SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.3 número1A formação do orientador profissional na UFMG: o reinício de um percursoEstágio profissionalizante em orientação profissional: a visão de alguns psicólogos-estagiários (II) índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Revista da ABOP

versão impressa ISSN 1414-8889

Rev. ABOP v.3 n.1 Porto Alegre jun. 1999

 

 

Estágio profissionalizante em orientação profissional: Experiência de supervisão em um curso de psicologia (I)

 

 

Lucy Leal Melo-Silva16

Universidade de São Paulo - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - Departamento de Psicologia e Educação

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Pretende-se neste estudo descrever o funcionamento de um estágio profissionalizante na área da Orientação Profissional, oferecido em um curso de Psicologia de uma Universidade Pública. O principal interesse do estudo centra-se na formação e qualificação do psicólogo/orientador. São descritos os objetivos do estágio, o funcionamento do serviço de extensão universitária, o treinamento do estagiário, o processo de orientação profissional e o desenvolvimento da supervisão de estágio. As reflexões apresentadas foram elaboradas a partir da experiência de supervisão. Nas considerações finais, destaca-se a relevância de estudos que possam enfrentar os novos desafios colocados para a orientação profissional.

Palavras-chave: Formação do orientador profissional, Formação do psicólogo, Estágio profissionalizante, Extensão universitária em orientação profissional.


ABSTRACT

The aim of this study was to describe how the professional training offered by a public University Psychology course behaves in the Occupational Orientation area. Its main interest was centered in the formation and qualification of psychologists/supervisors. The professional training objectives, the university extension service performance, the professionals training, the occupational orientation process and the development of training supervision are described. The author’s reflections resulted from experiencing supervision. In the final considerations, the relevance of studies which can face new challenges concerning professional orientation are outlined.

Keywords: Professional supervisors formation, Psychologists formation, Occupational training, Extension in occupational orientation.


 

 

A orientação profissional/vocacional é uma das atribuições do psicólogo prevista na legislação que regulamenta o exercício da profissão (art. 4º, Lei 4.119, 27/08/62); é um campo de atividade no qual o psicólogo pode contribuir com uma intervenção de natureza psicoprofilática, como apontou Bleger (apud Bohoslavsky, 1991), ou de promoção de saúde, como destacaram Bock e Aguiar (1995). Para Bohoslavsky (1991) a orientação vocacional é um campo de atividade de cientistas sociais que inclui o psicólogo, o pedagogo, o sociólogo, o professor secundário, entre outros. Neste campo, entretanto, algumas atividades são específicas na atuação do psicólogo, ou seja, o "diagnóstico e solução de problemas que os indivíduos têm em relação a seu futuro, como estudantes e profissionais, no sistema econômico da sociedade a que pertencem" (1991, p. 28).

Este estudo pretende tratar destas atividades específicas do psicólogo, ou seja, descrever a formação do orientador profissional na perspectiva da Psicologia, de uma docente em um curso de Psicologia e supervisora do estágio profissionalizante em orientação profissional dentro de uma Universidade Pública.

A partir de nossa experiência com a formação do psicólogo/orientador profissional sugerimos que a ABOP desencadeasse um processo de reflexão sobre a formação do orientador profissional. A idéia germinou, apresentando como resultado a mesa-redonda sobre formação em orientação profissional, realizada no I Encontro de Professores de Orientação Profissional, que ocorreu em setembro de 1998 na cidade de Florianópolis. Em decorrência do interesse dos integrantes da ABOP foi proposta como desafio aos orientadores profissionais a sistematização de suas experiências, a explicitação de seus questionamentos e propostas, culminando com a publicação desta revista.

Necessário se faz indagar, cada vez mais, como está sendo formado o orientador, em quais cursos de graduação e pós-graduação, com quais conteúdos, referenciais teóricos e técnicos. Pode-se ainda perguntar qual o lugar da orientação profissional nos currículos de Psicologia e Pedagogia - cursos que oferecem esta disciplina em nosso país- na história acadêmica dos estudantes universitários, nas escolas de 1º e 2º graus e na sociedade como um todo. Questiona-se o prestígio da orientação profissional na atualidade, enquanto área do conhecimento teórico e aplicado.

Sabe-se que, em 1949, a Organização Internacional do Trabalho - OIT, fórum privilegiado de relações de trabalho em todo o mundo, adotou a Recomendação (87) sobre a orientação profissional (BRASIL / SINESP, 1994). Na legislação brasileira esta atividade está assegurada através de leis que regulamentam tanto a profissão do psicólogo, conforme mencionado anteriormente, como a profissão do orientador educacional (decreto nº 72.846/73). Embora estabelecido em leis, o serviço de orientação profissional continua não sendo oferecido nas escolas, sobretudo nas públicas (Bruns, 1992). Quanto às escolas particulares, estas têm oferecido, predominantemente, atividades relacionadas às informações sobre as carreiras e sobre o vestibular ou exame seletivo para ingresso na universidade.

A orientação profissional tem sido pouco privilegiada na prática do psicólogo e, como decorrência, também os estudos, as pesquisas, as propostas de intervenção e as avaliações nesta área foram pouco estimulados dentro de um passado recente.

Quanto à motivação do aluno de graduação em Psicologia, há indicadores de que as disciplinas da área clínica despertam maior interesse do que as de orientação profissional, provavelmente devido ao interesse do aluno em se especializar naquela área, objetivando atuar em consultórios particulares, como apontou a pesquisa do CRP-06/SEADE (1995). Além disso, a orientação profissional parece menos prestigiada entre os alunos em formação, em decorrência de sua vinculação com a área da educação, a despeito das práticas desta área ocorrerem inclusive em consultórios e clínicas-escola, fundamentadas na estratégia clínica de Bohoslavsky (1991).

Em tempos de mudanças significativas no mundo do trabalho, a orientação profissional é chamada a intervir e propor soluções para os conflitos que afligem estudantes e trabalhadores. Tornou-se extremamente relevante avaliar o desenvolvimento da orientação profissional. Neste sentido, a análise deste estudo compreende tanto a formação e qualificação do orientador, como a prática instituída no serviço.

A Orientação Profissional, no âmbito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras - FFCLRP, vem sendo desenvolvida pelo Serviço de Orientação Profissional- SOP, na Clínica Psicológica do Centro de Psicologia Aplicada - CPA, através de estagiários do 9º e 10º semestre do curso de Psicologia, sob a supervisão da docente responsável pela disciplina obrigatória "Orientação Profissional I" (90 horas), a disciplina-estágio optativa "Orientação Profissional II (90 horas) e o estágio oferecido através do CPA, com duração variável dependendo de plano previamente aprovado pelo conselho do referido órgão. O estágio é entendido como uma prática realizada na clínica-escola da Faculdade e em instituições da comunidade "através da execução de tarefas pertinentes à ocupação ou função que o indivíduo exerce ou irá exercer, sob supervisão e orientação específica” (BRASIL/Ministério do Trabalho, 1981, p.24). Entende-se, portanto, que a profissão aqui ensinada é a de psicólogo e a ocupação é a de orientador profissional, que pode ser generalizada para atuações em outros contextos como o de trabalho em grupo, por exemplo.

Neste estágio existe uma preocupação permanente em realizar avaliações sobre o serviço de extensão universitária, tendo em vista criar intervenções criativas, conhecer e realizar pesquisas na área. Busca-se incentivar a autonomia profissional do estagiário, estimulando-o: a tomar decisões durante os atendimentos; a manter-se atualizado sobre as mudanças no mundo do trabalho e a desenvolver sua identidade profissional. Discussões éticas perpassam todas as fases do estágios, sejam relacionadas com os clientes , com os colegas e supervisores, sejam concernentes ao uso de dados sobre os atendimentos.

Pesquisas vêm sendo realizadas, nesta instituição, sobre: os serviços oferecidos à comunidade (Melo-Silva e Dias, 1996, 1997); o perfil do usuário do SOP (Santos, Melo-Silva e Junta, 1997); a resolutividade do atendimento no SOP (Melo-Silva, Santos e Junta, 1997); o uso do BBT- teste de fotos de profissões - método projetivo para a verificação da inclinação profissional (Melo-Silva e Jacquemin, 1995, 1997; Melo-Silva e Santos, 1998); e sobre a identidade profissional do psicólogo/orientador (Melo-Silva e Reis, 1997). Tais estudos objetivam a articulação entre ensino, pesquisa e extensão, tripé da universidade.

A fim de realizar reflexões sobre a prática desenvolvida no SOP, é necessário informar sobre os objetivos do estágio, o funcionamento do serviço, o treinamento do estagiário, o processo de orientação profissional e o desenvolvimento da supervisão de estágio profissionalizante.

As informações aqui sistematizadas foram realizadas a partir de registros de supervisão feitos pela docente, de relatórios de estágios dos alunos em formação. A análise dessas informações será qualitativa.

 

Os objetivos do estágio

O estágio é realizado tendo em vista o desenvolvimento do aluno, em uma situação real de intervenção, onde ele possa vivenciar o papel de psicólogo/orientador, treinando o seu saber psicológico, experimentando a utilização de instrumentos e técnicas próprias da orientação profissional, aprendendo a lidar com os medos básicos envolvidos nas relações interpessoais e a refletir criticamente sobre a realidade social, política e econômica do país e do mundo.

Conduz-se a supervisão com os objetivos descritos no Quadro 1, como constam nos planos de estágio de cada aluno.

Quadro 1 - Objetivos gerais e específicos do estágio de orientação profissional

 

1. Gerais:

- Possibilitar a prática de Orientação Profissional contribuindo para uma aprendizagem de teorias e técnicas.

- Estimular a definição de uma postura profissional no campo da Orientação Profissional.

- Prestar um serviço especializado à comunidade.

2. Específicos:

2.1. De formação teórica:

­ Possibilitar ao estagiário a identificação de fatores socioeconômicos que influenciam na escolha e colocação profissional.

- Capacitar o estagiário a estabelecer diagnóstico diferencial entre situações que caracterizam orientabilidade do cliente e as que exigem encaminhamento para outros atendimentos.

2.2. De formação prática:

- Capacitar o estagiário na realização de práticas que promovam o desenvolvimento de um projeto profissional da clientela atendida.

- Possibilitar reflexões sobre as condições nas quais se realizam “escolhas” ocupacionais.

- Realizar intervenções que possam contribuir para a clarificação de inclinações profissionais da clientela e para a compreensão da dinâmica do mundo do trabalho.

2.3. De formação ética:

- Estimular o desenvolvimento de atitudes psicológicas que considerem os seguintes aspectos éticos: a relação com a clientela atendida; o arquivo da documentação; a relação com equipe de supervisão; os preceitos de ética profissional.

- Intervir incorporando à tarefa de orientação profissional uma dimensão ética que considere o homem sujeito de suas escolhas.

 

A disciplina obrigatória Orientação Profissional I, de natureza fundamentalmente teórica, cumpre os objetivos da educação para o trabalho, enquanto o estágio, de natureza prática, possibilita a educação pelo trabalho (Melo-Silva e Dias, 1996), sendo esta a concepção, básica para o desenvolvimento da formação profissional, cujos conceitos serão explicitados a seguir.

A educação para o trabalho consiste no processo onde o educando primeiro aprende, por meio do ensino comumente ministrado, para depois trabalhar. A educação visa a formação do profissional, do técnico, do trabalhador. “No ensino superior, nas escolas técnicas de segundo grau e mesmo no Sistema Nacional de Mão-de-Obra, predomina a noção de educação para o trabalho” (BRASIL/UNICEF, 1988, p.13).

A educação pelo trabalho objetiva conduzir o educando na aprendizagem durante o processo produtivo de trabalho, com toda sua complexidade. A educação pelo trabalho visa formar o cidadão trabalhador. Aqui produzir e formar coabitam, mas não em relação de igualdade, porque o produtivo fica subordinado ao formativo. A produção é importante porque deve ser encarada em toda a sua complexidade e dinamismo, mas a formação é considerada mais importante “porque visa principalmente a conseguir que o educando fique capacitado de fato e preparado para compreender e enfrentar o mundo do trabalho” (BRASIL / UNICEF, 1988, p.13).

Em síntese, o objetivo geral deste estágio é capacitar o psicólogo-estagiário no desempenho da função de orientador profissional ou coordenador de grupo, em diversos contextos, tendo em vista a compreensão da dinâmica da escolha profissional e da complexidade do mundo do trabalho.

 

O serviço de orientação profissional

O serviço funciona nas instalações físicas da clínica–escola da Faculdade que administra as inscrições dos candidatos aos atendimentos psicológicos. Pessoas acima de 14 anos podem se inscrever no serviço de orientação profissional, ocasião em que recebem um impresso para ser assinado pelo usuário e um de seus responsáveis - quando com idade inferior a 18 anos. Este documento dá ciência do atendimento a ser realizado e os signatários nele autorizam a eventual utilização dos dados para a realização de pesquisas, cujos resultados poderão ser divulgados e utilizados em aulas, preservando-se o sigilo sobre a identidade do orientado.

As inscrições ficam abertas durante todo o ano, sendo maior a procura entre os meses de fevereiro e abril. A divulgação da existência de vagas no serviço, quando há necessidade, ocorre apenas em escolas da rede pública, visando propiciar o acesso dos alunos da rede pública ao serviço de extensão universitária.

O usuário, seguindo a ordem de inscrição, é chamado para uma entrevista de triagem realizada individualmente pelo estagiário, objetivando investigar os motivos da consulta, as expectativas sobre o atendimento, os dados pessoais, familiares, escolares, de trabalho e de saúde, incluindo antecedentes de atendimento psicológico. O serviço é apresentado ao candidato explicitando-se o funcionamento, a duração e as modalidades de atendimento, os instrumentos e técnicas utilizados. Concluída a entrevista, o estagiário faz as anotações necessárias, registra se é situação de orientabilidade, conceito este empregado por Bohoslavsky (1991) e faz sua indicação para orientação profissional individual ou em grupo, modalidade que dispõe de maior número de vagas. Quando necessário, procede-se ao encaminhamento de casos para psicodiagnóstico e/ou psicoterapia na própria clínica-escola ou na comunidade.

Existe articulação adequada entre o SOP e os serviços de triagem de adolescentes e adultos, o de atendimento psicoterápico e o de psicodiagnóstico, sob a supervisão de outros docentes, para a definição de algumas propostas de encaminhamento. As indicações são finalizadas em comum acordo com o candidato, considerando suas possibilidades e disponibilidades. Quando há indicação para a psicoterapia, mas o candidato afirma ainda desejar fazer a orientação profissional, tal solicitação é respeitada. Neste caso, ele é atendido em orientação profissional individual, focalizando-se mais o autoconhecimento, e as estratégias de intervenção são planejadas tendo em vista a sensibilização para a realização de uma psicoterapia.

A aprendizagem do estagiário tem, portanto, início na realização das triagens, ocasião em que é treinado a realizar entrevista clínica, a diferenciar necessidades de orientação profissional, de psicoterapia, ou psicodiagnóstico, para maiores esclarecimentos sobre a dinâmica do candidato ao serviço. Neste serviço a escuta do orientador é da perspectiva psicológica, tendo em vista observar e diagnosticar ainda as possibilidades de intervenção em grupo.

São atendidos individualmente aqueles usuários que não dispõem de horário compatível com o dos grupos ou apresentam uma dinâmica de funcionamento com dificuldades para participação do processo em grupo. Nesta modalidade também são atendidos os que já iniciaram um ou alguns cursos universitários, os que estão na faixa etária acima da média dos adolescentes inscritos (15 a 19 anos) e aqueles que trabalham e relatam queixas de insatisfação no emprego ou estão desempregados. Ainda são atendidos individualmente pessoas que apresentam, como ponto central em sua busca por Orientação Profissional, questões relativas à necessidade de preparar-se para as mudanças no mundo do trabalho.

 

O desenvolvimento do estagiário

O requisito para a inscrição do aluno no estágio é ter cursado a disciplina obrigatória "Orientação Profissional I", oferecida no 8º semestre do curso de Psicologia, e estar devidamente inscrito no CPA da Faculdade. O aluno candidata-se ao estágio e participa do processo de seleção e do treinamento para Coordenador de Comunicação Grupal, com referencial teórico e técnico de Pichón-Rivière (1994; 1995) para grupos operativos.

O aluno inicia o estágio realizando as entrevistas de triagem, como apresentadas anteriormente. As supervisões, nesta fase, centram-se nas triagens, onde o estagiário expõe suas dúvidas, seus questionamentos e participa ativamente na organização dos grupos de adolescentes, nas definições sobre os atendimentos individuais e na convocação dos usuários para o início do processo. Para a realização do atendimento em grupo, os alunos são convidados a constituírem duplas em condições de complementaridade para o trabalho. Cada estagiário assume um atendimento individual e um grupo, objetivando o treino profissional nas duas modalidades.

As supervisões são realizadas em grupo, numa periodicidade semanal, objetivando o acompanhamento na formação teórica, prática e ética.

Nas supervisões dos atendimentos individuais, cada estagiário é estimulado a levantar hipóteses, a pensar sobre a estratégia de intervenção necessária para o seu orientado, a planejar e avaliar as sessões de atendimento, incluindo o encerramento e separação do cliente. Como as supervisões são em grupo, os colegas colaboram nas reflexões e avaliações, tornando este espaço privilegiado para a aprendizagem do grupo de estagiários.

As supervisões dos atendimentos em grupo visam a facilitar o treino da dupla de estagiários nas funções de coordenador e observador. A dupla é estimulada a planejar e avaliar cada encontro, a estar atenta aos emergentes grupais e desta forma decidir, em comum acordo com a supervisora, o disparador temático de cada sessão. Na supervisão trabalha-se incentivando a articulação dos conteúdos das demais disciplinas realizadas na graduação e estimulam-se as reflexões para intervenções em grupo com outras populações e situações.

Durante as supervisões do estágio são, também, realizadas reflexões sobre o papel do psicólogo/orientador profissional e o desenvolvimento de sua identidade profissional, condição essencial para sua aprendizagem prática.

Com o compromisso de ampliar as atividades de atendimento à comunidade, realiza-se um projeto de extensão universitária contando com a atuação de psicólogos que desejam aperfeiçoar-se em orientação profissional. Estes profissionais participam das atividades de estágio, enriquecendo o processo de formação profissional com suas experiências e questionamentos.

 

O processo de orientação profissional

O processo de orientação profissional, tanto individual como em grupo, é realizado com um número médio de 10 a 12 sessões. O atendimento em grupo ocorre semanalmente, em encontros de duas horas, com cerca de 10 a 15 integrantes. O individual pode ser realizado em uma ou duas sessões semanais, com a duração de 50 minutos. Intervenções com número menor de encontros também são realizadas para atender demandas específicas de grupos de alunos que trabalham no período diurno e estudam no noturno. Denominados "Vivências em Orientação Profissional", os encontros são planejados de acordo com a necessidade da população-alvo, do número de participantes e das condições do local.

Os eixos temáticos que perpassam todo o processo de orientação profissional são quatro: autoconhecimento, escolha, mundo do trabalho e informação sobre as carreiras. Os subtemas que mais emergem têm sido: a ansiedade, frente ao vestibular e ao processo seletivo para ingresso na universidade; influência dos pais e amigos; o medo de errar na escolha; o medo da universidade; a globalização; a necessidade de maiores e melhores informações sobre as carreiras; as responsabilidades do mundo adulto; o namoro ou casamento; o hobby; a diferença entre escola pública e privada; e como estudar com eficiência.

Cada atendimento individual e cada grupo é analisado, conforme emergentes das sessões anteriores, visando a adequação na definição dos temas a serem trabalhados e na escolha de técnicas e instrumentos para os encontros posteriores. A análise feita fundamenta-se no Esquema Conceitual Referencial Operativo (ECRO) de Pichon-Rivière. As técnicas empregadas baseiam-se sobretudo em Luchiari (1993), Pelletier (1982), mas também em outros autores que desenvolveram e sistematizaram técnicas de grupo. Estimula-se os estagiários na criação de técnicas grupais previamente supervisionadas.

No primeiro encontro realiza-se uma técnica de apresentação dos integrantes, as expectativas de orientação são levantadas e discutidas e o contrato de trabalho é estabelecido, enfatizando-se o enquadre do atendimento.

Em geral, entre a 5ª e 8ª sessão, quando o grupo atingiu um grau mais elevado de aprofundamento nas discussões, realiza-se a aplicação do BBT, teste de fotos de profissões, um método projetivo para a verificação da inclinação profissional (Achtnich, 1991). Este método tem sido empregado visando ao maior conhecimento e aprofundamento do orientador sobre a dinâmica interna e motivacional do orientado. É em articulação com as demais necessidades do cliente que os resultados deste instrumento são trabalhados no grupo e na entrevista individual.

Vale ressaltar que as técnicas utilizadas cumprem sempre o objetivo de facilitar o processo de orientação profissional, tendo em vista a realização de "escolhas" ocupacionais conscientes e autônomas, considerando tanto a realidade interna como a externa.

 

Considerações finais

A experiência com a supervisão de estágio em orientação profissional tem se mostrado importante principalmente pelo papel da supervisão, ou seja, o de acompanhar o psicólogo-estagiário no desenvolvimento de sua identidade profissional. Constatar o aumento da procura de adolescentes pelo serviço também sinaliza reconhecimneto do próprio trabalho realizado na comunidade. Entretanto, os aspectos favoráveis delineados nas atividades de ensino e extensão universitária não devem limitar a busca de novas propostas e de renovação no serviço.

Dado que usualmente são atendidos nestes serviços adolescentes, estudantes de 2º grau, torna-se necessária, por exemplo, a ampliação do atendimento na direção do estímulo à participação da família.

Em relação à prestação de serviços, outra perspectiva necessária dirige-se a viabilizar projetos que atendam ao interesse das populações em idade adulta. Com as mudanças no mundo do trabalho, a orientação profissional está sendo desafiada a intervir com projetos de planejamento de carreira destinados a trabalhadores e desempregados. A questão das mudanças nas regras da aposentadoria e os programas de demissão voluntária, por exemplo, apontam em direção a outras demandas de atendimento.

A orientação profissional encontra-se em um momento peculiar em seu processo, com possibilidade de expansão de suas atividades, entretanto é preciso muito cuidado para não realizar intervenções que se limitem a delinear o perfil do profissional para o próximo milênio, ou indicar as carreiras em alta e as em vias de extinção. Além disso, é preciso contextualizar a maneira como a globalização vem sendo tratada, indagando como a sociedade chegou ao momento atual de organização, ou seja, quem lucra e quem perde com este modelo econômico mundial. Nesse sentido, autores como Gorz (1987), Rifkin (1995) e Whitaker (1997), entre outros, constituem leituras recomendáveis para reflexões acerca da busca de soluções aos problemas atuais.

Considera-se como papel do orientador o de facilitar o conhecimento da dinâmica da economia local e mundial, buscando possibilidades de inserção consciente no mundo do trabalho e evitando posturas ingênuas ou desesperadas. Nesse sentido, cabe à equipe manter atualizadas as discussões sobre as profundas mudanças no mundo do trabalho, objetivando tanto o atendimento como o desenvolvimento do próprio estagiário. O autoconhecimento e as informações sobre as profissões sempre foram, e continuam sendo, relevantes na orientação profissional. O elemento diferenciador nas intervenções deverá decorrer agora do aprofundamento das questões relativas às mudanças no mundo do trabalho. É preciso destacar este aspecto nos estágios dos cursos de Psicologia porque neles o profissional está mais atento às condições internas do orientando, aos seus desejos e motivações. O espaço para trabalhar o autoconhecimento é extremamente relevante para o cliente, a ressalva é de que ele não pode ser deslocado da realidade.

São inúmeras as possibilidades de intervenção da orientação profissional, o que reforça a necessidade de realização de práticas freqüentemente avaliadas, divulgadas e debatidas no âmbito da comunidade científica e da sociedade como um todo. É preciso avaliar a orientação profissional na perspectiva do orientador e do orientando, assim como na perspectiva dos agentes formadores.

A universidade, os centros de pesquisas e as associações representativas na área precisam, mais do que nunca, viabilizar a produção e divulgação de estudos que avaliem este campo de atividade. Chegou a hora de mostrar, com fundamentação, a que e a quem serve a orientação profissional.

 

Agradecimentos

Gostaria de agradecer aos psicólogos-estagiários que, na condição de alunos e de colegas, têm possibilitado a minha contínua aprendizagem. Sem eles este relato de experiência não seria possível. Agradeço ainda às professoras Tárcia Regina da Silveira Dias e Sonia Regina Pasian e ao professor Manoel Antonio dos Santos, pelos relevantes comentários sobre este estudo.

 

Referências Bibliográficas

ACHTNICH, M. (1991). O BBT, teste de fotos de profissões: método projetivo para a clarificação da inclinação profissional. Trad. José Ferreira Filho, supervisão técnica André Jacquemin e Sonia Regina Pasian. São Paulo: Centro Editor de Testes e Pesquisas em Psicologia.

BOCK, A. M. B. e AGUIAR, W. M. J (1995). Por uma prática promotora de saúde em orientação vocacional. Em BOCK, A. M. B. e outros. A escolha profissional em questão. São Paulo: Casa do Psicólogo.

BOHOSLAVSKY, R. (1991) Orientação vocacional: a estratégia clínica. Trad. José Maria V. Bogart. São Paulo: Martins Fontes.

BRASIL (1994). Ministério do Trabalho, Fundo de Amparo ao Trabalhador - FAT, Governo do Estado de São Paulo / Secretaria de Estado de Relações do Trabalho. Caderno 1- A formação profissional na política de emprego. São Paulo: SINESP

BRASIL (1988). Fundo das Nações Unidas para a Infância- UNICEF, Ministério da Previdência e Assistência Social-MPAS-LBA-RECRIANÇA e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil-FNLJ. Educação pelo trabalho - cartilha. Rio de Janeiro: MPAS e FNLJ.

BRASIL (1981). Ministério do Trabalho: Secretaria de Mão-de-Obra. Terminologia da formação profissional no sistema nacional de formação de mão-de-obra. Brasília, DF.

BRUNS, M.A.T. (1992). Não era bem isso que eu esperava da universidade: um estudo de escolhas profissionais. Tese de Doutoramento. Apresentada à Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. Campinas: UNICAMP.

CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA (1995) . Psicologia: formação, atuação profissional e mercado de trabalho – Estatísticas 1995. São Paulo: CRP-06

GORZ, A (1987). Adeus ao proletariado: para além do socialismo. Trad. Angela Ramalho Vianna e Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Forense-Universitária.

MELO-SILVA, L. L. e DIAS, T.R.da S. (1996). Guia de serviços de orientação , capacitação e colocação profissional. Ribeirão Preto: COP – TEC, 153 p.

MELO-SILVA, L.L. e DIAS, T.R.da S. (1997). Serviços de orientação, capacitação e colocação profissional. Anais do III Simpósio Brasileiro de Orientação Vocacional / Ocupacional. Canoas, p. 67-75.

MELO-SILVA, L.L., e JACQUEMIN, A. (1997). L’histoire des cinq photos préférées au BBT à deux momentes du processus d’orientation professionnelle. Revista de Pedagogie, NR. 1 –12, p.65-69, Bucaresti.

MELO-SILVA, L.L. e JACQUEMIN, A. (1995). Contribuições para a interpretação do BBT de Martins Achtnich: a história das cinco fotos preferidas. II Simpósio Brasileiro de Orientação Vocacional & Ocupacional. Realizado pela ABOP - Associação Brasileira de Orientadores Profissionais, no período de 27 a 30/09/95. São Paulo - SP.

MELO-SILVA, L.L. e REIS, V. A B. dos (1997). A identidade profissional em estudantes de curso de psicologia: intervenção através da técnica de grupo operativo. Anais do III Simpósio Brasileiro de Orientação Vocacional / Ocupacional. Canoas, p. 57-65.

MELO-SILVA, L.L., SANTOS, M. A.; e JUNTA, A L (1997). Resolutividade do atendimento em orientação profissional em clínica-escola: análise cumulativa de três anos de atendimento. 5º ciclo de estudos em saúde mental. Realizado pelo Curso de Pós-graduação - Área de concentração em Saúde Mental / Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP.

MELO-SILVA, L.L. e SANTOS, M. A.(1998). O BBT como instrumento diagnóstico em orientação profissional – uma abordagem psicodinâmica. Revista da ABOP. 2(1), p. 59-76.

PELLETIER, D.; NOISEUX,G.; e BUJOLD, C. (1982). Desenvolvimento vocacional e crescimento pessoal : enfoque operatório. Trad. Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes.

PICHON-RIVIÈRE, E. (1994). O processo grupal. Trad. Marco Aurélio Fernandez Velloso; rev. Monica Stahel. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes.

PICHON-RIVIÈRE, E. (1995). Teoria do vínculo. Seleção e organização Fernando Taragano; trad. Eliane Toscano Zmikhouwsky; rev. técnica Marco Aurélio Fernandez Velloso; rev. Monica Stahel. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes.

RIFKIN, J. (1995). O fim dos empregos: o declínio inevitável dos níveis de empregos e a redução global de trabalho. Trad. Ruth Gabriela Bahr e rev. Luís Carlos Merege. São Paulo: Makron Books.

SANTOS, M. A.; MELO-SILVA, L.L., e JUNTA, A L (1997). Perfil do usuário de um serviço de orientação profissional em clínica-escola: análise comparativa de três anos de atendimento. 5º ciclo de estudos em saúde mental. Realizado pelo Curso de Pós-graduação - Área de concentração em Saúde Mental / Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto – SP.

SOARES - LUCHIARI, D.H. P. (1993). Pensando e vivendo a orientação profissional. São Paulo: Summus.

WHITAKER, D. (1997). Escolha da carreira e globalização. 11.ed. rev. e ampl. São Paulo: Ed. Moderna.

 

 

Endereço para correspondência
Lucy Leal Melo-Silva
Departamento de Psicologia e Educação
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – USP
Av. Bandeirantes, 3900 – Monte Alegre – CEP 14040-901 – Ribeirão Preto/ SP
Tel. (016) 602-3789
E-mail: lucileal@ffclrp.usp.br

 

 

16 Lucy Leal Melo-Silva - Docente do Departamento de Psicologia e Educação, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto - USP (e-mail: lucileal@ffclrp.usp.br).