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Revista Brasileira de Psicanálise

versão impressa ISSN 0486-641Xversão On-line ISSN 2175-3601

Rev. bras. psicanál vol.59 no.2 São Paulo  2025  Epub 25-Ago-2025

https://doi.org/10.69904/0486-641x.v59n2.05 

Temáticos

Adolescência em chamas

Adolescencia en llamas

Adolescence on fire

L’adolescence en feu

Arianne Monteiro Melo Angelelli1 

Elisa Maria de Ulhôa Cintra2 

1Psiquiatra especialista em infância e adolescência. Colaboradora do ProMulher - Programa de Saúde Mental da Mulher, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPQ-HC-FMUSP). Membro do Núcleo de Estudos de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo e do Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e da Psicanálise Contemporânea (Lipsic). São Paulo

2Psicanalista. Professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Coordenadora do Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e da Psicanálise Contemporânea (Lipsic). São Paulo


Resumo

As autoras propõem uma reflexão, a partir do seriado Adolescência, sobre a violência das práticas sociais que vêm se desenvolvendo no convívio de adolescentes, estimuladas pelas redes sociais. Consideram os fatores ambientais, intrapsíquicos e transgeracionais que contribuem para os conflitos e contradições. Abordam possíveis heranças de abandono afetivo vivido pelos jovens, seus pais e educadores, colocando a todos em estado de desamparo e de falta de recursos psíquicos e sociais para enfrentar as questões da sexualidade, da agressividade e da entrada no pacto social.

Palavras-chave: violência; reconhecimento; redes sociais; masculinidade; desamparo

Resumen

Las autoras proponen una reflexión, a partir de la serie de televisión Adolescencia, sobre la violencia de las prácticas sociales que se vienen desarrollando entre los adolescentes, estimuladas por las redes sociales. Consideran los factores ambientales, intrapsíquicos y transgeneracionales que contribuyen a los conflictos y contradicciones. Abordan posibles legados de abandono afectivo vivido por los jóvenes, sus padres y educadores, colocando a todos en un estado de indefensión y falta de recursos psíquicos y sociales para lidiar con cuestiones de sexualidad, agresividad y entrada en el pacto social.

Palabras clave: violencia; reconocimiento; redes sociales; masculinidad; desamparo

Abstract

The authors propose a reflection, based on the TV series Adolescence, on the violence of the social practices that have been developing among adolescents, stimulated by social networks. They consider the environmental, intrapsychic and transgenerational factors that contribute to conflicts and contradictions. They address possible legacies of affective abandonment experienced by young people, their parents and educators, placing everyone in a state of helplessness and lack of psychic and social resources to deal with issues of sexuality, aggression and entry into the social pact.

Keywords: violence; recognition; social networks; masculinity; helplessness

Résumé

Les autrices proposent une réflexion, basée sur la série télévisée Adolescence, sur la violence des pratiques sociales qui se sont développées parmi les adolescents, stimulées par les réseaux sociaux. Elles considèrent les facteurs environnementaux, intrapsychiques et transgénérationnels qui contribuent aux conflits et aux contradictions. Elles abordent les possibles héritages de l’abandon affectif vécu par les jeunes, leurs parents et leurs éducateurs, plaçant chacun dans un état d’impuissance et de manque de ressources psychiques et sociales pour faire face aux questions de sexualité, d’agression et d’entrée dans le pacte social.

Mots-clés violence; reconnaissance; réseaux sociaux; masculinité; impuissance

A vergonha é a herança maior que meu pai me deixou. lupicínio rodrigues

O seriado Adolescência (Barantini, 2025) estreou em 13 de março deste ano e tornou-se um fenômeno nas mídias. Em menos de um mês, foi comentado por educadores, representantes do judiciário e psicanalistas. É uma série curta: quatro episódios, filmados de forma contínua e sem cortes, que provocam um efeito hipnótico no espectador. Cada episódio narra um aspecto do crime central à trama: o assassinato de Katie, adolescente de 14 anos, por um colega de escola. A série é construída de modo a enfocar, em cada uma de suas partes, um determinado ambiente e aspecto da vida dos personagens.

Segundo filho de um casal bem ajustado, de classe média, em uma pequena cidade inglesa, Jamie é inteligente e não tem histórico de doença mental. No entanto, não sabemos nada sobre ele quando, nas primeiras cenas do seriado, acompanhamos sua prisão. Ele é o principal suspeito da morte de Katie, e logo vamos saber por quê. O seriado se inicia com a modorra de dois policiais que começam o seu turno e recebem uma ligação. Parecem resistentes a prosseguir com o trabalho, até que a sequência do episódio se acelera, no terceiro minuto: eles chegam a uma casa, acompanhados de outros policiais, e irrompem de forma violenta pela sala, vestidos e armados como um batalhão de choque. Sobem pelas escadas e chegam ao quarto de um rapaz franzino, que parece acordar nesse momento, assustado com a invasão. Enquanto isso, outros policiais da equipe vasculham a casa, a cozinha, o cesto de roupas, seguidos pelos gritos e protestos da mãe, da irmã e do pai da família. O pai roga aos policiais: “Eu não fiz nada! Vocês se enganaram de casa!”.

O assustado Jamie, as feições infantis de um adolescente ainda na puberdade, urina nas calças do pijama, chorando e chamando o pai. A maneira brutal como a polícia invade a casa nos transmite o susto da família diante da visita inesperada, às seis horas da manhã. O choro do menino, alegando que o confundiram com outra pessoa, faz com que acreditemos nele imediatamente. Mais tarde, assistiremos à filmagem do adolescente atacando a colega, feita pelas câmeras de um estacionamento. No momento do interrogatório, quando a filmagem é mostrada a ele, Jamie parece não acreditar naquela morte. Chegamos a ter dúvidas sobre o teste de realidade do adolescente.

Para dar uma ideia do ritmo frenético desses acontecimentos, da cena da invasão da casa até o interrogatório, passam-se 42 minutos. Somos então conduzidos ao segundo episódio da série, em que Jamie não aparece. Tudo gira em torno da investigação policial no ambiente escolar. Os adolescentes estão em rebuliço. Aqui e ali, conflitos espoucam: alunos desafiando adultos, educadores sem saber como conduzir a situação. Jade, melhor amiga da vítima, se enfurece e desrespeita o policial que tenta interrogá-la, mostrando claramente não reconhecer sua autoridade como investigador do crime. Para os policiais, a pesquisa das redes sociais indicava uma amizade entre Katie e Jamie, o que tornava mais difícil a compreensão daquela violência.

Contudo, é o filho do policial, também estudante da escola, que ajuda o pai a desvendar a charada. Traduzindo para ele os códigos das mensagens trocadas entre vítima e perpetrador, o adolescente leva o policial a entender que Katie ridicularizava Jamie, por meio de signos correspondentes ao título de incel (celibatário involuntário). A sentença significa que o garoto jamais conseguiria uma namorada. Ainda assim, a violência parece desmedida, parece irromper do nada, quando se repete em várias cenas: a invasão brutal da polícia, a filmagem do ataque a Katie e, finalmente, a briga entre Jade e o amigo de Jamie, que ocorre sob as vistas do policial. Onde quer que se procure, a centelha de uma pulsionalidade desorganizada parece estar prestes a se incendiar. A propósito, durante a visita dos policiais à escola, alguém toca o alarme de incêndio, obviamente de forma proposital. Todos descem pelas escadas, para a quadra, onde se perfilam, seguindo o protocolo de prevenção de incêndio. Novamente, os adultos ficam impotentes, apesar do “alarme falso”. É então que o amigo de Jamie é atacado, aos gritos da moça que chuta seu rosto: “O que você fez?! Filho da puta! Você matou minha amiga!”.

Tais eventos, associados à filmagem sem cortes, nos levam à experiência de algo que explode sem aviso, que remete a algo não simbolizado, colocado em ato pelos personagens. Tentamos fazer um trabalho psíquico de tradução desses eventos - assim como os policiais -, estabelecendo conexões, ligações e sentidos para o crime de Jamie, que nos parece um garoto frágil, dócil. Um bom menino, de uma boa família, que não se parece com um delinquente. Mas então descobrimos, junto com os policiais, que Jamie seguia influenciadores pela internet e vivia um mundo paralelo, de conteúdo violento, misógino, ligado à pornografia e à objetificação do corpo da mulher.

A questão intrapsíquica do jovem assassino surge no terceiro episódio, quando é entrevistado por uma psicóloga forense. Desnuda-se aqui - para nosso espanto - o mecanismo perverso por trás de suas motivações. É uma conversa tensa, de quase uma hora. A habilidosa psicóloga investiga a situação familiar do garoto, a maneira como representa os gêneros, o conceito que tem de si e a natureza da relação com Katie. Fica claro que Jamie e a psicóloga já se encontraram antes. A conversa se inicia de forma amistosa. Ela leva um chocolate quente com marshmallows para ele. Parecem ter desenvolvido um vínculo anterior.

Mas então a violência se repete, pois, quando acuado pelas perguntas da mulher, Jamie reproduz com ela a intimidação que pretendera fazer com Katie. Não se percebe culpa em relação à morte da vítima, e o jovem relata à psicóloga que, de certa forma, teria sido “justo”, já que não violentou a garota. Sua intenção inicial era somente intimidá-la. Quando percebe que seu discurso denuncia elementos comprometedores para seu julgamento, Jamie se desespera, se desorganiza e se torna ameaçador. Ele deixa a avaliadora assustada.

Esse elemento é importante para entender melhor o adolescente, pois o efeito de sua reação na jovem psicóloga faz pensar num funcionamento primitivo, determinado por graves cisões psíquicas. Parece que assistimos a um episódio de O médico e o monstro, quando o menino se transforma em alguém realmente capaz de ameaçar, talvez até de matar. A linguagem corporal fala: em dado momento, ele se aproxima, em pé, da mulher sentada, tornando-se então maior do que ela e encarando-a ferozmente; com o olhar e o modo de falar transformados, reproduz uma cena de dominação.

Quando o surto de violência acaba, volta a imagem do desamparo, reaparece o menino arrancado da cama por policiais, que urinou no pijama. É esse menino que implora à avaliadora que diga se gostou dele; que se sente feio, sem defesa em relação ao grupo que o considera incapaz de conseguir o afeto das mulheres; que se preocupa com a opinião do pai, é polido com os adultos e, em outras áreas da vida, funciona de uma forma aparentemente normal.

No quarto episódio, vemos a família tentando se reorganizar depois de tudo. Já se passou um ano; aproxima-se a data do julgamento de Jamie. É o dia do aniversário de 50 anos do pai, e a mãe tenta tornar as coisas mais alegres, preparando um café da manhã, quando descobrem que a van com a qual o pai trabalha foi pichada. Isso desencadeia nele uma série de reações. Ele sai com a esposa e a filha para comprar um solvente, de modo a apagar a mancha do carro. Uma mancha que não pode ser apagada.

Nesse dia, o pai tem um arroubo de violência diante dos rapazes que picharam sua van. Ele joga uma lata de tinta no carro, manchando a porta e a janela. Como o filho, o pai “explode” diante da situação de pressão.

Apesar disso, em casa, tudo se acalma e o diálogo se estabelece. O casal ferido se consola mutuamente, e a filha, compassiva, prepara o desjejum. Espelhando as primeiras cenas do filme, nessa outra manhã, a família “recolhe seus cacos” e, afinal, o pai entra no quarto do filho. Ritualmente, cobre o ursinho de pelúcia do menino, que está ali em seu lugar, substituindo a criança perdida - e também simbolizando a morte do futuro do pai. Jamie havia acabado de contar-lhe, por telefone, que iria se declarar culpado. O ursinho de pelúcia na cama também representa a imagem do filho morto, sendo velado para um enterro.

Incêndios por toda parte

As imagens e os conteúdos que se repetem na série trazem a ideia da pulsionalidade não traduzida e do “incêndio” provocado por ela, de modo que o “urinar na cama” de Jamie e o alarme disparado na escola não estão ali por acaso. A ideia da não comunicação e da “não tradução” (Laplanche, 2015) perpassa a maioria dos encontros humanos. Nem os adultos conseguem traduzir as mensagens dos adolescentes, nem os pais conversar com seus filhos. Os professores não sabem como conter a angústia dos jovens, sem espaço para falar do assassinato que aconteceu. Mesmo Katie, a vítima, sofrera o “vazamento” de fotos onde mostrava os seios nus para um garoto. Essas fotos se espalharam por toda a escola e fizeram o inseguro Jaime pensar que a moça estaria vulnerável a ponto de dar-lhe atenção. A repetição do extravasamento, da falta de contenção, nas diversas cenas, contextualiza a própria adolescência, no que tem de singular: o encontro com o traumático do sexual e a urgência por encontrar alguma forma de traduzir esse excesso (Laplanche, 2015).

É somente no quarto episódio que o movimento de “tradução” se faz mais consistente. Os pais comentam as orientações recebidas de um terapeuta, no sentido de falarem sobre o que sentem, pensarem de que modo foram ingênuos em relação ao que Jamie consumia na internet. Há indícios do estabelecimento de uma depressividade (Fédida, 2002) e do início de um luto, figurado pela entrada no quarto do filho, pelo choro, pelo diálogo e pela atitude da filha mais velha. Esta parece ser para esses pais a prova de que eles são bons. A filha os ajuda a recordar sua própria adolescência, que teria transcorrido de forma menos cindida do que a de Jamie, já que contavam com uma possibilidade maior de pensar, simbolizar, seus próprios excessos, como expresso pela música que gostavam de cantar.

O detalhe da canção do grupo a-ha, conjunto de sucesso na juventude dos pais, mostra a presença de recursos psíquicos. Na letra da canção, as frases “take on me” e “take me on” traduzem a relação do adolescente com o “outro de si mesmo”, respondendo pelas passagens ao ato comuns a essa fase (Velano, 2025). O pai de Jamie, Eddie, dançava “loucamente” essa música: foi o que fez a esposa se encantar por ele e o escolher como seu par, mais ou menos na idade que Jamie tem agora. Dançar e cantar, aqui, são formas de extravasar, brincar com a sexualidade, algo que Jamie foi incapaz de fazer, já que foi tomado, no real, por seus impulsos.

O outro de mim

A letra da canção do a-ha é uma chave de sentido para pensar a existência do “outro”, que me toma e faz agir, interpretação de Velano (2025) para o seriado Adolescência. Podemos pensar que Jamie, ao se encontrar com Katie, não tinha a clara intenção de matar? Se sim, o “outro de si” teria tomado conta dele; afinal, Jamie estava com uma faca nas mãos.

Aqui, duas questões se apresentam: a ideia do duplo e a situação ambiental a ela articulada, no sentido da virtualidade que impera em nossos dias. Como apontado por Velano, a ideia do duplo é antiga. Aceitamos que esse duplo está em nós. É o que relatam nossos pacientes, perplexos, diante de atos violentos cometidos por um eu que não reconhecem: “Não sei o que me deu”, “Parece que saí de mim”…

Por isso, a frase de Jamie, quando repete que “não foi ele”, talvez seja a afirmação de uma verdade. Quando, por fim, decide confessar o crime, teria Jamie atingido a integração, reconhecendo esse eu sádico e violento como parte de si? Para Velano, a série é notável em demonstrar as tentativas fracassadas de responsabilização do menino “e o próprio esforço de tornar real, para ele, o homicídio”.

O duplo, resultado de uma virtualidade ontológica do ser que se divide em dois, repete-se na história. Há exatos 100 anos, Otto Rank (1925/2013) publicava um ensaio sobre o tema. O autor, que contribuiu para a elaboração freudiana do inquietante e estranho familiar (Freud, 1919/2014), foi um pesquisador que analisou o fenômeno do aparecimento do duplo nas obras literárias de seu tempo. As transformações da subjetividade próprias à sua época, no alvorecer do século 20, ligavam-se à questão do ódio ao semelhante, que desembocou nas duas grandes guerras presenciadas por Freud.

Hoje, o duplo se desdobra em mil outros, pulverizado nas redes, na nuvem, impalpável e mais difícil de simbolizar. “A máquina virtual, como dispositivo de subjetivação, opera em uma escala tão ampla e eficaz quanto a família. Mas, ao contrário dela, ali ninguém é filho de ninguém” (Velano, 2025). Em poucos anos, a questão da internet modificou a condição de lidar com o duplo de cada um; já não dá tempo (!) de se pensar, e estamos mais divididos, muito mais dispersos do que há 100 anos.

Nesse sentido, poderíamos nos perguntar: qual é o peso do discurso misógino na validação das percepções de Jamie? Lembremos as palavras do pai no começo do seriado: “Eu não fiz nada! Vocês se enganaram de casa!”. Mas eles não se enganaram. Dentro de casa, havia um pai, mas também outro, o “pai” que Jamie encontrou na internet. Esse pai explicou tudo a ele: como o mundo funciona, a injustiça da condição dos homens, a necessidade de tomarem o que é deles por direito e pela força: o corpo da mulher (Belo, 2015).

Delimita-se aqui a questão ambiental, no sentido do ambiente ampliado do adolescente, que se constitui para além da família, e encontra na terra sem lei da internet um campo perigoso para as identificações. A questão do medo da mulher (Winnicott, 1950/2011) se enraíza na dependência, na passividade primária, e pode encontrar na masculinidade defensiva uma maneira perigosa de “se resolver” (Ribeiro & Belo, 2016). Solução ruim para os adolescentes, mas que serve bem às estruturas de dominação (Bourdieu, 2019), que têm na internet um novo continente, de recursos quase inesgotáveis a colonizar, explorar, saquear. Não é por acaso que os donos da internet têm cadeira cativa ao lado dos governos. Coisas da nossa época, em que, há tempos, são os jovens que adoecem, como canta Renato Russo (Legião Urbana, 1989).

Pois nossos filhos não são só nossos filhos. Eles são filhos do seu tempo. No seriado Adolescência, é justamente a perspectiva do adulto, incapaz de compreender os signos da geração seguinte, que nos captura. Tanto os investigadores como os pais e os educadores, diante do desconhecimento de aspectos importantes dos jovens, tornam-se incapazes de protegê-los. Esta é uma das principais lições do seriado: é preciso reestabelecer a comunicação entre as gerações.

Por que essa comunicação está dificultada na contemporaneidade? Talvez a internet seja o “fato novo” do abismo que separa pais e filhos. É algo que se interpõe entre eles, algo que os pais são inaptos a acessar, controlar e compreender. Essa situação produz medo, por conta da dimensão e rapidez das informações recebidas pelos jovens, bem como pelo anonimato, que faz com que se exponham a perigos sem sair do próprio quarto.

Assim, Jamie, menino e monstro, sádico e frágil, encontrou um mundo violento dentro de casa, a despeito do exemplo dos pais. Entendemos, porém, que alguma vulnerabilidade psíquica pode tê-lo tornado uma presa fácil do discurso misógino das redes. Temos um indício disso quando Jamie diz que é ugly (feio, repulsivo) para a psicóloga. Nessa hora, nos espantamos, pois é um menino bonito. Quando, acertadamente, a psicóloga não refuta Jamie, ela reconhece seu mundo interno: é assim mesmo que ele se vê.

Propomos, a partir de agora, a exploração de uma outra camada da problemática levantada pela série. O paradoxo está em compreender que o “mundo boschiano de horrores e perigos” (Blos, 1993/1998, p. 58) das redes sociais não explica tudo, embora seja parte do ambiente ampliado e conte muito no entendimento do adoecimento de Jamie. É possível falar de um adoecimento desse rapaz? Acreditamos que sim. Aqui, por meio de fatos selecionados, levantamos a hipótese de que houve uma falha de reconhecimento e fraturas na constituição narcísica do garoto, ligadas, inclusive, a questões transgeracionais. Algo ocorrido antes da chegada da puberdade e que se conecta à relação do menino com o pai. Para desenvolver essa ideia, coloquemos uma lente sobre Eddie, pai do nosso personagem.

Pai, não vês que estou queimando?

O personagem Eddie é uma figura cativante. Para estas autoras, a perplexidade diante da cisão psíquica do menino contrasta, desde o início, com a simpatia pela figura sofrida de Eddie - pai terno, implicado, presente. Por isso, a questão do reconhecimento de Jamie pelo pai permanece subliminar à trama, até a parte final da série. A questão da responsabilidade parental, inserida na narrativa tardiamente, desponta quando Eddie descreve a violência sofrida na infância, que o levou ao estilo de paternidade que ele então questiona. Mais do que a ausência concreta, por trabalhar muito, podemos pensar numa outra ausência, numa outra negatividade, contribuindo para a dificuldade de Jamie.

Essa negatividade estaria ligada a um descuido, não proposital, com o adolescente. Recordamos aqui a imagem de Eddie cobrindo o ursinho de pelúcia no quarto do menino. Tal imagem despertou, em associação livre, a lembrança de um sonho descrito por Freud (1900/2019): a célebre frase “Pai, não vês que estou queimando?”, que ilumina a culpa paterna.

Quando estas autoras receberam o convite para este número da revista, foi justamente a ideia do filho pegando fogo e a dor do pai - que não viu isso acontecer - o que acendeu nelas o desejo de redigir este artigo. Quem não se recorda dessa imagem? O pai vela um filho morto, mas, em dado momento, dorme, se descuida, de modo que a vela próxima à mortalha do menino começa a lhe queimar o corpo. Durante o sono, o pai sonha que o filho o acorda, repreendendo-o com os dizeres: “Pai, não vês que estou queimando?”. E acorda.

Será que o pai foi descuidado? Um pai não deve se descuidar…

No sonho relatado por Freud, é o desejo de que o filho reviva que traz sua figura, recriminando o pai por estar queimando. Embora a culpa esteja presente, ela se liga a um afeto que marca o laço de responsabilidade, a conexão entre pai e filho. Porque há culpa, o pai entende sua parte: um filho não deve morrer, precisa ser protegido. Por isso, um pai não deve dormir; deve estar atento, de olhos abertos. “Um pai jamais deveria dormir, já que seu sono e seu sonho representam a morte do filho. … Desperto do sonho traumático, o pai reencontra a cena do filho queimando por seu descuido” (Endo, 2008, p. 73). Qual foi o descuido do pai de Jamie?

A partir do relato de Eddie, na conversa com a esposa, depois do incidente da van, podemos pensar mais sobre sua relação com o filho. Aqui, percebemos que a ternura do pai é também o avesso de uma dificuldade de integrar a violência sofrida por ele na infância, a qual determina alguns “pontos cegos” na constituição do vínculo com Jamie. Para Eddie, a culpa se localiza na ausência “física”, pois, na infância do menino, seu negócio de encanador começou a prosperar. Mas não vamos por aí. Entendemos que essa ausência se localiza em outro lugar. São detalhes do discurso do pai que nos levam a esse caminho, para compreender a natureza do “des-cuido” em relação a Jamie.

O primeiro desses detalhes é que, ao relatar que seu pai o espancava, Eddie jurou a si mesmo não ser violento com o filho. E assim o fez. Mas essa marca no corpo e no psiquismo do pai transmitiu-se a Jamie, a despeito do seu amor e das suas melhores intenções. Como foi que Jamie se tornou uma vítima do discurso violento da internet? Haveria uma questão encriptada (Abraham & Torok, 1995), uma transmissão transgeracional da violência familiar?

Acreditamos que sim. É uma possibilidade. A dificuldade de integrar a própria agressividade, em Jamie, pode estar conectada à história de violência dos homens que o antecederam na linhagem paterna. A agressividade desmedida está nele, mas cindida, e a internet não é um bom playground para aprender a brincar com ela!

Pensando assim, o que culmina com o ato extremo de Jamie havia começado, talvez, antes de seu nascimento. É interessante: há um elemento que se repete no discurso do pai e do filho. Um fato, duas versões. Quando pequeno, Eddie levava o menino para jogar futebol, mas ele era desajeitado, não conseguia acertar a bola. Então, Jamie procurava o olhar do pai, mas este virava o rosto quando o menino errava. Jamie descreve, à psicóloga, a vergonha de não ser admirado pelo pai, por falhar em relação à sua expectativa. Qual a versão do pai?

No final da série, Eddie conta à esposa sobre a sua atitude de virar o rosto quando o menino procurava seu olhar, ao tentar agradá-lo, ser reconhecido por ele. Então, durante o jogo, o pai virava o rosto por sua própria vergonha, para evitar o riso dos pais dos outros meninos, diante da inabilidade de Jamie. Há aqui identificação entre o pai e o filho, pela via da vergonha. Aquele “virar o rosto” significa que algo não pode ser visto, e isso é comunicado ao menino. O que o pai não pode ver? A passividade do menino? Talvez, sua doçura - o copo de chocolate quente com marshmallow que Jamie recebeu, com alegria, da psicóloga, a quem também queria agradar?

Pode ser que, a despeito da vontade consciente, não tenha havido espaço interno, no pai, para acolher aquela “fragilidade”, o filho que não acerta o gol, que prefere desenhar a jogar bola. Foi isso que Jamie captou, introjetou, uma vergonha não traduzida, “ativada” pelo desprezo da garota, anos depois.

Pensando no sonho descrito por Freud, o pai que vira o rosto para o filho também é aquele que não vê que ele queima. Somente quando o fogo se espalha é que o ambiente percebe o desamparo de Jamie. É claro que a gravidade do ato faz pensar numa personalidade que se constitui com falhas importantes. É possível que, em relação à simbolização da passividade primária (Ribeiro & Belo, 2016), circule nessa família, desde gerações anteriores, uma grande dificuldade. O pai de Jamie, por esse motivo, não pôde estar disponível para o filho na passagem da adolescência, permanecendo para o menino numa condição idealizada, e portanto inacessível, como um rosto que se devia para não ver - rosto deformado que Jamie encontrou na internet. Na adolescência, as polaridades universais de ativo e passivo estão em conflito (Oliveira & França, 2019). São crimes, suicídios e atuações de diversos tipos, que fazem suspeitar de um verdadeiro combate, quando adolescentes se colocam em situações de risco.

Em relação à dificuldade de Eddie, é interessante pensar em sua profissão de encanador, desentupindo fossas nas casas das pessoas. Mas, dentro de sua casa, há algo que não pode circular. A atitude de Jamie com a psicóloga e a leitura de seu discurso mostram que a representação do feminino, para esse rapaz, está ligada à impossibilidade de integrar seus aspectos mais passivos. Essa integração possibilitaria a entrada na vida adulta de forma a aceder à sexualidade menos violentamente. Por esse motivo, o desejo pela mulher provoca o ódio à mulher que se nega a ele. É o mundo infantil, do tudo ou nada, que organiza o pensamento, as crenças e as atitudes de Jamie. É curioso: quando entramos, junto com o pai, no seu quarto, encontramos um quarto de criança, com estrelas desenhadas no papel de parede e um ursinho de pelúcia; não é o quarto de um adolescente.

Contudo, esse garoto “queimava”, de desejo e confusão, consumindo pornografia, sentindo coisas que não sabia explicar ou controlar - assim como qualquer garoto ou garota passando pela puberdade. Apesar do modelo amoroso em casa, uma irmã que é “boa gente”, a mãe carinhosa (embora com algumas dificuldades, exploradas a seguir), Jamie tinha uma imagem degradada da mulher.

Sobre a relação com a mãe, é curioso que, nas cenas com a família, o garoto não se refira a ela, nem peça sua ajuda em nenhum momento. Mesmo na delegacia, é ao pai que se reporta, é o pai que escolhe como adulto responsável para acompanhá-lo no interrogatório. No último episódio, quando conta a Eddie que confessará seu crime, o filho não gosta de saber que a mãe escuta a ligação. Para ele, é só o pai que conta? Parece que o feminino está afastado de si, ou, pelo menos nesse momento, não se associa a um referencial de conforto para o adolescente. Jamie se preocupa mais com a decepção do pai do que com a consequência do seu ato: tirar a vida da menina, que afinal “não valia nada”.

Por outro lado, o desejo pela afeição da psicóloga, a qual, em muitos sentidos, é verdadeira para com ele, levanta uma dúvida em relação à figura materna de Jamie. De que forma o garoto teria introjetado essa mãe, nos estágios iniciais? Em certos momentos, ficamos com a impressão de que essa mulher, em particular, tende a utilizar defesas maníacas para enfrentar a realidade. Percebe-se esse movimento na manhã do aniversário do pai. Algo de uma artificialidade parece emanar da mãe, quando começa o dia “fazendo de conta” que nada aconteceu à família. Mais tarde, sua posição mudará, e ela poderá chorar também. Mas será que esse funcionamento teve um papel na dificuldade ambiental que deixou Jamie despreparado para reconhecer a maldade, dentro e fora dele mesmo? É algo a se pensar.

Embora não possamos afirmar, percebemos, a partir das figuras parentais, uma ingenuidade em relação ao filho, que poderia ter determinado a dificuldade de enxergá-lo, aquele “virar o rosto” involuntário diante do seu problema. Embora não desejemos discutir, aqui, o diagnóstico de Jamie, a corresponsabilidade do ambiente sobre o seu ato de loucura permanece. Ou estaríamos diante dos sinais de uma perversão, a despeito da pouca idade do rapaz? A internet pode ter influenciado a interpretação parcial da realidade, que levou o adolescente a entender como “normal” ameaçar uma moça com arma branca, já que ela o desmoralizou. De qualquer maneira, é um menino que queima, que é “queimado” nas redes.

A prática cruel de excluir de forma absoluta garotos como Jamie, valorizando outros cuja imagem se aproxima do ideal, é uma forma delirante de apreender a realidade, que incita a grandes violências (Semelin, 2009). Essa prática fere profundamente o narcisismo dos excluídos e lhes nega o reconhecimento e a possibilidade de pertencimento ao grupo. Jamie, que é recusado em seu valor no campo das trocas, tanto sociais como sexuais, está sendo queimado diante dos outros. Isso é uma vergonha, uma humilhação.

Por outro lado, sob vários sentidos, a ato louco de Jamie é também um ato sexual. Ele precisa da arma branca para penetrar a menina. Talvez se refira a isso quando, em sua lógica bizarra, diz à psicóloga que poderia ter feito muito mais com Katie, mas não o fez. Nossa hipótese é que ele, de fato, não podia ter feito mais que isso. Jamie não se sente potente, e o desprezo de que foi vítima nas redes colocou isso a nu - justamente quando o desprezo partiu de uma menina que também sofreu bullying virtual. É curioso. Nem a menina tem seios, nem Jamie tem um pênis capaz de funcionar bem.

Acreditamos que o comportamento desse garoto intriga pela complexidade da multicausalidade psíquica do ato violento, representado pelo feminicídio. Jamie, o perpetrador, é vítima do discurso misógino e das dificuldades parentais e da violência encriptada na família. Quanto aos seus primórdios, teria havido um desencontro entre esse menino e seus objetos de amor? Há elementos do seriado que nos fazem pensar que sim.

Papai, olha, olha!

No livro Quem matou meu pai (2023), Édouard Louis nos fala sobre o desencontro com o pai. Este, que não estudou e sempre estranhou o jeito “pouco masculino” do filho, foi abandonado pelo próprio pai aos 5 anos. O avô de Édouard era violento, assim como o avô de Jamie. Édouard estudou, tornou-se escritor, mas sofreu na infância com o alcoolismo paterno. O escritor fala disso abertamente, da trajetória tortuosa para a construção de uma masculinidade muito própria, sua identidade de homem gay, aceita pelo pai somente ao fim da vida.

Em seu livro, o autor comenta uma noite quando, aos 8 ou 9 anos, inventou com os amigos um espetáculo para a família, imitando um conjunto musical. A reação do pai, no momento, foi enigmática para ele. Era o seu próprio jeito de ser que incomodava o pai:

Começamos o espetáculo, mas você imediatamente olhou para o outro lado. Eu não entendia. Todos os adultos nos olhavam, menos você. Cantei mais alto, dancei com gestos mais exagerados para que você me notasse, mas você não olhava. Eu dizia, Papai, olha, olha, eu fazia de tudo, mas você não olhava. (p. 16)

Existe similaridade no relato de Jamie e Édouard Louis. O que significa, para o menino, a recusa do olhar do pai? Quando se pensa o reconhecimento, é o papel do espelho materno, no qual a criança pode ver a si mesma (Winnicott, 1971/2019), que tem a primazia no pensamento psicanalítico. Primeira anfitriã do bebê humano, a mãe aparece em grande parte das teorizações como a representante maior desse adulto cuidador. O “estranho silêncio” a respeito do desejo do pai por um filho é menos comentado, mas, desde o início da vida, o pai exerce uma ação modificadora sobre o meio psíquico que o rodeia (Violante, 2001).

O pai tem importância na narcisização do seu menino, que, mais tarde, passa pelo paradoxo da sexualidade masculina: é no amor pelo pai, em suas correntes ternas e eróticas, que reside a possibilidade de o menino aceder a uma posição masculina revestida de potência e legitimidade no exercício da sexualidade (Oliveira & França, 2019). Assim, foi um menino que contou a Silvia Bleichmar (2006), por meio do brinquedo, que incorporar o falo do pai era um jeito de se tornar masculino. Esse desejo pelo pai, na puberdade, “se reacende” (Blos, 1993/1998). O que dizer, então, do desencontro de olhares entre um pai e um filho, num momento em que esse espelho é tão importante?

Em Jamie, e em Louis, o olhar do pai parece ter faltado.

Contudo, os caminhos de ambos, depois do desencontro com os pais, foram diferentes. Em relação à violência, se passa o mesmo. Ela pode seguir outros caminhos, embora tenha o estranho costume de se perpetuar. São comuns os relatos de transmissão intergeracional e transgeracional da violência entre homens de uma família. Quando a transmissão é materna, podemos encontrar outro tipo de omissão do pai - nesse caso, a esquiva de ocupar seu lugar.

É o caso de outra ficção, que também repercutiu muito na época do lançamento. Falamos da história de Kevin, o “garoto Columbine” descendente do massacre armênio.3 Quando a mãe registra o filho sem o nome do pai (Corso & Corso, 2012), transmite-lhe o peso do seu trauma, sem nenhuma mediação. Assim, o adolescente Kevin reproduz o massacre dos antepassados, na escola, numa “vingança” incompreensível a todos. No filme que conta essa história, também aparece a imagem da mancha, agora na casa da mãe, pichada de vermelho em protesto pelas crianças assassinadas. Tanto em Adolescência como nessa história, manchas são a forma figurada de assinalar a transmissão da vergonha, manchas que podem ser transformadas, mas não apagadas - nem mesmo com o recurso da simbolização.

São livros, são filmes, são seriados. Escrever este trabalho também é uma tentativa de elaborar o inquietante que a série Adolescência despertou em nós.

Caminhos de elaboração

Dada a dimensão irreparável do crime de Jamie, talvez seu futuro já estivesse comprometido naquele contexto social. A quanto tempo de prisão seria sentenciado? Não sabemos. Contudo, se o final do seriado traz a imagem do ursinho “morto”, traz também a esperança de alguma reparação.

O quarto episódio de Adolescência retrata o início da elaboração do traumático a partir do luto parental, da compaixão da irmã e do trabalho psíquico de Jamie. Indícios desse trabalho se apresentam na afirmação de que confessará seu crime, mas também na imagem que é como uma “fantasia de cura” para a ideia do rosto deformado, do rosto do pai que se nega a ele.

No dia dos 50 anos do pai, este recebe um desenho feito pelo filho, o seu rosto num cartão de felicitações. Mais tarde, na conversa com a esposa sobre o talento de Jamie, saberemos que esse dom, embora não valorizado como a valentia no esporte, pode ser um caminho para ele. Quando pequeno, Jamie desenhava muito. O desenho é a retomada do processo de configurar um pai para si, um pai capaz de conter sua pulsionalidade, conduzi-lo à integração. Parece que o desenho é um espelho melhor, pode reproduzir cada feição do rosto do pai para aquele que quer resgatá-lo. Será que o desenho, criado pelo adolescente, estava olhando para ele? Acreditamos que sim, de um jeito muito mais terno do que o pai violento da internet. Podemos imaginar Jamie desenvolvendo, na casa de recuperação, o que vai ser o presente do pai nos seus 50 anos.

A respeito dos caminhos de elaboração apresentados no seriado, parece que faltou a Jamie a oportunidade de fazer um desenho como aquele antes da tragédia. Contudo, ele não está só: a cena da escola nos fez perceber que o que ele vivia era algo generalizado - a horizontalidade das relações, a exposição maciça às telas, a falta de confiança no adulto, a dificuldade de comunicação. Não somente ele, mas o amigo, Katie, Jade e o filho do policial: em todos esses meninos, o desamparo e a violência circulavam sem peias. E mesmo os adultos de boa vontade não conseguiam amparar esses garotos.

Nesse sentido, gostaríamos de destacar dois diálogos, representando um encontro e um desencontro entre adolescentes e adultos. No segundo episódio da série, presenciamos o esforço do policial, cujo filho estuda na escola, para se aproximar do rapaz. A tragédia desperta nesse pai a urgência de protegê-lo, mas, de fato, foi o garoto quem primeiro ajudou seu pai, na decodificação das mensagens trocadas entre Katie e Jamie. Depois da investigação, o pai está angustiado, percebe melhor o filho e se dá conta da dificuldade de acessá-lo. Convida-o, então, para comer batata frita. O rapaz se transforma quando o pai lhe dá a oportunidade de explicar por que a batata do restaurante chinês é a melhor do mundo. Ponto para o pai, ponto para o filho. Abre-se aí um caminho prazeroso de comunicação.

Em outra cena, porém, a professora oferece a Jade, a moça que bateu no rapaz, a oportunidade de “ir conversar com alguém”. É então que sabemos que a relação da menina com a mãe é ruim, distante. Isso lembrou a uma destas autoras, que trabalha como terapeuta e psiquiatra, o quanto o timing do encaminhamento de um adolescente tem de ser preciso. Recebendo crianças e jovens em situação de perigo para si mesmos e os demais, o oferecimento da possibilidade de fazer uma psicoterapia, ou análise, é um processo a ser construído. Em certos casos, o encaminhamento pode ser sentido como abandono: “Então você não vai querer cuidar de mim?”. O mesmo se dá quando o analista precisa encaminhar seu paciente para uma intervenção medicamentosa.

São situações complexas, que envolvem a questão da psicanálise extramuros, intervenções nas escolas, junto aos pais, e em instâncias ainda maiores. Estas abarcam desde a necessidade de medicar o paciente até as políticas públicas e a mobilização da sociedade no sentido de se responsabilizar, verdadeiramente, pelos seus jovens. Quando a professora sugere mandar a moça a um psiquiatra, a menina se revolta: “Outro terapeuta?”. Não! A professora não estava entendendo! E sai correndo, furiosa, pelas escadas.

A fala da moça nos dá uma pista sobre a situação dos nossos adolescentes: é preciso uma solução coletiva para um problema coletivo. Se alguns podem encontrar ajuda na sala de análise, muitos estão “fora” dela, atuando a violência contra si mesmos e outros, por conta do desamparo que não conseguem simbolizar. Há algo que escapa da possibilidade da psicanálise clássica, do tratamento individual de cada menino que sofre. Mas o sucesso da série Adolescência refere-se à necessidade de encontrarmos recursos, em nossa cultura, para entender aquilo que estamos vivendo.

3 O Holocausto Armênio, de 1915, foi o extermínio sistemático de 1,5 milhão de armênios residentes na Turquia (Corso & Corso, 2012).

Referências

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Recebido: 02 de Abril de 2025; Aceito: 13 de Maio de 2025

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