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Boletim - Academia Paulista de Psicologia

versão impressa ISSN 1415-711X

Bol. - Acad. Paul. Psicol. v.28 n.2 São Paulo dez. 2008

 

OBITUÁRIO

 

Reinier Johannes Antonius Rozestraten (*07/02/1924 - † 27/06/2008)

 

 

É com imenso pesar que esta Academia comunica o falecimento do Prof. Reinier, como era assim conhecido, no mês de maio p.p., aos 85 anos de idade. Deixa esposa, quatro filhos, Artur, Annie, Hugo e Flávia, e três netos.

Difícil de sintetizar, em pouca palavras, sua vida rica de realizações e suas qualidades pessoais. Transcrevemos aqui depoimentos apresentados nas Notícias da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) ao anunciar o falecimento do ilustre professor que, de alguma maneira, traduz os sentimentos dos seus colegas e amigos:

Mais do que Presidente da SBP e membro do nosso Conselho, o prof. Reinier foi, antes de tudo, mestre de muitos de nós, mestre não meramente no sentido acadêmico da palavra. Foi e será sempre uma bússola no direcionamento dos psicólogos e daqueles que virão assumir esta nossa entidade. Sua passagem é um momento doloroso que vive a SBP (...) Sua visão do mundo e da vida, sua coragem e disposição em participar dos rumos da Psicologia e da SBP são alento para nós, cuja meta principal é dar continuidade a este rico legado que ele ajudou a fundar e presidiu pela primeira vez...

Perdemos o velho e entusiasta Mestre de todos nós, aquele que nos ensinou a ver a ciência com jovem entusiasmo (...) Que o seu jovem espírito nos guie e nos inspire sempre.

Veio de longe, de Haia, Holanda. Fez estudos superiores de Filosofia e Teologia com os frades franciscanos. Em 1950, chegou a nossa pátria para colaborar com o Colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte. Sempre motivado por obter novos conhecimentos, em 1955, graduou-se em História Natural pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mas o seu interesse científico estava em outra área, a das Ciências Humanas. Freqüentou, então o Curso de Especialização em Psicologia Experimental da Aprendizagem, ministrado por André Rey, no Instituto Superior de Educação Rural, em Ibireté (Minas Gerais) promovido por Helena Antipoff.

A convivência com esses dois mestres marcou profundamente a sua formação segundo o seu próprio depoimento. Dirigiu-se, então, para a Psicologia. Assim, prosseguiu sua formação nesse campo, freqüentando cursos isolados a um tempo em que não existia ainda o curso regular para formar psicólogos no País. Com esforço pessoal, participou de cursos em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e mais tarde em Montlhery, França, especializando-se em Psicologia do Trânsito, área à qual dedicou grande parte de sua vida.

De início, dirigiu-se à Psicologia Comportamental, razão por que o seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais, em 1971, foi realizado nessa área. Mas foi no seu pós-doutorado, no Laboratórie de Psychologie de la Conduite na França, que estudou a percepção no Trânsito.

Sempre motivado e interessado em desenvolver cada vez mais a Psicologia a serviço do homem, em um País que foi para ele sua segunda pátria, iniciou sua vida acadêmica universitária como professor de Psicologia da Aprendizagem no Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Minas Gerais, onde ajudou a instalar o Laboratório de Psicologia. Ao ser convidado a dirigir o recém-criado Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, implantou ali também um laboratório de Psicologia. Com esse empenho, esteve visitando diversos laboratórios de Psicologia em várias universidades européias. Ao retornar ao Brasil, reassumiu as funções de direção do Instituto de Psicologia na PUC/MG, onde permaneceu alguns anos. Ali encarregou-se das atividades práticas dos estudantes e também da docência em História da Psicologia, Psicologia Geral e Experimental. Paralelamente, lecionou matérias semelhantes na Universidade Federal de Minas Gerais.

O saudoso colega continuou transmitindo seus conhecimentos e formando discípulos em universidades públicas e privadas existentes em várias cidades do País: Salvador (BA), Brasília (DF), Uberlândia (MG) e Ribeirão Preto (SP), permanecido, nesta última, a maior parte de sua vida acadêmica. Também foi Professor Visitante na Universidade do Pará e ultimamente em Mato Grosso do Sul. Em todas essas regiões, organizava laboratórios de Psicofísica, Psicologia Cognitiva e Psicologia do Trânsito e realizava pesquisas que foram amplamente reconhecidas nacional e internacionalmente.

Ao mesmo tempo que lecionava e realizava investigações, o professor Reinier seguia também a sua carreira de Professor Universitário. Fez concurso de Livre-Docência, de Professor Adjunto e de Professor Titular, com expressivas produções científicas.

Durante toda a sua carreira profissional de mais de 50 anos, publicou inúmeros trabalhos nas áreas de Psicologia Experimental, Psicologia da Aprendizagem e especialmente da Psicologia do Trânsito, em revistas científicas nacionais e internacionais. Também publicou diversos livros, especialmente, nessa última área para o grande público, quer seja para estudantes, quer seja para educadores do Ensino Fundamental e Médio. Preocupava-se com a quantidade de mortes, sobretudo de crianças por acidente de trânsito e que algo deveria ser feito, razão por que se empenhava em conhecer o que havia no mundo sobre esse tema para sugerir medidas apropriadas à situação particular do Brasil. Colaborou efetivamente na defesa dos psicólogos brasileiros. Haja vista sua ativa participação nas reuniões da implantação do Conselho Federal de Psicologia (CFP), bem como na instalação dos Conselhos Regionais de Psicologia (CRP).

Mobilizou a criação e manutenção de várias associações científicas de Psicologia, regionais e a federal como prova a sua atuação na Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP). Mas foi na área da Psicologia do Trânsito que seu legado tornou-se ainda mais valioso: escreveu livro e muitos artigos, organizou associações, eventos e também cursos de pós-graduação. Até sua tese de Livre-Docência versou sobre essa área.

Foi com justiça agraciado com muitos prêmios. Citamos alguns: Prêmio Mira y López, Sócio Honorário da SBP, Medalha Centenário da Psicologia Científica pelo C.R.P. 6ª Região e a distinção que lhe foi atribuída ao ser eleito por unanimidade para ocupar a Cadeira nº 34 desta Academia.

Podemos afirmar que além de sua expressiva e valiosa produção científica e importante trabalho na formação de discípulos, o saudoso Professor Reinier brindou-nos com um modelo de pessoa ímpar ao conduzir toda a sua existência em benefício da preservação da vida.

A Diretoria

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