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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641Xversão On-line ISSN 2175-3601

Rev. bras. psicanál vol.58 no.4 São Paulo  2024  Epub 10-Mar-2025

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v58n4.13 

Artigos

O poder como adicção!

¡El poder como adicción!

Power as addiction!

Le pouvoir comme addiction!

Hemerson Ari Mendes1 

Psicanalista. Membro titular da Sociedade Psicanalítica de Pelotas (SPPEL)

1Sociedade Psicanalítica de Pelotas (SPPEL). Pelotas


Resumo

O autor aborda a questão das fantasias de poder que desde a infância são utilizadas para apaziguar o desamparo. Faz um paralelo com o potencial de dependência e abstinência do uso abusivo de álcool; com o “poder” como potencial causador de dependência sine materia; por meio de exemplos do cotidiano, com os comportamentos dos dois tipos de dependência. Problematiza o quanto esse tipo de dependência também pode atingir os tratamentos psicanalíticos, nossas instituições e os processos de formação de novos psicanalistas.

Palavras-chave poder; dependência; abstinência; formação analítica; tratamento psicanalítico

Resumen

El autor aborda la cuestión de las fantasías de poder utilizadas desde la infancia para apaciguar el desamparo. Establece paralelismos con el potencial de dependencia y abstinencia del abuso de alcohol; con el “poder” como causa potencial de dependencia sine materia; a través de ejemplos cotidianos, con los comportamientos de ambos tipos de dependencia. Problematiza hasta qué punto este tipo de dependencia puede afectar también a los tratamientos psicoanalíticos, a nuestras instituciones y a los procesos de formación de nuevos psicoanalistas.

Palabras clave poder; dependencia; abstinencia; formación analítica; tratamiento psicoanalítico

Abstract

The author addresses the issue of power fantasies that have been used since childhood to appease helplessness. He draws parallels with the potential for dependence and abstinence from alcohol abuse; with “power” as a potential cause of dependence sine materia; using examples from everyday life, with the behaviors of both types of dependence. He discusses how this type of dependency can also affect psychoanalytic treatments, our institutions and the processes of training new psychoanalysts.

Keywords power; dependence; abstinence; analytic training; psychoanalytic treatment

Résumé

L’auteur aborde la question des fantasmes de pouvoir, utilisés depuis l’enfance pour pallier l’impuissance. Il établit des parallèles avec le potentiel de dépendance et d’abstinence de l’abus d’alcool ; avec le « pouvoir » comme cause potentielle de dépendance sine materia ; en utilisant des exemples de la vie quotidienne, avec les comportements des deux types de dépendance. Il problématise dans quelle mesure ce type de dépendance peut aussi affecter les traitements psychanalytiques, nos institutions et les processus de formation des nouveaux psychanalystes.

Mots-clés pouvoir; dépendance; abstinence; formation analytique; traitement psychanalytique

“Quero ser presidente!” foi o título irônico de uma crônica que escrevi há alguns anos num período eleitoral. Como se fosse a resposta de uma criança às especulações dos adultos sobre pretensões futuras. Entretanto, no universo infantil, ser presidente nunca foi páreo para ser bombeiro, policial, maquinista... – para ficar nas funções/profissões mais populares do universo masculino (sim, na minha distante infância, elas tinham gênero).

Eu queria ser poceiro, com c! Eles eram importantes na comunidade na qual cresci. A água era um luxo, o saneamento era precário, e todas as casas tinham um poço no quintal. O poder da função não estava no trabalho braçal, mas sim na varinha mágica que eles utilizavam para encontrar o veio d’água, que definia o local a ser cavado. Usavam uma forquilha de madeira, com as palmas da mão para cima, fazendo uma pequena pressão para entortar as extremidades para fora. Quando a ponta se mexia, é porque estariam passando por cima de uma corrente subterrânea de água. Como podem perceber, poceiros, assim como médicos e psicanalistas, também têm aos pajés como ancestral comum.

Seria isso uma representação do desejo de ter um pênis mágico, capaz de levantar e identificar o melhor local para abrir um canal, a fim de saciar a sede de meus desejos/necessidades?

Minha resposta era só mais engenhosa do que o óbvio bombeiro, com o poder de sua mangueira, ou o policial, com suas armas de fogo. A ideia de poder já está nas respostas das crianças. Envoltas em suas fantasias castratórias, buscam no simbolismo/representação concreta (aqui temos um paradoxo) apaziguamentos para o que ainda não pode ser representado de maneira mais sofisticada.

As crianças ameaçadas que sobrevivem no adulto (ou seria ao adulto?) descobriram uma função redentora: ser presidente (ou seja, ter um suposto poder). Ela não vem com uma forquilha, mangueira ou metralhadora, mas sim com uma caneta.

Sua majestade – o bebê, digo, o presidente – rapidamente descobre que os poderes da caneta são limitados. Na época, complementei: no atual estágio regressivo, todos os presidentes, ou assemelhados/equivalentes/pretendentes, sonham com poderes ilimitados. Assim, estamos com um Executivo que sonha poder julgar, um Judiciário que ambiciona legislar, e um Legislativo que almeja governar. Os três estão atuando seus espúrios desejos.

Não durou muito a fase de poceiro. Agora, aos 12, perdoem-me o lugar-comum, queria ser jogador de futebol – novos desejos, novas inseguranças. Preciso confessar, tive o meu momento Maradona, não exatamente com as bolas nos pés.

Eu estava com 12 anos quando me dopei. Era um clássico, sexta série contra a sétima. Apesar de sermos mais novos e menores, eles eram nossos fregueses. Justamente por isso, e utilizando-se do maior poder econômico, nos desafiaram, na frente das meninas, a disputar a próxima partida valendo cinco coxinhas e duas garrafas de gasosa Cini (provavelmente, só os paranaenses conhecem). O desafio nos colocou uma dupla pressão: o valor da aposta e a necessidade de defender a honra diante das meninas.

A vitória, que era corriqueira, virou uma obrigação. Foi quando surgiu a ideia do doping. Amarildo, o goleiro – o mais experiente do grupo, já havia morado em São Paulo, além de ser sempre o principal suspeito dos pequenos furtos ocorridos na sala de aula –, nos disse que já havia jogado dopado: um comprimido de Melhoral Infantil (cor-de-rosa) e meio copo de Coca-Cola. Nos garantiu que o resultado seria impressionante.

A partida terminava ao sinal do fim da primeira aula da manhã. Travados pelo peso da culpa e esperando que o doping jogasse por nós, perdíamos por 2 × 0 até os cinco minutos finais, algo que nunca acontecia. O desespero de não ter dinheiro para pagar a aposta (gastamos com a Coca e o Melhoral), a honra manchada pelas provocações e a presença das meninas na torcida nos fizeram esquecer do doping e jogar como sempre jogávamos. Resultado: uma virada épica.

Poderíamos definir doping como o uso de drogas ou métodos que visam aumentar o desempenho, ao proporcionar uma vantagem competitiva desleal em relação aos outros.

São inúmeras as intervenções para aumentar o poder – entre elas, buscar posições de poder nas relações. Podem ser lícitas, como a Coca-Cola e o Melhoral Infantil comprados no caderno do armazém do seu Tadeu.

Geralmente usamos a terminologia de drogas, no sentido de causar dependência, para substâncias que agem no sistema nervoso central: nicotina, álcool, cocaína, benzodiazepínicos etc. Contudo, o “poder” (ou a fantasia de) pode causar dependência sine materia. Por definição, poder seria o direito de deliberar, agir e mandar e, dependendo do contexto, a faculdade de exercer a autoridade, a soberania, a posse do domínio, da influência ou da força (“Poder”, 2024).

Todos precisam de pessoas com o poder para resolver, deliberar, coordenar algumas situações. Pais, mães, professores, juízes, presidentes, prefeitos, reitores, médicos, guardas de trânsito, porteiros de boates, inspetores... – psicanalistas? – exercem algum tipo de poder ao longo da vida; assim como todos experimentamos algum tipo de droga (substância psicoativa). A maioria não se torna dependente. Entre os bebedores de álcool habituais, não mais que 20% são dependentes. Com o poder se dá o mesmo: alguns se tornam dependentes, e os sintomas são semelhantes aos de dependentes de outras drogas.

Edwards e Gross, em 1976, elencaram as características do funcionamento de uma pessoa que sofre de dependência ao álcool. Apliquemos os mesmos critérios ao poder, com uma ressalva, para que todos não se sintam dependentes: é o conjunto das características que define a dependência/doença.

  1. Empobrecimento do repertório. As pessoas ficam monotemáticas, passam a só ter interesse pelas situações em que seu poder pode ser demonstrado, falam o tempo todo sobre o assunto que dominam, preferem ambientes nos quais seu poder tem algum impacto, gastam tempo planejando essas situações e perdem o interesse por outros temas, não raro desqualificando-os. Todos conhecem médicos, juízes, políticos, empresários etc. que, independente do grupo em que estejam, tentam impor a temática do seu interesse, sem perceberem que o grupo não está interessado no assunto. Estão intoxicados pelo seu poder e perderam a noção da chatice. Aliás, como toda pessoa embriagada. Caberia acrescentar alguns psicanalistas?

  2. Relevância da droga. É um desdobramento do item anterior. Outros prazeres e interesses são facilmente trocados pela situação em que o poder está envolvido. Trocam-se atividades de lazer, vida conjugal, familiar etc. A reunião do partido, do condomínio, do congresso, os conchavos, as alianças etc. passam a ter prioridade, sempre justificados como necessidades pontuais, mesmo que se tornem corriqueiros.

  3. Aumento da tolerância. O indivíduo passa a precisar de doses cada vez maiores de poder para atingir a mesma satisfação. O médico começa como diretor da equipe, acha que será importante à coordenação do setor, para depois entender que precisa ser o diretor do hospital, o que será ajudado se for o presidente da associação, do sindicato, representante da categoria no Congresso etc. Aplique-se isso a qualquer outra categoria. Na nossa área, o extremo seria a certeza de que ele, o (no sentido de artigo definido masculino) psicanalista específico, seria o mais indicado para dirigir o Comitê Mulheres e Psicanálise (Cowap).

  4. Sintomas de abstinência. No afã de conseguir cada vez mais poder, ele perde poder, ou não consegue as doses suficientes que o seu narcisismo exige. Quando isso acontece, aparecem sintomas de abstinência: ansiedade, depressão, fúria, sentimentos persecutórios e uma variada gama de sintomas físicos.

  5. Alívio ou evitação dos sintomas de abstinência através de ingestão da droga. Um simples convite para assumir uma nova secretaria, candidatura, diretoria, cargo, função etc. alivia os sintomas de abstinência, oferece uma vida nova. E reinicia o processo. Isso leva as pessoas a se cercarem de bajuladores acríticos, que com muita frequência recebem alguma vantagem para dar sustentação ao suposto poder do indivíduo. O bêbado que paga bebida para não ficar sozinho no bar.

  6. Percepção subjetiva da compulsão para usar a droga. Mesmo com o insight, elas apresentam extrema dificuldade de usá-lo dentro do limite. Depois que começam, não conseguem parar. Por exemplo, um pai começa com a ideia de que quer apenas aconselhar o filho a fazer uma boa escolha, mas a conversa termina com o “naquela casa quem manda é ele” e que, enquanto o filho for “dependente”, as coisas precisam ser do seu jeito. Extrapole-se essa situação para os vários ambientes de exercício de poder. O militar aposentado vai à reunião de condomínio só para saber o que está acontecendo, e sai da reunião candidato da oposição e participando de três comissões.

  7. Reinstalação da síndrome de dependência pós-abstinência (recaídas). Algumas pessoas percebem que as atividades estão lhe trazendo prejuízo e se afastam. Mas com o tempo pensam que poderiam dar uma pequena contribuição, dessa vez de forma controlada; se autoenganam dizendo que estão sendo solicitadas/convidadas, quando de fato procuram os mesmos ambientes adictos. Reinstala-se o processo.

Assim como as drogas, o poder inicialmente dá prazer, ou alivia um desconforto, mas com o tempo as pessoas que se tornam dependentes passam a gastar toda a sua energia para se defender do desprazer da perda do poder. Todos já viram cenas de bêbados pegos dirigindo: quando abordados, mesmo estando completamente embriagados, negam de maneira categórica. As pessoas cegadas pelo poder acreditam piamente que seus movimentos em busca de mais poder ou novos poderes não são percebidos pelos seus interlocutores. Nessas situações, o argumento de que todos são iguais (bebem) é muito utilizado.

O conceito mais recente de codependência por si só é útil para pensar as dependências sine materia. Estamos diante do paradoxo que são os independentes dependentes da dependência. Eles aparentam independência, autonomia, autossuficiência... Eventualmente, são críticos das pessoas que demonstram dependência. Por vezes, são formadores, têm a missão de ajudar as pessoas a alcançar autonomia intelecto-afetiva. Outros são líderes que teriam como missão o incentivo ao desenvolvimento e crescimento. Sim, precisamos pensar sobre psicanalistas e nossas instituições nesse contexto.

No âmbito familiar, ele pode ser o marido que não desiste de ser o provedor incondicional, desestimula a carreira da esposa, deixando claro que o que ele pode oferecer é bem mais do que o que ela ganhará; a mãe sempre disposta a dar a comida na boca do adolescente de 35 anos; o pai que de alguma forma sinaliza que o filho não está pronto para a vida – sempre falta um fundamental e essencial ponto e vírgula, que só se resolverá com a ajuda dele.

São pessoas prestativas, solícitas, disponíveis quando necessário; não raro, generosas. Num primeiro momento, são vistas como a salvação da lavoura do necessitado/dependente. Facilmente, o casamento/união/sociedade/apadrinhamento se estabelece. A princípio, as coisas andam muito bem; aliás, em alguns casos, desde que ninguém saia do seu papel, o equilíbrio pode perdurar.

Às vezes, o equilíbrio pode se romper: o mantenedor percebe que algo está errado; que seu mundo está cercado de pessoas dependentes e que ele participa e estimula isso; que sempre fez escolhas baseadas no seu medo de ser abandonado, criticado, questionado; que sua independência se estrutura nas relações com os dependentes, alimento da fantasia de que assim jamais seria abandonado/trocado.

Ou, em outra direção, é o dependente oficial que toma consciência da situação, seja por desejar mais do que a segura e aprisionante manutenção, seja por sentir-se sufocado pelas crescentes cobranças de fidelidade, gratidão, submissão. Enxerga que o independente depende da sua dependência e que ele jamais autorizará, estimulará e apoiará o desenvolvimento ou autonomia além dos limites do controle dele. Críticas à evolução da terapia/análise – antes estimulada e paga –, às escolhas profissionais, às novas amizades e aos perigos da autonomia, agora moralizada, surgem.

É comum que os traídos – sim, há um sentimento de traição, de quebra de contrato – tentem manipular o sentimento de gratidão. Tanto os independentes dependentes como os dependentes oficiais podem buscar uma indenização emocional pelo rompimento do silencioso contrato.

Apesar de doloroso, o rompimento do padrão por um dos pares do enredo neurótico pode ser uma oportunidade para que ambos revejam o padrão doentio da relação.

Os pais podem descobrir que os filhos sobrevivem sem eles e que não era a dependência que os mantinha próximos. Os mestres podem descobrir que as conquistas dos pupilos – que podem ser maiores que as suas ou apenas diferentes – são seu maior êxito. Que se pode ser amado independente da oferta utilitarista. Enfim, mas não menos, que ninguém é completamente independente e autossuficiente. A dependência, muitas vezes, se esconde em uma aparente independência cercada de dependentes.

Regressões, dependência absoluta/relativa, self-objeto grandioso, transferências idealizadoras, suposto básico de dependência... são alguns conceitos psicanalíticos que apontam para características nas quais dependência/poder são centrais nos processos analíticos ou de formação. Como sinalizado antes, eles são necessários, estruturantes, fundamentais – teórica e tecnicamente úteis. Entretanto, assim como uma agradável taça de vinho, não raro, importante para o desenvolvimento das boas relações sociais, eles também podem acionar os mecanismos/núcleos potencialmente abusivos e geradores de dependência espúrios (no sentido de contrários ao desenvolvimento). Como atavismos potencialmente presentes em todos, podem ocorrer como uma repetição transgeracional de núcleos não analisados de quem se aproximou de uma psicanálise que “tudo explicava”.

Nos primórdios, antes mesmo dos textos psicanalíticos propriamente ditos, no “Projeto”, Freud escreveu: “O desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais” (1950[1895]/1996, p. 431). O exercício do poder, principalmente quando abusivo, com frequência se dá com a aplicação sistemática e ostensiva de normas, regras e leis com conotação moral impostas aos subordinados reais ou fantasiados, que por sua vez não raro são codependentes.

Otto Kernberg (2005), indiretamente, a partir da vasta experiência institucional (e para alguns críticos por oportunismo em busca de poder), abordou essa questão, observando que “o papel do analista foi incorporado gradativamente a um sistema de status organizacional, como parte de uma estrutura de oligarquia administrativa que controla os institutos de psicanálise e contribui para sua atmosfera autoritária”. Tal atmosfera, prossegue ele, “se atualiza por meio de uma orientação teórica monolítica por parte dos analistas dos respectivos institutos”, que, para se perpetuarem no poder, produzem uma “politização do processo de ensino”. Além disso, “os status destes analistas também conferiu vantagens econômicas, ao assegurar uma fonte de casos de análise” (p. 98). Apesar desse texto centrar-se na questão das análises didáticas, aqui gostaria que essas questões fossem pensadas em qualquer processo analítico ou estrutura institucional.

Finalizo plagiando Edward e Gross, que li na década de 80 e que me inspiraram a fazer a comparação/relação entre as reações de dependência ao álcool e ao poder. Listarei algumas características que, no seu conjunto, poderiam indicar o abuso, dependência e/ou abstinência do poder nos processos analíticos e/ou nas instituições analíticas:

  1. Manutenção de estruturas rígidas de poder (como a citada por Kernberg), com utilização seletiva e casuística de normas e regras, ora evocando a necessidade de submissão a elas, ora questionando o seu aspecto arbitrário, ora elogiando a existência delas em algumas instituições (ipa ou outras sociedades), ora criticando o seu anacronismo.

  2. Sistemática moralização de todos os movimentos que visem pensar, questionar, avançar em relação aos estabelecidos pressupostos que sustentam as posições de poder. Aqui, os clássicos “Isto não é psicanálise” ou o movimento político de dizer que as ideias contrárias são políticas.

  3. Sistemática utilização de argumentos de autoridade, que por sua vez só podem ser conquistados através da trajetória única do detentor da suposta autoridade. Eventuais questionamentos são interpretados como decorrentes da ignorância de quem não teve a tal experiência, fórmula igualmente utilizada para desqualificar quando se questiona sobre certas abordagens teóricas. Por exemplo, já escutei que a verdadeira psicanálise começou com Bion ou que estudar Lacan prescinde ler ou ter lido Freud. Sim, temos exemplos mais ou menos caricatos, com todos os autores mais relevantes.

  4. Deferências e submissões estáticas e intransponíveis no ambiente institucional, numa reasseguradora aliança entre dependentes e codependentes.

  5. Em excepcionais casos de incipiente flexibilização na aliança anterior, instauração imediata de conflito de lealdade.

  6. Utilização sistemática de inferências interpretativas em ambiente institucional, seja como exercício de poder, seja como método para inibir espontaneidade, criatividade, autonomia, entre tantos perigos para o status quo do poder do qual se é dependente. Os movimentos selvagens surgem de maneira semelhante aos delírios ocupacionais dos pacientes em delirium tremens, com clara perda da capacidade de distinguir transferência de delírios de autorreferência. Uma variação das interpretações é a natural condução de ironias socráticas.

  7. Utilização e manutenção de paralelos (literais, metafóricos ou represen-tacionais) da instituição com uma família, assim reatualizando (muito mais que elaborando) núcleos regressivos de submissão, culpa e ansiedades castratórias.

  8. Em discussões clínicas, sistemática sinalização (interpretação) das transferências positivas como expressão de desenvolvimento da capacidade de amar, expressão do instinto de vida., e das transferências negativas como expressão predominante de ódio, inveja e instinto de morte – numa espécie de comunicação velada sobre expectativas e sobre o que é ou não saudável, numa espécie de adubação de núcleos de falso-self.

  9. Tolerância e incentivo ao solipsismo. O plural majestático (ou da modéstia, conforme os portugueses chamam) é oferecido e aceito como moeda de troca para o sentimento de “pertenência”, em expressões como “nós, psicanalistas”, “nós da instituição”, como se fosse uma massa indistinta.

  10. Mudanças, quando inevitavelmente ocorrem, muitas vezes após décadas de resistência, sofrem uma transmutação narrativa e são transformadas em ativas e generosas dádivas pelo dependente do poder.

  11. Em caso de discordâncias explícitas, passa-se a atacar/desqualificar a pessoa de quem se discorda (não raro, nos corredores), em vez de seguir combatendo no terreno das ideias.

  12. Na gestão institucional, utilização de paralisante burocracia ou controle/manipulação da composição dos grupos de decisão, excluindo eventuais ideias divergentes através da exclusão de pessoas.

  13. Nos avanços, ou ritos de passagens, utilização de concessões indevidas, fazendo promoções de que o(a) promovido(a) não se sinta legítimo(a) ou transformando as legítimas em dádiva ou concessão especial (com igual manutenção da ideia de dívida).

Todos já nos deparamos com narrativas dessas características nas mais diversas instituições ou as presenciamos de maneira mais ou menos sutil em eventos, congressos e até entre nosotros. O bom senso indica que devemos estar atentos: nenhum indivíduo ou instituição está imune a ter ativadas tais predisposições a partir das inebriantes sensações trazidas pelo poder ou pela segurança de ter a mão do “Senhor” ao seu lado.

Apesar do foco ser o potencial adicto do poder, gostaria de finalizar com um exemplo que aponta para o predominante aspecto positivo do poder nas relações, na psicanálise e nas nossas instituições, que é o que nos mantém no trabalho e nas nossas instituições. Nominei a experiência como semente da confiança.

No 29° Congresso Brasileiro de Psicanálise, encontro um colega que, numa visita realizada 20 anos antes à Sociedade Psicanalítica de Pelotas (sppel), tinha me chamado a atenção com sua estimulante postura ao desenvolvimento e autonomia dos analistas e candidatos em formação. Comentei com ele o meu registro afetivo da visita. No dia seguinte, volto a encontrá-lo num evento social. Ele conversava com uma analista em formação da sppel. Com sua generosidade, a incentivava a continuar na sua caminhada. Ele, com a lembrança da nossa conversa do dia anterior, diz que tinha se sentido muito bem em saber que a sua fala ainda ecoava dentro de mim. Por associação, comenta que, ainda jovem, ganhou uma bolsa para fazer uma formação acadêmica na França com Serge Lebovici. Quando terminou o seu período, num momento de despedida, Lebovici lhe disse: “Ainda ouvirei sobre ti” (ou algo assim).

Sinalizei que ele estava fazendo no seu entorno o que Lebovici tinha feito com/por ele. Penso que esse é um bom exemplo da importância do poder/autoridade ou, simplesmente, do quarto eixo (vida institucional ou relação com os colegas) no interminável processo de formação dos psicanalistas, que, assim como os aspectos sintomáticos, também se replica de maneira transgeracional – no caso, gerando um ciclo virtuoso.

Referências

Edwards G. & Gross, M. (1976). Alcohol dependence: provisional description of a clinical syndrome. British Medical Journal, 1, 1058-1061. [ Links ]

Freud, S. (1996). Projeto para uma psicologia científica. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, Trad., Vol. 1, pp. 333-443). Imago. (Trabalho original publicado em 1950[1895]) [ Links ]

Kernberg, O. F. (2005). Crítica comprometida à educação psicanalítica. Jornal de Psicanálise, 38(69), 95-129. [ Links ]

Poder. (2024, 27 de novembro). In Wikipédia.https://tinyurl.com/2xj46apnLinks ]

Recebido: 16 de Dezembro de 2024; Aceito: 23 de Dezembro de 2024

Hemerson Ari Mendes hemerson@terra.com.br

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