1 - Introdução
O racismo é um problema grave, histórico e persistente na realidade brasileira. Tem papel estruturante nas relações sociais e sérios impactos nas condições de vida e na saúde mental da população negra (André, 2007; Almeida, 2018; Faro; Pereira, 2011; Gonçalves Filho, 2017; Afonso; Seabra, 2021). A Psicologia, comprometida com a defesa dos direitos humanos, deve envolver-se e empenhar-se cada vez mais na luta antirracista. A partir dos anos 2000, o Conselho Federal de Psicologia e o Sistema Conselhos de Psicologia têm dedicado importantes esforços nesse sentido (CFP, 2002, 2017; CRP-SP, 2016). Partindo da perspectiva da potência da articulação entre teoria e prática, da concepção de que a produção de conhecimento não é neutra, e de que as pesquisas científicas devem cumprir uma função social (Bock, 2009); apresentamos um relato de pesquisa com vista a colaborar com os esforços pelo fortalecimento de uma psicologia antirracista. Entende-se que pensar uma psicologia antirracista passa por “revisitar o processo histórico-social da psicologia e os movimentos de contestação e resistência engendrados durante a sua consolidação na função de instância definidora de um conhecimento sobre a subjetividade humana” (Martins, 2022, p. 72). Neste sentido, autores como Martins (2022) e Santos (2023) ressaltam também a importância de que os estudos mais contemporâneos em Psicologia sejam capazes de problematizar e criticar o projeto epistemológico hegemônico que se centra em uma visão etnocêntrica, pautada pela tradição científica europeia ou norte-americana, bem como o papel dos saberes psi na manutenção desse debate hegemônico. Enfatiza-se ainda a necessidade da produção de saberes psicológicos que levem em conta os efeitos subjetivos do racismo e formas de combatê-lo. Assim como, a importância de aprofundar as relações entre ambiente acadêmico e organizações militantes (Martins, 2022). Acreditamos que a escuta psicológica de participantes de movimentos sociais que lutam pela alteração das desigualdades que estruturam nossa sociedade - tais como as de raça, gênero e classe (Davis, 2016) -, pode apresentar como um recurso importante nesse sentido. Neste manuscrito, utilizamos também o diálogo com referências teóricas latino-americanas (brasileiras) e com autores/as negros/as como formas contra hegemônicas de construção de reflexões e saberes psi. O presente manuscrito tem como objetivo apresentar a história de vida de uma mulher negra, trabalhadora e militante de movimentos sociais feministas, para investigar impactos do racismo na trajetória biográfica da depoente e, especialmente, as transformações que se operam em sua vida e relações sociais a partir de sua participação política. Destacamos as transformações nas compreensões das relações sociais de raça (articuladas às de gênero e classe), como uma valiosa expressão da dimensão psicológica dessa participação política. Observou-se que essas mudanças exercem ainda papel fundamental sobre transformações nas compreensões de si mesma e de seu lugar no mundo. Ligando assim as relações estruturais mais amplas, às relações pessoais mais íntimas: na família, no trabalho, nos relacionamentos amorosos e demais laços afetivos.
2 - Método
Trata-se de uma pesquisa qualitativa em Psicologia Social. Foram combinados quatro anos de observação participante em movimentos sociais feministas6 com entrevistas de longa duração. As entrevistas possibilitaram colher depoimentos de história de vida por meio do trabalho da memória (Bosi, 2004). Neste manuscrito, apresentamos a história de vida de Sônia. A participante foi escolhida intencionalmente, devido à riqueza de sua trajetória biográfica; ao tempo maior de militância política; e à idade. Buscou-se priorizar mulheres mais velhas, pois, segundo Bosi (2004; 2012), são geralmente os velhos a fonte mais fecunda de memória social, considerando-se a rica variedade de seus testemunhos e o longo amadurecimento de um ponto de vista. A partir da trajetória da depoente, foi examinada a dimensão psicológica das vivências de desigualdades de raça, gênero e classe. Bem como os sofrimentos psicossociais ligados ao racismo, ao machismo, à pobreza. Investigamos a potência de mulheres como Sônia, as estratégias de resistência que criam e as capacidades de enfrentamento e transformação da realidade, especialmente quando organizadas em espaços coletivos, como os movimentos sociais. Ressalta-se a importância da escuta da população negra para a melhor compreensão da dimensão subjetiva ligada às relações raciais: tanto no que diz respeito às violências e ao sofrimento psicológico oriundo do racismo; como de iniciativas de fortalecimento, cura, reparação. A partir da análise de histórias de vida, a pesquisa concebeu o recurso à dialética como possibilidade de acesso ao universal e ao geral, começando pelo acesso à individualidade singular (Ferrarotti, 1991; Coutinho, Maders, Westrupp, D’avila, 2018). Neste manuscrito buscamos, por meio da história biográfica de uma depoente, refletir sobre articulações entre o singular e o coletivo. Sobre os sofrimentos e as violências impostas pelo racismo (mesmo que, em alguns momentos, não percebidas conscientemente como ligadas ao racismo) e em interseccionalidade com as relações sociais de gênero e classe. Reflete-se sobre as potencialidades da participação política em movimentos sociais, assim como sobre as transformações individuais e coletivas viabilizadas nesses espaços. Apresentaremos a seguir a trajetória biográfica de Sônia, acessada por meio de três entrevistas individuais, totalizando cerca de nove horas e trinta minutos de depoimento. Apresentamos sua história de vida organizada a partir de cinco categorias analíticas definidas a posteriori (Minayo, 2010) pela relevância que adquiriram no depoimento, e por se ligarem a instituições ou esferas da vida onde o racismo se faz fortemente presente. São elas: a infância e vida escolar; família e vida amorosa; participação política; trabalho; e feminismo. Este último, apesar de ser um desdobramento específico da participação política, é analisado separadamente pelo destaque que ganhou nos depoimentos. Essas cinco categorias correspondem, respectivamente, aos itens 3.1 a 3.5. A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética em pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), nº protocolo CAAE: 57293916.7.0000.5561 e a participante assinou Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
3 - Resultado e discussão: a história de Sônia
Sônia tem 68 anos, é nascida em São Paulo (SP), divorciada, tem um filho, é negra. A depoente explica que atualmente vive como “classe média baixa”, mas que já foi “muito pobre, muito pobre mesmo”. Sônia tem cinco irmãos e é a única de sua família com ensino superior completo. Formou-se em Jornalismo em uma faculdade privada que possibilitou conciliar estudo e trabalho. Atualmente está aposentada.
3.1 - A infância e os impedimentos de gênero e classe social: a raça encoberta
A infância de Sônia é fortemente marcada pela pobreza e, subjetivamente, caracterizada por sentimentos de rebaixamento associados a esta condição de classe (WEIL, 1996). A primeira lembrança deste momento da vida trazida pela depoente é a escola feita de madeira e a vergonha de comer como lanche, todos os dias, pão com açúcar:
E eu lembro que na escola, eu nasci na Cidade Ademar, São Paulo, é, na escola, o colégio era de madeira (...) meu lanche era pão com açúcar e eu tinha uma vergonha, né? Das pessoas, das outras crianças (...) a escola era de madeira e tinha uns pilares de madeira, palafita, só que era terra e eu comi o lanche debaixo dessa coisa, porque eu levava pão com açúcar. Mas, assim, eu sentia uma vergonha das pessoas darem risada porque não se comia pão com açúcar, mas eu ia debaixo e comia.
A infância de Sônia foi também precocemente marcada pela perda da mãe (biológica), quando a depoente tinha entre dois e três anos de idade. No entanto, mais do que uma “menina sem mãe”, Sônia conta que tem duas mães, referindo-se à perda da mãe biológica como a morte de sua primeira mãe: “Eu perdi a minha primeira mãe, por volta, eu devia ter uns três anos de idade, então praticamente eu fui criada pelo meu pai até uns sete anos, depois quando eu tinha sete anos ele casou de novo (...) ela morreu de pneumonia”.
Sônia conta que, após a morte da mãe, seu pai ficou responsável sozinho pela criação dela e de seus dois irmãos. Como seu pai trabalhava até à noite, ela e os irmãos passavam muito tempo sozinhos em casa. Algumas freiras que moravam na vizinhança comoveramse com a situação e conseguiram para ela uma vaga em um colégio interno, uma escola religiosa. Essa escola foi descrita como um ambiente rígido e punitivo. A depoente estudou lá até os 15 anos, quando foi reprovada e, pelas normas da escola, não pôde continuar. Ela relata que ficou feliz com isso, pois nas férias voltava sempre para a casa de sua família - agora já contando com sua segunda mãe - onde fez amigas no bairro e sentia-se bem, enquanto na escola sentia-se presa:
Com 15 anos eu saí do colégio e eu saí porque repeti e não podia repetir, eu fiquei com medo porque eu não pagava. Só que eu não aguentava mais. Porque nas férias eu vinha pra minha casa e meu pai já tinha casado com a minha segunda mãe, que foi uma mãe maravilhosa para mim. Então eu vinha pra minha casa ficar com meu pai e com minha mãe e eu já comecei a fazer amizades (...) então eu achava gostoso ficar na rua, lá [na escola] eu era presa.
Apesar de ter passado um período da infância e da adolescência relativamente distante da família (pela própria estrutura de funcionamento do colégio interno), Sônia descreve a segunda mãe como uma figura materna muito amorosa:
(...) ele [meu pai] casou com uma mulher maravilhosa (...) eu nunca fui dona de casa, nunca fui do lar, porque a minha mãe, ela sempre cuidou das minhas coisas, minha segunda mãe, ela sempre, você vê, ela fazia a minha marmita. Então, assim, ela cuidava muito de mim e dos meus irmãos também.
A relação com o pai era marcada por sentimentos de ambivalência. Por um lado, ele era descrito como “bom” e cuidadoso:
Eu morava no colégio, mas eles iam me visitar, tinha uma visita por mês, (...) sempre gostei de banana, (...) Então banana meu pai trazia, ele e meu irmão mais velho, trazia as bananas pra mim, então meu pai ele foi bom (...) ela [segunda mãe] sempre gostou daquele doce de amendoim (...) Não é o pé de moleque, é uma paçoquinha molhada. Que chama gibi. E meu pai saía, se ele saísse 10 vezes, 10 vezes ele trazia esse gibi para ela.
Por outro lado, Sônia também via nele uma figura rígida, muito mais duro com ela do que com seus irmãos, que lhe impunha impedimentos e proibições por ser mulher; que a castigava fisicamente até os 17 anos; que não dividia o trabalho doméstico com sua companheira:
Minha mãe ela sempre foi, sempre aquela dona de casa mesmo. De a casa estar sempre muito limpa, tal e meu pai você vê que ele compra as coisas, entendeu? Então é aquele cara que é o provedor, né (...) Mas com a minha mãe eu não lembro dele assim arrumar casa, não. [grifos meus]
[Eu apanhava dele até os 17 anos] por ser mulher... e atrevida, né? Porque eu não chorava. Então para ele era uma afronta (...) dentro de mim eu falava, assim, eu pensava “eu tô apanhando, mas eu fiz porque eu quis”, então, por exemplo, se eu saísse e ele falasse você tem de estar aqui tal hora, às vezes eu olhava no relógio e passava, eu falava gente, eu vou apanhar mesmo então eu vou chegar mais tarde. Então eu levava isso na... não sei se era numa brincadeira, mas numa forma de eu fazer aquilo que eu queria. E não era nada demais, era estar na rua com os amigos, com as amigas (...) na velhice ele melhorou.
Mesmo sofrendo violência física, Sônia buscava formas individuais de resistir e tentar manter espaços de autonomia e liberdade. Naquele momento de sua vida, os aspectos de rigidez do pai, associados à sua posição de agente da dominação masculina no interior da família, não tinham muita interpretação política ou elaboração psicológica. Eram naturalizados ou passavam relativamente desapercebidos. Anos mais tarde, descobriria com espanto que o pai também agrediu fisicamente sua mãe. Durante a adolescência, Sônia ainda vivia em condição de muita pobreza. Com sua segunda mãe, seu pai teve mais três filhos. Na casa, os pais ocupavam o único quarto e ela, junto com os cinco irmãos, dormia na cozinha. Aos 15 anos, Sônia começou a trabalhar em uma limpadora de vidros com seu pai. Depois de algum tempo, trabalhou em uma construtora, de onde foi despedida após 35 anos de dedicação. Aos 26 anos, iniciou a faculdade de Jornalismo. Trabalhava durante o dia e frequentava o curso noturno. Nesse momento, conquistou mais autonomia e respeito do pai.
Entrei na faculdade já tava velhinha, tinha uns 26 anos, então eu acho que na cabeça dele, ele falou “bom, agora ela tá na faculdade”. Eu chegava em casa às 2 da manhã, no Morumbi pra Cidade Ademar, então ele ia me esperar no ponto, mas eu já tava namorando também, já tinha uns anos e quando o namorado não ia, ele ia, então eu chegava tarde dormia, falava pai, não me espera porque eu vou pra casa, a gente vai pra outro lugar, ele, filha tudo bem. Então ele com o tempo ele foi [melhorando].
Podemos perceber, até esse momento da trajetória da depoente, as relações de dominação e exploração de gênero e classe de maneira muito acentuada. A despeito delas, contudo, Sônia age, ultrapassa limites impostos, se fortalece em seus vínculos afetivos, conquista espaços. As relações raciais, até este momento, não ganham destaque. Parecem veladas ou encobertas. Neusa Santos Souza (1983) dizia que a descoberta de ser negra excede a constatação do óbvio. E lembrava ainda que aquilo que nomeamos como “óbvio” é “aquela categoria que só aparece enquanto tal, depois do trabalho de se descortinar muitos véus” (Souza, 1983, p. 17).
3.2 - A vida familiar e amorosa: laços, lutos e solidão de uma mulher negra
A vida da depoente é marcada por muitos lutos: Se no início da infância Sônia perde a primeira mãe, no começo da vida adulta ela perde o irmão caçula. Ele morre aos 22 anos em um acidente de carro. Quando Sônia tinha 35 anos, perdeu também seu irmão mais velho por leptospirose. Aos 42 anos, a depoente passa pela morte do pai, em decorrência de diabetes. Seis meses depois, sua mãe, irmão, cunhada e sobrinhos perdem a vida em um acidente de carro.
Minha mãe, meu irmão e minha cunhada morreram na hora, meu irmão ainda demorou 45 minutos, porque tava no atestado de óbito. Mas o Jonas e a Cinthia foram pro hospital. E a Cinthia ela chegou, pra você ver, a Cinthia era uma menina, mas assim, ela pegou o telefone na casa do, lá de Brasília de Minas [cidade na divisa entre MG e BA] (...) Chegou andando, e ela, tanto que o pessoal soube do acidente antes que a gente, porque ela deu o número do telefone, olha só, uma criança, ela tinha 10 anos. Uma criança que não se liga nisso, esse negócio de telefone. Só que logo que ela deu, ela sentou e começou a passar mal, só que lá no hospital não tinha UTI pra criança, aí ela ficou em uma UTI de adulto (...) colocaram um termômetro na cabeça dela e quando eu conversei com a enfermeira, a enfermeira falou assim, olha nós vamos esperar mais 72 horas, o cérebro dela tá inchando, tem de desinchar. Só que assim, né, Mari. A gente não tinha condições de estar lá (...) o Jonas tava entubado dentro de uma UTI, tinha 5 anos, uma criança desse tamanho em uma UTI de adulta, nesse estado. E eu tava, assim, o marido da minha irmã foi lá em casa e quando você recebe uma notícia dessas, você parece que tá sonhando né? Porque ele falou pra mim, olha só, falei nossa... muito de manhã, eu falei nossa, o que aconteceu? O Beto bateu o carro... eu falei, nossa, mas como é que eles tão... “ele faleceu”... falei, o que? O Beto, onde é que ele tá? “Sônia, o Beto faleceu...” eu falei, gente, cadê minha mãe? Como que ela tá? “Faleceu também”. E ali eu já recebi a notícia, já percebi que tinha de fazer, que era eu quem tinha de cuidar. Eu tava pra ir trabalhar, aí liguei onde trabalhava expliquei aí falei, gente, eu preciso de 3000 reais. Meu cunhado já veio com tudo... sei que era 3 horas da tarde, 4 horas, chegaram [os corpos]. Mas eu não vi, não tive coragem.
[as duas crianças] ficaram ainda no hospital. Tavam vivas... Eu não tive coragem de ver. Eu só sei que os três caixões tiveram que colocar no cemitério, que era muita gente (...) eu achei que ia morrer ali também. E aí foi, isso foi na segunda, quando foi na quarta-feira a Cinthia faleceu (...) esse tio foi, até pra ficar com o Jonas, o Jonas tava vivo, aí foi lá, aí veio a Cinthia. (...) quando foi na sexta-feira ligam do hospital que o Jonas tinha falecido (...) foi muito triste porque nós passamos uma semana. E eu fiquei, assim. E o meu filho foi pra casa dos irmãos, do pai. E eu fiquei dois meses sem ir na minha casa.
Sônia se emocionou e falou sobre este como o momento mais difícil de sua vida. Ela relatou o peso redobrado da necessidade de cuidar dos assuntos burocráticos relativos aos velórios e enterros e de precisar continuar cuidando, cotidianamente, do filho ainda criança sob sua responsabilidade. A depoente falou dos impactos psicológicos do luto, que afetaram diretamente sua maternidade, vendo-se mais impaciente na relação com o filho. Às mulheres são historicamente destinadas ao lugar social de cuidado dos outros, em especial nas relações familiares (Molinier, 2006). Para as mulheres negras e pobres, a sobrecarga de trabalho emocional de cuidado são, ainda, consideravelmente intensificadas. Na época Sônia já estava separada do pai de seu filho e o filho morava com ela. Apenas quando o excompanheiro passou a dividir mais ativamente o cuidado com a criança e quando ela própria encontrou um lugar de acolhimento e cuidado para si, foi conseguindo se recuperar. Recuperando-se, pôde também voltar a exercer os cuidados da maternidade de maneira mais intensificada. Sônia relata, contudo, que a “recuperação total” desses lutos nunca aconteceu. Até hoje lida com momentos de maior dor e vazio. A depoente conta, no entanto, que as suas relações de amizade e afeto, em especial com companheiras de militância, são o que mais ajuda a seguir em frente: desde o acolhimento na casa de uma delas logo após o acontecimento, até as relações afetivas de hoje, e os convites para passar datas festivas na companhia das amigas e companheiras. Embora a história de Sônia - suas alegrias, dores e lutos - seja muito singular, podemos pensar em dimensões sociais que as ligam às histórias, lutos e dores de muitas outras mulheres da classe trabalhadora de modo geral, e de mulheres negras e pobres em particular. Ainda que não seja possível afirmar ao certo o que teria acontecido com seus familiares, caso tivessem condições financeiras privilegiadas, é inegável o recorte de classe quando pensamos na morte por doenças como leptospirose e diabetes - como nos casos do irmão e do pai de Sônia. As condições insuficientes da saúde pública podem também ter interferido no quadro dos sobrinhos da depoente, atendidos em hospital que não contava com UTI infantil. Estudos na área da saúde demonstram ainda a presença do racismo institucional nas instituições e profissionais de saúde, assim como o viés racial implícito nos serviços prestados que - de maneiras às vezes mais, às vezes menos conscientes ou veladas -, determinam atendimento de menor qualidade à população preta e perda (Assis, 2018). Embora os familiares de Sônia não tenham sido assassinados, ressalta-se também que o genocídio negro nas periferias brasileiras, assim como a dimensão marcadamente racial na necropolítica (Mbembe, 2018; Afonso; Seabra, 2021), coloca enormes contingentes de mulheres negras no Brasil em situação de luto por seus filhos, sobrinhos, pais, irmãos e companheiros. Pode-se imaginar, assim, uma dimensão coletivamente compartilhada do sentimento de luto, marcada pelo recorte das relações raciais.
Sônia fala sobre três principais relações amorosas em sua vida: um primeiro namorado com quem ficou por 12 anos, o pai de seu filho e outro namorado. No último relacionamento, ela sentiu maior presença de controle e ameaça de violência. Preocupada consigo mesma e, principalmente, com o filho ainda criança, terminou o namoro e não se envolveu em outras relações amorosas.
Já tô velha, precisar de uma pessoa, não sei, hoje não, um homem na minha vida? Não faz falta, você entendeu? E até porque às vezes as pessoas falam, ah é porque você viveu muitas violências domésticas, falei pode ser, pode ser, mas assim, é, você vê hoje eu tô aqui, tô sossegada... eu se quiser ir pra casa vou, se quiser não vou. Se você pegar alguém tem que dar alguma satisfação...
Pode-se interpretar que as referências negativas de relacionamentos amorosos deixaram marcas no sentido de a resistência travada por ela, ser a de não planejar se relacionar mais desta forma. Ter um companheiro aparece, nos casos mais graves, como sinônimo de enganação, humilhação e ameaça de violência. No caso mais ameno, em tentativas sutis de mudar seu comportamento, de mudar quem ela é. Em contraposição, não estar em uma relação aparece associada a uma sensação de liberdade. Por um lado, vemos que Sônia trava resistências, enfrenta bravamente situações de opressão, prioriza sua liberdade e constrói relações de afeto e acolhimento com amigas e companheiras, que rompem com a solidão. Por outro lado, não podemos deixar de relacionar os sofrimentos na esfera amorosa com uma questão que não é apenas individual, mas também uma dimensão do racismo (Kilomba, 2019) que têm sido nomeada por feministas negras como a solidão da mulher negra (Pacheco, 2008).
3.3 - As primeiras formas de participação política: ações voluntárias e a entrada no PT
Sônia conta que foi no período do término da faculdade que desenvolveu suas primeiras ações com algum grau de participação política. Tratavam-se de ações de solidariedade, de caráter mais voluntário:
Terminei a faculdade em 1986, quando foi 1991 eu mudei pra Mooca, mas eu não tinha trabalho social, nada e lá eu conheci um pessoal que fazia sopa e dava na madrugada e aí eu falei, quer saber de uma coisa? Acho que eu vou entrar nessa daí, né. Então aí ajudava tal.
A depoente conta que, pouco tempo depois, principalmente por influência de seu noivo na época, começou a participar de atividades do Partido dos Trabalhadores (PT):
Eu frequentei o partido quando eu era noiva, na realidade eu entrei no partido por causa do noivo, né? Mas eu não tinha uma relação, assim, de... o que eu gostava dentro do partido é porque a gente, a gente fazia muita festinha né? Para fazer arrecadação, fazia a campanha...
Conforme ela narra, neste primeiro momento, o que mais lhe atraía eram os ambientes de socialização, junto ao cultivo do sentimento de solidariedade. Com o passar dos anos (e, especialmente, a inserção em espaços de luta feminista), a perspectiva de educação política e ação política consciente, organizada, foram se fortalecendo. Quando Sônia e o noivo terminaram o relacionamento, sobraram as relações de afeto e amizades em comum do PT, entre elas, Ana - uma amiga muito próxima conquistada ali e que seguiria acompanhando Sônia ao longo da vida e na inserção em movimentos sociais feministas.
3.4 - As relações de trabalho
Entre a adolescência e o início da idade adulta, Sônia trabalhou como secretária na limpadora em que seu pai e seus irmãos trabalhavam. A depoente fez faculdade de jornalismo. Durante e depois da faculdade, continuou trabalhando como secretária e auxiliar financeira. Atuou como jornalista principalmente aos finais de semana e logo se frustrou com a profissão: “não era aquilo que eu esperava, porque eu sempre ia ter um patrão ou uma patroa que ia falar o que era para mim escrever, e antes eu achava que jornalista ia escrever o que você mesma achava de determinada coisa”. Ela relata conflitos do jornal com a prefeitura da cidade e a posição desconfortável que os jornalistas, enquanto trabalhadores, eram colocados naquele contexto. Sônia tentou contornar a falta de autonomia na redação de textos trabalhando como fotógrafa no jornal. Mas compartilha a lembrança de que, mesmo como fotógrafa, não tinha autonomia. A depoente relata que se sentiu humilhada e traindo a si própria:
O diretor falou “vai lá, faz a foto, não sei que lá” e eu pensando, “nossa, o que será que vão escrever?” Porque a gente não opinava, entendeu? (...) aí veio o plano cruzado? Um plano aí. Aí nesse dia, as coisas estavam muito caras, acho que plano Bresser, alguma coisa assim, aí o pessoal ligou na redação e falou para as meninas irem lá pra praça que jogaram um monte, no lixão que, jogaram um monte de frangos fora... Nossa, a gente entrou dentro de um lixão... As moscas varejeiras, sabe? Nos frangos. Aí na hora que ela levantou assim, o patrocínio, era um dos caras que patrocinava o jornal, aí eu olhei para ela, ela falou “Você não vai fotografar, né Sônia?!”. E falei, “não posso fotografar para ficar comigo?” Ela falou “não”. Aí eu saí do jornal. Aí não tinha como.
Eu me senti, assim, humilhada. Me senti, assim, sabe, traindo a profissional que eu era. Aí que eu percebi que a minha foto - porque também eu falava “eu só vou fotografar mesmo, a foto não vai prejudicar o que eu penso” - só que aí eu fui entendendo que através da minha foto era o texto [também era comandada pelo patrão].
Ainda em relação a este trabalho, Sônia compartilha um acontecimento que ficou marcado por uma situação de impedimento social ligado ao racismo, à sua condição de pobreza e pelo sentimento de humilhação que a acompanhou:
Coisa de 30 anos atrás, tinha um tal do baile branco, e o baile branco é as meninas que fazem 15 anos para serem apresentadas para a sociedade. E eu sempre andei de sapato de pano. Eu, na realidade, na minha adolescência, não tinha sapato... Até porque eu tinha uma amiga que fazia sapato de crochê, de barbante. E nesse dia não me deixaram entrar porque eu tava com o sapato de barbante. E aí deu um barracão. Aí o cara falou pra eu não entrar... eu falei “mas eu vou fotografar...” Aí chegou a minha amiga, que era a jornalista social, eu olhei para ela, “viu você é jornalista ou você é convidada?” Que ela tava, assim, ela tava de longo. Ela estava, assim, linda. Mas, assim, parecia mais uma convidada que uma jornalista. Não sei se hoje não é mais assim, sei lá. É... e aí ligaram pro cara do jornal [meu chefe], ligaram e aí queriam me comprar um sapato. É muito humilhante, entendeu? Aí o cara falou pra mim “então você não vai entrar por aqui, você vai entrar pela porta dos fundos”. Era um negócio que parecia, assim, de você ser usada...
A impossibilidade de entrar, ou a passagem sendo viabilizada apenas pelas “portas dos fundos” e “elevadores de serviço” simbolizam experiências com o trabalho e com a cidade frequentemente vivenciadas pelas pessoas negras e pobres no Brasil. Trata-se de um sintoma social de uma relação histórica mal resolvida com nosso passado escravista (Almeida, 2018). Temos no relato de Sônia mais uma situação de humilhação social e dos ambientes sendo vividos como expulsivos (Gonçalves Filho, 1998). Pela somatória de situações como essa, a depoente conta, então, que decidiu sair e parar de trabalhar como jornalista. Em uma construtora, Sônia trabalhou por 35 anos. Ali seu cargo era de auxiliar financeira. Ela relata que o advento da internet e dos avanços tecnológicos fizeram com que, progressivamente, sua equipe de trabalho fosse diminuindo, até ela própria ser demitida. Este foi um momento de profunda tristeza. Mas dois anos depois, conta que com o apoio e orientação de amigas companheiras de militância, conseguiu se aposentar.
3.5 - Feminismo, laços, comunidade e enfrentamentos: a raça descoberta
Curso das Promotoras Legais Populares (PLPs)7
No mesmo ano em que Sônia perdeu o emprego, Ana a convidou para fazer com ela, o curso das PLPs. Sônia relata que “aí que tudo começou”. A depoente indica grande importância do curso em sua vida, no sentido de abrir “um novo capítulo”, uma nova perspectiva, novas descobertas do mundo, de suas próprias relações pessoais e familiares, e de si mesma. Ela conta que ali conheceu outras mulheres que também eram filiadas ao PT: “quando eu entrei pra fazer o curso de PLP`s eu me deparei com duas coisas, né? Um partido e a violência contra as mulheres”. A partir do contato com elas, iniciou uma participação mais orgânica no partido em seu bairro. As relações estabelecidas no curso possibilitaram que ela e Ana qualificassem sua participação no PT, atuando de maneira mais ativa e constante. Sônia também relata que no curso pôde conhecer aspectos gerais da história política do Brasil e da história das mulheres. As aprendizagens adquiridas ajudaram a lidar com suas próprias dores pessoais:
Conheci a história da Amelinha [Teles], conheci a história da ditadura... a gente não tinha dimensão de nada que tava acontecendo (...) Quando as meninas falam que elas participaram da constituinte de 88, eu falo, gente, eu nem sabia o que era isso, você entendeu? E fiz faculdade (...) a gente não tinha dimensão de nada que tava acontecendo, então quando eu conheci a Amelinha, conheci... a história do país, e todas as suas deficiências. Aí os seus traumas, tudo, a sua bagagem, ela se torna leve quando você descobre que seu país passou por um banho de sangue. [grifos meus]
Nesse ínterim, Sônia conta que foi se conhecendo melhor e se descobrindo como feminista:
Aí, vendo a realidade das mulheres... E vendo que a gente estudava sobre a violência contra as mulheres, e os direitos das mulheres e a gente foi sabendo, foi aprendendo sobre o voto da mulher, que foi, que tinha pouco tempo quando a gente tava fazendo, porque nós fizemos o curso em 2001, né? Então, assim, nossa... aí eu fui me descobrindo, né? Fui me descobrindo feminista, vamos dizer assim. E era engraçado que questão de gênero no começo eu não entendia direito, porque assim, questão de gênero, o que é questão de gênero? Porque você aprende feminino e masculino, né... aí você vai entendendo... as mulheres, como elas são criadas... Mas aí você vai se descobrindo, você enquanto mulher, né? E você se descobre, você descobre seus direitos pra você poder ajudar outras mulheres (...) Então é... aí você vai descobrindo o silêncio da violência, aí você vai vendo as mulheres que sofrem violências e antes você falava, “nossa, por que não separa do cara?” Aí você descobre que tem um ciclo da violência, né... Aí você descobre que em outros países as mulheres, culturalmente, elas têm um outro tipo de violência... [grifos meus]
É interessante que Sônia não avalia que o curso “fez dela feminista”, ou “transformou-a” em uma outra pessoa, agora feminista. Não é como se operasse ali uma “tomada de consciência” brusca que acontece magicamente com uma mulher antes simplesmente “alienada”. O depoimento de Sônia traz a perspectiva da consciência de gênero como um movimento, um processo. Sua narrativa dá a ideia de um processo de aprendizagem sobre o mundo e sobre si mesma. Nesse processo, algumas lembranças pessoais vêm à tona e ganham interpretação histórica e social. Sônia compartilha uma lembrança que teve sobre sua família no curso:
[Lembrei que] uma vez a minha mãe, minha segunda mãe, ela entrou na farmácia e o cara falou “que remédio a senhora quer?” [eu falei] “ih, qualquer um, né?!”, brincando com ela. Porque ela tem tudo quanto é dor. E ela falava, “tenho mesmo, porque seu pai me bate”. E... mas na hora, sabe assim? Porque às vezes a violência está dentro da sua casa, você não enxerga. Porque hoje, hoje eu digo era muito silenciosa, sabe? [grifos meus]
A depoente conta que durante quase todo o período em que morou com os pais, até o início de sua vida adulta, a violência praticada por seu pai contra sua mãe era silenciosa. Para ela, invisível: “Então, assim, eu nunca vi nada, ouvi nada, não me lembro. Você entendeu? Do meu pai estar batendo nela”. Sua mãe lhe faz essa revelação quando Sônia tinha cerca de 20 anos. Ela ficou surpresa e sem reação: “na hora... só falei assim: ‘como mãe?!’ [minha mãe respondeu] ‘No silêncio da noite’. E nunca mais a gente tocou no assunto”. Podemos perceber que, depois de revelada, a violência volta então para a esfera do silêncio8. Parece operar um processo psicológico onde, por não ter ferramentas suficientes para lidar com a informação, a resposta da depoente fosse uma estratégia defensiva de negação. Apenas anos mais tarde, no âmbito da participação no movimento feminista, é que Sônia parece conseguir acesso a outros instrumentos para lidar com essa revelação traumática. Naquele contexto ela sai da aparente esfera da negação. Consegue pela primeira vez falar sobre o assunto: “A primeira vez que falei sobre o meu pai eu fiquei mal, porque ele já morreu, né (...) mas depois eu pensei: isso é uma forma de você se libertar das suas... das náuseas que você tem.” Assim, ela parece ter dado início a um processo de interpretação e elaboração. Sônia compreende a situação pessoalmente sofrida como parte de um fenômeno histórico e coletivo. Acredito que só foi possível falar sobre o assunto por duas razões. Estas razões parecem subjetivamente muito importantes ao se pensar o papel dos movimentos sociais feministas para as mulheres que deles participam e sua função nos enfrentamentos a sofrimentos ligados a dominação-exploração da mulher. São elas: 1- O papel pedagógico dos movimentos. Materializado no acesso aos estudos e descobertas de novas informações e conceitos, processo que permite dar nome - tanto aos processos de opressão mais amplos, estruturais e objetivos, como também a sua reprodução ou manifestação nas esferas individuais da vida privada de cada uma; 2- a sensação de tratarse de um espaço seguro para falar sem julgamentos, onde há afetividade e acolhimento; onde há acesso à palavra e uma participação relativamente igualitária de cada uma; onde há relações de cuidado e solidariedade entre as mulheres (Afonso, 2019).
Sônia conta, ainda, que seus aprendizados sobre a violência contra a mulher permitiram não só que ela desenvolvesse novas estratégias para lidar com a opressão sofrida por ela própria, como possibilitou também que pudesse apoiar outras mulheres:
Eu tenho uma amiga, mas ela sofreu pra caramba. Ela, assim, ela apanhava, ela me ligava e um dia eu falei pra ela, “ó, eu vou no seu enterro” (...) a Letícia [professora do curso] uma vez numa aula ela falou, gente, vocês que são casadas, que vão casar, lembra de uma coisa, comprou uma blusa, tinha uma notinha fiscal, tira xerox da notinha fiscal, o amor é maravilhoso, mas coisas acontecem. E aí eu conversando com essa minha amiga, aí eu peguei e falei pra ela... Eu falei “minha professora falou, a gente conversou, se comprava junto uma agulha tira xerox da nota fiscal”, conversando com ela assim. Quando ela pediu a separação ela tinha tirado tudo, xerox de tudo. (...) e eu achei bacana que ela usou, olha só, eu falei pra ela e ela no entendimento dela, ela fez isso.
Percebemos, assim, que as novas estratégias de enfrentamento que se desenvolvem no âmbito da participação política em movimentos sociais feministas para além de terem um aspecto transformador nas mulheres que deles participam pessoalmente, pode criar também redes de proteção que se expandem. As estratégias aprendidas são ensinadas e multiplicadas. A criação de redes de cuidado entre as mulheres extrapola o espaço do próprio movimento social.
A participação na Marcha Mundial das Mulheres
Logo no início de minha primeira entrevista com a depoente, ao solicitar sua auto identificação étnico-racial, ela logo a atribuiu à sua participação na Marcha:
Olha, hoje, depois que eu entrei no movimento, no movimento social, principalmente no movimento de mulher, na Marcha Mundial de Mulheres, eu me identifico como... Eu sou parda, eu vim de uma raça negra, então eu me identifico como, como negra né. Eu me identifico como negra!
Sônia é uma mulher negra de pele clara, a depender de “classificações externas”, talvez alguns não a reconhecessem como negra. Ela mesma demorou muitos anos para se perceber assim:
Antes eu não me identificava porque, o movimento negro... O movimento nunca teve dentro da minha vida, assim, vamos dizer assim, até os 40 anos. Nem quando eu entrei na faculdade, né? Eu não via as pessoas como brancas, negras, né? Eu não me identificava, assim, eu sabia que tinha uma outra cor que era amarela, a gente sempre brincava né? Amarelo são os japoneses, né? Eu não tinha essa divisão de se eu era negra, se eu era branca.
Como exemplificado neste trecho da entrevista, o depoimento de Sônia traz a sensação de ter vivido 40 anos em um “não-lugar” de sua condição racial. Ela nos revela que sabia que não era japonesa/amarela. No máximo definia-se pela negação ou não identificação de uma condição específica e fenotipicamente muito diferente dela. No entanto, não se sentia pertencente a um lugar de identidade racial. Não se via como negra, tampouco reconhecia-se como branca. Seu depoimento faz lembrar narrativas como as de Bianca Santana (2015). A autora conta de experiências semelhantes vividas por ela e outras pessoas negras de pele clara.
Tenho 30 anos, mas sou negra há apenas dez. Antes, era morena. Minha cor era praticamente travessura do sol. Era morena para as professoras do colégio católico, para os coleguinhas - que talvez não tomassem tanto sol - e para toda a família que nunca gostou do assunto (...) Pensei muito e por muito tempo. Não identifiquei nada de africano nos costumes da minha família. Concluí que a ascensão social tinha clareado nossa identidade. Óbvio que somos negros. Se nossa pele não é tão escura, nossos traços e cabelos revelam nossa etnia (...) Eu fui branqueada em casa, na escola, no cursinho e na universidade. É como disse Francisco Weffort: o branqueamento apaga as glórias dos negros, a memória dos líderes que poderiam sugerir caminhos diferentes daquele da humilhação cotidiana, especialmente para os pobres (Santana, 2015, p. 15)
No decorrer dos dias de entrevista, Sônia disserta mais sobre a descoberta da raça, que veio acompanhada de uma descoberta de si. A depoente fala sobre um sentimento de orgulho de se saber negra:
Uma coisa assim que eu tenho orgulho de eu me considerar negra. Sabe assim? Falar assim: poxa vida eu sou uma mulher negra, apesar que as vezes as pessoas falam: “ah, mas você não é negra”. Mas eu sou Afro, eu sou descendente. E isso é muito importante. [grifos meus]
Sobre o momento exato de se descobrir negra, Sônia relata que foi um processo relativamente gradativo no interior do movimento feminista:
E depois assim vendo nas reuniões eu comecei a ler, então comecei a prestar atenção, aí o cabelo (...) eu fiquei pensando assim: - Nossa, eu vou no salão fico uma hora para fazer uma escova se eu saio na garoa o cabelo volta. Tinha dia que eu saía do cabeleireiro com um saco plástico na cabeça. (...) Então, aí eu falei “não, eu tenho que assumir o meu cabelo”. E aí foi quando eu comecei, já não fazia mais escova. Você entendeu? Ele está preso hoje porque eu estava com muito calor, mas vivo com ele solto (...) isso tudo, você vai aprendendo e aí eu fui me descobrindo (...) quando me descobri negra, me descobri assim, dentro da militância, fazendo texto, lendo, indo nas palestras de negras... você vai se conhecendo e se definindo o que você é.
Hoje, Sônia avalia que a descoberta racial não foi possível no interior de sua família por tratar-se de uma família composta por muita miscigenação - que não possuía uma identidade racial definida e compartilhada. E nem dentro do ambiente da escola, porque esse espaço não informava devidamente sobre a realidade social brasileira. O movimento social feminista - comprometido com a luta antirracista - parece ter se configurado, portanto, como um espaço de romper com os padrões dentro dos quais a depoente relata que cresceu. E de aprender aquilo que a escola não ensinou. Trata-se de um espaço de rupturas e aprendizagens. Que parecem levar a um senso pessoal de fortalecimento e libertação.
Sônia relata que esse processo de aprendizagem - sobre o mundo, as mulheres e ela própria - se iniciou no espaço das PLPs e teve não só continuidade, como também ganhos significativos na Marcha. A depoente conta que conheceu a Marcha através das PLPs. Começou a participar da primeira como representante da segunda. No entanto, depois de participar do encontro nacional da Marcha, em 2006, Sônia relata que: “eu não saí mais da Marcha depois desse dia, porque foi assim, cinco dias maravilhosos, sabe? Cinco dias de conversa, de sarau, de companheirismo”.
Sobre a ocasião deste encontro, Sônia relembra:
Nossa, eu me senti assim uma menina, uma descoberta, com outras mulheres, coisas assim que eu não tinha vivido... são mulheres que a gente pode contar com elas (...) Nesse lugar os chalés são por, é... o nome de árvore. Tudo por nome de árvore, Jacarandá, e tem os, aí como é que chama? Eucalipto, então tinha as coisas de Eucalipto, né? Aí eu lembro que as meninas falavam, “Eucalipto não quero”, mas eu não entendia, aí eu falei assim, gente, por que? Por que tem muito eucalipto? Aí não sei quem sentou perto de mim e explicou né, que os eucaliptos sugam toda a água da terra, tal tal tal (...) A gente conversava, confraternizava, eu me sentia, assim, que eu tava em outro mundo, entendeu? Que os meus problemas acabaram ali... [grifos meus]
Ao longo do depoimento, Sônia vai citando diversas ações de âmbito nacional da Marcha e as sensações e reflexões que as acompanharam. Fala da importância da pluralidade entre as mulheres e até mesmo dos conflitos como fatores de aprendizagem. Enfatiza, especialmente, as relações de afeto e de cuidado entre as mulheres. Relata que elas acompanham uma sensação de “não estar sozinha no mundo” (Afonso, 2019; 2021). Essas relações de afeto e acolhimento ajudaram-na a lidar com suas próprias angústias e dores.
Agora, dentro da militância eu acho que a militância me ajudou muito, muito, muito, a me descobrir como mulher, como uma militante, como negra e dentro dessa dor que é uma dor que eu vou levar [meus lutos]. Que foi uma dor muito forte. Um tsunami na minha vida (...) Mas dentro de tudo isso a militância me fez de mim, não sei se uma pessoa melhor ou pior, mas me ajuda a entender as pessoas e tentar ajudar as pessoas. O que a gente quer, uma sociedade sem machismo, para que as pessoas todas sejam iguais. Porque viver feliz para sempre, nem nos contos infantis, mas a gente [quer] ter uma vida que seja digna para todas e para todos.
Ainda sobre o fortalecimento, Sônia associa ao feminismo a ‘descoberta’ de que as mulheres podem, em especial as mulheres negras. Descoberta que não veio pela educação formal, por exemplo.
Eu não conhecia a história das mulheres antes de entrar no movimento, porque eu estudei, na faculdade que eu fiz, ninguém falou que a mulher podia. Você vê que hoje as mulheres tão aí, tão estudando, tão correndo atrás, e estão fazendo a história das mulheres... As nossas histórias, as histórias das escravas. Então eu acho, assim, quando a gente se for desse mundo o que nós vamos deixar acho que vai ajudar outras mulheres.
Na pesquisa de campo pude perceber relações de muita reciprocidade. Assim como Sônia conta da importância do que aprendeu nesses espaços de movimento social, outras mulheres relatam ter aprendido muito com Sônia. Como mulher, psicóloga e pesquisadora branca, eu também devo a ela importantes aprendizados sobre as relações raciais, o feminismo, e a própria psicologia. Sônia destaca ainda as relações de afeto, cuidado e companheirismo no movimento social. Todas as mulheres com quem convivi ao longo e depois da pesquisa, que conhecem Sônia, valorizam sua postura solidária e afetiva, nutrem por ela grande carinho e admiração.
4 - Conclusões
Gonzaga (2022) aponta para a dimensão de uma psicologia antirracista como sendo aquela que concebe a complexidade dos sujeitos a partir dos atravessamentos das relações de opressão que estruturam a sociedade. Buscamos evidenciar esses atravessamentos a partir da história de vida de Sônia. Pode-se perceber que as relações raciais, o racismo estrutural - assim como as relações sociais de gênero e de classe - acompanham Sônia ao longo de toda a sua trajetória biográfica. Relacionam-se com sofrimentos psicológicos, humilhação social, sentimentos de rebaixamento, solidão, impedimento. No entanto, as aprendizagens, a compreensão sobre as relações raciais, de gênero e classe, e os vínculos afetivos e de cuidado que ela forma no movimento social, junto à descoberta de si mesma como mulher negra - e à descoberta da força de enfrentamento das mulheres - possibilitam ganhos subjetivos muito significativos: ajudam na elaboração de lutos profundos; no enfrentamento da solidão; a ser apoio para mulheres que vivenciam situações graves de violência; fortalece sentimentos de pertencimento, de lugar no mundo e propósitos na vida. Trazem mais recursos para o enfrentamento do racismo, do machismo, da desigualdade de classes. No que tange aos movimentos sociais feministas, e sobre a situação social das mulheres negras na América Latina, Lélia Gonzalez (2020) destacava que, mesmo dentro dos movimentos de mulheres, as negras e as indígenas vivenciam relações de desigualdade e exclusão. A autora aponta ainda para a possibilidade de aproximação, solidariedade e respeito à diferença por parte de algumas mulheres brancas, com quem seria possível construir relações de afeto e lutas compartilhadas.
Destacando a ênfase colocada na dimensão racial (quando se trata da percepção e compreensão da situação das mulheres no continente), tentarei mostrar que, dentro do movimento de mulheres, as negras e indígenas são o testemunho vivo dessa exclusão. Por outro lado, com base em minhas experiências como mulher negra, tentarei destacar as iniciativas de aproximação, solidariedade e respeito à diferença por camaradas brancas efetivamente comprometidas com a causa feminista. A essas mulheresexceções eu chamo de irmãs. (Gonzalez, 2020, p. 126).
Parece ser isto que Sônia vive nas experiências relatadas com mulheres brancas de movimentos sociais feministas como as PLPs e a Marcha. Para seu fortalecimento e a descoberta de si mesma como mulher negra, faz-se também especialmente importante nesses espaços, o contato e as relações estabelecidas com outras mulheres negras. Que as brancas exerçam a escuta, e não invadam ou deslegitimem o protagonismo das mulheres negras. Sobre as articulações entre o feminismo e a luta antirracista, Sueli Carneiro (2011) afirma:
Em geral, a unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo. O racismo estabelece a inferioridade social dos segmentos negros da população em geral e das mulheres negras em particular, operando ademais como fator de divisão na luta das mulheres pelos privilégios que se instituem para as mulheres brancas. Nessa perspectiva, a luta das mulheres negras contra a opressão de gênero e de raça vem desenhando novos contornos para a ação política feminista e antirracista, enriquecendo tanto a discussão da questão racial, como a questão de gênero na sociedade brasileira.
Ressalta-se assim a importância do protagonismo das mulheres negras nas lutas contra o racismo, bem como da articulação entre luta feminista e luta antirracista. Nos movimentos feministas compostos por mulheres de diferentes etnias, é fundamental escutar as experiências e pontos de vista de mulheres negras (Hooks, 2015). No que tange a construção e fortalecimento de uma psicologia antirracista, acredito que este também seja um ponto primordial. Destacamos ainda a importância da articulação entre pesquisa e prática, e da proximidade e articulação entre psicologia e movimentos sociais. Há uma dimensão de fortalecimento psicológico, afirmação identitária, consolidação de vínculos afetivos, senso comunitário e sentido de propósitos na vida que envolvem a participação de sujeitos em movimentos sociais (Afonso, 2019). Acredito que essas dimensões estejam fortemente relacionadas à promoção de saúde mental, embora nem sempre sejam tratadas nesses termos. Por fim, Sônia mostra que, dentre todos os processos que podem acompanhar a dimensão subjetiva da participação política, a descoberta de si mesma como mulher negra foi especialmente significativa e transformadora em sua vida. Nela, parece se realizar a possibilidade apontada por Neusa Santos Souza (1983) de, a partir de sua própria voz, das vozes de negros/as, construir uma identidade “que lhe dê feições próprias, fundada, portanto, em seus interesses, transformadora da História - individual e coletiva, social e psicológica” (Souza, 1983, p. 78).