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Revista da ABOP

versão impressa ISSN 1414-8889

Rev. ABOP v.2 n.2 Porto Alegre  1998

 

 

O papel do orientador profissional: orientando para as novas relações de trabalho

 

 

Marilu Diez Lisboa5

Instituto do Ser

 

 

Primeiramente, gostaria de agradecer pela oportunidade de estar presente nesta Mesa Redonda, por razões que afetivamente, ligadas a pessoas aqui presentes, são muito fortes. Juntamente com estas, razões profissionais igualmente se constituem como afetivamente fortes, uma vez que o tema Orientação Profissional faz parte do meu fazer. Em todos esses anos de trabalho, a O.P. vem tornando-se para mim cada vez mais valorizada em virtude, principalmente,  dos caminhos e descaminhos pelos quais passa a organização do trabalho em nossos dias e, consequentemente, as relações dos seres humanos com e através dele. Tratar-se do III Simpósio Brasileiro de Orientação Vocacional/Ocupacional, sendo o II da ABOP, constitui-se em outro motivo para o meu agradecimento de estar nesta Mesa Redonda, pois me sinto parte desta história e  é extremamente gratificante vivenciar a tragetória da ABOP como representativa do primeiro e único movimento na área de O.P. no Brasil, movimento que vem se constituindo numa construção cuidadosa, criteriosa e séria, em todos os sentidos, propulsora das trocas científicas e de experiências de profissionais em nosso país e junto a outros da América Latina, América do Norte, e Europa, mais que agradecer, gostaria de parabenizar, de público, o trabalho realizado pela segunda diretoria da Associação Brasileira de Orientadores Profissionais, presidida pela professora Maria Célia Lassance.

Ao refletir sobre o tema Orientação Profissional como recurso facilitador no momento da escolha de uma ocupação ou, ainda, a re-escolha para alguns, um longo percurso fui seguindo, permitindo-me perambular por caminhos por vezes lineares, por vezes tortuosos, mas sempre procurando percorrê-los perseguindo um compromisso com as verdades: as minhas próprias, as da sociedade de nosso  tempo, as  dos  chamados  avanços  dessa  sociedade, as  da  posição  do trabalho dentro dela, as verdades referentes às consequências do trabalho para os seres humanos tal como está organizado, as do sistema capitalista consumista que rege o sentido que o trabalho toma para as pessoas e, especialmente, as verdades que, quem sabe, possam nos levar a reflexões e, porque não, a ações coerentes com o que possam ser valores ligados à humanização e à hominização.

Sabe-se que a forma de organização do trabalho - tomando-o  como parte de um sistema econômico - determina relações particulares ou específicas, que privilegiam os objetivos daquele sistema. Isto é, as relações somente podem ser estabelecidas passando pelas pessoas, constituindo-se em relações com o fazer, com o objeto do trabalho, com os instrumentos de  trabalho e com as demais pessoas que dele participam ou que fazem parte da sociedade onde ele se insere, ao mesmo tempo que a constrói. Vale dizer que acredito que exista um fundamento, uma intenção, uma logicidade que rege esta organização e as relações daí advindas.

Partindo-se deste princípio, cabe analisar inicialmente que sistema econômico temos à nossa disposição, que organização do trabalho se estabelece a partir dele e que relações temos postas em consonância com este sistema, isto é, cabe contextualizar.

Como um primeiro ponto, proponho pensarmos que, desde que se constituiu como tal, o sistema capitalista tem como objetivo principal o que, correntemente, chamamos de lucro. Marx nos mostra, no primeiro volume de O Capital, como os processos de produção na sociedade capitalista se transformam sob o ímpeto de sua força norteadora principal, a acumulação do capital. Tomando análise feita por Braverman (1980), a obra O Capital foi concluída por Marx em 1860 e, com o passar dos anos, esta dinâmica - da acumulação do capital - foi tornando-se mais e mais poderosa que as manifestações que o próprio Marx testemunhou e na qual baseou sua análise crítica do modo de produção capitalista. Assim, temos confirmado e vivenciado a constatação de Marx e outros marxistas.

Como um segundo ponto para a contextualização proposta, temos que analisar a posição do nosso país dentro desse sistema econômico, frente aos demais países que dele participam, quase a totalidade dos que compõem o nosso planeta. O Brasil tem se posicionado, juntamente com a maioria dos países da América Latina, como de terceiro mundo, ou seja, onde a relação capital/trabalho privilegia basicamente uma elite dominante, em termos do público e do privado, em detrimento de uma massa populacional que se ressente das condições básicas de vida e sobrevivência: saúde, saneamento  básico,   habitação, educação, transporte e outros ítens que poderiam e não são, ou são assumidos em proporções mínimas e, porque não dizer, vergonhosas, pelo poder público e não o são pela iniciativa privada. Pode-se afirmar que qualquer iniciativa no sentido de melhoria de condições de vida da população, no que tange ao bem estar social, não passa de panacéias que, pôr si só, perduram por um tempo determinado até que não sirvam mais aos interesses de alguém que as criou, geralmente com intenções eleitoreiras, e desaparecem no vazio deixando muito poucas conseqüências.

Um terceiro ponto que me parece de suma importância no exercício da contextualização proposta, é o fato do Brasil ser um país onde existem diferentes posturas para diferentes classes sociais, quando se fala em justiça. Hoje vivemos um tempo em que os maiores crimes se dão a partir das classes dominantes. Enquanto as pessoas de classe média, no Brasil, correm o risco de serem  sequestradas, mortas, violentadas, entre tantas outras atrocidades que são compartilhadas todos os dias através da imprensa ou mesmo com relação a pessoas próximas, grande parte da população brasileira está sendo cultivada, de certa forma, para ser agente dessas atrocidades, enquanto uma elite que alimenta a barbárie não paga impostos, utiliza o dinheiro público em benefício próprio e conta com lideranças que preferem empregar o capital nacional em benefício da manutenção de bancos e banqueiros, em detrimento das áreas básicas anteriormente citadas: saúde, saneamento básico, educação, habitação e transporte. Assim, não há justiça e, onde ela não existe instaura-se a barbárie, a anarquia, o caos, ficando também prejudicado o exercício da democracia.

Talvez os colegas estejam se perguntando, ou gostariam de me perguntar, “onde você está pretendendo chegar, quando estamos aqui para falar de Orientação Profissional, de escolha de um trabalho que possa satisfazer nossos orientandos, jovens ou adultos?”

Convido-os a continuarmos refletindo para que, se possível juntos, possamos buscar a construção da O.P. dentro do quadro econômico/político/social que hoje se nos apresenta, do qual fazemos parte e não podemos nos distanciar, nos alienar ou ignorar, nem mesmo que o queiramos. Pois se somos Orientadores Profissionais, somos dos primeiros que necessitam estar participando conscientemente do que se constitui o mundo do trabalho em nosso país. E o mundo do trabalho se insere, necessariamente, na sociedade como um todo, sendo por ela determinado ao mesmo tempo em que a constrói. Além disso, ele se constitui de  pessoas comprometidas com diferentes ideologias que determinam diferentes posturas e ações.

Historicamente, a Orientação Profissional no Brasil  é uma área que se utiliza de várias abordagens, ligadas a educação e a clínica psicológica. Trata-se de uma  forma de facillitação da escolha de um dos grandes pilares da vida das pessoas - o trabalho - aquele que poderá garantir o seu sustento, a sua satisfação, o exercício de suas capacidades, uma boa auto-estima, reconhecimento pela sociedade, o orgulho de ser quem é; ou, ao contrário, aquele que representará a sua frustração, o seu empobrecimento pessoal e material, a baixa da sua auto-estima, a vergonha de ser quem é. Quão importante se faz essa área do conhecimento. Quão útil e imprescindível ela se torna, principalmente na medida em que tantas transformações se dão, cada vez mais rapidamente e de maior alcance, neste mundo que chega ao terceiro milênio. Todos concordamos com isso, seguramente. No entanto, gostaria de propôr  três perguntas,  aquelas  que  me  faço todos os dias, como Orientadora, como pessoa, como estudiosa e comprometida com esta área.

A primeira é: a quem estamos conseguindo atingir com o trabalho de Orientação Profissional?

A segunda é: que caminhos estão buscando essas pessoas que procuramos atingir com o trabalho de Orientação Profissional? Refiro-me aqui ao grau de consciência dessas pessoas,  não somente sobre si mesmas mas quanto ao percurso que farão, tendo consciência de que não poderão desvincular-se de uma realidade social que se lhes é apresentada ao mesmo tempo em que a estão construindo.

E a terceira é se estamos nós, como Orientadores Profissionais, contribuindo, e em que medida, com os orientandos, na busca desses caminhos? Ou seja, ajudando-os a perceber que esses não estão postos, ou são determinados, mas que são pressupostos e passíveis de construção, de transformações; e que há uma necessidade de que essas transformações se dêem no sentido de que a sociedade se constitua como mais humana. Explicitando: qual está sendo o papel do Orientador Profissional, representado pelo trabalho nessa área frente ao novo cenário do mundo do trabalho tal como ele vem se construindo.

A primeira pergunta não me parece difícil de responder. Estamos cada vez mais procurando ampliar o campo da Orientação Profissional, tanto em pesquisa como em práticas, deixando de atingir somente jovens que em alguma medida podem escolher sua futura profissão, geralmente passando por um curso universitário. Estamos cada vez mais trabalhando com populações mais carentes, com orientação de adultos, com orientação vinculada à reabilitação, com orientação para a aposentadoria, entre outras populações. No entanto, muito ainda temos por avançar. E este avanço não me parece estar somente vinculado a quem orientar, mas, principalmente, para que e como orientar. Uma vez que orientamos para algo, temos uma realidade a considerar. (Ou a palavra exata não seria orientação?) E considerando a realidade social em que estamos inseridos, me parece que entre os primeiros passos para a realização de um processo válido de orientação, seja para quem for, é estudar profundamente essa realidade. Concordo que não se torna fácil sermos sujeitos e observadores de uma mesma realidade. Nossa possibilidade de ler mais objetivamente o mundo que nos cerca e do qual fazemos parte fica impregnada por nossos desejos, emoções, por nossa sensibilidade. Razão e sensibilidade são fatores que se complementam mas nem sempre convivem bem aprioristicamente. No entanto, se não considerarmos a importância da análise da realidade dentro do nosso papel  de  orientadores  e,  mais  do  que  isto,  um  papel ativo que ajude nossos orientandos para que também a façam, muito de nosso trabalho poderá estar perdido. Quando me refiro a uma análise, estou querendo dizer um trabalho de reflexão que poderá gerar ações, numa realidade concreta, onde, citando Paulo Freire (1988), poderá ser constituído e exercido um compromisso do profissional com o meio social no sentido da humanização e da hominização. Um compromisso com a ética em favor do ser humano, sendo esta entendida como um caminho para a humanização. Se o homem não trabalhar pela humanidade e para ela, ele não estará trabalhando nem mesmo para si e muito menos em prol dos demais. E o que se tem constatado é que, há muito, essa perspectiva vem se perdendo. E, mais do que isto, estamos vivendo um momento de mudanças qualitativas onde, em nome de processos econômico/sócio/políticos, configura-se uma evolução em avanços tecnológicos sem que, absolutamente, se considere o lugar do ser humano como parte da sociedade. Utilizando a tese do “Neolítico Moral”, de Gianetti da Fonseca (1994), vemos que o próprio progresso material está diretamente proporcional ao declínio moral ou a erosão da ética na sociedade.

A segunda pergunta: que caminhos estão buscando as pessoas que procuramos atingir com a Orientação Profissional? Refere-se não somente ao grau de consciência sobre si e seus desejos, mas também à consciência de que não se faz possível desvincular-se de uma realidade social que lhes é apresentada ao mesmo tempo em que a estão construindo. Insisto na pergunta: que caminhos? Ou será que embora busquem, não estão plenamente conscientes da importância do seu  papel como cidadãos/estudantes/trabalhadores/profissionais -empregados ou liberais, na construção e a transformação da sociedade a qual pertencem.

Trabalhando com jovens e adultos, na convivência através de processos de Orientação Profissional ou em discussões de grupo em outros fóruns de trabalho junto a profissionais, constato, cada vez mais, a carência deste tipo de consciência. As pessoas, de um modo geral, diria que quase absolutamente, não têm noção do seu papel social. Não sabem, não pensam e, o que é mais grave, procuram se furtar a pensar que sua conduta pode ser, sim, determinante para a construção social. Procuram se furtar à preocupação com o coletivo para se engajar numa busca de benefícios próprios. Se perguntarmos a um jovem que está escolhendo uma profissão futura o que o motiva a fazê-lo no sentido desta ou daquela escolha, ele nos responderá, como regra, que busca o seu  bem  estar e o de  sua  família através da possibilidade de ter conforto, ter bens materiais e garantias de um futuro seguro, somente. Não encontraremos, quase que em grau absoluto, respostas ligadas a uma consciência da possibilidade do exercício do trabalho estar vinculado, também, a um compromisso com a construção e a transformação da sociedade em que está inserido. O mesmo também constatamos ao trabalharmos com adultos. Mesmo no exercício de profissões e/ou funções profissionais, as pessoas estão distanciadas do que seja a consciência da sua possibilidade ou efetividade de contribuição social através do fazer profissional. Assim, além da sociedade como um todo perder com isso, a própria pessoa deixa de viver uma importante parte de sua própria vida enquanto papel a desempenhar, com todas as consequências daí advindas. Isto é, deixa de viver o bem estar do que chamo de “pertencer participando”. Pertencer participando é um alimento à auto-estima, à crença em si mesmo, ao exercício de capacidades, ao reconhecimento de capacidades, ao orgulho de ser quem é.

Vivemos em nosso país um momento em que raramente as pessoas mostram uma crença em si mesmas, no seu papel, nas suas possibilidades de construir socialmente. As posturas são predominantemente de alienação, ou seja, parece haver um hiato entre o ser individual e o coletivo. Isto é extremamente preocupante principalmente porque, sabemos, sociedades não se constroem sem o compromisso de seus membros, sem o exercício de cidadania, sem engajamento ou visão do todo, e  frente as mudanças no cenário do mundo do trabalho, corre-se o risco de ser, mais uma vez, meramente reprodutores de modelo onde a pessoa perde importância como ser criativo, autor de sua e da história de seu tempo.

Nossas origens no colonialismo, com conseqüentes modelos patrimonialistas e paternalistas de lideranças, produzindo formas de governo ditatoriais ou populistas, explica muito de nossa postura como indivíduos inseridos numa sociedade (não cidadãos). Mas, ao mesmo tempo, não justifica a permanência e a reprodução dessa conduta. Caso assim aconteça, aprioristicamente estaremos fracassando como sociedade no novo contexto econômico que vem se apresentando no mundo.

Seguindo esta linha de raciocínio, coloca-se a terceira pergunta: estamos nós, Orientadores Profissionais, contribuindo, e em que medida, com os orientandos na busca de novos caminhos? Aqueles referentes à consciência da realidade social como se apresenta e, também, como construção coletiva e constante? No momento, como regra e consciência de grupo, contemplando a identidade de Orientador Profissional hoje, eu diria que não. Existe ainda, como papel de Orientador Profissional, um exercício junto aos orientandos restrito à busca individual. Esse trabalho se faz muito mais no sentido de uma tomada de consciência de si do que propriamente de um todo maior que se constitui em composições de si e do mundo; de si no mundo; de si fazendo o mundo.

Frente ao novo mundo do trabalho seria interessante que nos posicionássemos de forma qualitativamente diferente do que temos feito até então. Não somente como Orientadores Profissionais mas, antes de tudo, como seres no mundo em todos os âmbitos da ação humana. Não há mais lugar para posturas de individualismo, acomodação, segurança através de demandas externas. Pertencer hoje, no sentido mais amplo e profundo da palavra, significa, necessariamente, desalienar-se. Desalienar-se significa não ser reprodutor somente, mas ser criativo; não ver somente a parte, mas ver o todo; não olhar para si somente, mas olhar para o outro; não ver-se somente em si, mas ver-se no outro; não fazer para si somente, mas fazer também para o outro; é solidarizar-se; é abrir-se para o mundo, abrir-se para o outro; é compartilhar; é interessar-se; é interagir.

Somos brasileiros, um povo de terceiro mundo. Somos colonizados, portanto tendemos à submissão. Queremos imitar, tendemos a imitar, manipulados por uma elite que luta pelos seus interesses. Já dizia Marx, as elites se unem, independentemente de sua nacionalidade. Necessitamos melhores condições humanas para nossa população. Necessitamos justiça para todos, não justiça de classe. Necessitamos educação, saúde, trabalho, participação. Necessitamos cidadania.  Se tivermos todas essas condições estaremos prontos a colocar-nos no novo mundo do trabalho que se nos apresenta. Se não tivermos, ou no mínimo providenciando em sua construção, não teremos condições de nos beneficiarmos, como população - não estou falando de minorias.

Nós, Orientadores Profissionais de hoje somos responsáveis pelo percurso a ser seguido no que tange ao mundo do trabalho e, conseqüentemente, ao futuro de nosso país. Nosso fórum de ação propicia honrar o compromisso com o este futuro. Estamos em desvantagem frente a outras nações, frente às mudanças que se acumulam. Mais responsabilidade temos. Não basta orientar uma pessoa para a descoberta de si. Precisamos fazê-lo com o olho no mundo. Com consciência nos construiremos nesse sentido. Consciência e muito trabalho, muita busca de união, de troca, de compartilhamento. Consciência e ética dirigida ao nosso compromisso com os nossos Orientandos/seres sociais/brasileiros. Consciência, reflexão e ação. Consciência e pesquisa.

Convido-os a que pensemos juntos nisso. Quantos devem estar preocupados! Conto com a ABOP como instituição propiciadora do engajamento  nesse compromisso. A ABOP que somos nós. A ABOP que estamos construindo ao mesmo tempo que nos constrói. Aproveitemos nossas possibilidades de relações ao máximo, nossas relações de trabalho sempre imbricadas por nossas relações afetivas. Temos uma causa que, ao que parece, é bem maior do que a ponta do iceberg que aparece.

Isto é o que tinha a dizer nesse momento. Ao final debateremos.

Muito obrigada.

 

 

5 Psicóloga do Instituto do Ser - Psicologia e Psicopedagogia. Professora coordenadora do Curso de Formação em Orientação Profissional: a facilitação da escolha.