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Boletim - Academia Paulista de Psicologia

versão impressa ISSN 1415-711X

Bol. - Acad. Paul. Psicol. vol.44 no.106 São Paulo jan./jun. 2024  Epub 23-Set-2024

https://doi.org/10.5935/2176-3038.20240009 

EDITORIAL

EDITORIAL

Esdras Vasconcelos1 

1Coeditor


Como uma barca

Eles chegaram como indivíduos vindos de diversas origens. Não se conheciam, nem tinham algo em comum. Foram escolhidos a comporem uma gestalt como se fossem familiares. Hoje, estão, para sempre juntos nesse novo exemplar de nosso Boletim. Isso me fez lembrar um experimento de antropologia social realizado pelo cientista hispano-mexicano Santiago Genovés em 1973. Ainda que mal-entendido e criticado pela mídia conservadora e pelo meio científico, ele foi um dos mais avançados “big brothers” da década de 70, quando movimentos sociais questionavam severamente os papeis e as funções de homens e mulheres na nossa sociedade. Por 101 dias, onze pessoas (6 mulheres e 5 homens) de diversas nacionalidades, totalmente estranhos entre si, embarcaram numa balsa chamada Acalí e atravessaram o oceano atlântico. Genovés inverteu os papeis, dando às mulheres as funções de chefia: a capitã sueca María Bjornstam, a única que sabia lidar com emergências em alto-mar; duas americanas, Fé Seymour e Mary Gidley; uma francesa, Servane Zanotti; uma argelina, Rachida Lievre; e a médica israelense Edna Reves; ( https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2018/10/19/doc) e aos homens as tarefas, naquela época, consideradas secundárias, como cozinhar e limpar. Entre os homens estava ele próprio, um padre angolano, um cientista social uruguaio, um fotógrafo japonês e um grego. Nossa barca aqui se chama “Boletim 106” e parte da Academia Paulista de Psicologia para cruzar um oceano que desconhecemos. Seus componentes, vêm igualmente de terras distantes e trazem para nossa embarcação seus conhecimentos, pontos de vista, resultados e conclusões de pesquisa e até mesmo provocações sociais e políticas. Nós, editores, fizemos o papel de os acolher e organizar-lhes seus aposentos. Hoje cada um habita uma parte desse exemplar. Em seis meses outra barca partirá com novos componentes e os trabalhos presentes, aqui para sempre registrados, seguirão seus caminhos pelo oceano do conhecimento.

Cada artigo publicado tem, indiscutivelmente, um intento: contribuir para a construção, interminável, do caminho para a felicidade, objetivo final do fazer científico.

Iniciamos este número com o artigo - The thematic drawing-and-story procedure in qualitative research: an integrative review - que vem comprovar mais uma vez a eficácia de um dos mais antigos instrumentos diagnósticos da psicologia e da psicoterapia: o desenho. Seja ele construído pelo próprio paciente para ilustrar e dar forma às suas emoções e atitudes ou em quadros grafitados, como os de Henry A. Murray e Christina D. Morgan - TAT ou Teste de Apercepção Temática TAT de 1935.

Desde 1972 o “Desenho História” de Walter Trinca vem sendo amplamente utilizado e constitui-se instrumento confiável para a prática clínica e de pesquisa.

As colegas Sueli Gallo Belluzzo, Gisele Meirelles Fonseca e Tania Aiello Vaisberg analisam nesse artigo de abertura a eficácia dos desenhos temáticos na pesquisa qualitativa.

Seguimos com 2 artigos de grande atualidade: “Descobrir-se negra: notas sobre a dimensão subjetiva da participação política em movimentos sociais feministas” e “Assistência em Saúde Durante Gestação e Parto na Avaliação de Mulheres Negras”. O primeiro de autoria da colega Mariana Luciano Afonso, Doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), com estágio de doutorado sanduíche na Université Paris 13 (Sorbonne Paris Cité), contemplada com o prêmio Jonathas Salathiel de Psicologia e Relações Raciais (CRP - SP, 2018) e que, atualmente, é docente da Faculdade de Medicina da Universidade Cidade de São Paulo. O segundo artigo, de autoria de Adriana Pedrosa Barbosa - Psicóloga, Residente do Programa Multiprofissional Integrada em Saúde da Mulher do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco; Telma Costa de Avelar, com Mestrado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco, Professora Adjunta da Universidade Federal de Pernambuco e Tutora no Programa de Residência Multiprofissional em Saúde do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco e, junto a elas, Érika Neves de Barros com Mestrado em Saúde Materno Infantil pelo Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira - IMIP, Psicóloga Hospitalar e Preceptora de estágio e residência no Hospital de Clínicas de Pernambuco HC-UFPE.

A importância desses 2 artigos é corroborada pelo muito que, desde sempre, se tem escrito e discutido no meio científico, nas universidades e na mídia em geral acerca da integração de pessoas negras na sociedade brasileira. Poetas, escritores, políticos, desde tempos idos, o fizeram e, como exemplo, cito o poeta Castro Alves. Todos expressaram a indignação que a discriminação racial desperta no ser humano com espírito humanista.

Castro Alves em Navio Negreiro, 1869:

Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura...se é verdade Tanto horror perante os céus..!

Castro Alves escreveu esse poema em São Paulo, quando aluno da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Em uma aula com o Professor Doutor Reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares ouvi que as “crianças negras já nascem discriminadas”. E o médico pediatra Jacy do Prado Barbosa Neto, em seu lindo romance “Terra sem Mal” conta de uma jovem negra que teve sete amas de leite e “...mamava nelas ouvindo poemas de Castro Alves”.

Essa mesma jovem, narrando os episódios vividos durante os anos de escravidão, revela uma significante particularidade de sua subjetividade: “Não chorava, o medo que sentia não estava em meus olhos. Eu era magra, suja, nua e fedia como um cão molhado, mas tinha vontade de viver e me esforçaria”.

A discussão ganha relevância quando lemos dos resultados divulgados pelo IBGE sobre a participação crescente de pardos e negros no total da população brasileira. Métodos aprimorados de censo populacional mostram que “Em relação a 2010, a população preta aumentou para 42,3%. A população parda cresceu 11,9% e sua proporção na população do país subiu de 43,1% para 45,3%” (https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/).

É fato que, nos registros históricos da organização político-social da humanidade, portanto desde a antiguidade, o episódio da escravidão sempre se fez presente e, mais de dois mil anos depois, ainda se denota como um dos mais importantes para a Sociologia, Psicologia, Antropologia e a Etnologia. Assim como Atenas, na antiguidade, cidades de grande desenvolvimento civilizatório como Roma durante o império romano e, no início do século passado a própria Rio de Janeiro, tinham mais escravos que homens livres.

O tema seguinte é dedicado aos educadores e adolescentes. “Imagens Sociais de Educadores e Adolescentes sobre o Adolescente em Acolhimento Institucional” de Dalízia Amaral Cruz , Lilia Lêda Chaves Cavalcante e Elson Ferreira Costa, todos três Doutores em Teoria e Pesquisa do Comportamento pela Universidade Federal do Pará.

Adolescentes com Deficiência Intelectual: Intervenção da psicologia da educação, de Cláudia Yaísa Gonçalves da Silva, Psicóloga, Doutora em Psicologia Clínica, Pesquisadora de Pós-Doutorado no Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP) e Ivonise Fernandes da Motta, Psicóloga, Professora Livre Docente do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Elas abordam um tema muito atual que concerne ao indivíduo com dificuldades cognitivas em virtude de alguma lesão ou transtorno.

O uso da escarificação e suas reverberações na adolescência: um caso clínico, de Natália Barros de Rezende, Mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, Psicóloga clínica com ênfase na infância e adolescência; Rosa Maria Tosta - Professora associada da PUC-SP, atuando na graduação e no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica no Núcleo de Método Psicanalítico e Formações da Cultura. Psicoterapeuta e supervisora em clínica privada. Membro fundador do Laboratório Interinstitucional de Estudos da Intersubjetividade e Psicanálise Contemporânea (LIPSIC)- IPUSP e PUC-SP. Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi e do Espaço Potencial Winnicott do Instituto Sedes Sapientiae, que realçam as consequências da automutilação na construção de uma personalidade, bem como na capacidade de tocar e ser tocado. Aqui são ressaltadas as consequências que tal cicatriz emocional pode gerar no desenvolvimento do Eu-Pele, conforme Winnicott e Anzieu demonstraram. Ashley Montagu no capítulo A mente da Pele do seu brilhante livro Tocar, diz que só existe um único templo no universo, a nossa pele.

A família e o psicodiagnóstico interventivo infantil: um estudo de caso vem das colegas Luciane Cristina de Oliveira Carnauba, Psicóloga na Clínica Psicológica da Universidade Estadual de Londrina e Maíra Bonafé Sei, Professora Associada do Departamento de Psicologia e Psicanálise da mesma Universidade.

Se analisarmos o fulcro central dos três próximos temas verificaremos que todos discorrem sobre as cicatrizes que a má relação e comunicação interpessoal gera na alma daquelas que a sofrem, seja por violência física, psicológica, assédio moral, pelo preconceito e discriminação, no lar, na escola ou na empresa.

Coping da violência contra a mulher: Plantão Psicológico em uma Delegacia de Defesa da Mulher (DDM)” que foi escrito por Mara Cristina Normídio Bini, Bolsista CNPq, Universidade de Sorocaba (UNISO); Andressa Melina Becker da Silva da Universidade de Sorocaba, Pró-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Inovação.

Relações Interpessoais e Assédio Moral: Relato de um Diagnóstico em uma Organização por Suzana da Rosa Tolfo, Psicóloga, Doutora em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestrado em Administração e Graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professora Titular do Departamento de Psicologia da UFSC e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSC; Priscila Gasperin Pellegrini, Psicóloga, Doutora, Mestre e Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Júlia Gonçalves, Psicóloga, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com período sanduíche no Departamento de Psicologia Social da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB/Espanha). Coordenadora adjunta, Docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia e Docente na Graduação em Psicologia IMED (Campus Passo Fundo/RS) e Thiago Soares Nunes, Pós-Doutorado em Administração pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Doutor em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com período sanduíche no Departamento de Psicologia Social da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB/Espanha). Mestre e Graduado em Administração pela UFSC. Professor do Programa de Doutorado e Mestrado em Administração da Universidade FUMEC.

Representações Sociais da Gordofobia entre Mulheres com Obesidade que foi produzido pelas estudantes de Psicologia da Universidade Tuiuti do Paraná: Ana Paula Mori Branco Sowinski, Paula Angélica Madeira Albertini, Samira Deud Bhay, Vera Lúcia Iwasse Zacarias e Gislei Mocelin Polli juntamente com os Professores Adjuntos do Mestrado em Psicologia Forense da mesma Universidade paranaense: Ana Claudia Wanderbroocke e Sidnei Priolo Filho.

Encerra essa edição o artigo de Fabrício Duim Rufato, Geovane dos Santos da Rocha. Todos Psicólogos graduados pela FAG, Especialistas em Psicanálise pela PUCPR, Mestres em Ciências Ambientais pela UNIOESTE Toledo e doutorandos em Educação pela UNIOESTE Cascavel, Paraná. Elisabeth Rossetto é Doutora em Educação pela UFRS. Professora de graduação e pós-graduação stricto sensu em Educação na UNIOESTE Cascavel, Paraná. Juntos escreveram um importante artigo sobre a Clínica ampliada e psicanálise: uma relação possível?

Fechando esse número temos uma resenha de Aracê Maria Magenta Magalhães, do Centro de Psicologia e Psicanálise - Bauru sobre o livro de Walter Trinca, A organização do pensamento clínico em psicoterapia. São Paulo, 2024, Vetor Editora Psicopedagógica. Nosso colega e honrado acadêmico Walter Trinca foi, anteriormente, citado no início desse Editorial.

A navegação dessa embarcação digital não termina aqui. Segue mares a fora. Em quais portos irá atracar ainda não sabemos. Vai desbravando o oceano do conhecimento como se não houvesse calendário. E, porque a terra não é plana, tem infinitas rotas a cumprir.

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