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Psicologia: Ciência e Profissão

versão impressa ISSN 1414-9893versão On-line ISSN 1982-3703

Psicol. cienc. prof. vol.45  Brasília  2025  Epub 28-Abr-2025

https://doi.org/10.1590/1982-3703003273921 

Artigo

Construção e Validação da Escala sobre a Percepção do Abuso Psicológico contra a Parceira (EPAPP)

Construction and Validation of the Scale on the Perception of Psychological Abuse against the Partner (SPPAP)

Construcción y Validación de la Escala sobre Percepción de Abuso Psicológico contra la Pareja (EPAPP)

Francicléia Lopes Silva1 

Francicléia Lopes Silva: Doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), João Pessoa - PB. Brasil. E-mail: francicleia.psi@hotmail.com https://orcid.org/0000-0002-1967-2830


http://orcid.org/0000-0002-1967-2830

Ana Raquel Rosas Torres1 

Ana Raquel Rosas Torres: Doutora em Psicologia University of Kent at Canterbury. Grã-Bretanha. E-mail: arr.torres@gmail.com https://orcid.org/0000-0002-3161-0309


http://orcid.org/0000-0002-3161-0309

José Luis Álvaro Estramiana2 

José Luis Álvaro Estramiana: Doutor em Psicologia Social pela Universidad Complutense de Madrid, Madrid - CMA. E-mail: jlalvaro@cps.ucm.es https://orcid.org/0000-0002-3017-0305


http://orcid.org/0000-0002-3017-0305

1Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, PB, Brasil

2Universidad Complutense de Madrid, Madrid, CMA, Espanha


Resumo

O abuso psicológico entre casais, por ser uma violência sutil, às vezes não é percebido como uma violência propriamente dita. Este trabalho objetivou desenvolver uma escala sobre a percepção do abuso psicológico na parceira. Para tanto, foram realizados dois estudos. O Estudo 1 contou com 184 participantes, em sua maioria do sexo feminino (56,9%) e com média de idade de 25,3 anos (DP=6,70; amplitude de 18 a 62 anos), e verificou a estrutura fatorial do instrumento. Já o Estudo 2 teve 200 participantes, a maioria também do sexo feminino (69,5%) e com média de idade de 23,2 anos (DP=7,05; amplitude de 18 a 56 anos), e buscou trazer evidências complementares da adequação psicométrica do instrumento por meio de análise fatorial confirmatória e validade convergente com o sexismo ambivalente. Resultados: O Estudo 1 demonstrou a adequação a uma dimensão bifatorial. O Estudo 2, por sua vez, corroborou a bidimensionalidade do instrumento, demonstrando evidências de sua validade convergente e a existência de bons indicadores de consistência interna (Abuso Emocional α=0,86; Controle α=0,93). Ademais, este estudo demonstrou também a evidência de validade convergente do instrumento. Em conjunto, os resultados apontam que o instrumento apresentado é adequado para a investigação da percepção do abuso psicológico, trazendo uma nova abordagem na investigação desse tipo violência contra a mulher.

Palavras-chave: Escala Psicológica; Abuso Emocional; Abuso de Controle; Abuso Psicológico; Avaliação Psicológica

Abstract

Psychological abuse between couples, as it is subtle violence, is sometimes not perceived as violence. This study aimed to develop a scale on the perception of psychological abuse in a partner. For this, two studies were carried out. Study 1 had 184 participants, most of whom were women (56.9%) with a mean age of 25.3 years (SD=6.70; range from 18 to 62 years), obtaining the factorial structure of the instrument. Study 2 had 200 participants, the participants of which were also mostly women (69.5%) with a mean age of 23.2 years (SD=7.05; range from 18 to 56 years), which shought to provide additional evidence of the psychometric adequacy of the instrument by confirmatory factor analysis and convergent validity with ambivalent sexism. Results: Study 1 showed the suitability of a bifactor dimension. In turn, Study 2 corroborated the two-dimensionality of the instrument, evincing its convergent validity and good internal consistency indicators (Emotional Abuse α=0.86; Control α=0.93). Furthermore, this study also evinced the convergent validity of the instrument. Taken together, results indicate that the instrument can suitably investigate the perception of psychological abuse, bringing a new approach to the investigation of this type of violence against women.

Keywords: Psychological Scale; Emotional Abuse; Abuse of Control; Psychological Abuse; Psychological Assessment

Resumen

El maltrato psicológico entre parejas, al ser violencia sutil, en ocasiones no se percibe como violencia en sí. Este trabajo tuvo como objetivo desarrollar una escala sobre la percepción de maltrato psicológico en la pareja. Para ello realizaron dos estudios. El estudio 1 contó con 184 participantes, la mayoría del sexo femenino (56,9%) y con edad media de 25,3 años (DE=6,70; rango de 18 a 62 años), y se verificó la estructura factorial del instrumento. El estudio 2 contó con 200 participantes, también en su mayoría mujeres (69,5%) y con una edad media de 23,2 años (DE=7,05; rango de 18 a 56 años), y buscó aportar evidencia adicional de la adecuación psicométrica del instrumento a través del factor confirmatorio. Análisis y validez convergente con sexismo ambivalente. Resultados: El estudio 1 demostró la idoneidad de una dimensión bifactorial. El Estudio 2, a su vez, corroboró la bidimensionalidad del instrumento, demostrando evidencias de su validez convergente y la existencia de buenos indicadores de consistencia interna (Abuso Emocional α=0,86; Control α=0,93). Además, este estudio también demostró evidencia de validez convergente del instrumento. En conjunto, los resultados indican que el instrumento presentado es adecuado para investigar la percepción de maltrato psicológico, aportando un nuevo enfoque a la investigación de este tipo de violencia contra las mujeres.

Palabras-clave: Escala Psicológica; Abuso Emocional; Abuso de Control; Maltrato Psicológico; Evaluación Psicológica

Introdução

A violência contra a mulher consumada por seu parceiro ou ex-parceiro é considerada um problema de saúde pública pela gravidade de suas consequências físicas e psicológicas (Lacerda, 2022), afetando todos os países e culturas, com graves prejuízos tanto individuais como sociais (Ayres, 2017). No entanto, os estudos sobre a violência contra a mulher têm se concentrado fundamentalmente nas formas de violência flagrantes (física e sexual) e, em sua maioria, deixam o da violência psicológica no plano comparativo com outras formas de violência (Oram, Khalifeh, & Howard, 2017). Dito de outra forma, a maioria das investigações não pautam a violência psicológica como protagonista, mas a tratam como um complemento no estudo das mais diversas formas de violência (Hammock, Richardson, Williams, & Janit, 2015). Entre os motivos para essa lacuna, podemos citar: a) a ideia de que a agressão física tem consequências mais sérias e duradouras (Oliveira, 2021); b) a aceitação, a nível social, de muitos dos comportamentos classificados como agressões psicológicas (Taquette & Monteiro, 2019); c) a dificuldade de defini-la (Calvete, Corral, & Estévez, 2008); e d) o fato de ela acontecer no âmbito mais privado do que público (Porrúa et al., 2010).

Existem diversas expressões para denominar as agressões “não físicas”, entre as quais a mais utilizada tem sido “abuso psicológico” (Porrúa et al., 2010). Esse tipo de agressão é definido como o uso prolongado e sistemático de uma série de estratégias que têm como objetivo alcançar o domínio e a submissão de outra pessoa. Ademais, existem evidências de sua função como preditor da agressão física (Hammock et al., 2015), pois, na maioria dos casos, ele antecede e acompanha o abuso físico. Ainda, as consequências para a saúde mental das vítimas do abuso psicológico (AP) são comparáveis às do abuso físico (Almendros, Gámez-Guadix, Carrobles, Rodríguez-Carballeira, & Porrúa, 2009; Porrúa et al., 2010). Desse modo, as vítimas de ambos os tipos de abuso apresentam sintomas de ansiedade e depressão, sintomatologia de transtorno por estresse pós-traumático e ideações suicidas (Arriaga & Schkeryantz, 2015).Com o desenvolvimento e aprimoramento das tecnologias e redes sociais, novas formas de relacionamentos afetivos foram surgindo e, portanto, viabilizando o aparecimento de novas formas de perpetração do abuso psicológico, como é o caso do abuso digital (Collins & Gillath, 2012; LeFebvre et al., 2019). O abuso digital em relacionamentos amorosos é definido como comportamentos de controle, assédio e perseguição de um parceiro romântico por meio de tecnologia e mídia social (Zweig, Lachman, Yahner, & Dank, 2014).

Ocorre que o âmbito digital incrementou antigas práticas de perpetuação do abuso psicológico, como por exemplo o stalking, além de viabilizar novas ferramentas desse tipo de violência (Gonçalves, 2023), tais como o mansplaning, gaslighting e ostracismo. Esses novos conceitos vêm sendo incorporados para a compreensão dimensional do abuso psicológico, que são comportamentos que não têm por finalidade o abuso em si, mas servem para a sua manutenção, e se tornam instrumentos para sua perpetração.

O stalking é considerado o ato de perseguir e envolve ameaças à integridade física e psicológica de outra pessoa e pode interferir na liberdade e privacidade da vítima (Spitzberg, Cupach, Hannawa, & Crowley, 2014). Apesar de não se limitar ao contexto virtual, nem tão pouco ser um fenômeno recente, somente em 2021 o stalking passou a ser considerado um crime passível de punição (Lei nº 14.132, 2021). Esse tipo de comportamento inclui ligações telefônicas, ameaças, visitas indesejadas a locais de trabalho ou residências das vítimas, presentes indesejados, assédio, cartas ou bilhetes, perseguições e confrontos cara a cara (Meloy, 1996, 1997, 1998; Spitzberg et al., 2014).

O mansplaining ocorre quando um homem explica algo, frequentemente para uma mulher, de maneira paternalista e geralmente desconsiderando completamente as opiniões dessa mulher, chegando a interromper sua fala (Oxford Learner’s Dictionary, s.d.). Apesar da “simplicidade” conceitual do mansplaining, Kidd (2017) afirma que ela é mais uma forma de opressão contra as mulheres. De acordo com a autora, é uma forma sistemática e institucionalizada de opressão que silencia as mulheres, revelando implicitamente o valor menor da voz feminina. Ela afirma que as implicações do mansplaining estão presentes em um nível microssocial (por exemplo, no local de trabalho e na sala de aula), mas também em um nível macrossocial (na política, religião e em papéis de liderança em todo o mundo). Solnit (2012) afirma que o mansplaining é um mecanismo que serve para treinar as mulheres a duvidar de si mesmas e se autolimitar, ao mesmo tempo que reafirma e exercita o excesso de confiança dos homens. Apesar de não existirem evidências do mansplaining como uma dimensão do abuso psicológico contra a parceira, as opressões por meio da linguagem ou da comunicação são mais uma estratégia usada para fomentar o abuso psicológico. Assim sendo, pode-se pensá-lo como uma estratégia de reafirmação de poder e controle contra a parceira.

Já o gaslighting, que já foi reconhecido como uma forma de violência psicológica pelo Conselho Federal de Psicologia ([CFP], 2016), é uma forma de abuso mental em que o agressor distorce os fatos e omite situações para deixar a vítima em dúvida em relação a sua memória e sanidade. Essa prática objetiva manter uma pessoa em situação de subserviência e sob controle, desmotivando a realização de denúncias e reforçando a lógica de culpabilização de vítimas (Kruger, 2016). Salerno e Garro (2014) demonstram que o gaslighting passa por alguns estágios associados a relacionamentos abusivos: inicia-se com uma fase de tensão caracterizada por hostilidade e abuso emocional; posteriormente ocorre a fase de “ataque”, em que pode ocorrer violência física e, por fim, a fase da “lua de mel”, caracterizada pelas desculpas e promessas de mudança e remorso. O gaslighting pode gerar um estado de desorientação crônica (Hernández, Magro, & Otón, 2014), afetando a autoestima da vítima e sua tomada de decisões (Marway, 2015), além de ter sido comparado à síndrome de Munchausen (Brashford & Leschziner, 2015) e à síndrome pré-menstrual e menopausa (Kendall, 1991). As evidências do gaslighting como uma maneira de gerar controle e dano à parceira fazem com que o consideremos mais uma estratégia de manutenção do abuso psicológico.

Outra ferramenta de abuso nos relacionamentos que foi potencializada com o advento da tecnologia é o ostracismo, conhecido como tratamento de silêncio, que consiste em usar o silêncio com outra pessoa de forma punitiva, ignorando-a (Freedman, Hales, Powell, Le, & Williams, 2022). Existem evidências que esse tipo de ação gera danos psicológicos e ameaça a autoestima, aumentando sentimentos de raiva e tristeza (Williams, 2009); além disso, ser vítima de ostracismo está associado a problemas interpessoais, como agressão (Twenge et al., 2001; Warburton, Williams, & Cairns, 2006; Williams, 2007, 2009; Williams & Nida, 2011). Essa forma de abuso vem ganhando destaque em decorrência do ghosting, que é o ato de desaparecer ou cancelar planos com amigos ou parceiros sem aviso prévio, com pouca ou nenhuma opção de escolha para a outra pessoa. Esse termo vem sendo utilizado para definir novas configurações de dissoluções de relacionamentos (LeFebvre et al., 2019) e ocorre de maneira indireta (Regan, 2016), já que necessita de mediadores (redes sociais) para a dissolução do relacionamento, podendo se dar de forma gradual ou repentina.

O ostracismo e o ghosting caminham juntos, já que compartilham dos mesmos comportamentos, como é o caso da interrupção de mensagens, silêncio punitivo e desaparecimento real da vida do parceiro (Biolcati, Pupi, & Mancini, 2022). Essas práticas são descritas como forma de crueldade emocional (Navarro, Larrañaga, Yubero, & Víllora, 2020). O que os diferencia é que o ghosting tem por finalidade acabar a relação, enquanto o ostracismo tem como objetivo punir a vítima, sem terminar o relacionamento de fato. Ademais, cabe destacar que essas ferramentas não são novas formas de abuso psicológico, porém são novas formas de expressá-lo. Por outro lado, também é importante esclarecer que episódios isolados de ostracismo, stalking, mansplaining ou gaslighting não podem ser caraterizados como abuso psicológico, porém a sua persistência na relação, visando o controle e poder sobre a parceira, é o que os torna abusivos (Magalhães, 2020).

Com o surgimento de novas formas de manutenção do AP contra a parceira, novas lacunas teóricas nesse campo de investigação foram surgindo. Pode-se destacar duas omissões nas pesquisas sobre AP contra a parceira: a) tratar as novas formas digitais de AP contra a parceira como dimensões desligadas do AP no relacionamento (Flach & Deslandes, 2017; Van Ouytsel, Van Gool, Walrave, Ponnet, & Peeters, 2017); e b) a escassez de estudos específicos sobre a percepção do AP, pois a maioria deles se limita a comparar abuso físico e psicológico (Capezza & Arriaga, 2008; Hammock et al., 2015).

Em conjunto, todas essas estratégias de manutenção do abuso psicológico contra a parceira compartilham o fato de serem formas sutis de violência que, frequentemente, se confundem com diversos aspectos da vida afetiva de um casal e são naturalizados, como, por exemplo, as expectativas de papéis de gênero (Mosmann, Lomando, & Wagner, 2010) e os mitos do amor romântico (Bisquert-Bover, Giménez-García, Gil-Juliá, Martínez-Gómez, & Gil-Llario, 2019). Nesse contexto, um dos grandes desafios dos estudos sobre esse tema é investigar quando essas expressões são percebidas como violência ou não. Dito de outra forma, investigar a percepção da violência é uma maneira de compreender o padrão cognitivo e de conduta dos comportamentos violentos (Gebara, Andrade, Fita, & Raybolt, 2020), além de proporcionar o entendimento de como as pessoas categorizam o que é ou não considerado violento. Assim sendo, o instrumento aqui apresentado visa também analisar quais as expressões do abuso psicológico são vistas como violência ou não.

As lacunas no campo da pesquisa sobre abuso psicológico também se fazem presentes nas medidas acerca desse constructo. Essa escassez de instrumentos acerca da percepção do abuso psicológico fica evidente a partir da busca na base de dados Google Acadêmico, realizada utilizando os descritores “(escala) AND (percepção) AND (abuso psicológico) AND (parceira íntima)”, feita também em inglês “(scale) AND (perception) AND (psychological abuse) AND (intimate partner)”, no período de 2017 a 2022. Foram encontrados somente cinco instrumentos, descritos a seguir:

A Escala de Crenças sobre a Violência Conjugal ([ECVC] Machado, Matos & Gonçalves, 2008) foi adaptada ao Brasil por Moura, Habigzang, Matos e Gonçalves (2021) e tem como objetivo avaliar as crenças em relação à violência física e psicológica em relacionamentos conjugais. Esse instrumento é composto por 25 itens que formam quatro fatores, a saber: a) legitimação e banalização da pequena violência (por exemplo, “É mais aceitável um homem bater na mulher do que o contrário”); b) legitimação da violência pela conduta da mulher (por exemplo, “Um(a) parceiro(a) infiel merece ser maltratado(a)”); c) legitimação da violência motivada por causas externas (por exemplo, “A causa da violência é o abuso do álcool”); e d) legitimação da violência pela preservação da privacidade familiar (por exemplo, “Se as mulheres se portarem como boas esposas não serão maltratadas”). Ele é respondido por meio de uma escala tipo Likert de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente). A versão brasileira possui um índice de confiabilidade de 0,89. Não foram verificados índices de confiabilidade para cada fator do instrumento em nenhuma das versões encontradas. Além disso, o instrumento não tem o foco exclusivo no abuso psicológico e traz mais um panorama geral de violência doméstica do que, de fato, sobre abuso psicológico contra a parceira.

A Revised Conflict Tactics Scales ([CTS2] Straus, Hamby, Boney-McCoy, & Sugarman, 1996; Teixeira & Assumpção Júnior, 1996) foi adaptada para o Brasil por Moraes, Hasselman e Reichenheim (2002) e faz parte de um conjunto de medidas para identificação de violência intrafamiliar. Foi desenvolvida especificamente para verificar a ocorrência de violência entre parceiros românticos. É composta por 78 itens organizados em cinco fatores: a) negociação (“Você mostrou que se importava com ele mesmo que vocês estivessem discordando?”); b) agressão psicológica (“Você acusou o seu companheiro(a) de ser ‘ruim de cama’?”); c) violência física (“Você deu um tapa ou bofetada no seu companheiro(a)?”); d) lesões corporais (“Você quebrou um osso por causa de uma briga com o seu companheiro(a)?”); e e) coerção sexual (“Você fez ameaças para obrigar o seu companheiro(a) fazer sexo com você?”). Conta com uma escala de resposta tipo Likert de 1 a 5. A versão brasileira possui um índice de confiabilidade variando entre 0,79 e 0,95. Apesar de apresentar índices de confiabilidade adequados, trata-se de um instrumento que deve ser aplicado somente com agressores, estando sujeito ao viés de desejabilidade social, comprometendo assim as respostas aos itens.

A Escala de Abuso Psicológico Aplicado en la Pareja ([EAPA-P] Porrúa-García et al., 2016) foi adaptada no Brasil por Paiva, Cavalcanti e Lima (2020) e possui 19 itens, organizados em dois fatores: métodos diretos de abuso psicológico (por exemplo, “Meu/minha parceiro/a interpretou de seu modo as coisas que nos afetaram”) e métodos indiretos de abuso psicológico (por exemplo, “Meu/minha parceiro/a me impediu de fazer atividades de que eu gostava”). Ela conta com um índice de consistência interna de 0,92 e é respondida por meio de uma escala modelo Likert variando de 0 (nunca) e 4 (sempre). O fator referente à dimensão do abuso psicológico direto apontou um alfa Cronbach 0,92, enquanto o sutil apresentou um alfa Cronbach de 0,89. Embora se trate de um instrumento desenvolvido recentemente, ele não abarca dimensões atuais acerca do abuso psicológico, como é o caso do abuso psicológico por meio do uso de redes sociais (Lopes, 2017).

A Escala de Violencia Psicológica por Parte de un Compañero Intimo (Teixeira & Assumpção Júnior, 2021) formada por 47 itens, foi desenvolvida para detectar a ocorrência de abuso psicológico nos participantes. O instrumento conta com uma escala de resposta tipo Likert de 1 (nunca) a 5 (sempre) e apresentou índice de consistência interna adequada de α=0.95. Entretanto, não foram encontrados os itens que compõem o instrumento, nem estudos que evidenciem empiricamente a estrutura fatorial da medida, tampouco validades complementares como convergente e discriminante.

A Subtle and Overt Psychological Abuse of Women Scale (Marshall, 1999) visa medir a violência psicológica em seu caráter manifesto (xingamentos em relação à aparência da vítima) e sutil (manipulação psicológica) e conta com 68 itens, divididos em 35 itens para representar o abuso psicológico manifesto e 33 que representam o abuso psicológico sutil. A dimensão do abuso psicológico manifesto conta com quatro subescalas: a) dominação, composta por 17 itens (por exemplo, tentativas diretas de dominar e controlar a parceira); b) indiferença, que contém 5 itens (entre os quais ser indiferente a parceira para puni-la); c) monitorar, formada por 6 itens (como vigiar cada movimento da parceira); e, por fim, d) descrédito, composta por 7 itens (por exemplo, diminuir conquistas da parceira).

Já a dimensão do abuso psicológico sutil abrange três componentes: a) angustiar, composto por 12 itens (por exemplo, fazer a parceira sentir vergonha de si mesma); b) desanimar, formado por 11 itens (como desencorajar os interesses da parceira em que não está inserido); e c) isolar, que conta com 10 itens (a título de exemplo, desencorajar a parceira a falar com a família). Esse instrumento conta com uma escala de resposta de 1 (nunca) a 10 (quase diariamente) e busca mensurar a frequência com a qual as mulheres sofrem abuso psicológico. Ele apresentou índices de consistência interna de 0,73 e 0,97, respectivamente. Apesar de ser um dos poucos instrumentos que se volta exclusivamente para o abuso psicológico, é consideravelmente antigo e não abarca novas dimensões desse tipo de violência.

Em geral, esses instrumentos objetivam analisar crenças sobre violência física e psicológica em relacionamentos conjugais (Machado, Matos, & Gonçalves, 2004); a frequência com que as pessoas abusam psicologicamente da parceira (Marshall, 1999; Straus et al., 1996); e a presença de sofrimento decorrente do abuso psicológico executado por seu parceiro (Porrúa-García et al., 2016; Teixeira & Assumpção Júnior, 2021).

Portanto, estudar a percepção do abuso psicológico permite não só verificar a opinião das pessoas sobre o que é considerado violência em relacionamentos amorosos, como também fornece informações acerca do conhecimento dos sujeitos sobre esse assunto. Estudos demonstram que a percepção da violência está associada ao grau de tolerância com ela (Marques-Fagundes, Megías, García-García, & Petkanopoulou, 2015), além de fornecer dados sobre as crenças dos indivíduos acerca do que é ou não violento em uma relação amorosa. Investigar a percepção das pessoas sobre o abuso psicológico está alocado em uma compreensão mais sutil e arraigada do que as pessoas consideram ser violento e tolerável em um relacionamento amoroso.

Desse modo, este artigo tem como objetivo desenvolver um instrumento que analise a percepção do abuso psicológico na parceira e que englobe novos conceitos inseridos nas ferramentas de manifestação desse tipo de violência, como stalking (Spitzberg et al., 2014), gaslighting (Jiménez & Varela, 2017), mansplaining (Joyce, Humă, Ristimäki, Almeida, & Doehring, 2021), ostracismo (Freedman et al., 2022) e uso das redes sociais na prática do abuso (Lopes, 2017).

Construção dos itens da Escala de Percepção do Abuso Psicológico na Parceira (EPAPP)

Para o desenvolvimento do instrumento ora apresentado tomou-se como base a escala Subtle and Overt Psychological Abuse of Women Scale ([SOPAS] Marshall, 1999), que mensura a frequência de ocorrência de abuso psicológico no relacionamento. Ela possui uma estrutura bifatorial (abuso sutil e flagrante) e refere-se à percepção da vítima acerca da ocorrência do abuso psicológico em seu relacionamento. No entanto, a Escala de Percepção do Abuso Psicológico na Parceira (EPAPP) foi desenvolvida objetivando mensurar a percepção dos indivíduos acerca de situações externas, ou seja, os itens da EPAPP descrevem situações nas quais o sujeito que responde não está envolvido. Com esse tipo de formulação, busca-se investigar em que medida o participante considera os comportamentos descritos como abuso psicológico. Assim, a pergunta indutora utilizada foi “em que medida os comportamentos e atitudes descritos podem ser considerados abusivos?”.

Buscamos também abarcar as novas expressões de perpetração do abuso psicológico, como o ostracismo (“Às vezes, após alguma discussão, ele chega a bloquear ela nas suas redes sociais, sem nenhum aviso prévio”); o stalking (“Desde que começaram o relacionamento, ele quer controlar as finanças dela, querendo ter acesso a todas as senhas dos seus cartões bancários”); o mansplaining (“Ela, que estuda direito, explicou para ele quais são os direitos das mulheres. Ele, que não é da mesma área, não concordou e explicou para ela quais seriam esses direitos”); e o gaslighting (“Muitas vezes, quando eles têm alguma discussão e ele se exalta, ela diz que se sente mal com a situação. Ele desdenha e diz que ela é sensível e exagerada”). Por fim, destacamos que o uso do termo “parceira” foi adotado no feminino já que existem evidências de que as mulheres são a maioria das vítimas dessa forma de violência dentro de relacionamentos amorosos (Souza, Passos, Almeida, & Almeida-Santos, 2021), razão pela qual o instrumento se volta para a violência contra elas.

A primeira versão do instrumento aqui apresentado contou com 26 itens, que passaram por uma análise de três juízas, todas da área da psicologia social, doutoras e com idades de 29, 32 e 41 anos. Foi utilizado o coeficiente de validade de conteúdo (CVC) do instrumento, que é formado pelos critérios de pertinência, relevância e clareza, adotando-se o ponto de corte de 0,80 (Cassepp-Borges, Balbinotti, & Teodoro, 2010). Com isso, o instrumento sofreu algumas alterações em sua estrutura, demandando a exclusão de um item, que não demonstrou adequação ao constructo em dois critérios (CVC de 0,73 para pertinência e 0,73 em relevância). Além disso, seguindo as sugestões das juízas, foram construídos mais nove itens sobre aspectos teóricos do abuso psicológico que, segundo elas, estavam ausentes da versão original. Assim, o instrumento passou a ter 33 itens, que deveriam ser respondidos por meio de uma escala tipo Likert, que variava de 1 (nada abusivo) a 7 (totalmente abusivo). Com base na literatura, os itens da EPAPP foram organizados em quatro dimensões hipotéticas, a saber:

  1. Isolamento: analisa comportamentos do parceiro que visam isolar a parceira, desencorajando suas relações com família, amigos, colegas de trabalho, estudos, tentando convencê-la que somente ele a compreende de verdade (Marshall, 1999).

  2. Controle da vida da vítima: investiga atitudes que têm como objetivo controlar a parceira em aspectos gerais da vida, como o controle dos filhos, vida sexual, financeira e o monitoramento das suas redes sociais e mensagens. Esse último aspecto é chamado de stalking e não foi verificado em outros instrumentos (Lopes, 2017).

  3. Abuso emocional: abrange comportamentos que visam a manipulação dos sentimentos e domínio sobre o emocional da vítima, descredibilizando as emoções da parceira e, em alguns casos, gerando terror psicológico, caracterizado pelo medo e insegurança (Marshall, 1999). Além disso, esse fator abrange o ostracismo (Freedman et al., 2022).

  4. Imposição do próprio pensamento: abarca ações de descrédito das opiniões da parceira e a imposição das próprias ideias, como nas práticas de mansplaining (Joyce et al., 2021) e do gaslighting. Ou seja, são atitudes manipuladoras do parceiro para fazer a vítima duvidar de si e da sua sanidade mental (Jiménez & Varela, 2017).

A seguir, apresentamos os dois estudos realizados e esclarecemos que este trabalho foi submetido ao Comitê de Ética, recebendo parecer favorável (CAAE n° 12940919.8.0000.5188). Todos os participantes responderam ao termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), que assegurava o anonimato e a confidencialidade de suas respostas. Além disso, a pesquisa respeitou as recomendações éticas (Resolução CNS nº 510/16).

Estudo 1. Evidências psicométricas exploratórias da estrutura fatorial da Escala de Percepção do Abuso Psicológico na Parceira (EPAPP)

Este estudo teve por objetivo analisar a fatorabilidade exploratória da EPAPP.

Método

Participantes

Este estudo contou com 181 participantes, com média de idade de 25,3 anos (DP=6,70; amplitude de 18 a 62 anos), sendo composto por 56,9% mulheres e 43,1% homens. No que se refere ao estado civil, a maioria era solteiro (70,7%), seguidos de casados (13,3%), convivendo (10,5%) e divorciados (3,3%). Quanto à orientação sexual, a maioria declarou ser heterossexual (65,2%), 19,3% bissexuais, 6,1% homossexuais, 3,3% pansexuais, 3,3% lésbicas, 1,1% assexuais e 1,1% não soube responder. Em relação à escolaridade, 62,4% dos participantes tinham nível superior, 18,.8% pós-graduação, 17,7% ensino médio, e 1,.1% ensino fundamental. Em relação à autoclassificação racial, 60,8% se declararam brancos, 29,3% pardos e 9,9% negros.

Instrumentos e procedimentos de coleta de dados

Os participantes responderam à EPAPP e a perguntas demográficas (idade, sexo, estado civil, nível de escolaridade e orientação sexual). A coleta de dados foi realizada por meio de questionários online, disponíveis na plataforma digital SurveyMonkey. Tratou-se de amostra de conveniência, tendo participado as pessoas que se dispuseram a responder o questionário disponível por meio de link disponibilizado em redes sociais e via e-mail.

Procedimentos de análise dos dados

Foi realizada uma análise fatorial exploratória (AFE), com o objetivo de avaliar a estrutura fatorial da EPAPP utilizando o software Factor Analysis em sua versão de 2021 (Lorenzo-Seva & Ferrando, 2021). A análise foi implementada utilizando uma matriz de correlação de Pearson e método de extração Robust Diagonally Weighted Least Squares ([RDWLS] Asparouhov & Muthén, 2010). A decisão sobre o número de fatores a ser retido foi realizada por meio da técnica da análise paralela com permutação aleatória dos dados observados (Timmerman & Lorenzo-Seva, 2011), e a rotação utilizada foi a Robust Promin (Lorenzo-Seva & Ferrando, 2019).

A adequação do modelo foi avaliada por meio dos índices de ajuste Root Mean Square Error of Aproximation (RMSEA), Comparative Fit Index (CFI) e Tucker-Lewis Index (TLI). De acordo com a literatura, valores de RMSEA devem ser menores que 0,08 e valores de CFI e TLI devem ser acima de 0,90, ou, preferencialmente, 0,95 (Brown, 2006). A estabilidade dos fatores foi avaliada por meio do índice H, que avalia quão bem um conjunto de itens representa um fator comum (Ferrando & Lorenzo-Seva, 2018). Valores altos de H (>0,80) sugerem uma variável latente bem definida, cuja estabilidade em diferentes estudos é mais provável. Além disso, para verificar a consistência interna dos itens, foi adotado o alfa de Cronbach (Pasquali, 2012).

Resultados

Os testes de esfericidade de Bartlett (1936,4, gl=528; p<0.001) e KMO (0,88) sugeriram interpretabilidade da matriz de correlação dos itens. Estimava-se uma estrutura de quatro fatores para a presente escala, cujas variâncias explicadas foram 39,04; 9,22; 5,74; e 4,96, respectivamente. Quando contrastados esses valores com os quatro primeiros obtidos na análise paralela (6,81; 6,26; 5,87; e 5,55, respectivamente), pode-se verificar a adequação de uma estrutura bifatorial para a escala, tendo em vista que somente os dois primeiros fatores observados empiricamente apresentaram variância superiores aos dados simulados.

Com isso, uma nova análise fatorial exploratória foi realizada, agora fixando em dois fatores. Nesse momento, foi adotado como critério de corte itens que apresentassem saturação superior a 0,40. Dessa forma, os itens 6 (“Ele costuma bisbilhotar as redes sociais dela, investigando quem curte suas fotos, quem comenta suas publicações e com quem ela tem mais interação nas redes sociais”; F1=0,30; F2=0,29), 7 (“Eles vêm fazendo uma poupança para fazer uma viagem, mas ele decidiu comprar um carro sem combinar com ela”; F1=0,11; F2=0,31), e 10 (“Desde que começaram o relacionamento, ele tem controlado as mensagens do celular dela, além de ter acesso às senhas de todas as suas redes sociais”; F1=0,25; F2=-0,03), foram descartados. Além disso, o item 19 (“Muitas vezes, depois de uma discussão, ele diz que ela deveria agradecer porque ele não bate nela”; F1=0,83; F2=-0,40) apresentou cargas fatoriais cruzadas, de modo que também foi descartado. A nova estrutura fatorial passou a ser composta por 29 itens e está apresentada na Tabela 1.

Tabela 1 Estrutura fatorial da EPAPP. 

Itens Fator 1 Fator 2
Abuso emocional
14. Às vezes, após alguma discussão, ele desaparece sem avisar, chegando a passar dias sem dar notícias. 0,84 -0,01
21. Há algum tempo ela descobriu que ele a está traindo, mas, apesar de ser verdade, ele diz que ela está vendo coisas onde não existem. 0,80 -0,05
26. Muitas vezes, ele a trata com desprezo. 0,76 -0,13
13. Às vezes, após alguma discussão, ele fica dias sem lhe dirigir a palavra, ignorando sua presença. 0,74 -0,00
15. Ela se sente insatisfeita e quando tenta terminar o relacionamento, ele diz que irá se matar. 0,72 -0,04
16. Às vezes, após alguma discussão, ele chega a bloquear ela nas suas redes sociais, sem nenhum aviso prévio. 0,70 -0,01
25. Ele geralmente se incomoda quando ela fala sobre seus sentimentos. 0,66 0,12
20. Quando eles discutem por alguma razão, ele diz que ela é louca e vê coisas que não existem. 0,64 0,21
33. Muitas vezes, ele afirmou que ela é exagerada e tem reações desnecessárias às discussões do casal. 0,60 0,28
24. Ela, que estuda direito, explicou para ele quais são os direitos das mulheres. Ele, que não é da mesma área, não concordou e explicou para ela quais seriam esses direitos. 0,56 -0,07
17. Às vezes, quando estão com amigos, ele faz piadas sobre ela, chegando a humilhá-la, mesmo sabendo que ela fica desconfortável com isso. 0,55 0,19
32. Frequentemente, ele usa erros do passado contra ela. 0,51 0,26
22. Desde o começo da relação, ele se incomoda quando ela tem opiniões diferentes das dele. 0,47 -0,00
Isolamento
11. Há algum tempo ele pede que ela não fale sobre o relacionamento dos dois para outras pessoas, mesmo que sejam amigos ou familiares dela. 0,47 -0,06
4. Embora ela seja uma profissional bem estabelecida, desde que os filhos do casal nasceram, ele tenta convencê-la a deixar de trabalhar para cuidar dos filhos. -0,17 0,68
3. Embora ela seja uma profissional bem estabelecida, desde que começaram a se relacionar, ele pede que ela deixe de trabalhar. -0,29 0,68
2. Ele não se sente à vontade quando ela encontra seus amigos homens. A fim de acabar com o desconforto, ele propôs que ambos se afastassem de suas amizades com o sexo oposto. -0,09 0,56
1. Desde que começaram o relacionamento, ele a tem proibido de visitar seus amigos e familiares sozinha. -0,16 0,44
Imposição do próprio pensamento
31. Muitas vezes, ele menosprezou as conquistas pessoais dela. 0,14 0,70
23. Muitas vezes, quando eles têm alguma discussão e ele se exalta, ela diz que se sente mal com a situação. Ele desdenha e diz que ela é sensível e exagerada. 0,17 0,70
30. Algumas vezes, ele a desencorajou de fazer coisas de que ele não faz parte. 0,17 0,61
27. Algumas vezes, ele a impediu de fazer atividades das quais ela gosta. 0,09 0,58
29. Muitas vezes, ele não se importou com o que ela queria, fazendo apenas o que ele quer. 0,21 0,57
18. Quando eles discutem por qualquer razão, ele diz que ela é a culpada pelo conflito. 0,19 0,52
Controle da vida da vítima
5. Desde que começaram o relacionamento, ele quer controlar as finanças dela, querendo ter acesso a todas as senhas dos seus cartões bancários. -0,18 0,71
12. Quando ela se recusa a fazer o que ele quer, ele diz que não gosta mais dela e que vai acabar com a relação. 0,01 0,66
28. Ele só permite que ela saia acompanhada dele. -0,12 0,62
8. Há algum tempo ele insiste para ter relações sexuais sem camisinha e, diante da recusa dela, ele agora a ameaça com o rompimento do relacionamento. -0,11 0,51
9. Várias vezes ela não quer ter relações sexuais, mas ele a força dizendo que depois ela vai se sentir melhor. -0,01 0,41
Número de itens 14 15
Alfa de Cronbach 0,91 0,89
H-latent 0,96 0,93

Nota. Itens ordenados de acordo com fatores hipotéticos e cargas fatoriais.

Os itens apresentaram cargas fatoriais adequadas, variando de 0,41 (item 9) a 0,84 (item 14). Os índices de consistências interna também foram adequados, sendo α=0,91 no primeiro fator e α=0,89 no segundo fator (Pasquali, 2012). A medida de replicabilidade da estrutura fatorial ([H-index] Ferrando & Lorenzo-Seva, 2018) sugeriu que os fatores poderão ser observados em estudos futuros (H<0,80). Cabe destacar que a estrutura fatorial apresentou índices de ajuste adequados (ꭓ2=266,495, gl=463; p=0,999; RMSEA=0,000; CFI=0,999; TLI=1,010). A análise semântica dos itens de cada fator permitiu nomeá-los como:

  • Fator 1 - Abuso emocional: agrupa todos os itens da dimensão de abuso emocional que por vezes são identificados como comportamentos mais sutis do abuso psicológico (Bastos & Sá, 2021).

  • Fator 2 - Controle: representa comportamentos socialmente mais aceitos e facilmente perpetuados em relacionamentos amorosos, confundindo-se por vezes com expectativas de papéis de gênero em relacionamentos heterossexuais (Mosmann, Lomando & Wagner, 2010). Esse fator agrupou as dimensões de isolamento, controle da vida da vítima e imposição do próprio pensamento.

Estudo 2. Evidências complementares de validade da EPAPP

Este estudo teve por objetivo confirmar a estrutura bifatorial da EPAPP em uma amostra independente e obter evidências de validade convergente dessa medida.

Método

Participantes

Participaram deste estudo 200 pessoas da população geral, com média de idade de 23,2 anos (DP=7,05; amplitude de 18 a 56 anos), sendo 59,5% do sexo feminino, 39% do sexo masculino, 1% se identificou como “outros” e 0,5% não responderam quanto a seu gênero. Quanto a relacionamentos, 75% eram solteiros, 15% casados, 4,5% namorando, 3,5% estavam em um tipo de relacionamento não especificado e 1,5% eram divorciados. Em relação à escolaridade, 60,5% declararam ter nível superior, 29% ensino médio e 10% pós-graduação. Quanto à orientação sexual, 77% se afirmam heterossexuais, 11% bissexuais, 5% homossexuais, 4% lésbicas, 4% assexuais, 4% afirmaram ter outra sexualidade e 2% não sabiam sua orientação sexual. Em relação à autoclassificação racial, a maioria da amostra se constituía de brancos (42%), seguidos de pardos (41,5%), negros (14,5%) e outra cor de pele não especificada (0,5%).

Instrumentos e procedimento de coleta de dados

Os mesmos instrumentos e procedimentos de coleta do Estudo 1 foram aplicados. Além disso, para verificar a validade convergente do instrumento desenvolvido, foi utilizado o Inventário de Sexismo Ambivalente (Glick & Fiske, 1997), medida adaptada para o contexto brasileiro por Formiga, Golveia e Santos (2002). Essa medida contém 22 itens, que mensuram duas dimensões: sexismo hostil e sexismo benevolente, que no presente estudo apresentaram bons índices de consistência interna, sendo 0,79 e 0,84, respectivamente. Os itens eram respondidos com uma escala de resposta tipo Likert que variava de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente). A amostra foi não probabilística por conveniência, cuja participação se deu por meio de um questionário impresso. Os participantes foram abordados em lugares de grande circulação.

Procedimentos de análise de dados

Foi utilizado o software Jasp (versão 0.15.0.0) para realização da análise fatorial confirmatória (AFC). A análise foi implementada utilizando o método de estimação RDWLS. Foram considerados os mesmos indicadores de ajustes utilizados no Estudo 1 e foi levado em consideração o índice Expected Cross-Validation Index (ECVI) para comparação com outros modelos fatoriais. Valores de ECVI mais baixos indicam melhor ajuste do modelo analisado. Assim como no Estudo 1, a consistência interna do instrumento foi medida por meio do alfa de Cronbach. Ainda, a fim de obter evidências de validade convergentes, foram realizadas correlações bivariadas com os itens do Inventário do Sexismo Ambivalente por meio do software SPSS em sua versão 23.

Resultados

Os resultados da AFC para os modelos unifatorial, bifatorial e tetrafatorial estão ilustrados na Tabela 2.

Tabela 2 Índices de ajustes para os modelos unifatorial, bifatorial e tetrafatorial. 

Modelo 2 (gl), p 2/gl CFI TLI RMSEA (IC90%) ECVI
Unifatorial 248.107 (377), 1,00 0,65 1,00 1,04 0,00 (0,00;0,00) 1,88
Bifatorial 202.153 (376), 1,00 0,53 1,00 1,06 0,00 (0,00;0,00) 1,65
Tetrafatorial 2299.313 (377), 0,001 6,09 0,38 0,33 0,163 (0,156;0,169) 12,51

Além disso, os alfas de Cronbach foram de 0,86 para o fator 1 (abuso emocional) e de 0,93 para o fator 2 (controle). As cargas fatoriais dos itens estão ilustradas na Figura 1.

Figura 1 Estrutura fatorial da EPAPP. 

Por fim, a partir de análises de correlação bivariada, observa-se que ocorreram baixas correlações entre os fatores da EPAPP e o fator sexismo hostil da escala de sexismo ambivalente (Abuso emocional r=-0,286, p=0,001; Controle r=-0,220, p=0,001).

Discussão

O abuso psicológico é um tipo de violência que tem sido negligenciada em pesquisas sobre violência intraconjugal. Entre os aspectos pouco estudados sobre esse fenômeno, encontra-se uma lacuna em relação à percepção das pessoas sobre ele, o que também atinge a esfera das medidas psicológicas que não mensuram a percepção do abuso psicológico. Faz-se importante estudar analisar a percepção dessa violência, tendo em vista que tal fator influencia na manutenção de outras formas de violências entre parceiros íntimos (Marcos, Gancedo, Castro, & Selaya, 2020), ocasionando a perpetração do abuso e a permanência das vítimas nessas relações. Além disso, é por meio da percepção do abuso que se explica a tolerância e aceitação à violência (Marques-Fagundes et al., 2015; Rodríguez-Carballeira et al., 2005; Muñoz-Rivas et al., 2011).

Desse modo, o presente artigo visou a construção de um instrumento para mensurar a percepção do abuso psicológico na parceira em um relacionamento íntimo. Para tanto, buscou também evidenciar empiricamente a estrutura fatorial da escala e evidências complementares de ajustes psicométricos por meio de validade convergente com um constructo relacionado. Para alcançar os objetivos aqui propostos, foram realizados dois estudos: o primeiro verificou a adequação fatorial do instrumento e o segundo visou confirmar a estrutura fatorial observada no primeiro estudo, bem como trazer evidências complementares de sua validade convergente.

O Estudo 1 verificou empiricamente a estrutura fatorial da EPAPP. Apesar do instrumento ter sido desenvolvido com base em quatro dimensões (isolamento; controle da vida da vítima; abuso emocional; e imposição do próprio pensamento), os resultados da análise paralela demonstraram melhor adequação a uma dimensão bifatorial. O primeiro fator agrupa os itens do fator hipotético nomeado de “Abuso emocional”. No entanto, um item do componente isolamento se agrupou ao fator Abuso emocional (item 11: Há algum tempo ele pede que ela não fale sobre o relacionamento dos dois para outras pessoas, mesmo que sejam amigos ou familiares dela). Isso pode ter ocorrido por ele ter uma conotação sutil do abuso psicológico, ao utilizar-se o verbo “pede”, pode sugerir que o agressor não está fazendo uma imposição. Ou seja, por mais que tenhamos contado com a colaboração de três juízes na construção dos itens, ainda carecia de uma revisão semântica mais aprofundada para revisão do termo.

No que se refere ao segundo fator, houve o agrupamento dos demais fatores hipotetizados, pois exprimem uma ideia de imposição, sendo considerado um abuso mais flagrante ou de maior intensidade, porque representam comportamentos de controle da vida da vítima. Assim, esse fator foi nomeado de “Abuso de controle”. Além da nova estrutura fatorial observada empiricamente, o Estudo 1 também apontou a exclusão de alguns itens. Os itens 6, 7 e 10 apresentaram baixas cargas fatoriais. Os itens 6 e 10 diziam respeito ao abuso digital no relacionamento e a literatura aponta que essa forma de abuso é frequentemente reproduzida em jovens, que representam a amostra do Estudo 1 deste artigo. Assim sendo, esse tipo de abuso pode estar sendo naturalizado, o que implica na percepção que não seja um comportamento abusivo (Fernández-Antelo, Cuadrado-Gordillo, & Parra, 2020). Víllora, Navarro e Yubero (2019) explicam que isso ocorre justamente por uma naturalização dos comportamentos de controle e monitoramento e, por essa razão, o abuso digital acaba se tornando comum nas relações amorosas, não sendo percebido como algo abusivo.

Já o item 7 (“Eles vêm fazendo uma poupança para fazer uma viagem, mas ele decidiu comprar um carro sem combinar com ela”) também pode não ter sido entendido como uma forma de abuso contra a parceira, já que exprime uma ideia de papéis de gênero fortemente aceita, que é representada pelo controle financeiro do homem sobre as decisões do casal (Postmus, Hoge, Breckenridge, Sharp-Jeffs, & Chung, 2020). Os resultados apontaram também a existência de cargas fatoriais cruzadas no item 19 (“Muitas vezes, depois de uma discussão, ele diz que ela deveria agradecer porque ele não bate nela”), que compara o abuso físico ao psicológico, o que supostamente pode tê-lo tornado ambíguo.

Por fim, no que diz respeito aos índices de ajuste da medida, verificaram-se bons indicadores (RMSEA<0,05; CFI>0,90; TLI>0,99; e H-index>0,90; Ferrando & Lorenzo-Seva, 2018), além de bons indicadores de consistência interna (Pasquali, 2012). Essa estrutura foi confirmada no Estudo 2, por meio da comparação do modelo bifatorial com unifatorial e tetrafatorial.

Ademais, apesar do sexismo ambivalente ser um constructo amplamente utilizado no estudo acerca da violência contra as mulheres (Marcos et al., 2020; Marques-Fagundes et al., 2015; Yang et al., 2023), os resultados indicam uma baixa correlação entre o instrumento desenvolvido e o sexismo ambivalente. Isso pode ter ocorrido devido ao perfil amostral do segundo estudo, que foi composto em sua maioria por mulheres. De acordo com Mesquita Filho et al. (2018), a adesão ao sexismo varia de acordo com o gênero e o nível de escolaridade dos sujeitos, sendo as mulheres e os universitários os que endossam menos esse constructo.

O perfil amostral também pode ser listado como uma das limitações deste trabalho, pois houve uma concentração em um perfil jovem e, em sua maioria, com ensino superior, não sendo, portanto, representativo da população geral. Sugerimos que estudos futuros desenvolvam investigações com outro perfil amostral, ampliando também para a população geral. Ademais, apesar de o Estudo 1 apresentar uma distribuição mais equilibrada entre os gêneros, o Estudo 2 foi composto em sua maioria por mulheres, e sabemos que esse constructo está sujeito à influência do gênero, pois as mulheres tendem a perceber mais violências perpetradas contra elas do que os homens (Paiva & Tavares, 2020), além disso, os homens tendem a aceitar mais o abuso psicológico dentro dos relacionamentos em comparação com as mulheres (Capezza, D’Intino, Flynn, & Arriaga, 2021). Apesar de não haver evidências psicométricas de que nosso instrumento sofreu influência do gênero, sugerimos que estudos futuros investiguem este aspecto.

Ademais, a escala tem um viés heteronormativo, já que os itens retratam uma relação heterossexual. No entanto, a literatura aponta que o abuso emocional contra a(o) parceira(o) não ocorre somente nessa configuração de relacionamento (Ghinassi, Ponti, & Tani, 2021). Assim, é importante ressaltar a importância de que estudos futuros adaptem o instrumento aqui apresentado para relações homoafetivas também.

Por fim, cabe destacar que, apesar dessas limitações, o presente instrumento demonstrou bons índices de ajuste psicométrico em ambos os estudos apresentados. Além disso, traz uma nova perspectiva para a compreensão do abuso psicológico contra a parceira, já que é um instrumento que descentraliza as investigações da vítima e do agressor, trazendo uma nova ótica para a compreensão do que as pessoas consideram ser um comportamento psicologicamente abusivo em um relacionamento.

A EPAPP é um instrumento que possibilita a investigação da percepção do abuso psicológico sem a implicação pessoal do respondente. As perguntas indiretas do que o sujeito acredita ser um comportamento abusivo em um relacionamento que não o seu propriamente dito possibilitam a investigação de uma forma mais indireta desse constructo. Sugerimos que estudos futuros trabalhem com a rede de apoio das vítimas, analisando a percepção do abuso psicológico em policiais e delegados(as) das delegacias da mulher, que trabalham em contato direto com as vítimas dessa violência. Por fim, acreditamos que os futuros estudos, desenvolvidos com o suporte do presente instrumento, possam ampliar e aprimorar novas políticas públicas e educacionais de intervenção contra a violência psicológica em relacionamentos amorosos.

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Recebido: 14 de Abril de 2023; Aceito: 27 de Outubro de 2023

Endereço para envio de correspondência: Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Jardim Cidade Universitária. CEP: 58033-455. João Pessoa - PB. Brasil

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