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Psicologia: ciência e profissão

versão impressa ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. v.22 n.3 Brasília set. 2002

 

ARTIGOS

 

Os desafios constantes de uma psicóloga no abrigo

 

 

Daniela Pacheco Rotondaro*

Universidade de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Relato sobre a construção contínua de formas de trabalhar com crianças e adolescentes ,em uma Instituição que abriga aqueles que foram abandonados ou perderam os pais. Esses meninos lidam rotineiramente com todos os entraves da institucionalização e tentamos proporcionar-lhes condições para uma estruturação pessoal , visando à independência e autonomia.

Palavras-chave: Abandono, Perdas.


ABSTRACT

This is a report about a continual work that has been developed with children and teenagers. They live in a philanthropic institution that takes care of people who lost their parents and no one of their family is able to take care of them. They have to deal with the current problems of living in this kind of place. We try to give them conditions to have a proper development, to get independence and autonomy.

Keywords: Abandon, Loss.


 

 

Desde julho de 1999 tenho trabalhado em um abrigo pertencente a uma instituição filantrópica. Foi fundada nos anos 30 e ultimamente passa por grandes mudanças de paradigmas, para poder cumprir com o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), o que resulta em momentos difíceis de transformação para os funcionários, as crianças e os adolescentes.

Atualmente o abrigo conta com 134 crianças e adolescentes do sexo masculino abrigados, moradores de 8 lares com aproximadamente 15 crianças em cada um. Seis lares estão sendo conduzidos por laristas moradores e 2 por educadores não residentes. A área física da Organização conta ainda com o Espaço Gente Jovem, o Serviço de Qualificação Profissional, alguns cursos do SENAI e uma escola da Prefeitura.

Tenho realizado atendimentos clínicos/institucionais de 25 meninos entre 8 e 15 anos, 2 grupos de orientação de jovens (6 participantes em cada) e um grupo lúdico (7 participantes). O termo clínico/ institucional refere-se a encontros com fins de psicodiagnóstico e terapêutico.

A demanda por atendimentos tem ocorrido, em sua maior parte, por problemas de comportamento na escola e no lar, seguidos de dificuldades de aprendizagem e comportamentos que denunciam algum tipo de sofrimento psíquico.

Os meninos têm apresentado uma característica comum entre eles, a situação de abandono familiar, observando-se em quase todos baixa auto-estima.

Os atendimentos acontecem em uma sala que conta com um computador, som, material gráfico e uma brinquedoteca. Nesta, existem brinquedos de montar, mesa de snooker e ping –pong, bonecos, jogos, uma bicicleta ergométrica, um supermercado formado por material de sucata, alguns instrumentos musicais, material gráfico, fantoches, etc. A criança escolhe o lugar onde quer ficar no dia do seu atendimento. As vezes, são usados outros espaços livres da instituição.

Conto com uma supervisão quinzenal da Dr.ª Gina Khafif Levinzon, professora de especialização em Psicoterapia Psicanalítica da USP .

Em um primeiro momento, observei a falta de conhecimento das pessoas da instituição sobre o papel do psicólogo, colocando-o no lugar daquele que vai “dar um jeito” na criança, torná-la “boazinha”, discipliná-la. Ouvi as demandas e fui esclarecendo qual o papel do psicólogo no atendimento clínico/institucional: proporcionar um “espaço” de interlocução formativa para as crianças que apresentem sofrimento emocional e que não têm estrutura psíquica para dar conta do mesmo.

Foram estipulados 8 encontros com as crianças para avaliação de uma real demanda para terapia. Nestes, foi realizado o teste TAT. Depois foi feita uma entrevista devolutiva para os laristas e educadores responsáveis, junto com as crianças envolvidas. Nos casos em que os meninos têm família, chamei a pessoa mais próxima para fazer uma anamnese em um primeiro momento e depois lhes informei os resultados. Os atendimentos tinham a duração de uma hora, sem intervalo entre eles.

 

A configuração psíquica e a psicoterapia da criança abrigada

Segundo Winnicott (2000), o desenvolvimento emocional “saudável” depende essencialmente de um ambiente suficientemente bom. A mãe, ou a pessoa responsável por exercer a função materna, vai procurar suprir as necessidades do filho da forma mais adequada através do holding. Este seria a capacidade de empatia, intuição inconsciente e comunicação silenciosa entre uma mãe e seu bebê, propiciando condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento. Para Winnicott, a mãe “permite que a criança se sinta integrada em si mesma e vá adquirindo uma sensação de diferenciação do mundo em que vive, adquirindo uma noção de um ser unitário” .

Contudo, as crianças que vivem nos abrigos, de modo geral, tiveram situações de maternagem desfavoráveis, ocasionando a necessidade de mecanismos de defesa específicos para lidarem com o abandono. Para lidar com o sentimento de abandono e desproteção, as crianças podem desenvolver comportamentos anti-sociais ou desenvolver estruturas de personalidade do tipo “falso self”. (Levinzon, 2000)

O comportamento anti-social pode se manifestar pelo roubo ou pela destrutividade: “O roubo pode ser entendido como a busca de algo pela criança, a esperança de ainda encontrar o que procura. Na destrutividade, a criança busca a quantidade de estabilidade ambiental que poderá suportar a tensão que decorre de um comportamento impulsivo. ...A criança provoca reações ambientais totais, como alguém que esta procurando o corpo da mãe, os braços da mãe...” (Winnicott, 2000). Assim, a criança que recorre ao comportamento anti-social está sinalizando ao ambiente sua necessidade de um cuidado adequado.

Algumas crianças desenvolvem defesas do tipo falso self, e demonstram assim uma impossibilidade em se mostrar com autenticidade, resultando em uma personalidade “empobrecida” ou “paralisada”, causando perturbações da identidade. (Winnicott, 2000). Essas crianças procuram ser “boazinhas”, às custas da repressão de uma parte vital de si mesmas, o que resulta em uma série de dificuldades em suas vidas.

O texto Luto e Melancolia de Freud (1917/1915), também nos remete a reflexões sobre as conseqüências frente ao abandono familiar. É possível verificar, em elevado número de casos, que as perdas são vivenciadas melancolicamente. Observamos uma diminuição elevada da auto-estima e um empobrecimento do ego, muitas vezes levando ao quadro de delírio de inferioridade, principalmente moral, ou reações maníacas .

Observei na psicoterapia com as crianças abrigadas que algumas demoravam para se envolver com o processo psicoterápico, pois o medo do vínculo parecia ser algo ameaçador.

Ao falarmos da criança abrigada, encontramos muitas semelhanças com as características das crianças adotivas, conforme descritas por Levinzon (2000). Observamos que, desde o início de seu desenvolvimento, há perturbações sérias nas relações de objeto , resultando em muita sensibilidade frente a situações de separação e um medo exacerbado em serem abandonadas. Essas crianças devem ter ficado expostas a intensas cargas de ansie-dade provenientes de situações como a separação da mãe, que deixa “marcas” em seu desenvolvimento. O medo de novas perdas das pessoas de quem dependem ou a quem estão ligadas parece acompanhar a criança como uma cicatriz dolorosa e pronta para se abrir a qualquer momento.

Percebi a necessidade de respeitar o ritmo característico de cada criança na psicoterapia para poder estabelecer o vínculo. Isso exigiu uma grande capacidade de flexibilidade de ação, que vinha sendo dificultada pelo fato de os atendimentos acontecerem sem um intervalo e pela elevada intensidade dos afetos envolvidos nos mesmos, que em alguns momentos chegavam a representar para mim uma sobrecarga. Junto a orientações da Dr.a Gina, pude perceber a importância de um intervalo entre os atendimentos, uma pausa para me restabelecer . Os horários foram reorganizados para haver intervalo de 15 min entre os atendimentos. Com isso, percebi uma grande mudança na qualidade do vínculo durante a sessão.

O processo diagnóstico inicial também foi reformulado junto à Dr.a Gina que propôs o HTP, seguindo o modelo de “desenhos e estórias”, e o CAT. Acrescentei o desenho sobre o abrigo. Com isso pude perceber que as histórias enriqueceram a compreensão sobre os processos de vida desses meninos.

É importante considerar a relação transferencial que caracteriza esses encontros. Podemos definir transferência como “ ...processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com eles e , eminentemente, no quadro da relação analítica....repetição de protótipos infantis vivida com um sentimento de atualidade acentuada” (Laplanche e Pontalis,1994 p. 514). Melanie Klein (1927) ampliou o campo de ação da Psicanálise ao mostrar que a transferência também tinha um papel central na análise de crianças, e que podia ser inferida pelo analista a partir da observação do brincar e das associações da criança durante o trabalho analítico. As crianças, através da transferência, procuram no terapeuta um objeto acolhedor, que seja sensível e perceba suas necessidades e medos. Muitas vezes se mostram extremamente carentes, com dificuldades de deixar a sala quando o tempo da sessão termina. Ao mesmo tempo, é comum se perceber uma certa reserva por parte delas, provavelmente relacionada aos seus temores no contato com alguém com quem podem se ligar.

Pude observar que, através da relação mediada pelo brincar, os meninos estão podendo reconstruir a confiança em si e no outro, dar espaço para aparecer sua criatividade e individualidade, que são características que têm poucas possibilidades de expressão dentro de uma instituição em que são tratados através do coletivo. Experimentam o lugar do herói , do bandido, da vítima etc. de maneira lúdica, passando por lugares de onipotência, impotência, controle, descontrole..., podendo, através da experiência, re-significar seu processo de desenvolvimento.

A maior parte dos meninos atendidos apresentam comportamentos anti-sociais, que estão inerentemente ligados à situação de privação. Esta última refere-se à destituição de aspectos essenciais da vida familiar. De acordo com Winnicott, a tendência anti-social é diferente da delinqüência, pois está presente em crianças normais ou quase normais, e se relaciona a dificuldades presentes no desenvolvimento emocional. Implica em esperança, uma busca de alguém que a perceba, através do roubo, da agressão e das desordens. Já a delinqüência está carregada de ganhos secundários. (Winnicott, 2000).

Na maior parte dos casos, não temos acesso à história de vida da criança. Contamos apenas com fragmentos, relatados pelos profissionais das instituições pelas quais passaram, já que na maior parte das vezes os pais faleceram, ou estão presos, ou perderam o pátrio poder, sendo esses “filhos” da instituição. Observamos que, na dinâmica psíquica, é possível detectar a busca para preencher o grande vazio em que parecem imersos. Dessa forma, muitas vezes, levam brinquedos para o lar sem pedir ou vêm com queixa de furto no lar como se isso pudesse dar conta de suas privações, com esperança de ter de volta a mãe, ou toda a maternagem da qual necessitam. Já o pedido implícito dos limites, compõe também esse tipo de ação e proporciona a libertação de idéias avassaladoras que lhes assaltam em momentos de excitação (Winnicott ,1982).

O grupo de jovens teve início em março de 2000 e todos aqueles com idade de 15 anos ou mais foram convidados a participar. Foi coordenado por mim e outra psicóloga. Foi realizado um contrato de que participariam de 4 encontros para experimentar, depois disso ficariam aqueles que quisessem. Esse grupo foi organizado em função de casos de abuso de poder entre os adolescentes e as crianças do lar e tinha como objetivo resgatar valores ligados ao respeito, solidariedade...

Os encontros inicialmente foram realizados em uma sala com uma grande mesa onde todos ficavam em volta e tinha um aparelho de som; depois, a pedido deles, passou a acontecer na sala de jogos e de vídeo. Era dividido dessa forma: meia hora para conversa em grupo e meia hora na sala de jogos, ouvindo música,... mas tendo também intervenção das orientadoras. Um dos grupos, por sua característica, preferia ficar na roda da conversa o tempo todo.

Os adolescentes expressaram desejos de participar de campeonato de futebol, o que pudemos conseguir através de acertos com a direção voluntária; isso trouxe força ao grupo. Os valores podiam ser discutidos através do que relatavam e como agiam. Trabalhamos com uma biografia de uma pessoa, proveniente de um colégio interno (que mostra as conseqüências da institucionalização e sua “volta por cima”) , o que trouxe um nível profundo de reflexão. Fizemos uma gincana sobre higiene, tema revelado de difícil acesso para os educadores e de grande necessidade e que aconteceu com grande motivação. Eles trouxeram letras de música de Rap e a vontade de montar um grupo. Através dessas letras, pode-se perceber o retrato da realidade em que vivem, a desesperança , a falta de perspectivas e o medo desses jovens .

O grupo lúdico é composto de 7 crianças, de 7 e 8 anos, que entraram no abrigo este ano e vieram de outra instituição de crianças menores, da mesma organização social. Pensando em um melhor acolhimento às mesmas, foi montado um projeto chamado Descobrir Brincando, em que a psicóloga realiza o grupo lúdico uma vez por semana e a educadora (estudante de pedagogia) faz encontros de uma hora 3 vezes por semana, tentando resguardar a curiosidade natural dessa fase por descobrir o mundo.

A fase de adaptação foi muito difícil; tivemos que dividir o grupo em 2 devido à elevada desorganização interna que suscitou a mudança de instituição. Contudo, depois de dois meses o grupo voltou a ser único. Estão atualmente em uma fase de grande interesse por jogos que utilizam números e brincadeiras de faz de conta.

As mudanças institucionais em que o “tomador de conta” deve ser transformado em um educador têm trazido muitas angústias para os mesmos. Revelam sentir que tiraram sua autoridade , na medida em que fomos discutindo as formas de punição e sua validade. Isso tem gerado um descontrole geral, já que as crianças e adolescentes perceberam esse sentimento dos educadores e não vão para a escola, não cumprem as regras do lar, etc...e há uma grande animosidade entre os laristas e os educadores, cada um criticando a forma de trabalho do outro.

Ao reunir os educadores para falar dos atendimentos, pude perceber essa angústia pela qual estão passando e ouvir uma proposta de ação, vinda deles. Realizar um campeonato de futebol por mês com todos os lares parecia ser um desejo comum entre todos; poderia trazer uma maior integração entre os lares e ser um meio de eles poderem fazer uma troca com os meninos para que cumpram as regras neste momento. Houve a aceitação por parte da equipe técnica.

O campeonato aconteceu, atingiu os objetivos propostos e teve uma avaliação positiva por todos. Tivemos esse retorno em uma reunião, na qual foi passado o vídeo para poderem questionar o seu papel na instituição.

Uma particularidade da minha função é que, por participar da equipe técnica, tenho exercido uma certa influência na orientação dos trabalhos dos lares, já que as principais decisões são realizadas nas reuniões da equipe. Esse poder sempre requereu uma grande cautela para não ferir os princípios éticos da profissão e resguardar os atendimentos.

Junto com uma educadora, montamos no início deste ano um correio interno para estimular as relações e o uso da escrita, como também criamos um Concurso de Talentos que teve duas fases: concurso de redação e de desenho. Procuramos descobrir os desejos e motivações das crianças abrigadas.

Este é o depoimento de uma psicóloga que tem assumido os entraves do trabalho institucional, como desafios constantes.

Quanto ao trabalho clínico institucional, tem sido um desafio, pois é muito difícil lidar com a intersecção da postura terapêutica e a postura educativa, que meu papel dentro dessa instituição implica. Contudo, é de extremo valor trabalhar com esses meninos, que pelo sofrimento experimentado conseguem sublimar bem o mesmo, apresentando-se como diamantes brutos a serem lapidados.

 

Referências bibliográficas

Freud .(1980). Inibições, sintomas e ansiedade. In ESB, vol.20. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Imago.

Freud. Luto e melancolia. In ESB, vol.14. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro , Imago, 1974.

Klein (1927) “Simpósio sobre a análise infantil” in Contribuições à Psicanálise. São Paulo, Mestre Jou, 1981.

Laplanche e Pontalis. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo, Martins Fontes, 1994.

Levinzon.G.K. A criança adotiva na psicoterapia psicanalítica. São Paulo, Editora Escuta, 2000.

Winnicott.D.W. A criança e seu mundo. Rio de Janeiro, Editora Zahar, Sexta edição,1982.

Winnicott.D.W. Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro, Editora Imago, 2000.

 

 

Endereço para correspondência
Daniela Pacheco Rotondaro
Rua Benjamin Aluani, 67. Parque Continental
05325-100 São Paulo-SP
Tel: +55-11-3763-0134. Cel. +55-11-9374-0645
E-mail:danirot@ig.com.br

Recebido em 16/12/00
Aprovado em 20/10/01

 

 

* Mestranda em Psicologia Clínica pela USP, Psicóloga, Psicoterapeuta Corporal com especialização pelo Instituto Sedes Sapientiae e no Laban Institute in England, e formação pelo Centro de Educação Somática Existencial.