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Psicologia: ciência e profissão

versão impressa ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. v.9 n.3 Brasília  1989

 

A atuação do psicólogo na área cognitiva: reflexões e questionamentos

 

 

Alina Galvão Spinillo; Antônio Roazzi

Oxford University. Department of Experimental Psychology

 

 

No intuito de caracterizar o papel do psicólogo cognitivo no espaço da Psicologia como ciência e profissão, o presente trabalho abordará alguns aspectos referentes à relação da psicologia cognitiva dentro da própria Psicologia, refletindo-se sobre a atuação do psicólogo cognitivo enquanto cientista e profissional, procurando-se diferenciar o seu papel frente à atuação de profissionais de áreas afins.

Alguns aspectos históricos, relativos ao surgimento da psicologia cognitiva, serão considerados para melhor caracterizar a maneira como esta foi definida e como posicionou-se frente a alguns pressupostos teóricos e metodológicos vigentes no período posterior à II Guerra Mundial. De fato, nas últimas décadas o estudo dos processos cognitivos tem se expandido rapidamente e,do ponto de vista teórico, tem se mostrado uma abordagem relevante para a explicação do comportamento humano, trazendo à tona aspectos centrais da psicologia.

Os aspectos aqui ressaltados visam, mais do que respostas, gerar reflexões e questionamentos, contribuindo para uma maior compreensão da área cognitiva dentro da psicologia como um todo.

 

Considerações Históricas: do Behaviourismo ao Cognitivismo

A psicologia cognitiva, assim como também outras áreas da psicologia, foi influenciada negativamente por uma série de pressuposições restritivas definidas como positivistas, como afirmado por Parisi et alii (13). Estas pressuposições especificavam que o objeto de estudo da psicologia seria exclusivamente o comportamento observável e que a maneira correta de se efetuar investigações sobre este objeto seria através da determinação da relação estímulo-resposta, isto é, através da pesquisa de correlações entre as condições (em geral externas ao indivíduo) e as respostas emitidas pelo indivíduo frente a estas condições. Dentro deste enfoque, o estudo do comportamento limitava-se à identificação das correlações existentes entre as variáveis em função do contexto experimental e as respostas observáveis nos comportamentos produzidos pelo indivíduo. O que acontece no interior do indivíduo era de fato irrelevante e eliminado da investigação, dado que não se poderia controlar adequadamente tais aspectos.

Estas pressuposições foram rejeitadas pela psicologia cognitiva, que procurou superar este modelo reducionista e mecanicista do comportamento, partindo do pressuposto de que não é possível tratar a relação entre o estimulo e a resposta como simples e linear. Nesta abordagem a atenção recai sobre as estruturas, os processos e os mecanismos que constituem a mente do indivíduo, esta mesma mente que tinha sido descartada pelos behaviouristas e definida de forma metafórica como "Caixa Preta".

Esta recusa em aceitar o modelo E-R, pregado pelos behaviouristas, partiu da evidência de que no indivíduo existem mecanismos e processos que irão entrar em ação no momento da elicitação das respostas, independentemente do nível de simplicidade ou elaboração destas. Como sublinhado por Caramelli (2; 3), no decorrer da investigação psicológica é impossível abstrair-se as condições do funcionamento complexo do individuo que, na sua maneira de operar, influencia não só a resposta, ou seja, o produto final do comportamento, mas também possui um efeito retroativo ao nível da intensidade e qualidade do estímulo.

Desta forma, a psicologia cognitiva considera o modelo linear ER limitante, insuficiente e conseq"uentemente inadequaddo para explicar o comportamento humano, procurando substituí-lo por um esquema mais complexo e elaborado que considera de forma circular esta relação diádica entre organismo e estímulos (Nota A). O organismo tem papel relevante e ativo, um sistema capaz de elaborações complexas, tais como: efetuar escolhas dentre os elementos relevantes de uma dada situação, utilizar estratégias alternativas, armazenar seletivamente informações, operar transformações sobre os elementos de forma a elaborá-los apropriadamente, operando os resultados dessas elaborações e não apenas operações ligadas e determinadas, aprioristieamente, pelos estímulos de entrada (6).

De acordo com este enfoque, a tarefa do psicólogo cognitivo é descobrir leis que estabeleçam conexões entre o comportamento e a variedade de aspectos e elementos com os quais o comportamento esta relacionado, procurando encarar o problema de forma mais abrangente. No plano epistemológico e metodológico esta tarefa inclui a elaboração de modelos teóricos das estruturas dos processos e dos mecanismos que constituem a vida mental do indivíduo. O estudo das condições que influenciam o comportamento se torna, assim, apenas um meio para alcançar este fim. Em outras palavras, a psicologia tem que tentar ir além do simples estabecimento de certos comportamentos que se manifestam em certas condições, mas procurar elaborar modelos explicativos dos mecanismos mais amplos que operam na mente do sujeito, com base nos quais o indivíduo manifesta aquele comportamento naquelas condições (13).

Neisser (12), a partir do paralelismo instituído entre organismo humano e computador, precisa que a tarefa do psicólogo cognitivo, que procura entender os mecanismos e processos na aquisição e desenvolvimento do conhecimento, é análogo àquele do técnico em computação que procura descobrir como foi programado um computador. Por exemplo, no caso de um programa para armazenar informações, o técnico tem de descobrir através de quais procedimentos é alcançado este objetivo. A ele não interessa de forma alguma se o computador armazena a informação em "floppy disk", em "hard disk" ou em "fita magnética", o que se torna de fato importante é entender o programa e não o computador em si. O programa é um conjunto de asserções expressas em uma linguagem particular que constitui as intruções que o computador tem de executar para processar uma série de símbolos do tipo "se o estímulo for do tipo X, executar 'X' operações, mas se o estímulo for do Tipo Y, executar 'Y' operações... processar as combinações dos vários inputs desta forma e ... etc. Assim, para Neisser, o psicólogo cognitivo procura alcançar explicações deste tipo para todos os mecanismos, objetivando descobrir como a informação é elaborada no interior do organismo humano.

Enfim, a psicologia cognitiva não está preocupada com as elaborações das condições de estimulação que produzem um determinado comportamento, nem em indicar simplesmente com que probabilidade é possível elicitar uma certa resposta a partir de uma certa estimulação. Pelo contrário, procura especificar os mecanismos e processos mentais no organismo e propor modelos que indiquem as fases dos processos mentais e as funções desenvolvidas por estas fases.

Em seguida a essas considerações históricas, faz-se necessário apresentar o que entendemos por psicologia cognitiva, a relação desta com outras áreas da psicologia e com áreas afins, comparando-se, ainda, diferentes perspectivas sobre a psicologia cognitiva no Brasil e em outros países.

 

A Psicologia Cognitiva: Objeto e forma de Investigação

A Psicologia é uma ciência que está presente em diversas áreas: social, afetivo-emocional, patológica, educacional, nas relações de trabalho e na área cognitiva. A maioria das pessoas, principalmente aquelas que não estão diretamente ligadas à Psicologia, acredita que os psicólogos trabalham apenas como terapeutas e que provavelmente possuem algum "dom especial" para conhecer profundamente as pessoas. No entanto, sabemos que há várias áreas na ciência psicológica e que uma delas é a cognitiva, ponto de reflexão neste trabalho.

 

O objeto de investigação do psicólogo cognitivo

O psicólogo cognitivo estuda as bases do conhecimento humano; mais precisamente, estuda os meios pelos quais o indivíduo alcança um conhecimento organizado do mundo em categorias, como também a maneira pela qual este conhecimento é utilizado para direcionar e planejar ações sobre o ambiente. Este conhecimento categorizado torna-se indispensável como instrumento de compreensão e atuação sobre a realidade.

Bruner, Goodnow e Austin (1:1) afirmam que o mundo da experiência de cada indivíduo é composto por um número enorme de diferentes objetos, eventos, pessoas e impressões capazes de serem discriminados e categorizados de forma organizada pelo indivíduo. Se acaso os indivíduos não apresentassem esta capacidade de registrar as diferenças e categorizá-las em um mundo organizado, provavelmente seriam subjugados pela complexidade do ambiente.

Assim, o psicólogo cognitivo estuda não só a forma como as informações externas são extraídas, mas, especialmente, como estas informações são conceptualizadas e organizadas internamente, para então serem utilizadas de maneira eficaz. Podemos acrescentar, ainda, que está preocupado com aspectos que implicam elaborações internas, partindo do pressuposto de que a resposta dada à determinada situação-estímulo sofreu algum tipo de elaboração dentro do indivíduo, e que esta elaboração não depende apenas do estimulo externo apresentado, mas de processos mentais internos presentes na mente do indivíduo em um momento determinado do seu desenvolvimento e em função de elaborações anteriores que tenham sido efetuadas.

Utilizando uma terminologia mais tradicional, o psicólogo cognitivo estuda aspectos da atividade cognitiva representados pela percepção, memória, imagem mental, pensamento, raciocínio, aprendizagem etc. Em outras palavras, interessa-se pelos mecanismos mentais que agem quando se percebe, se memoriza, se elabora mentalmente um dado objeto, quando se aprende, etc. Estes conteúdos da consciência são considerados como o produto de uma série de elaborações e operações conduzidas sobre e a partir de informações e que se referem ao conhecimento.

 

A maneira de estudar do psicólogo cognitivo

Vimos que o interesse da psicologia cognitiva recai sobre a natureza do conhecimento, sobre as estruturas e processos pelos quais este é adquirido e a maneira como se desenvolve. Este interesse se traduz em estudos experimentais, pois de fato não estuda as bases do conhecimento partindo de especulações, mas através do estudo empírico, como qualquer outro cientista.

Para tal, a observação torna-se um instrumento de fundamental importância. Segundo Carraher, (4), aprender a observar em psicologia é algo mais difícil do que se pensa e exige que tentemos encontrar os significados do comportamento em observação, procurando abandonar nossa perspectiva particular e descobrir a prespectiva de mundo do sujeito em observação, seu modo de operar sobre o ambiente e os significados que ele atribui às pessoas e às coisas. Entretanto, a observação em si mesma, por mais fidedigna que seja, não pode ser encarada isoladamente, sendo necessário estabelecer uma relação entre observar, refletir e compreender.

Estabelecida esta relação, o psicólogo cognitivo levanta hipóteses, testando-as, buscando compreender os fenômenos que se propõe a investigar. Neste sentido, seu trabalho se assemelha em muito ao trabalho do cientista no que se refere a investigação dos aspectos do conhecimento, podendo muitas vezes utilizar-se de métodos de investigação como o método clínico, por exemplo, (Nota D) ou métodos derivados de outras áreas como a Antropologia.

 

A Psicologia Cognitiva e outras áreas da Psicologia

Analisando-se o papel da psicologia cognitiva cabe refletirmos sobre o status desta dentro da própria Psicologia. Considerando-se a ênfase historicamente dada à psicologia clínica, durante muito tempo passou-se a conceber o papel do psicólogo relacionado apenas ao cuidado e tratamento de problemas pessoais ligados aos aspectos afetivo-emocionais. Sem dúvida esta é uma área relevante da Psicologia, como o são igualmente as demais áreas.

Colocando-se em perspectiva a psicologia clínica e a psicologia cognitiva, o que podemos notar no momento é uma setorialização no domínio do conhecimento. O psicólogo cognitivo pouco sabe acerca de aspectos afetivo-emocionais, informações estas que mesmo não sendo relevantes ao nível de sua produção científica enquanto pesquisador, seriam importantes ao nível prático. O psicólogo clínico, por sua vez, descarta de sua práxis informações sobre o desenvolvimento cognitivo.

Tomemos como exemplo hipotético o caso de uma criança que apresenta dificuldades de aprendizagem. Na visão do psicólogo cognitivo, estas dificuldades poderão ser atribuídas aprioristicamente a problemas no âmbito do desenvolvimento cognitivo. Na visão do psicólogo clínico estas mesmas dificuldades serão sem dúvida atribuídas a problemas pessoais vividos pela criança. Tanto por um como por outro profissional, hipóteses alternativas são de imediato descartadas de suas investigações sobre o caso.

Não se deseja afirmar aqui que caberia ao psicólogo cognitivo tratar das dificuldades afetivo-emocionais da criança em questão, ou que o psicólogo clínico, especialista em dificuldades de ordem afetivo-emocional, deveria desenvolver algum tipo de terapia cognitiva com a mesma. Daí a importância das competências especializadas. Mas, quando o que entra em jogo são as competências setorializadas, informações relevantes não são consideradas e hipóteses são a priori descartadas do repertório de possíveis respostas ao caso em estudo. (Nota B)

Mas além do problema da setorialização do conhecimento dentro da própria psicologia, a psicologia cognitiva se depara com o problema da incompreensão do que vem a ser estudos cognitivos e estudos piagetianos, parecendo ser necessário uma reflexão sobre esta questão.

 

Controvérsias: são psicólogo cognitivo e psicólogo piagetiano sinônimos?

O método clínico foi o método de estudo utilizado por Piaget em suas investigações e é um método bastante usado na pesquisa cognitiva, embora não seja o único. Talvez tenha sido deste fato — utilização do método clínico como técnica de investigação — a errônea idéia de que psicólogo cognitivo e piagetiano são sinônimos. É evidente que não se pode negar a inestimável contribuição e influência da teoria piagetiana na psicologia cognitiva, mas nem todo psicólogo cognitivo é necessariamente piagetiano. Poderíamos dizer que Piaget está para a psicologia cognitiva assim como Freud está para a psicologia clínica. Da mesma forma que nenhum profissional da área clínica pode ignorar a obra de Freud, mesmo que não seja considerado um freudiano; nenhum psicólogo cognitivo ou do desenvolvimento, de modo mais amplo, pode ignorar a obra de Piaget, mesmo que náo seja piagetiano. Da mesma forma que na psicologia clínica existem diferentes métodos de atuação terapêutica desta área; na psicologia cognitiva também existem diferentes métodos. A utilização do método clinico por si ou de tarefas piagetianas, não garante que o psicólogo seja necessariamente adepto incondicional da teoria de Piaget.

Tal fato tem gerado muita incompreensão não só entre leigos, como por parte de profissionais de psicologia. Um exemplo desta incompreensão pode ser citado quando da entrevista realizada pela revista Psicologia Ciência e Profissão (Ano 7 Nº 1/87) com os professores e pesquisadores David W. Carraher e Ana-lucia D. Schliemann, da Universidade Federal de Pernambuco. Na sequência da discussão do tema a pergunta formulada pelo entrevistador "Como os estudos piagetianos brasileiros podem orientar políticas educacionais?" (p.27) reflete em parte esta incompreensão. Não são os estudos piagetianos que podem contribuir para a compreensão do fracasso escolar, mas estudos sobre a maneira pela qual a criança aprende, como afirmado pelos entrevistados ao modificarem a pergunta antes de respondê-la. Neste caso, os estudos sobre cognição foram tomados como sinônimos de estudos dentro de uma abordagem piagetiana.

Não se deve considerar piagetianos os estudiosos que, como Piaget, se preocupam com o desenvolvimento do conhecimento e que adotam uma perspectiva construtivista. O fato de partir-se de pressupostos adotados por esta ou aquela teoria não significa ser seguidor da teoria. Algumas vezes os estudos gerados a partir de um dado enfoque teórico contribuem para uma revisão da própria teoria que os gerou. A literatura apresenta diversos estudos em que são utilizadas tarefas piagetianas e um referencial teórico diferente da abordagem de Piaget. Estudos como os de Roazzi (15) sobre inclusão de classes, de Hughes, e Donaldson (7) sobre egocentrismo e dezenas de estudos sobre conservação de quantidades, dentre eles os de Rose e Blanck (16), Light, Buckingam e Robbins (8), MacGarrigle e Donaldson (11), Roazzi e Dias (15), os quais apresentam resultados que levam a uma reanálise de alguns pontos da teoria de Piaget, mesmo utilizando as tarefas por ele exploradas. Em nenhum momento podemos caracterizar a abordagem desses autores como piagetiana.

Muitos psicólogos, cognitivos no Brasil, por exemplo, evidenciam através dos resultados e modos como conduzem suas pesquisas uma crescente "despiagetinização" (Nota E). Esta crescente "despiagetinização" pode ser caracterizada por uma crescente consideração do ambiente cultural específico dos sujeitos investigados, considerações estas externas à teoria piagetiana. Os estudos acerca do desenvolvimento cognitivo parecem cada vez mais atentar para o papel desempenhado pelos contextos histórico e cultural em que o individuo opera, adotando além de uma abordagem puramente psicológica, as contribuições das teorias antropológica e sociológica.

 

A Psicologia Cognitiva e áreas afins

Na tentativa de compreender o papel da psicologia cognitiva, torna-se relevante analisarmos a relação entre estas e outras áreas afins.

A psicologia cognitiva refere-se ao estudo do conhecimento, conseqüentemente envolve a investigação de tópicos relevantes à educação, tais como: aprendizagem, pensamento, raciocínio, formação de conceitos, memória, inteligência etc. Desta forma, muitas vezes o exercício profissional do psicólogo cognitivo encontra-se em interrelação com o campo de atuação de outros profissionais como os da área educacional

Quando o psicólogo escolar adota uma abordagem cognitiva, sua atuação pode muitas vezes estar estreitamente relacionada à atuação do pedagogo.

Para melhor compreendermos esta interrelação, cabe analisar alguns aspectos que têm chamado a atenção do psicólogo escolar. No início, a forma de atuação do psicólogo escolar se aproximava na prática a do psicólogo clínico, visto que sua atenção voltava-se mais para os aspectos pessoais relacionados ao indivíduo do que para a aprendizagem propriamente dita. A ênfase de sua atuação recaía fundamentalmente na investigação das relações interpessoais (professor-aluno, alunos entre si) e na busca de soluções para problemas pessoais que pudessem surgir no cotidiano escolar ou como conseqüência das relações no contexto escolar ou como conseqüência das relações no contexto familiar que, de uma maneira ou de outra, pudessem afetar a aprendizagem do aluno. Muitas vezes a sala do psicólogo escolar se tornava, em certo sentido, um consultório terapêutico, sobretudo quando as dificuldades apresentadas não podiam ser encaminhadas para um profissional fora da escola (como freqüentemente ocorre com a clientela escolar oriunda de clases de baixo nível sócio-econômico).

Em parte esta ênfase se explica pela orientação basicamente clínica oferecida pelos currículos das universidades e pela forma como a psicologia foi introduzida no Brasil, adotando práticas de consultório baseadas no modelo médico de atendimento individual. Com as mudanças surgidas na psicologia no Brasil (9) e, especificamente, com o avanço dos estudos na área cognitiva e conseqüentemente a inserção de disciplinas relacionadas a esta área nos cursos de Psicologia, o foco da atenção do psicólogo escolar volta-se para os aspectos relacionados aos processos cognitivos de modo geral.

Desta forma a atenção e atuação do psicólogo escolar aproximam-se da área de atuação do pedagogo. Embora tais papéis não devam ser confundidos, é evidente que a psicologia cognitiva interessa a ambos, cabendo definir-se mais claramente a contribuição desta na prática de cada um.

Muitas vezes quando o psicólogo cognitivo se ocupa de problemas pedagógicos, a partir dos resultados das próprias pesquisas, tende a eleborar implicações educacionais sem considerar devidamente a contribuição da pedagogia, podendo incorrer no problema de fornecer um enfoque excessivamente psicológico a tópicos e problemas pedagógicos. Por outro lado, o pedagogo na tentativa de operacionalização dos resultados da pesquisa psicológica, em uma perspectiva instrumental e até reducionista, tende a abstrair os dados do contexto teórico onde estes estão inseridos, advogando para si o supremo papel de organizador e elaborador destes a nível prático, incorrendo por sua vez no problema de dar um enfoque simplista a questões complexas, generalizando conclusões e padronizando procedimentos.

Para serem separadas as dificuldades implícitas nesta dicotomia entre teoria e práxis torna-se necessário considerar que ambas as disciplinas, com suas peculiaridades e instâncias, deveriam interagir. Isto não significa que o pedagogo tenha que ser mais psicólogo ou vice-versa, mas que é preciso reconhecer a existência de competências especializadas que, no entanto, deveriam ser colocadas em intercâmbio para minimizar as distorções entre teoria e prática. Não se deseja dizer com isso que seja inviável a transposição dos resultados teóricos da pesquisa cognitiva para a práxis pedagógica, mas que esta transposição requer trabalho conjunto e interdisciplinar.

 

A Psicologia Cognitiva no Brasil e em outros países

Além da análise da psicologia cognitiva dentro da psicologia como um todo, outras considerações necessitam ser levadas em conta.

Enquanto no Brasil a psicologia cognitiva envolve tanto o estudo das bases do conhecimento quanto o modo como este se desenvolve; em outros países algumas diferenças podem ser observadas.

Na Inglaterra (Nota C) por exemplo, a psicologia cognitiva está voltada essencialmente para o estudo dos processos e estruturas do conhecimento humano, não incluindo o estudo do desenvolvimento dessas estruturas e processos. A psicologia cognitiva na tradição anglo-saxônica relacioria-se ao processamento de informação, inteligência artificial; estrutura do pensamento, do raciocínio, da memória etc. O interesse recai sobre a estrutura, processamento e funcionamento dos fenômenos da consciência (12). Por sua vez, a psicologia do desenvolvimento investiga as modificações que sofrem tais estruturas, processos e funcionamento ao longo do desenvolvimento do indivíduo.

Tomemos um fenômeno qualquer, como a percepção, por exemplo. Na tradição britânica, enquanto a psicologia cognitiva estaria interessada em investigar as bases da percepção humana, em que constitui tal fenômeno, como ocorre a percepção sob esta ou aquela circunstância, o que a influencia, qual o efeito desta sobre outros elementos da consciência etc; a psicologia do desenvolvimento estaria interessada em investigar como tal fenômeno se desenvolve com o passar do tempo, como esta se caracteriza no inicio e no final da infância, que fatores influenciam a percepção infantil e quais aqueles que influenciam a percepção adulta etc.

Em função desta divisão, a obra de Piaget está consideravelmente mais relacionada à psicologia do desenvolvimento do que à psicologia cognitiva propriamente dita. No Brasil, entretanto, a psicologia cognitiva se confunde com a obra de Piaget, pelo menos na visão de leigos e de alguns profissionais. Ainda de acordo com a diferenciação inglesa, a psicologia do desenvolvimento não está relacionada apenas à área de estudos dos aspectos cognitivos, mas abrangeria também as áreas social e afetivo-emocional.

No Brasil, a psicologia cognitiva é entendida de maneira bem diferente. Por psicologia cognitiva entende-se tanto o estudo das bases do conhecimento (estrutura, processos e funcionamento) quanto o estudo do desenvolvimento desse conhecimento, englobando simultaneamente ambas as perspectivas adotadas na tradição anglo-saxônica.

Apesar das diferenças entre as duas concepções de psicologia cognitiva entre os dois países aqui tomados como exemplo para discussão, é possível observar-se problemas semelhantes no que diz respeito ao intercâmbio entre as áreas. Na Inglaterra, verifica-se uma falta de entrosamento entre os resultados da área cognitiva e os da área de desenvolvimento. No Brasil, a separação entre a área cognitiva e as demais áreas da psicologia gera um isolamento disfuncional. E evidente que cada área traz contribuições distintas para o estudo do comportamento, entretanto essas contribuições deveriam ser intercambiáveis. Em nossa perspectiva, os estudos cognitivos não podem ser reduzidos e localizados a uma área restrita dentro da psicologia, visto que, potencialmente, a obordagem cognitiva pode ser aplicada a qualquer área do estudo psicológico do indivíduo, estando, de uma forma ou de outra, implícita em todas elas. Gomo recentemente afirmado por Mandler (10), a psicologia cognitiva está inegavelmente a caminho de se tornar área fundamental da psicologia.

 

Pontos para discussão

O primeiro ponto que precisa ser considerado é que a abordagem cognitiva tem sido, nas últimas décadas, a área da psicologia que mais se desenvolveu, não só no Brasil como na Europa e nos Estados Unidos. Surpreendentemente, entretanto, o conhecimento gerado por esta área tem sido setorializado, quer na perspectiva brasileira quer na de outros países, como a Inglaterra. No Brasil, especificamente, o resultado desta setorialização tem criado o isolamento na relação da psicologia cognitiva com as demais áreas, gerando perdas de ambos os lados.

A superação deste impasse requer a diferenciação entre competências especializadas e competências setorializadas, que não possuem necessariamente o mesmo significado: enquanto as primeiras são legítimas e úteis para o progresso do conhecimento, as segundas, em geral, não possuem esta sensibilidade interdisciplinar. As competências especializadas possuem uma preocupação sistemática no interior das próprias investigações dos fenômenos, ou seja, procuram considerar o caráter de relativismo e parcialidade teórico-prático da investigação própria de uma determinada área. As competências setorializadas produzem e tratam o conhecimento de maneira circular, fechado em si mesmo. A proposta que se coloca não é que as diversas áreas da ciência psicológica percam o seu caráter de especialidade, mas que isso não crie o confinamento e a fragmentação do conhecimento. Os conhecimentos gerados em cada uma dessas áreas precisam ser intercambiáveis sem perder sua identidade de especialização.

Em busca de explicações mais adequadas e menos simplistas do comportamento humano, a psicologia cognitiva tem contribuído para a compreensão de fenômenos de interesse de outras áreas fora da Psicologia. Assim, um segundo ponto que merece reflexão cuidadosa é a questão da transposição dos resultados teóricos da pesquisa cognitiva para a práxis em outras áreas, como a educacional por exemplo. A contribuição da psicologia cognitiva para a educação é inquestionável, mas essa transposição requer uma atuação interdisciplinar para viabilizar adequadamente a passagem dos resultados da pesquisa psicológica para a práxis pedagógica. Cuidados devem ser tomados com o objetivo de evitar um enfoque reducionista e simplista das teorias e dos resultados da pesquisa cognitiva dentro do contexto escolar, ou um enfoque exclusivamente psicológico a problemas pedagógicos. Um exemplo disso foi a aplicação da teoria de Piaget à educação, onde a operacionalização incorreu num reducionismo da teoria, abstraindo os dados do contexto teórico maior onde estes estão inseridos. Outro exemplo mais recente e semelhante é o que vem acontecendo com a aplicação dos resultados das pesquisas de Emilia Ferreiro em sala de aula. É evidente que tanto Piaget como Ferreiro apresentam contribuições substanciais à educação, mas a transposição requer trabalho cuidadoso e interdisciplinar.

Um terceiro aspecto refere-se à incompreensão existente entre psicológo cognitivo e piagetiano. De acordo com o exposto, torna-se imprescindível fazer-se uma distinção entre estudos cognitivos e estudos piagetianos. Um primeiro passo para tal é buscar-se uma caracterização do que é a psicologia cognitiva, visto que esta incompreensão não reside apenas entre os não-psicólogos, mas dentro da própria psicologia. As disciplinas introdutórias dos cursos de graduação poderiam incluir em seus programas reflexões desta natureza, evitando, assim, que novas gerações de psicólogos incorressem no mesmo tipo de incompreensão. Ao que parece a incompreensão precisa ser esclarecida dentro da própria psicologia.

 

NOTAS

(A)  Em uma perspectiva cognitiva o significado de estimulo é bem diferente do significado adotado em uma perspectiva behaviourista. Especificamente neste artigo, partindo-se de uma perspectiva cognitiva, por estímulo entende-se uma situação-problema como um todo.

(B) Além do enfoque afetivo e cognitivo colocados em perspectiva neste exemplo hipotético, é evidente que outros fatores como os sócio-culturais, por exemplo, poderiam ser considerados, mas, se abordados, dariam mais complexidade ao caso e em nada esclareceriam o debate em questão.

(C) As informações aqui apresentadas sobre psicologia cognitiva e do desenvolvimento na tradição inglesa foram obtidas em entrevista com o Professor Peter E. Bryant do Department of Experimental Psychology da Universidade Oxford, Inglaterra.

(D)  Para detalhes acerca da utilização deste método ver Carraher (4)

(E)  Para maiores detalhes ver T. Carraher, D. Carreher e A. Schliemann (5).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BRUNER, J.S.; GOODNOW, J.J. e AUSTIN, G.A. Study of Thinking. New York: Willey, 1956.

2. CARAMELLI, N. - Introduzione. In N.CARAMELLI (Ed.) La Psicologia Cognitivista. Bologna: II Mulino, 1983.

3. CARAMELLI, N. - Jean Piaget e lo studio del processi cognitivi. Roma: Bulzoni, 1984.

4. CARRHER, T.N. - O método clinico: usando os exames de Piaget. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1983.

5. CARRAHER, T.N., CARRAHER, D.W. e Schliemann, A.D. — Cultura, escola, Ideologia e Cognição: continuando um debate. Cadernos de Pesquisa, 39:3 - 10, 1986.

6. FLORES d'ARCAIS, G.B. — Presentazione. In NEISSER V. La psicologia cognitivista. Milano: Aldo Martello - Giunti Editore, 1976.

7. HUGHES, M. e DONALDSON, M;- The use of hiding games for studying the co-ordination of viewpoints. Educational Review, 31: 133-140, 1979.

8. LIGHT, P.H.; BUCKINGHAM, N. e ROBBINS, A.H. — The conservation task as an interactional setting. British Journal of Educational Psychology, 49: 304-310, 1979.

9. MALHEIRO, D.P. e NADER, R.M. — Contribuição a uma análise da psicologia. Psicologia Ciência e Profissão, 2 (7): 9-13, 1987.

10. MANDLER. G. — Cognitive psychology: an essay in cognitive science. Hillsdale, N.J.: Lawrence Erlbaum, 1985.

11. McGARRIGLE, J. E DONALDSON,M. — Conservation accidents. Cognition, 3: 341-350, 1974/1975.

12. NEISSER, V. — Cognitive Psychology. New Jersey: Prentice-hall, 1967.

13. PARISI, D., CASTEL FRANGHI, C. e BENIGNI,L. — Otto punti per una discussione sulla Psicologia Sociale. Simposio sui Problemi Attuali di Metodo e di Ricerca in Psicologia Sociale, Bologna, 1975.

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15. ROAZZI,A. e DIAS, M.G.B. — A influência da experiência sóciocultural em crianças inglesas. Dados experimentais e explorações teóricas na tarefa de conservação. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 2: 39-56,1987.

16. ROSE, S.A. e BLANK, M. — The potency of context in children's cognition: an illustration from conservation. Child Development, 45: 499-502, 1974.