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Construção psicopedagógica

versão impressa ISSN 1415-6954

Constr. psicopedag. v.15 n.12 São Paulo dez. 2007

 

RELATOS DE EXPERIÊNCIAS E PESQUISAS

 

Intervenção psicopedagógica institucional - os heróis e a busca da alteridade: aprendizagem em sala de aula*

 

 

Bruna Puglisi de Assumpção Cardoso**

Instituto Sedes Sapientiae

 

 


RESUMO

Este artigo tem como objetivo apresentar os dados obtidos a partir de uma pesquisa-intervenção, com enfoque psicopedagógico, desenvolvida no contexto de sala de aula de uma escola particular, nas aulas de Linguagem e Filosofia. Refere-se às dinâmicas com crianças de seis e sete anos da Educação Infantil, utiliza as mediações de sensibilizações, associações de imagens e contos de heróis e leva em consideração os significados que as crianças atribuem aos heróis contemporâneos. Em termos de metodologia, a pesquisa foi realizada por meio de discussões em grupo, promovidas com as crianças. As intervenções ocorreram, simultaneamente, a fim de permitir que as crianças refletissem sobre o assunto durante o processo. As leituras dos dados e reflexões fundamentam-se na abordagem junguiana sobre os arquétipos e os mitos dos heróis de uma cultura. A proposta consiste em ampliar a consciência das crianças sobre o que elas valorizam em relação às condições humanas, projetadas nos heróis.

Palavras-chave: Psicopedagogia Institucional, Escola, Heróis, Dinâmica matriarcal, Dinâmica patriarcal, Inconsciente coletivo, Alteridade, Arquétipos, Significados, Sentidos, Ampliação da consciência


ABSTRACT

The main purpose of this article is to present data based on an intervention survey, focused on the application of experimental psychopedagogy in a private classroom context, during Language and Philosophy classes. It refers to group dynamics with Child Education children ranging from 6 to 7 years of age, using as mediators sensitizations, image associations and hero tales, taking into consideration the signification children attribute to contemporary heroes. In terms of methodology, the research was based on group discussions held with such children. Interventions took place simultaneously, so that the children could think about the subject during the process. The readings of data and considerations are based on the jungian approach to hero archetypes and myths of a determined culture. The proposition of such dynamics is to increase the child's conscience of what it values in relation to the human condition projected in such heroes.

Keywords: Institutional Psychopedagogy, School, Heroes, Matriarchal dynamics, Patriarchal dynamics, Collective unconscious, Alterity, Archetypes, Signification, Senses, Conscience amplification


 

 

Introdução

No momento contemporâneo, observa-se que a cultura e as instituições se encontram num momento de transição em relação aos valores. Neste trânsito são relevantes as reflexões frente às mudanças de valores, sentimentos e pensamentos associados às alterações das características próprias da dinâmica patriarcal, que são gradativamente substituídas ou ampliadas pelos valores relativos à dinâmica matriarcal e às qualidades atribuídas ao feminino.

Nos estudos fundamentados em Jung e em outras reflexões antropológicas sobre a modernidade e a cultura contemporânea realizadas por autores como Byington (1996) e Fagali (2001), são abordadas as tendências crescentes do resgate dos rituais em que se valorizam as características associadas ao que Jung (2007) denomina de arquétipo feminino e da Grande Mãe. Estes são valores associados à relação amorosa, à relação horizontal de cooperação, à importância dos sentimentos e da sensibilidade, assim como aos valores e processos cognitivos relacionados à intuição e ao imaginário. Algumas destas tendências buscam as complementações das características patriarcais e masculinas com as matriarcais e femininas, articulando o pensamento lógico e científico com a intuição, a objetividade com a subjetividade, a relação de poder e competição com a cooperação, a coragem e ação da força guerreira com a sensibilidade e a criatividade do herói com características femininas.

Essa busca da complementaridade entre os opostos, ou seja, o movimento da alteridade em relação às características do patriarcado e do matriarcado e às qualidades femininas (prazer, intimidade, ludicidade e espontaneidade, acolhimento, confiança, entrega, descentralização, cooperação, parceria e relações afetivas) e masculinas (a competição, o desafio, a força, a organização, a auto-suficiência e a racionalidade), é um dos desafios do processo de aprender na nossa cultura contemporânea, na tentativa de não polarizar ou radicalizar o pensamento, sentimento e ação das pessoas para uma única direção. A procura pela integração (o movimento da alteridade) foi um dos objetivos da pesquisa-intervenção psicopedagógica desenvolvida, que focaliza o diálogo com os símbolos dos heróis, apesar de se perceber as tendências polarizadoras na nossa cultura moderna e contemporânea.

Algumas questões surgiram a partir dessa reflexão: “Como essas tendências emergem nos heróis contemporâneos?”; “Como as crianças expressam seus valores no diálogo com os símbolos de heróis?”; “Qual é o papel do psicopedagogo, em sala de aula, ao abrir o diálogo com os aprendizes por meio dos símbolos do passado e os atuais sobre heróis?”; “Como essas interlocuções com as crianças, mediadas pelas histórias e expressões simbólicas sobre heróis, ampliariam a visão de mundo e a integração de valores, de forma a evitar as reduções ou polarizações das condições humanas?”; “Como possibilitar a integração dos opostos?”.

As questões acima, portanto, destacaram-se como norteadoras da presente pesquisa-intervenção.

 

Metodologia

A presente investigação se caracteriza como pesquisa-intervenção por ter como meta a integração da produção de conhecimento psicopedagógico com a prática que mobiliza a aprendizagem, mantendo o compromisso com o desenvolvimento saudável dos aprendizes envolvidos no processo. Portanto, além de copilar e analisar dados significativos sobre o tema, a pesquisa se compromete com as transformações que ocorrem nas intervenções psicopedagógicas, ampliando as condições de aprendizagem das crianças.

A pesquisa-intervenção foi realizada com 22 crianças de seis anos em uma escola particular na cidade de São Paulo, no período de agosto a novembro de 2006. Consistiu-se na aplicação de um projeto psicopedagógico nas aulas de Linguagem e Filosofia e, ao mesmo tempo, na coleta e análise de dados, cujos resultados serão apresentados ao final.

A meta do projeto psicopedagógico de caráter institucional era re-significar as aulas de Filosofia, ampliando os sentidos acerca dos valores relacionados à dinâmica matriarcal e patriarcal, por meio do diálogo com os símbolos de heróis, na perspectiva junguiana. Foram colocadas em destaque algumas histórias de heróis clássicos, a expressão e a associação livre dos significados atribuídos aos heróis contemporâneos: Harry Potter (J.K. Rowling) e Bob Esponja (S. Hillenburg). Essa opção deu-se porque estes personagens circulavam nas conversações das crianças, ao ressaltarem quem elas destacavam como heróis.

A construção do conhecimento, na dinâmica de ensinar e aprender - fundamentada em Fagali (2001) - foi desenvolvida de forma que o aprendiz pudesse explorar as diferentes formas de captar e processar a realidade e os conhecimentos. Focalizou-se o imaginário, por meio da intuição, levando em conta os sentimentos, as construções do pensamento e as captações sensórioperceptivas. Neste processo de ensinar e aprender abriu-se espaço para as manifestações das múltiplas formas de expressar, utilizando a linguagem verbal e não verbal.

Foram desenvolvidas em sala de aula sensibilizações em torno dos heróis, as expressões simbólicas não verbais e verbais desses heróis e o diálogo sobre seus significados.

No processo de aprendizagem em torno do diálogo com os heróis, levou-se em conta como esses heróis expressam diferentes formas do homem sentir, pensar, viver e aprender, e quais os valores a eles associados, em relação à dinâmica matriarcal, patriarcal e às qualidades femininas e masculinas. No final do processo, as crianças tiveram a oportunidade de criar seus próprios heróis, individualmente, levando em conta as características associadas aos arquétipos matriarcais e patriarcais, femininos e masculinos. A criação foi feita por meio de um desenho, seguido pela descrição escrita das características do herói inventado.

O procedimento inicialmente consistiu em organizar rodas de discussão, por meio de perguntas sobre o sentido de herói, concernentes aos contos e filmes contemporâneos. Nesse momento o objetivo era entender o que se passava no pensamento das crianças a respeito das características matriarcais e patriarcais dos heróis.

Antes de iniciar as conversas foram realizadas atividades como o desenho de um herói conhecido da cultura grega, da qual a nossa cultura ocidental traz grandes tendências. Iniciou- se, portanto, com a leitura do mito ‘Perseu e a Medusa’ e a confecção de um cartaz sobre o mito, para aproximar as crianças do tema. Esse mito foi escolhido por trazer características associadas aos medos e desafios de um herói, propício para a mobilização da conversa sobre o contato com os medos, as sombras e a coragem. A proposta visava desenvolver diálogo e experiências que possibilitassem lutar para suplantar os obstáculos e os medos, sem perder de vista a necessidade da ajuda e colaboração, possibilitando uma composição heróica das qualidades patriarcais e matriarcais.

As discussões foram guiadas por um ‘plano de discussão’, orientado pelas seguintes questões: ‘Como considerar um herói que recebe ajuda, já que Perseu precisou de ajuda para conseguir derrotar a Medusa?; É possível considerar como herói aquele que recebe ajuda?’; ‘O que faz com que alguém seja herói?’. O diálogo sobre um herói grego deslocou-se para outras conversas e expressões sobre os heróis contemporâneos: ‘O Bob Esponja é um herói?’; ‘Como é o Harry Potter?’; ‘Vocês acham que Harry Potter é um herói?’; ‘Que características eles têm para parecerem heróis?’; ‘E que características deles não parecem ser de heróis?’.

Todas as conversas foram transcritas e seus dados foram posteriormente analisados qualitativamente por meio de tabelas que diferenciavam as características em categorias, para a análise de seu conteúdo. Desta maneira, foram analisadas as respostas verbais e não verbais (desenhos) associadas às articulações de sentidos em busca da unidade de significado, seguindo-se com as associações temáticas a partir dos significados.

As indagações muito presentes nas reflexões e práticas desta pesquisa foram: ‘Como os arquétiposo1 se manifestam nos heróis projetados e reconhecidos pelas crianças no mundo contemporâneo?’; ‘Como estes heróis apresentam as características femininas e masculinas, e como são valorizados com estas características, segundo a percepção das crianças?’.

As conclusões sobre as reflexões serão apresentadas ao final, mas primeiramente é preciso aprofundar alguns conceitos teóricos que nortearam o presente trabalho.

 

Fundamentos sobre aprendizagem, o símbolo do herói e a dinâmica inconsciente e consciente

A pesquisa e desenvolvimento do projeto foram norteados pelos conceitos sobre aprendizagem, a dinâmica do consciente e inconsciente e símbolo do herói, segundo as concepções da Psicopedagogia Institucional e da teoria analítica de Jung.

O processo de aprendizagem precisa ser olhado sob diferentes formas de aprender e de ser dos aprendizes envolvidos na experiência, levando em conta as articulações entre a subjetividade e objetividade. No presente estudo, a aprendizagem é colocada em destaque, tendo em vista o que Jung (2007) considera 24 Arquétipos são “padrões de estruturação do desempenho psicológico ligados ao instinto; uma entidade hipotética irrepresentável em si mesma e evidente somente através das suas manifestações”. (Samuels, 1988, p.82) como “individuação”: “Um processo do desenvolvimento psíquico do aprendiz imerso numa cultura em que se manifestam forças do inconsciente coletivo (arquétipos), mobilizando sentimentos, pensamentos, ações e simbolizações. Essas manifestações tomam a forma de comportamentos sociais, mitos, crenças e heróis.”

O projeto, portanto, teve como objetivos destacar a importância do arquétipo feminino e da Grande Mãe, sem deixar de lado o arquétipo masculino e do Grande Pai. Além das associações às qualidades femininas e masculinas, é necessário destacar o conceito sobre os arquétipos que, segundo Jung (2007), ‘são movimentos instintivos coletivos inconscientes que se expressam na consciência coletiva, nas ações e símbolos humanos. São “formas coletivas de imaginar (...) matrizes arcaicas onde configurações análogas ou semelhantes tomam forma”.’ (apud, Silveira, 1997, p. 68)

Portanto, os arquétipos se manifestam como imagens arquetípicas ou mitos narrados pelos povos e culturas, em qualquer espaço e momento histórico. Em outras palavras, são representações conscientes das imagens primordiais, expressas em diferentes épocas e espaços, por meio das representações míticas, divinas, da filosofia, da religião, dos símbolos de heróis.

Henderson (1987) discute a importância do mito do herói e de sua abrangência universal nas diversas culturas, considerando o quanto o herói expressa uma busca da humanidade num determinado momento da história. O mito tem um significado psicológico para o indivíduo e para a sociedade, que busca estabelecer uma identidade coletiva.

O mito do herói é o mais comum e o mais conhecido em todo o mundo. Encontramo-lo na Mitologia clássica da Grécia e de Roma, na Idade Média, no Extremo Oriente e entre as tribos primitivas contemporâneas. Aparece também em nossos sonhos. Tem um poder de sedução dramático e flagrante e, apesar de menos aparente, uma importância psicológica profunda. São mitos que variam muito nos seus detalhes, mas quanto mais os examinamos mais percebemos o quanto se assemelham na estrutura. Isto quer dizer que guardam uma forma universal mesmo quando desenvolvidos por grupos ou indivíduos sem qualquer contato cultural entre si. (Jung, 1987, p. 110)

Uma vez que a história se constrói e se reconstrói, levando em conta as interações de narrativas, como cita Fagali: “A troca das narrativas, numa rede de conversações, no intercâmbio de práticas sociais, vividas e refletidas, chega a um produto expresso nas construções coletivas.” (2001, p.129)

Considero, na análise sobre as manifestações arquetípicas e as condições humanas e culturais da humanidade no momento contemporâneo, que se faz necessário dialogar com esses diferentes sentidos de heróis, focalizando a importância daqueles que expressam os arquétipos da Grande Mãe, do feminino e da complementação com os arquétipos do Grande Pai e do masculino, em busca do movimento da alteridade, a complementação dos opostos, em um momento cultural de transição. Para a análise dos conteúdos associados aos símbolos expressos e trabalhados na pesquisa, considerei alguns indicadores que se associam aos arquétipos apontados em evidência: o arquétipo feminino diz respeito às qualidades como a suavidade, afetividade, cooperação e outras características associadas à mulher. Estas qualidades femininas agregam-se também ao arquétipo da Grande Mãe, expressa nos mitos desde os períodos Paleolítico e Neolítico e que se associam à Deusa Mãe, que reinava soberana e era adorada em cultos e rituais: “(...) a Grande Deusa Criadora, ao mesmo tempo útero e força geradora do universo.” (Koss, 2000, p.61)

Um resgate da história

Numa retrospectiva histórica, discuto no presente estudo, conforme Koss (2000), que o matriarcado foi perdendo sua força e sua importância e o patriarcado foi dominando a cultura ocidental com seus valores. Com o movimento feminista, a mulher foi em busca de suas forças femininas, mas se desviou, na tentativa de se igualar às formas masculinas, expressas nas ações, pensamentos e representações do homem. Em outras palavras, ao exercitar seus poderes, em confronto com as forças masculinas, deixou de lado as qualidades femininas, não fortalecendo as características da dinâmica matriarcal. Apesar do movimento feminista já trazer o germe para a consciência coletiva dos valores femininos e matriarcais, que estavam soterrados no inconsciente coletivo, a luta pelo poder frente às forças masculinas gerou uma indiferenciação na busca pelo mercado de trabalho e no desafio competitivo com o masculino. No entanto, esses desvios iniciais foram revistos gradativamente até o momento atual, revigorando as qualidades femininas e matriarcais ao lado das masculinas e patriarcais.

No momento contemporâneo, uma força manifesta-se na consciência coletiva com desenvolvimento crescente, diferenciando essas qualidades paternas e maternas, femininas e masculinas, de forma a manter a alteridade, o diálogo complementar entre opostos. Byington (1996), nas suas reflexões e elaborações sobre os símbolos e os arquétipos com base na teoria de Jung, considera que são estes os desafios da humanidade neste momento: “O resgate do arquétipo da alteridade, na busca do diálogo entre masculino e feminino, das possíveis articulações e integrações entre as forças da dinâmica matriarcal e patriarcal.” Acentua este autor que:

A relação dialética entre as polaridades, no dinamismo da alteridade, não quer dizer que os pólos, inclusive o Eu e o Outro, sejam considerados iguais. O que este dinamismo propicia é que os pólos interajam tendo a oportunidade igual de expressar suas semelhanças e diferenças, ou seja, que o Eu e o Outro e as demais polaridades tenham a liberdade de vivenciar toda a sua realidade. (Byington, 1996, p.181)

Portanto, ao fazer uma pesquisa ouvindo as crianças e ao mesmo tempo ampliando a sua consciência sobre as características do matriarcal e do patriarcal presentes nos heróis, constrói-se uma nova forma de atuação psicopedagógica como uma face das contribuições da Psicopedagogia Institucional. A análise da pesquisaintervenção realizada é apresentada a seguir.

 

Análises das respostas simbólicas das crianças

A análise qualitativa foi escolhida, pois a pesquisa-intervenção foi focada na obtenção de dados descritivos, vindos do contato direto e interativo do pesquisador com a situação objeto de estudo. Também teve o intuito de entender um fenômeno, de acordo com a perspectiva de quem participou da situação estudada, sendo que, depois, então, foi realizada uma interpretação.

A proposta da pesquisa-intervenção psicopedagógica foi atendida e as conclusões que merecem destaque a partir da análise de conteúdo foram as seguintes:

Constatou-se uma tendência significativa entre as respostas das crianças ao considerar a importância da cooperação sem excluir o ato heróico. No entanto, há respostas que demonstram a rejeição destes heróis que trazem necessidade de ajuda e que possuem mais sutilezas e delicadezas. As tendências às rejeições são acompanhadas de argumentos que valorizam a auto-suficiência do herói, próprio do pensamento patriarcal. Por outro lado, algumas crianças expressavam dúvida, como aconteceu com Lúciao2, uma criança de 6 anos. Ela valorizava a importância da cooperação, mas seu argumento trazia também o significado positivo da força, característica do herói patriarcal.

As respostas à pergunta ‘O Bob Esponja é um herói?’ foram variadas e até geraram uma saudável discussão entre as crianças. 68% das crianças responderam à pergunta, sendo que 31% delas foram veementes em relação à seguinte resposta: Bob Esponja não é um herói. A justificativa de 28% destas crianças estava relacionada aos valores associados à dinâmica matriarcal, ou seja, elas afirmavam a não característica de herói devido ao fato do personagem apresentar características da função materna, associada ao lúdico e aos sentimentos de fragilidade ou medos que o personagem traz. 9% delas acharam que ele não é herói por não conseguir salvar utilizando a força física. No entanto, apareceram respostas de crianças que consideravam este personagem como herói, pois ele buscava salvar por meio de uma força diferente associada à criação, ao lúdico, flexibilidade, que nas minhas análises associo às qualidades da dinâmica matriarcal e às características femininas. Havia dúvidas manifestas em 9% das crianças, expressando um conflito em relação ao sentido de herói, que nos leva a supor já uma visão em alteração com relação aos valores da dinâmica patriarcal relacionados ao herói oposto às qualidades de Bob Esponja.

Na análise qualitativa, foram muito significativas as respostas de um dos alunos - primeiro respondeu: ‘Não, ele não faz nada. Ele só faz gracinha, ele não ajudou em nada um dia’, mas em seguida disse: ‘Ele salva uma coroa e usa um disfarce para passar pelos monstros. Ele é um herói’. - Suas argumentações, portanto, já demonstravam uma tentativa de buscar uma crítica compensatória em relação aos valores expressos por este personagem, o que revela uma não rigidez em relação ao que atribuía como valores heróicos. Em relação ao personagem Harry Potter, 60% das crianças responderam à questão, sendo que 46% delas expressaram afirmativamente o reconhecimento deste herói. Algumas delas associaram o personagem às características de salvar e vencer, que signifiquei como associadas aos valores dos heróis da cultura patriarcal. Outras afirmaram o ato heróico deste personagem, levando em conta o poder da imaginação e da magia, próprio das qualidades associadas ao arquétipo da Grande Mãe. As ambigüidades apareceram em muitas das respostas, expressando a dúvida das crianças em relação às qualidades próprias de herói, ora reconhecendo o valor heróico associado às características maternas, ora associados às características paternas, como expressam as seguintes respostas: ‘Ele não é um herói, mas ele é um herói. Ele não tem super poderes, ele usa a força dele, a magia, a imaginação e a coragem.’ Apenas 13% das respostas ocorreram em relação a críticas negativas associadas às qualidades do arquétipo da Grande Mãe.

Em conclusão, um dos aspectos da dinâmica, que avalio como de grande valor, refere-se às interlocuções sobre diferentes sentidos e significados dos valores atribuídos pelas crianças sobre herói e as forças e fragilidades do feminino e do masculino que ocorriam no grupo. As diferentes opiniões e argumentações refletiam sobre percepções diferentes, pontos cegos, ampliando as percepções e pontos de vista. No diálogo em que entram em jogo as diferenças e cada um pode dizer o que pensa e sente sem repressões, a dinâmica da alteridade está presente. A possibilidade do diálogo entre os opostos, o resgate das diferentes formas de olhar e legitimar os atos heróicos, com suas diferentes características, possibilitam a relativização dos valores e a construção de identidades sob diferentes ângulos em relação à forma de ser, viver, aprender e lutar em busca de novas conquistas.

Foram realizadas devolutivas com as crianças, para que ampliassem suas percepções ao analisar como viam as características destes heróis, respeitando e considerando o herói que se manifestava, tentando conscientizá-las sobre o valor das qualidades femininas como acolhimento, confiança, entrega, descentralização, cooperação, parceria e relações afetivas.

No momento de aprendizagem em que foi solicitado que criassem heróis, na tentativa de levar as crianças a recriações, as simbolizações foram muito expressivas, demonstrando a presença da alteridade: houve tendência significativa em expressar heróis com características matriarcais e patriarcais. Ao falar dos seus símbolos, não os nomearam como estes conceitos, mas perceberam as suas diferenças de características com os respectivos valores.

A meta do projeto foi atingida. Analisando qualitativamente as criações, surgiram, basicamente, duas categorias de heróis: os fortes, poderosos, mas que recebiam ajuda, e os que têm características das duas funções, mas com mais ênfase na materna.

Dessa forma, as crianças conseguiram refletir sobre a importância das características do feminino, que estão sendo resgatadas no mundo, e ainda puderam fazer um “balanceamento interno”, sem deixar de lado as características femininas ou as masculinas. Da forma simbólica infantil, sentindo respeitadas as suas formas de assimilar e criar, as crianças puderam perceber a importância da dinâmica da alteridade no processo de aprendizagem, compreendida neste estudo como a complementação entre os opostos: a dinâmica patriarcal e matriarcal.

 

Discussões e considerações finais: O valor dos projetos psicopedagógicos no contexto da escola

Ao levar em conta os objetivos do projeto, observei no diálogo e alterações simbólicas dos alunos a ampliação do sentido de herói, possível, no nível cognitivo e afetivo de crianças de seis e sete anos.

As indagações desde o início da pesquisa colocavam em destaque as questões culturais no nível inconsciente e consciente. A consciência se constitui nas interlocuções entre os aprendizes em que são colocadas em questão as diferenças de valores e de percepções. Essa aprendizagem constitui-se como um processo educativo, que gera ampliações de valores e criações de novos mitos, crenças e formas de pensar.

Considero que os trabalhos com os diferentes mitos revelam outras perspectivas nas formas de ser e de viver das pessoas, libertando os aprendizes das fixações e possibilitando o desvelar dos diferentes ângulos da realidade. Este diálogo precisa ser desenvolvido na aprendizagem das instituições, com todos os seus integrantes, no caso da escola, com os educadores e os aprendizes, podendo incluir neste diálogo familiares e funcionários, além de outros integrantes da comunidade, em busca de uma aprendizagem em que se enfatizam a consciência coletiva e as interlocuções entre as diferenças, em busca da possível alteridade. Esta é uma das metas da Psicopedagogia Institucional abordadas por Fagali,

Uma das propostas de interferência no processo do aprender coletivo, em uma Instituição, seria ampliar a consciência coletiva desta instituição, buscando formas de contato com a realidade, novos valores, novas concepções de aprendizagem, nos diferentes níveis de atuação, modificando os próprios mitos já velhos e cristalizados. É necessário no trabalho, no âmbito institucional, olhar este todo, mesmo que o propósito seja focar num contexto mais micro (Fagali, 2001, p. 247)

Uma vez que este projeto foi focado no contexto da sala de aula, penso que poderá reverberar na dinâmica da instituição escolar, na busca da alteridade.

Segundo Byington (1996), a busca pela dinâmica da alteridade pode, portanto, estar presente não somente na estrutura da instituição escolar, mas também em trabalhos dentro da sala de aula, para que as crianças possam vivê-la internamente. Na verdade, os trabalhos realizados na micro se refletem na macro estrutura da Instituição e da Sociedade, e vice-versa.

Em conclusão, o desenvolvimento deste trabalho enfatizando a prática psicopedagógica em sala de aula, analisada por meio de uma pesquisa-intervenção qualitativa, demonstrou a importância de se trabalhar os mitos com as crianças, abrindo espaço para as transformações na forma de perceber e pensar, em busca da complementação dos opostos: as qualidades do arquétipo masculino e do feminino, as forças do arquétipo patriarcal e matriarcal. Considero que este desenvolvimento da consciência coletiva e individual, ao lidar com a dialógica entre os opostos a partir dos símbolos de heróis e de recursos da arte, pode reverberar em uma ampliação do modo de pensar dos grupos e das culturas em que estas crianças estão inseridas.

O diálogo com os símbolos, como o fogo e as expressões artísticas, tão presentes e significativos na nossa história, nos reportam a esses momentos da humanidade, resignificando- os aos nossos olhos, em função do vivido e sentido no momento. As histórias míticas de deuses e heróis nos levam aos seus significados, mobilizando os nossos mitos presentes e nos reportando a novas construções para o futuro. No contato com diferentes linguagens, narrativas e símbolos, em diferentes tempos e espaços, o homem evolui em direção a novas construções. (Fagali, 2001, p.130)

 

Referências Bibliográficas

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CARDOSO, B. P. A. A importância da busca da alteridade na aprendizagem: Uma intervenção psicopedagógica institucional com abordagem junguiana, baseada nasimagens e reflexões que as crianças fazem de alguns heróis contemporâneos. São Paulo: Instituto Sedes Sapientiae (monografia), 2006.

FAGALI, Eloísa Quadros. Psicopedagogia institucional aplicada: Aprendizagem escolar dinâmica e construção na sala de aula. Petrópolis: Vozes, 1993.

___________ . (Org.) et. al. As múltiplas faces do aprender: Novos paradigmas da pós-modernidade. São Paulo: Editoras Unidas, 2000.

JUNG, C.G. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.

____________. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2007.

KOSS, M. V. Feminino + Masculino: Uma nova coreografia para a eterna dança das polaridades. São Paulo: Escrituras, 2000.

SAMUELS, A.; SCHORTER B. & PLAUT F. Dicionário crítico de análise junguiana. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

SILVEIRA, N. Jung: Vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

 

 

* Artigo sobre pesquisa e projeto psicopedagógico da monografia de Bruna Puglisi de Assumpção Cardoso sob a orientação de Dra. Eloísa Quadros Fagali (Instituto Sedes Sapientiae - 2006).
** Pedagoga (Universidade de São Paulo); Psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae); docente e coordenadora pedagógica da Escola Móbile; e-mail: brucardoso@yahoo.com
1 Arquétipos são “padrões de estruturação do desempenho psicológico ligados ao instinto; uma entidade hipotética irrepresentável em si mesma e evidente somente através das suas manifestações”. (Samuels, 1988, p.82)
2 O nome citado é fictício.