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Temas em Psicologia

versão impressa ISSN 1413-389X

Temas psicol. v.1 n.3 Ribeirão Preto dez. 1993

 

A interação social e o desenvolvimento humano

 

 

Maria Salete Fábio Aranha1

Universidade Estadual Paulista - Bauru

 

 

Trabalhando com o estudo da interação e do desenvolvimento de relações sociais há algum tempo, sentimos necessidade de, olhando retrospectivamente, analisar as leituras que têm norteado a busca de conhecimento acerca desse fenômeno. Parece-nos importante a localização, a identificação e a análise das tendências teóricas e dos procedimentos metodológicos que têm caracterizado essa investigação, na tentativa de iniciar um processo de sistematização do conhecimento já produzido, bem como de detectar direções para pesquisas futuras.

Pretendia-se realizar um trabalho extenso de revisão da literatura visando atender às necessidades acima expostas. Entretanto, limitações em condições objetivas (vasta quantidade de trabalhos, dificuldade de acesso a muitos deles, questão de limitação de tempo) impediram o alcance da meta inicialmente assumida. Desta forma, a análise que aqui vamos expor restringiu-se a uma amostra mais restrita de publicações, embora algumas delas sejam revisões muito boas e razoavelmente abrangentes de material produzido em determinados períodos cronológicos. Embora permaneça a idéia e a proposta de sistematizar o conhecimento já produzido sobre o tema em questão, estaremos nos atendo à apresentação das principais tendências teóricas e metodológicas assumidas até o presente momento.

No estudo sobre o desenvolvimento humano, a interação social tem ocupado diferentes espaços, dependendo da função a ela atribuída por diferentes abordagens teóricas.

O interesse pela questão das relações sociais interpessoais surgiu ainda no século XIX, época em que se iniciaram o questionamento e a reflexão sobre os efeitos dos grupos sociais no comportamento humano. Entre 1830 e 1930, pode-se constatar uma produção muito rica e variada de idéias, cujos eixos comuns eram: 1. a pressuposição de que as experiências de grupo encontram-se entre os mais importantes determinantes da natureza humana e 2. a de que os fenômenos sociais são passíveis de investigação científica. Além disso, já se apontava, desde essa época, que "a experiência social - não somente com adultos, mas também com coetâneos - é de importância central para a ontogênese em muitas espécies" (Hartup, 1983, p. 104).

Na realidade, a preocupação maior parecia ser a de buscar conhecimento sobre a natureza humana, com ênfase nos efeitos do grupo sobre o comportamento humano, do que propriamente nos efeitos da interação social. Pressupunha-se que a identificação de características comuns encontradas nos indivíduos em diferentes grupos e em diferentes contextos levaria ao conhecimento da natureza humana.

Apesar da riqueza das idéias expostas, estas tinham um caráter mais especulativo, não tendo favorecido a construção de uma base empírica consistente, dado que a coleta de dados não era sistemática, quando analisada a partir dos parâmetros atualmente exigidos para a investigação científica.

Na década de 30, acirrou-se o debate acerca da validade de se estudar o papel do grupo social, discutindo-se conceitos produzidos tanto pela Psicologia Social, como pela Psicanálise (tais como o de "realidade" do fenômeno social, o de inconsciente coletivo, o de self especular, entre outros). Concomitantemente, constata-se um maior investimento no desenvolvimento de métodos de investigação do comportamento social. Foi nessa época que se iniciou o desenvolvimento de técnicas de observação do comportamento de indivíduos em grupo. Estudos sobre o "clima social" de grupos de crianças fortaleceram os esforços de criação de técnicas experimentais para a investigação dos efeitos da manipulação de diferentes variáveis. Um outro avanço metodológico foi representado pelo desenvolvimento de instrumentos sociométricos.

Com o advento da 2a Guerra Mundial, os estudos sobre a interação social praticamente desapareceram da literatura, tendo voltado a aparecer, após seu término, mostrando um interesse especial pela teoria neo-freudiana e pela teoria de aprendizagem social do desenvolvimento da personalidade, enfatizando a relação pais-filhos (Hartup, 1983).

Na década de 60, relativamente pouca pesquisa foi feita sobre as relações interpessoais, no que se refere à sua emergência, ou às mudanças que nela ocorrem no decorrer do tempo. Cabe lembrar que grande parte da produção científica nesse período abordava, sim, a interação, mas com o objetivo de identificar os eventos determinantes do estabelecimento, da manutenção e da mudança do comportamento do indivíduo.

No que se refere ao aspecto metodológico, muitas das técnicas de que dispomos hoje para a investigação científica foram desenvolvidas nesse período, tanto para a observação e descrição do comportamento humano, como para as intervenções experimentais.

A década de 70 mostrou-se surpreendentemente rica para o estudo da interação, tanto no que se refere à quantidade de trabalhos publicados, como, principalmente, no que se refere a propostas teóricas acerca de sua natureza e função, vindo a oferecer, assim, novas direções estimuladoras e provocativas para a pesquisa.

A primeira grande tendência encontrada caracteriza-se pela investigação dos efeitos da interação no comportamento social dós indivíduos, enfatizando o indivíduo, em sua aquisição de competências sociais, ou o ambiente, em suas influências na determinação do desenvolvimento. Encontram-se aqui:

1. Os trabalhos fundamentados na teoria social da aprendizagem, dando continuidade à investigação e demonstração dos efeitos do reforçamento e da punição, bem como de diferentes estratégias de instalação e modificação do comportamento. Nesta linha de pesquisa, o aspecto fundamental reside na busca de conhecimento sobre como se dá a determinação mútua do comportamento, dentro do contexto interativo, avançando mais recentemente na consideração de aspectos cognitivos da aprendizagem social - representados pela atenção às mudanças observadas no significado das contingências, em função do desenvolvimento.

2. Os trabalhos fundamentados em variações da teoria de sistema, mais freqüentes na investigação das relações familiares. Nesta linha de pesquisa, as interações foram ora concebidas em termos de relações de poder e de troca, ora como contexto de processos adaptativos que permitem manter o equilíbrio do sistema.

É interessante lembrar que neste período, a produção científica referente tanto ao contexto familiar, como ao contexto escolar começa a apontar a necessidade urgente de se olhar para a interação como processo. Críticas ao estudo da família enquanto sistema de troca e de poder desviaram a atenção dos investigadores da "preocupação com resultados da interação, para esforços em delinear o processo interativo propriamento dito" (Aldous, 1977, p. 14). Tais esforços passaram a buscar informação acerca da qualidade da interação familiar, das percepções mútuas entre membros da família e das relações afetivas e de compromisso entre os membros da família. (Maccoby and Martin, 1983). Da mesma forma, os estudos desenvolvidos no contexto escolar passaram a mudar, de "estudos lineares e atomísticos da influência do professor sobre o aluno, para o estudo de processos mais complexos, interacionais e sistêmicos" (Minuchin e Shapiro, em Carmichael, 1983, p. 230). No tocante à investigação da interação no contexto das parcerias entre iguais, principalmente criança-criança, os esforços, desde o início já se caracterizaram pela busca de descrição da interação e se seus efeitos, bem como sobre o significado de relações especiais (a de amizade, por exemplo).

Segundo Hartup (1983), as tendências de pesquisa encontradas a partir da década de 70 eram:

1. Desenvolvimento de estudos descritivos, incluindo a população de bebês, anteriormente ignorada.

2. Desenvolvimento de novas técnicas em registro de observação e síntese de dados (análise seqüencial), para a identificação de mudanças comportamentais ocorridas como conseqüência da interação com outras crianças.

3. Estudo do significado de relações específicas (ex., de amizade) e desenvolvimento de padrões comportamentais nas interações de amizade, a partir da observação direta.

4. Investigação de estruturas grupais, especialmente de grupos de crianças pequenas.

5. Desenvolvimento de novas estratégias para melhorar as habilidades sociais.

Esse movimento ganha em sistematização e clareza, vindo a constituir a segunda grande tendência. Nela, a interação passa a ser vista enquanto processo complexo que tem propriedades próprias e peculiares, qualitativamente diferentes das dos seus componentes mais simples. Além disso, nesta tendência, a interação passa a ser vista como via de formação de relações sociais, produto considerado "como um sistema comportamental de imensa significância adaptativa para os seres humanos." (Schaffer, 1984, p. 4).

Bowlby (1969), em sua teoria do apego, olha para a parceria mãe-criança como uma unidade que se estabelece bidirecionalmente e na qual ambos os parceiros permanecem em uma relação recíproca contínua, em todos os estágios do desenvolvimento da criança. "A ênfase dada por Bowlby na adaptabilidade mútua da mãe e do bebê destacou a necessidade de se examinar o desenvolvimento social em termos do que acontece entre pessoas e não somente dentro dos indivíduos tratados como unidades isoladas." (Schaffer, 1984, p. 4).

Hinde(1976,1979,1981) presta enorme contribuição ao refletir questões teóricas e metodológicas acerca do estudo da interação enquanto unidade de construção das relações sociais.

Partindo do pressuposto de que as relações cotidianas aparentemente triviais têm um efeito cumulativo no desenvolvimento e na caracterização dos indivíduos, Hinde aponta que estas têm sido o ponto de encontro entre diferentes disciplinas, embora não seja central em nenhuma delas. "Qualquer pessoa que examine a literatura sobre relações interpessoais não pode deixar de se espantar com a diversidade de abordagens teóricas e metodológicas usadas em seu estudo, e pela ausência de tentativas de integrá-las. Acredito que a falta de integração nesta área das ciências sociais reside, em parte, na ausência de uma base descritiva. Se quisermos progredir na compreensão das relações, ou se quisermos especificar as condições necessárias para o desenvolvimento de um tipo de relação ao invés de outro, devemos, com certeza, começar com uma abordagem descritiva." (Hinde, 1976, p. 1).

Segundo Hinde (1976, 1979, 1981), interação é um episódio onde 4 faz x para B e B faz y para A. Ele aponta para o fato de que a delimitação deste episódio, no caso da investigação científica, é arbitrária, dependendo dos aspectos que se pretende conhecer. Entretanto, considerando que a natureza da interação depende da influência atomizada de cada um dos parceiros, faz-se importante, ao descrevê-la, referir-se tanto ao seu conteúdo, como à sua qualidade. Já a relação é um fenômeno que envolve algum tipo de interação intermitente entre duas pessoas, envolvendo intercâmbios durante um período relativamente extenso de tempo. Aponta ainda que existe algum grau de continuidade entre as interações sucessivas, de forma que cada interação é afetada pelas interações passadas e podem afetar as interações no futuro. Da mesma forma, a percepção que cada parceiro tem das interações passadas e/ou como imagina ou se predispõe para interações futuras, podem afetar o curso da relação. Ou seja, para compreender uma relação precisa-se conhecer também os aspectos afetivos/cognitivos envolvidos, reconhecendo que estes, além dos comportamentais estão intimamente interligados. Sugere, a partir destas reflexões, que para descrever a relação aborde-se tanto o conteúdo, como a qualidade e o padrão das interações entre os parceiros. Lembra, ainda, que mesmo as interações diádicas ocorrem em um contexto social poliádico, palco da trama de relações que afeta cada interação em particular e todas as interações, influenciando-as e por elas sendo influenciado.

Schaffer, Collis e Parsons (citados por Maccoby e Martin, 1983) afirmam que o conceito de diálogo é essencial para a compreensão das interações, sugerindo que duas aquisições na 1- infância são vitais para a habilidade da criança em participar de diálogos: reciprocidade e intencionalidade. Da mesma forma que outros autores, Gottman e Rausch (citados por Maccoby e Martin, 1983) têm comparado a interação entre mãe-bebê a uma dança ou diálogo comportamental, nos quais as ações sucessivas dos parceiros se encontram intimamente coordenadas. A coordenação pode tomar a forma de contingenciamento mútuo ou de sincronia, ou pode ainda ser recíproca em um sentido mais restrito: ações qualitativamente combinadas, como no caso da imitação ou do sorriso mútuo. Bakeman e Brown (citados por Maccoby e Martin, 1983) sugeriram que todas estas ações, bem como outras, podem ser consideradas atos comunicativos e que podem ser mais significativas para rastrear o diálogo que para procurar as trocas de ações semelhantes.

Mais recentemente, Schaffer (1984), investigando o processo do desenvolvimento infantil, tece considerações que vêm se somar às demais, acima expostas, apontando que:

- o desenvolvimento da criança recém-nascida é um empreendimento conjunto entre a criança e o adulto que dela cuida. Da mesma forma, à medida que ela vai crescendo, aumenta o número e a diversidade de pessoas com quem ela interage. Consequentemente, qualquer estudo sobre o progresso da criança deve se preocupar tanto com o papel do adulto, quanto com o da criança;

- o progresso no seu desenvolvimento não é uma questão de acréscimos quantitativos, mas sim de reorganizações seqüenciais que periodicamente ocorrem na vida mental da criança;

- tais transições são iniciadas pela programação inerente à criança (determinação biológica). Cada nível alcançado, entretanto, estipula conjuntos de tarefas desenvolvimentais que devem ser realizadas pela criança e pelo adulto, para que ela possa completar essa fase e progredir para a próxima transição. Ou seja, reorganizações na criança determinam mudanças no comportamento do adulto interagente, favorecendo assim, novas experiências interativas e conseqüentes novas reorganizações;

- como a criança se desenvolve em um contexto social, são as interações e as relações com as pessoas e sistemas sociais que têm um papel crucial para suas aquisições e para a construção de funções psicológicas cada vez mais sofisticadas;

- para examinar, portanto, o desenvolvimento social da criança, deve-se estudar o que acontece entre pessoas, e não somente o que acontece com os indivíduos, tomados como unidades isoladas.

Além de redirecionar o foco de análise, apontando a interação social, bem como a relação social interpessoal como sistemas que só poderão ser apreendidos em sua bidirecionalidade, uma outra grande contribuição desta tendência reside na enfática demonstração da necessidade de se envidar esforços para a construção de uma Ciência das Relações Interpessoais, enquanto um conjunto sistematizado de conhecimentos. Somente a descrição das relações, a categorização e classificação de suas propriedades é que possibilitarão a identificação de princípios explicativos referentes à sua dinâmica, favorecendo a formulação de previsões. "A complexidade e diversidade das relações entre pessoas é tanta, que um pluralismo teórico parece inevitável no momento (...) Pode-se (entretanto) afastar o perigo do ecletismo se houver a tentativa de, primeiro, especificar onde cada abordagem é útil e, então, buscar formas de relacionar os conceitos explicativos de um grupo e de outro, para identificar duplicações e, talvez, agrupar princípios em um pilar central comum." (Hinde, 1979).

Isto posto, passar-se-á à apresentação da terceira grande tendência constatada na literatura acerca do estudo da interação social, representada pela leitura sócio-construtivista do desenvolvimento humano.

Esta tendência, conquanto se assemelhe à anterior em algumas proposições - particularmente no que se refere à leitura do desenvolvimento das relações sociais enquanto processo, do contínuo movimento dialético de influência entre os parceiros interativos, e à pressuposição do efeito cumulativo das interações no desenvolvimento cognitivo, bem como no desenvolvimento das relações interpessoais dos sujeitos - torna-se absolutamente peculiar e inovadora, ao defender o plano interativo como o contexto em que se dá a construção, por um lado, da subjetividade humana e, por outro, da própria história da humanidade.

Tem, entre seus principais representantes, os psicólogos da antiga União Soviética, dos quais Vygotsky e Leontiev são os mais conhecidos atualmente.

Pode-se constatar na Psicologia soviética dois momentos históricos mais marcantes: a década de 20 e o período iniciado na década de 70.

Segundo Valsiner (1988), eram dois os principais temas de investigação na década de 20: 1. as relações sociais das crianças e 2. os princípios do estabelecimento, da manutenção e da dissipação de grupos sociais infantis. Além destes, outros tópicos foram ativamente estudados nesse período:

- o estudo sobre os efeitos da classe social das crianças, bem como seu ambiente de origem - rural ou urbano - no desenvolvimento de relações interpessoais e no desenvolvimento psicológico;

- o estudo sobre a natureza da visão de mundo e da compreensão da sociedade e de suas instituições, pela criança;

- o estudo sobre a natureza da visão de religiosidade pela criança;

- o estudo sobre o desenvolvimento das relações da criança com o trabalho, em diferentes condições ambientais.

Tendo sido extintas, por decreto, a existência de classes sociais e a religião, tais questões deixaram de ser investigadas, tendo sido interrompida uma interessante direção de pesquisa.

A partir da década de 70, duas linhas de abordagem ao estudo da interação têm estado presentes na Psicologia soviética:

1. a primeira, enraizada nos trabalhos de Bekhterev e de Lomov, utiliza-se principalmente de metodologia experimental para determinar de que formas a interação entre pessoas (relação sujeito-sujeito) afeta seu desempenho individual em tarefas de resolução de problemas (com o objetivo de provar que a interação, enquanto condição para o trabalho individual, pode facilitar seu desempenho individual). Esta linha não se preocupa em identificar como a interação funciona enquanto influencia as ações dos indivíduos.

2. a segunda, enraizada no trabalho de Vygotsky e de Leontiev, tem se caracterizado mais por estudos descritivos que experimentais e, em linhas gerais, defende que:

a. o desenvolvimento humano é um processo contínuo de aquisições quantitativas e de transformações qualitativas que se dão no sujeito psicológico, a partir de suas experiências no contexto das relações sociais;

b. "a estrutura humana complexa é o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social" (Vygotsky, 1984, p. 33);

c. tal ligação se dá no contexto interativo, plano que permite a apreensão pelo indivíduo, tanto das propriedades estruturais dos objetos materiais e ideais, como de seu significado e função social;

d. a interação homem-ambiente será sempre mediada pelo uso de instrumento, como pelo uso dos sistemas de signos "criados pelas sociedades ao longo do curso da história humana, mudando a forma social e o nível de seu desenvolvimento cultural" (Vygotsky, 1984, p. 8);

e. a internalização dos sistemas de signos produzidos culturalmente provoca transformações comportamentais e estabelece um elo de ligação entre as formas iniciais e as mais avançadas do desenvolvimento individual;

f. as funções psicológicas que emergem e se consolidam no plano intersubjetivo (ação entre sujeitos) tornam-se internalizadas, transformando-se para constituir o funcionamento interno do indivíduo (plano intra-subjetivo) (Góes, 1991);

g. o plano intra-subjetivo, não sendo, desta forma, meramente uma cópia do plano externo, se caracteriza pela síntese elaborada pelo sujeito, a partir "das estratégias e conhecimentos já dominados pelo sujeito e de ocorrências no contexto interativo" (Góes, 1991, p. 18);

h. ao interagir, é a subjetividade construída socialmente que se manifesta, "modificando ativamente a situação estimuladora como uma parte do processo de resposta a ela" (Vygotsky, 1984, p. 15);

i. desta forma, temos um sujeito que não é passivamente moldado pelo meio, nem realiza suas aquisições assentado em recursos exclusivamente individuais, mas sim um sujeito interativo que se constrói socialmente, ao mesmo tempo que participa ativamente da construção do social.

Embora tenhamos nos restringido à apresentação das idéias de Vygotsky e Leontiev, cabe ressaltar que a natureza social do desenvolvimento das funções psicológicas da criança constitui a base axiomática da maior parte da produção da Psicologia infantil soviética.

Podem-se citar, ainda, os trabalhos de Basov, que diferem dos de Vygotsky, ao aceitar o estudo da interação enquanto fenômeno complexo a partir de suas partes componentes, "de forma que a síntese da qualidade do todo possa ser observada no curso do acompanhamento das relações estabelecidas entre os componentes do sistema". A atomização do sistema é não só aceita por Basov, como vista como necessária, caso se pretenda compreender "como uma nova estimulação externa se integra à estrutura de estímulos internos já existentes" (Valsiner, 1988, p. 178). Em sua investigação, Basov se utiliza tanto de métodos de observação, quanto de entrevista "clínica" (questionamento explícito da criança enquanto esta desempenha tarefas propostas), visando dar conta da unidade retrospectiva por ele apontada tanto na intro como na extrospecção.

Posterior à produção de Vygotsky e de Basov, cujos trabalhos se desenvolveram na década de 20, surge o trabalho de Lisina, já na década de 70, dedicado à investigação do papel da interação social nas vidas de crianças institucionalizadas. Sua maior contribuição foi a de enriquecer com procedimentos descritivos a base de conhecimento acerca das interações iniciais da criança.

Em síntese, o material aqui revisto, ainda que não extensivamente comentado, permite algumas considerações:

- o interesse acerca do estudo da interação social é antigo na Psicologia; entretanto, ainda não se dispõe de um conjunto sistematizado de conhecimento, configurado por uma boa base descritiva, e por princípios e leis explicativas que possam nortear a pesquisa, em termos do que importa, quando importa e como importa;

- as tendências constatadas na abordagem do fenômeno reproduzem as encontradas na própria Psicologia, na busca de conhecimento sobre o homem, seu objeto de estudo;

- inicialmente voltada para a busca de compreensão acerca da natureza do homem, caminha da visão positivista para uma visão sistêmica e histórica ("o comportamento só pode ser entendido como a história do comportamento" (Vygotsky, 1984, p. 9);

- metodologicamente, como conseqüência da mudança dos pressupostos teóricos adotados, movimenta-se da utilização de métodos sociométricos para descrições lineares, de causa-efeito e, mais recentemente, para a utilização de descrições e análises seqüenciais.

Conquanto as propostas teóricas atualmente adotadas sejam extremamente provocativas e mais abrangentes, encontramo-nos ainda muito distantes da compreensão de como a interação funciona enquanto afeta as ações dos indivíduos. Faz-se necessário sistematizar o conhecimento já produzido a respeito dos efeitos da interação (aspecto mais investigado nas diferentes tendências), enquanto permanece como instigação para a pesquisa, a busca de conhecimento acerca de como se dá esse processo.

 

Referências Bibliográficas

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Bowlby, J. (1969) Attachment and Loss. New York: Basic Books. Vol. 1 (Attachment).

Góes, M.C. (1991) A natureza social do desenvolvimento psicológico. Cadernos Cedes - Pensamento e Linguagem, 24, 17-24.

Hartup, W.W. (1983) Peer relations. Em P. Mussen e J. Carmichael (Eds.). Handbook of Child Psychology. New York: John Willey and Sons.

Hinde, R.A. (1976) On describing relationships. Journal of Child Psychology, 17, 1-19.

Hinde, R.A. (1979) Towards Understanding Relationships. New York: Academic Press Inc.

Hinde, R.A. (1981) The bases of a science of interpersonal relationships. Em S. Duck e R. Gilmour (Eds.). Personal Relationships 1: Studying Personal Relationships. New York: Academic Press Inc.

Maccoby, E. e Martin, J.A. (1983) Socialization in the context of the family: parent-child interaction. Em P. Mussen e J. Carmichael (Eds.). Handbook of Child Psychology. New York: John Willey and Sons.

Minuchin, P.P. e Shapiro, E.K. (1983) The school as a context for social development. Em P. Mussen e J. Charmichael, (Eds.). Handbook o Child Psychology. New York: John Willey and Sons.

Schaffer, H.R. (1984) The Childs Entry into a Social World. London: Academic Press Inc.

Valsiner, J. (1988) Developmental Psychology in the Soviet Union. London: The Harvester Press Limited.

Vygotsky, L.S. (1984) A Formação Social da Mente. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

 

 

(1) Departamento de Psicologia.