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Estudos de Psicologia (Natal)

versão impressa ISSN 1413-294Xversão On-line ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.28 no.2 Natal maio/ago. 2023  Epub 14-Mar-2025

https://doi.org/110.69909/1678-4669.20230021 

Temas em Políticas Sociais: Assistência Social e Sistema de Garantia de Direitos

Práticas Psicológicas no Sistema Único de Assistência Social: Reflexões e Tensionamentos na Perspectiva de Psicólogas

Psychological practices in Sistema Único de Assistência Social: reflections and tensions from the perspective of psychologists

Prácticas psicológicas en el Sistema Único de Assistência Social: Reflexiones y tensiones

Letícia Lorenzoni Lasta1 

Doutora em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é Professora Adjunta da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Endereço para correspondência: Avenida Independência, nº 2293. Bloco 10, sala 1021 (2º piso). Bairro Universitário. CEP: 96.815-900. Santa Cruz do Sul - Rio Grande do Sul/RS. Telefone: (51) 3717-7487. Email: lelilasta@gmail.com


http://orcid.org/0000-0002-7447-3674

Caroline Couto1 

Mestra em Educação pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), é Doutoranda (bolsista Prosuc/CAPES, modalidade I) no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Email: caroline.r.couto@outlook.com


http://orcid.org/0000-0001-7102-0568

Leticia Silva Holderbaun1 

Psicóloga pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), é Mestranda (bolsista Prosuc/CAPES, modalidade I) no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Email: leticiaholderbaun@gmail.com


http://orcid.org/0000-0002-0697-4506

Maria Luiza Adoryan Machado2 

Psicóloga pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), é Doutoranda em Psicologia e integrante do Semillero POLITEIA na Universidad Católica de Colombia (UCC, Bogotá D.C.). Email: adoryanpsi@gmail.com


http://orcid.org/0000-0002-1131-7973

11Universidade de Santa Cruz do Sul

2Universidad Católica de Colombia


Resumo

O presente artigo apresenta reflexões e tensionamentos acerca das práticas psicológicas no campo da Assistência Social no Brasil. Mediante a análise de grupos focais e de um encontro de restituição com profissionais da Psicologia que atuam no Sistema Único de Assistência Social, em um município do interior do Rio Grande do Sul, busca-se analisar como as práticas psicológicas no âmbito da AS se constituem, contribuem e interrogam a própria política, no que se refere à atenção integral a famílias e indivíduos. Enquanto perspectiva teórico-metodológica utilizou-se a Análise do Discurso de tradição francesa, fortemente atravessada pelos Estudos Foucaultianos. A análise qualitativa dos dados aponta para as possibilidades e os limites das práticas psicológicas no SUAS, caracterizando tal campo por uma hibridez.

Palavras-chave: psicologia; políticas públicas; assistência social; atuação do psicólogo; análise do discurso

Abstract

This article presents reflections and tensions regarding psychological practices in the field of Social Assistance in Brazil. The study draws on the analysis of focal groups and one restitution meeting with psychology professionals who work in the Unified System of Social Assistance (known as SUAS) in a city located in the state of Rio Grande do Sul. It then seeks to analyze the way in which psychological practices in the context of SA are constituted, how they interrogate and contribute to the policy itself, with regard to integral support to families and individuals. French Discourse Analysis has been used as a theoretical-methodological framework, drawing heavily on Foucauldian Studies. The qualitative analysis of the data points to the possibilities and the limits of psychological practices in SUAS, characterizing this field by a hybridity.

Keywords: psychology; public policy; social assistance; psychologist performance; discourse analysis

Resumen

Este trabajo presenta reflexiones y tensiones sobre las prácticas psicológicas en el ámbito de la Asistencia Social en Brasil. A través del análisis de grupos focales y de un grupo de restitución con profesionales de la Psicología que actúan en el Sistema Único de Asistencia Social, en un municipio del interior de Rio Grande do Sul, buscase analizar cómo las prácticas psicológicas en el ámbito de AS se constituyen, contribuyen e interrogan la propia política, en respecto a la atención integral a las familias y a los individuos. Como perspectiva teórica y metodológica, se utilizó el Análisis del Discurso de tradición francesa, fuertemente cruzada por los Estudios Foucaultianos. El análisis cualitativo de los datos señala las posibilidades y los límites de las prácticas psicológicas en el SUAS, caracterizando dicho campo por una hibridez.

Palabras clave: psicologia; políticas públicas; asistencia social; actuación del psicólogo; análisis del discurso

Uma Entrada

Experiências

Era dado o prato servido com uma colher, porque garfo eles podiam se machucar ... acho que foi uma sexta-feira, ela resolveu fazer um dia de sanduíche natural: tomate, alface, frios, pão e cada um montando o seu sanduíche.

A cena descrita acima (todos os trechos em itálico foram retirados das transcrições dos grupos focais, bem como do encontro de restituição, que são o material de análise do presente artigo) foi composta com trechos das falas e reflexões das interlocutoras que compõem a primeira etapa da pesquisa “Psicologia e Políticas Públicas: Um estudo sobre as práticas psicológicas no contexto do Sistema Único de Assistência Social (SUAS)”, que buscou analisar como as práticas psicológicas têm se articulado com as diretrizes da Política Nacional de Assistência Social nos Centros de Referência em Assistência Social (CRAS) e nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), no que se refere à atenção integral às famílias e indivíduos. A cena ilustra parte das reflexões e dos tensionamentos que circunscrevem o campo em constituição das práticas psicológicas no SUAS.

As interlocutoras desta etapa são psicólogas que atuam no SUAS. Assim, chamá-las por interlocutoras caracteriza a primeira escolha metodológica anunciada: a fim de manter o sigilo, as interlocutoras aparecerão ao longo da escrita como produtoras, junto às pesquisadoras, das reflexões e dos tensionamentos que compõem o artigo, sem distinções que colem as falas aos sujeitos, como um convite a pensarmos a produção discursiva das práticas psicológicas no contexto da Assistência Social (AS) no Brasil.

Deve-se destacar que, no contexto brasileiro, a AS inscreve-se como um direito, instituído a partir da Constituição Federal de 1988. Entretanto, para Roberta Romagnoli (2012), o caminho para a implementação como política pública ainda se encontra em construção, visto que a AS se fundamentava no clientelismo, na concessão de benefícios e doações, na ausência de transparência das ações, bem como na falta de participação da sociedade.

Silva e Bonatti (2020) afirmam que, na tentativa de modificar tal panorama, no ano de 1993 foi criada a Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS) e, a partir dela, em consonância com a IV Conferência Nacional de Assistência, entrou em vigor no ano de 2005 o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), o qual ao ser implementado em todo território nacional, busca efetivar uma rede de proteção social e ações pautadas na prevenção e no desenvolvimento global das famílias e comunidades. O SUAS se organiza em dois níveis de proteção: a proteção social básica e a proteção social especializada, que se divide em média e alta complexidade. Em cada nível, todos os serviços devem contar com equipes de referência definidas pela Norma Operacional Básica de Recursos Humanos do Sistema Único de Assistência Social - NOB-RH/SUAS (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome [MDS], 2006), as quais incluem as/os psicólogas/os entre os profissionais.

Diante disso, cabe o interesse em investigar determinadas questões: O que faz a Psicologia no SUAS? Qual seu papel na AS? Qual a percepção das/os profissionais sobre os possíveis efeitos das práticas psicológicas? A partir disso, discutimos como as práticas psicológicas no âmbito da AS se constituem, contribuem e interrogam a própria política, na medida em que podem promover abertura ao outro e à escuta de outras possibilidades de vida.

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, caracterizada como pesquisa-intervenção, cujo percurso metodológico apoiou-se na Análise de Discurso, adotando uma postura de investigação pós-crítica, especialmente a partir das contribuições de Michel Foucault (1961/1997), mais especificamente em seus estudos sobre os modos de subjetivação. Nesse sentido, compreendemos, com o autor, as formas de subjetivação como práticas que se instituem no cotidiano, as quais forjam determinados modos de relação que as pessoas estabelecem consigo e umas com as outras, entendendo, com isso, o campo da Psicologia e da AS como um território de produção histórico. Portanto, acompanhamos Rocha (2003) quando diz que “a pesquisa-intervenção consiste em uma tendência das pesquisas participativas que busca investigar a vida de coletividades na sua diversidade qualitativa, assumindo uma intervenção de caráter socioanalítico” (p. 66).

Sendo assim, o texto se organiza da seguinte forma: em um primeiro momento, contextualizamos o entrelaçamento entre a Psicologia e as Políticas Públicas de AS; em seguida, trazemos alguns dados produzidos mediante a análise e a discussão dos grupos focais e do encontro de restituição, para pensar os efeitos das práticas psicológicas neste contexto e no campo da Psicologia; e para finalizar, discutimos os tensionamentos que produzem as práticas em tal articulação. Como um encontro de experiências, apostamos em composições que não servem pratos prontos, mas que, ao contrário, busquem ampliar as possibilidades do cotidiano das práticas psicológicas no SUAS.

Um Cenário: Psicologia e Políticas Públicas de Assistência Social

Florentino e Melo (2017) constatam que a atual Política de AS, edificada sobre as matrizes do SUAS, nos últimos anos, vem transformando e aprimorando seu modus operandi no que tange à garantia de direitos sociais. Tais transformações passam pelo esforço em profissionalizar a Política Nacional de Assistência Social (PNAS), de modo a ofertar ações, serviços e benefícios ancorados na concepção de direitos sociais. Conforme dispõe a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome [MDS], 2014), o CRAS, equipamento da Proteção Social Básica, visa à prevenção da ocorrência de situações de vulnerabilidade social e risco nos territórios. O CREAS, equipamento da Proteção Social Especial de Média Complexidade, visa ao trabalho social com as famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social por violação de direitos.

No que tange à Psicologia como área de conhecimento, alguns trabalhos apontam que tradicionalmente as intervenções psicológicas eram entendidas como aquelas que se ocupam do sujeito que sofre e que busca na interlocução com o profissional da Psicologia possibilidades de saber/resolver aquilo que o acomete (Silva & Carvalhaes, 2016). No contexto das políticas públicas sociais, se faz necessário o reconhecimento dos indivíduos e das famílias alvo da política como sujeitos de sua história, ou seja, agentes de transformação de seu modo de vida e também das comunidades em que transitam.

Dessa forma, há trabalhos que refletem as divergências de posicionamentos que, historicamente, demarcaram a construção da Psicologia como normalizadora e/ou resistente (Freitas, 2007; J. P. Macedo & Dimenstein, 2012). Pois, sinalizam que ao adentrar as políticas públicas as/os psicólogas/os deparam-se, com a complexidade e as sutilezas dos processos de desigualdade que se sustentam em torno de categorias de exclusão.

Nesse sentido, as práticas psicológicas na PNAS tornam-se lócus desta investigação, cujo eixo de problematização se liga à necessidade de produção do conhecimento no campo. Para tanto, nesse estudo, considera-se que as diferentes práticas humanas engendram objetos sempre diversos, uma vez que se toma como fio condutor da análise as relações entre sujeito e verdade, isto implica “um ceticismo sistemático em relação a todos os universais antropológicos” (Foucault, 1994/2004. p. 237), invertendo-se o procedimento filosófico de remeter a um sujeito constituinte e voltando-se para as práticas concretas pelas quais se constitui este sujeito.

Um Fazer: Práticas Psicológicas no Sistema Único de Assistência Social

No momento da realização do estudo, a Rede de AS do município onde foi realizada a pesquisa contava com dois CRAS e um CREAS. As interlocutoras foram psicólogas que atuam nesses serviços, as quais foram convidadas a participar voluntariamente da pesquisa. Após o esclarecimento dos procedimentos éticos e científicos, todas as interlocutoras autorizaram, por meio de assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, a sua participação. A partir daí foram realizados quatro grupos focais no período de novembro a dezembro do ano de 2020, sendo que estes aconteceram com o espaçamento médio de 15 dias entre um grupo e o outro, em cada um dos meses. Já o encontro de restituição ocorreu em encontro único no mês de janeiro do seguinte ano. Os cinco momentos mencionados ocorreram nas dependências da Universidade, com o tempo estimado em torno de 1h 30min de duração cada, e foram gravados e após transcritos para a análise.

Os temas geradores dos grupos focais foram: a PNAS e a inserção da Psicologia; as práticas psicológicas; os CRAS e seus serviços; o CREAS e seus serviços; as situações consideradas de vulnerabilidade social, ameaça e violação de direitos e temas pertinentes. Em relação aos procedimentos, estes eram semiestruturados, uma vez que em cada grupo eram apresentados os temas geradores e as interlocutoras, então, eram convidadas a contar e discutir sobre as suas experiências no grupo. Na referida rede, todas as profissionais eram concursadas e trabalhavam entre 2 e 7 anos na AS, o que oportunizou que no encontro de restituição fossem colocadas em análise as implicações e (sobre) implicações, desnaturalizando o lugar do/a psicólogo/a como especialista, e, com isso, rasurar o lugar instituído de objeto às interlocutoras do estudo, e, ao pesquisador/a, se possibilitou sair da posição de neutralidade instituída como científica, de modo que neste encontro fosse possível a construção de um saber local e coletivo sobre as práticas psicológicas no SUAS.

De acordo com Gregolin (2006) os discursos não devem ser tratados simplesmente como conteúdos, mas tomados em sua prática, na medida em que vão formando os objetos de que falam e os sujeitos que os proferem. Portanto, como nos ensina Foucault (1969/2008a), o discurso não se refere apenas ao que se diz, mas tem regras de funcionamento e de existência, produzindo o sujeito que o profere e que passa a ocupar um determinado lugar ao pronunciá-lo. Para este autor, os discursos podem ser tomados como anônimos na medida em que não têm origem nos sujeitos e em suas intencionalidades, mas vão determinando posições de sujeito e de compreensão de mundo, imbricadas por diferentes relações de poder-saber.

No que se refere aos modos de subjetivação, Foucault (1961/1997) nos indica que se tratam dos processos pelos quais nos tornamos sujeitos, através de diferentes tipos de saberes e técnicas que engendram tipos normativos de modos de ser. Assim, os modos de subjetivação são, também, tecnologias de governo dos indivíduos e das populações.

Tendo isso em vista, procuramos conduzir a análise tomando as transcrições dos grupos focais e do encontro de restituição, no entrelaçamento com os documentos norteadores das Políticas Públicas de AS, como o corpus discursivo da pesquisa. Destes encontros com as interlocutoras, que implicaram em encontros com a Psicologia, com os serviços de proteção social e com a própria PNAS, emergiram séries complexas de discussão, organizadas para e pela análise em três eixos, em que os tensionamentos aparecem em três imagens provocativas: os papéis de Escutador/a, Ajustador/a e Mediador/a. Os eixos são compostos por marcadores, como a formação, os impasses e a pergunta pelo fazer da Psicologia, que foram instituídos pelas próprias interlocutoras, durante a pesquisa.

A Formação

Ou, sobre como ir articulando o papel do psicólogo, já que estamos aprendendo juntos a consolidar essa política. Frente ao tema disparador sobre a PNAS e a inserção da Psicologia, todas as interlocutoras iniciaram contando de suas formações acadêmicas e a ausência do tema nas mesmas. De fato, embora a AS já apareça como lócus da prevenção e da proteção de direitos sociais na Constituição Federal de 1988, foi a partir do ano de 2005 que sua regulamentação e efetiva implementação foi possível no Brasil. Desde então, a formação em Psicologia vem sofrendo significativas mudanças, de modo a abarcar este que se tornou um grande campo de atuação para psicólogas/os em todo o país.

Em estudos publicados entre 2009 e 2020, é recorrente a afirmação de que a formação tradicional da Psicologia é percebida pelas/os profissionais como insuficiente para atuar no cotidiano dos serviços de proteção social (Cruz & Guareschi, 2009; O. J. V. Macêdo et al., 2015; Souza & Scorsolini-Comin, 2020). Como alertam Souza e Gonçalves (2017), a formação acadêmica pautada em uma perspectiva clínica, individualista e liberal, assim como a precariedade da formação, podem dificultar as possibilidades de fazeres comunitários e comprometidos com as diversas expressões da questão social. Os relatos corroboram que o entrelaçamento da Psicologia com as Políticas Públicas de Assistência é um desafio:

É uma política que está se consolidando e que a gente acabou pegando bem no início. Um processo no qual, ao longo dos anos, a gente já mudou muito, já melhorou muito. Mas a gente ainda vai para uma Política Pública da Assistência Social com aquele olhar da Psicologia Clínica.

Paira, portanto, diante da formação, a pergunta: Que fazer é esse que não é o da terapia, não é atendimento clínico? No encontro com as interlocutoras, a pergunta e a ideia de que a AS ainda é uma política que está se consolidando ecoa - embora a regulamentação da política já passe de 15 anos e a Psicologia tenha, desde este início, integrado os diferentes níveis de proteção.

Tal pergunta costuma ser comum nos debates sobre a Psicologia e o SUAS. Rodrigues e Guareschi (2019) enfatizam que “não importa o desdobramento da temática, há uma questão que sempre retorna: Qual é o papel da Psicologia na Assistência Social?” (p. 52). É possível que a permanência da pergunta se justifique pela complexidade na criação de respostas, que exigem sempre multiplicidades.

Na PNAS, as famílias, independentemente dos arranjos que as constituem, são o foco primordial de ação, devendo considerar sob quais condições materiais vivem e que estratégias criam para a sobrevivência, em um país como o Brasil, com profundas marcas de desigualdade social que se delineiam de diferentes formas nos territórios que o compõem. Tal como a família, a territorialização e a atuação intersetorial também aparecem como diretrizes da PNAS (Maheirie et al., 2020).

Diante disso, a formação que aparece, em um primeiro momento, enquanto um desafio para a atuação de profissionais da Psicologia junto ao SUAS, também aparece como possibilidade: “estamos precisando muito desses espaços.” As interlocutoras apontam a dificuldade de encontros para a qualificação do trabalho em rede e encontram na possibilidade de criar espaços de formação uma brecha: “um modo da gente construir esses espaços, e daqui a pouco até como formação, porque não se tem uma educação continuada. Talvez algo mais formalizado para que se consiga algo nesse sentido. E aí já temos uma justificativa também.” Em suas práticas, percebem que este compromisso que a Psicologia assume no campo da AS, só se faz possível pela reinvenção constante do fazer - pela desnaturalização do entregar o prato pronto. E que para isso são necessários espaços: “acho que o nosso desafio é de defender e conseguir manter algum tipo de espaço para trocas... é uma via importante para nos ajudar a pensar e ajudar até a achar as brechas.”

Impasses

Há (des)encontros entre as expressões da questão social e as demandas do Estado, que permeiam as práticas psicológicas no SUAS: “em relação ao CRAS eu fico pensando que estamos sempre um passo atrás ..., trabalhar com prevenções em um país com tanta desigualdade é muito difícil.” Em um serviço que é fundamentado na garantia e na prevenção à violação de direitos, o passo atrás se coloca no desencontro: “a gente já começa atendendo pessoas que não têm acesso a moradia, a alimentos, muitas vezes não têm nem acesso a água e luz e só nisso já se tem vários direitos violados que estão previstos na Constituição.” Tendo isso em vista, o campo das Políticas Públicas Sociais pode ser entendido como composto por dispositivos híbridos, pois como explica Oliveira (2012) ao mesmo tempo que buscam romper com os ciclos que geram a pobreza, não provocam alterações significativas nas condições de vida da sua população-alvo, as políticas públicas sociais como o SUAS, exigem portanto, não apenas um conhecimento da política ou das diretrizes que a organizam, mas também de aspectos que estão fora do escopo do que a Psicologia delimitou em seus campos de saber exigindo a criação de novos conhecimentos e uma mudança na cultura profissional.

Nestes impasses, o trabalho assume perspectivas que se aproximam e se afastam da lógica da proteção social. São muitas as demandas, “tem a demanda do judiciário, tem a demanda da saúde, a demanda da escola… aí tem que dar conta dos benefícios e como somos cobrados dos números, sobre quantos atendimentos fazemos, enfim, uma coisa de produtividade também.” A alta demanda, muitas vezes, como no caso do território da presente pesquisa, não condiz com as equipes disponíveis para o trabalho, o que faz com que situações assim ocorram: “no meu CRAS tem uma equipe menor que a mínima. No CREAS, o ideal seria 90 famílias, então a gente sabe que ultrapassa, estamos com 500 e poucas demandas, e digamos que 80% é do judiciário.” Por vezes, a alta demanda combinada com equipes reduzidas implica em uma hierarquização impossível dos casos a serem acompanhados, “é complicado. Tem os casos que vêm da rede que são tão graves quanto. E a gente vai correndo com esses prazos, daqui a pouco a gente vai responder por não responder.” As demandas dos judiciários têm prazo legal para serem respondidas pelos/as técnicos/as. Entre as práticas psicológicas para a proteção social muitas coisas se colocam:

É o sistema, a burocracia, o judiciário, a previdência social... a gente faz tudo, menos o que é nosso. No caso do município da pesquisa, por exemplo, tem dois CRAS para dar conta de uma população que deveria ter quatro1. Em outros termos, é um desmonte ..., cada vez é dado mais trabalho e não tem suporte.

Um tensionamento na própria organização da PNAS se coloca, “uma inversão: o Ministério Público pouco nos ajuda para garantir direitos e muito nos demanda.” Nesses desencontros, o trabalho parece perder força, “porque tem que dar conta de coisas ou receber no corpo e se sentir sozinha em alguns momentos, tendo que responder sem ter um apoio institucional.” O que gera nos serviços de proteção social é uma redução da potência tanto das práticas psicológicas, quanto da AS como um todo: “a gente cai nisso que é muito complicado, quando o CRAS vira avaliação de um direito e o CREAS vira os processos do judiciário.

Winter e Hillesheim (2019) alertavam para o agravamento da crise no país e para a ideia que se estabelecia em alguns setores da sociedade “de que a gestão da pobreza (e os problemas dela decorrentes) podem ser gerenciados apenas com boa vontade e solidariedade, em contraposição à noção de direitos sociais (que passa a ser vista como onerosa à sociedade como um todo)” (p. 132). O acirramento da crise veio, em seguida, com a pandemia de coronavírus2, que agravou as situações de precariedade em todo o país e uma força ainda maior no que diz respeito ao tensionamento entre a garantia de direitos e o assistencialismo, no âmbito da AS. De acordo com as interlocutoras, isso “a pandemia escancarou: ‘vamos distribuir comida’ e a gente ficou amarrado nisso.” No município pesquisado, pode-se observar este retorno à benesse: “na pandemia, a Assistência Social é só cesta básica, ligação para cesta básica. Tem avaliação na ligação, mas só reforça o assistencialismo.” Foram as técnicas, psicólogas e assistentes sociais que ficaram responsáveis por esta avaliação e pela definição das famílias que receberam ou não a cesta básica.

No país que durante a pandemia alcançou a marca de metade da população exposta a insegurança alimentar3, o jogo de forças que se traduz entre Cestas Básicas x Cozinhas Comunitárias, se fez presente: “no início da pandemia as cozinhas foram um pouco desarticuladas… elas nunca pararam, sempre seguiram e agora estão com um número maior de famílias utilizando, exatamente por essa questão de que não tá havendo cesta para todas essas famílias.”

Lasta e Krieger (2021), em estudo sobre as ações emergenciais no mesmo município ora pesquisado, constataram que a incidência da crise sanitária da Covid-19 acionou ações na AS municipal que se reduziram quase que exclusivamente à oferta de alimentação, tanto por meio das cozinhas comunitárias quanto pela concessão de cestas básicas. Porém, as autoras, ao trazerem dados comparativos entre os anos de 2019 e 2020, apontam que houve uma diminuição no número de refeições servidas nas cozinhas comunitárias e um aumento da oferta de cestas básicas no primeiro semestre de 2020.

Ao atentarmos para a oferta de alimentos - importante em um país historicamente e atualmente permeado pela fome, como o Brasil - percebemos também uma produção metafísica da fome, que produz práticas assistenciais, filantrópicas e benemerentes, interligadas as ações bondosas e caridosas à salvação, constituindo-a em um jogo discursivo que sustenta a manutenção da lógica da boa vontade de alguém. Desse modo, a vocação para ajudar ao próximo e a bondade no trato aos pobres configuram heranças do cristianismo que atravessam e se atualizam em práticas no presente (Lasta, 2015). Mesmo no âmbito da política pública os direitos básicos estão sempre em risco, e no caso da insegurança alimentar isso aparece: “é um direito o acesso à alimentação, mas está lá no nome como benefício eventual.”

Nesse sentido, parece-nos importante afastarmos do entendimento humanitário muitas vezes atribuído aos campos dos direitos humanos e das políticas públicas, para compreender qual “é o uso que se faz… que lugar é esse da Assistência Social, dos serviços da Assistência Social? Que uso que se faz disso? Pelas instituições...” Em um momento de crise sanitária, o CRAS: “ficou muito relacionado aos benefícios eventuais, o que indica um retrocesso na forma de organização em relação ao PAIF”4 ; enquanto no CREAS:” aumentaram as denúncias de casos com idosos, violência contra a mulher e abusos sexuais”.

Marques et al. (2019), ao mencionarem a Emenda Constitucional nº 95/2016, que trata do congelamento dos gastos públicos nos próximos 20 anos, alertam sobre o corte de investimentos nas áreas de Saúde, Educação e AS, de modo que “a diminuição dos investimentos significa não apenas um efeito em termos dos modos como as políticas públicas passarão a operar, mas um recrudescimento daquilo mesmo que torna essas políticas públicas necessárias: as desigualdades sociais” (p. 206). Diante do contexto, as práticas psicológicas no SUAS ganham contornos de resistência: “a nível de país, do que está acontecendo, dos cortes de direitos e da violência de Estado cada vez maior, o trabalho, então, parece um papel de resistência, né, vamos abrindo brechas.” Uma resistência ao próprio movimento do Estado de enfraquecimento das Políticas Públicas - um movimento perigoso e importante de ser considerado, no qual, por vezes, “o técnico é visto como inimigo. Eu acho que a lógica é essa.”

Os efeitos dessa desarticulação do coletivo produz determinados modos de gerir a AS, que a cada gestão municipal o nome da secretaria responsável pela AS no município estudado se modifica, e, muitas vezes, nem as palavras “Política Pública” ou “Assistência Social” constam no nome, “a saúde sempre foi saúde, né? E a Assistência Social está sempre no meio, parece sendo levada... Está cada vez mais difícil essa identificação do trabalho, esse limite, esse campo... Do que é... Tanto nas práticas, quanto no nome.”

Dito isso, encontrar as brechas para resistir que nossas interlocutoras anunciam nos parece se relacionar com o que Dimenstein (2013) fala sobre as práticas psicológicas, políticas públicas, a vida que emerge na adversidade e a necessidade de “desgrudar-se da fascinação pela proteção que políticas públicas prometem, aliar-se ao que não empobrece a capacidade da ação ..., são condições para o psicólogo produzir interferências nas linhas que vêm produzindo despotencialização e comodismo” (p. 10).

Parece-nos que são tais aberturas ao exercício de pensamento e a hospitalidade à diferença que se colocam como possibilidades à produção de conhecimentos heterogêneos que assumem uma forma que é provisória, mas que ao tempo disso tem funcionalidades e atendem à multidimensionalidade da vida e à singularidade dos problemas enfrentados no âmbito do SUAS, “acho que a gente tem que cobrar muito mais o Estado do que os sujeitos que a gente atende. Eu fico pensando um pouco nisso, desse fazer político da Psicologia.”

Que Fazer é Este?

É uma prática sobre a qual me questiono, talvez semanalmente... sobre a forma de atendimento que é possível de ser feita, com a forma de acompanhamento, com o que preza a legislação. Para construir as práticas psicológicas no âmbito do SUAS, o questionamento parece fundamental, do que a gente consegue colocar em prática, como que a gente articula com a Psicologia, como que a gente faz esse intermédio com os campos que nos demandam… um reinventar constante. Embora a obrigatoriedade da presença de psicólogos nas equipes de referência dos equipamentos da AS seja relativamente recente, o mesmo não pode ser dito sobre sua inserção no campo socioassistencial. Conforme Sanches e Silva (2019), somente a partir da implementação da PNAS e da posterior inclusão da Psicologia em sua execução que passaram a ser construídas normativas técnicas para a atuação psicológica nos equipamentos do SUAS.

Ao discorrerem sobre algumas normativas, os autores mostram como a inserção da Psicologia tem se dado paulatinamente, e se materializado num campo em que as bases técnicas e teóricas para a atuação das/os profissionais requerem um processo construtivo mediante o próprio fazer. Ficam algumas dúvidas: “às vezes, eu me perguntava o quanto que a minha prática não era muito semelhante ao Serviço Social, que é com quem a gente trabalha e muitas vezes atende em conjunto.”

Na organização da PNAS, as/os atuantes nos CRAS e CREAS são encarregadas/os de construir seu fazer com base na articulação entre os saberes formativos de sua profissão e a realidade vivenciada pelos sujeitos de cada território, cujas contingências não se esgotam nas circunstâncias previstas pela política e pelas orientações técnicas para os profissionais - psicólogas/os, assistentes sociais, advogados e outros - que atuam na AS (Sanches & Silva, 2019). Podemos considerar, portanto, que o campo da AS se constrói a partir da articulação entre distintos saberes e da atuação interdisciplinar, tal como preveem as normativas da política (Silva, 2018). Mais do que traçar uma linha que distingue claramente a atuação da Psicologia e do Serviço Social, necessitamos observar como as práticas das psicólogas se dão no cotidiano e o que se produz nessa articulação. Diferenças, desafios, impasses, resistências.

Nessa direção, as discussões nos grupos focais oferecem pistas, a partir da percepção compartilhada entre as interlocutoras, de que sua formação e estatuto profissional lhes conferem um olhar próprio para as demandas que emergem na comunidade, o que corresponde, de certo modo, à concepção de interdisciplinaridade. No decorrer do processo reflexivo, as interlocutoras teceram considerações sobre essa diferenciação, buscando defini-la através da noção de uma escuta orientada por uma determinada concepção de sujeito - aquele que é atravessado e, mais do que isso, engendrado pela realidade social.

Entretanto, no fazer, a escuta é complexa, pois denuncia as posições de sujeito nas quais são colocadas/os técnicas/os e usuárias/os da política de AS. Há, portanto, que se olhar para essa experiência:

Acho que no geral a escuta é central para nós da Psicologia e eu acho que é uma das coisas que mais falta pelo lugar que sempre colocaram esses sujeitos. E em tempos de crise, esta ausência ainda parece se acentuar, a gente estava falando da pandemia e acho que isso também ficou bastante evidente, porque a gente supôs o que eles precisavam, a gente ofereceu sem perguntar pra [sic] ninguém.

Diante da análise das práticas psicológicas no âmbito do SUAS, a escuta também funciona como motor para questionar a si mesma/o.

Escutar é o do psicólogo, mas que escuta é essa? Se a gente vai escutar para responder ao judiciário, é uma escuta. Se a gente vai escutar para avaliar cesta básica, é uma escuta. E todas são importantes, agora, se a gente vai escutar o desejo, é outra escuta. Talvez, o nosso desafio da Psicologia e do Serviço Social no SUAS é integrar isso. É integrar e não ver como separado.

Na pergunta sobre “como escutar?”, voltar à própria política pública pode ser um caminho: como escutar no cotidiano dos serviços da AS? “Bom, o serviço não funciona só na garantia de algumas seguranças, ... além disso nós estamos ali para trabalhar com as famílias, para evitar situações de violações de direitos, de violências, trabalhar as questões de vulnerabilidade social.” Um desafio, especialmente quando se percebe que no último ano isso ficou meio de lado. E como retomar?

No documento “Referências Técnicas para atuação da/o psicóloga/o no CRAS/SUAS”, está posto como orientação para o trabalho que a “atuação do psicólogo, como trabalhador da Assistência Social, tem como finalidade básica o fortalecimento dos usuários como sujeitos de direitos e o fortalecimento das políticas públicas” (Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas [CREPOP], 2008, p. 22). Entretanto, na dinâmica das práticas psicológicas, alguns tensionamentos se colocam: “às vezes, a gente parece um pouco executor de algo assim demandado. Então eu sempre tento, sei lá, falar o menos possível… são alguns modos de proteção, da família e nossa.” Das demandas impostas, direitos e controles aparecem juntos, “eu acho que tem muito disso de controlar a vida, tirar informação e tomar as decisões por outras pessoas.

Em outros exemplos: quem avalia a possibilidade ou não de acesso a direitos são as próprias técnicas, assistentes sociais e psicólogas ... durante a pandemia, com uma avaliação técnica, por telefone, que é algo impossível. E o acompanhamento se reduz a essa coisa de ficar investigando se a pessoa não está mentindo. O que se distancia enormemente da premissa do fortalecimento dos usuários como sujeitos de direitos, levando à reflexão de que: “ao mesmo tempo que a gente está para trabalhar a autonomia, a gente tem diversas questões que nos veem como certo tutelamento do sujeito.” Outra vez aparece na prática o risco: “às vezes, a gente cai no risco de fazer tutela aos nossos usuários.” Esse jogo entre direito, acesso e tutela compõe certa cartografia do vulnerável nos espaços da cidade, cuja figura vulnerável produz-se pela exclusão como pobreza e pela inclusão como assistencialismo.

A reflexão crítica sobre tal problemática evidencia um núcleo de resistência no fazer psicológico, que contribui para direcioná-lo a um caminho de novas construções, nas quais se abram espaço para a escuta da "vida como ela é" (Sanches & Silva, 2019, p. 606). Ou seja, a vida que não cabe em diagnósticos, que é núcleo de problemáticas que frequentemente transcendem as possibilidades de atenção ofertadas pelo Estado. Como fazer? “A gente brinca que eu demoro nos atendimentos, mas eu vou continuar. O meu jeito de lutar é um pouco este.”

Para Seguir

Ao longo de todos esses anos participando mais de algumas comissões dentro do Conselho de Psicologia, isso é uma pauta que sempre volta: Qual é a função do psicólogo dentro do SUAS? O retorno desta pauta parece articular-se com o que Hüninget al. (2018) alertam, que no “mundo real” da PNAS, há uma zona de encontros ou desencontros de dois mundos, da Psicologia que levanta problemas sobre determinadas realidades de vida e existência, mas cujas realidades de vida e existência também apontam problemas a um campo de saber constituído no distanciamento daqueles com quem vai trabalhar.

Desse modo, no encontro de restituição, que foi realizado na semana seguinte à finalização dos grupos focais, também na Universidade, retomamos os encontros com as interlocutoras da pesquisa, psicólogas que trabalham no contexto do SUAS, e suas partilhas durante os grupos, como experiências - movimentos capazes de produzir rachaduras. As brechas mencionadas, no que se pretende estável e imobilizante na própria política e nos arranjos dos serviços, constituem experiências potentes engendradas no cotidiano e em articulação com as diretrizes da PNAS, na perspectiva da garantia de direitos, ao mesmo tempo em que se mostram articuladas aos territórios de atuação, sempre singulares, no que se refere à proteção integral a famílias e indivíduos. Assim, naquilo que aparece sobre as práticas psicológicas, que apontam para a formação, os impasses que se colocam entre as expressões das demandas sociais e as demandas do Estado e um fazer marcado por uma escuta, que pode servir a muitos desejos, parece possível construir um entre, na abertura para a experiência, rompendo com assujeitamentos discursivos há muito instituídos no campo da AS. Diante disto, justifica-se a escolha metodológica pelo artigo indefinido: uma entrada, um cenário, um fazer: “as hecceidades que se exprimem nos artigos e pronomes indefinidos, mas não indeterminados, em nomes próprios que não designam pessoas, mas marcam acontecimentos, em verbos infinitivos que não são indiferenciados, mas constituem devires ou processos” (Deleuze & Parnet, 1980/1998, p. 108). Isto também significa que não estamos em busca de produzir uma grande verdade de todas as práticas psicológicas, ao contrário, a aposta pelos dados qualitativos implica justamente em uma análise das nuances e das possibilidades e impossibilidades.

Em nossa leitura, há três imagens possíveis que emergem da análise das reflexões e dos tensionamentos possibilitados pela pergunta sobre as práticas psicológicas no âmbito do SUAS: ajustador/a, mediador/a e escutador/a. São três imagens que provocam a pensar a experiência e a urgência em não fixar em uma ou outra: como ajustar as distâncias entre a formação e o SUAS ou entre as normativas do trabalho e os usuários, sem ser apenas um/a ajustador/a? Como mediar as demandas do Estado e das expressões das questões do social sem ser apenas um/a mediador/a? Como ser um/a escutador/a cuja escuta opere na proteção e na garantia de direitos? Ajusta-dor. Media-dor. Escuta-dor. Como trabalhar com a dor para além da sua manutenção?

A partir dessa perspectiva, entre os papéis de ajustador/a, mediador/a e escutador/a, é que se busca encontrar brechas para uma contraconduta “no sentido de luta contra os procedimentos postos em prática para conduzir os outros” (Foucault, 1978/2008b). Trata-se de expandir os espaços em que se fixam esses três lugares ocupados pela Psicologia, buscando as suas zonas de abertura: aquelas que se distanciam suficientemente de um e outro ponto para escapar de sua captura. Para seguir, a Psicologia precisa estar alinhada ao SUAS, na perspectiva da garantia de direitos, que tensionem as práticas caridosas e mantenedoras, provocando torções que apontem e fortaleçam as práticas assistenciais e de distribuição de renda, fazendo frente, pela resistência, aos movimentos que ceifam as políticas públicas de AS. Para seguir, a Psicologia parece precisar estar atenta e não se filiar aos discursos salvacionistas. Acionar a potência das funções ajustadora, mediadora e escutadora e, simultaneamente, passear em busca das brechas traduz-se num exercício ético-político cotidiano; para, nas brechas, atuar por microcondutas que desviem das forças de assujeitamento que emanam do Estado, propondo, em seu lugar, práticas menos totalizantes e homogeneizadoras.

Referências

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Notas

11. A NOB-SUAS, de 2005, preconiza o mínimo de quatro CRAS para municípios de grande porte, com 5000 famílias referenciadas para cada CRAS.

22. No cenário da Pandemia de Covid-19, atingimos em nosso país a marca de mais de 700 mil óbitos confirmados por coronavírus, entre março de 2020 e julho de 2023. Assim, entendemos que não podemos dissociar o contexto desta pesquisa no âmbito do SUAS do cenário macropolítico referente à Covid-19 e seus efeitos no Brasil e no mundo, no que tange a impactos biomédicos, epidemiológicos e sociais, incluindo o agravamento das desigualdades. Recuperado de: https://covid.saude.gov.br/

33. Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o alastramento da fome em nosso país liga-se ao impacto da pandemia, mas também ao esvaziamento de programas voltados ao estímulo à agricultura familiar e ao combate à fome. Recuperado de https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57530224

44. O Serviço de Atenção Integral à Família (PAIF), desenvolvido nos CRAS, tem como objetivo apoiar as famílias, prevenindo a ruptura de laços, promovendo o acesso a direitos e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida.

Recebido: 23 de Dezembro de 2022; Revisado: 07 de Julho de 2023; Aceito: 23 de Agosto de 2023

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