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Psicologia: ciência e profissão

versão impressa ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. v.1 n.2 Brasília jul. 1981

 

A interpretação de provérbios em função do sexo e da idade

 

 

José Fernando B. LomonacoI; Analia Rodrigues de FariaII; Elsa Maria M.P. PullinIII; Henrique Martins NetoIV; Maria Bernadete AmêndolaV; Regina H.S. Campos MartinsVI

IInstituto de Psicologia/USP
IIUNESP/Marília
IIIFund. Univ. Est. de Londrina
IVIUP/Fac. Objetivo
VF.F.C.L. de Ribeirão Preto
VIIUP/Fac. Objetivo

 

 


RESUMO

O presente estudo teve o objetivo de investigar a transição do pensamento concreto para o abstrato através da interpretação de provérbios. Pata tal finalidade foram traduzidos e adaptados 15 provérbios constantes do Teste de Provérbios (Gorham, 1956), os quais foram aplicados a uma amostra de sujeitos agrupados em três faixas etárias: 9, 12 e 15 anos. A tarefa dos sujeitos consistia em escolher, dentre quatro alternativas de resposta, aquela que melhor explicasse o significado de cada provérbio. Tais alternativas são consideradas ou classificadas como abstratas quando implicam num afastamento do sentido literal do provérbio ou concretas, quando estão fortemente ligadas a esse tipo dê significado. Verificou-se que: a) à medida que os sujeitos se tomavam mais velhos aumentava a emissão de respostas abstratas e diminuía a de concretas e, b) essa tendência foi mais acentuada no sexo feminino uma vez que aos 12 anos as meninas emitiram significantemente mais respostas abstratas do que os meninos. Os resultados foram discutidos em termos de diferenças no condicionamento verbal de meninos e meninas.


 

 

Os processos de pensamento concreto e abstrato têm sido amplamente pesquisados por estudiosos das questões sobre aquisição de conhecimento, mormente pelos que adotam a abordagem cognitivista. Piaget (1976), por exemplo, numa perspectiva de desenvolvimento, considera o pensamento abstrato como posterior ao pensamento concreto, ou seja, a concreticidade no raciocínio como característica do pensamento infantil e os processos mais abstratos como característica do pensamento do adolescente e do adulto.

A fim de analisar e mensurar os processos de pensamento, vários instrumentos e técnicas têm sido elaborados pelos pesquisadores (Martin, 1967). Um dos procedimentos ou técnicas mais comuns consiste em pedir aos sujeitos que interpretem o significado de provérbios a eles apresentados. Em 1923, por exemplo, Piaget (apud Richardson e Church, 1959; Piaget, 1923/1973) já se utilizava da interpretação de provérbios em seus estudos sobre o pensamento infantil.

Uma das provas mais conhecidas para o estudo dos processos de pensamento através da interpretação de provérbios é o Teste de Provérbios, elaborada por Gorham, em 1956 e, desde então, freqüentemente utilizada em investigações específicas sobre cognição e, num contexto clínico, no diagnóstico de esquisofrênicos, psicóticos e lesionados cerebrais (Martin, 1967; Ammons e Ammons, 1976).

Um trabalho sobre desenvolvimento cognitivo, em que se utilizou do Teste de Provérbios foi realizado por Richardson e Church (1959). O objetivo desta pesquisa foi investigar as mudanças que ocorrem no decorrer do desenvolvimento cognitivo, em termos do continuum pensamento concreto - pensamento abstrato. Para isto, foram aplicados, entre outras provas, sete dos provérbios que fazem parte do Teste de Provérbios (Gorham, 1956), em crianças subdivididas em quatro grupos de idade, cujas médias eram, respectivamente, Grupo I, oito anos e quatro meses; Grupo II nove anos e cinco meses; Grupo III dez anos e cinco meses e Grupo IV onze anos e seis meses. Os resultados indicaram que a interpretação concreta e literal diminui com a idade em favor de uma interpretação metafórica. Diferenças significantes foram encontradas quando se compararamos Grupos I e II com os Grupos III e IV.

Num estudo semelhante. Billow (1975) também pesquisou o desenvolvimento do pensamento, por intermédio de interpretação de provérbios. Embora ele não tenha utilizado específicamente o Teste de Provérbios, seus resultados indicam igualmente que a interpretação correta dos provérbios (isto é, no nível metafórico, mais abstrato) eleva-se com a idade (nove anos: 0% de respostas corretas, onze anos em torno de 15%, e aos treze anos em torno de 50%).

Os resultados de tais estudos, entretanto, não são inteiramente comparáveis, uma vez que foram utilizadas diferentes tarefas relativas à interpretação de provérbios. Assim sendo, considerou-se útil e pertinente mais um estudo destinado a investigar o desenvolvimento do pensamento em termos de concreticidade e abstração, com o uso do Teste de Provérbios.

O objetivo principal do presente trabalho é verificar se ocorrem diferenças significantes quanto à interpretação de provérbios nos níveis concretos e abstratos entre três grupos de idade e, secundariamente, se tais diferenças ocorrem entre sujeitos masculinos e femininos, uma vez que não hã referências quanto a esta variável na literatura consultada.

 

MÉTODO

Sujeitos

Serviram como sujeitos setenta e duas crianças agrupadas segundo o sexo (masculino e feminino) e a idade cronológica (nove, doze e quinze anos), resultando daí a formação de seis grupos de doze crianças cada um.

Os sujeitos eram alunos de uma escola dirigida por religiosos, situada num bairro central da cidade de Londrina (PR) e freqüentadas predominantemente por filhos de famílias pertencentes às classes media e média-alta. A escola em questão é considerada como uma das mais tradicionais da cidade, possui cerca de quarenta alunos por classe, emprega largamente o método de aula tipo expositiva e se utiliza rotineiramente de testes de múltipla escolha para avaliação da aprendizagem.

Material

O material utilizado foi uma tradução e adaptação do Teste dos Provérbios (Gorham, 1956). Neste teste o sujeito deve ou explicar em suas próprias palavras o significado de provérbios ou escolher a melhor explicação dentre quatro alternativas de respostas (forma de múltipla escolha). Tais alternativas são classificadas como abstratas, quando requerem um maior grau de generalização por parte do sujeito e um desligamento do sentido literal do provérbio; concretas, quando estão bastante ligadas ao sentido literal do provérbio e consistem, geralmente, numa nova formulação verbal do provérbio e irrelevantes, quando não guardam qualquer relação aparente com o significado do provérbio. Por exemplo:

A CORDA ARREBENTA SEMPRE DO LADO MAIS FRACO

a) O pedaço de corda de pior qualidade arrebenta primeiro.

b) Pense primeiro antes de falar.

c) Os mais fracos são sempre os primeiros a serem derrotados.

d) É preciso ser um grande homem para continuar lutando.

A alternativa a é considerada concreta, a c abstrada e a b e d irrelevantes.

Em se tratando de provérbios de outras culturas, é fácil compreender que a adaptação desse instrumento não se restringiu a sua mera tradução. Em alguns casos se fez necessário substituir o provérbio original pelo seu correspondente em língua portuguesa. Em todos esses casos, porém, procurou-se manter inalterado o sendido do provérbio original.

A forma de múltipla escolha do Teste de Provérbio original é constituída por quarenta provérbios. Todavia, como os sujeitos desse estudo seriam crianças a partir dos nove anos, pareceu aos autores que seria conveniente reduzir o número de questões a fim de não tornar a tarefa para o sujeito longa, monótona e, possivelmente, cansativa. Assim sendo, cada um dos autores selecionou os provérbios que lhe pareceram mais adequados em termos de familiaridade e compreensão da linguagem. Dessa forma foram selecionados quinze provérbios que mereceram a escolha de, pelo menos, três dos autores desse trabalho.

A classificação das respostas em concretas e abstratas, constituiu um outro problema para os autores. Uma vez que a tradução e adaptação do Teste de provérbios poderia ter alterado o significado original de alguns de seus itens, os autores consideraram mais conveniente que as alternativas de resposta fossem analisadas e classificadas independentemente por dois juízes nas categorias citadas. Os juizes foram dois alunos que freqüêntavam o terceiro ano de um curso de Psicologia. O grau de fidedignidade entre os juízes foi de 94,12%, calculado segundo a fórmula de Bijou e col.(1968).

Procedimento

A adaptação do Teste dos Provérbios foi aplicada em uma única sessão para todos os subgrupos de sujeitos. Tal aplicação foi realizada em salas de aulas comuns, com aproximadamente quarenta alunos, nas quais permanecia a professora da classe e o casal de aplicadores. Após a apresentação dos aplicadores pela professora da classe, estes solicitavam a colaboração dos alunos para responder a um teste esclarecendo, porém, que não seriam atribuídas notas a esta prova e, conseqüentemente, que o desempenho no teste em nada afetaria a nota de aproveitamento escolar dos sujeitos.

Após isso, as provas eram distribuídas à classe e, então, eram dadas as seguintes instruções aos sujeitos:

"Nestas folhas vocês vão encontrar várias sentenças ou ditados populares numerados e escritos em letras maiúsculas. Vejam 1,2,... "(O aplicador aponta para os provérbios da primeira folha)". Como vocês sabem o ditado popular é uma frase que nos ensina uma lição. Por exemplo: 'Quem tudo quer tudo perde'; 'Mais vale um pássaro na mão que dois voando'. Abaixo de cada uma das sentenças ou ditados populares há quatro frases com uma letra do lado esquerdo. Vejam a,b,c, e d. Olhem: aqui está a sentença número um, e, embaixo dela, as quatro frases (mostrar). Depois, na sentença ou ditado popular numero dois a mesma coisa acontece. Estão vendo? A tarefa de vocês vai ser escolher qual das quatro frases abaixo explica melhor o que quer dizer a sentença de cima (a que está em letras maiúsculas) e fazer uma cruzinha na letra da frase que vocês escolherem. As duas sentenças ou ditados populares que estão nessa folha já estão marcados com uma cruzinha porque são exemplos. Vamos ler juntos para vocês verem como é. Vejam, a primeira sentença ou ditado popular é: "É melhor ser feliz do que ser sábio". A frase que explica melhor o que isso quer dizer é a que tem a letra c (ler a alternativa correta); por isso a cruzinha foi feita aqui. Vejam bem, não é esta (ler alternativa a), nem esta (ler alternativa b) e nem esta (ler alternativa d); a certa é esta aqui, (apontar para a alternativa c)".

O examinador procedia da mesma forma era relação ao segundo exemplo e, ao final, indagava: "Vocês entenderam o que é para fazer? Querem me fazer alguma pergunda?..."(As dúvidas dos alunos eram respondidas, sem, todavia, explicar porque as alternativas marcadas eram as que melhor explicavam o significado dos provérbios)...". Agora virem a folha e podem comerçar. Quando vocês terminarem levantem o braço que eu irei pegar as folhas.

O tempo de duração da prova não foi limitado e os sujeitos dispuseram do tempo que precisaram.

 

RESULTADOS

Para efeito de atribuição de pontos, as respostas dos sujeitos foram classificadas como concretas, abstratas e irrelevantes, podendo cada sujeito atingir escores que variavam de zero a quinze pontos em cada uma dessas categorias. A Tabela I apresenta a freqüência e a média das emissões de respostas concretas, abstratas e irrelevantes distribuídas em função do sexo e da idade dos sujeitos. O numero de sujeitos em cada um dos subgrupos foi de doze.

 

 

Como se pode observar, à medida que os sujeitos se tornam mais velhos, aumenta substancialmente a emissão de respostas abstratas enquanto diminui a de respostas concretas e irrelevantes. Tal tendência é particularmente acentuada no subgrupo feminino na faixa etária de doze anos.

Considerando-se que o objetivo principal desse estudo foi o de comparar o nível de emissão de respostas concretas e abstratas em três grupos de idade, decidiu-se não levar em consideração na analise estatística a categoria de respostas irrelevantes.

Para o tratamento estatístico dos dados optou-se pela utilização de estatística não-paramétrica uma vez que: a) o número de sujeitos em cada subgrupo era pequeno; b) a natureza da distribuição dos dados na população era desconhecida e; c) o nível da escala de medida era ordinal.

Os testes utilizados foram o Mann-Whitney U Test e o Kruskal-Wallis os quais, segundo Siegel (1956/ 1975), constituem as provas mais adequadas para o tipo de análise proposta. Para todos os tipos de análise o nível de significância adotado foi o de 0,05.

Inicialmente os dados dos diferentes subgrupos foram comparados através da Prova de Kruskal-Wallis. Tais comparações são sumarizadas na Tabela II.

 

 

Os resultados dessa prova permitiram rejeitar a hipótese nula em todas as comparações feitas e aceitar, ao nível de significância estabelecida, que as amostras diferem significativamente.

Passou-se, então, a comparar as diferenças entre os grupos, tomados dois a dois, a fim de identificar em quais subgrupos as diferenças eram significantes.

Através do Mann-Whitney foram comparados os escores dos subgrupos masculinos e femininos na emissão de respostas concretas e abstratas. A Tabela III apresenta tais comparações.

 

 

Conforme se pode verificar os subgrupos masculinos e femininos só diferiram na idade de doze anos, tendo as meninas dessa faixa de idade emitido significantemente mais respostas abstratas do que os meninos.

Compararam-se também as diferenças na emissão de respostas concretas e abstratas entre os diferentes subgrupos de idade para cada sexo. A análise é apresentada na Tabela IV.

 

 

Novamente a prova utilizada foi o Mann-Whitney.

Como nos indica a tabela anterior, o grupo masculino não apresentou diferenças significantes na emissão de respostas concretas quando comparadas as idades de nove e doze anos; nas demais comparações a hipótese nula foi rejeitada, indicando que os grupos diferiram significantemente na emissão dessa categoria de respostas. Em relação às respostas abstratas a hipótese nula foi rejeitada nas comparações entre os subgrupos nove/ doze anos e nove/quinze anos e aceita na comparação doze/quinze anos.

Quanto ao sexo feminino, no que se refere à emissão de respostas concretas, a hipótese nula foi rejeitada nas comparações nove/doze anos e nove/quinze anos e aceita na comparação doze/quinze anos. No tocante a respostas abstratas, a hipótese nula foi rejeitada em todas as três comparações.

Finalmente, comparou-se o número de respostas concretas e abstratas emitidas pelos sujeitos masculinos e femininos nos três grupos de idade. Uma vez que tais comparações eram intra-grupos, o teste utilizado foi o de Wilcoxon (Siegel, 1956/1975). A análise dos dados é apresentada na Tabela V.

 

 

À exceção do subgrupo 12 anos, masculino, a hipótese nula foi rejeitada em todas as comparações, indicando que a freqüência de emissão de respostas concretas e abstratas foi significantemente diferente. Aos 9 anos, para ambos os sexos, verificou-se uma tendência maior para a emissão de respostas concretas. O inverso ocorreu no grupo de 15 anos, com as respostas abstratas predominando sobre as concretas. Aos 12 anos os grupos diferenciaram-se quanto ao sexo. Para o sexo feminino a hipótese nula foi rejeitada, indicando uma emissão significantemente maior de respostas abstratas enquanto que, para o sexo masculino, não se verificou diferença significante entre a emissão dos dois tipos de resposta.

Em resumo, os resultados principais desse trabalho podem ser assim sumarizados:

1) A medida que os sujeitos se tomam mais velhos aumenta a emissão de respostas abstratas e deminui a de concretas.

2) Essa tendência é mais acentuada no sexo feminino pois, já aos doze anos, as meninas emitiram significantemente mais respostas abstratas do que os meninos.

 

DISCUSSÃO

Inicialmente pode-se afirmar que os resultados do presente estudo vêm confirmar aquilo que a observação comum levaria a esperar, ou seja, uma progressiva diminuição de respostas de tipo concreto à medida que os sujeitos se tornam mais velhos e um conseqüênte aumento na freqüência de respostas abstratas, formais ou metafóricas.

Não obstante tal mudança ter ocorrido em função da idade, não se está aqui defendendo o ponto de vista de ser esta variável a responsável pelo aumento na freqüência de respostas abstratas. Os autores do presente trabalho consideram a idade não como uma variável independente, mas como uma simples medida temporal que nada informa sobre as condições biológicas, psicológicas e sociais dos sujeitos. Assim sendo, faz mais sentido buscar na literatura sobre desenvolvimento cognitivo interpretações teóricas capazes de ajudar a explicar os resultados encontrados.

Nesse sentido, a teoria de Piaget (1976) parece fornecer um dos quadros de referencia mais adequados para a interpretação dos resultados.

Como se sabe, segundo o ponto de vista piagetiano o desenvolvimento dos processos de pensamento passa por fases ou etapas bem características. Inicialmente, no denominado período pré-operacional (que vai dos 2 aos 6/7 anos) os processos de pensamento da criança caracterizam-se por serem egocentricos e estáticos (não-reversíveis) . No período posterior, o operacional concreto, os estados dos eventos reais são concebidos como produtos de transformações reversíveis uma vez que se torna operatório. Estas operações, no entanto, se limitam a ser "estruturações diretas dos dados reais" (Piaget 1955/1976; p. 187), ou seja, a criança faz operações de classificarão, seriação, equivalência, etc. de objetos ou dimensões determinadas sem generalização imediata a outros conteúdos, o que indica a concreticidade do pensamento. Finalmente, no período operacional formal, o pensamento se liberta do concreto, do real, para se inserir num contexto de transformações possíveis, implicando num raciocínio hipotético dedutivo e em operações sobre operações; daí sua formalização.

De acordo com Piaget, e com as muitas pesquisas que o confirmaram, o pensamento operacional concreto aparece por volta dos 6/7 anos, enquanto o pensamento formal se desenvolve a partir dos 11/12 anos. Ou seja, parece haver uma correlação significativa e direta entre determinada forma de pensamento e determinada faixa etária. Assim sendo, o aumento das respostas abstratas em função da idade poderia ser interpretado em função de os sujeitos mais velhos - os de 12 e, principalmente, os de 15 anos - operarem através do sistema cognitivo que Piaget caracteriza como "formal", em oposição aos de 9 anos, cujo sistema cognitivo ainda se caracterizaria pelo pensamento "operacional concreto".

Intrigante, todavia, foi a diferença entre sexos detectada na faixa etária de doze anos, na qual as meninas apresentaram um número significativamente maior de respostas abstratas do que os meninos. A que atribuir tal diferença uma vez que o nível sócio-econômico, a faixa etária e o ambiente escolar eram bastante semelhantes para ambos os sexos?

Algumas hipóteses serão levantadas como uma tentativa de explicação. Porém todas elas de caráter provisório, não exaustivas nem mutuamente exclusivas.

Uma primeira hipótese diz respeito a diferenças no nível de desenvolvimento cognitivo, admitindo-se que as meninas amadureçam mais cedo do que os meninos. Tal hipótese parece ter recebido alguma comprovação experimental, uma vez que é mais ou menos comum a afirmação de que a mulher amadurece mais cedo do que o homem. Se isso é indubitavelmente verdadeiro no aspecto físico, porque não o seria sob o ponto de vista cognitivo? Em nosso meio, por exemplo, Pfromm Netto (1968) levantou uma série de estudos (Antipoff, 1931; Zausmer, 1954; Araújo, 1931; Viotti, 1931; Coutinho, 1936; Pernambucano e Barreto, 1940; Weil, 1959) que demonstraram superioridade feminina no desempenho em testes de inteligência numa faixa etária cuja amplitude variava de sete a quinze/dezesseis anos, de acordo com o estudo considerado. Somando-se a metade dessa amplitude ao limite inferior de variação, verificamos que doze anos, aproximadamente, se constitui no ponto médio dessa classe. Doze anos, portanto, poderiam representar um período intermediário ou de transição no desenvolvimento intelectual do sexo feminino, período esse no qual ocorreria uma maior variação de um sujeito para outro. Assim, algumas meninas já estariam emitindo um número maior de respostas abstratas embora outras ainda estivessem emitindo tais respostas em número equivalente ao das concretas.

Uma outra hipótese que também merece ser considerada, diz respeito à diferenças no condicionamento verbal de meninos e meninas. Também aqui temos alguns trabalhos arrolados por Pfromm Netto (1968) tais como os de Terman e Tyler (195A) e Weil (1959), mostrando que o sexo feminino tende a obter melhores resultados em problemas de tipo verbal, enquanto o masculino é superior em problemas de tipo quantitativo espacial. Uma vez que a tarefa apresentada aos sujeitos era do tipo verbal, esse aspecto, somado ao anterior, pode ajudar a explicar a superioridade feminina na emissão de respostas abstratas.

Como já foi salientado, tais hipóteses são apenas tentativas para explicar os dados encontrados. Os autores do presente trabalho estão perfeitamente conscientes de que outras hipóteses poderão ser aventadas por adeptos de diferentes orientações teóricas. Pretendeu-se tão somente tecer algumas considerações a respeito desse aparentemente inesperado resultado.

Um outro aspecto que merece ser considerado refere-se à criação, adaptação e utilização de uma "forma infantil" do Teste de Provérbios. Como se sabe, o Teste de Provérbios, em sua forma original, destina-se exclusivamente a sujeitos adolescentes e adultos. A criação de uma "forma infantil", se assim lhe pudermos chamar, pode vir a se constituir num valioso instrumento para o estudo dos processos de pensamento infantil. Como já foi descrito, a tradução e adaptação do teste foi fruto do trabalho conjunto dos autores que traduziram cuidadosa mente o teste original, adaptaram-no para o nosso meio e, finalmente, selecionaram os provérbios que lhes pareceram mais adequados para a realidade brasileira. A aplicação do instrumento e sua avaliação demonstrou ser esse teste passível de aplicação coletiva, correção rápida e objetiva, além de se ter demonstrado capaz de discriminar entre sujeitos de diferentes idades e sexos (1).

 

NOTA

(1) Os interessados em obter copias do instrumento utilizado poderão solicitá-los do primeiro autor, escrevendo para o seguinte endereço: Instituto de Psicologia. Universidade de São Paulo, Caixa Postal 11.454.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Ammons, R.B. e Ammons, C.B. Use and evaluation of proverbs test: partial summary through march, 1976. Perceptual and Motor Skills, 1978, 47, 1044-1046.

Bijou, S.W., Peterson, W.R.F. e Aut, M.H. A method to integrated descritive an experimental field studies at level of - data and empirical concepts. Journal of Applied Behavior Analysis, 1968, 1., 175-191.

Billow, R.M. A cognitive developmental study of metha phor comprehension. Developmental Psychology, 1975, 11, (4), 415-423.

Gorham, D.R. Proverbs Test. Missoula Mont: Psychological Test Specialists, 1956.

Inhelder, B. e Piaget, J. Da Lógica da Criança à Lógica do Adolescente. são Paulo; Pioneira, 1976 (publicado originalmente em 1956).

Martin, W.T. Analysis of the abstracting function in reasoning using an experimental test. Psychological Reports, 1967, 21, 593-598.

Piaget, J. A linguagem e o Pensamento da Criança. Rio de Janeiro: Ed. Fundo de Cultura, 1973 (publicado originalmente em 1923).

Richardson, C. e Church, J. A developmental analysis of proverb interpretations. Journal of Genetic Psychology, 1959, 94, 169-179.

Siegel, S. Estatística Não-Paramétrica. São Paulo:McGraw - Hill do Brasil, 1975 (publicado originalmente em 1956).