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Psicologia: ciência e profissão

versão impressa ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. v.19 n.3 Brasília  1999

 

A psicologia do esporte: histórico e áreas de atuação e pesquisa

 

 

Katia Rubio

Professora Assistente da Escola de Educação Física e Esporte do Universidade de São Paulo. Psicóloga, mestre em Educação Física e doutoranda pela Faculdade de Educação da USP Conselheira efetiva do Regional 06

Endereço para correspondência

 

 

A Psicologia do Esporte vem se somar à Antropologia, Filosofia e Sociologia do esporte compondo as chamadas Ciências do Esporte.

Implicada em seus primórdios com aspectos mais biológicos, hoje, a Psicologia do Esporte vem estudando e atuando em situações que envolvem motivação, personalidade, agressão e violência, liderança, dinâmica de grupo, bem-estar de atletas caracterizando-se como um espaço onde o enfoque social, educacional e clínico se complementam.

Que a Psicologia enquanto ciência e profissão tenha ampliado seus horizontes, dividindo espaço em territórios exclusivos de outros profissionais ao longo dessas últimas décadas, não se constitui uma novidade. Isso pode ser visto como reflexo de um movimento que busca facilitar o diálogo entre áreas que se aproximam, mas que mantêm cada qual a sua especificidade.

No caso do esporte essa dinâmica se repete, uma vez que a Psicologia do Esporte vem compor um espectro denominado Ciências do Esporte, compostas por disciplinas como antropologia, filosofia e sociologia do esporte, no que se refere à área sócio-cultural, incluindo também a medicina, fisiologia e biomecânica do esporte, demonstrando uma tendência - e uma necessidade - à interdisciplinaridade. Essa tendência, contudo, não representa uma prática inter-disciplinar, ainda, uma vez que as diversas sub-áreas convivem enquanto soma, mas não em relação, fazendo com que as Ciências do Esporte vivam hoje um estágio denominado por Bracht (1995) de "pluridisciplinar".

Temas como motivação, personalidade, agressão e violência, liderança, dinâmica de grupo, bem-estar psicológico, pensamentos e sentimentos de atletas e vários outros aspectos da prática esportiva e da atividade física têm requerido estudo e atuação de profissionais da área, visto que o nível técnico de atletas e equipes de alto rendimento está cada vez mais equilibrado, sendo dada ênfase especial à preparação emocional, tida como o diferencial.

Apesar da definição que apresentamos de campo e papéis, nem sempre foi clara a abrangência da psicologia do esporte. Samulski (1992), afirma que no final do século XIX já era possível encontrar estudos e pesquisas relativas a questões psicofisiológicas no esporte, porém, conforme De Rose Jr. (1992) ainda que houvesse estudos no campo do comportamento humano relacionado à atividade física e ao esporte esses dois aspectos foram estudados durante muito tempo sob o título de psicologia do esporte, sem que houvesse uma definição exata do que fosse essa área de estudo e qual seu verdadeiro objetivo.

Foi na década de 20, de acordo com Machado (1997), que encontramos as publicações de Schulte (Corpo e alma no desporto: uma introdução à psicologia do treinamento) e de Griffith (Psicologia do treinamento e Psicologia do atletismo) vindo, este segundo, a fundar o primeiro laboratório de pesquisa aplicada ao esporte nos Estados Unidos. Enquanto no Ocidente muito tempo se passou até que fosse dada maior destaque ao estudo e pesquisa na área, na antiga União Soviética métodos e técnicas eram desenvolvidos para incrementar o rendimento de atletas e equipes.

Durante os anos 60 a Psicologia do Esporte vive uma fase de grande produção e a relação de nomes como Cratty, Oxendine, Solvenko, Tutko, Olgivie, Singer e Antonelli, que marcaram a história da área com contribuições voltadas para a psicologia social na atividade física e esporte, culminando em várias publicações que influenciam trabalhos até os dias de hoje (Wiggins 1984; Willians et al, 1991).

Foi também durante esse período que se organizou a primeira instituição com o objetivo de congregar pessoas interessadas na psicologia do esporte. Surgiu, então, a International Society of Sport Psychology (ISSP), presidida pelo italiano Ferruccio Antonelli, que além de ter como principal publicação o International Journal of Sport Psychology, passou a realizar reuniões bienais com o objetivo de divulgar trabalhos na área, além de promover o intercâmbio entre os investigadores. Preocupados com distanciamento que a ISSP vinha tomando da área acadêmica, um grupo de pesquisadores fundou, em 1968, a North American Society for the Psychology of Sport and Physical Activity (NASPSPA), cujo foco de estudo e atuação recaía sobre aspectos do desenvolvimento, da aprendizagem motora e da psicologia do esporte, tendo como principal periódico o Journal of Sport and Exercise Psychology.

Mais do que demarcar posições, essas distensões vieram a refletir, em certa medida, o que vem se passando na Psicologia do Esporte nas últimas décadas. Martens (1987) afirmou que seria possível ver profissionais em dois campos distintos de atuação: no primeiro deles estaria a Psicologia do Esporte acadêmica, cujo interesse profissional recairia sobre a pesquisa e conhecimento da disciplina Psicologia do Esporte; no segundo estaria a Psicologia do Esporte aplicada próxima do campo de atuação e intervenção. Além das questões acadêmicas envolvidas nesse debate (ou seria embate?) estas divisões refletem a preparação e as possibilidades de atuação dos profissionais junto a esse campo de atuação, que se, por um lado representa um certo corporativismo, por outro indica a abertura de uma área.

Observamos, assim, o surgimento e desenvolvimento de um campo denominado Psicologia do Esporte, muito próximo da atividade física e do lazer, sendo inclusive componente curricular dos cursos de Educação Física, porém, mantendo um distanciamento da Psicologia enquanto 'ciência mãe'. Apesar disso, temos assistido nesta última década a uma 'descoberta' da Psicologia do Esporte como área de atuação emergente para psicólogos que, diante de uma demanda crescente, enfrentam grandes dificuldades para intervir adequadamente, já que os cursos de graduação em Psicologia ainda não formam nem qualificam o graduando para esta possibilidade de prática.

 

As Várias Áreas de Atuação

Como visto anteriormente, a psicologia do esporte, ainda que se utilize desta denominação não é um terreno exclusivo de psicólogos, isso porque a formação dos profissionais não é formalmente determinada. Brandão (1995) observa que por ser disciplina regularmente oferecida somente na graduação dos alunos de Educação Física isto significa que o delineamento do que faz um profissional da Psicologia do Esporte e que formação ele necessita, ainda, não estão claros. Prova disto, é que encontramos engenheiros, médicos, professores de Educação Física e profissionais de outra formação universitária, trabalhando e até mesmo 'treinando mentalmente' atletas" (p. 140).

Mais do que uma defesa corporativista essa afirmação vem refletir a dificuldade de construção e definição do papel profissional daqueles que se vêem atuando num campo marcado pelo empirismo. Não é de se estranhar o grande número de pessoas que, por conta de seu sucesso como ex-atleta tenha vindo a se tornar técnico ou treinador, mesmo sem uma preparação acadêmica adequada para isso. Aliás, as questões relacionadas ao papel e identidade profissional (Tani, 1996) têm sido uma das grandes discussões que envolve o mundo da Educação Física e Esporte na atualidade.

Lesyk (1998) aponta que em 1983 o Centro Olímpico Americano indicou três possibilidades de atuação para os profissionais da área: o clínico, profissional capacitado para atuar com atletas e/ou equipes esportivas, em clubes ou seleções, cuja preparação específica envolve conhecimentos da área de Psicologia e do Esporte, não bastando apenas a formação em Psicologia ou Educação Física; o pesquisador, cujo objetivo é estudar ou desenvolver um determinado conhecimento na Psicologia do Esporte sem que haja uma intervenção direta sobre o atleta ou equipe esportiva; e o educador que desenvolve a disciplina Psicologia do Esporte na área acadêmica seja na psicologia, seja na Educação Física. Nos dois últimos casos não se exige formação específica do profissional.

Além da definição da possibilidade de atuação profissional, Singer (1988) aponta para outros desdobramentos no campo de atuação profissional do psicólogo do esporte, fornecendo os seguintes modelos: o especialista em psicodiagnóstico - faz uso de instrumentos para avaliar potencial e deficiências em atletas; o conselheiro - profissional que atua apoiando e intervindo junto a atletas e comissão técnica no sentido de lidar com questões coletivas ou individuais do grupo; o consultor - busca avaliar estratégias e programas estabelecidos, otimizando o rendimento; o cientista - produz e transmite o conhecimento da e para a área; o analista - avalia as condições do treinamento esportivo, fazendo a intermediação entre atletas e comissão técnica; o otimizador - com base numa avaliação do evento esportivo busca organizar programas que aumentem o potencial de performance.

Diante da diversidade de atuações é de se esperar que o profissional que atua em Psicologia do Esporte tenha também uma diversidade de formação. Além do conhecimento específico trazido da Psicologia como o uso de instrumentos de diagnóstico e modelos de intervenção, espera-se e exige-se que o profissional tenha um vasto conhecimento das questões que permeiam o universo do atleta, individualmente, como noções de anátomo-fisiologia e biomecânica, e específicas do esporte, como as modalidades esportivas e regras, bem como dinâmica de grupos esportivos. Esse corpo de conhecimento se faz necessário na medida em que se atua com indivíduos e/ou grupos que têm sua dinâmica limitada pelo contexto vivido, ou seja, os treinamentos, as competições e a interação com um meio restritivo com períodos de isolamento e concentração ou alojamentos conjuntos.

Samulski (1992) destaca a necessidade de uma formação abrangente apontando como sendo quatro os campos de aplicação da Psicologia do Esporte:

O esporte de rendimento que busca a otimização da performance numa estrutura formal e institucionalizada. Nessa estrutura o psicólogo atua analisando e transformando os determinantes psíquicos que interferem no rendimento do atleta e/ou grupo esportivo.

O esporte escolar que tem por objetivo a formação, norteada por princípios sócio-educativos, preparando seus praticantes para a cidadania e para o lazer. Neste caso, o psicólogo busca compreender e analisar os processos de ensino, educação e socialização inerentes ao esporte e seu reflexo no processo de formação e desenvolvimento da criança, jovem ou adulto praticante.

Já o esporte recreativo visa o bem-estar para todas as pessoas. É praticado voluntariamente e com conexões com os movimentos de educação permanente e com a saúde. O psicólogo, nesse caso, atua na primeira linha de análise do comportamento recreativo de diferentes faixas etárias, classes - sócio econômicas e atuações profissionais em relação a diferentes motivos, interesses e atitudes.

Por fim o esporte de reabilitação desenvolve um trabalho voltado para a prevenção e intervenção em pessoas portadoras de algum tipo de lesão decorrente da prática esportiva, ou não, e também com pessoas portadoras de deficiência física e mental.

Se até aqui nos deparamos com o campo de atuação profissional do psicólogo do esporte, falaremos em seguida do campo de intervenção junto a atletas individuais e equipes esportivas. Vale ressaltar que o que pretendemos aqui é uma apresentação dos temas relevantes e não a exploração de cada um deles especificamente, visto a abrangência da área e a qualidade, cada vez maior, da bibliografia, muitas vezes específica, de cada um dos pontos levantados.

 

Medidas de Avaliação e Caracterização Psicológica

O estudo da relação entre tipo de personalidade e a escolha de uma modalidade esportiva tem sido objeto de estudo de um grande número de pesquisadores (Fischer, 1984; Silva, 1984; Vealey, 1992; Weinberg & Could, 1995). Partindo, quase sempre, do conceito de personalidade enquanto diferença individual, os estudos nessa área são controversos e, por vezes, confusos, uma vez que, além da divergência sobre o que é personalidade - característica subjetiva ou comportamental? - no âmbito da Psicologia, temos, no Esporte uma ansiedade pela busca de um padrão ou modelo que venha caracterizar o atleta de alto rendimento. Das questões relacionadas a métodos e técnicas até a relação entre tipologia e escolha e prática de determinadas modalidades esportivas ainda não se chegou a respostas conclusivas ou explicativas suficientes para satisfazer a técnicos e atletas ou mesmo aos estudiosos do assunto.

Diante dos vários modelos adotados no estudo da personalidade, Silva (1984) destaca três perspectivas: a determinista - pouco adotada em Psicologia do Esporte, próxima da psicodinâmica que tem como referência autores como Freud, Jung, Adler; o traço - a personalidade dotada de características relativamente constantes que diferencia uma pessoa das demais, baseando-se em autores como Allport; e a interacional - que busca compreender a personalidade a partir da integração das influências pessoais com as do meio em que a pessoa está inserida, tendo em Bandura um dos teóricos referenciais. Essa última perspectiva tem sido a mais adotada em pesquisas na última década.

Um dado comum nos estudos relacionados a esse assunto é que ainda que a personalidade seja caracterizada pela composição individual dos traços de um sujeito, no esporte esse assunto ganha contornos próprios quando encontramos um perfil comum naquilo que se refere à conquista e ao êxito.

Intrigados por essas questões Messias & Pelosi (1997) realizaram um estudo onde se evidenciou que ainda que existam inúmeras diferenças individuais, há um perfil comum a atletas que apresentam características como auto-confiança, melhor concentração, preocupação positiva pelo esporte, determinação e compromisso.

De acordo com Vealey (1992) o estágio atual de conhecimento na área tem demonstrado uma preocupação em descrever características psicológicas em atletas, a influência da personalidade no comportamento esportivo, bem como transformações da personalidade, e baseado numa vasta revisão bibliográfica aponta algumas conclusões gerais sobre as pesquisas realizadas na área. Não há evidências, pelos estudos, de que exista uma "personalidade de atleta". As pesquisas não são conclusivas sobre a existência de um tipo de personalidade que distinga atletas de não-atletas. Também não são conclusivos os estudos que apontam para as diferenças entre personalidade e os sub-grupos esportivos (esporte individual x esporte coletivo, esporte de contato x esporte de não contato). O autor destaca ainda que o sucesso no esporte pode influenciar a saúde mental do indivíduo, facilitando a própriocepção positiva e produzindo estratégias cognitivas de sucesso, o que não representa mudança na personalidade traço.

As diferenças individuais na Psicologia do Esporte também são estudadas a partir de outros temas que não só a personalidade. Outra questão que intriga psicólogos e pesquisadores relaciona-se ao motivo que leva um atleta à procura pelo esporte e a dinâmica envolvida na aderência a essa prática.

Numa definição clássica do termo (Sage, 1977) motivação é entendida como a direção e intensidade de um esforço.

No contexto esportivo a direção do esforço refere-se tanto à busca individual de um objetivo quanto aos atrativos de determinadas situações. Já a intensidade do esforço refere-se ao grau de energia que uma pessoa despende no cumprimento de uma situação particular. No entender de Weinberg & Gould (1995) ainda que próximas, direção e intensidade, do ponto de vista teórico, devem ser separadas. Ainda assim, a motivação pode afetar a seleção, intensidade e a persistência de um indivíduo, que, no caso do esporte, interfere diretamente na qualidade da performance do atleta.

Destacamos da literatura (Brawley & Roberts, 1984; Weinberg, 1984; Weinberg & Gould, 1995; Weiss & Chaumeton, 1992) que o nível de motivação de um atleta é determinado pela interação de fatores pessoais como personalidade, necessidades, interesses e habilidades, assim como fatores situacionais específicos como facilidade na prática, tipo de técnico ou orientação para a vitória ou fracasso da equipe. A apreciação dessas questões pode auxiliar na compreensão de diferentes situações num mesmo jogo, já que alguns atletas podem se sentir mais motivados se criticados ou punidos enquanto outros podem se frustrar, deprimir ou mesmo exprimir grande raiva.

Samulski (1992) denomina os traços internos de motivação intrínseca que consiste na capacidade desenvolvida pelo próprio atleta para a realização de um interesse. Esses determinantes podem ser designados como vontade, desejo, determinação, que muitas vezes podem contrastar com situações externas adversas que dificultariam seu cumprimento. Já a motivação extrínseca é aquela referenciada em fatores externos como o reconhecimento social, o elogio, premiações que interferem e/ ou determinam uma conduta. O autor sustenta que para o esporte, especialmente para o esporte de alto rendimento, é de fundamental importância o desenvolvimento da motivação para o rendimento. Por determinantes internos entende aqueles fatores de ordem subjetiva como nível de aspiração, hierarquia de motivos, motivação do rendimento e atribuições causais que podem interferir ou determinar o resultado de uma ação à sua própria capacidade ou a seus próprios esforços. Já os determinantes externos estão relacionados ao meio social em que o atleta está inserido e que se manifestam na forma de incentivos ou dificuldades e problemas.

Ainda com relação ao que estamos denominando características e diferenças individuais, encontramos um grande número de trabalhos voltados para o estudo da ansiedade e do stress no esporte (Brandão & Matsudo, 1990; Davids et al, 1995; De Rose Junior & Vasconcellos, 1997; Gould & Krane, 1992; Hackfort & Schwenkmezger, 1993; Martens et al, 1990; Sonstroem, 1984). Esses conceitos - e estados - de difícil descrição, porém perceptíveis em qualquer situação competitiva, também não são consensuais entre psicólogos e pesquisadores.

É comum ouvir relatos de atletas onde há uma percepção da performance sendo afetada pelo que chamam ansiedade ou excitação antes e durante as competições, e para poder controlar essas situações desenvolvem as mais variadas estratégias. O que encontramos na literatura é a necessidade de um estado mínimo de disposição para a competição chamada de ativação, havendo uma relação próxima entre o nível de ativação - que também envolve ansiedade - e performance. Mesmo que os pesquisadores não sejam capazes de especificar qual o nível ótimo de ativação sabe-se que ela é necessária e variável de atleta para atleta.

Ansiedade é definida por Could & Krane (1992) como o impacto emocional ou dimensão cognitiva da ativação. Sonstroem (1984) afirma que ansiedade tem sido estudada no esporte partindo de seus efeitos emocionais negativos. Porém, a partir de estudos realizados em fisiologia e psicologia tem-se demonstrado que um determinado tipo de ansiedade é necessário para a prontidão na execução de algumas tarefas. Esse estado é chamado de ativação.

Num texto clássico da área Spielberg (1972) notou que para a teoria da ansiedade ser adequada é necessário diferenciar entre ansiedade como um estado de disposição de ânimo e como um traço de personalidade. O autor define ansiedade estado (A state) como um estado emocional caracterizado como subjetivo, consciência da percepção de sentimentos de apreensão e tensão, acompanhado pela associação com o sistema nervoso autônomo (p. 17). Essa condição varia conforme o momento e flutua proporcionalmente para perceber como reagir dentro de uma situação imediata. Ansiedade traço (A trait), por outro lado, é um motivo ou hábito - disposição comportamental - que predispõe um indivíduo a perceber uma ampla gama de circunstâncias não-perigosas objetivamente como ameaçadoras e para responder a isso com reações desproporcionais de ansiedade estado em intensidade e magnitude de perigo (p. 7 7).

O termo stress tem sido utilizado, muitas vezes, como sinônimo de ansiedade. Martens (1977) afirma que stress é um processo que envolve percepção de um desequilíbrio substancial entre a demanda do meio e a capacidade de resposta, dentro de condições onde o fracasso é percebido como tendo importantes conseqüências sendo respondido com aumento de níveis de ansiedade-estado (p. 9). Esta afirmação delineia o stress como um influência do meio mediada pela percepção e ansiedade como manifestações cognitivas de stress.

De acordo com o que foi exposto os conceitos de ativação, ansiedade e stress no esporte caminham lado a lado, e as discussões apontam no sentido de investigar qual o nível ótimo -ou aceitável - para um bom desempenho, ou diríamos, para a manutenção de uma boa qualidade de vida para o atleta.

 

Interação Social e Dinâmica de Grupos Esportivos

Estudiosos que se dedicam ao estudo dos grupos procuram destacar a diferença entre grupo e um conjunto de indivíduos. Neste sentido, Andrade (1986) afirma que grupo é um conjunto de indivíduos que se reúne por ou para alguma coisa. É uma situação indeterminada com dois referenciais: um problema comum e o conhecimento entre as pessoas.

Equipes esportivas vêm compor esse universo grupai na medida que se constituem, de acordo com Pichon-Rivière (1991), num espaço de aprendizagem que implica em informação, emoção e produção, centrando-se, de forma explícita, numa tarefa e a participação através dela permite não só sua compreensão, mas também sua execução. Na constituição dos grupos esportivos temos claro a necessidade da explicitação daquilo que Pichon-Rivière (1991) chama de tarefa, que não é aqui apenas o movimento para o trabalho, mas a compreensão de seu objetivo - aquilo que se poderia chamar de conscientização - processo e finalidade.

Sendo assim, as etapas de preparação para um torneio são, cada uma delas, uma nova tarefa, que compreendidas e incorporadas pelo atleta permitem sua execução, de forma desalienada, podendo culminar no seu sucesso.

Isso reforça o pensamento de Rioux & Chappuis (1979) que observaram que toda equipe esportiva se apresenta como um paradigma da vida humana, distribuída em minisociedades. Técnicos e atletas, em todas as dimensões do rendimento, procuram dedicar boa parte do tempo em busca de conhecimento e aprimoramento de suas habilidades de comunicação, cooperação e de convivência mediadas por aquilo que é, sem dúvida, a maior qualidade das equipes: ser coesa, eficiente e eficaz.

Autores como Loy & Jackson (1990), Widmeyer et al (1993) e Hanrahan & Gallois (1993) entre outros têm postulado que uma equipe esportiva é mais que a soma de valores individuais e que o time com melhor performance não é composto, necessariamente, pelos melhores jogadores destacados em suas funções, representando que não é apenas a qualidade individual que se necessita para formar uma equipe com probabilidade de êxito. O mais importante é a capacidade de coordenação de cada um dos valores que entram em jogo - relações humanas, aspectos técnicos e táticos e determinantes biológicos - uma vez que o resultado somente se dará com a soma desses valores.

Ao abordar equipes esportivas Rubio e Simões (1998) referem-se não apenas ao conjunto de indivíduos que se agrupam por dimensões temporais e espaciais, mas ao complexo conjunto de fatos objetivos e subjetivos que tornam um grupo efetivo e desejoso de alcançar suas metas, sejam elas uma atuação adequada em um partida, a vitória ou apenas uma boa colocação em um campeonato.

Uma questão importante, que se coloca hoje, é se o rendimento de uma equipe esportiva é tão efetivo quanto a sua composição, incluindo aí talento coletivo, habilidades e capacidades individuais. As interações tornam-se mais complexas quando o número de participantes do grupo aumenta, representando uma grande dificuldade para técnicos no trabalho com equipes esportivas.

Na ótica de Russel (1993) a coesão é tida pelos técnicos como a principal característica de uma equipe, o requisito mais importante para se obter sucesso, tendo no conflito externo um fator de incremento da coesão interna.

Para Carron (1982) coesão é um processo dinâmico que se reflete na tendência do grupo de permanecer junto e se manter unido na busca de seus objetivos e metas. Nessa perspectiva o autor propõe um modelo com quatro categorias que antecedem o desenvolvimento da coesão:

Determinantes Situacionais

Refere-se a variáveis impostas pelo meio que interferem diretamente na coesão. Exemplos dessas situações são as renovações de contratos, mudanças nas regras da modalidade, prêmios oferecidos por vitórias. Além desses fatores questões como idade e origem podem desempenhar papel fundamental na aproximação dos membros da equipe.

Fatores Pessoais

São características individuais dos membros do grupo que podem interferir na coesão. Inclui-se aqui a identificação com a tarefa e a auto-motivação.

Estilos de Liderança

É a complexa interação entre a liderança desempenhada pelo técnico e os atletas. Inclui o estilo de liderança e comportamentos apresentados e a relação com o grupo.

Determinantes Grupais

Refere-se às características da tarefa identificadas nas modalidades individuais e coletivas, às normas de produtividade do grupo, desejo de sucesso e estabilidade da equipe.

Sendo assim, os grupos que permanecem juntos por longo tempo e têm um forte desejo de sucesso apresentam níveis mais elevados de coesão.

Porém, o sucesso do grupo não reside apenas na coesão. Russel (1993) afirma que o desenvolvimento da coesão só será efetivo se o grupo enquanto uma instância independente e auto-suficiente, possuir uma estrutura efetiva de liderança.

De acordo com Martens (1987) a liderança efetiva é determinada pelo estabelecimento de objetivos e metas concretas, construção de um ambiente social e psicológico favorável, instrução de valores e motivação dos membros para que se alcance os objetivos e metas e comunicação com outros atletas.

A liderança nos grupos esportivos apresenta-se de uma maneira um pouco mais complexa. Isso porque temos o líder externo - na figura do técnico - e o líder interno - representado, muitas vezes, pela figura do capitão (Rubio, 1998). O reconhecimento desse movimento de dupla liderança pode representar o sucesso da equipe esportiva, uma vez que elas não se sobrepõem, mas se completam e complementam. Técnico e capitão desempenham papéis distintos e complementares e ambos representam lideranças.

Em suma, liderança refere-se a influência que um indivíduo exerce sobre seus companheiros em torno de um objetivo, representado no esporte pela relação técnico-atleta.

 

Considerações Finais

Ao longo desse texto busquei apresentar e comentar aquilo que hoje vem chamando a atenção de psicólogos enquanto uma área emergente de atuação. Nem de longe ele apresenta a totalidade dos estudos e pesquisas, mas procura mostrar como muitos estudos já foram realizados e que, portanto, já são referências para uma reflexão e prática.

A Psicologia do Esporte, como área de produção acadêmica e de atuação profissional, tem ainda um longo caminho a percorrer, se considerarmos o que já foi feito e o muito que ainda temos a construir, dada a amplidão e complexidade do mundo esportivo. Certamente, nessas últimas décadas acumulou-se muita informação sobre indivíduos e grupos que praticam esporte ou atividade física sem que isso implique em conclusões ou respostas irrefutáveis. Sei que no âmbito da psicologia no Brasil essa discussão é ainda mais nova, tanto do ponto de vista do interesse como da produção, o que aumenta a necessidade de ampliarmos a discussão e formarmos pessoas para uma atuação competente,como já temos em outras áreas da psicologia.

Falar de Psicologia do Esporte significa falar de uma área em construção que soma conhecimento de duas grandes áreas - a Psicologia e o Esporte - e tanto uma como a outra não apresentam uma concordância em seus pontos de vista, e têm uma gama imensa de objetos de estudo e pesquisa. O reflexo disso é que, como psicóloga do esporte, aprendi ser imprescindível adentrar nesse mundo, conhecendo as modalidades, o fenômeno e as instituições esportivas para poder pensar numa prática. Espero que esse texto tenha mostrado que a prática clínica, pura e simples, é insuficiente para uma intervenção nesse campo e quanto mais estivermos abertos para o entendimento da psicodinâmica de atletas e grupos esportivos, mais estaremos contribuindo para a construção da área tanto no que se refere a atuação como a pesquisa.

 

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Endereço para correspondência
Katia Rubio
R. Francisco Pedroso, 115. São Paulo - SP
CEP 02960-010
E-mail: katrubio@usp.br

Recebido em 12/02/99
Aprovado em 12/04/99