição humana que me parece ameaçada na contemporaneidade.
A propósito disso, Byung-Chul Han afirma: “Narrações geralmente possuem margens de milagre e de mistério. Elas não são compatíveis com informações, que são a contrafigura do mistério” (2023a, p. 20).
Caso a função α esteja inoperante, os dados da experiência permanecerão brutos (elementos β), isto é, sem processamento, formando amontoados de objetos, apropriados somente para identificação projetiva e atuações.
O contraste entre elementos α e elementos β é importante no contexto deste artigo, porque conjecturo haver no mundo contemporâneo um excesso de estímulos, somado a uma escassez de recursos de processamento desses estímulos (Assis, 2017), o que pode gerar mentes saturadas de elementos β, abarrotadas de informações, e assim propensas a atuações, extremismos e fanatismos.
Em A crise da narração, Byung-Chul Han fala do declínio da escuta atenta e da narrativa na sociedade da informação, alertando para os riscos de “um esquecimento do ser”:
Ser e informação são mutuamente excludentes. Assim, é inerente à sociedade da informação uma carência de ser, um esquecimento do ser. A informação é aditiva e cumulativa. Ela não é portadora de sentido, enquanto a narração, por sua vez, transporta o sentido. ... Somente a narração de histórias eleva a vida para além de sua pura facticidade, para além de sua nudez. A narração consiste em dar ao tempo um curso significativo, um começo e um fim. Sem narração, a vida é meramente aditiva. (2023a, pp. 14 e 62)
A narração é, nesse sentido, compatível com o que a psicanálise designa como condição sonhante. É justamente essa condição que se escasseia nos dias atuais, ameaçada por processos mortíferos causados especialmente pela revolução da informática, a qual, se por um lado representa o que há de mais sofisticado na inteligência humana e nos provê de recursos de comunicação há pouco tempo inimagináveis, por outro lado gera elementos de desumanização, no sentido de que essencialidades do humano, como o sonhar, são perigosamente substituídas por processos de consumo de informações.
Para pensar essa questão, valho-me também de ideias expostas por Oswaldo Giacoia Junior num livro organizado por Adauto Novaes, A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutação(2009). Esse autor fala da supremacia do conhecimento da tecnociência sobre o conhecimento proveniente da experiência humana:
Mas a pergunta do nosso tempo é: o que é feito da condição humana em um mundo que dedica uma reverência religiosa à mercadoria como se esta exercesse uma potência sobrenatural sobre o homem? Que condição é essa que, tanto na vida como no trabalho, reproduz sem cessar os mesmos gestos – em um tempo “homogêneo e vazio” no qual se passa sempre a mesma coisa –, gestos incapazes de criar a experiência de relações dotadas de sentido? (p. 16)
Lembro-me aqui de uma passagem do livro Transformações: do aprendizado ao crescimento(1965/2004), em que Bion fala da diferença entre o propagandista e o pintor. O propagandista é o que faz uma obra com uma intenção, qual seja, a de vender um produto ou de valorizar o produto. O pintor faz uma obra a partir do contato que tem consigo mesmo, com a natureza, com a vida humana, com o ser humano, no que há de mais terrível e no que há de mais sublime. O gesto do pintor é resultado da ativação de um sismógrafo ultrassensível a perscrutar a alma. Em contraste, o ato do propagandista é resultado de uma estratégia dirigida a aumentar o consumo de determinado produto.
Usando o modelo de Bion, pode-se dizer que o sujeito sonhante é o sujeito pintor, ou seja, aquele que cria a si mesmo, que produz sua subjetividade, que gera interioridade, estando em contato emocional consigo, com o outro e com o meio do qual é parte constituinte – familiar, cultural, social, ambiental. A evocação contrasta com a manipulação; a criação, com a reprodução.
Ameaças à capacidade de sonhar: desdobramentos nefastos da revolução da informática
Lembro-me de uma cena clássica do filme Tempos modernos(1936), de Charles Chaplin, em que ele cai em uma esteira de produção e entra nas engrenagens da máquina da indústria.
A cena é emblemática e fala por si: a máquina “engole” o homem. Depois que ele é retirado de lá, sai enlouquecido, apertando parafusos compulsivamente. O homem se torna máquina e passa a ter gestos automáticos, “maquinais”. A cena clássica continua muito apropriada para falar dos novos “tempos modernos”: aquele homem da revolução industrial que foi consumido pelas engrenagens radicaliza-se agora, com a revolução da informática, produzindo um modus operandi que se introduz sorrateiramente no modo de funcionar humano, ameaçando a sobrevivência do sonhar. Hoje os riscos são mais invisíveis, as máquinas que nos engolem são sistemas algorítmicos, dados nas nuvens, redes sociais, aplicativos... Não estão nas fábricas, mas nas nossas mãos, e são acionados a qualquer momento. São aparelhos encantadores porque facilitam inegável e enormemente nossa vida. Por isso mesmo, muitas vezes não nos damos conta dos efeitos colaterais ou dos prejuízos invisíveis que tais dispositivos promovem nas relações humanas.
Além disso, há mais um fator que pode nos cegar: o ideal de onipotência e onisciência inscrito em nossa mente. Os sistemas produzidos pela revolução da informática nos oferecem superpoderes que nos tornam semideuses quando “acoplados” às máquinas, mas nos cegam para um “efeito colateral” perverso: o enfraquecimento da nossa condição intrinsecamente humana de lidar com as fragilidades, falhas, fracassos e limitações que nos são inerentes.
Em O mal-estar na civilização, Freud escreve:
Há muito tempo atrás ele [o ser humano] formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A estes, atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido. Pode-se dizer, portanto, que esses deuses constituíam ideais culturais. Hoje, ele se aproximou bastante da consecução desse ideal, ele próprio quase se tornou um deus. ... As épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus. (1930/1974, pp. 111-112)
A genialidade de Freud o faz ter uma antevisão de que novos avanços na civilização aproximariam cada vez mais o homem de deus, mas talvez com o resíduo sombrio de afastá-lo cada vez mais de si mesmo e de seus pares. As relações humanas podem se deteriorar enquanto as máquinas poderosas produzidas pela revolução da informática progridem cada vez mais.
No inquietante mundo novo em que vivemos, detectamos com nossos sismógrafos a sensação de que estamos sem tempo, atrasados com as inúmeras tarefas a cumprir. O tempo parece escoar-se, e a queixa de aceleração é constante. Junto a essa sensação de aceleração, vivemos sem tempo para a inatividade e a contemplação, como nos alerta o filósofo Byung-Chul Han: “A inatividade contemplativa diferencia o pensador do vigia ou observador, que sempre persegue um objetivo concreto. O pensador, ao contrário, está sem propósito, não tem nenhum objetivo em mente”(2023b, p. 19).
O tempo do processamento da experiência emocional vivida supõe espera, tolerância à incerteza, convivência com o medo e com a dor psíquica, o que gera construção de sentido. Exemplo clássico disso é o tempo necessário para a elaboração do luto.
Vivemos em um tempo em que a imagem se superpõe à reflexão, a exterioridade prevalece sobre a interioridade. Vivemos uma espécie de “des-interiorização” (Souza Leite, 2022) do sujeito. A hiperestimulação externa que captura nossa atenção nos direciona para fora de nós mesmos. Precisamos da opacidade do sensório para a interiorização: fechar os olhos para “ver” melhor, fazer silêncio para apurar a escuta. O mundo contemporâneo, provido de máquinas fantásticas, atrai tanto nosso olhar para o exterior de nós mesmos, que podemos deixar não só de “ver” nossa interioridade, mas também de a constituir, uma vez que seu tecido provém da capacidade de sonhar.
Conjuntamente à hiperestimulação, vivemos uma escassez de recursos de processamento dessa estimulação. Como disse antes, nos falta tempo para processar as emoções, para sonhar, para sofrer, para construir sentido ao que nos acontece. Segundo Jorge Larrosa Bondía, a experiência não é o que acontece, mas o que nos acontece:
A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. (2002, p. 24)
Nesse contexto de aceleração e hiperestimulação, outra consequência nefasta é a intolerância aos processos de construção que levam tempo, que requerem paciência. O desejo é o de encontrar um produto pronto. Não me refiro aqui ao produto físico, concreto, mas a algo mais grave: a busca da opinião pronta, da ideia já constituída. Um exemplo aparentemente banal, mas carregado de sentido, é um comportamento cada vez mais comum: pais que procuram no Google soluções para os problemas que têm com os filhos. O olhar para o filho é substituído pela busca de informações. Perde-se assim o exercício da sensibilidade. O contato emocional consigo e com o outro torna-se precário e raro. Posso chamar isso de desconfiança no próprio “sismógrafo”, desconfiança que recai sobre os atributos humanos de sensibilidade, percepção, descoberta, criatividade – sinal, a meu ver, de um sujeito sensível e pensante que definha e dá lugar ao sujeito que busca obsessivamente informações. Com isso, o sujeito torna-se consumidor de soluções, e não produtor de sentido.
Uma das funções mais importantes do nosso ego é a atenção. Precisamos dela para nos orientar no mundo externo e no mundo interno. Acontece que no mundo digital nossa atenção tem sido capturada de forma a se tornar superficial, perdendo completamente a função de profundidade. Torna-se deslizante, rasante, sem mergulho. A expressão “passar por cima” cabe bem aqui para o que estou tentando expressar.
Vejam o que diz Souza Leite:
O mundo digital compete de forma feroz e visceral pela nossa atenção. Todos os tipos de aplicativos que povoam os celulares têm como meta nosso engajamento imediato, e pelo tempo mais longo possível. Eles agem silenciosamente e, ao mesmo tempo que nos oferecem enorme conforto, passam a modificar a forma como investimos nossa atenção e como nos relacionamos uns com os outros. (2022, p. 88)
E mais adiante:
O estado psíquico do Eu é peculiar ao longo do uso do aplicativo, pois toda a atenção do paciente está ali, ao passo que ele não está. Sua atenção e sua capacidade de sentir prazer se mantêm ligadas, enquanto outras funções do aparelho psíquico foram narcotizadas. (p. 102)
Quero enfatizar aqui o termo “narcotizadas”, para destacar os processos de anestesiamento sutis e silenciosos que acontecem nessa situação. Talvez esse seja um elemento importante a compor a desmotivação dos alunos das universidades, a queixa dos professores que apresentei no início deste texto.
Han também fala sobre isso:
O ato de digitar ou deslizar não é um gesto narrativo. O smartphone permite apenas uma troca acelerada de informações. Além disso, a narração pressupõe escuta e atenção profunda. A comunidade narrativa é uma comunidade de ouvintes atentos. Estamos, contudo, visivelmente perdendo a paciência para estar à escuta e a paciência para narrar. (2023a, p. 15)
Pouco depois, no mesmo livro, observa:
O tsunami de informações garante que nossos órgãos de percepção estejam permanentemente estimulados. Eles não são mais capazes de passar para um modo contemplativo. O tsunami de informações fragmenta a atenção. Ele impede o demorar-se contemplativo que é constitutivo do ato de narrar e escutar. (p. 27)
Veem-se, assim, sérios riscos de perdermos nossa capacidade de atenção, concentração, escuta, narrativa, processos presentes nas bases da constituição do sujeito sonhante/pensante.
Podemos pensar que não por acaso se vê hoje uma espécie de epidemia de diagnósticos de tdah. Afinal, o mundo contemporâneo está hiperativo e desatento. E pior: o avanço dos diagnósticos também não promove reflexões. Ao contrário, produz uma busca desenfreada por medicamentos que “consertem” o transtorno. Mais um sinal da diluição do sujeito: procura-se na farmácia a solução rápida para aquilo que requer tempo de elaboração. O espaço e tempo do pensar é substituído pelo consumo de produtos. Dito de modo mais veemente: o produto esmaga o processo de construção de sentido.
Relato de uma experiência clínica
M é uma paciente de 30 e poucos anos, cujas características do atendimento clínico me fazem associar com algumas das questões contemporâneas que foram levantadas anteriormente.
Em sua comunicação verbal predomina o relato de acontecimentos factuais e concretos. Fico com a impressão de que é como se ela filmasse os acontecimentos e me apresentasse uma sequência de imagens, em um processo cumulativo, uma “vida aditiva”, para usar as palavras de Han (2023a). Não há vinculação, não há um processo de sonhar a situação. Os relatos são bidimensionais: as pessoas que estavam no acontecimento, as roupas que usavam, a decoração do lugar..., imagens que se sucedem, registros de informações. Os comentários ficam restritos a críticas ou elogios ao comportamento das pessoas, às roupas ou à decoração do lugar. A qualidade das impressões é da ordem do julgamento, prevalecendo a dimensão moral da mente: feio/bonito, certo/errado. Percebo a condição sonhante atrofiada.
O sofrimento que a fez buscar análise existia, mas também carecia de tecido onírico. As dores estavam materializadas no corpo, em distúrbios gástricos, em taquicardias associadas a algum “defeito no coração”. O medo era relatado como “pavor de ter uma doença grave, como um tumor cerebral”. Penso que havia sim um contato, ainda que longínquo, com uma ameaça de morte. O que M não suspeitava é que não se tratava de morte do corpo, mas de morte da alma, que estava dando sinais da carência de sonhos. Como diz Bion (1967/1988), a mente pode morrer de inanição se não for abastecida de verdade.
Em seu grito silencioso por socorro, percebo sua sensibilidade presente–sensibilidade presente, mas embotada, minguante. O contato com esse sofrimento me faz estar com ela de modo colaborativo, procurando as brechas para sonhar. Às vezes, tomo uma imagem que ela me oferece e procuro expandi-la com associações. Mesmo sabendo que não há para ela um valor simbólico naquilo que disse, mesmo sabendo que é uma sucessão cumulativa de imagens, eu procuro estabelecer alguma vinculação e compor um sentido. Isso não se assemelha a “interpretações” no sentido clássico do termo, mas a vinculações entre as imagens, tentando uma narrativa, que vou fazendo junto com ela, por intermédio de perguntas ou de notações, sugerindo alguma investigação possível (Bion, 1963/2022).
Conforme a análise foi acontecendo, começaram a aparecer queixas de sentimento de vazio, de falta de amizades sinceras, um sentimento de “carência” de interlocutores com quem pudesse falar sobre a vida e o viver, e não somente sobre acontecimentos factuais. Notei um sonhar nascente, uma expansão em seu universo mental.
O que me chama a atenção nessa situação clínica, e me fez escolher relatá-la neste artigo, é que observo nela algo sutil e relevante, que entendo como influência direta das peculiaridades deste inquietante mundo novo. O processo laborioso e lento de ampliação da área do sonhar, que vamos trabalhando em análise, vai tendo um “concorrente” que se apresenta, perversamente, como “colaborador”. Estou me referindo às frases e vídeos que proliferam nas redes sociais, falando sobre a vida e o viver. M passou a trazer esse material para as sessões. Percebo-a muito entusiasmada por ter encontrado algum vídeo, frase ou meme que considerou interessante. Noto nessa atitude o caminho aberto para sonhar o que estamos vivendo nos nossos encontros. No entanto, percebo o “lobo mau” devorador de sonhos nesse caminho, ou seja, em vez daquele material encontrado nas redes sociais ser parte do sonhar a experiência emocional que os acontecimentos da vida lhe apresentam, inclusive os que vive ali comigo, ela delega a outros pensadores essa função; ela traz de fora, importa ideias, mimetiza pensamentos, sem efetivamente produzi-los. Digo que esse movimento é sutil porque ele pode ser facilmente confundido com o processo de sonhar. O que consigo identificar é que M abre o caminho, mas é facilmente capturada pelo lobo mau contemporâneo, o devorador de sonhos, que transforma tudo em mercadoria e concretude. M traz os vídeos/frases/memes que encontra na internet como uma espécie de exibição de algo novo que comprou, expressando um movimento que para mim é inquietante: os pensamentos estão pensados, e a tarefa na contemporaneidade se torna adquirir, e não produzir; o comportamento de consumo vai se imiscuindo sorrateiramente na função de pensar. Pensamentos são adquiridos e exibidos como produtos caros comprados em lojas de grife. Quanto mais seguidores tem o influencer que o produziu, mais valioso ele se torna. O que noto nessa paciente é que o que ela lê e ouve não produz reflexões ou emoções, mas uma espécie de encantamento com as palavras bonitas, com as ideias brilhantes, que serão apresentadas como uma joia adquirida na joalheria. O percurso do concreto ao simbólico é invertido: o simbólico se degenera em concretude e não tem mais a potência de gerar novos sonhos.
Recentemente, em um grupo de estudos coordenado por Edu Martins,5 ele falou sobre a afinação feita pela máquina, possibilitada pela tecnologia atual, cada vez mais precisa. Nesse tipo de afinação tecnológica, as desafinações do cantor ou dos instrumentistas são “consertadas” pela máquina e a gravação sai “perfeita”. Martins fez uma brilhante reflexão sobre como o uso dessa tecnologia pode implicar um embotamento da capacidade do cantor ou do instrumentista de exercitar sua própria percepção da desafinação. Todo o processo de “falhar”, tolerar a frustração desencadeada pela “falha”, produzir criativamente uma solução (o processo de pensar) se torna desnecessário, porque é atribuído à máquina. Ora, se esse processo não é exercitado, ele corre o risco de ir definhando ou degenerando. Assim, abrir mão da capacidade de sonhar/pensar a experiência emocional vivida e delegar esse processo à máquina é pôr em risco uma função preciosa de nossa mente. O que torna ainda mais complexo esse movimento de degeneração da condição de sonhar é ele ser sutil e insidioso, como observo acontecer na paciente que citei. Nela, o processo recém-nascido do sonhar vai sendo sutilmente sufocado por um pseudossonhar, processo sedutor e hipnótico que, camuflando-se de sonho, encobre o pesadelo que verdadeiramente é.
Em uma sessão, a paciente conta um acontecimento emblemático para as reflexões presentes neste texto. M foi encontrar uma amiga usando uma bolsa muito bonita e notou que o olhar da amiga se deslocava insistentemente para a bolsa, como que atraído por ela, dando a impressão de que nem estava prestando muito atenção à conversa que estavam tendo. Percebo em sua fala uma exibição para mim de seu bom gosto, mas decido aproveitar outro aspecto de sua fala. Introduzo uma conversa sobre “olhares”, discriminando entre o olhar que se dirige para o objeto material atraente e o olhar que se dirige ao que é imaterial em um encontro de duas amigas.
Digo algo mais ou menos assim:
Interessante, M, você está me contando isso e me chamou a atenção esse olhar da sua amiga, que se desviava da conversa para a bolsa... Fiquei pensando em como nosso olhar pode ser atraído para um objeto material, de modo tão forte que nos distrai uns dos outros. Creio que esse é um assunto muito valioso para a gente pensar.
Aproveito também para incluir o encontro entre nós, fazendo uma pergunta provocativa: “Para onde olhamos quando você está aqui comigo?”. Noto M surpresa com as minhas colocações, como que retirada de um universo para outro – do universo do encontro com a amiga para o universo do encontro comigo. O que se passa ali? Para que e por que ela vai ao meu encontro?
Sua resposta à minha pergunta foi dada também em tom de pergunta: “A gente olha para... os meus sentimentos?”. E eu: “Para dentro de você, não é? Aqui é o lugar para vermos juntas as ‘bolsas’ que carrega dentro de você. O que será que tem dentro delas?”.
Penso que ela está ali justamente para ampliar o seu olhar, para além da materialidade. Em sessões como a que relatei, conseguimos nos aproximar sem que o “lobo mau” tivesse nos desviado do caminho.
Para finalizar, reproduzo aqui um trecho de Walter Benjamin, usado como epígrafe por Byung-Chul Han (2023b) no capítulo intitulado “Da ação ao ser”, do livro Vita contemplativa ou Sobre a inatividade:
Há uma pintura de Klee que se chama Angelus Novus. É representado aí um anjo que parece como se estivesse considerando se afastar de algo que ele encara. Seus olhos estão arregalados, sua boca aberta e suas asas estendidas. O anjo da história deve parecer assim. Ele virou o rosto para o passado. Onde uma cadeia de acontecimentos aparece para nós, lá ele vê uma catástrofe que empilha incessantemente escombro após escombro, escorregando diante de seus pés. Ele bem gostaria de se demorar, despertar os mortos e juntar os abatidos. Mas vinda do paraíso se assoma uma tempestade que se prendeu a suas asas e que é tão forte que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o arrasta de maneira incontível ao futuro para o qual ele vira as costas, enquanto a pilha de escombros diante dele cresce até o céu. Aquilo que chamamos de progresso é essa tempestade. (p. 57)

Paul Klee, Angelus Novus, 1920, nanquim, tinta a óleo, papel e aquarela, 31 × 24 cm. Museu de Israel, Jerusalém, Israel.