Introdução
Tornar-se consciente da branquitude1 e reconhecer os efeitos, simbólicos e materiais, que ela causa às pessoas brancas e não brancas é uma atitude primordial para quem deseja colaborar com o giro decolonial2 e com as lutas antirracistas (Conselho Federal de Psicologia, 2022). O resgate da memória histórica nos mostra que a Psicologia brasileira, como herdeira do projeto modernidade-colonialidade foi e continua sendo um espaço ocupado predominantemente por pessoas brancas (Oliveira, 2020). Decorre disso a importância de repensar as relações raciais e os atravessamentos da branquitude em todas as áreas e contextos de atuação.
Em 2022, o CensoPsi, realizado com mais de 20.000 psicólogas(os), confirmou essa tradição mostrando que a Psicologia no Brasil é uma carreira dominada por mulheres brancas, embora, paradoxalmente, a distribuição da renda privilegie os homens, havendo uma prevalência deles no estrato mais alto de rendimentos mensais. Além disso, o levantamento mostrou que mulheres não brancas têm renda inferior às mulheres brancas (Carvalho-Freitas, Bentevi, & Sandall, 2022; Sandall, Queiroga, & Gondim, 2022). Tais indicadores nos alertam para uma dinâmica recorrente de desigualdades raciais e de gênero que precisa ser problematizada.
Estudos críticos da branquitude que tensionem a dominação racial na psicologia brasileira são relativamente recentes. O tema ganha destaque nas discussões científicas e profissionais a partir dos anos 2000. A cronologia histórica revela um movimento lento, mas crescente3. Apesar de avanços teóricos e normativos serem visíveis, especialmente após 2010, a formação acadêmica ainda reflete um modelo universalista e colonial. Na contemporaneidade, ciência e profissão, enfrentam o desafio de traduzir críticas à branquitude em práticas antirracistas concretas (Ramos & Carvalho, 2022; 2024).
Por desconhecimento ou omissão proposital, a Psicologia brasileira não questionou, por muito tempo, o papel de psicólogas(os) brancas(os) na manutenção e reprodução das desigualdades raciais - no ensino, na pesquisa e nas práticas profissionais - perpetuando a falsa ideia de que o racismo é um problema apenas para quem não é branco. A literatura recente aponta que a branquitude é mais do que um marcador racial; é parte estruturante de um sistema de poder colonial que influencia desde a produção teórica até as práticas clínicas (Conceição, 2024; Lyra et al., 2023; Ramos & Carvalho, 2022; 2024; Schucman & Cordeiro, 2024).
Cientes da necessidade de debater o tema, este ensaio, se propõe a problematizar os efeitos da branquitude na ciência psicológica e na profissão, e anunciar caminhos possíveis de se trilhar nas lutas por reparação e justiça social. O fio condutor que orientou a argumentação foi o pensamento decolonial e o compromisso ético-político da Psicologia brasileira com as lutas antirracistas. Desejamos com este texto colaborar com o processo de conscientização4 e de letramento racial de quem faz psicologia no Brasil.
Marcadores históricos da Psicologia brasileira a partir da crítica decolonial
Pensar a Psicologia brasileira a partir das lentes decoloniais requer uma consciência histórica menos ingênua e mais crítica. Somos convidadas(os) a refletir criticamente sobre a História, considerando primeiramente de qual lugar e por quem ela é contada5, se de um lugar de hegemonia/dominação ou da subalternidade6 (Lima & Malcher, 2019). Além disso, os estudos decoloniais denunciam os efeitos da colonialidade7 na sociedade moderna (Pereira, Gonçalves, Silva, & Eckhardt, 2022). Num processo contínuo de reflexão-ação, a crítica decolonial confronta o pensamento hegemônico e universalizante que o projeto modernidade-colonialidade nos impõe, e serve como ferramenta de luta para pluriversalizar os modos de ser e estar no mundo (Carvalhaes & Lima, 2020).
O pensamento decolonial nos torna conscientes de que, desde a colonização do continente americano, vivemos sob a influência de um modelo hegemônico de vida e produção, que nos impõe a exploração do trabalho e a servidão contemporânea, a degradação da natureza e a inferiorização de seres humanos e não humanos. As lentes decoloniais nos permitem enxergar que a América Latina não foi descoberta, mas invadida, riquezas foram roubadas, culturas silenciadas e pessoas não brancas subalternizadas e escravizadas (Mignolo, 2017).
Indagar acerca da História da Psicologia a partir da crítica decolonial nos leva a reconhecer a húbris do ponto-zero8, na qual a identidade hegemônica e universal do “homem moderno” se constrói. Erguida a partir de paradigmas eurocêntricos e norte-americanos do século XIX, a Psicologia moderna funciona como uma engrenagem da matriz de poder colonial ao elaborar teorias com base em um modelo normativo de humanidade que exclui a diversidade (Dimenstein, Silva, Dantas, Leite, & Macedo, 2022). Apesar dos avanços na crítica a essa normatividade, ainda há lacunas na aplicação de políticas antirracistas concretas na formação profissional e na assistência à população negra, indígena e periférica, por exemplo.
O ideal de ser humano apresentado como universal é, ao contrário, bem específico: homem, europeu, branco, cristão, monogâmico, cisgênero, dotado de civilidade e racionalidade moderna, que se coloca como trabalhador, empreendedor e possuidor de algum bem (Alves & Demonlez, 2015; Lima & Malcher, 2019). Ao naturalizar tais características, a Psicologia reproduz hierarquias coloniais e invisibiliza experiências de grupos e pessoas que divergem desse padrão. Testes psicológicos baseados em normativas brancas, escassez de abordagens interseccionais e patologização de sofrimentos gerados pelo racismo exemplificam lógicas universalizantes (Lyra et al., 2023). No Brasil, a ideia de humanidade e de psiquismo humano universal ainda predomina entre diferentes grupos étnico-raciais.
Cursos de Psicologia raramente incluem nas grades curriculares o tema raça e racismo nas disciplinas obrigatórias (Navasconi, 2023; Ramos & Carvalho, 2022; 2024). A inferiorização de saberes não brancos, fundamentada no epistemicídio, é outra prática recorrente, que acontece pelo apagamento de intelectualidades indígenas e dos povos africanos. Essa negação da diversidade epistemológica deixou marcas profundas na sociedade e na Psicologia brasileira, e tem como consequência a reprodução de violências e desigualdades históricas (Longhini, 2023).
Na prática, são psicólogas(os) brancas(os) que atuam profissionalmente e problematizam cientificamente sobre os corpos geopoliticamente subalternizados, sobretudo negros e indígenas, ao mesmo tempo que se calam a respeito dos privilégios dos corpos brancos. Essa herança colonial entrega à sociedade brasileira e ao mercado de trabalho profissionais da Psicologia sem preparo adequado para lidar com questões psicológicas e seus atravessamentos raciais (Ramos & Carvalho, 2024). Romper o histórico de dominação e avançar no entendimento das relações étnico-raciais é uma necessidade urgente. Diante das circunstâncias, o debate acerca da branquitude na psicologia brasileira mostra-se indispensável.
Branquitude, mito da democracia racial e construção das identidades raciais de pessoas brancas e não brancas
Quem deseja se engajar no movimento decolonial e nas lutas antirracistas, sobretudo a partir da Psicologia brasileira, precisa ser capaz de reconhecer os efeitos da branquitude na ciência e na profissão (Conselho Federal de Psicologia, 2022; Lyra et al., 2023; Meireles, Feldmann, Silva Cantares, Nogueira, & Guzzo, 2019). Por ser uma temática marcada por relações de dominação, o debate pode ser feito a partir de várias perspectivas.
Neste ensaio, optamos por discutir o tema a partir do pensamento decolonial e do campo de estudos étnico-raciais. As reflexões críticas das psicólogas Cida Bento, Lia Schucman e Geni Núñez e do cientista social Lourenço Cardoso serviram de bússola para a construção de uma argumentação intercultural sobre o tema.
Foram consultados os estudos de revisão e estado da arte conduzidos por Márcia Ribeiro Ramos e Liandra Lima de Carvalho (2022; 2024) e por Marllon Nascimento Conceição (2024), assim como dossiês e coletâneas da Psicologia e das ciências humanas e sociais9 publicados nos últimos cinco anos. Utilizamos preferencialmente literatura nacional, embora autores e autoras de outras nacionalidades sejam mencionados.
Para começar, ressaltamos que quando falamos de branquitude não estamos nos referindo, simplesmente, às pessoas brancas. O conceito branquitude é amplo e heterogêneo. Em síntese, refere-se a um lugar de poder e de vantagem estrutural numa sociedade que se organiza e funciona a partir da dominação racial. A branquitude é “uma ideologia, são valores, ideias que colocam o branco como o ideal de beleza, o ideal de civilização, o ideal de racionalidade, o ideal intelectual” (Schucman & Silva, 2022, p. 32). Como fenômeno psicossocial, ela é consequência da relação colonial, que legou determinada configuração à subjetividade e orientou lugares sociais para brancos e não brancos. A branquitude, como matriz de poder colonial, confere privilégios simbólicos e materiais para seres humanos considerados brancos, queiram eles ou não (Bento, 2022; Cardoso; 2010; 2017; Núñez, 2023b; Longhini, 2023; Schucman, 2018).
Para Cida Bento, o campo de estudos sobre a branquitude pode ser organizado em ondas. A primeira delas data do século XIX, quando intelectuais negros começaram a descrever e questionar as estruturas da supremacia branca nos Estados Unidos. Na sequência, os estudos se deslocaram da esfera individual para a análise de discurso que torna a branquitude invisível. Nessa perspectiva, exemplos de privilégios de pessoas brancas, como a ampla representação em programas de TV e revistas começam a ser problematizados. Numa terceira onda, os estudos da branquitude buscam evidenciar as reações de pessoas brancas diante do aumento da presença de pessoas não brancas, especialmente negras, em lugares antes frequentados só por brancos. Na contemporaneidade os estudos se posicionam de modo crítico e político, denunciando a apropriação dos bens materiais e simbólicos pelos brancos e exigindo justiça e reparação (Bento, 2022).
Lourenço Cardoso problematiza a branquitude a partir de suas diferentes formas de manifestação. Resumidamente, a branquitude crítica diz do indivíduo ou grupo branco que desaprova publicamente o racismo, mas raramente reconhece ou está disposto a abrir mão dos privilégios da identidade racial branca, e, no espaço privado, tem liberdade para reproduzir ironias mascaradas. Já a branquitude acrítica refere-se a quem sustenta o argumento em prol da superioridade racial branca. São representados por pessoas ou grupos que, direta ou indiretamente, propagam superioridade e pureza racial branca (Cardoso, 2010; 2017).
No Brasil, a maioria dos estudos concentra-se em abordar a branquitude crítica, debatendo as contradições entre o discurso público contrário ao racismo e as práticas racistas cotidianas presentes nas relações pessoais e nas instituições, em sintonia com o mito da democracia racial10 (Carreira, 2018). A branquitude crítica também tem sido pensada como uma maneira da pessoa branca estar no mundo, como aliada na luta antirracista, mas que apresenta contradições performativas em suas condutas. A construção de uma branquitude crítica e antirracista perpassa afetos como a vergonha, a negação e a responsabilização (Colantoni, 2024; Kilomba, 2019).
Diversas vertentes teóricas convergem ao afirmar que a branquitude, enquanto identidade racial, expressa-se de maneiras variadas, assim como as dinâmicas racistas se desdobram em múltiplas dimensões sociais. A maleabilidade da identidade racial branca lhe dá condições de inventar estratégias sutis e/ou explícitas de manifestação do racismo (Cardoso, 2010; 2017; Gomes, 2021; Schucman, 2018). Por isso, pessoas brancas demonstram dificuldades de verem a si próprias como racializadas, como seres que têm uma perspectiva racial em suas interações sociais.
A noção de ‘salário psicológico’11 configura-se como um mecanismo essencial para entender como o racismo estrutura relações econômicas e também identidades e subjetividades. Essa dimensão da branquitude sustenta fenômenos como o mito da democracia racial brasileira, evidenciando, por exemplo, como indivíduos da pele clara, nas diferentes classes sociais, usufruem de privilégios simbólicos, por serem pessoas brancas, mesmo sem recursos materiais. No Brasil, o mito da democracia racial e da meritocracia servem para invisibilizar o racismo cotidiano, ao permitir que brancos atribuam suas ‘conquistas’ ao mérito individual, mascarando estruturas históricas de opressão que perpetuam desigualdades (Bento, 2022; Schucman & Cordeiro, 2024).
As diferentes nuances da identidade branca permitem a quem é considerado branco a negação da existência do racismo, a apropriação de espaços de discussão racial sem confrontar privilégios, e a manutenção de hierarquias por meio de classificações raciais flexíveis que sempre beneficiam corpos considerados brancos (Gomes, 2021). Essas estratégias sustentam a estrutura racista que normaliza a supremacia branca, mesmo na ausência de identidades raciais fixas.
Os efeitos da branquitude são visíveis nas relações profissionais e se expressam na baixa representatividade de pessoas não brancas em espaços de chefia, gerência, liderança e presidência. Quando acontece, serve para reforçar o mito da democracia racial e o discurso da meritocracia, especialmente em ambientes corporativos (Conceição, 2024).
Numa perspectiva indígena guarani, a branquitude revela a face oculta do humanismo. É uma ideologia que perpetua violências etnogenocidas e ecocidas (Longhini, 2023). A lógica da propriedade privada e da conquista do outro são estruturantes do processo identitário da supremacia branca colonial. Para além da exploração capitalista racializada contra pessoas não brancas, os efeitos da branquitude se expandem contra os rios, as matas, os demais bichos. Na dinâmica das relações sociais, pessoas brancas acreditam no mérito pessoal de suas conquistas, enquanto pessoas não brancas se constroem a partir de sentimentos de inferioridade, e seres não humanos são tratados como recursos (Núñez, 2023b).
Pesquisas em Psicologia têm mostrado que um padrão racista da branquitude é inferiorizar a estética negra (Chaveiro, 2020; 2023). Em resistência a esse comportamento, pessoas negras no país estão dedicando suas lutas diárias ao fortalecimento da autoestima e da estética africana em crianças negras, a fim de impedir que as próximas gerações tenham feridas coloniais relacionadas à sua própria corporeidade.
Adicionalmente, a produção científica da área destaca alguns eixos comuns de problematização que aglutinam as discussões. Existe o interesse em entender como a branquitude atua como norma invisível em práticas clínicas, teorias e diagnósticos (Schucman & Gonçalves, 2020). Reflorestar a monocultura do pensamento psicológico, confrontar a lógica da propriedade privada, descolonizar afetos e valorizar práticas terapêuticas ancestrais são temas discutidos a partir da perspectiva indígena (Longhini, 2023; Núñez, 2023a; 2023b).
Outra linha de debate problematiza o racismo estrutural e as hierarquias de poder em instituições como empresas, universidades e clínicas, onde a sub-representação de psicólogas(os) negras(os) em liderança ilustra dinâmicas racistas (Conceição, 2024). Para o enfrentamento da branquitude na Psicologia brasileira, a proposição de abordagens antirracistas, decoloniais e interseccionais são temáticas recorrentes (Queiroz & Araújo, 2024), assim como discussões sobre os impactos na saúde mental e o silenciamento de sofrimentos raciais em contextos clínicos (Faustino & Rosa, 2023; Lanza, 2021; Silva & Carneiro, 2023; Tavares & Trad, 2021).
A reformulação de currículos acadêmicos e a consolidação de políticas públicas e ações afirmativas são amplamente recomendadas (Meireles et al., 2019; Ribeiro, 2023). Nessa direção, o envolvimento dos conselhos de psicologia12 tem sido fundamental para impulsionar as reflexões étnico-raciais e inserir a pauta do combate ao racismo de maneira definitiva nas práticas psicológicas (Ramos & Carvalho, 2024).
Psicólogas(os) brasileiras(os) são encorajadas(os) a iniciar o processo de letramento racial (Meireles et al., 2019). Para que uma pessoa branca possa se libertar de seus complexos de superioridade, torna-se imprescindível a conscientização acerca das consequências da branquitude em sua própria construção subjetiva. Já pessoas não brancas precisam ser encorajadas a romper a máscara do silenciamento e se libertarem do conjunto de complexos de inferioridade germinados a partir do ideal da branquitude. Nesse caminho, vislumbrar possibilidades de reparação é um passo necessário.
Reparação como horizonte: caminhos possíveis
Transcorridos 60 anos da regulamentação da profissão no país, é possível afirmar que a Psicologia, como ciência e profissão, continua sendo um território ocupado majoritariamente por pessoas brancas (Sandall et al., 2022), sendo, portanto, um ambiente acadêmico e profissional racializado. Em outras palavras, os espaços de formação, de construção do conhecimento científico e de atuação profissional ainda reproduzem a matriz de poder colonial e a supremacia racial branca.
Partindo de um posicionamento antirracista e decolonial, antes de iniciar as lutas por reparação, psicólogas(os) brasileiras(os), majoritariamente pessoas brancas, necessitam reconhecer os privilégios que possuem e combater as manifestações do racismo sutil na vida cotidiana (Carreira, 2018). Incomodar-se com a predominância de corpos brancos, sobretudo de homens, nos espaços de poder e liderança e reconhecer que se trata de privilégios de raça (e de gênero) faz parte do processo de letramento racial (Conceição, 2024; Meireles et al., 2019). Tornar-se consciente dos privilégios da branquitude implica assumir o compromisso na desconstrução do racismo e ocupar um lugar de desconforto necessário e permanente13.
Entender que a neutralidade do conhecimento psicológico é ilusória e que há um lugar de enunciação hegemônico que invisibiliza saberes subalternos é um passo importante para a reparação. Combater os efeitos nocivos da branquitude, nos diferentes eixos de atuação, é uma dívida histórica da Psicologia brasileira.
Corpos brancos na luta antirracista importam, mas como parceiros políticos de uma construção protagonizada por quem historicamente sofre as consequências do racismo (Carreira, 2018). Nesse processo, recomenda-se construir alianças para produção de conhecimento heterogêneo e para criar canais de comunicação intercultural, sem usurpar o protagonismo intelectual.
Vozes decoloniais devem emergir para denunciar situações de dominação e opressão perpetuadas desde a colonização até os dias atuais, e para anunciar seus modos de ser e reexistir (Dimenstein et al., 2022). A Psicologia brasileira é encorajada a dialogar com saberes quilombolas, indígenas e periféricos, rompendo com o ideal burguês de humanidade. Conceitos europeus e norte-americanos precisam ser questionados, porque, por mais bem traduzidos que estejam, não refletem diretamente as realidades multiculturais da população brasileira, além de servir como instrumento de controle e dominação colonial (Santos, 2023; Núñez, 2023b).
O vocabulário decolonial14 é considerado um modo de enfrentamento à branquitude. Para Nego Bispo, liderança quilombola, a arte de nominar é a arte de dominar (Santos, 2023). Enquanto a branquitude fala em progresso e desenvolvimento, a palavra-flecha ecoa reexistência e reparação. Decolonizar a linguagem psicológica é essencial para romper a universalização de padrões culturais brancos.
Nessa direção, um significativo caminho para a reparação seria criar espaços formativos para docentes, intelectuais e profissionais brancas(os) da Psicologia refletirem sobre suas práticas discursivas, na escrita ou na fala, percebendo como ainda estão reproduzindo racismo por se colocarem no lugar de privilégio de, supostamente, não precisarem conhecer sobre relações étnico-raciais (Meireles et al., 2019). Expressões pejorativas são desferidas a todo momento, até mesmo na elaboração de artigos científicos em Psicologia, fortalecendo as narrativas coloniais de suposta superioridade eurocêntrica. Essas práticas, quando acessadas por pessoas negras ou indígenas, atuam na constituição de autoestima e deixam marcas subjetivas muito profundas de dor e sofrimento.
Sabendo disso, faz-se necessário impulsionar problematizações acerca de termos como: mulata, moreno, índio, tupiniquim, desumano, beleza exótica, negro de traços finos, cabelo ruim, denegrir (em sentido pejorativo), mercado negro, serviço de preto, a coisa está preta, inveja branca etc. Esses são alguns exemplos de expressões de conotação racista, as quais perpetuam uma dinâmica de relação de poder em que brancos são tidos como superiores em comparação às pessoas negras, indígenas e seres não humanos.
Além disso, a reparação dos efeitos da branquitude na psicologia brasileira perpassa pela consolidação de políticas públicas, nos moldes da a Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, conhecida como Lei de Cotas. Ações afirmativas são instrumentos potentes, pois garantem a diversidade e inclusão de pessoas negras, indígenas, pessoas com deficiência e estudantes de baixa renda nas universidades e, posteriormente, em ambientes profissionais, em funções de poder e liderança.
Especificamente em relação às ações de acesso ao ensino superior, elas deveriam garantir não só a inserção e permanência de estudantes de graduação, mas também de professoras(es) negras(os) e indígenas integrando o corpo docente de universidades pelo país, promovendo o protagonismo e trazendo direcionamento epistemológico para práticas de ensino e pesquisas sobre teorias africanas e indígenas, por exemplo.
Assim, para que a formação em Psicologia abandone os moldes coloniais, torna-se imprescindível que a política de cotas seja refletida no interior dos cursos, não somente entre os estudantes. Desse modo, estudantes e futuras(os) psicólogas(os) negras(os) e indígenas não sofreriam com o racismo institucional; pelo contrário, teriam melhores condições para finalizar o curso e se inserir no mundo do trabalho, tendo psicologias plurais e o pensamento decolonial como ferramentas de luta.
Enquanto a representatividade racial não é alcançada na estrutura dos cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia no Brasil, psicólogas(os) brancas(os), responsáveis pela formação e produção científica, são fortemente encorajadas(os) a romper o apagamento epistemológico produzido pelo domínio de teorias e metodologias do Norte Global, as quais se pretendem universais. É imprescindível que ecoe o pluriversal e transcultural desde a elaboração dos planos de curso, passando pela escolha das bibliografias15 e dos exemplos citados em sala de aula, deslocando-se das posições eurocêntricas e estadunidenses e abrindo espaço de escuta para teorias-outras, deixando que os discursos produzidos nas margens afetem a textura do pensamento psicológico brasileiro (Carvalhaes & Lima, 2020; Oliveira, 2020).
Qualificar a escuta clínica de psicólogas(os) brancas(os) e garantir a presença de psicólogas(os) negras(os) e indígenas nos ambientes de atuação profissional são possibilidades de enfrentamento à branquitude. Conceitos como lócus de enunciação, lugar geopolítico e corpo-político do conhecimento, lugar de fala e interseccionalidade são considerados chave para qualificar o olhar, a escuta e a prática psicológica, em todas as áreas (Rosa & Alves, 2020).
Distinguir os efeitos psicológicos da branquitude para pessoas brancas e não brancas é um conhecimento central para práticas psicológicas antirracistas. Quem tem a identidade racial branca conduz sua vida como norma, algo natural e universal num lugar confortável, às vezes incômodo, de vantagem social. Em contrapartida, corpos não brancos vivenciam cotidianamente os efeitos nocivos da branquitude, gerando sentimentos de inferioridade, culpa, humilhação e angústia (Meireles et al., 2019).
Para exemplificar, a Psicologia clínica africana é uma perspectiva que reconhece e aborda aspectos das relações étnico-raciais durante o processo terapêutico, considerando raça como estruturante para a constituição da subjetividade de todas as pessoas. Desse modo, pessoas negras são atendidas por psicoterapeutas negras(os), a partir de metodologias e epistemologias afrocentradas, as quais buscam a autonomia e emancipação (Chaveiro, 2024).
Já no campo científico é preciso se posicionar politicamente e repensar o eurocentrismo epistêmico e o paradigma da neutralidade científica (Dimenstein et al., 2022). Metodologias-outras baseadas em epistemologias do Sul são incentivadas como estratégia para dar visibilidade aos saberes geopoliticamente subalternizados. A literatura decolonial sugere sentir-pensar a pesquisa como algo mais parecido com arte do que com técnica (Dulci & Malheiros, 2021).
Especificamente em relação à produção de conhecimento sobre branquitude, pesquisas que tenham como objetivo denunciar e combater práticas discursivas racistas em nosso cotidiano são recomendadas. Esse caminho justifica-se, pois um dos privilégios ostentados pela branquitude é o de que pessoas brancas não precisam conhecer sobre relações étnico-raciais, haja vista que são e se consideram como seres universais (Schucman, 2014). Dessa forma, a ausência de letramento racial em psicólogas(os) brancas(os) possibilita que inúmeras situações de racismo sejam reproduzidas diariamente por elas. Segundo Grada Kilomba, esse é um privilégio “. . . que nem todos nós temos. Mas não é só que não se sabe. Mas que se tem o poder de não ter que saber” (Kilomba, 2019, p. 20).
Diante disso, é fundamental que psicólogas(os) brancas(os) e não brancas(os) se aproximem dos movimentos sociais brasileiros para compreender suas pautas e dialogar com seus conhecimentos contracoloniais (Ramos & Carvalho, 2022; 2024). Essa aproximação representa um caminho reparador, uma vez que o desconhecimento sustenta a reprodução de estereótipos raciais e do racismo estrutural, institucional e recreativo nas práticas psicológicas.
Para psicólogas(os) brancas(os), outra dimensão fundamental no processo de reparação consiste em aprender a confrontar conscientemente a desigualdade social produzida pela branquitude. Isso exige reconhecer que privilégios materiais e simbólicos usufruídos por pessoas brancas são construídos a partir da negação de direitos e oportunidades aos corpos não brancos. Assimilar essa dinâmica de espoliação histórica representa um desafio emocional complexo, conforme apontam Meireles et al. (2019), pois implica lidar com o peso ético de privilégios herdados. Nesse contexto, estratégias de reparação financeira, como a doação de parte da renda a fundos coletivos antirracistas16 emergem como práticas reparativas que materializam a redistribuição concreta de recursos, rompendo com a lógica de acumulação racializada que sustenta a branquitude.
Pela complexidade dos efeitos, reparar os danos da branquitude na psicologia brasileira requer mais do que reconhecimento teórico, demanda práticas antirracistas efetivas. Diante disso, desvelar mecanismos sutis e explícitos de sua manifestação e confrontar violências racistas por ela naturalizadas torna-se imprescindível para profissionais e pesquisadoras(es) da Psicologia comprometidas(os) com a justiça social e o giro decolonial.
Para (não) concluir
Neste ensaio refletimos sobre a branquitude na Psicologia brasileira a partir da crítica decolonial. Enfatizamos que a dinâmica da branquitude como produtora de injustiças e violências estruturais precisa ser denunciada e combatida, jamais naturalizada, numa luta esperançosa e sem trégua.
Nossas reflexões partiram de uma aliança acadêmica para a produção de conhecimento heterogêneo. Convergiram para a escrita deste texto, como uma experiência polifônica, as inquietações raciais de uma mulher branca, psicóloga-docente, com pós-doutorado em Psicologia social e do trabalho; as lutas antirracistas de uma mulher preta, psicóloga-docente, doutora em estudos étnico-raciais; e as reflexões críticas de um homem branco, psicólogo-docente, supervisor de pós-doutorado em psicologia social e do trabalho.
Confluímos com o movimento intelectual comprometido com as lutas históricas do nosso tempo17. Munida da crítica decolonial, acreditamos que a Psicologia brasileira se instrumentaliza para confrontar modos de vida injustos e opressores; e para lutar por mundos e existências plurais, em que a liberdade, a dignidade e o bem viver não sejam privilégios de pessoas brancas.
Em termos práticos, este ensaio buscou contribuir com o processo de conscientização de psicólogas(os) brasileiras(os), a partir do debate da branquitude. Contudo, reconhecemos que transformar crítica em ação não é uma tarefa simples, pois demanda o abandono de uma posição confortável de privilégio e o confronto direto com epistemologias hegemônicas que sustentam hierarquias sociais.
Ecoamos a urgência do letramento racial de pessoas brancas na Psicologia brasileira para que consigam repensar as relações étnico-raciais e os atravessamentos da branquitude em todas as áreas e contextos de atuação, abandonando práticas racistas em seus vários formatos. Com este texto, fortalecemos o compromisso de ampliar os espaços para que pensadores não brancos assumam lugares na academia para o resgate e transmissão de seus saberes. Entendemos que o modelo colonial eurocentrado, o qual ainda têm maior espaço na Psicologia brasileira, precisa ser reformulado.
Defendemos que futuros avanços em termos de reparação e justiça social somente serão alcançados por meio do fortalecimento e elaboração de novas políticas públicas, a fim de que os saberes e práticas de povos negros e indígenas sejam realmente incorporados em espaços de produção do conhecimento científico e de formação profissional de maneira transversal, e não como recorte. Finalizamos com a esperança de colaborar com o giro decolonial e o letramento racial de quem ensina, atua e pesquisa Psicologia no Brasil.














