O presente artigo objetivou compreender as expressões psíquicas, identitárias e sociais das tatuagens de jovens em cumprimento de medida socioeducativa de internação, partindo da concepção de que seus corpos são territórios de simbologia, memórias, afetos e filiações. Todavia, a perspectiva não é construir um catálogo de tatuagens desses jovens, e sim tentar entender os significados de usar a corporeidade como palco de expressividades.
Quando falamos dos jovens em cumprimento de medida socioeducativa de internação, a quais corpos nos referimos? De acordo com Gisé (2018), o perfil dos jovens institucionalizados é específico, eles possuem um modo próprio de se comunicar, códigos de ética rígidos, gosto musical, estética do corpo e do cabelo. De modo consonante, Guerra (2017) afirma que a convivência nas comunidades forja diversas formas de codificação de vida, de racionalidade e normatização, assim, as regras do território, do crime e da lei regulam e se inscrevem também nesses corpos. Assim, grifa-se que o corpo do jovem em cumprimento de medida socioeducativa de internação conta uma história por meio das tatuagens (Gomes, 2021).
Abordar a corporeidade é essencial para romper a dualidade corpo-mente. Desse modo, partimos da compreensão de que “a realidade corporal é o local onde depositam as fantasias, as sensações, os desejos, o real e o imaginário, ou seja, toda a subjetividade humana” (Maroun & Vieira, 2008, p. 184). O ser humano precisa ser refletido em sua integralidade e interconexões, corpo e subjetividade não são polos opostos, são dimensões complexas da existência, da territorialidade e dos afetos dos sujeitos.
A existência é primeiramente corporal (Freud, 1996; Le Breton, 2007). Dessa maneira, o corpo é nosso primeiro território e abrigo (Oxfam Brasil, 2020). A carne torna o existir concreto, em que “o corpo funciona como uma fronteira viva para delimitar, em relação aos outros, a soberania da pessoa” (Le Breton, 2007, p. 30). A pele estabelece os limites e bordas entre o interno e externo, podendo ser compreendida como um envelope psíquico que faz proteção frente ao caos do mundo e torna-se maleavelmente a memória viva do sujeito (Amparo, Cardoso, & Vilas Boas, 2016; Anzieu, 1988; Le Breton, 2010; G. L. Silva & Passos, 2016).
As tatuagens como uma narrativa: uma memória manifesta
Na atualidade, o ato de tatuar-se ganhou outros contornos e ampliou os limites da estética pessoal, ligando-se à devoção privada, estruturação de papeis sociais e associação entre pares (G. L. Silva & Passos, 2016). Entretanto, apesar da popularização, alguns corpos têm os seus desenhos e mensagens estigmatizados, independentemente dos significados. Por exemplo, em um corpo negro, qualquer inscrição pode ser interpretada pelas lentes do racismo e da segregação como sinalizador de envolvimento com a ilicitude e ameaça. Ao falarmos das tatuagens precisamos olhar em qual corpo ela se localiza!
A marcação social e cultural pode se realizar por meio da escrita direta do coletivo na carne do autor, em que as inscrições corporais podem ser um ritual de afiliações e/ou separações (Le Breton, 2007). Sendo assim, no tatuar-se, o individual e o social se entrelaçam em um paradoxo de autenticidade e busca por inserção grupal (Costa, 2015; Garcia, 2006; Le Breton, 2004; Lise, Gauer, & Neto, 2013; S. Macedo, Paravidini, & Próchno, 2014; Rodrigues & Carreteiro, 2015). Portanto, a tatuagem é um relato, uma memória manifesta (Alvarez, Castro, & Lasky, 2016), uma narrativa permanente.
Podemos refletir sobre como as tatuagens possibilitam que a história seja escrita, inscrita (Rodriguez & Carreteiro, 2015) e narrada. Os jovens vinculados à infracionalidade pouco são ouvidos, pois os medos e estigmas sociais colocam barreiras quase intransponíveis, então as palavras na carne deixam nítidas e concretas para si e outrem, a humanidade, as fragilidades, as figuras de referência e crenças. Desse modo, o corpo tatuado é um campo de manifestação, de expressão de vicissitudes e do mundo interno (Alvarez et al., 2016; Lise et al., 2013).
O corpo passa a ser uma espécie de tela externalizadora de afetos, identidades e localizações. Em termos psicossociais, as tatuagens podem auxiliar no processamento de lutos, perdas concretas e simbólicas, representação de estados internos, autoafirmação, prova de masculinidade, código de inclusão grupal (G. L. Silva & Passos, 2016) ou forjamento de um personagem destemido, que é uma hipótese acerca dos jovens enlaçados com a infracionalidade. Frisamos que o ato de se tatuar escancara os contornos da singularidade e das vivências, a pele fronteiriça do eu passa a ter cascas que endereçam mensagens.
Escrituras no corpo como dispositivo narrativo do jovem na socioeducação
No sistema socioeducativo, o corpo juvenil é tido unicamente como portador de transgressões e códigos ligados às facções, forjando a necessidade de desvelar os significados das tatuagens para controlar, docilizar e enquadrar. Ao adentrar a socioeducação, o jovem tem sua pele mapeada. No cadastro institucional, junto com seus dados pessoais se encontram as descrições de suas tatuagens e cicatrizes físicas. Porém não é para realizar um trabalho analítico acerca das inscrições corporais, e sim para alimentar um catálogo com informações e características acerca dos corpos considerados perigosos.
Nas unidades voltadas para o cumprimento de medida socioeducativa de internação, depreendemos que a tatuagem é uma das poucas coisas que não pode ser despida no processo de institucionalização. O jovem pode virar um número, ter suas roupas e cortes de cabelo padronizados, ter sua voz e protagonismo cerceados, mas a sua pele jamais será arrancada. Apesar dos constantes enquadramentos e apagamentos identitários, as narrativas na carne mostram um mínimo de domínio sobre si e a sua trajetória. No cotidiano de suas vidas, os jovens envolvidos com infracionalidade não têm tempo para conversas, reflexões ou elaborações. O mundão1 os convoca para o “corre”2, a agilidade, o existir frenético, em que todas as dimensões precisam ser atuadas, assim, o corpo é a pouca matéria física que possui e faz vez de tela.
A pele dos jovens institucionalizados na medida socioeducativa de internação pode ser olhada como um pergaminho cheio de pistas, sentimentos, buscas e caminhos percorridos, como nos mostra o estudo de Cabral, Saturnino, e Santamaria (2020), em que as tatuagens dos adolescentes ligados à infracionalidade são tidas como significantes para o entendimento social de suas histórias de vida, ao referenciar alegrias, conflitos e situações arriscadas. Entretanto, pondera-se que inexistem estudos acerca da simbologia psíquica e social das escrituras na pele de jovens em cumprimento de medida socioeducativa de internação.
Enfatiza-se que nas instituições privativas de liberdade, as tatuagens não são para enfeitar, mas tentam comunicar e instalar distâncias (Lisa et al., 2013), assim, transpor os estigmas apresentados na pele é parte imprescindível para a construção do vínculo e de uma escuta sensível junto a esse público. Ou seja, é possível construir um trabalho socioclínico dentro de instituições privativas de liberdade a partir das palavras ditas no corpo.
Método
Tratou-se de uma pesquisa clínico-qualitativa (Turato, 2000) acerca do corpo e das tatuagens, construída a partir da imersão no campo e dos registros etnográficos. O objetivo era compreender como as tatuagens refletem subjetividades e podem ser pistas para a construção de um trabalho analítico e de alianças com esses jovens, posto que elas estão também no bojo de outras narrativas. O projeto de pesquisa que originou o presente artigo foi aprovado por Comitê de Ética.
Este estudo se ancorou nas premissas da clínica implicada, uma modalidade de escuta e ação que vislumbra compreender as capturas e enredamentos da maquinaria do poder frente a sujeitos situados precariamente no social, bem como os processos de alienação social e resistências (Rosa, 2012). Dessa maneira, conforme Soares e Machado (2017), nesse modo de operacionalizar o pesquisar há um rompimento com a produção científica hegemônica, em que a posicionalidade implicada se desvincula do discurso colonizador, utilizando a dimensão ética e a estratégia política como mecanismos de construção de saberes.
O contato com os jovens institucionalizados ocorreu em um estabelecimento de cumprimento de medida socioeducativa de internação para jovens do sexo masculino, com idades entre 18 e 21 anos, mas que cometeram o ato infracional na menoridade penal. A aludida instituição atendia mais de 200 jovens. No que tange ao perfil, eram jovens originários da periferia, com distorção idade-série e uma trajetória marcada pela “experiência” na infracionalidade e no cumprimento de outras medidas socioeducativas.
A terminologia “experiência” é empregada para sinalizar como a inserção na ilicitude começa ainda na infância. Não é regra, mas de maneira geral os jovens possuíam um percurso longo de envolvimento em infrações. Alguns estavam envolvidos com tráfico de drogas desde a infância, ou seja, maior tempo de suas vidas foi de ligação à infracionalidade. Além disso, é importante demarcar como eles se sentiam sobreviventes, haja vista, os recorrentes assassinatos em seus territórios.
No que concerne às estratégias metodológicas e de registro, utilizou-se a observação participante e a imersão etnográfica em campo, que foram registradas em diário de campo. A observação participante possibilitou que as pesquisadoras acessassem comportamentos e situações que não estão comumente abertas para a observação científica e externa, na qual quem pesquisa desempenha função dupla: observa as vicissitudes das pessoas institucionalizadas e participa ativamente da situação observada (Schaughnessy, Zechmeister, & Zechmeister, 2012). A descrição das atividades, percepções e sentimentos foram escritas até 24 horas posteriores ao contato com a instituição e pessoas. A utilização do diário de campo em pesquisas tem o potencial de produzir reflexões acerca da prática, do vivido e dos não-ditos interpessoais e institucionais; além disso, é relevante na análise das implicações das pesquisadoras (Borges, Rézio, L’Abbate, & Fortuna,, 2018).
Para análise do simbolismo das tatuagens, organizamos as inscrições mais recorrentes, basicamente, em cinco eixos narrativos: as tatuagens de homenagens- referentes às mães; as memorativas- direcionadas aos parentes mortos; as de autorreferenciamento- na busca por uma diferenciação, como são as do nome próprio e da Santa Morte; as protetoras- ligadas à religiosidade e a proteção transcendental; e as de pertencimento- que vislumbravam narrar às inserções em determinados espaços e grupos, com as inscrições ligadas ao território que habitam e se inscrevem afetivamente, o que eles nomeiam como quebrada, e a simbologia do palhaço enquanto marca do enlace com a ousadia transgressiva.
Resultados e discussão
Desde a inserção no campo, as tatuagens dos jovens convocaram o nosso olhar, sendo o único contraponto à serialização e à massificação vivida no estabelecimento privativo de liberdade. Os desenhos e as palavras apresentados nas peles traziam cor e demarcavam limites para a contenção imposta, era como se eles precisassem carregar constantemente um cartaz corporal sinalizador, para si e os outros, de uma história, das perdas, dos sonhos e de ser filho de alguém.
Em consonância, Le Breton (2004) sinaliza que qualquer corpo possui a virtualidade de outros corpos, com inúmeras identidades possíveis. Nessa conjuntura, apesar das deliberadas tentativas de enquadramentos e modificações, os corpos são instrumentos protetivos, de atuação e diferenciação. Portanto, podemos pensar como o corpo produz sentidos e estratégias para expressão dos sentimentos e dos sofrimentos individuais e coletivos.
O corpo é um marcador social e culturalmente desenhado, a partir dos “símbolos e signos atribuídos a ele, podemos compreender melhor a dinâmica que se instaura em determinada sociedade e em determinado período histórico. O corpo pode ser encarado como um dos elementos que exterioriza o interior de uma sociedade” (Maroun & Vieira, 2008, p. 177). A corporeidade é forjada como comunicadora, a pele se transforma em argila, moldando-se conforme o desejo de quem o executa. No corpo como superfície, a pele apresenta a história não simbolizada e se converte em memória (Alvarez et al., 2016).
Na construção de vínculos com os jovens institucionalizados, observamos que as tatuagens serviam como gatilho para iniciarmos diálogos com aqueles mais introvertidos ou desconfiados. Falando sobre a tatuagem, eles diziam de si sem perceber e abandonavam a sensação de que estávamos investigando suas vidas. Para outros, as inscrições eram como prova de episódios ou valores, ao contar algum evento, mostravam o desenho como balizador. Em diálogo com Gomes (2021), a tatuagem enquanto linguagem pode ser utilizada como mediadora relacional e elaborativa na atuação junto a grupos historicamente silenciados.
Portanto, as conversas mediadas pelas inscrições corporais foram primordiais para construir alguns elos de confiança, descobrir histórias de vida e perdas afetivas. Sendo assim, segundo Le Breton (2004), as tatuagens compõem a estética cotidiana, jogando com o enigma a partir do lugar e do grau de familiaridade com o outro. Demonstrando que a análise pelo simbólico possibilita uma brecha para que o sujeito simbolize ao seu modo e faça processo próprio de subjetivação, consolidando uma clínica que reforça o protagonismo (Dunker, 2011).
Dessa maneira, ao considerar as tatuagens como narrativas, utilizou-se dos elementos visíveis e possíveis para adentrar as intimidades, as angústias e os sofrimentos dos jovens. Partindo das premissas de que “a pele tatuada é o livro de nossa história” (Alvarez et al., 2016, p. 191) e as palavras na carne apresentam momentos chaves da existência, em que o corpo se torna um arquivo de si (Le Breton, 2004). Grifando que a atuação socioclínica na privação de liberdade requer criatividade e sensibilidade para escutar/ver as palavras silenciadas, porém encarnadas.
Como já apontado, notamos que a tatuagem era a única vivacidade dos jovens institucionalizados, sempre com roupas brancas, cabelos raspados, mão para trás e cabeça baixa, o colorido dos desenhos na carne confrontavam a mortificação perpetrada pelo estabelecimento privativo de liberdades. Nesse sentido, a carne reivindicava por uma diferenciação e uma identidade, a partir de uma estratégia que não era vista como linguagem, mas como um marcador de inserção na ilicitude.
A seguir, apresentaremos os eixos narrativos que surgiram a partir das tatuagens que estiveram constantemente nas peles dos jovens. Ao descrevê-los tentamos entender as ligações com os âmbitos social, institucional e territorial no qual cada jovem estava inserido. Não podemos generalizar interpretações, cada jovem tem particularidades, uma relação simbólica com o que está escrito e motivações diversas para realização da tatuagem: experiências vivenciais, estética, repetição de um significante ou uma possibilidade de elaboração (Rodriguez & Carreteiro, 2015). Não almejamos criar padrões estigmatizantes, e sim apresentar as tatuagens como uma narrativa e uma ponte para iniciar trabalhos analíticos e reflexivos na socioeducação.
“Amor só de Mãe”: a Família e suas Idealizações na Pele
A maioria das inscrições corporais dos jovens acompanhados por esta pesquisa trazia nomes de familiares, principalmente, da mãe e/ou a frase que intitula este tópico. Geralmente, essas tinham sido as primeiras tatuagens realizadas pelos jovens, ainda no início da adolescência. Eles sinalizaram que traziam o nome da mãe consigo como homenagem à única pessoa que continuava ao seu lado mesmo no contexto de infrações e encarceramento. A frase “amor só de mãe” esteve presente diariamente nos corpos, produções e falas desses jovens, tornando-se justificativa para agressões a mulheres e o abandono das companheiras. Para esses jovens, a amorosidade e a confiança são premissas exclusivas de suas mães.
No que concerne à relação dos jovens que passaram ao ato infracional e suas mães, Penso et al. (2013) apontam que as suas vivências estão restritamente ligadas a essa figura, considerando o vazio da presença paterna. Essas autoras constataram serem esses filhos idealizados por suas genitoras e colocados no lugar de “homem da casa”. Com isso, eles se sentem no direito de cobrar a constante presença de suas mães, como se elas fossem portadoras inesgotáveis e incondicionais de afeto e submissão.
Por outro lado, tinha uma parcela dos jovens institucionalizados que mesmo com o nome da mãe e/ou a supramencionada frase tatuados possuía uma relação conflituosa ou sequer teve contato com a genitora. Havia uma necessidade de demarcar ser filho de alguém, na institucionalização, como se fosse inadmissível ter conflitos com a figura materna ou não ter mãe. Nos diálogos, quando o jovem conseguia verbalizar a falta de afeto ou as brigas com a mãe, parecia que ele estava cometendo um sacrilégio, falar sobre isso era um tabu. Para eles, era melhor falar de uma relação de cuidados e afeto idealizados do que da sua experiência na realidade.
Sinalizamos como o dispositivo materno (Zanello, 2018) é algo supervalorizado e explorado na medida socioeducativa de internação. Da mãe ou de outras mulheres demandam-se a responsabilidade pelo acompanhamento, a presença nas visitas e o fornecimento de alimentos e itens de higiene. Várias mães relataram o cansaço e o desgaste com a vida infracional dos filhos, mas as cobranças social e institucional não autorizavam o seu distanciamento dos filhos.
Esse amor materno idealizado é tido como uma obrigação dessas mulheres e deve transpor qualquer barreira, assim, mesmo quando ele inexiste, os jovens o forjavam e idealizavam. Assim, destacamos a necessidade de construção de pesquisas e intervenções críticas e feministas sobre as mães e familiares que acompanham os jovens em cumprimento de medida socioeducativa. As grandes filas de mulheres nas instituições de encarceramento não é só prova de amor, é obrigatoriedade social, anseio e renúncia.
“Conversando com os Mortos”3: Eles Continuam Vivos na Minha Carne
As tatuagens que registram a memória de amigos e parentes mortos são frequentes em jovens em cumprimento de medida socioeducativa, seja por meio de nomes, apelidos ou desenhos. Essa seria uma maneira de referendar quem morre criando uma marca no corpo (Pinho & Rosa, 2014). Relatamos aqui uma história que parece ficcional. Um dos jovens acompanhados tatuou a imagem de um famoso personagem de terror para homenagear um amigo que havia morrido, contudo, meses depois, descobriu que a morte se tratou de uma farsa para desvencilhamento de dívidas e conflitos territoriais, porém nada podia ser feito e a tatuagem memorativa permaneceu como marcador da parceria e lealdade que nem a morte seria capaz de cessar.
Conforme Alvarez et al. (2016), ao tatuar algo que simbolize a morte do amigo, essa cena fica cristalizada, uma experiência passada torna-se permanente e impossibilitada de ser metabolizada. A tatuagem memorial pode ainda ser entendida como uma tentativa de fazer durar ou preservar o morto como humano (Pinho & Rosa, 2014; Vannucchi et al., 2016). Nesse sentido, a depender dos significados, determinados desenhos podem demarcar um rito contemporâneo de passagem por um tempo de luto (Costa, 2015; Pinho & Rosa, 2014).
No caso dos jovens institucionalizados, as pessoas que morrem passam a ser eternizadas na pele, como um modo de continuar vivo num corpo que se transforma em baú de recordações. Assim, a memória é vivida no corpo (Rodriguez & Carreteiro, 2015), sendo possível trazer um pedaço ou a lembrança de quem se vai. Essas inscrições autenticam as perdas de figuras de referência e afetividade, as cicatrizes internas ficam na carne.
Assinalamos aqui um jovem que trazia na pele um desenho com várias cruzes. Institucionalmente, havia o relato de que era o registro das pessoas que ele havia assassinado, o que era negado pelo jovem. Nas conversas informais com as pesquisadoras, ele não escondia os atos infracionais, mas trazia muito mais as perdas de parentes em conflito territorial de décadas e como buscava consolidar um perfil destemido para ser linha de frente de uma “guerra” que nasceu antes dele. Apresentamos essa história para sinalizar como as tatuagens faziam a composição da fama de perigoso e impossibilitavam que as pessoas se aproximassem, essas marcas acabavam protegendo-o e balizando o lugar de temerário.
“A Santa Morte”: a Morte como Companheira
Outro desenho comum é a caveira mexicana, diferentemente da categoria acima, não eram memoriais e referentes a entes queridos falecidos, mas podem ser analisadas como autorreferenciais. De maneira geral, quando questionados, os jovens sinalizaram que este tipo de inscrição não possuía um significado específico.
Entretanto, observamos que a morte era uma constante nas tatuagens dos jovens institucionalizados, sendo representada pelas caveiras estilizadas ou “santa morte”, essa última trata-se de desenho que mistura elementos de uma divindade atrelada à caveira e são sempre figuras femininas. Gusmão (2019) apresenta como a morbidez está presente nas narrativas de jovens em cumprimento de medida socioeducativa de internação, “estes vivem em si, em seus corpos, o imaginário de estão onde estão por serem pessoas ruins e merecedores da morte” (p. 86).
Todavia, chama atenção a vivacidade destas tatuagens, mesmo tratando-se de ossos, as expressões e cores apresentam sedução, plenitude e vivacidade. Na qual, as aludidas inscrições funcionam quase como uma aproximação paulatina do destino próximo e sem saídas, a morte, como se cultuassem um tipo de autoluto. Nas vicissitudes desses jovens, a morte é parceira cotidiana, em que a ameaça do fim é constante. Tal construção pode ser interpretada como uma tentativa de tornar a morte mais amigável e de ressignificar a condição que virá. Além de destino, para Gusmão (2019), a morte seria componente da própria identidade de jovens envolvidos com infracionalidade, como se eles fossem a morte personificada.
Em outra perspectiva, Grigorieff (2016) pontua que a caveira tatuada representaria a finitude e também a continuidade por meio do culto aos mortos. Desenhos que trazem o mortífero para a pele podem demarcar a repetição de atos destrutivos comum nas trajetórias infracionais dos jovens. Independente do mistério de se trazer a morte na pele, enfatizamos que o movimento de autodestruição e o extermínio atravessam o existir dos jovens inseridos em contextos de violência. Assim, a superfície tegumentar pode funcionar como proteção contra as incertezas do mundo (Le Breton, 2004) ou nesse caso, a única certeza que eles acreditam ter, a morte.
O Nome Próprio: a Busca por um Eu
Alguns jovens tatuam o próprio nome. Quando questionados sobre a escolha desta modalidade de tatuagem, alguns diziam que facilitaria no momento de se apresentarem para alguém, pois era só mostrar a inscrição. Outros apontaram que não sabiam. Seria uma necessidade de se singularizar? Refletindo sobre o endereçamento para o outro, talvez servisse como um marcador de que não se encontra sozinho, mas de que pode contar com alguém.
Convém ainda sinalizar as tatuagens de autorreferenciamento como tentativa de demarcar uma identidade para além da forjada no contexto infracional, em que são chamados pelas alcunhas. Quase como um ensaio que traz para a carne o eu que vai se diluindo no percurso infracional. Corroborando isso, Vannucchi et al. (2016) apresenta o tatuar-se como uma forma privilegiada de forjar uma identidade diferenciada. Nesse cenário, apreendemos que a pele acaba tornando-se palco da dinâmica intrapsíquica desses jovens, em que, poderão ser projetadas uma ampla gama de estados afetivos, fantasias e conflitos inconscientes. Na carência de recursos psíquicos para conter a excitação psíquica, a pele constitui-se em um espaço delimitado, no qual se podem depositar afetos (M. M. S. Macedo, Gobbi, & Waschburger, 2009, p. 100).
Outra compreensão para tatuar o nome próprio diz respeito às desvinculações vivenciadas por esses jovens. Podendo dizer de um movimento desses jovens de se mostrarem enquanto sujeitos, com uma história que o antecede e que possuem, ao menos, a posse de si mesmo. Esse convém como um recurso para apresentar a relação que o sujeito estabelece com um traço dele mesmo (L. C. Silva, Carvalho, & Chatelard, 2017).
Reforçamos que o corpo dos jovens institucionalizados pode ser compreendido como um mapa cultural, capaz de comunicar por meio das cicatrizes e tatuagens as suas histórias de vida, que estão entranhadas em suas peles e psiquismo (Freitas, 2013). Ou seja, na impossibilidade de falar e ser ouvido, o jovem encontra outros modos de expressar e afirmar sua existência para si e outrem (S. Macedo et al., 2014). As tatuagens são pistas que expõem o território subjetivo na carne (Garcia, 2006), marcando pertenças e resistências.
“Livrai-me de Todo Mal”: a Carne que Clama Proteção Divina
A busca por proteção e uma blindagem divina urgia na pele. Havia uma mescla de figuras angelicais, terços, trechos de orações (“Livrai-me de todo mal”), salmos ou nomes que remontavam às divindades cristãs (Deus, Jesus Cristo). Geralmente, localizadas em partes visíveis como mãos e rosto, ou estratégicas para o “fechamento” do corpo, como é o caso do tórax. Além disso, as tatuagens religiosas foram feitas para evidenciar momentos de agradecimento à sobrevivência da violência urbana. Demarcando a necessidade de construir bordas ligadas a algo transcendental em detrimento das fragilidades humanas e falhas vivenciadas. Conforme Le Breton (2004), as tatuagens protetoras funcionariam como uma barreira, um escudo contra os infortúnios, bem como sinalizaria que o sujeito não se encontrava sozinho no mundo, mas ligado a figuras universais.
As marcas religiosas ligadas ao cristianismo dialogavam também com um momento de vida anterior desses jovens, em que a maioria relata a estreita relação com instituições religiosas e o fato de serem provenientes de famílias cristãs. Inclusive, apontamos a escassez de estudos acerca da religiosidade de jovens em cumprimento de medida socioeducativa de internação. No percurso desta pesquisa, podemos perceber como o discurso religioso estava presente nas falas e compreensões de mundo desses jovens, além disso, os dogmas religiosos são tidos como justificativa para valores rígidos, preconceituosos e de permanência na ilicitude, numa lógica de destino e providência divina.
As inscrições corporais apresentadas neste eixo apontam ainda como esses jovens anseiam por um perdão divino pelos atos cometidos, o que seria capaz de reparar todo o sofrimento vivido e atuado durante a vida. Assim como as demais marcações, não se tratava apenas de um desenho, mas de uma localização enquanto sujeito no mundo, sendo atravessada por dogmas e construções subjetivas ligadas à religiosidade.
“Um Bom Lugar”4: Não Largo minha Quebrada
Pensando no tatuar-se como inserção grupal, várias tatuagens estavam ligadas a quebrada onde residiam ou se identificavam, dizendo respeito a um espaço delimitado pela pertença e afeto, pode ser uma rua, uma quadra residencial, um bairro, é um tipo de chão que mostra de onde se é. A quebrada é uma cisão da lógica estabelecida pela sociedade, em que os sujeitos envolvidos com a infracionalidade tentam desenhar um lugar no mundo permeado por alianças, identificações e possibilidade de existir.
Para Freitas (2013), a tatuagem pode ser vista como um código para a inserção grupal em contextos em que a coletividade garante a fantasia de suprimento e pertencimento para a existência do sujeito. Para exemplificar, diversos jovens de um território tinham uma gueixa desenhada no braço; outros traziam as iniciais da quadra onde moravam no pulso ou mão. Salienta-se a forte presença da territorialidade nas vivências dos jovens, considerando que eles se organizavam e (des)vinculavam-se a partir do local onde pertencem.
Em termos psicossociológicos, a tatuagem nesses jovens pode ainda ser entendida como uma estratégia para enraizar alguns valores e episódios de suas existências. Tendo em vista um itinerário de vida perpassado pelas desvinculações e o risco iminente de morte. Visão corroborada por Rodriguez e Carreteiro (2015), em que a tatuagem é apontada como resistência à liquidez das subjetivações atuais e o corpo é tomado como tela para testemunhar as experiências vivenciadas e as localizações. Percebemos que a pele se configurava como espaço privilegiado para marcar graficamente a subjetividade (M. M. S. Macedo et al., 2009), a territorialidade e o querer ser. Para esses jovens, eles são a própria quebrada, quase numa busca por se eternizar, ele pode até não durar para sempre, mas a quebrada perdurará.
“Chora Agora, Ri Depois”: A Máscara e o Palhaço
Pensando no papel do outro nos processos identitários, pertencimentos e no endereçamento, sinalizamos a constância de tatuagens de palhaços, que é significado socialmente como pessoas que matam policiais. Sendo analisada pelos pares como sinal de audácia e rebeldia, porém vista pelos profissionais da segurança pública como ameaça e passível de penalidade. Um jovem, por exemplo, sinalizou que ter este tipo de tatuagem era aval para ser agredido em contextos prisionais ou assassinado pela violência policial, o que o levou a fazer outro desenho para cobrir.
Em contrapartida, outro jovem, como numa confissão, relatou que nunca havia matado, mas tinha feito o desenho para demonstrar coragem e força em detrimento dos atos infracionais cometidos. Na busca por ser visto como alguém perigoso, que matava e mostrava, divergindo da sua visível fragilidade física e social. Com o palhaço na carne, ele acreditava que se tornaria mais respeitado pelos colegas. Refletindo a partir de Rodriguez e Carreteiro (2015), a tatuagem convoca o caráter coletivo de identidade, em que o sujeito se sente amparado, em um lugar.
Cabral et al. (2020) também identificaram a presença da figura do palhaço na pele de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto no estado de São Paulo e apontaram que a inscrição corporal desses símbolos muda como eles são identificados em suas comunidades, pela polícia, escola e pares, num tipo de reforçamento de estigmas já vividos cotidianamente. Porque esses jovens precisam marcar o seu lugar na criminalidade? Trata-se de uma defesa vulnerabilizante, porque os expõem mais ainda as violações de direitos e violências policiais e institucionais.
Considerando que, contraditoriamente, ao mesmo tempo em que demarca audácia também vulnerabiliza o sujeito frente ao outro (nesse caso, os policiais). Nesta modalidade de tatuagem, além do apelo à decifração e o despertar da curiosidade (Pinho & Rosa, 2014), o portador utiliza-se de um estigma para que as pessoas não se aproximem, e ele fique resguardado com todas as suas lacunas, afinal de contas, dificilmente alguém perguntará se aquele desenho corresponde a um assassinato. Pois, algumas marcas corporais são imediatamente destinadas ao julgamento alheio, principalmente, quando estão em partes visíveis (Le Breton, 2004).
Para tentarmos entender a simbologia do palhaço, cabe ainda o apontamento do trabalho de Costa (2015), em que as marcações corporais podem trazer um movimento de mostrar e esconder, levando em conta que, mesmo a pele sendo uma superfície que se apresenta também se almeja criar um ponto cego. O que esses jovens escondem ao mostrar o palhaço? Desse modo, essas marcas capturam o olhar nem que seja pelo horror e estranhamento.
As máscaras de tristeza e alegria da tragédia grega, geralmente acompanhadas da frase “chora agora, ri depois”, também estavam presentes e entraram no escopo dos desenhos de palhaço, entendidas pelos jovens como símbolo de mistério e não desvelamento dos conteúdos internos. Assim, podemos questionar o que esses jovens estavam querendo endereçar ao outro? Qual enigma quer se mostrar?
Após apresentarmos os eixos narrativos e uma aproximação reflexiva acerca das tatuagens de jovens em cumprimento de medida socioeducativa de internação, faremos alguns apontamentos acerca de episódios vivenciados no itinerário da pesquisa e que se relacionam com as narrativas na carne. Notamos que foi recorrente a descoberta de máquinas artesanais de tatuagem, que eram produzidas intramuros com canetas, chinelos derretidos, peças de televisores ou outros objetos. Uma verdadeira engenhoca era criada para marcar a pele, os desenhos eram tão grosseiros que precisavam ser explicados. Qual o significado de escrever na carne dentro da restrição de liberdade? Fazer frente à massificação institucional? Convocar olhares que não os olham? Tentar codificar as vivências de um período na restrição de liberdade?
No trabalho de Vilhena, Rosa, e Novaes (2015) apreende-se que as marcas no corpo são uma maneira de consolidar a presença dos jovens no mundo, vislumbrando sair da invisibilidade social e do apagamento psíquico em detrimento da pasteurização encarnada nas instituições encarceradoras. Tratando-se de uma estratégia para demonstrar que o corpo é o único território que a pessoa institucionalizada tem posse, assim, ele se apresenta insubmisso, mesmo que esteja reduzido ao silêncio da cela e ao constrangimento das revistas, “a pele continua a testemunhar a sua liberdade” (Le Breton, 2004, p. 62).
As tatuagens feitas escondidas no interior das instituições de encarceramento tornam-se uma afirmação de dignidade e independência, que testemunham a continuidade do livre-arbítrio do tatuador e do tatuado. Portanto, “estes momentos são os episódios de uma cerimônia secreta que abre os muros da prisão e favorece um sentimento de reconquista de si” (Le Breton, 2004, p. 59). Assim como apontado por Le Breton (2004), a maior parte das tatuagens feitas pelos jovens institucionalizados dizia respeito às iniciais que remetiam ao nome de parentes e companheiras, numa busca por ter na pele o que não pode ter fisicamente ou um meio de provar os sentimentos.
De certa maneira, a relação de confiança, horizontalidade e presença das pesquisadoras foi primordial para compreender os significados próprios e a utilização das narrativas na carne como recursos de acesso à historicidade, perdas, angústias, localizações e pertencimentos dos jovens que passam ao ato infracional. Levando-se em conta que são raros os que se calam acerca da sua marca corporal (Le Breton, 2004), ao contrário, as palavras encarnadas convocam o outro, transpondo o silenciamento imposto socialmente e usando a pele como plataforma de expressividade.
Considerações finais
Enfim, podemos nos perguntar o que os jovens institucionalizados querem nos dizer a partir das suas peles? O que acontece em termos subjetivos e sociais para que esses jovens tentem simbolizar as suas vidas na carne? Compreendemos a tatuagem como um traço de narrativa como algo fixo/concreto/permanente em uma vivência marcada pela inconstância de um corpo ainda juvenil e atravessado por um possível extermínio iminente.
Ao considerarmos as tatuagens como narrativas, há um rompimento com as premissas reducionistas e se reafirma as idiossincrasias e coletividades de cada jovem. Ao invés de acusarmos um jovem de uma infracionalidade ou aliança com crime organizado só por possuir determinado desenho, essa inscrição corporal pode ser a porta de entrada para adentrarmos a história de vida, as motivações, as relações e os mecanismos de sobrevivência empreendidos pelos jovens envolvidos com a ilicitude. Se a pele do jovem é vista como mera tábula de inscrições delituosas, dificilmente se estabelecerá um elo de reparação, socioeducação e cuidado.
Reforçamos que as tatuagens dos jovens institucionalizados são repletas de significações, não se trata de modismo, porém, dizem de um mundo interno que tenta se apresentar, demarcar lugares e sair da invisibilidade, sendo uma arca de memórias. O corpo passa a ser balizador permanente das (re)existências internas e sociais, as vicissitudes desses jovens são tão viscerais e provenientes de tantos lugares e traumas, que o corpo passa a ser palco de uma busca por território, chão, concretude e continência. A derme dos jovens institucionalizados apresenta um mapa de localizações, raízes, sobrevivências e emoções.
No caso dos jovens inseridos em contextos de violência, a carne traria tudo àquilo que não dá tempo de falar e elaborar para si e o outro, seja porque são corpos que perecem ainda na juventude ou por terem a sua trajetória infracional transformada em identidade. As palavras na carne não estão decorando essas peles, estão fazendo vez de casca protetiva, que, paradoxalmente, também afasta e estigmatiza. É sabido que estar ligado à infracionalidade demanda marcadores e provas de inscrição, contudo, com vidas tão complexas, a tatuagem serviria apenas a essa função?
Acreditamos que uma clínica implicada socialmente e ético-política pode se consolidar nas unidades de internação ao ancorar-se no cuidado e no olhar para as sutilezas que marcam as narrativas dos jovens atendidos. Por vezes, aquilo que é tomado como sinalizador de perigo e transgressão pode ser o espaço psíquico de existência desses jovens. Onde mais eles podem se colocar fora da engrenagem e da performance infracional se não no próprio corpo? Logo, ao compreendermos as tatuagens como tentativa de um psiquismo que tenta se revelar e lutar contra o apagamento social, atrelando a uma relação socioterapêutica dialógica e de confiança é possível construir uma socioeducação crítica e corresponsável por transformações.
Por fim, apontamos o ínfimo número de trabalhos que abordam a tatuagem dos jovens institucionalizados no sistema socioeducativo como ligados à subjetividade, identidades, historicidade e territorialidades. Além disso, urge a construção de práticas e intervenções intramuros que incluam as tatuagens como modo de se auto narrar.














